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DCF III-1, Doc. 109

17 out. 1917Lisboanotícia de imprensaDomingos Pinto Coelho (pseud. A. de F.)

O jornal “A Ordem” justifica, perante a opinião pública, o seu artigo publicado no dia anterior, sobre os acontecimentos ocorridos na Cova da Iria.

Publ.: “A Ordem”, Lisboa, 2 (508), 17 Out. 1917, p. 1, col. 1

AINDA O CASO DE FÁTIMA

Varias pessoas teem tirado do que hontem escrevemos a impressão de que negamos haja milagre em Fátima.

Nada mais inexacto.

Não affirmámos, mas tambem não negámos e até nos declarámos em espectativa benevola.

E já agora seja-nos licito accrescentar o seguinte com o fim de precisar ideias.

Dissemos já como para a Egreja catholica é, de admittir a possibilidade do milagre sendo até insufficiente dizer “possibilidade”, pois realmente se trata de necessidade. A doutrina da Egreja suppõe como necessario, e até como dogmatico, o milagre.

Milagre é a Immaculada Conceição da Virgem Santissima. Milagre a Incarnação de Nosso Senhor Jesus Christo; milagre a Virgindade de Sua Mãe; está a vida de Jesus tecida de milagres; milagre foi a sua Ressurreição e dos processos de beatificação e canonisação de cada Santo faz parte essencial a verificação prévia de milagres operados por sua intervenção.

Se os milagres foram mais frequentes no berço do Christianismo, d’isso nos dá S. Gregorio Magno a explicação na seguinte formosa metaphora! “Deus procedeu como um jardineiro que mais a miude rega as plantas emquanto são pequeninas...

Se hoje o milagre é mais raro, nem por isso deixa de produzir-se. Cheia de milagres foram por exemplo as vidas de Dom Bosco, fundador dos Salesianos e do Santo cura d’Ars.

A historia de Lourdes é tambem uma série de milagres verificados com o maior rigor.

Lareveillère-Lépasse3, membro do Directorio4, imaginára uma religião nova a que chamou Theophylantropia, mas queixou-se a Talleyrand5 de não conseguir adeptos. Ao que Talleyrand retorquiu:

— Não extranho o vosso insuccesso. Quereis conquistar fieis? Fazei milagres. Curae os doentes, ressuscitae os mortos, deixae-vos crucificar e resuscitae ao terceiro dia!”

Se porém o milagre é, na doutrina da Egreja, não só possivel, mas necessario e elemento da sua diffusão, nada disto obsta ao seu caracter excepcional.

Diz Santo Agostinho: “nunca se deve proclamar um milagre quando é possível uma explicação natural”6.

Esta a regra, escrupulosamente observada sempre pela Egreja, mestra da Verdade.

Ora que dissémos nós ácerca do caso de Fátima? Que nós, obscuro auctor d’estas linhas, não tinhamos observado facto algum que nos levasse a suppôr o sobrenatural. Mas não só se trata d’um modo de vêr pessoal e desautorisado, senão que, por fórma alguma, queremos contestar as observações que outras pessoas tenham feito, diversas das nossas.

Nada desejariamos mais do que presencear factos a que nenhuma explicação natural se ajustasse.

Grande foi o desapontamento, quando no domingo, como dissémos, verificámos a inanidade do que na vespera nos parecera maravilhoso: tanto mais quanto grandemente nos impresionára a coincidencia de ter a chuva, de tres horas consecutivas, cessado quasi precisamente á hora em que as creanças oravam, apparecendo então o sol entre as nuvens.

Simplesmente é necessario em assumpto de tanta monta, não ceder ao “quod volumus facile crédimus”.

Terminemos pois como hontem: convém substituir ao enthusiasmo prematuro a mais prudente reserva. Se em Fátima alguma coisa ha de sobrenatural, não será essa reserva que impedirá a marcha dos acontecimentos que Deus tenha determinado em sua infinita sabedoria.

Pelo contrario, o fiasco apoz exaltações inconsideradas não deixaria de ser explorado pelos inimigos da Egreja que os tem sempre, numerosos, activissimos e constantemente á espreita das oportunidades propicias aos seus ataques.

A. de F.

Notas dos editores

3 Filósofo e político francês. Nasceu em 1753. Era propagador da doutrina da teofilantropia. Foi membro do Directório em 1795. Faleceu em 1824.
4 Junta de cinco membros a que a Constituição Francesa entregou o poder executivo entre 1795 e 1799.
5 Charles Maurice de Talleyrand-Périgors. Nasceu em Paris em 1754. Era Bispo de Autun, quando surgiu a Revolução, em 1789. Adere às novas ideias e é eleito deputado dos Estados Gerais. Em 1792 abandona a vida eclesiástica, indo para Inglaterra como representante diplomático da França. Regressa em 1796 e é escolhido para Ministro do Directório. Desempenhou um papel de relevo no Congresso de Viena (1814-1815), no qual consegue evitar o desmembramento da França. Foi presidente do Conselho alguns meses (1815), afastando-se depois da política até 1830. Nesse ano foi nomeado embaixador em Londres, conservando-se ali até morrer, em 1838, reconciliado com a Igreja.
6 Cf. De Civ. Dei, XXII, 8. ML 41, 760.
Aparato crítico e remissões (3)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917, nota 1.
2 Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917.
7 Cf. Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917, nota 3.
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