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DCF III-1, Doc. 111
O jornal "Portugal", publica uma carta de um leitor que ironiza sobre o que se passou na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917.
Publ.: "Portugal", Lisboa, 1 (178) 17 Out. 1917, p. 2, col. 3.
A CHARNECA DOS MILAGRES
"Fia-te na Virgem e corre,
verás a despeza que fazes"
Dum leitor, assiduo como todos os que escrevem aos jornais, recebemos a seguinte carta, a que damos publicidade, por acharmos que encerra uma lição proveitosa aos que enfermam do vicio da curiosidade:
Sr. Redator. - Sou português e de Lisboa, dois fortes motivos para justificar o espirito de curiosidade de que sou dotado e que é, quanto a mim, uma das razões de ser da vida e um dos mais nobres defeitos do homem. Como curioso fui, portanto, a Fátima, no dia 13, para "dar fé" dos milagres que ocorressem e que com tanto e clamoroso réclamo tinham sido anunciados. Não havia entre a assistencia espectador mais imparcial do que eu que, acêrca da existencia de Deus, não afirmo nem nego, porque, se ele existe, é decerto grande e complicado de mais a sua essencia para que a minha curta inteligencia humana o conceba e se ele não existe esse facto parece-me razão suficiente para que eu me não esfalfe a convencer os outros disso mesmo ou do contrario.
Fui, pois, a Fátima, sr. redator, e este impulso da minha curiosidade custou-me algum dinheiro e incomodos que agora sinceramente lamento, porque a verdade é que só pela leitura da reportagem do
Seculo eu tive conhecimento dos milagres ocorridos, dos nomes dos pastorinhos inspirados e até do numero de pessoas que esperavam a revelação do ceu, pois os meus olhos, afeitos a vêr multidões, não fixaram a impressão dos milhares que o redátor daquele jornal denuncia. Cincoenta mil homens temos nós em França e já nos parece que está lá o país em pêso. Pois foi pelo Seculo que eu soube que o sol tinha “bailado”, que a Lucia tinha falado com a Virgem e que um sujeito chamado Ramalho e parecido com Paul Dérouléde recitára o Crédo, empoleirado no estribo dum auto-omnibus. É claro que sinto lograda a minha curiosidade e perdido o dinheiro dispendido, porque de todos os sucessos narrados pelo Seculo só um observei e confirmo: o convite feito aos homens para que se descobrissem perante a evidencia do milagre e a santidade dos pastorinhos. Convite um tanto sui generis, mais parecido com intimação, como o que me foi dirigido por um dos crentes nestes termos humildemente cristãos: “Tire lá a tampa, ó seu malandro!”
Mas se lhe escrevo, sr. redátor, não é para lamentar o tempo e o dinheiro desbaratados, é simplesmente para lhe pedir que nas colunas do seu acreditado jornal, de que sou leitor assiduo, insista para que os “entendidos”, para quem apela o redátor do Seculo, expliquem os fenomenos astronomicos que se diz terem-se produzido no dia treze do corrente na charneca de Fátima. Já que lá não vi nada, ao menos quero que os observatorios e as sociedades scientificas da especialidade se pronunciem, para tirar o meu dinheiro a limpo e não deixar comprometido o redátor do Seculo, sr. Avelino de Almeida, que parece crêr bastante na sciencia e um pouco tambem na Virgem.
Insista pelas explicações, sr. redátor e terá prestado, se as conseguir, um valioso serviço áqueles que, como eu, nada de miraculoso viram na Fátima, talvez por não estarem em estado de graça. Eu, pelo menos, estava em estado de... pagar. Creia-me, etc.
— Um assiduo leitor.
Aparato crítico e remissões (2)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.