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DCF III-1, Doc. 120

18 out. 1917Leiria / Lisboanotícia de imprensaAlfredo de Carvalho

O jornal "A Luta"1 publica um artigo irónico sobre os acontecimentos de Fátima, assinado por Alfredo de Carvalho2.

Publ: "A Lucta", Lisboa, 12 (4171), 18 Out. 1917, p. 1, col. 7; p. 2, col. 13.

HONTEM E HOJE

A Senhora da Fátima

Num sabado chuvoso e sorumbatico de Outono, num funesto dia treze, em que para castigo das nossas culpas a luz do sol não aveludou a paizagem em macíos e palidos tons dourados, a gente da minha terra afeita a crendices e a milagres, a misticos gosos e a sobrenaturalismos singulares, foi-se toda ela de longada, taleigos á cabeça, saias alteadas, de perna a vêr-se, a flôr da ingenuidade a perfumar-lhe o peito. Havia uma aparição portentosa na Fátima.

Durante muitas longas horas passaram chusmas de iludidos e bons, legiões simpaticas de curiosos, e manadas hirsutas de fanaticos, avidos até á voracidade das altas bençãos divinas: todos, velhos, mendigos, rapazes, cachopas, vibravam na mesma emoção sincera, e sentiam-se irmãos na partilha da mesma Felicidade.

Chegados a Leiria uns cortavam pelo bairro dos Anjos e pela ingreme ladeira dos Pouzos, outros seguiam em direitura ás Cortes e ás charnecas safaras do Reguengo — mas não paravam, não esbanjavam o instante duma olhadela, não queriam saber do que em torno ia. Faziam-se notar pela sua lenga-lenga padresca, beata e chóchinha.

De que se tratava?

A que vinham tamanhas canceiras?

Que misteriosa força de sugestão os atraía?

Um episódio raro. É que p'rás bandas da Fátima, num pedaço de chão inculto, a Virgem prometera descer, e falar ao povo de Portugal: com o seu amor omnipotente e benefico secaria as lagrimas nos olhos dos tristes, rasgando neles a elisea expressão da Alegria, limparia nos corações negros o negrume opressivo da sua aflição e bôcas contraidas num rictus de infinita dôr desabrochariam puras e frescas para a musica titubeante do Riso. A Virgem, ao pousar hieratica e serena no cocuruto duma carvalheira, havia de santificar o mundo e livral-o de seus males: por isso cegos, paraliticos, doentes, toda a gafaria dos arredores lá levava decerto a miseria nauseante da sua carne, na esperança indestructivel de que ela de novo palpitaria em assomos de vida sã. E o povo da minha terra porque é afeito a crendices, a milagres, e a superstições, vá de cruzar-se para uma nova romaria.

Foram muitos, quantos puderam: sobre cohorte silenciosa de visionarios, coberta de andrajos, tão falha de beleza como rica de ilusões e sonhos mespianicos!

Chegaram á sombra amiga e protectora da carvalheira, e, como manadas de feras, repouzaram mortos de fadiga, e com os taleigos ao lado desfiaram muitas vezes as camandulas. A Virgem havia de os curar. A Virgem era boa e piedosa, e sem duvida havia de socorrel-os. E não cessavam de rezar num devoto recolhimento de peregrinos medievos. A Virgem até prometera anunciar o fim da guerra: pensavam uns certos mais pessimistas, que este fim não era o da guerra mas o do mundo.

E então que emoções bizarras! Iam-se repetir as scenas tragicas, os lances sinistros do ano mil?! Nada se sabia de positivo, mas para todos andava coisa tremenda no ar. Esquilo e Shakespeare acaso colaboravam numa obra colossal de inedito e de arripiante intensidade?

Que resultaria? Onde nos pricipitavam?

E dos campos as multidões jorravam em catadupas incessantes. O mundo inteiro desabava na Fátima, em setembro contaram quinze mil pessoas, mas agora a vertigem ciclonava mais os espiritos, a Fé subira em maré mais forte e não havia dique que detivesse a onda.

E ondas negras de miseria, ondas lividas e crespas de terror rolaram umas após outras...

* * *

E que sucedeu naquele pedaço de chão inculto, onde a Virgem prometera descer e falar ao povo de Portugal? Cerca das duas horas da tarde uma das tres creanças, que oravam junto da carvalheira, acenou e a turba-multa ajoelhou a um tempo. Então o sol, rompendo das nuvens acendeu-se num fulgor mais vivo, cingiu-se de um circulo escuro, ganhou logo uma palidez de lua, que em seguida se manchou dum azul fluido, dum amarelo doente, de outras tonalidades esmaiadas. Sacudiram-n'o por fim movimentos irregulares, descompassados — tremeu, tremeu, e quedou silencioso. Com as bruscas mudanças de côr a paizagem modificou-se, perdeu a sua nitidez, suavisaram-se numa bruma vaga os seus contornos mais duros.

As mulheres enclavinhavam as mãos, brancas de assombro, pregavam no ceu os olhos implorativos, e tinham atitudes desmanchadas de fervor e extasi: "Lindo sol! Que linda coisa! Ali vem ela!" eram as exclamações que subiam numa esfusiada de ohs e ahs. E pronto. O milagre restringira-se a mutações feericas de scenario, a ginasticas singulares do sol, a pirotecnias relumbrantes feitas nas nuvens, ás mais estramboticas decomposições de luz — um milagre etereo demais, pairante a um certo nivel, para vêr de longe como se vê Braga e que não se dignou descer até aos cocurutos dos montes e das carvalheiras. Mas todos os meus informadores juram que viram no sol extraordinarias coisas — o que nada perturba a minha critica pessoal.

Eu bem sei como o nosso povo é poeta e afeito a consoladoras miragens: prefere viver no gozo rapido de ledas imagens do que no contacto supliciante de amargas realidades. Quantas dezenas de milagres se contam na época da restauração? Quantos velhos ralados de desgosto não surpreenderam nas nevoas distantes do mar a figura heroica, cavalheirosa, e moça de D. Sebastião? E quantos outros não alimentaram a esperança do Quinto Imperio?

Coisas milagrosas houve-as sempre entre o povo romantico desde os gnomos, os vampiros, a pedra filosofal, até ás bruxas, lobis-homens e aos duendes — e destas velhas trapaças é que a vida se embeleza e se tinge de sedução. Hoje, como hontem, não se dispensa o milagre: e assim quando ele não existe, inventa-se na literatura dum Julio Verne, dum Wells e dum Poe. Ninguem passa sem um milagre: todos se riem da Fátima e todos lá vão, este mez uns, no outro os restantes. Eu mesmo se não fossem vestigios de doença, teria ido na companhia dos amigos. E porque não? É no meio, onde nos sentimos melhor, mais encantados, mais proximos de nós mesmos que sômos uns milagreiros impenitentes.

Um ilustre doutor da minha terra, que foi já a mais fina flor do jacobinismo local, dizem-me, que gritava como um possesso, mãos cruzadas, olhos em alvo "Lá vai a Virgem! Lá vai". E não me admiro se o homem a viu. E um negociante, que é maçon e ateu, mas que não se julga tolo, impigiu bentinhos e santas de papel aos papalvos dos labrostes e parece-me que na Fátima lhe saiu a sorte grande.

— Pois ao lado destes topei com um continuo guindado a conselheiro, figura adunca, velho esperto, que não foi á Fátima, porque, no seu pensar, a Divindade não apareceu, não aparece, nem aparecerá. Assim, cortou dum golpe decisivo o nó da questão. Terrivel conselheiro!

Quando á pressa me esgueirava, salta duma esquina um veneravel ancião, de grandes barbas brancas e espirito scintilante, a perguntar-me: — e depois?

— Depois...

— Ora! lérias! O sol, quando nasce, é para todos. Ergo...

E emquanto estes comentarios ressoavam aos meus ouvidos, a gente da minha terra, afeita a crendices, a milagres, e a iluminismos, regressava da Fatima, taleigos á cabeça, saias alteadas, perna a vêr-se, pela sua lenga-lenga padrêsca beata e chóchinha sabia-se que o S. José abençoara o mundo preverso e que os nossos soldados voltariam da guerra qualquer dia proximo, cheios de gloria, fortes, loiros como idolos, e resumbrando saude e mocidade.

Amen.

Leiria, Outubro, 1917.

ALFREDO DE CARVALHO.

Notas dos editores

1 Jornal ao serviço do Partido Unionista. Fundado a 1 de Janeiro de 1906, sob a direcção de Brito Camacho e a colaboração de João Meneses.
2 Nasceu a 23 de Novembro de 1893 em Leiria. Estudou na Universidade de Lisboa. Professor e escritor, sendo autor de várias obras. Grande colaborador na Imprensa do seu tempo. Em 1934 foi nomeado leitor de português na Universidade de Bordéus. Foi director da Biblioteca e do Arquivo Distrital de Leiria.
3 Este artigo foi publicado, mais tarde, em "Alvoradas", Évora, 23 (21), Abr.-Jun. 1962, p. 20-22, com actualização ortográfica.
Aparato crítico e remissões (1)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

4 Deve ser messianicos.
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