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DCF III-1, Doc. 121
O jornal “O Mensageiro” publica um artigo em resposta ao artigo do “Jornal de Leiria”, sobre os acontecimentos na Cova da Iria.
Publ.: “O Mensageiro”, Leiria, 4 (158), 18 Out. 1917, p. 2, col. 1.
“A SENHORA DA FÁTIMA”
Duas palavras ao sr. Miguel Pinto, colaborador do “Jornal de Leiria”.
Não conheço sequer de nome o sr. Miguel Pinto, mas pela sua prosa inserta no ultimo numero do “Jornal de Leiria” eu vejo que o sr. Miguel Pinto, embora possa ser um habil artista, sapateiro, musico ou qualquer coisa, emfim, não faz escola como jornalista por uma razão muito simples: falta-lhe o criterio e falta-lhe a par da auctoridade a coherencia e o bom senso.
Não venho hoje, porque as minha ocupações me não deixam tempo para o fazer, autopsiar o seu artigo em que a sua pena deixou cahir tantos dislates e insultos. Talvez isso fique para outro dia...
Antes de tudo, confesso-lhe que sou um humilde e um ignorante, como o sr. Miguel Pinto chama, cognomina a gente da sua terra.
Sou tambem crente e fui á Fátima, mas não fui ali arrastado pelo fanatismo religioso a que o sr. Miguel Pinto recorre para explicar a afluencia extraordinaria de fieis e descrentes áquele lugar. Não. E por isso, sr. Miguel aqui lhe deixo consignado o meu mais vehemente protesto contra o epitheto de conto do vigario com que classifica os phenomenos extraordinarios que eu presenciei com muitos milhares de pessoas recrutadas dentre todas as classes sociaes.
Sim, sr. Miguel, e nessa grande manifestação de fé a que por fim se associaram algumas creaturas até então incrédulas, eu vi bem representados todos os ramos de actividade humana, desde a élite da nossa melhor sociedade até aos mais humildes e rudes camponezes. Pode ficar mesmo certo de que a sciencia e o alto pensamento ali tinham muitos representantes. Pois, sr. Miguel, a uma dessas creaturas que eu conheci em Coimbra e que no meio universitario foi sempre considerado pelo seu saber e pela sua probidade, ouvi estas palavras: "Em presença de factos desta natureza a sciencia tem de confessar-se impotente para explicar um phenomeno semelhante e que a astronomia não tinha previsto". Este testemunho como o de tantos outros que eu posso citar-lhe, quando quizer, vem de pessoas que não são mais ignorantes que o sr. Miguel Pinto, e no entanto não explicam as coisas com a facilidade com que o sr. Miguel Pinto pretende fazê-lo.
Vá confessando, pois, que perdeu uma grande ocasião de estar calado e que a ignorancia é muito atrevida.
E sem mais por hoje, até breve se Deus quizer.
Ignotus
Aparato crítico e remissões (2)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.