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DCF III-1, Doc. 122
Com uma breve introdução, o jornal "O Mensageiro", publica uma carta que relata o que se passou na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917.
Publ.: "O Mensageiro", Leiria, 4 (158), 18 Out. 1917, p. 1, cols. 4-5; p. 2, col. 1.
AS APARIÇÕES DA FÁTIMA
Nada mais podemos dizer sôbre o que se passou na Fátima no dia 13 do corrente, além do que se encontra na carta que abaixo publicamos.
As tres creanças, Lucia, de 10 anos, Francisco de 9 e Jacinta de 7, os videntes, não podiam, rudes e ignorantes, mistificar por tal fórma as dezenas de milhares de assistentes; e ainda se este facto se désse ficaria o fenomeno solar, que a sciencia não previu, e cremos não explicará, demonstrando que no caso da Fatima ha alguma cousa de extraordinario que não compreendemos.
Esperamos que a Igreja se manifeste sôbre este caso e não desejando seguir as pisadas do cura de Lourdes nas visões de Bernardete, dizemos que só um poder sobrenatural póde causar o que milhares de pessôas presencearam na Fátima no dia 13 do corrente.
Segue a carta que recebemos:
Sr. Redactor:
Várias pessôas que me conhecem, que sabem que não sou jasuita nem fanatico da religião, me teem perguntado o que vi e o que se passou na Fátima.
Como tambem fiz parte do numero dos estupidos que lá fôram, como algumas pessôas dizem, a quem não levo nada pelo elogio, apenas o devolvo á procedencia, desejo em poucas palavras explicar o que presenciei:
De vespera fui ficar a casa do meu amigo e correspondente do Mensageiro Antonio Pereira das Neves, na Quinta da Sardinha3, onde fui tratado por este nosso amigo e sua ex.ma esposa, com todos os carinhos de que não sou digno. Ás 4 horas puz pés a caminho da Fátima afim de assitir á aparição milagrosa que as pequenas diziam ser a ultima vez.
Atravessando a serra tive ocasião de vêr a grande peregrinação de devotos que de todos os lados faziam caminho para mais depressa chegarem ao local indicado. O aspecto é sublime, mulheres com sacas á cabeça, os seus trages garridos e domingueiros, a pé, a cavalo, etc..
Perguntava d'onde eram, e... ao ouvir pronunciar as suas terras admirava-me como aquelas almas vinham de tão longe para presenciar o que duas creancinhas afiançavam!...
Mas que lindo era o serpentear de tantas creaturas pela serra! Sublime! Isto só visto para se poder apreciar os efeitos de tão grande romaria.
Depois de atravessar a Loureira4 e a Moita5, diviso a uns 200 metros a estrada que segue para Vila Nova de Ourem passando pelo Reguengo do Fétal6 e outras povoações. Os carros já ali se encontravam em grande numero, carroças, caléches, automoveis, bicicletes, e toda a qualidade e feitio de veículos, alguns originaes que transportavam crentes e não crentes do que se estava para presenciar.
A chuva começa caindo, engrossando pouco a pouco; os guarda-chuvas abriram-se e em pouco tempo, açoitada pelo vento, enxarca as pernas dos que se tapavam com os chapeus e punha em verdadeiros pintos aqueles que se não tinham prevenido contra este contra-tempo. Todos olhavam para o céu a vêr se haveria esperança do temporal passar, mas cada vez mais fechada a cerração. Ninguém arredou pé de onde estava, ouvindo-se sempre vários canticos á Virgem, e o movimento dos peregrinos cada vez mais!
Era uma hora (oficial) e tudo estava ancioso pela chegada das meninas. Eu estava perto de uma enorme azinheira teritando com frio e enxarcadinho até aos ossos. Nisto, não sei como, levanta-se uma lebre que faz várias evoluções fugindo ás pessôas que a perseguiam, sucumbindo a uma paulada, não chegando um pêlo a cada um que a seguia!
Olho em frente e vejo uma enorme bicha de gente que acompanhava as meninas para junto da pequena azinheira, onde elas dizem lhes apareceu N. Senhora, azinheira de que apenas existe um fragmento do tronco de 10 centimetros de fóra da terra, pois que a teem pelado para recordação.
A chuva pára, as nuvens correm com grande velocidade e o Sol aparece brilhante, espalhando seus luminosos raios sôbre a assistencia.
Não sei como, vejo todos tirarem os seus chapeus e ajoelharem. Eram 14 horas e 10 minutos oficiaes.
Oiço várias preces, suplicas á Virgem e Mãe Santissima e vejo os róstos da enorme assistencia de côr de rosa carregado, depois transformou-se para um anilado e em seguida para um amarelo cadaverico!!
Não sei o que isto significava, nem quiz fitar o Sol para não atribuir a ilusão optica.
Mas na minha frente estava uma senhora com um chapeu de feltro branco, que me servia de espelho do que se passava no rei dos astros. Isto durou uns 20 minutos. Ouvia a meu lado chóros, suplicas várias e dizer que o Sol andava de roda que parecia uma roda de fogo de vista!
Pouco depois as meninas disseram o que Nossa Senhora lhes tinha dito:
— A guerra acaba por estes dias; brevemente os nossos soldados regressam a Portugal; os homens devem ser bons uns para os outros; rezem o terço e façam uma capela pois que sou a Senhora do Rosario.
As pequenas são levadas em triunfo por entre a multidão, regressando a casa de seus paes, e a assistencia começa retirando para as suas terras, dando por bem empregado o tempo que estiveram a pé firme apanhando toda a chuva e o vento da serra!
E eu fiquei com cara de palerma a olhar para tudo isto sem saber explicar tão imponente fenomeno.
Se ámanhã se repetisse, eu lá estava caído novamente, pois que não estou arrependido de ter assistido ao que nunca tinha presenciado.
O que é para me fazer admirar é que estando eu todo molhado, momentos antes, reparei que já estava enxuto! Seria milagre? não creio. O que creio é que a mais pessôas sucedeu o mesmo.
Tanto milhar de gente junta e tanto respeito, nunca vi, pois que não foi preciso policia, guarda republicana, nem força militar para conter a ordem! Seria milagre? não sei.
Tanto carro, trens, carroças, automoveis, bicicletas, etc. sem se dar um desastre! Seria milagre? não sei.
O que sei é que o caso deu-se e que de todas as paragens mais longinquas, ali afluiu gente trazida pelos ditos de duas creancinhas e não a reclames, foguetes ou musicas!
Ás 16 horas poucas pessôas ali se encontravam e eu dirigi-me ao logar da Moita, aonde fui comer alguma coisa na companhia do meu amigo Antonio Pereira das Neves e familia, pois que ainda me encontrava em jejum e não tinha fome!
Voltei á Quinta da Sardinha onde fiz as minhas despedidas e saltando para cima da biciclete sigo o caminho de Leiria.
Agora pergunto eu. O que se passou de extraordinario nos astros que os astronomos não o anunciaram? Então duas pastorinhas levam tantos milhares de pessôas a um ermo só para se vêr o Sol? Quem fez a propaganda deste fenomeno? Misterio.
Ora aqui está, o que vi e o que se passou. Quem não acreditar eu não levo nada por isso.
De V. etc.
(a) Carlos Silva
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (2)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.