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DCF III-1, Doc. 130
O jornal "A Beira Baixa"1 publica um artigo sobre as aparições de Fátima.
Publ.: "A Beira Baixa", Castelo Branco, 1 (36), 20 Out. 1917, p. 2, col. 4.
O CASO DE FÁTIMA
Tem sido o assumpto que tem prendido todas as attenções durante a semana.
Trata-se realmente da apparição da Virgem a tres creanças, a uma das quaes Ella se dirigiria especialmente?
As apparições, a serem reaes, vinham-se repetindo no dia 13 de cada mez desde maio e a do dia 13 d'este mez estava annunciada como a ultima e seria acompanhada de phenomenos miraculosos.
Houve esses phenomenos?
Milhares de pessoas respondem affirmativamente.
Chovia torrencialmente. Á hora annunciada para a apparição a chuva cessa, como que obedecendo á voz das creanças que disseram não ser necessario conservar abertos os guarda-chuvas.
O sol descobre-se, fica com uma luz estranha, podendo ser fitado como a lua cheia. A luz passa por diversas gradações, parecendo umas vezes que o globo solar é cercado d'uma aureola de chammas, outras vezes um disco metallico como de prata. Vê-se o disco girar sobre si mesmo rapidamente e tem-se a impressão de que elle se desloca da sua orbita e se aproxima da terra, produzindo um calor excepcional.
Isto ninguem de boa fé o contesta. A testemunhas oculares o ouvimos e cartas vindas das proximidades de Fátima o confirmam.
Phenomeno natural, que se reproduzirá em identicas condições atmosphericas?
Phenomenos electricos, como pretendem alguns?
Não sabemos nem nos cumpre a nós pronunciar-nos sobre tão melindroso assumpto.
Seja como fôr, é caso muito para meditar este de se produzir o phenomeno no dia e á hora precisos em que phenomenos miraculosos foram annunciados, a um mez d'antecedencia, por tres creanças rudes, incapazes de prever phenomenos que aliás nenhum homem de sciencia previu.
Tambem é para meditar a circumstancia de tres creanças, a mais velha das quaes conta 10 annos, interrogadas por diversas pessoas sobre as apparições da Virgem, nunca se contradizerem, nunca deixarem de insistir sobre a verdade do que dizem ter visto, resistindo a insinuações em sentido contrario, a promessas de dinheiro e até a ameaças.
O poder de Deus é infinito, os milagres têm-se dado, podem dar-se e repetir se.
Á auctoridade ecclesiastica cumpre pronunciar-se sobre o occorrido com aquella ponderação que emprega sempre em casos identicos.
Emquanto isso se não der, nós, sem pormos em duvida o que milhares de pessoas affirmam ter visto (porque isso seria negar a evidencia), não diremos que houve milagre nem que o não houve. Somos filhos da Egreja e submeter-nos-emos ao que a este respeito fôr dito pelos seus legitimos representantes.
Nem precipitados nem contumazes.