Explorar / Documento

DCF III-1, Doc. 155

21 out. 1917Alcobaçanotícia de imprensaSemana Alcobacense (não assinado)

Crítica do jornal “Semana Alcobacense” ao artigo publicado pelo jornal “O Século”, sobre os acontecimentos de Fátima.

Publ.: “Semana Alcobacense”, Alcobaça, 28 (1417), 21 Out. 1917, p. 1, cols. 1-3.

JORNALISMO

Um amigo dos que mais, quem estas linhas escreve, admira e preza, escreveu-nos na passada terça feira3 uma carta a dizer-nos das impressões que no seu esclarecido e honesto espirito deixou a leitura de um artigo que o Seculo publicára no dia antecedente4, a proposito da Fatima e dos espectaculos que agora e mez a mez ali estão ocorrendo.

Pois que se não tratava de um jornal catolico, muito menos de uma folha ao serviço da reacção, esperava muito naturalmente o mesmo nosso ilustre amigo que o Seculo, ao ocupar-se dos milagres da Fatima, o fizesse, não para de modo nenhum lisonjear a especulação e o fanatismo que de tal invenção se lembraram e lhe vão a todo o pano dando curso, mas para ajudar com a sua larga publicidade aqueles que, em parte indignados, em parte condoidos com as scenas que para aqueles lados se estão passando, contra essas manifestações do mais pavoroso retrocesso mental vão, conforme sabem, tentando poupar quanto possivel a ingenuidade incomensuravel deste ainda tão pasmosamente inculto povo portuguez.

Nada disso. É certo que o Seculo tenta no seu referido artigo, e uma vez por outra, — tão poucas! — dar-nos a impressão de que descrê das aparições da Fatima, de que elas não passam, a seu ver, de uma historia sem nenhum fundo de verdade, de uma coisa verdadeiramente sem pés nem cabeça. O seu enviado especial áquelas milagreiras paragens perguntou, por exemplo, a um rapazote de Chão de Maçãs se já tinha visto a Senhora, e aquele conta que este lhe retrucou: Eu cá só lá vi pedras, carros, automoveis, cavalgaduras e gente. Apesar, porém, de escritas com a pretenção de agradar a gregos e a troianos, ou assim como quem diz: a Deus e ao diabo, as palavras do orgão da rua Formosa outro condão não véem em resumo e infelizmente a ter, que não seja este: contribuir para a maior propaganda dos milagres da Fatima, fazer avolumar no animo do povo ignorante e simplista a crença nas aparições da Virgem, todos os mezes, para aquelas bandas de Portugal...

Dir-nos-hão, porém, que o Seculo, prestando-se a um tal papel, o faz menos por amor da religião e daqueles que a professam ou á sua custa vivem, do que em obediencia aos seus interesses materiais, e que, afinal, o que á gente se nos afigura como uma questão de afinidade de principios, de comunhão na mesma fé, não passa de um simples incidente de balcão, sempre pronto a especular com todas as drogas junto da boa fé da clientela numerosa. Maiores as suas responsabilidades, a nosso ver. Porque, o que naquela hipotese estava dentro da logica, embora de discussão não deixasse de ser susceptivel, resulta, no segundo caso, de um intuito puramente mercantil, numa simples operação de algibeira, tanto mais condenavel quanto é certo ter escolhido para sua satisfação um dos pontos mais vulneraveis da ignorancia popular, aquele, precisamente, em que ela se nos patenteou sempre mais digna da nossa tristeza e das nossas lastimas.

Não; não é, não póde ser esta a missão da imprensa. Orientar, sim, não desorientar; semear a luz, mas não propagar a treva; encaminhar as sociedades pela estrada ampla da civilisação e do progresso, que, nunca, fazê-las ingressar e seguir pelos estreitos e tortuosos atalhos onde sómente o erro e a mentira imperam.

Pretende o Seculo manter-se a fama e o proveito que de ha muitos anos se arroga de ser o jornal de maior circulação em Portugal? Nada temos com isso; mas veja se consegue o seu desiderato não lisonjeando o obscurantismo e procurando aumentar á custa dele o numero dos consumidores da sua mercadoria, mas prégando os bons principios e fazendo, assim, por conquistar novos cooperadores para a sua obra entre a grande massa que lê; não evocando um passado cheio de abusões e fazendo desvanecidamente a sua apologia mais untuosa, mas pondo os olhos no futuro e avançando resolutamente para as grandes conquistas com que ele nos espera; não contribuindo para que o povo portuguez caia todo ele em extase, na Fatima ou em qualquer logarejo identico, perante uma divindade que só a sua inculta e excitada mente lhe deixa ver entre nuvens, para ela apelando e da sua parte esperando todos os beneficios e todas as felicidades, tanto individuais como colectivas, — mas sim ajudando a sociedade a que pertencemos a deixar-se de abstracções e misticismos, para se integrar de todo o positivismo da hora que decorre e aprender a contar consigo apenas na resolução das multiplas questões que aos seus interesses respeitam; fazendo que ela se mostre, a todos os titulos, digna do grande nome que Portugal se tem criado lá fóra, mercê da situação que perante a guerra se impoz e da conduta cheia de heroismos com que os seus soldados se teem portado em plena luta.

O Seculo tem ás vezes ideias sãs; o vento emancipador da liberdade sopra a miude das suas bandas, persistente e forte. Ah! mas a ancia dos dezréisinhos fê-lo portar-se, perante a Fatima, como nem a peor de todas as gazetas reaccionarias que em Portugal se publicam teve até agora a audacia de proceder.

Notas dos editores

3 Dia 16 de Outubro de 1917.
4 Dia 15 de Outubro de 1917.
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 18, de 26 de Agosto de 1917, nota 1.
2 Doc. 87, de 15 de Outubro de 1917.
Abrir