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DCF III-1, Doc. 162
A. de F1. responde às cartas recebidas no jornal "A Ordem", criticando os seus dois artigos publicados anteriormente.
Publ.: "A Ordem", Lisboa, 2 (513), 23 Out. 1917, p. 1, cols. 1-2
FÁTIMA
Os dois artigos que escrevi sobre este assumpto, valeram á Ordem uma serie de cartas de manifesto desagrado.
Confesso que é para mim nova esta situação de, n'uma discussão com pessoas que não tenho razão senão para julgar bons catholicos, me vêr do outro lado da barricada.
Julguei, pois, preciso sujeitar-me a um exame de consciencia. E é depois d'elle que escrevo estas linhas.
Só desejo que os meus antagonistas façam outro tanto.
Antes de tudo: attesto a inteira sinceridade, isto é, a inteira verdade subjectiva do que escrevi.
Em segundo logar: se é certo que nem todas as verdades se dizem, eu attesto mais que fui levado a escrever o que escrevi por me parecer necessario a um bem entendido interesse religioso oppôr á febre d'enthusiasmo, que eu via lavrar um tanto inconsiderada e até imprudentemente, um testemunho presencial.
A esse testemunho, nem por uma só palavra de vaidade pretendi dar mais valor do que a outros. Antes expressamente resalvei estes, como dos seguintes periodos.
"Ora o que dissémos nós ácerca do caso de Fátima? Que nós, obscuro auctor d'estas linhas, não tinhamos observado facto algum que nos levasse a suppôr o sobrenatural. Mas não só se trata d'um modo de vêr pessoal e desauctorisado, senão que por fórma alguma, queremos contestar as observações que outras pessoas tenham feito, diversas das nossas".
É textual a transcripção.
Se, pois, foi defeituosa a minha observação, porquê tanta ira, desde que logo resalvei opiniões divergentes?
Comecemos, por exemplo (á tout seigneur...) pela seguinte carta do sr. dr. Almeida Garrett:
"...sr. redactor...
"Julgo do meu rigoroso dever pedir a V. o favor de dar publicidade a estas breves linhas.
Relacionam-se com os acontecimentos de Fátima, preditos com mezes d'antecedencia, do dia e hora em que deviam ter logar.
Cumpriram-se completa e rigorosamente. Protesto em meu nome, como catholico e como dedicado ás sciencias naturaes que professei, contra a inserção de dois artigos publicados no jornal catholico A Ordem ácerca de Fátima, dos quaes artigos muito haveria a dizer. Acompanham-me n'este protesto tantas pessoas que tiveram conhecimento d'esta publicação. Esperando a deferencia de V., sou etc.
Praia da Granja, 18 d'outubro de 1917.
Gonçalo Xavier d'Almeida Garrett".
Protesto? Mas ha, nos meus artigos, alguma affirmação contra a boa doutrina catholica? Se ha, v. exa a apontará e fulminará.
Se, porém, ha apenas observações ou reflexões, de que v. exa discorda, o seu dever de homem de sciencia não é protestar, é discutir, oppondo a verdade ao erro.
Eu não creio que o caso de Fátima seja tão dogmatico, que a mera duvida, e com resalva de opiniões diversas, seja peccado ou heresia merecedora de protesto.
Diz v. exa que sobre os artigos "muito haveria a dizer".
Mas que pena não o ter dito, o que decerto valeria muito mais do que um protesto não explicado.
Foi v. exa da Granja, d'onde escreve, a Fátima?
Se foi, com a maior sinceridade e interesse desejarei que v. exa venha dizer á Ordem tudo quanto viu, com a sua dupla auctoridade de catholico e de homem de sciencia.
Se não foi, sabe de factos bem averiguados que importem milagre?
Seria não só bom, mas dever, principalmente hoje, depois do seu protesto, vir narral-os.
E se forem convincentes, não terá v. exa cathecumeno mais submisso e docil do que este seu creado.
N'esse caminho encontrar-nos-hemos.
Agora protestos! Em materia livre, contra opiniões erroneas não se protesta, mórmente quando se é homem de sciencia. Argumenta-se.
Vem agora segunda carta
Esta é phenomenal.
No meu artigo de terça-feira, depois de narrar a segunda observação que fizera, no domingo, sobre os aspectos do sol visto atravez de nuvens, accrescentei a prevenção, que um medico me fizera, de que era perigoso fitar o sol, não sendo raros os casos de cegueira produzidos por essa imprudencia.
Sendo, pois, da mais natural previsão que leitores do artigo fossem levados a repetir a observação, julguei dever rigoroso prevenil-os do que o medico me dissera.
Pois a prevenção é tomada, n'essa carta como pretensões a... ter graça!!
Diz-se assim: "depois, o periodo seguinte com pretensões a ter graça!?".
Vão lá ser juiz...
Eu intimo formalmente esse correspondente a que diga, onde, em todos esses dois artigos, leu periodo que, de longe, o fizesse suspeitar, sequer, de sentimentos meus, de irreverencia ou de graçola, que seria absolutamente descabida em tal assumpto.
Se o não puder fazer, e o desafio aqui fica, reconheça que lhe faltou o criterio: ou que a paixão o cegou, a ponto de não entender o que leu.
N'uma terceira carta, leem-se estes periodos mirabolantes, de critica a uma passagem do meu primeiro artigo que é interpretada do seguinte modo;
...pede licença (o articulista) para não accreditar nas affirmações (das tres creancitas) porque pode muito bem ser que exploradores da crendice (termo que para o caso não acho proprio) tenham suggestionado os pastoritos com mysteriosos fins de ganancia? Isto é que é para mim um phenomeno, na mente e na pena de um catholico!"
Vão lá ser juiz... repetirei, cada vez mais assombrado e triste, com taes desvairios, em pessoas que havia o direito de suppôr illustradas.
É o caso que, no Seculo, de 12 ou 13, se lia um artigo em [que] se attribuiam os successos de Fátima a manejos de exploradores, com pretensões a fazerem d'este logar uma nova Lourdes, dizia-se, com as respectivas consequencias lucrativas para os emprezarios, etc., etc.
E foi para rebater aleivosias taes, que no artigo de terça feira escrevi:
Serão as creanças sinceras? nenhuma razão temos para duvidar d'isso; antes a sua rusticidade nos é uma garantia.
As historias tetricas de exploradores da crendice popular que hajam suggestionado os pastoritos com mysteriosos fins de ganancia, pedimos licença para as não acreditar sem provas.
Desejam os espiritos fortes que não creiamos sem provas? Está muito bem. Mas com egual direito exigiremos d'aquelles que em tudo vêem malfeitorias de jesuitas, aquellas mesmas provas que elles tanto nos pedem, mas de que, para seu uso, tão facilmente prescindem.
Pois este periodo é apontado como signal de que... enfileirei ao lado do Seculo.
Até a locução "exploradores da crendice popular" que evidentemente endossei á responsabilidade dos auctores das historias tétricas, até isso me é exprobado como improprio da mente e da pena (com um n) d'um catholico.
Pena me faz isto e grande, mas não por consideração pessoal, senão por vêr no facto mais um symptoma da mentalidade muita singular, de tanto catholico em face do seu jornal.
Morrem de penuria em Portugal os jornaes catholicos.
Falta de boa vontade?
Talvez não; mas decerto falta de zelo. Quando esse zelo, porém, acorda, activissimo, é para censura, cabida ou descabida.
E censura que vae até á ameaça de córte de assignatura e que agora se repetiu!
Ora vejam este criterio!
Sabendo A Ordem que eu estivera em Fátima, pede-me lhe escreva as minhas impressões.
Accedendo, evidentemente lhe havia de escrever as minhas e não as alheias.
E, em todo o caso, á pobre Ordem é que nenhuma responsabilidade poderia caber n'esses artigos assignados, senão a de ter tido a lembrança de m'os pedir.
Pois por esse crime — da minha opinião ser diversa da de outros — esquecem-se todos os assinalados serviços da Ordem a que Sua Eminencia ainda ha pouco prestava a mais publica homenagem — e ameaça-se feril-a com a perda da assignatura!
Que intelligente represalia!
E que excellente comprehensão do dever rigorosissimo de todo o catholico, de sustentar o seu jornal!
* * *
Dizem-me outros criticos que é mal pensado hostilisar manifestações de fé grandiosas como foi a de Fátima.
Não as hostiliso. Sómente receio que se produzam em torno de apparencias enganadoras — d'onde resultaria uma repercussão damnosa para a causa catholica.
Não deveriamos nós, catholicos de hoje, esquecer as melindrosas circumstancias em que vivemos, rodeados de tantos inimigos.
Dir-me-hão que aos simples catholicos não se impõe as mesmas reservas que á Egreja?
Mas se a orientação d'esta é, indiscutivelmente, a da extrema reserva em circumstancias como as de Fátima, como é que a dos simples catholicos póde ser a opposta?
Se um dia a realidade do milagre de Fátima se demonstrar — e já disse quanto eu o desejaria, creiam que os dois artigos da Ordem, em vez de serem argumentos contra, serão mais uma prova do milagre e de como elle soube impor-se.
Mas se pelo contrario vier a verificar-se a inanidade dos enthusiasmos d'agora, qual ficaria sendo a situação dos catholicos, se o seu orgão na imprensa se tivesse deixado ir na onda?
E já agora deixem-me dizer-lhes que para mim, manifestações como as de Fátima, se são das que mais commovem não serão porventura das mais solidas e uteis.
Parece-me ouvir a suave reprimenda de Jesus:
— Vós, se não presenciaes milagres...
Ora os que pediam milagres a Jesus, seriam todos christãos?
Em Fátima havia muita fé catholica, d'accordo.
Mas não haveria tambem algum d'esse amor ao maravilhoso, que o paganismo não exclue?
Havendo na Egreja tanto mysterio digno da nossa fé, absoluta e segura, não serão mais commovedoras as manifestações de fé em honra d'esses mysterios, do que em honra de phenomenos cujo alcance evidentemente não está ainda averiguado?
Estavam em Fátima 50 mil catholicos?
Mas que pena não os ver inscriptos nos livros d'assignaturas dos jornaes catholicos!
Estavam em Fátima 50 mil catholicos?
Mas que pena não os ver fazendo, em volta dos seus Prelados punidos de desterro, uma muralha impenetravel!
Estavam em Fátima 50 mil catholicos?
Mas que pena não os ver inscriptos nos Centros catholicos; nem os descobrir á beira das urnas eleitoraes, assegurando a Egreja, perseguida e vilipendiada por vereações e juntas de impios, uma situação de dignidade e de victoria!
A. DE F.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (3)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.