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DCF III-1, Doc. 181

25 out. 1917Leirianotícia de imprensaIgnotus (O Mensageiro)

O jornal “O Mensageiro” publica um artigo em resposta aos artigos sobre Fátima assinados por Miguel Pinto, publicados no “Jornal de Leiria” e no jornal “O Marinhense”.

Publ.: “O Mensageiro”, Leiria, 4 (159), 25 Out. 1917, p. 1, cols. 4-5

“A SENHORA DA FÁTIMA”

II

Ao sr. Miguel Pinto, colaborador do “Jornal de Leiria” e ao “Marinhense” que veio corroborar as suas asneiras

“Todo o escriptorelho, quando não sabe de que ha-de escrever, atira-se á religião, como preza primi ocupantis, e profana com estulta ignorancia uma fé tão antiga como o mundo.”

(Gioberti: Introduzione allo studio della filosofia, tomo III, pag. 229.)

Bem aplicaveis ao sr. Miguel Pinto me parecem as palavras do insuspeito Gioberti

Na verdade o sr. Miguel Pinto teria sido bem mais feliz escolhendo outro assumpto para afastar-nos o tédio.

Fala de Nossa Senhora com muito menos respeito que falaria da mais humilde e rustica das creaturas, põe em duvida e fala do poder divino com mais desprendimento ainda, apóda de ignorantes nada menos de quarenta mil pessôas e termina com a estulta pretensão de querer cognominar o christianismo refractario a tudo que diga respeito ás letras e ao progresso, como se deduz d’este naco de prosa — a chave de ouro com que fecha o seu artigo:

“A “senhora” da Fátima nunca mais voltará a fazer a sua aparição, se naquele lugar fôr mandada construir uma escola, onde o ensino seja ministrado aos adultos e adolescentes que são cégos de espirito.”

Bem cego de espirito me parece o sr. Miguel Pinto, e, francamente, acho tão vulneravel o seu artiguelho que chego a hesitar a qual das chagas devo aplicar primeiramente o caustico.

Antes de mais nada julgo, porém, dever meu acentuar alguns pontos de doutrina. Fui como já lhe disse á Fátima, presenciei alguns phenomenos extraordinarios; mais ainda: estou intimamente convencido de que o sobrenatural ali se manifestou, mas, emquanto a Santa Egreja, mestra infalivel da verdade o não fizer, eu não venho proclamar a realidade do milagre. Sob este ponto de vista a minha opinião é mesmo muito pessoal.

O sr. Miguel Pinto esqueceu-se de que escrevia para um jornal que embora seja lido, geralmente, por leitores dotados dos seus sentimentos, póde uma ou outra vez caír tambem nas mãos de pessôas honestas e de probidade.

E não se ofende impunemente quem quer que seja, sr. Miguel. Ora o sr. Pinto insultou milhares de pessôas que teem jús ao respeito de todo o homem medianamente civilisado, e insultou esses milhares de pessôas no que ellas tinham de mais caro: na sua crença.

A alma retracta-se com a pena, dizia o famoso Pe. Antonio Vieira, mas muito mal ficaria o sr. Miguel Pinto se o publico olhasse para o seu artigo como para o espelho da sua phisionomia moral — no qual se inspirou certamente para desdenhar atrevidamente da religião bemdita que Portugal professa.

Á mesma sociedade a que pertencem os muitos milhares de fieis que, no passado dia 13, estiveram em Fátima pertenceram tambem em todos os tempos os sabios mais graduados e os espiritos mais esclarecidos.

Dispense-me de citar-lhe o nome de muitos d’esses sabios que eu conheço, sr. Miguel Pinto, porque já D’Alembert escreveu “que uma longa, quasi infinita lista se podia formar com os nomes dos homens sabios que se inclinaram perante a Fé. E essa lista bastaria para lhe impôr silencio e a todos os Migueis inimigos da Egreja e das verdades catholicas que, como eu ainda ha bem pouco tempo ouvi a quem sabe melhor o que diz do que o sr. Pinto o que escreve, foram cridas por um Newton, respeitadas por um Descartes, defendidas por um Pascal, prégadas por um Vieira, e cuja sublimidade enlevando Pasteur, esse grande medico — o maior do seu seculo — o levára a exclamar perante o mais selecto dos auditorios: “Estudei, estudei muito: e porque estudei muito, tenho a fé d’um bretão; se tivesse estudado mais ainda eu teria a fé d’uma bretã.”

Ora se estes testemunhos lhe não bastam, se estes nomes são o de simples ignorantes, venha de lá então o sr. Miguel Pinto com toda a sua artilheria pesada de idêas convencer-me de que o branco é preto e vice-versa. Não invoque para isso a inspiração das musas do Liz, não venha aquella senhora professora d’um dos nossos melhores estabelecimentos de ensino meter-lhe na cabeça alguma das theorias algo absurdas que lhe fervilham no cerebro e que a levaram a dizer a alguém: “Eu não fui á Fátima, mas se fôsse, e visse mesmo esses phenomenos extraordinarios, não poderia querer no sobrenatural — que não existe.”

Ora contra esta logica... só o Cambrone com a mesma resposta que dera, destemidamente, ao inimigo que o intimava a render-se.

IGNOTUS

Aparato crítico e remissões (3)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 5, de 25 de Julho de 1917, nota 1.
2 Doc. 80, de 14 de Outubro de 1917
3 Doc. 141, de 20 de Outubro de 1917.
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