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DCF III-1, Doc. 22

4 set. 1917FrançacartaAntónio Ferreira de Andrade

Carta de António Ferreira de Andrade1, a cumprir o serviço militar em França, a António dos Santos, pai de Lúcia, manifestando o desejo de saber notícias sobre as aparições.

A - AForm., Doss. 9, fl. 7, doc. 1

Publ.: MARTINS, Pe. António Maria, S.J., Novos Documentos de Fátima, Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1984, p. 23-24, com a ortografia corrigida e actualizada.

Descrição do documento: Papel de carta ordinário (15x12cm). Tem a margem superior e a inferior cortadas. O texto começa na fl. 1v.

Chamamos a atenção para a transcrição desta carta. O sistema gráfico é mais fonético que “oficial”. Na sua escrita espelha-se bem a linguagem e pronúncia da sua região de origem. Deixamos a compreensão de algumas palavras à perspicácia dos leitores.

França 4 de Setembro de 1917

Snre Antonio2 Saude e felecidáde hé o que, se deseja

Snre Antonio bocê amim não me cunhéce nem tampouco eu o conhêço a bóce. Mas istive com um rapáz deça freguesia3 que se encontra nesta terra de frança e me contou que o Snre Antonio Abróba que tinha uma filha que tinha visto nossa Snra e contou-me as noticias que tinha recebido da familia dele. Ahonde me encheu de fé e dice-me que tinha pena não se turnár a encontrár com migo para me contar o q., se passou aos 13 de agosto cumo a Snra tinha prumetido assim cumo tinha aparcido nos meses antecedentes.

Agora Snre Antonio cumo não tenho visto o mesmo rapáz dessa freguesia desijáva que vocemecê tivece abondáde de me escrebêr umas letrinhas disendo-me da aparição de Agosto e agora deste mêz de Setembro. Aminha direção é a Seguinte

C.E.P. France

Antonio Ferreira de Andrade

Soldado No 531 da 2a Companhia de Infantaria No 8

Pecu-lhe Sinhor Antonio que me fáça o fabôr de me escrebêr que eu desijába sabêr o que nossa Sinhora tem dito pois que eu tenho fé com o que ella tem dito ha sua virtu-osa filha.

O meu bão camaráda com que me encontrei parcia sêr bão rapáz me contou elle do milágre da Sinhora de 13 de Julho5 de hire muito calôr e ao ella vir por-ce tempo frêsco elle me dice que a Snra que dice que resa-ce todos o terço q, para trêse de Outubro q., avia de fasêr um milagre q., há de sêr ademirado por todos

Mais uma vêz lhe peço que me conte do resultádo de Agosto e de Setembro. Recumende-me há sua filha Lucia que visto ao que ella concégue Nossa Sinhôra lhe atenderá aos desejos. Recumendo - tambem ha sua filha Lucia todos os homems de Portugal que nesta terra de França se encontro. Recumendo-lhe tambem que rogue anossa Snra pela perceberança dos justos e pela comberção dos pecadôres. Assim cumo tambem lhe peça a Nossa Snra Pela Páz e concordia para que tôdos tinhamos alegria

Peço-lhe que se não esquéça do que lhe recumendei que Nossa Snra lhe pagará. Eu sou Antonio Ferreira de Andrade.

Notas dos editores

1 Segundo informação do Distrito de Recrutamento e Mobilização de Braga, trata-se do soldado nº 1914-H-909. Nasceu a 2 de Novembro de 1893, na freguesia de Carapeços, concelho de Barcelos. Filho de Joaquim Ferreira de Andrade e de Maria Fernandes. Embarcou para França no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, desapareceu na batalha de 9 de Abril de 1918, tendo sido levado pelos Alemães para o campo de Friedrichsfeld. Desembarcou em Lisboa a 5 de Fevereiro de 1919. Ausentou-se para França a 25 de Janeiro de 1924 e regressou a 7 de Dezembro de 1937, ausentando-se de novo para S. Paulo, Brasil, a 21 de Janeiro de 1938. Ermelinda da Costa Andrade Vieira, filha do autor desta carta, informou-nos a 13 de Julho de 1990, que o pai faleceu em S. Paulo a 29 de Junho de 1966. Era casado com Marcelina Ferreira da Costa.
2 António dos Santos, pai de Lúcia, conhecido, como se verá adiante, pela alcunha de António “Abóbora”.
3 Poderá tratar-se de Manuel Vieira Marques, filho de Manuel Marques e Maria de Jesus, natural da Pedreira. Assentou praça no Regimento de Infantaria 15, de Tomar. Embarcou para França no C.E.P., em 20 de Fevereiro de 1917, com o nº 682, da 1ª Companhia. Regressou em Fevereiro de 1919. Segundo informação do Sr. Francisco Pereira de Oliveira, teve conhecimento das aparições na Cova da Iria, em carta da família, recebida em França no dia 24 de Junho de 1917 (?). Todavia, como se verá adiante, António Ferreira de Andrade dispunha já também de informações relativas à aparição de 13 de Julho (cf. nota 5). As cartas escritas de Fátima para o camarada de António Ferreira de Andrade, infelizmente desaparecidas, seriam dos primeiros documentos sobre as aparições.
5 Trata-se, pois, de uma carta posterior à indicada na nota 3.
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

4 Sic.
6 Cf. Doc. 2, de 14 de Julho de 1917.
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