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DCF III-1, Doc. 285
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O jornal "O Mundo" publica um artigo sobre milagres, falando também no caso de Fátima.
Publ.: "O Mundo", Lisboa, 18 (6220), 12 Nov. 1917, p. 1, cols. 6-7
MILAGRES...
A SENHORA DE MANRICO
As aparições sagradas. — Discutindo o Creador. — M.D quebra o silencio. — Um "diestro em heroe" — O rosto da Santa.
Não ha que duvidar. Atravessamos uma era fecunda em milagres, em surpresas divinas, em manifestações celestes. Veio ela talvez para acordar o remorso na alma dos incredulos que teem procurado na sciencia, a moral, a verdade e o germen da felicidade universal que não haviam encontrado nos versículos de Moisés, nem nos suras de Mahomet. E de caminho, Deus, estando com a mão na massa, aproveita e tenta despertar a religiosidade adormecida no espirito das multidões. Faixas de mystica luz irrompem o ceu e patenteiam aos olhos estaticos dos ultimos crentes, apostolos aureolantes, santas que exalam de todo o corpo irradiações e brilhos estranhos, soes que cabritam no espaço como feras adestradas... São idolos anonimos que surgem, em varios pontos do país, no Soler, em Fátima e, segundo os catolicos, desde as curas maravilhosas do "menino milagroso", não apareciam provas tão evidentes da existencia de poderes divinos. O que não está bem definido é de que ordem são esses milagres nem a que atribui-los. E é tal o alarde que os padres por esse país fóra estão fazendo, na exploração torpe da rusticidade de uns pobres camponeses fanatizados, que se diria, que de novo o martir da Judéa tinha descido á terra, passeando pelas aguas do Tiberiades, curado doentes incuraveis, ressuscitado mortos e, como no conto de Eça, depois de se esquivar aos rogos de proteção dos ricos e dos poderosos, aberto a porta da gruta miseravel onde o pequeno paralitico, que jámais fôra beijado pelo sol, se estagnava sobre palhas humidas e podres, e exclamando:
— Aqui estou...
Uma controversia ao serão
Neste meu quarto de convalescente teem-se reunido todas as noites pessoas amigos que falam e contam coisas interessantes para me divertir. Ontem, um antigo condiscipulo pede-me licença para se fazer acompanhar de um intimo, que me apresentou como uma das maiores esperanças que teem saido nestes ultimos anos de Coimbra. Creio. E embora as nossas opiniões se tivessem chocado varias vezes, nem por isso lhe deixo de reconhecer uma cultura pouco vulgar, grande lucidez de espirito — tudo, na minha opinião prejudicado por uma ansia de bizarrice, de excentricidade. E, tendo-me concedido afoitamente permissão de reproduzir em jornal a nossa controversia, não terá, estou certo, de me retirar a consideração que me jurou ter-lhe inspirado, quando ler este artigo.
Vem a talho de foice a pantomima ridicula dos milagres — e o meu vizitante, com um pouco de teatralidade do alto do seu bacharelato declarou que não se ria dessas aparições milagrosas. Acrescentou que tinha havido sempre em todas as epocas casos que ninguem conseguira explicar e que a sciencia emperrava sempre porque se recusava a admitir factores sobrenaturais. E arengou ainda um discurso sobre o creador...
— Não acredito que você seja sincero — objetei. Entre a lei elementar de Lavosière e a fantasia disparatada da dèssociation de la matière do professor Stangersan du Mystère de la chambre jaune de Gaston Leroux — não hesita, julgo, em aceitar a primeira.
— De certo... concordou ele, sorrindo.
— Ora se aceita a lei Lavosiére, se está convicto que nada se cria e que nada se perde — como admite a existencia de um Deus construtor da terra e de todos os astros? Se nada se cria — como póde haver creador?
Ele continuava sorrindo-se e, fugindo a uma resposta directa, observou-me:
— Longa e penosa seria a discussão que aclarasse por completo tal assunto. Mas reneguemos a existencia de um creador. Poderá o meu amigo rir-se tambem da necessidade de se crer, de se mentir, de obrigar as massas á ignorancia da verdade, obriga-los a agradecer a Deus a felicidade suprema de viver.
— Sim ... agradecer uma felicidade que não se pedia, uma felicidade a que todos [se] cingiriam se podessem; uma felicidade que tem por terminus a morte...
— Queria a vida eterna na terra?
— Não. A morte não é nada. Ter angustias agonicas, que são o adeus á existencia, os tormentos inquisitoriais de quasi todas as agonias, parecem-me um capricho cruel — caso a engrenagem da vida tivesse sido planeada por um Deus.
— A fé é grande alivio das almas — acudiu, já sem o seu sorriso e cheio de calôr pela discussão. Tirar a fé ás almas simples do povo, é uma tirania. A fé, mesmo que seja por uma mentira, dá alívios infindos, aconchega as almas...
— E inutiliza as creaturas, amolentando-as e roubando-lhes a energia. Tambem a morfina semeia no sangue licôr dos sonhos suaves e deliciosos — e nem por isso deixa de ser um veneno, e o morfinista um suicida. A fé é morfina dos espiritos... Acalorou-se a conversa. Os outros circunstantes vieram com comentarios, ora discordando ora corroborando. Voltou-se ao milagre de Fátima. E o meu novo amigo, quasi colerico, jurava ter presenciado a aparição sagrada, ter visto o sol em cabriolas doidas. Mas M. D., um sportsman que se conservara até então num silencio fleugmatico, quebrou o seu mutismo para dizer:
— Caro senhor, nem nos nossos proprios olhos nos podemos fiar ás vezes. Tem paciencia para ouvir uma pequena historia? Sim? Pois então escute-me.
A senhora de Manrico
— Foi ha coisa de dez anos. Eu que tenho experimentado muito todos os sports estava então todo influido pela tauramaquia e, após alguns tombos e caricias corneas de vacas inofensivas, julgava me um Belmonte e já me iluminava o espirito esperanças de conquistar a gloria e a fortuna nos redondeis de Portugal e Espanha. Entrára em varias vacadas, quando fui convidado juntamente com outros futuros diestros da minha idade a entrar numa toirada com toiros de verdad, numa vila do Minho. Eramos uns oito rapazes, cheios de confiança e seguros de ganhar o coração de todas as gentis minhotas a arrancos de bravura e de destreza. Sonhavamos já a saida da praça, com a multidão a aclamar-nos e gritando: — Vivan los hombres valientes!!! Mas ai que desastre. Dos oito que eramos, só dois conseguiram voltar á capital — e esses mesmos um pouco bezuntados de tintura de iodo. A praça era improvizada, as trincheiras cahiram e só de uma vez vieram á praça tres toiros fugidos do curro. Não lhes conto nada. Foi uma apoteose de ligaduras num hospitalzito do sitio. O que mais sofreu fui eu, uma ferida quasi grave no peito. Os outros colegas da desgraça curaram-se e foram debandando para Lisboa até que fiquei só com um outro ferido — Mario Dantas, actualmente na legião estrangeira em França Já na convalescença, começamos a ouvir falar da senhora da praia de Manrico, vista pela primeira vez por dois petizes filhos do banheiro — um tal João Policarpo, de alcunha o “Mata-Enguias”, conhecido em toda a vila pela sua corpolencia e pelo seu carão horrível de homem da Idade da Pedra.
Todos os dias que amanheciam fôscos de nevoeiro, a população da vila corria á praia de Manrico, que fica muito proxima, e no alto de um monte chamado Pasqueira via-se passar um vulto azul que empalidecia atravez [d]a quasi opacidade das nuvens. E os petizes, os descobridores da aparição sagrada, estavam acocorados, olhando com um ar bestializado o povo que vinha de olhos escancarados, ajoelhar-se a rezar, depois de lhes deixar cair num prato moedas que muitas vezes eram de prata. E tanto ouvimos falar da Senhora Manrico que resolvemos travar conhecimento com ela, logo que a nossa cura fosse absoluta. E numa manhã pardacenta e triste, rumorejámos para a praia. Não sou eu de facil sugestão, mas de facto ante os meus olhos, no alto da Pasqueira uma criatura cujo rosto era impossivel descobrir, envergando qualquer coisa como um manto de um azul deslavado ia-se aproximando, sem se vêr andar, como que etereamente. Depois parou, traçou no espaço como que uma benção e começou recuando do mesmo modo, até desaparecer por completo. Eu e o meu companheiro olhámo-nos e sem falarmos fizemos como que um pacto para esquadrinhar o que havia naquele misterio...
Á espreita da Santa — Uma senhora milagrosa de cacete
Mas era dificil o que pretendiamos. Era preciso primeiro um palpite para se calcular o tempo do dia seguinte. Depois, a subida para a Pasqueira de noite, tinha agruras de uma ascensão ao Monte Branco. Mas nós encolhemos sempre os ombros ás dificuldades por maiores que elas fossem e, por mais de uma vez galgámos em vão o ingreme atalho que nos conduzia á cabeça deserta da Pasqueira. O dia amanhecia sorridente de sol e nós tinhamos de descer outra vez á praia, cheios de raiva pelo fiasco. Um dia, porém, acertámos. O nevoeiro, tão habitual naquelas paragens, surgiu, semi-londrino, ahi pelas duas da madrugada, e nós como salteadores, não vendo um palmo adiante do nariz, esfolando as mãos, lá conseguimos alcançar o ponto desejado. Esperámos, encobertos por monticulos. Ainda não eram seis horas da manhã já a praia estava coalhada de pessoas, que a distancia tornava liliputeanas. Pouco depois vejo eu, no meio de Pasqueira, fóra do alcançe da vista dos ingenuos que lá debaixo esperavam com impaciencia a celeste aparição para fazer os seus rogos, uma criatura, envolta em azul, subir para um tablado, um pequeno carro de rodas que desapareciam na erva. Da trazeira do carro estendia-se uma vara que um homem de sueste na cabeça e capa de oleado segurava a distancia.
Bruscamente, vejo o individuo de vez empurrar a vara e o carrito avançar vagarosamente. Acocoramo-nos mais e tentamos descobrir o rosto [...]3
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (2)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.