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DCF III-1, Doc. 337

4 dez. 1917Lisboanotícia de imprensaO Mundo (membro da missão do Registo Civil)
Índice (6 secções)
  1. REPUBLICA E LIVRE PENSAMENTO
  2. A missão a Ourem e a Fátima foi um belo triunfo para a dupla causa
  3. Em Caxarias
  4. Em Vila Nova de Ourem
  5. Em Fátima e na Cova da Iria
  6. O banquete de confraternização

O jornal "O Mundo", publica o relato dos comícios realizados em Ourém e em Fátima.

Publ.: "O Mundo", Lisboa, 18 (6241) 4 Dez. 1917, p. 2, col. 3-4.

REPUBLICA E LIVRE PENSAMENTO

A missão a Ourem e a Fátima foi um belo triunfo para a dupla causa

Os elementos reacionarios, com o dengoso adelaidismo clerico integralista á frente, sentiam engulhos pelo facto de ter a associação do Registo Civil resolvido nomear uma missão que fosse, no proprio sitio escolhido para teatro da indecorosa comedia "milagreira" da suposta "aparição" de uma não menos suposta "virgem" a uma criança de Fátima, "milagre" reclamado com estampas e tudo, em órgãos de larga publicidade. Não faltaram profecias tetricas e outras tentativas de evitar que a missão lá fosse. Tudo, porem, era baldado, pois nada havia que pudesse desviar os enviados da Associação do Registo Civil, srs. Antonio da Conceição Vasques, Augusto José Vieira e João Machado Toledo, de se desempenharem do encargo de que haviam sido incumbidos. E o resultado foi o que esperava: um triunfo para a benemerita colectividade e para a causa que ela defende.

Em Caxarias

Após uma viagem interminavel num comboio que parecia puxado a bois com fome, os delegados, que desde Chão de Maçãs eram acompanhados pelos representantes do Centro Republicano de Vila Nova de Ourem, srs. João Espada, Filipe de Almeida e Manuel de Freitas, chegaram á estação de Caxarias, onde os esperavam numerosos livres pensadores e republicanos, que, ostentando o estandarte do Grupo de Defensores da Republica, lhes fizeram uma entusiastica recepção. Feitas as apresentações pelo nosso amigo e dedicado correligionario Artur de Oliveira Santos, digno administrador do concelho de Vila Nova de Ourem, foi oferecido aos visitantes, em casa do nosso correligionario sr. Rodrigues Trezentos, um jantar intimo, que decorreu animadissimo, sendo apenas proferido um brinde pelo chefe da missão.

Em Vila Nova de Ourem

Foi relativamente rapido o trajecto para a séde do concelho, onde, á chegada dos viajantes, estralejavam no ar repetidas girandolas de foguetes, emquanto, no Centro Republicano, onde se ia realizar a sessão solemne, lhes era feito carinhoso acolhimento. Eram 21 horas quando o sr. Artur Santos abriu a sessão, expondo-lhe eloquentemente os fins, fazendo a apresentação dos oradores e propondo para a presidencia o nosso colega Augusto José Vieira, o qual, recebido com uma calorosa ovação pela numerosa assistencia, que enchia literalmente a vasta sala do Centro, escolheu para secretarios os srs. Moura Zenoglio e Albertino Ferreira. Proferiram, no meio dos mais entusiasticos aplausos, vibrantes e patrioticos discursos o presidente e os srs. Conceição Vasques, Machado Toledo, Moura Zenoglio e Albertino Ferreira, que historiaram largamente a data gloriosa que se comemorava, fizeram a apologia da bandeira verde-rubra da Patria emancipada pela Republica, e, entrando depois no assunto principal que ali levara a missão lisbonense, caíram a fundo sobre a reacção clerical, aplaudindo-os a assembleia com crescente entusiasmo, sendo as damas as primeiras a apoiar com os seus aplausos as passagens em que mais veementes eram os ataques. O vil embuste de Fátima foi valentemente fustigado, verberando todos os oradores esse meio ignobil de especular com a ignorancia e com a ingenuidade do povo para mais facilmente o explorar e oprimir. Incidentemente se tratou tambem da guerra europeia, glorificando-se as nações aliadas e condenando-se com a maxima energia o germanofilismo do Vaticano, a quem os boches subornaram com o engodo do restabelecimento do poder temporal do papa. A sessão, que decorreu sempre vibrante de entusiasmo, encerrou-se ás 23 horas e meia, soltando-se calorosos vivas á Patria, á Republica, ao livre pensamento, á Associação do Registo Civil e aos seus enviados, aos drs. Afonso Costa, Magalhães Lima, Teofilo Braga, etc. Um grupo de interessantes criancinhas, empunhando bandeiras nacionaes, entoou com muita correcção a Portuguesa e a Maria da Fonte, sendo entusiasticamente ovacionado.

Em Fátima e na Cova da Iria

No domingo, após um almoço intimo em casa de Artur Santos, partiram os visitantes, acompanhados de um grupo de livres pensadores de Vila Nova de Ourem, para Fátima, onde tiveram uma pequena paragem, durante a qual lhes foi comunicado que o respectivo paroco, padre Manuel Marques Ferreira, tinha ido celebrar a missa para a capela da Ortiga a oito quilometros de distancia, a fim de afastar dali os seus paroquianos.

Sorrindo do ridiculo truc do tonsurado, os excursionistas seguiram para a Cova da Iria, teatro escolhido para o milagre. Apesar da grande distancia e das dificuldades de transporte, e apesar ainda do truc do padre, não faltou quem escutasse os oradores srs. Augusto José Vieira, Conceição Vasques, Machado Toledo e Artur Santos, que deu conta de um telegrama de adesão do Centro Republicano Democrático de Leiria. Todos os oradores frizaram que não iam ali ofender nem desrespeitar as crenças sinceras de quem quer que fosse, mas apenas verberar a especulação clerical dos burlões do povo e convencer este de que quem lhe fala em milagres e aparições só tem em vista ludibriá-lo para melhor o escravizar. Soltaram-se calorosos vivas á Republica, entusiasticamente correspondidos, junto á grosseira caranguejola ali construida de ripas de madeira, para armar ao efeito. Ao longe, pobres mulheres fanatizadas, cantavam o Bemdito! É o que prova a necessidade de se repetirem missões como esta. Ao sr. presidente da Republica foi enviado o seguinte telegrama:

Os livres pensadores de Vila Nova de Ourem e os representantes da Associação do Registo Civil saudam a Republica na pessoa do seu primeiro magistrado e fazem votos por verem garantida a liberdade da consciencia nacional.

O regresso fez-se por Aljustrel, no intuito de ver as crianças milagreiras, sobretudo a vidente Lucia, o que se não conseguiu, por ter ido com o padre para a Ortiga e as outras foram negadas pela mãe, naturalmente industriada para isso pelo padre. O serviço de policiamento era feito por uma força da guarda nacional republicana sob o comando do 2º sargento sr. Mauricio Costa, dedicado republicano e convicto livre pensador.

O banquete de confraternização

Á noite foi servido, na sala do Centro Republicano, um lauto banquete, que decorreu animadissimo, levantando os srs. Artur Santos, Augusto José Vieira, Machado Toledo, Albertino Ferreira, José Candido de Carvalho, Conceição Vasques, Moura Zenoglio e Alfredo Rodrigues Cunha, entusiasticos brindes á Patria, á Republica, á Associação do Registo Civil e seus delegados, ao exercito e á marinha, ás nações aliadas, aos drs. Afonso Costa, Alexandre Braga, Magalhães Lima e Teofilo Braga, ao velho republicano sr. Manuel Pereira Gomes, etc. Os enviados de Lisboa foram nomeados socios honorarios do Centro Republicano, sendo-lhes nessa ocasião entregues os diplomas, que eles agradeceram penhoradamente. Um orfeon infantil entoou, por entre calorosos aplausos, a Portuguesa, a Marselhesa, a Maria da Fonte e o himno da Restauração. Assim terminaram, deixando em todos as mais gratas impressões, estas duas belas jornadas de propaganda republicana e anti-clerical

Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 9, de 18 de Agosto de 1917, nota 1.
2 No texto, conselho
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