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DCF III-1, Doc. 346

20 dez. 1917Portonotícia de imprensaJoão Semana

O jornal “Liberdade” publica uma reflexão sobre Fátima.

Publ.: “Liberdade”, Porto, 4 (1059) 20 Dez. 1917, p. 1, col. 6-7.

FÁTIMA II

N’esta altura, estabelecida a questão de facto, convém illucidar uma questão de fórma, para não irmos tambem reforçar com a nossa duvida prudencial, o scepticismo racionalista de certas pessoas constituidas em sobranceira superioridade mental, que não acreditam em milagres, porque são pessoas de lume no olho que só acreditam na sciencia. A essas pessoas, eu sinto muito de dar-lhe a triste novidade de que a interessante posição de negação systhematica é hoje perfeitamente antiscientifica.

É já bem passado o tempo em que só se admittiam as verdades deduzidas por um raciocinio abstracto como as verdades mathematicas, ou as conquistadas pela observação directa e pela experiencia palpavel.

N’esse tempo, passado e bem passado, além da estreita tira dos conhecimentos chamados positivos só ficava o vasto mar do incognoscivel vedado a toda a conquista de verdade. Hoje, o espirito humano soltou essa ligeira palissada, e todos os systhemas phylosophicos dão direito de cidade, quer ás verdades conquistadas pela intuição directa, quer ás verdades deduzidas de um sentimento moral, ou de um[a] revelação sobrenatural, quando documentada pela historia e sanccionada por um praso matono superior. Os que se ficaram pois no limite do palpavel, aquellas sabias creaturas que não acreditavam na alma, porque o escalpello nunca a tinha dessecado estão largamente atrazados. Pertencem como por curiosidade historica, ao tempo de Mr. Homais o impagavel boticario de Flaubert3 que, ainda é o grande molde dos espiritos fortes.

Hoje, o direito de crêr e a legitimidade da crença são perfeitamente affirmados pela sciencia, a qual tem a sua esphera propria mas que não constitue a unica esphera de conhecimentos humanos. Póde-se, pois, acreditar no milagre, sem vergonha e sem receio de apoucamento de inteligencia e de subordinação de mentalidade.

Agora quem mais admiro no seu scepticismo racionalista são certas pessoas bem pensantes que se dão por gentes christãs e catholicas, mas que não acreditam em milagres. Esta especie rara, creio que é só portugueza e por o ser merecia mais largo commentario. Limitar-se-ha, porém, na simples pergunta: Que ideia faz essa gente do caracter sobrenatural da sua religião? que outra coisa é ella mais que um encadeado fortemente travado de factos miraculosos no seu duplo caracter, de estarem muito por cima das simples leis naturaes, e de estarem em relação com uma acção constante da Providencia? O milagre é a seiva nutritiva de espiritualismo christão, a rubrica potente que Deus põe no governo no mundo. Faltando elle, a crença no sobrenatural affrouxa, evapora-se o espiritualismo e a sua efficacia moral reduz-se a meras formalidades. Pretender uma religião sem o sobrenatural, seria reduzir Deus a uma inactividade dormente, relegal-o para um afastamento longiquo das causas do mundo, do espirito e do coração.

Infelizmente, é dentro d'este quadro desolador que se emmoldura a situação mental e moral do povo portuguez, n'esta épocha de immenso deserto espiritual, em que todas as grandes cathegorias sentimentaes cahiram no marasmo e no collapso. Collapso da religião sem vida nem vigor, reduzida a aspirações vagas e dispersas; collapso do espiritualismo e das suas elevações moraes affogadas por um materialismo grosseiro; collapso do patriotismo dissociado por um commodismo parado e por uma completa anarchia mental; collapso de familia, collapso da economia nacional, collapso de todas as caracteristicas fecundas da energia e da estabilidade dos povos.

No momento tragico em que vivemos, as gentes espavoridas pelo espectro da anarchia, de fome, e do desmembramento da Nação, gritam de toda a parte com uma intenção profunda no meio da sua sonolenta semiconsciencia: Só um milagre póde salvar-nos. A alma simples da multidão busca algures esse milagre salvador. Tal é a explicação psychologica d'esse caso emocionante de Fátima.

Eu não sei se em Fátima se deu um milagre. Devo collocar-me no prudente estado de duvida critica, que me impõem o feitio da minha mentalidade, a disciplina critica em que fui educado, a contigencia de cahir no ridiculo e a obrigação de não me deixar emocionar por narrativas sinceras sim, mas pouco seguras.

Mas esta attitude de defeza não impede que eu creia sim, no milagre de Portugal. Por dois grandes motivos: o primeiro porque a situação creada ao nosso paiz não tem sahida natural. Por mais voltas que o meu espirito dá ao problema nacional não a encontro, só nos resta appelar para Deus. A outra porque tenho para mim que o povo portuguez tem ante Elle uma conta corrente de serviços que a sua infinita justiça não póde esquecer. Se os francezes celebram os Gesta Dei per Francos, as coisas que Deus fez por meio dos francezes, com que direito não podemos nós fazer valer ante Elle, as coisas grandes que lhe aprouve realisar pela grandeza dos nossos Reis, pela espada dos nossos soldados, pelas virtudes dos nossos santos; as quaes elle lha aprouve vehicular pela prôa alterosa das nossas naus atravez dos mares, n'um enorme carregamento de Fé e de Civilização consignado o mundo conhecido e desconhecido! Deus não é capaz de deixar as suas dividas em aberto sem alento. Se precisamos [de] um milagre certamente o fará. Por meio de um santo guerreiro de alma ascetica e mystica e de espada vencedora como Nun'Alvares, por meio de uma pastora illuminada como Joana d'Arc? Isto só importa a Deus; que lá guarda em si as razões - porque escolhe os seus meios.

O instincto popular, com a sua logica verdadeiramente historica buscou esse medianeiro na personalidade augusta da Mãe de Deus: e assim como a independencia se consolidou ante Santa Maria da Batalha, os descobrimentos se iniciaram ante Santa Maria de Belem, a Restauração ante Nossa Senhora da Conceição de Villaviçosa, encontrou na sua logica mystica tambem a certeza de ver aparecer no horisonte celestial o apparecimento de Nossa Senhora do Resurgimento, surgindo do horisonte celestial da luz azulada. "Como se visse (diz a D. Magdalena Patricio) atravez dos vitraes de uma cathedral immensa, espalhar se n'aquella nave gigantesca ogivada pelas mãos que se ergueram no ar".

João Semana

Notas dos editores

3 Gustave Flaubert, escritor francês (1821-1880).
Aparato crítico e remissões (4)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 4, de 25 de Julho de 1917, nota 1.
2 Sic. Será muito?
4 No texto, iluminado.
5 Cf. Doc. 127, de 19 de Outubro de 1917.
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