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DCF III-1, Doc. 354

dez. 1917Braganotícia de imprensaPe. João Vacondeus

A revista "Fé Christã"1 publica um comentário sobre as aparições de Fátima.

Publ.: "Fé Christã", Braga, 6 (8), Dez. 1917, p. 342-345

DE RELANCE...

O SOBRENATURAL

Não é um artigo theologico a proposito do Sobrenatural que vamos escrever, mas uns commentarios despertados pelas chamadas apparições de Fátima.

Algumas vezes temos manifestado um certo optimismo no meio da espantosa desaggregação que vae inutilizando ha mais de sete annos as energias da raça em Portugal. Que não era uma utopia esse optimismo atesta-o a revivescencia da fé religiosa; n'uns, tomando o caracter de protesto, o que é um estado muito imperfeito de crenças; n'outros, desabrochando como flôr pujante de seiva, sob a influencia d'um clima ardente

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Os acontecimentos de Fátima vieram pôr em evidencia o estado de espirito dos contemporaneos. Suppunham muitos pensadores e até d'entre os catholicos que o espirito religioso estava de todo apagado na maioria das consciencias. As ambições vis haviam pervertido em Portugal. Certos aspectos de religiosidade nada representavam na desejada intensificação das crenças. Mais por tradição e por sensibilidade do que por convicção definida capaz de se defrontar com o erro, vivia pr'ahi uma grande multidão de frequentadores dos templos.

E d'entre esses, os homens não formavam por certo, legião.

Quando muito respeitavam as crenças da familia, assistindo, por passa-tempo e curiosidade ás festas pomposas. N'esta facil participação d'alguns deveres christãos, quantos, pondo voluntariamente um limite na propria annunciação dos dogmas e vivendo na perigosa illusão de que alcançariam o céu sem sacrificio de maior! A indifferença religiosa produziu a indifferença politica e social. Um individualismo feroz amorteceu o espirito de caridade. A Religião não influia profundamente nos costumes. A crença n'uma ordem sobrenatural quasi desapparecia no tumultuar violento das ambições, dos prazeres, das riquezas. Para o sacerdote, que muito de perto conhece estas miserias moraes, o estado dos espiritos tem sido considerado de extrema decadencia; e não é raro o appêlo quasi exclusivo para o céu, n'uma terra deschristianisada, onde pouco ha a esperar d'uma lenta evolução e d'uma educação religiosa limitadissima, deficientissima, que, infelizmente, não attinge o grosso das populações, por culpa dos que, dispondo de influencia e de riqueza, desattendem os successivos avisos e appellos da Igreja e dos seus ministros para crearem e protegerem obras sociaes catholicas.

Aqui e alem, homens bem intencionados, imparciaes, contemplando as injustiças soffridas pela Igreja e pelos seus sacerdotes e filhos mais dilectos, n'estes sete annos de provação, teem reconhecido a verdade do christianismo e a necessidade de oppôr fortes diques ás correntes caudalosas de males chronicos aggravados pela enxurrada tempestuosa das revoluções. Mas esse apoio não bastava a desfazer a impressão geral da indifferença religiosa ou da cobardia collectiva. Portugal — para que occultal-o? —, tem sido julgado por eminentes pensadores um paiz perdido; perdido para a independencia politica e para a civilisação christã. Contribuiam para este raciocinar pessimista os mais assustadores symptomas de dissolução, pois, quando menos se esperava, veio um facto notavel animar os desalentados prophetas do infortunio nacional; uma d'essas revelações que não illudem e que se impõem, por si mesmas, ao estudo e ao jubilo dos verdadeiros pensadores, n'uma surpresa cheia de lições altissimas, que urge aproveitar.

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Quando n'um pequeno paiz de cinco milhões d'almas se reunem, n'um logar solitario, á voz de tres crianças incultas, rudes, cincoenta mil pessoas, concorrendo de todos os pontos d'esse paiz, n'um alvoroço de fé ou de curiosidade e sem receio da chuva copiosa e das fadigas de oito ou nove leguas, que muitos andaram a pé, desde a estação ou povoação mais proxima até o logar das citadas apparições de Nossa Senhora a tres pastorinhos, não está tudo perdido.

E o que é mais de notar (são os proprios jornaes anti-catholicos que o affirmam), não houvera suggestões do clero, que alli fôra como curioso e que usava de toda a prudencia, e está usando, nos commentarios feitos ao que se viu e apurou até agora de differentes narrativas; a impressão, á vista dos phenomenos do sol, na hora das apparições, foi das mais profundas e emocionantes; aquella multidão chorou, proclamou o poder de Deus, ajoelhou, resou, cantou canticos, pediu misericordia em altas vozes, receou quasi que o sol se despenhasse das alturas em que se mostrava oscillante, n'uma vertigem de movimentos e de côres, acreditou n'um milagre, no que as crianças diziam e censurou e continua a censurar as pessoas que ousam, mesmo prudentemente, pôr de reserva e em expectativa digna de catholicos, a serie de informações milagrosas.

Á imprensa teem vindo defezas calorosas, brilhantes de convicção na existencia de milagres em Fátima; senhoras piedosas e illustres publicaram artigos interessantissimos sobre o assumpto; e ha, em geral, uma hostilidade aberta contra os que negam o sobrenatural nos casos de Fátima ou duvidam da sua veracidade e significação. A esse desagrado dos que acreditam nas revelações ás crianças e no milagre do sol — e são quasi todos os que estiveram em Fátima em 13 d'outubro ultimo, á uma da tarde, não escapou o snr. dr. Domingos Pinto Coelho, caracter dos mais nobres, catholico d'auctoridade e prestigio indiscutiveis, porque veio lealmente confessar que viu no sol, no dia seguinte, os mesmos phenomenos e explicar o conceito catholico a observar em casos d'esta ordem: prudencia, estudo e expectativa.

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Qualquer que seja o resultado dos escrupulosos inqueritos que pessoas de competencia estão fazendo, ou se conclua pelo milagre ou pela incerteza ou pela negação d'elle, ha em tudo isto um facto animador que a imprensa catholica não póde deixar de constatar jubilosamente: é a tendencia para o Sobrenatural, a vibração de fé que estuou em tantas almas, o reconhecimento publico e solenne do poder de Deus, a perturbação de muitos que iam alli por mera curiosidade ou talvez para zombar dos que acreditavam nas apparições; o ajoelhar irresistivel, espontaneo, de muitos descrentes; a psychologia que então se estabeleceu e que tende a generalisar-se mercê da ardente propaganda que os assistentes de Fátima espalham onde quer que se encontram.

A facilidade com que se estabeleceu uma tal corrente, que já tem attingido evidentes exaggeros como os da pretenção de dar como assente o que a Igreja não examinou ainda, o conjuncto de impressões e de enthusiasmos e a anciedade geral de crêr, vieram provar, repetimos, que em Portugal não está tudo perdido. Reviveu, em Fátima, e em alguns instantes, a antiga alma portugueza. Um mundo superior ao das miserias em que vivemos se entremostrou aos olhos ávidos da multidão que representava alli a aspiração generosa do Portugal catholico, ordeiro e fervoroso. O sentimento colectivo, dominado pela intensidade de fé ou pela surpresa de manifestações unicas, fez a policia do logar. N'uma multidão de cincoenta mil pessoas não houve um incidente a lamentar.

Veja pois ahi a jacobinagem e vejam os que nas cadeiras do poder teem desprezado, tanto na Monarchia como na Republica, a influencia da Religião o erro enorme que ha n'essas perseguições estupidas e injustissimas contra a primeira força civilisadora e ordeira do mundo.

Juntem ao mal-estar e ao geral protesto do paiz ante os abusos commettidos estas indicações de crença e concluirão connosco: em Portugal, com trabalho e muita paciencia e intelligente criterio póde conseguir-se uma verdadeira rechristianisação!

P.e JOÃO VACONDEUS.

Notas dos editores

1 Editor: J. Viegas; Director: Zuzarte Mendonça; Editora: Casa Catholica.
Aparato crítico e remissões (1)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

2 Cf. Doc. 261, de 4 de Novembro de 1917, nota 4.
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