Explorar / Documento

DCF III-1, Doc. 84

15 out. 1917CartaxocartaFernando António Souza Coutinho

Carta de Fernando António Souza Coutinho1 a Amadeu Buceta Martins2, sobre o que presenciou na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917.

A - ASF - Caixa de 1917 (oferecido, no dia 15 de Janeiro de 1978, pelo próprio destinatário, General Amadeu Buceta Martins).

Descrição do documento: Papel de carta com três folhas, numeradas pelo autor de 1 a 3, de quatro páginas cada uma. O autor escreveu nas margens superiores de todas as páginas, excepto da primeira.

[No Sobrescrito:] Para o Amadeu do / seu amiguinho Fernando

(1) 15 de Outubro de 1917

Caro Amadeu.

Agradeço imenso o postal que me enviaste no entanto torno-te a perguntar:

Tu pões ou tens posto as estrelas4?

Bem posto isto vou te descrever uma coisa que se passou comigo e que tu apreciarás como e da maneira que quizeres.

No dia 12 sexta feira parti com o meu bornal que já conheces dos casaes5 cheio de latas de conserva e pão etc para a estação6 para apanhar o correio das 11 e meia cheguei ao entroncamento onde o comboio se demorou 2 horas e meia chegando a "chão de maçãs" ás 4 1/2 da tarde onde me apiei tendo encontrado logar na diligencia com muita sorte pois que muita gente ficou em terra e ás 5 e meia cheguei a Vila Nova de Ourem. Esta minha viagem teve por fim ir ver o milagre de Fátima. No caminho encontrei centenas de pessôas que para lá se dirigiam.

Por mesericordia pedi logar numa casa d'hospedes mas não havia no entanto no fim de muito pedir deram-me uma cama num quarto de passagem. Deitei-me vestido e ás tantas sinto imensas comichões de persevejos que me comiam vivo agarrei na manta e na almofada que levava (que fazia parte da minha mochila que pesava 12 Kilos) e deitei-me no chão adormecendo durante meia hora acordando pouco depois com uma criada zangadissima por eu não me servir da cama. Para amostra tornei-me a deitar em cima da cama acordando outra vêz com uma ratazana em cima de mim a roer-me o pé o qual sacudo dando com o pé num alguidar que ia caindo com grande estardalhaço; isto á 1 e 1/2 da noite desisti de dormir e levantei-me ás escuras por que a criada levou-me os fosforos.

Durante toda a noite passou gente para Fátima. Ás 4 da manhã pessôas vindas num automovel bateram á porta aproveitando eu a ocasião para sair da casa sem saudades andando 12 K. de baixo de chuva constante e vento que cortava a cara se não fosse agua ardente que levava nem sei se chegaria ao sitio do milagre.

Ás 9, hora a que eu cheguei já se encontrava gente que tinha passado a noite á chuva. Até ás 2 horas hora a que devia haver o milagre não parou a chuva grauda tendo toda a gente sem arredar pé do sitio ficado molhada até aos ossos. Eu com capote e almofada na cabeça e manta por cima de tudo corria-me a agua pelos braços a baixo. Até ás 2 não parou a afluencia de gente e de vieculos de todas as especies e todas as provincias. Automoveis de Espanha e França; mulheres vindas a pé do Algarve e Alemtejo Varinas de Lisbôa que gastariam 18 000 na viagem emfim coisa (2) que eu nem tu vimos em dias da nossa vida. A charneca da aparição é no genero dos cassais do meu pae uma planicie circundada de montes e por esses montes e vale as pessôas acotevelavam-se como num comicio na Rotunda13.

Eu e toda a gente (apesar dos jornais anti-catholicos darem para baixo no numero de pessôas calculamos mais de cento e tantas mil pessoas de todas as regioes do pais etc.

Apesar da chuva incessante ouvia-se por todos os lados córos de raparigas afinadas a cantarem cantos sagrados.

Até ás 2 horas hora a que vieram as raparigas a quem aparecia Nossa Senhora não cessou afluencia de gente de todas os sitios do paiz com 12 leguas de vinda e 12 de ida a pé.

As pequenas ajoelharam-se no meio da turba onde havia um altar tosco e do qual eu estava distante apenas 100 metros tendo por isso muita sorte. O circulo de gente em volta das pequenas tinha um Kilometro de comprido por outro de largo dentro do qual se achava uma denssa maça de gente. A chuva continuava sempre sempre as mulheres até tremiam o queixo de molhadas que estavam nisto as pequenas mandaram fechar os chapéus de chuva e a chuva parou imediatamente.

Em o ceu que estava completamente toldado de nuvens abriu-se um circulo onde se via o sol como se fosse a lua num dia de luar e apresentava em volta uma aureola de prata.

O circulo tomou então as cores sucessivamente azul encarnado amarelo e verde ao mesmo tempo todos os objectos tomavam essa côr. Isto durou 1 minuto findo o qual toldou-se de novo o ceu. Em seguida a ocasião em que Nossa Senhora falou com as pequenas e para o que desceu do ceu formou-se uma nuvem escura em volta do sol que toda a gente podia fitar sem lhe doer a vista tomando varias cores e parecendo descer sobre nós. Depois quando Nossa Senhora subiu ao ceu a nuvem agora que parcia fogo subiu de novo com o sol e a nuvem começou a girar em volta do sol em quanto este sobre o fundo azul do ceu sempre com a aureola de prata começou a tremer imenso.

Só visto este milagre deslumbrante é que se pode fazer ideia e eu dou-te a minha palavra d'honra que me convenci de que era milagre e tenho por testemunhas as 100 000 pessôas que assistiram. Digo-te tambem que logo que acabou o milagre que ao todo teve a duração de 15m. o sol brilhava de tal forma e como costuma todos os dias que ninguem como sabes é capás apenas durante 1m de o fitar. Ao mesmo tempo que se dava tal fenomeno elevava se ao ar de 100 000 bocas esclamações pias. Tendo eu assim como me disseram mais pessôas, uma impressão extraordinaria de modo ao mesmo tempo do que uma vontade saber o impossível. Findo o milagre toda a gente acordou como dum sonho e a impressão passou.

(3) Nossa Senhora disse áos pequenos para se fazer uma ermida nesse sitio e que a guerra acabava daqui a pouco tempo e que os Portuguezes voltariam em breve. O homem a meu lado que não acreditava em nada foi-se convertendo a pouco e pouco emquanto o milagre se dava. No fim de tudo toda a gente quiz ver as pequenas para o quê fiz varios esforços mas não consegui nada e quasi por um triz que não partia um braço. Toda a gente começou a retirar na melhor ordem sem ser preciso policias.... Não vi nenhum bebado nem houve sequer uma discussão. Enterroguei varias pessoas sobre o sucedido e toda a gente me dizia e me contava da maneira porque eu tinha visto. Durante 4 a 5 a 6 horas (só a metade porque a outra metade que éra de oeste retirou por outra estrada) desfilou como na avenida aos domingos ou como a saida da Praza de touros durante a estrada de 12 Kilometros a ponto tal que os automoveis acompanhavam os carros. Fiz-me a caminho de chão de maçãs percorrendo 22 Kilometros ao som dos canticos das raparigas de Tomar do Alemtejo etc. Veiculos ao todo deveriam ser 1000 pois que automoveis somente da parte de leste passava de 100 o seu numero.

Cheguei a chão de maçãs ás 9 e ½ tendo palmilhado nesse dia 34 K ao todo só com 2 latas de sardinha no bucho, porque as enjoei e nada mais levava. Para o fim desse 34 K já quasi que não podia porque a carga era muita e o capote cobertor e almofada inchados com a chuva pesavam o dobro. Mais uma noite em claro e vim no comboio das 4 e ½ que só chegou a S. Anna ás 8 e ½ e que vinha á cunha. Eu estava fraquissimo e cançadissimo. Parti para o cartaxo, mais 3 K e levaram mais tempo a andar do que 6 porque 3 dias sem comer quasi nada e estafado de ter andado ao todo 40 K comigo e com a mochila e molhado até ás entranhas e no entanto depois disto tudo digo-te que valeu a pena. Não fui eu só que o digo.

Havia pessoas que ao todo tinham 6 dias de viaggem a pé com 24 leguas de caminho e diziam o mesmo.

Todos, homens e mulheres vinham indignados com os livres pensadores e são 100 000 pessoas testemunhas dum milagre que ninguem pode contestar. Cheguei domingo ás 10 da manhã e depois de ter comido e descançado porque eu nem falar podia espliquei tão sensacional fenomeno. Hoje 2ª feira leio ja no seculo a descrição dos reporters que encontrei no caminho e que não contestam. No entanto o seculo como seu habitual costume debaixo de capa faz troça. Desculpa a redacção e a ortografia e guarda esta carta e acredita o que ela encerra porque eu vi e dou-te a minha palavra do que ahi vai escrito foi o que me aconteceu e vi. Recebe um apertado abraço deste teu amigo

Fernando.

P.S. Estou cansado e quando poder e depois de receber resposta tua irão mais pormenores.

Notas dos editores

1 Terceiro filho dos Terceiros Marqueses do Funchal, D. Agostinho de Souza Coutinho e D. Maria de Assunsão Gomes da Mata de Souza Coutinho. Frequentava na altura o Colégio Militar - o 6º ano - e desde o 3º ano, era colega de carteira de Amadeu Buceta Martins. Nesta altura o pai era juiz no Cartaxo. Mais tarde, Fernando António Souza Coutinho veio a ser Conde do Funchal. Foi o autor de: "Como assisti em 1917 a um dos milagres de Fátima", em: Parcelas do meu caminho, Lisboa, 1959, p. 132-137.
2 Nasceu a 27 de Março de 1901, em Luanda. Era filho de Manuel Martins, Major reformado do Exército Colonial. Foi admitido no Colégio Militar a 20 de Outubro de 1913, para a 3ª classe. Em 1916/17 passou para a 7ª classe. Saíu do Colégio Militar a 19 de Junho de 1917, por ter concluído o curso. Faleceu, em Lisboa, a 25 de Maio de 1984.
4 Estrelas de graduação do Colégio Militar de Lisboa.
5 Casais, localidade da freguesia do Cartaxo, para onde o Conde do Funchal tinha convidado o seu amigo Amadeu - carta de 1917-08-13 - e onde de facto esteve.
6 Estação do caminho de ferro de Santana ou Ponte Santana, freguesia do Cartaxo. (Cf. Parcelas do meu caminho, p. 133).
13 Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, local habitual das manifestações políticas da época.
Aparato crítico e remissões (33)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

3 15 de Outubro de 1917, sublinhado no original.
7 No original, no.
8 No original encontre.
9 No original, milgre.
10 No original, coria-me a aguas
11 No original, não, por nem.
12 Riscou a.
14 No original, mentros.
15 Riscou não.
16 No original, emediadamente
17 Riscou que.
18 Riscou descendo.
19 Riscou ao ceu.
20 Riscou ambos e substituiu por nuvem.
21 No original, pratra.
22 Riscou especataculo e substituiu por milagre.
23 No original, idei.
24 Riscou as 100.
25 Riscou na.
26 O autor hesita entre aos pequenos e ás pequenas.
27 acreditavam corr. acreditava.
28 Riscou que.
30 -d- escrito sobre emenda.
31 No original ... sardinha no bucho. porque as enjoei. -e- escrito sobre emenda.
32 No original mais.
33 Riscou St.
34 Riscou palavra ilegível.
35 -gg- escrito sobre emenda.
36 No original, dee.
37 e dizi corr. de caminho
38 No original, conido.
39 No original, hoje
40 troça corrigido sobre palavra ilegível.
Abrir