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DCF III-2, Doc. 369A

30 mai. 1918Aldegaleganotícia de imprensaBelo-inho

Doc. 369A1

Artigo do jornal "A Razão"2, falando de Fátima.

Publ.: "A Razão", Aldegalega, 3 (126), 30 Mai. 1918, p. 1, col. 4 e p. 2, col.

A "FITA" CORRENDO

(O aparecimento d'uma santa)

Atraído mais ou menos pela curiosidade, fui tambem até ao local da Fátima (concelho de Ourem) onde diziam aparecer uma santa nos dias 13 de cada um dos mêses do ano findo. Milhares de pessoas e milhares de veículos ali se encontravam é incontestavel. Mas perguntarei seria porventura a crença que persistia nos visitantes? Seria a devoção de religiosos que ali os atraía? Não, simplesmente a curiosidade. Uma minoria seria atraída por crenças religiosas. Os restantes não. E éssa minoria se quizesse encarar o sucedido pelo prisma da realidade, sairia dali completamente descrente. Tudo o sucedido com referencia ao milagre, não passou de mera fantasia. E posto isto tomemos duas hipóteses. Ou a santa apareceu ou não apareceu. Se apareceu dizendo pela boca dos pastores que a guerra acabaria naquela ocasião, mentiu, visto que precisamente nessa epoca algumas républicas americanas anunciavam a sua participação na guerra. Se não apareceu direi que todos os clericais que faziam propaganda do referido milagre, caíram num embuste. Em qualquer das hipóteses o chamado milagre da Fátima nunca poderá passar por um facto, mas sim por mera fantasia. É incontestavel que o sol sofreu uma alteração qualquer (contra factos não ha argumentos) observado não sómente na Fátima, mas sim em muitos outros pontos do paiz; mas perguntarei:

— Teve a santa interferencia no fenomeno? Não, porque ela nem sequer apareceu. Todas as pessoas que ali compareceram, todas as que ali assistiram, nenhuma dirá: “Eu vi a santa”. Apenas dirá: “Eu vi o bailado do sol”. Mas lastimo que em Portugal, em pleno século XX, ainda existam pessôas que se presam de ilustradas, deixarem-se ir no embrulho do referido milagre, quando tudo se limitou a um simples fenómeno. Mas do que eu me quero persuadir, o que eu não contestarei, é que daqui por um século ou antes, se faça como verdadeiro o referido aparecimento. À bôca cheia terão o arrôjo de publica[r], que no ano de 1917 apareceu uma santa a todo o povo no local da Fátima, etc., etc. O clericalismo é capaz de tudo, da impostura, para que a crença não abale do espirito dos seus fieis cordeiros (sic). Lembre-se o exemplo do “Reflexo do sol no Crucifixo” no reinado de D. Manuel I. E dirão se além do calunioso milagre do “Reflexo” não apareceu ainda a perseguição e o rancor? Apareceu a perseguição, o rancor e o crime. Crianças na inocencia, degoladas barbaramente, sucumbiram ás negras garras do clericalismo. E porquê? Porque esse cristão novo, não vestia a máscara da ignorancia, nem da ignominia. Conheceu melhor que o povo papalvo que aquilo não era milagre, mas sim efeito da ótica. Mas como a voz dos clericais só encontra éco na escuridão, como ela tende a afastar-se da luz da verdade, eis a razão porque a ignorancia triunfou naquele tempo de bastante atrazo. Mas devo limitar as minhas considerações, porque senão sofrerei o mesmo caminho, terei igual sorte que o cristão novo. Nestes tempos em que eles, clericais, se supõem em terreno conquistado. Nestes tempos em que é violada a liberdade de pensar e de agir. Não importa. O mundo caminha. O que eu direi sempre e sempre com a altivez de um livre pensador, é que, a reação aproveitou o fenómeno do sol para o atribuir a um milagre. — “Milagre caído no ridiculo desprovido de bases e sustentado por embustes”.

Belo-inho

Notas dos editores

1 Só tivemos conhecimento deste documento na fase final da preparação deste volume. Por isso, colocamo-lo neste apêndice.
2 Órgão do Partido Republicano Português.
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