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DCF III-2, Doc. 382

5 out. 1918Guardanotícia de imprensaVisconde de Montelo (Manuel Nunes Formigão)

Artigo de “A Guarda”, intitulado Os Episódios de Fátima.

Publ.: “A Guarda”, Guarda, 14 (600), 5 Out. 1918, p. 2, cols. 1-3.

OS EPISODIOS DE FATIMA

II

Meu caro amigo:

A questão da origem e natureza dos acontecimentos extraordinarios de Fatima, como eu já insinuava na minha carta precedente, é uma questão completamente aberta. A Egreja não se pronunciou ainda sobre elles. O campo está, pois, patente a todas as discussões. Qualquer pensador tem o direito de apreciar, como melhor lhe aprouver, esses acontecimentos, negando a procedencia sobrenatural, pondo-a em duvida ou admittindo-a, que a ninguem assiste o direito de o censurar.

O catholico não possue menos liberdade de apreciação e de critica no exame desta materia do que o atheu. É por isso que todas as opiniões sinceras merecem deferencia e respeito, mórmente numa questão como esta, que ninguem conseguiu até hoje resolver satisfactoriamente, é justo que todos, mesmo os que a não perfilham respeitem a conclusão a que chegar um estudioso na investigação a que conscienciosamente proceder.

Os sucessos de Fatima constituem um phenomeno assombroso incontestavelmente digno de estudo. Numa epocha em que a sciencia attingiu, por assim dizer, o seu apogeu, seria devéras para lamentar que esse phenomeno não se impuzesse á attenção daquelles que, pelo seu criterio e pela sua competencia, estão em condições de poder estudar com proveito e apreciar devidamente a origem e a natureza desse phenomeno, multiplo e complexo. Eu sei que illustres professores dos nossos mais altos institutos scientificos, continuam dedicando a sua esclarecida attenção ao estudo dos phenomenos metereologicos succedidos no dia 13 de cada mez desde maio a outubro e ao grandioso phenomeno solar presenciado por mais de cincoenta mil pessoas, no dia 13 de outubro proximo findo, num dos planaltos da orla septentrional da serra d’Ayre.

Mas é absolutamente indispensavel que, no interesse da verdade, seja ella qual fôr, todos contribuam com a sua quota parte para a solução deste difficil problema, até hoje insoluvel, para a decifração deste singular enigma até hoje impenetravel. É o que intento fazer escrevendo-te esta carta e outorgando-te a liberdade de publicar o que te parecer conveniente.

Posto isto era proposito meu principiar hoje a narração historica dos factos occorridos em Fatima, se não me perguntasses na tua ultima carta se já se tinham verificado algumas curas extraordinarias que abonassem de algum modo a origem sobrenatural desses factos. Para satisfazer a tua legitima curiosidade passo a descrever uma das muitas curas de que tenho conhecimento, consumada e, segundo parece, definitivamente assegurada no dia treze de outubro, no chamado local das apparições, aonde desde então, sem embargo das violencias brutaes e sacrilegas do fanatismo antireligioso, sempre inimigo da verdadeira liberdade de crença, concorreu ininterruptamente centenas e milhares de pessoas de todas as classes e condições sociaes e de todos os pontos do paiz, numa romagem piedosa e inoffensiva que edifica, commove e encanta.

Maria do Carmo, de quarenta e sete annos de edade, natural do logar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco annos que soffria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os symptomas caracteristicos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estomago e nos intestinos. Em principios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinario. Eram continuas e difficeis de supportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta d'ár. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe immenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no utero. Definhava e emmagrecia a olhos vistos. Trez meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr á cabeça nenhum objecto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe occasionava. Tinha com frequencia vontade de vomitar, embora não vomitasse.

Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, augmentavam as dores de cabeça. As dores de estomago quasi que não lhe permittiam dormir. Para não passar peor comia muito pouco.

Sustentava-se exclusivamente ou quasi exclusivamente de leite.

Uma tosse funda e secca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os visinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ella propria não deixava approximar de si os filhos com medo do contagio. Um individuo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar proximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a duvidas que ella estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do anno proximo findo. Debalde procurou lenitivo para os seus incommodos nos recursos da medicina. Pobre como era e não havendo medico senão a alguns kilometros de distancia, na Batalha, só alli foi uma vez com o marido consultar o distincto e habil clinico dr. Padrão. Os remedios que esse facultativo receitou não lhe produziram allivio algum.

Nestas circunstancias não alimentava nenhumas illusões ácerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa occasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do paiz, a nova consoladora de que a Virgem Santissima desde o mez de maio precedente apparecia todos os mezes no dia treze a umas humildes creancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria” pertencente á freguezia de Fatima, concelho de Villa Nova d'Ourem, a sete leguas de distancia de Maceira. Um clarão de suave esperança illuminou subitamente o seu espirito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fatima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa. Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empreza uma verdadeira temeridade, oppoz-se á sua ida. “Nós somos pobres, dizia elle á mulher, não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efectuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciencia, mas não te deixo ir”.

Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava immenso quando caminhava, por pouco que fôsse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possue um pequeno predio rustico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem numero de vezes á beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuindo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalavel confiança, accedeu ás suas porfiadas instancias e resolveu-se a acompanhá-la. Veio finalmente o dia treze de Agosto, tão ardentemente esperado. Á uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou varias vezes no percurso.

Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das apparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ella, segundo a sua propria expressão, era uma dôr. Alguns instantes depois, com grande surpreza, experimentou notaveis allivios.

Sentou-se á sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e alli se conservou até ás tres horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como á ida.

De dia para dia as melhoras accentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos solidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de Setembro voltou pela segunda vez a Fatima, não lhe causando a viagem tanto incommodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia resava o terço do Rosario tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando attenção ás conversas das pessoas que a acompanhavam.

A partir desse dia melhorou ainda mais.

Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos difficuldade á fazenda. A treze de Outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar á Fatima surprehendeu-a a memoravel chuva torrencial que assignalou aquelle dia de outomno. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das apparições. As dores desappareceram para não mais voltar. A intumescencia do ventre e dos membros superiores e inferiores desappareceu egualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indegestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incommodo. Não tornou a sentir falta d'ar. Trabalha muito e pode por á cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e gosa de excelente saude. Jámais em tempo algum da sua vida, se lembra de ter passado tão bem. No dia treze de novembro foi de novo á Fatima afim de agradecer a sua cura á Virgem do Rosario4.

Eis a narração mais exacta possivel, sem prejuizo de algum erro insignificante e de detalhe, da doença e da cura de Maria do Carmo, narração redigida em face do processo verbal a que procedi de motu proprio no dia doze de Fevereiro, em Maceira, na presença de varias testemunhas fidedignas e nomeadamente do marido, os quaes todos confirmaram a exactidão do seu depoimento. Não cito nomes de testemunhas, posto que a isso esteja auctorisado, porque todos os habitantes da freguezia estão intimamente convencidos de que a cura daquella enferma não se pode explicar de modo nenhum pela acção das forças naturaes. Poder-se-á considerar realmente essa cura como sobrenatural? Não me compete a mim dize-lo: é á sciencia e sobretudo á Egreja. Será facil estabelecer com segurança o seu caracter sobrenatural, depois de decorridos tantos mezes e não tendo havido provavelmente uma observação medica tão minuciosa como convinha? Ignoro-o, nem com isso me preoccupo. O meu intuito é simplesmente chamar a attenção das pessoas sérias e cultas, quaesquer que sejam os seus principios religiosos ou as suas opiniões ácerca da indole dos acontecimentos de Fatima, para estes e outros factos que se me antolham dignos de especial estudo, porque talvez possam contribuir para se determinar claramente a natureza desses acontecimentos. Serão elles o resultado de meras illusões de sentidos, especialmente da phantasia? Serão uma mystificação habilmente architetada pelo poder das trevas? Serão obra de Deus? É o que importa averiguar, sem ideias preconcebidas e sem parti pris, como convem a um critico consciencioso e imparcial.

30 IX 918

Teu amigo dedicado
Visconde de Montello

NOTA – Na minha carta que publicaste no numero de 28 de setembro do semanario “A Guarda” appareceram algumas gralhas, que convem rectificar, tanto mais que duas tornam inintelligivel o sentido do periodo em que se encontram. Onde se lê “embora catholico, sceptico ou incredulo” deve lêr-se “embora sceptico ou incredulo”, onde se lê “socorros portentosos” deve ler-se “sucessos portentosos” e onde se lê “é que a consciencia catholica tem direito” e “para como melhor entenderes e publicar” deve ler-se respectivamente “e que a consciencia catholica tem direito” e “faze como melhor entenderes e publica”. D’ora ávante deixarei á paciencia dos leitores o trabalho de decifrarem as gralhas, devidas á minha pessima caligrafia de velho.

V. de M.

Notas dos editores

4 Sobre este relato de cura cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918.
Aparato crítico e remissões (4)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 138, de 20 de Outubro de 1917, nota 1.
2 Cf. Doc. 380, de 28 de Setembro de 1918, nota 3.
3 No texto Sentia.
5 No texto: !
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