Testemunhas /

Maria do Carmo

Gente da terra

Mulher pobre do Arnal (Maceira, Leiria), natural de Alcobaça e casada desde 1897 com Joaquim dos Santos; Formigão dá-lhe 47 anos. Doente havia cinco anos e julgada tuberculosa, fez, «cheia de fé», a promessa de ir quatro vezes à Cova da Iria a pé e descalça, a partir de 13 de agosto de 1917, e declarou-se curada.

Residência: Arnal, Maceira (Leiria)A região em redorAtitude prévia: crente4 relatos

13 de agosto de 1917 2 relatos

13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoNotícia de imprensaCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Maria do Carmo, de quarenta e sete annos de edade, natural do logar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco annos que soffria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os symptomas caracteristicos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estomago e nos intestinos. Em principios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinario. Eram continuas e difficeis de supportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta d'ár. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe immenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no utero. Definhava e emmagrecia a olhos vistos. Trez meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr á cabeça nenhum objecto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe occasionava. Tinha com frequencia vontade de vomitar, embora não vomitasse.

Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, augmentavam as dores de cabeça. As dores de estomago quasi que não lhe permittiam dormir. Para não passar peor comia muito pouco.

Sustentava-se exclusivamente ou quasi exclusivamente de leite.

Uma tosse funda e secca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os visinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ella propria não deixava approximar de si os filhos com medo do contagio. Um individuo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar proximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a duvidas que ella estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do anno proximo findo. Debalde procurou lenitivo para os seus incommodos nos recursos da medicina. Pobre como era e não havendo medico senão a alguns kilometros de distancia, na Batalha, só alli foi uma vez com o marido consultar o distincto e habil clinico dr. Padrão. Os remedios que esse facultativo receitou não lhe produziram allivio algum.

Nestas circunstancias não alimentava nenhumas illusões ácerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa occasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do paiz, a nova consoladora de que a Virgem Santissima desde o mez de maio precedente apparecia todos os mezes no dia treze a umas humildes creancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria” pertencente á freguezia de Fatima, concelho de Villa Nova d'Ourem, a sete leguas de distancia de Maceira. Um clarão de suave esperança illuminou subitamente o seu espirito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fatima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa. Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empreza uma verdadeira temeridade, oppoz-se á sua ida. “Nós somos pobres, dizia elle á mulher, não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efectuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciencia, mas não te deixo ir”.

Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava immenso quando caminhava, por pouco que fôsse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possue um pequeno predio rustico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem numero de vezes á beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuindo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalavel confiança, accedeu ás suas porfiadas instancias e resolveu-se a acompanhá-la. Veio finalmente o dia treze de Agosto, tão ardentemente esperado. Á uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou varias vezes no percurso.

Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das apparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ella, segundo a sua propria expressão, era uma dôr. Alguns instantes depois, com grande surpreza, experimentou notaveis allivios.

Sentou-se á sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e alli se conservou até ás tres horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como á ida.

De dia para dia as melhoras accentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos solidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de Setembro voltou pela segunda vez a Fatima, não lhe causando a viagem tanto incommodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia resava o terço do Rosario tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando attenção ás conversas das pessoas que a acompanhavam.

A partir desse dia melhorou ainda mais.

Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos difficuldade á fazenda. A treze de Outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar á Fatima surprehendeu-a a memoravel chuva torrencial que assignalou aquelle dia de outomno. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das apparições. As dores desappareceram para não mais voltar. A intumescencia do ventre e dos membros superiores e inferiores desappareceu egualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indegestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incommodo. Não tornou a sentir falta d'ar. Trabalha muito e pode por á cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e gosa de excelente saude. Jámais em tempo algum da sua vida, se lembra de ter passado tão bem. No dia treze de novembro foi de novo á Fatima afim de agradecer a sua cura á Virgem do Rosario4.

Notas dos editores (1)

4 Sobre este relato de cura cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918.

DCF III-2, Doc. 382 · notícia de imprensa · 12 fev. 1918 (6 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (6)Ligação
13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoCura

Eu Manuel Antunes Marto2, Prior da freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, concelho de Leiria, diocese de Coimbra3, a pedido do mui digno Prior da freguesia de Fátima, Manuel Marques Ferreira, chamei à minha presença Maria do Carmo, minha paroquiana, casada com Joaquim dos Santos, que me merece inteira confiança e que declarou o seguinte: Ter andado doente cinco anos e sem esperança de melhorar, pois de dia para dia, sentia faltarem-lhe as forças, andava muito magra, tinha muita tosse, passando noites inteiras a tossir pelo que a julgaram tuberculosa e ela também estava convencida disso; convencida a ponto de retirar as crianças, suas filhas4, de junto de si, para as não contagiar. E constando-lhe que na freguesia da Fátima aparecera Nossa Senhora a umas criancinhas, fez a promessa de lá ir no dia treze de quatro mezes seguidos a pé e rezando todo o caminho a fim de ver se Nossa Senhora a melhorava. Logo que lá foi a primeira vez, com muita dificuldade, sentiu melhoras, pois o caminho custou-lhe menos quando voltou do que quando para lá foi.

Continuou sempre experimentando melhoras e no dia treze de novembro do ano mil novecentos e dezassete, dia em que completou a sua promessa, achou-se completamente boa, atribuíndo a sua cura a um milagre de Nossa Senhora de Fatima.

Notas dos editores (4)

1 Nasceu em Alcobaça. Casou com Joaquim dos Santos, a 13 de janeiro de 1897, ficando a residir no Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria. Faleceu a 20 de janeiro de 1982, com 82 anos de idade.

2 Nasceu a 7 de março de 1884. Foi ordenado sacerdote a 18 de julho de 1909. Foi coadjutor e pároco de Maceira, onde faleceu, a 7 de outubro de 1918, vítima da pneumónica.

3 A freguesia de Maceira pertenceu à diocese de Coimbra no período em que a diocese de Leiria esteve extinta. À data deste documento, já estava restaurada (17 de janeiro de 1918). O lapso do Pároco deve-se ao hábito criado.

4 Maria do Carmo teve cinco filhos: Júlia (n. 1897), Maria (n. 1902), José (n. 1904), Carlos (n. 1917) e Maria do Rosário (n. 1910).

DCF Seleção, Doc. 34 (= DCF I, Doc. 38) · depoimento · 18 jun. 1918 (10 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

13 de outubro de 1917 2 relatos

13 out.Testemunho indiretoNotícia de imprensaCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão

Uma é de Maria do Carmo, de 47 anos, do logar do Arnal, freguezia de Maceira, distrito de Leiria, tuberculosa, curada no dia 13 de Outubro de 1917, no proprio local das aparições. A sua cura constituiu um motivo de assombro para os habitantes daquela populosa freguezia que julgavam essa pobre creatura irremediavelmente perdida e com vida apenas para alguns dias.

DCF III-3, Doc. 775 · notícia de imprensa · 13 mar. 1922 (4 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 out.Testemunho indiretoLivroCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (como Visconde de Montelo)

Maria do Carmo, de 47 anos de idade, do lugar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, tuberculosa, achou-se curada no dia 13 de outubro de 1917, no próprio local das aparições. A sua cura foi um motivo de assombro para todos os habitantes de Maceira, que julgavam a pobre senhora irremediavelmente perdida e com vida apenas para alguns dias.

DCF Seleção, Doc. 73 (= DCF IV-2, Doc. 256) · livro · antes de 18 mar. 1923 (5 anos depois)DigitalizaçãoLigação
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