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DCF III-3, Doc. 775

22 abr. 1922Guardanotícia de imprensaA Guarda (entrevista com o Visconde de Montelo / Manuel Nunes Formigão)

O jornal "A Guarda" publica a primeira parte da entrevista com o Dr. Manuel Nunes Formigão, Visconde de Montelo2, sobre a dinamitação da Capelinha das Aparições, a morte da vidente Jacinta e as curas extraordinárias na Cova da Iria [data da redacção: 1922-03-13 (p)].

Publ. "A Guarda", Guarda, 18 (784), 22 Abr. 1922, p. 1, cols. 4-5.

O ATENTADO DE FÁTIMA

Entrevista com o Sr. Visconde de Montêlo
Estancia de misterio e de prodigio – Curas extraordinarias.
– Fonte miraculosa?

O sacrilego atentado que alguns malfeitores desconhecidos cometeram na madrugada de seis do corrente3 contra a capela de Fátima produziu em todo o paiz um sentimento unânime de indignação e de protesto e veiu pôr mais uma vez em destaque essa pitoresca aldeia graciosamente alcandorada num dos contrafortes da serra d'Aire, onde ha quasi cinco anos se deram acontecimentos extraordinarios que jámais se apagarão da memoria dos homens. Toda a imprensa se referiu com palavras de viva reprovação a esse atentado cujo eco se repercutiu nas duas casas do parlamento, tendo o governo prometido pela boca do sr. ministro dos estrangeiros, castigar os seus autores com todo o rigor das leis e sem contemplações de especie alguma.

No intuito de bem informar os nossos leitores, pondo-os ao corrente dos factos assombrosos, que se teem desenrolado naquela estancia de misterio e de prodigio, resolvemos solicitar para o nosso semanário uma entrevista do sr. Visconde de Montêlo, que ainda ultimamente publicou um interessante opúsculo intitulado “Os episodios maravilhosos de Fátima”. O ilustre titular e distinto escritor, que nos acolheu com a mais cativante gentileza e afabilidade, acedeu de bom grado ao nosso pedido, sem embargo da multiplicidade das suas ocupações.

S. Ex.a com a delicadeza de sentimentos que o distingue começou por felicitar o nosso jornal, justamente considerado um dos melhores semanarios do paiz, e cuja orientação entende ser altamente patriotica e a mais consentânea com os supremos interesses da civilisação moderna essencialmente christã. Agradecemos-lhe as amaveis referencias ao nosso modesto semanario e depois entra propriamente no assunto da entrevista.

— Por sem duvida — diz S. Ex.a, enquanto acende um magnifico havano — os leitores do seu jornal conhecem mais ou menos perfeitamente os sucessos estranhos de que Fatima foi teatro em 1917, já pelas noticias que a imprensa da época publicou a esse respeito, já pela descrição, aliás bastante sumária que dêles fiz no meu folheto “Os episodios maravilhosos de Fatima” dado á estampa pela Empresa Veritas.

Duas pastorinhas e um zagalete afirmaram que uma senhora de incomparavel beleza lhes aparecia no dia treze de cada mês desde Maio a Outubro dêsse ano, fazendo-lhes diversas comunicações, algumas delas de caracter secreto. A Visão, segundo o testemunho das tres creanças, prometeu dizer no dia treze de Outubro quem era e operar nesse dia um prodigio, para que todos acreditassem nas suas palavras, pedindo ao mesmo tempo que erigissem uma capela em sua honra no local das aparições.

Por varias vezes declarou que Deus estava muito ofendido com os pecados dos homens e que graves castigos os ameaçavam, recomendou a todos que fizessem penitencia, aconselhou a recitação frequente do terço e por ultimo disse que era a Senhora do Rosário. No dia 13 de Outubro dêsse ano, cerca de 60:000 pessoas, de todas as classes e condições sociais, reuniram-se no local das aparições, atraídas pela vaga fama do milagre discretamente anunciado.

Foi então que o espectaculo mais assombroso e divinamente belo que é dado contemplar, se desenrolou deante dos olhos dessa multidão maravilhada. Toda a manhã chovera torrencialmente. O firmamento, em toda a sua vastidão imensa, estava coberto de densas nuvens negras.

Ao meio dia astronómico, o sol subitamente rasga as nuvens que lhe toldam a face e, semelhante a uma admiravel roda de fogo de artificio, rodopia vertiginosamente sobre o seu eixo pelo espaço de dez minutos, projectando em continuas explosões, feixes de luz e torrentes de chamas das mais lindas e variegadas côres.

— V. Ex.a tambem assistiu a esse assombroso fenomeno?

— Assisti. Já no dia treze de Setembro tinha ido a Fátima, mas não presenciei então nada de extraordinario, a não ser a fé e a piedade da multidão, que nesse dia atingiu talvez o elevado numero de 30:000 pessoas.

No dia vinte e sete do mesmo mês voltei lá para ver e interrogar os videntes, e confesso que me impressionou profundamente o tom de convicção e sinceridade com que descreviam os factos de que afirmavam ter sido testemunhas. Mas só no dia treze de Outubro, quando presenciei o fenómeno solar, é que reconheci a importancia dos sucessos maravilhosos de Fátima e resolvi proceder por minha iniciativa e por mero prazer intelectual a um inquerito tão profundo e minucioso quanto o comportava o cumprimento dos meus deveres profissionais.

— E depois de treze de Outubro de 1917 deram-se mais alguns acontecimentos extraordinarios?

— Fenómenos astronómicos ou meteorológicos dignos de menção, não os presenciei nem me consta que se tivessem dado depois dessa data. Ha apenas a registar a morte edificante de uma das videntes, a mais nova, Jacinta de Jesus, a qual asseverou ter-lhe aparecido novamente a Senhora do Rosário, fazendo-lhe algumas revelações e condenando os exageros do luxo e as modas indecentes.

— Mas citam-se curas que, segundo se diz, não é possivel explicar naturalmente e que teem contribuido em larga escala para robustecer a crença nas aparições e augmentar a concorrencia dos fieis a Fátima.

— É verdade. Numerosas curas que o povo classifica de milagres, mas sobre cuja natureza a Egreja e a Sciência ainda não se pronunciaram, teem-se dado nestes ultimos anos e são atribuidas á poderosa intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

— Quererá V. Exa ter a bondade de expôr alguns dos casos mais interessantes?

— Da melhor vontade. Mas levar-me-ia muito longe a descrição minuciosa desses casos. Por outro lado, não poucos foram narrados com bastante desenvolvimento no folheto a que já me referi. Por isso permita-me que me limite a apontar tres ou quatro curas das mais extraordinarias de que tenho conhecimento. Uma é de Maria do Carmo, de 47 anos, do logar do Arnal, freguezia de Maceira, distrito de Leiria, tuberculosa, curada no dia 13 de Outubro de 1917, no proprio local das aparições. A sua cura constituiu um motivo de assombro para os habitantes daquela populosa freguezia que julgavam essa pobre creatura irremediavelmente perdida e com vida apenas para alguns dias. Outra cura não menos interessante é a de D. Noémia da Conceição Grego, de 18 anos, filha de Amilcar Augusto Grego e de D. Maria Theresa Mautempo Grego, de Torres Novas, que sofria de alienação mental, além de outras doenças graves que os médicos não sabiam diagnosticar com precisão, emitindo pareceres discordantes.

Contra a expectativa de todas as pessoas que conheciam o seu estado, inclusivamente dos médicos que a tratavam, achou-se completamente curada depois de várias peregrinações feitas a Fátima pela mãe, que ia sempre a pé e descalça, e por algumas amigas da enferma, que ali iam suplicar á Virgem do Rosário a sua intervenção miraculosa em favor dela. Outra cura, egualmente extraordinaria, é a de D. Maria Manuel dos Santos, de 27 anos de edade, filha de Carlos Alberto dos Santos, já falecido, e de D. Amélia Julia dos Santos, moradora nesta cidade na Rua de D. Estefânia, nº 115, 3º. Esta senhora sofreu horrorosamente durante longos anos de uma coxalgia tuberculosa dupla, de que se curou por completo depois que uma sua irmã, que não cessava de pedir a N. Srª do Rosário a cura dela, fez uma peregrinação a Fátima. Outra cura, finalmente, entre um sem numero delas que poderia citar, é a do Revº Pe. Antonio Lopes Larangeiro, capelão no logar das Moreiras Grandes, freguezia de Assentiz, concelho de Torres Novas. Este digno sacerdote tinha uma cirrosse no figado e uma peritonite tuberculosa. Como somos amigos de infância, logo que soube que lhe tinha sido feita uma junta médica e que tinha recebido os ultimos sacramentos, fui vê-lo para lhe dar o abraço de despedida. Estava moribundo. Era no dia 30 de janeiro do corrente ano. Dispunha-me a partir para a estação de Paialvo, afim de regressar á capital no rapido do Porto, quando chegou de Fátima um homem que aquele meu amigo tinha mandado ir buscar agua da fonte do local das aparições. Dias depois com grande surpresa e satisfação recebia dêle uma carta em que me dava a noticia da sua cura. No dia treze do corrente8 encontrei-o em Fátima, aonde tinha ido em acção de graças, percorrendo nêsse dia doze léguas a cavalo, na companhia de quasi todo o povo do seu logar.

(Continúa)

Notas dos editores

2 A segunda parte desta entrevista foi publicada em "A Guarda", 18 (787), 13 Mai. 1922, p. 3, cols. 1-3. No final encontram-se as iniciais C. D.
3 6 de Março.
8 13 de Março.
Aparato crítico e remissões (6)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 138, de 20 de Outubro de 1920, nota 1.
4 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 7, de 27 de Setembro de 1917.
5 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918 e DCF, vol. 3, 2, de 5 de Outubro de 1918.
6 No texto Mantempo. Cf. Doc. 611, de 17 de Março de 1921.
7 No texto, ceirrose
9 Cf. DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril 1930, nota 25.
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