Joel de Deus Magno
Depois de descançar um pouco fui andando devagar para o logar da apparição. Quando lá cheguei estavam muitas pessôas rezando e cantando versos a N. Senhôra de roda do pequeno arbusto onde se dão as apparições; é uma pequena sobreira4 que está já reduzida ao tronco, tantos ramos lhe teem tirado. Comecei a fallar com algumas pessôas d’aqui que lá vi; já a esta hora lá estava muita gente; não tardaram a chegar alguns seminaristas que logo se dirigiram a mim e nunca mais nos separámos. Eram o António Ferreira5, o Manuel dos Santos6, o Penna7, o Caetano de Thomar8, que fez o 1º anno, o Pereira9 que é mesmo d'aqui e mais tarde chegou o António Poças10 e o Marques Vieira11 com um irmão12. Fomo-nos para uma sombra e ali estivemos muito tempo. Então é que começou a grande affluencia de pôvo; era de todos os lados mas d'um lado e d'outro da estrada é que era uma verdadeira enchente. Os carros succediam-se, gente a cavallo, a pé e de bicicleta; só a vista dos carros espalhados pela encosta e animaes á sombra, uma enfiada de automoveis na estrada e verdadeiros montes de bicicletas era interessante. Pelo meio dia (antigo)13, hora certa das apparições, estavam muitos milhares de pessôas no logar. Eu não presto para calculos, mas os que lhe davam menos fallavam em 5000 pessôas. — Já tardavam as creanças quando chegou o Poças com a triste noticia de que o administrador de Ourem dissera aos paes das creanças em cuja casa estava que as levava na sua charrete para o sitio mas que fugira com ellas para Ourem. E assim foi, aquelle homem mau e cobarde atraiçoou assim tôdo aquelle pôvo, mas n'isto parece bem ter havido intervenção de Deus por que aquelle logar em que passava constantemente muita gente estava deserto, sendo unicas testemunhas de visu o Prior, o Snr. Vigario de Torres Novas19 e o Pe. Manuel Poças20 que estavam na varanda d'elle
(priôr), cômo elles mesmos depois me disseram. O pôvo quando soube ficou indignadissimo e eu, cômo já eram umas 3 horas, fui á Fátima com alguns dos seminaristas saber do caso. Fiquei tão zangado que já nem sei o que lá disse; naturalmente aquelles padres chamaram-me ... tonto ou coisa que o valha... Estavamos n'isto quando apparecêram uns homens muito contentes dizendo que N. Senhôra tinha apparecido. Despedi-me logo dos padres e fui para cima. Vinham já as estradas cheias d'aquelle pôvo que comentava o estrondoso facto. A cada grupo eu perguntava o que tinham visto e em menos de um phosphoro via-me cercado de tôda aquella gente que em grande gritaria me contavam que ouviram um trovão e tôda a gente fugira; voltando depois, viram descer uma nuvem, azul e branca que brevemente se levantára e desapparecêra. Outros que tinham visto um relampago e havia mulhersinha que com as lagrimas nos olhos dizia convencidissima que vira N. Senhôra; emfim tôdos ficáram satisfeitos e pelo que ouvi aos de Ourem o administrador parece ter arriscado muito a vida com o tal rapto.
Notas dos editores (15)
1 Nasceu em Vermelha (Cadaval), a 11 de Outubro de 1894. Entrou no Seminário de Santarém no dia 8 de Outubro de 1907. Ordenado sacerdote, exerceu diversos cargos no mesmo Seminário. Foi secretário perpétuo do Cón. Francisco Maria Félix. Faleceu a 8 de Maio de 1962.
2 Nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1874, em Óbidos. Ordenado sacerdote a 9 de Agosto de 1896, exerceu diversos cargos no Seminário de Santarém de que foi reitor desde 1 de Agosto de 1921. Faleceu no dia 5 de Junho de 1970.
3 Provavelmente terá sido o Pároco de Fátima, Pe. Manuel Marques Ferreira, que lhe guardou a bicicleta e lhe deu um pouco de vinho.
4 Nas suas transcrições desta carta para Os Episódios Maravilhosos de Fátima - IV, “A Guarda”, 15 (655), 30 Ago. 1919, e para As Grandes Maravilhas de Fátima, Lisboa, União Gráfica, 1927, p. 49-52, o Dr. Formigão corrige este erro, usando o termo “azinheira”.
5 Nasceu em Santa Catarina da Serra a 18 de Julho de 1899. Foi ordenado sacerdote a 27 de Junho de 1924. Faleceu em Barcelos a 9 de Agosto de 1970. Cf. “A Voz do Domingo”, Leiria, 38 (1950), 16 Ago. 1970, p. 8, col. 1.
6 Natural de Torres Novas. Não se ordenou.
7 Natural de Torres Novas. Não se ordenou.
8 José Caetano da Silva, de Tomar. Não se ordenou.
9 Francisco Pereira dos Reis, de Fátima. Faleceu devido à pneumónica em 1918-1919.
10 Poderá tratar-se do Pe. António Carreira Poças. Nasceu no Reguengo, Batalha, a 3 de Novembro de 1892. Faleceu em Belas, Sintra.
11 João Marques Vieira, do Olival (?).
12 Abílio Marques Vieira, do Olival (?).
13 Hora solar.
19 Pe. António de Oliveira Reis, nasceu em Montelo, Fátima, no dia 22 de Janeiro de 1874. Foi ordenado sacerdote a 28 de Junho de 1901. Faleceu a 22 de Junho de 1962.
20 Nasceu a 13 de Janeiro de 1881, no Reguengo, Batalha. Foi condiscípulo do Pe. Joel e pároco de S. João de Porto de Mós, de 1908 a 15 de Novembro de 1939. Faleceu a 8 de Agosto de 1944. Segundo referiu o Sr. Marto ao Dr. Fischer, o Pe. Manuel Carreira Poças interrogou as crianças oito ou nove dias antes de 13 de Outubro. Cf. FISCHER, Ludwig - Die Botschaft unserer Lieben Frau von Fátima, Bamberg, Fátima-Verlag, 1937, p. 147. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 54, de 13-15 de Agosto de 1917, nota 7.