Acontecimentos /

13 de agosto de 1917

O administrador do concelho de Ourém leva os videntes; a multidão espera sem eles. Aparição nos Valinhos, a 19.

Testemunhos diretos 53

O que as próprias testemunhas viram ou ouviram.

Joel de Deus Magno

CleroEstudanteseminarista (mais tarde sacerdote), Seminário de Santarém
13 ago.Testemunho diretoCartaA multidão

Depois de descançar um pouco fui andando devagar para o logar da apparição. Quando lá cheguei estavam muitas pessôas rezando e cantando versos a N. Senhôra de roda do pequeno arbusto onde se dão as apparições; é uma pequena sobreira4 que está já reduzida ao tronco, tantos ramos lhe teem tirado. Comecei a fallar com algumas pessôas d’aqui que lá vi; já a esta hora lá estava muita gente; não tardaram a chegar alguns seminaristas que logo se dirigiram a mim e nunca mais nos separámos. Eram o António Ferreira5, o Manuel dos Santos6, o Penna7, o Caetano de Thomar8, que fez o 1º anno, o Pereira9 que é mesmo d'aqui e mais tarde chegou o António Poças10 e o Marques Vieira11 com um irmão12. Fomo-nos para uma sombra e ali estivemos muito tempo. Então é que começou a grande affluencia de pôvo; era de todos os lados mas d'um lado e d'outro da estrada é que era uma verdadeira enchente. Os carros succediam-se, gente a cavallo, a pé e de bicicleta; só a vista dos carros espalhados pela encosta e animaes á sombra, uma enfiada de automoveis na estrada e verdadeiros montes de bicicletas era interessante. Pelo meio dia (antigo)13, hora certa das apparições, estavam muitos milhares de pessôas no logar. Eu não presto para calculos, mas os que lhe davam menos fallavam em 5000 pessôas. — Já tardavam as creanças quando chegou o Poças com a triste noticia de que o administrador de Ourem dissera aos paes das creanças em cuja casa estava que as levava na sua charrete para o sitio mas que fugira com ellas para Ourem. E assim foi, aquelle homem mau e cobarde atraiçoou assim tôdo aquelle pôvo, mas n'isto parece bem ter havido intervenção de Deus por que aquelle logar em que passava constantemente muita gente estava deserto, sendo unicas testemunhas de visu o Prior, o Snr. Vigario de Torres Novas19 e o Pe. Manuel Poças20 que estavam na varanda d'elle

(priôr), cômo elles mesmos depois me disseram. O pôvo quando soube ficou indignadissimo e eu, cômo já eram umas 3 horas, fui á Fátima com alguns dos seminaristas saber do caso. Fiquei tão zangado que já nem sei o que lá disse; naturalmente aquelles padres chamaram-me ... tonto ou coisa que o valha... Estavamos n'isto quando apparecêram uns homens muito contentes dizendo que N. Senhôra tinha apparecido. Despedi-me logo dos padres e fui para cima. Vinham já as estradas cheias d'aquelle pôvo que comentava o estrondoso facto. A cada grupo eu perguntava o que tinham visto e em menos de um phosphoro via-me cercado de tôda aquella gente que em grande gritaria me contavam que ouviram um trovão e tôda a gente fugira; voltando depois, viram descer uma nuvem, azul e branca que brevemente se levantára e desapparecêra. Outros que tinham visto um relampago e havia mulhersinha que com as lagrimas nos olhos dizia convencidissima que vira N. Senhôra; emfim tôdos ficáram satisfeitos e pelo que ouvi aos de Ourem o administrador parece ter arriscado muito a vida com o tal rapto.

Notas dos editores (15)

1 Nasceu em Vermelha (Cadaval), a 11 de Outubro de 1894. Entrou no Seminário de Santarém no dia 8 de Outubro de 1907. Ordenado sacerdote, exerceu diversos cargos no mesmo Seminário. Foi secretário perpétuo do Cón. Francisco Maria Félix. Faleceu a 8 de Maio de 1962.

2 Nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1874, em Óbidos. Ordenado sacerdote a 9 de Agosto de 1896, exerceu diversos cargos no Seminário de Santarém de que foi reitor desde 1 de Agosto de 1921. Faleceu no dia 5 de Junho de 1970.

3 Provavelmente terá sido o Pároco de Fátima, Pe. Manuel Marques Ferreira, que lhe guardou a bicicleta e lhe deu um pouco de vinho.

4 Nas suas transcrições desta carta para Os Episódios Maravilhosos de Fátima - IV, “A Guarda”, 15 (655), 30 Ago. 1919, e para As Grandes Maravilhas de Fátima, Lisboa, União Gráfica, 1927, p. 49-52, o Dr. Formigão corrige este erro, usando o termo “azinheira”.

5 Nasceu em Santa Catarina da Serra a 18 de Julho de 1899. Foi ordenado sacerdote a 27 de Junho de 1924. Faleceu em Barcelos a 9 de Agosto de 1970. Cf. “A Voz do Domingo”, Leiria, 38 (1950), 16 Ago. 1970, p. 8, col. 1.

6 Natural de Torres Novas. Não se ordenou.

7 Natural de Torres Novas. Não se ordenou.

8 José Caetano da Silva, de Tomar. Não se ordenou.

9 Francisco Pereira dos Reis, de Fátima. Faleceu devido à pneumónica em 1918-1919.

10 Poderá tratar-se do Pe. António Carreira Poças. Nasceu no Reguengo, Batalha, a 3 de Novembro de 1892. Faleceu em Belas, Sintra.

11 João Marques Vieira, do Olival (?).

12 Abílio Marques Vieira, do Olival (?).

13 Hora solar.

19 Pe. António de Oliveira Reis, nasceu em Montelo, Fátima, no dia 22 de Janeiro de 1874. Foi ordenado sacerdote a 28 de Junho de 1901. Faleceu a 22 de Junho de 1962.

20 Nasceu a 13 de Janeiro de 1881, no Reguengo, Batalha. Foi condiscípulo do Pe. Joel e pároco de S. João de Porto de Mós, de 1908 a 15 de Novembro de 1939. Faleceu a 8 de Agosto de 1944. Segundo referiu o Sr. Marto ao Dr. Fischer, o Pe. Manuel Carreira Poças interrogou as crianças oito ou nove dias antes de 13 de Outubro. Cf. FISCHER, Ludwig - Die Botschaft unserer Lieben Frau von Fátima, Bamberg, Fátima-Verlag, 1937, p. 147. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 54, de 13-15 de Agosto de 1917, nota 7.

DCF III-1, Doc. 7 · carta · depois de 13 ago. 1917 · também publicado em DCF III-2, Doc. 406Digitalizações (3)Ligação

João Pereira Novo

Gente da terraaldeão
13 ago.Testemunho diretoViuCartaA multidãoTrovão / ruídoCores nas pessoas e na paisagemFiguras / visões

Vi lá um altar sôbre uma azinheira e muita gente a rezar; confôrme iam chegando assim iam rezando sem nunca cessarem de rezar. Eu nunca vi tanta gente junta nem tanto carro dos lados de Torres Novas e Ourem. Chegavam aos quinze e vinte carros juntos sem que pudessem passar uns pelos outros.

Á hora em que as creanças estavam para saír de casa dos paes acompanhadas de alguns padres que as tinham estado a interrogar, aparece lhes de repente um carro fechado5 á porta com o administrador dentro e um tal sr. que dizem ser carbonario6. Os dois pegam nas creanças, dizendo: meninas, andem, vamos lá, que já são horas, e as creanças dispensaram o favôr dizendo: nós vâmos a pé na companhia desta gente. E dizem os tais srs.: não, não, meninas; hoje é dia de festa, gosto que vão de carro.

Nisto pegam nas creanças, metem-nas no carro, dão meia volta aos cavalos e fogem com as creanças para Ourem. O povo corre ao local com a noticia, todo o povo chorava e seguiu logo um automovel atraz do carro para vêr se conseguia trazer as creanças mas não conseguiu.

Bem; o povo que lá tinha ido o mez passado animou-o de novo, dizendo: rezem, rezem e estejam com atenção que já não faltam cinco minutos para a hora do mez passado.

O povo fez silencio. O tempo era claro. Pois de repente se formou um relampago do céu sôbre o altar e fez de roda do altar um redemoinho que cobriu mais de trezentas pessôas de terra. Tudo fugia e caía e chorava. A terra arruou mas muito forte, as pedras mudaram de côr e então começa muita gente a gritar: olhem, olhem, olhem, a Nossa Senhora ali vem, vejam, com um fato branco! Os que a viram na terra fôram muitos, mas os que a viram no céu fôram muito mais; e mais de trez mil pessôas não viram mais porque quando a terra arruou e as pedras mudaram de côr, tudo que estava mais perto, uns caíram outros agastaram-se e eu tambem fiquei tão atrapalhado que, de tanto que queria vêr, vi pouco. Mas o que eu, e todos os que ficaram em soluços, ainda vimos muito bem foi arcos e grinaldas no céu ao lado sul, com flôres de todas as côres. Isto toda a gente viu.

E tambem as flôres que enfeitavam o altar faziam admirar toda a gente porque fazia calôr e elas cada vez mais lindas, e não estavam em vasos.

Se o povo tinha muita fé com muito mais ficou. Se o administrador prendeu as creanças nem por isso Nossa Senhora deixou de aparecer. Não falou, naturalmente por não ter quem lhe respondesse.

Depois de todo o povo vêr e tornar a ganhar siria diziam uns para os outros: vamos combinar com esta gente toda e vamos para Ourem fazer carne fresca. Visto que nos roubaram as nossas visinhas nós vamos lá buscal-as. Não sei mais nada, mas no dia 13 lá volto se Deus quizer.

A hora que apareceu foi á meia depois do meio dia.

Notas dos editores (2)

5 Outras notícias falam simplesmente de uma “charrette” aberta.

6 Cândido Alho, funcionário da administração.

DCF III-1, Doc. 11 · carta · 14 ago. 1917 (1 dia depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 21Digitalizações (3)Ligação

Manuel Marques Ferreira

Cleropároco de Fátima
13 ago.Testemunho diretoCartaa 3 km

A auctoridade depois de longo interrogatorio das creancinhas em suas casas, mandou-as conduzir, a titulo de informações, para minha casa, — diz, para elas lhes descobrirem um segredo que até então lhe não tinham revelado — donde, em tempo que julgou oportuno, as mandou subir para o carro e dizendo aos pais e circunstantes que as levava ao local das aparições, parte á desfilada para Vila Nova d'Ourem.

Escolheu minha casa com que fim? Para se furtar ás iras que seu acto iria promover? Para que o povo se amotinasse, como amotinou, contra mim, como cumplice?

DCF III-1, Doc. 12 · carta · 14 ago. 1917 (1 dia depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 19Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes

No dia vinte e um compareceu na minha presença a menina Lúcia e disse que no dia treze em que foi levada pelo administrador para Vila Nova de Ourém, e onde esteve, na casa do mesmo administrador, até ao dia quinze, não viu nada de extraordinário. No dia dezanove, que fôra domingo, andava a pastorear as ovelhas, no sítio do Valinho, com o primo Francisco e um irmão deste chamado João, mais velho que o Francisco, e vendo os ares semelhantes àqueles em que costumavam ver a Senhora, pede ao primo João, oferecendo-lhe um vintém, para ir chamar a Jacinta que estava em casa dos pais. E logo que esta chegou lhes apareceu a Senhora em cima de uma carrasqueira; que todos a viram, menos o primo João, irmão do Francisco e da Jacinta. E então que lhe perguntou:

– Então o que é que Vossemecê me quer?

E a Senhora lhe respondeu:

– Quero dizer-te que voltes lá à Cova da Iria: se não tivessem abalado contigo para a Aldeia (Vila Nova de Ourém), o milagre seria mais conhecido. Havia de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo. Havia de vir Nosso Senhor benzer o povo. Vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjinho de cada lado. Vinha Nossa Senhora das Dores com um arco de flores à roda.

– Aquele dinheiro que Vossemecê tem, o que é que Vossemecê quer feito dele? (É o dinheiro das esmolas oferecidas).

Feita esta pergunta, a Senhora respondeu:

– Aquele dinheiro... façam dois andorzinhos; um leva-o tu e mais três meninas como tu e vão de branco, e outro leve-o o Francisco e mais três meninos como ele, levem uma capa branca, levem-nos à Senhora do Rosário e apliquem-nos a Ela.

Dito isto, desapareceu, elevando-se pelo ar acima. Da primeira ou segunda vez que lhe apareceu perguntou-lhe quem era, – e a Senhora respondeu que lho dizia no último dia. Disse também que da segunda vez ou terceira vez que lhe apareceu, lhe ensinou uma oração que costuma rezar, entre os mistérios do terço quando o reza, na Cova da Iria. – A oração é: Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno:

levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem.

DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31) · documento oficial · 21 ago. 1917 (8 dias depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes

Disse Lúcia que viu Nossa Senhora no domingo a seguir ao dia 132 no sítio do Valinho3; primeiro viu os ares como costumavam aparecer; viu vir Nossa Senhora do lado do nascente, depois pousou em cima da carrasqueira.

Fiz-lhe uma vénia, levantei-me outra vez e perguntei-lhe:

– O que é que vossemecê me quer?

– “Quero dizer-te que voltes lá à Cova da Iria; se não tivessem abalado contigo para a Aldeia4 seria o Milagre mais conhecido; havia de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda.”

Perguntei:

– Aquele dinheiro que vossemecê tem, o que é que vossemecê quer feito dele?

– Aquele dinheiro façam dois andorzinhos pequeninos; um leva-o tu mais três meninas como tu e vão de branco; o outro leva-o o Francisco e mais três meninos como ele; levem uma capa branca, levem-no à Senhora do Rosário e apliquem-no a ela. Depois abalou pelo ar acima e eu disse adeus.

Perguntei-lhe da 1a ou 2a vez quem era e ela disse que no último dia me dizia.

Notas dos editores (3)

2 Dia 19 de agosto.

3 Atualmente Valinhos, a cerca de 400 metros a noroeste da casa de Lúcia.

4 Aldeia da Cruz, antigo nome de Vila Nova de Ourém, atualmente Nossa Senhora da Piedade.

DCF Seleção, Doc. 5 (= DCF I, Doc. 4) · interrogatório · 21 ago. 1917 (8 dias depois)DigitalizaçãoLigação

Senhora não identificada, assinante do Raio de Luz

Visitantesenhora devota, assinante de uma revista
13 ago.Testemunho diretoEm parteCartaA multidãoDescida da temperaturaLuz a diminuirNuvem / coluna de fumo

O local da aparição, chamemos-lhe assim, fica n'um descampado, de charneca, quasi sem arvores e onde predominam pequenas carvalheiras. Estava já uma multidão immensa em torno d'aquella em que a creança diz que pousa Nossa Senhora e muitos grupos espalhados por todo aquelle espaço de terreno mais proximo mas sem aspecto de arraial; notava-se um silencio respeitoso, uma compostura e socego admiravel, mesmo nos que comiam os seus farneis ou conversavam sobre o assumpto que alli os attrahia. Não exagero dizendo que estavam para cima de 4.000 pessoas e em volta do recinto privilegiado, rezava-se o terço, cantavam-se canticos, etc., com commovente devoção; muito se tem rezado naquele sitio ha dois mezes para cá!...

Todos estavam suspirando pela chegada das creanças, mas á hora d'ellas costumarem aparecer, chegou um rapaz em byciclette dizendo que o administrador d'Ourem as tinha levado para lá! Não queriam acreditar que pudesse sêr. Eu então lembrei-me de pedir a F...5 que fosse saber o que havia de verdade. Voltou pouco depois confirmando a noticia. O administrador que desde pela manhã estava em casa dos paes das creanças mandou-as, com o official de diligencias que levou comsigo, para casa do prior, onde lhe fez novo interrogatorio insistente e demorado. As creanças nunca se desdisseram; por mais que as intimidassem, até o pequenito de 6 annos6 dizia: “Não, não temos medo.” É extraordinario, não é verdade?!... Diz-se que pareciam tres cordeirinhos, e sem chorarem nem gritarem subiram para o carro, muito serenos, quando o administrador lhes disse que ia elle proprio leval-as ao local! Mas logo que as apanhou no carro tocou os cavallos e á desfilada seguiu com ellas em direcção de Villa Nova d'Ourem, que era o seu fim...

No entretanto, da charneca parecia que ninguem podia arrancar-se; estavam alli havia horas e horas e não tinham pressa de retirar. Eu disse a F...: “Já agora que aqui estamos gostava de ficar até ás duas horas que é afinal o meio dia solar. Tanto ella como a familia da C...8 concordaram e ficámos sentadas n'umas pedras. Pois filha, ás duas horas em ponto, pelo meu relogio, deu-se um abaixamento rapido da temperatura, sem vento, produzindo a sensação que se tem quando ha um eclipse do sol, e instantaneamente como se uma corrente electrica puzesse toda aquella multidão em communicação, todos os homens se descobriram e homens e mulheres tudo ajoellhou n'uma commoção bem manifesta e expontanea. Porquê, o que é que se deu? Não t'o sei dizer; muita gente, entre ella as minhas creadas, diziam que viram uma nuvem linda mesmo ao pé do sol e que em momentos desappareceu. Eu não vi nada, mas senti uma impressão d'arrepio e uma commoção extraordinaria e raros eram os olhos que não choravam ou não estavam marejados de lagrimas pelo menos.

O que foi que causou instantaneamente este effeito? Aguardemos o futuro. Mas o que é certo é que já ninguem esperava nada, estavam descoroçoados e começavam a pôr-se em movimento para retirar a custo d'alli, quando isto se deu, tal t'o descrevo. Olhei para o carrasqueiro e vi-o envolto no tal nevoeiro que dizem se tem notado sempre, e fil-o notar á F... Foi pó levantado pelo movimento do povo? Talvez, mas em nenhum outro ponto se deu, e repito, não havia vento; havia fresco. Pouco antes tinha me dito um homensito com quem eu estava conversando: "Olhe, minha senhora, os astros estão-se a pôr tal qual como faz hoje um mez." As nuvens diluiam-se e formavam como uma teia muito leve, é certo, mas nada que fosse extraordinario; extraordinaria foi a sensação que de repente se sentiu e todos sentiram."

Notas dos editores (3)

5 Trata-se de uma pessoa do sexo feminino pois que, mais abaixo, se diz: “ella”, “sentadas” e “fil-o notar á F...”. Em nosso entender, F. e adiante C., são abreviaturas de Fulana e Cicrana. Ou indicarão antes as iniciais dos nomes próprios?

6 Deve haver aqui confusão: “O pequenito de 6 anos” melhor se referirá à “pequenita” Jacinta, a qual, no entanto, já tinha completado 7 anos.

8 Não identificada. Cf. nota 5.

DCF III-1, Doc. 20 · carta · ago. 1917 (2 dias depois)Digitalizações (3)Ligação
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes

Desta vez apareceu-lhes no sítio dos Valinhos no domingo imediato ao do dia 13 de agosto (porque neste dia foram traiçoeiramente levadas para Ourém, pelo respetivo administrador que as enganou, dizendo que ele mesmo as levava no seu carro para o local da aparição). Neste dia disse-lhe que se elas no dia 13 não tivessem sido levadas pelo administrador, o milagre (para o povo) não teria sido tão conhecido. Fez-lhe a Lúcia vários pedidos para que convertesse certas pessoas e melhorasse alguns doentes ao que Ela respondeu que se converteriam e melhorariam alguns, mas outros não porque não acreditavam e alguns nem sequer em seu Filho.

DCF Seleção, Doc. 9 (= DCF I, Doc. 45) · interrogatório · 17 set. 1917 (5 semanas depois)Digitalizações (2)Ligação

Leonor de Avelar e Silva Constâncio

Visitanteviúva, senhora católica que estava nas Caldas da Rainha
13 ago.Testemunho diretoViuNotaA multidãoLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemDescida da temperaturaNuvem / coluna de fumo

Fomos pois ali no dia 13 de Agosto. Sahimos de casa às 9 1/2 da manhã; o dia estava bonito, mas não muito quente, havia até uma temperatura agradavel. Iamos commovidos, aprehensivos, recolhidos, esperando nem eu sei bem o quê. Depois de um passeio de perto de 3 horas de automovel, chegámos emfim a Fatima, e ali nos disseram que o local da apparição era na Cova da Iria, a uns trez kilometros da povoação, para onde nos dirigimos. Era já grande a agglomeração de gente quando ali chegámos. Na Fátima uma mulher do povo tinha-nos dito: “logo sabem onde é, hão de ver à sua direita um mundo de gente, é ahi.” E assim era. Deixámos o carro na estrada e percorremos a pé alguns metros até ao sitio onde a multidão era mais compacta, ouvindo-se cantar o Avé de Lourdes.

Indagamos se as creanças já tinham chegado pois difficil era ver quem rodeiava a carrasqueira, arbusto, onde segundo diziam pousava a apparição.

Responderam-nos negativamente, dizendo-nos que como a apparição só teria logar do meio dia para a uma, as creanças só viriam perto d’essa hora. Alegámos que sendo já perto de uma hora, as creanças já deveriam ali estar. “Por que horas se regulam?” (pergunta-nos uma mulher do povo) é pelas modernas? ... Nem a Senhora nem as meninas se regulam por ellas, mas sim pelas antigas, que são as verdadeiras”. — Emquanto esperavamos fômos conversando com o povo e indagando dos que já nos mezes anteriores ali tinham ido, o que costumava passar-se. Disseram-nos que á hora indicada o sol se encobriria por leves nuvens, e que um nevoeiro envolveria o arbusto sobre o qual, Nossa Senhora, descendo de uma nuvem, pousaria a fallar com as creanças.

A pouco e pouco fômos encontrando entre a multidão varias pessôas conhecidas, e até ainda nossas parentas. Juntamos-nos todas, fômos colhendo informações e commentando-as, achando umas algo extraordinarias e outras inverosimeis.

N’esta altura apparece um homem dizendo-nos que as creanças não viriam, porque tinham sido presas pelo administrador do concelho e por elle levadas para Villa Nova d’Ourem. De principio, ninguem acredita, julga-se que se trata de uma brincadeira de máu gosto, da parte do homem, mas é tal a intimativa com que elle o affirma, que uma Senhora se offerece para, no seu auto ir a Fatima, saber o que lá se passára. Voltou, e no seu rosto, vêmos todos que é verdadeira a noticia. O administrador offerecendo-se para levar as creanças para a Cova da Iria depois de as ter interrogado, leva-as traiçoeiramente presas para Villa Nova d’Ourem. Com que direito? O que tinham feito as creanças para serem presas?... nada, era a persiguição que principiava.

Todos protestam, todos se indignam, mas é um protesto ordeiro, e apesar de ali estar muita gente umas 5 a 6 mil pessôas, ninguem pensa em se revoltar, em luctar. Eram crentes, gente cheia de fé, e não brigões que ali se encontravam.

Das pessôas presentes, muitas pensam em ir-se embora, mas, do povo sobretudo, sahe este grito “Fiquemos e esperemos, ainda não chegou a hora, e se isto é coisa do Céu ha de manifestar-se, mesmo apesar de as creanças terem sido presas, pois contra o poder de Deus e da Virgem, a auctoridade não póde nada”.

Admiramos a fé do povo, e todos ficamos aguardando cheios de anciedade a hora annunciada.

Como nos não lembravamos dos 37 minutos já de ha muito adeantados; ás 2 horas pensávamos já todos em nos retirar, pensando que, por estarem ausentes as creanças, nada de anormal se passaria.

Mas justamente, n’esse momento ouvimos um enorme sussurro, que a todos nos fez voltar, e foi-nos dado então, o presenciar a mais commovente manifestação de fé a que jamais tinhamos assistido.

O povo cahindo todo de joelhos de mãos e olhos erguidos ao Ceu implorava Deus e a Virgem; os homens; e era d'elles a maioria, descobertos, de joelhos em terra, deixavam correr livremente as lagrimas. Era realmente impressionante.

Todos olhavam para o Ceu, que, uma ligeira nuvem, como que uma finissima renda branca, em sitios rosada, cobria. O sol, que por um instante se escondeu de todo, deixou-nos allumiados por uma luz exquisita, notando-se uma manchas amarellas no chão e sobre nós todos, e uma grande baixa de temperatura como succede quando ha um eclipse de sol. Alguem diz: — “Olhem o nevoeiro em volta da carrasqueira!” Olhámos e effectivamente elle lá estava; era realmente um nevoeiro? era fumo? era pó?... poderia ser qualquer d'estas coisas, mas a mim mais me parecia fumo que, sahindo como que de um perfumador se levantasse do chão em leves espiraes e se desfizesse logo em volta do arbusto.

Alguns, diziam ser pó, que uma leve brisa levantava, mas como explicar que a brisa só soprasse n'aquelle sitio, e que assim succedesse sempre no dia 13 de cada mez?! ... N'essa altura já o sol tinha retomado todo o seu antigo brilho. De subito um homem das Lapas, (logar não longe de Torres Novas) que ali tinha ido só para satisfazer a mulher, e que não acreditava na possibilidade do milagre, grita banhado em lagrimas: “Eu vejo, eu vejo a Senhora!!! Olhem, n'esta direcção entre aquellas duas nuvens, não a veem?” Todos olhámos na direcção indicada mas... nenhum de nós vio mais do que as nuvens. No entanto o homem cheio de fé dizia: “Prendam-me se quizerem, mas hei de sempre dizer o que vi”!

A mulher, não vio nada, mas estava radiante por ter sido o marido quem tinha visto, pois que, não acreditava, ella acreditava, não precisava vêr.

Veria realmente este homem alguma coisa, ou seria méra suggestão? — Não era nem um velho, nem uma creança, era um homem, dos seus quarenta annos, estava portanto em toda a força da vida e por isso talvez menos apto a ser suggestionado. Não era um atheu, pois que tinha vindo da sua casa ao Bairro, logar ali perto, para ouvir um sermão, mas era um incredulo do milagre.

Mais pessôas do povo diziam ter visto, mas o que viam? Não sei, mas d'aquelles com quem fallei o que mais me impressionou foi o homem das Lapas.

[…]

Voltámos pois da Fátima convencidos de que alguma coisa de anormal se tinha passado. Um eclipse de sol, é um facto conhecido, vulgar mesmo se quizerem, mas como se explica que em quatro mezes consecutivos, elle se desse sempre no mesmo dia, e á mesma hora, sem que a sciencia o tivesse annunciado? E o tal nevoeiro que só se via n'aquelle sitio?

DCF III-1, Doc. 129 · nota · depois de 19 out. 1917 (2 meses depois)Digitalizações (4)Ligação

João Marto

Família dos videntesGente da terrairmão de Francisco e Jacinta, de 14 anos
13 ago.Testemunho diretoNão viu nadaInterrogatórioa 2 kmPalavras dos videntes

1a – A 19 de agosto, com quem andavas tu a apascentar o gado nos Valinhos?

– Andava com o Francisco e a Lúcia.

2a – A Jacinta também estava presente?

– Não estava.

3a – A Lúcia pediu-te que a fosses chamar?

– Pediu.

4a – O que foi que ela te disse?

– Disse-me que fosse chamar a Jacinta, porque parecia que ia aparecer Nossa Senhora.

5a – E tu foste logo chamá-la?

– Não; eu não queria ir, mas a Lúcia deu-me um vintém para que eu fosse, e então fui.

6a – A Jacinta estava em casa?
– Não estava; só encontrei lá a mãe, minha irmã estava à porta da casa da Lúcia.
7a – Ela quis ir de boa vontade aos Valinhos?
– Quis.
8a – Quando chegaram, o que estavam fazendo a Lúcia e o Francisco?
– Estavam sentados, mas levantaram-se quando chegámos.
9a – O que fizeram depois?
– A Lúcia disse à Jacinta que olhasse para onde parecia que devia aparecer Nossa Senhora. A Jacinta pôs-se a olhar para esse lado.
10a – Puseram-se todos de joelhos?
– Não; todos estavam de pé. A Lúcia não ajoelhou.

2 de novembro de 1917 Continuação do interrogatório do João

11a – Viste alguma coisa?
– Não vi nada. Só ouvi a Lúcia falar com Nossa Senhora ao pé da carrasqueira.
12a – Ouviste o que Nossa Senhora disse?
– Não ouvi.
13a – O que foi que a Lúcia disse à Senhora?
– Perguntou-lhe o que é que ela cá vinha fazer.
14a – Ouviste a resposta da Senhora?
– Não ouvi, mas a Lúcia esteve um bocadito à espera.
15a – A Lúcia fez mais perguntas?
– Fez. Tornou a falar, mas não me lembro do que disse, a não ser da última pergunta que foi se ela trazia cá o meu Manuel.
16a – A Lúcia não te contou depois o que a Senhora lhe tinha dito?
– Disse-me no mesmo dia ao pé da carrasqueira, logo de caminho, que, se não fosse levada para a aldeia (Vila Nova de Ourém) no dia 13, o milagre não seria tão conhecido.
17a – Que horas eram quando Nossa Senhora apareceu?
– Era quase noite.
18a – Demoraram-se ainda muito no sítio?
– O Francisco e a Jacinta vieram-se embora e ficámos eu e a Lúcia. O Francisco e a Jacinta voltaram e disseram-me depois que tinham ido rezar lá, mas eu fiquei longe a guardar as ovelhas e não as ouvi rezar.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (3 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmPalavras dos videntes

O que disse a Senhora em agosto?

– Em agosto não fomos lá.

8a – Queres dizer o que foi que a Senhora disse no domingo seguinte nos Valinhos?

– A Lúcia perguntou à Senhora se trazia o meu Manuel8 (um irmão da Jacinta que está servindo no exército em Cabo Verde) e ela disse que trazia cá todos.

9a – Que mais disse a Senhora?

– Disse que, se não abalássemos para Ourém, viria S. José e o Menino dar a paz ao mundo e Nossa Senhora do Rosário com dois anjinhos, um de cada lado.

10a – Que mais disse?

– Disse que fizéssemos dois andores e que os levássemos à festa da Senhora do Rosário, que eu, a Lúcia e mais duas meninas vestidas de branco levássemos um e o Francisco com três rapazes levasse o outro.

11a – Disse mais alguma coisa?

– Não disse nada.

Notas dos editores (1)

8 Manuel dos Santos Rosa, filho de José Ferreira da Rosa e de Olímpia de Jesus, nasceu a 10 de maio de 1895. Casou com Josefina de Jesus, a 3 de novembro de 1922. Faleceu a 6 de fevereiro de 1976

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (3 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmPalavras dos videntes

Que disse a Senhora em agosto?

– Em agosto não fui lá.

47a – Mas que disse ela no domingo seguinte quando te apareceu no sítio dos Valinhos?

– Nos Valinhos disse que se não tivéssemos sido presas não seria o milagre tão conhecido e que teriam vindo S. José com o Menino dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo.

48a – Que mais disse Ela?

– Perguntei-lhe o que devia fazer ao dinheiro que se tinha juntado e ela disse que o levássemos em dois andores à Senhora do Rosário, nos dias das festas da Senhora do Rosário.

49a – Foste tu que te lembraste de fazer essa pergunta?

– Não; quem tinha o dinheiro é que me mandou fazer essa pergunta.

50a – A Senhora não disse mais nada?

– Tornei a pedir pelos doentes e pecadores recomendados e ela disse que uns seriam melhorados e outros convertidos dentro de um ano.

Nesse dia não lhe perguntei mais nada.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (3 meses depois)DigitalizaçãoLigação

Joaquim Xavier Tuna

Gente da terrahomem das Lapas (Torres Novas), de 45 anos
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioSol a cairCores nas pessoas e na paisagemTrovão / ruídoA multidão

Em agosto, no dia 13, vi o sol baixar no ceu á hora da apparição. Nunca baixou tanto como d’aquella vez, nem mesmo a 13 de Outubro. Todos os objectos que me rodeavam se tornaram amarellos. O povo, ouvindo um ruido ao pé da carrasqueira, poz-se a fugir. Uns homens, que estavam em cima de uma arvore, cahiram, sem que lhes succedesse mal algum. Eu, ao ver o que se passava, disse ao povo que não fugisse, porque era Nossa Senhora que apparecia. A multidão deixou então de fugir, e quasi todas as pessoas se descobriram, cahindo muitas de joelhos.

Notas dos editores (1)

1 Do documento manuscrito, com caligrafia do Dr. Formigão, fazem parte cinco depoimentos: Joaquim Xavier Tuna, Joaquim Vieira, António Ribeiro, António Baptista e Maria de Jesus. Supomos que estes depoimentos tenham sido recolhidos pelo Dr. Formigão, que terá feito esta cópia manuscrita com base em apontamentos que terá tomado na altura em que recolheu os depoimentos. No elenco do Arquivo Formigão, estes depoimentos estão assinalados como sendo documentos diferentes. Editamo-los também separadamente (Docs. 289, 290, 291, 292 e 293).

DCF III-1, Doc. 289 · interrogatório · 13 nov. 1917 (3 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Joaquim Vieira

Gente da terrahomem de Assentiz (Torres Novas), de 47 anos
13 ago.Testemunho diretoViuInterrogatórioNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a mudar de cor

Em agosto, no dia 13, appareceu uma nuvemzinha branca que caminhou do sul para o norte na direcção do nascente, tomando côres diversas muito lindas. O sol perdeu o brilho por completo, podendo olhar-se para elle, e mudou de côres.

DCF III-1, Doc. 290 · interrogatório · 13 nov. 1917 (3 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Manuel Marques Ferreira

Cleropároco de Fátima
13 ago.Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoa 2 kmA multidão

No dia treze de agosto por cerca das dez horas da manhã, compareceu em minha casa, residência paroquial, onde me encontrava com o M. R. Vigário da Vara de Torres Novas, Pe. António de Oliveira Reis, o administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, trazendo no carro que o transportava o R.do Pe. Manuel Carreira Poças, Prior de Porto de Mós. Notando eu a este padre a minha admiração por ele acompanhar a autoridade civil em assunto de tal natureza, me disse que não havia novidade alguma, porque vinham de interrogar as crianças em suas casas, e que o administrador, bem como ele, estava crente do que dizem as crianças; que lhes não restam dúvidas, mas que vêm a minha casa para eu interrogar as crianças – que estão a chegar – sobre um segredo (primeira vez que ouvi falar no segredo), que elas dizem que a Senhora lhes disse, mas que não lhes revelaram; e depois que o mesmo administrador as leva ao local da Aparição, onde deseja também ir. Igual declaração me faz também o administrador, aparentando senão de crédulo, pelo menos de curioso. Cerca de meia hora depois apareceram as crianças e seus pais. O administrador pede-me para eu as interrogar, o que fiz na sua presença. Ao interrogar a menina Lúcia sobre quem lhe tinha ensinado a dizer o que tem dito; responde que foi aquela Senhora que viu na Cova da Iria. Ao dizer-lhe que vai para o inferno quem diz mentiras que causam tanto prejuízo como o que causa o que ela diz – se fôr mentira, por tanta gente vir enganada – responde, que, se quem diz mentiras vai para o inferno, ela que não vai para o inferno por causa disso, porque não diz mentiras, mas só diz o que viu e o que a Senhora lhe disse, e que se o povo vem é porque quer, que ainda não chamou ninguém. Pergunto-lhe se a Senhora lhe tinha dito algum segredo. Responde que sim; mas, que me o não diz. Feitas várias interrogações sobre ele, responde: Olhe!... se quer... vou lá acima e pergunto à Senhora se Ela me dá licença para eu dizer o segredo e se Ela me der licença, então digo-lhe. A isto responde o administrador: são coisas sobrenaturais... vamos-nos embora. Levanta-se, manda sair as crianças do meu escritório, onde nos encontrávamos, e subir para o carro. Isto na presença dos pais e dos Rev.dos sacerdotes acima referidos. Segue algum tempo o caminho que conduz à Cova da Iria, e .... depois, volta à desfilada a caminho de Vila Nova de Ourém, para onde as transporta e onde as retém até ao dia quinze em que veio entregá-las aos pais. A notícia do rapto é levada com a rapidez do relâmpago ao local das Aparições onde cerca de quinze a dezoito mil pessoas esperavam com ansiedade a sua chegada.

Passados poucos minutos, chegam à porta da residência paroquial um automóvel e alguns ciclistas exaltados, dando parte da indignação da grande massa de povo que se achava na Cova da Iria, reclamando o meu linchamento como cúmplice no atentado do arrebatamento das crianças. Apresento a minha inculpabilidade, e até indignação por tal ato. E graças à Virgem Santíssima não fui enxovalhado, a não ser por algumas inconveniências proferidas por um paroquiano desta freguesia.

DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31) · documento oficial · 6 ago. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Manuel Gonçalves Júnior

Gente da terraproprietário casado, de 34 anos, do Montelo (Fátima)
13 ago.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoTrovão / ruídoA multidãoSol a mudar de cor

Declarou mais que no dia treze de agosto do mesmo ano, pouco depois da hora marcada para a Aparição, quando se comentava o rapto das crianças, notou que houve um forte e inexplicável estrondo, junto à carrasqueira, que atemorizou todo o povo, começando a fugir e a gritar comovidamente, – havendo até algumas síncopes –, e que junto do sol se formou uma nuvem com as cores do Arco-Íris.

DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33) · depoimento · 31 dez. 1918 (17 meses depois)DigitalizaçãoLigação

Joaquim Inácio Vicente

Gente da terrapedreiro da Chainça (Santa Catarina da Serra), a trabalhar na igreja de Fátima
13 ago.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoTrovão / ruídoA multidão

Joaquim Inácio Vicente, casado, canteiro, natural e morador no lugar da Chainça, de Santa Catarina da Serra, deste diocese de Leiria, homem de toda a confiança, declarou-me que no dia treze de agosto, tendo deixado o trabalho, à hora da sesta, da Igreja matriz desta freguesia onde se encontrava, foi à Cova da Iria e que pouco depois da hora indicada para as Aparições, quando o povo já estava desanimado e prestes a retirar-se, ouviu duas fortes detonações semelhantes ao estampido de bombas ou tiros vindos do lado da carrasqueira e no mesmo instante vê a grande massa de povo a fugir, fugindo ele tambem por julgar ser uma forte desordem que o povo se tinha envolvido, e sem saber como nem porquê, ao voltar para trás, pois era dos dianteiros por estar mais afastado da carrasqueira, vê o povo, como que arrastado por uma corrente elétrica, a correr e a concentrar-se junto da carrasqueira.

DCF Seleção, Doc. 42 (= DCF I, Doc. 35) · depoimento · 2 mar. 1919 (19 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho diretoRecordação posterior

Ea-mos a caminho para o sitio da carrasqueira e disséram-nos que primeiro tinha-mos de ir a casa do Senhor Prior; formos pençando que êle nos queria alguma coisa; chegando lá subir-mos para a baranda esperando pelas ordens que nos davam; ninguem nos queria para nada.

Disseram-nos então. Subam para este carro para que cheguem mais de pressa lá ao sitio; primeiro meu pai disse que nós ia mos a pé; mas o Senhor Admenistrador mandou-nos subir de novo para o carro dizendo que indo no carro iamos livres do povo. Então por ordem do meu pai subi para o carro e os meus primos em vez de irem com nosco para a cova de Iria foram para Vila Nova de Ourem. Disse eu não é para aqui para êste lado; mas o Senhor Admenistrador respondeu dizendo que nós iamos a Ourem a casa do Senhor Prior e depois vinhamos num altemovel que ainda cá chegavamos a tempo; E assim que chegamos a Ourem fichou-nos dentro dum quarto prometendu-nos não sair-mos da-li enquanto não dissésse-mos o segredo que a Senhora nos tinha cofiado; e assim se passaram trez dias amiacando-nos com diversos castigos e prometendu-nos algumas peças de oiro mas nada conseguiram de nós. Entam vieram-nos por em casa do Senhor Prior.

DCF III-3, Doc. 685 · documento · 5 jan. 1922 (4 anos depois)Digitalizações (4)Ligação
13 ago.Testemunho diretoViuRecordação posteriora 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes

Chegando a nossa casa formos logo pastar as ovelhas para um sitio chamado Valinho; andando na companhia do Francisco e do João a Jassinta tinha ficado em casa; então eu desconfiava que nossa Senhora nos fise-se alguma vesita e por inspiração de nossa Senhora, pedi ao João que fosse a casa chamar a Jassinta e como êle não quise-se ir prometi dar-lhe um vintem que tinha; então êle foi; chegando a Jassinta deu um relampago e apareceu a Senhora em sima du-ma carrasqueira.

Então o que é que vosse-messe me quer hoge? Quero que continuem a [ir] o resto dos meses á cova de Iria; Se não tivessem ido embora o milágre não era tam conhessido. A mulher que tem o dinheiro manda perguntar o que é que quer que se faça á quele dinheiro. Quero que façam dois andores no dia da festa de nossa Senhora do Rosario; um leva-o o Francisco com mais três rapazitos outro levano as meninas com mais duas. Quero lhe pedir por algumas peçôas que me pediram para a Senhora as curar; daqui a um ano algumas Seram curadas. E nisto subio como todos os outros mezes inclinada para o lado do nascente.

DCF III-3, Doc. 685 · documento · 5 jan. 1922 (4 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Inácio António Marques

Gente da terrajovem da Chainça
13 ago.Testemunho diretoViuRecordação posteriorAtitude céticaA multidãoSol a mudar de cor

Em 13 de agosto aumenta o povo e quem contempla a Cova, que forma uma bacia dos pequenos montes ou outeiros que a cercam, vê um espetáculo tocante.

De toda a parte chegam peregrinos entoando descantes sentindo-nos viver umas horas felizes. Já passa da hora e as crianças não aparecem; o povo espera impaciente quando corre uma voz por cima daquela massa de povo que o sr. administrador de Ourém as tinha levado. Ouvem-se protestos e, quando vão começar a debandar, ouve-se uma gritaria e uma onda de cabeças volve-se para o céu afirmando cada um o que está vendo. Eu então olho para o céu e vejo as nuvens mudando de cores e correndo em diversos sentidos.

DCF Seleção, Doc. 72 · depoimento · 23 nov. 1922 (5 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Maria dos Santos

Gente da terramoradora da Moita, mais tarde encarregada das esmolas da Capelinha
13 ago.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoA multidãoTrovão / ruído

Em agosto juntou-se muita gente. A depoente estava presente à espera das crianças. À hora do meio-dia soube-se que o administrador levou as crianças presas para Vila Nova de Ourém. O povo ficou pesaroso e indignado. Houve um rumor ao pé da azinheira que causou tão grande susto ao povo, que pareciam estar todos doidos, soltando grandes gritos e julgando que morriam. O povo, pouco a pouco, foi-se retirando. A depoente não viu nada de extraordinário.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Em treze de agosto a Lúcia saíu pela manhã com as ovelhas e quando veio já estava a casa cheia de gente. Estava com tenção de ir à Cova da Iria, como nos meses anteriores, mas o administrador levou-a para Ourém, tendo sido a notícia da prisão comunicada à mãe pela cunhada que, indo para a Cova da Iria, ouviu dizer que o administrador tinha abalado com as crianças. A mãe da Lúcia ficou magoada, mas não se apoquentou porque sabia que não comiam as crianças, pensando ao mesmo tempo que se elas mentiam, mereciam algum castigo e que se diziam a verdade, Nossa Senhora as defenderia. Vieram depois, à tarde muitas pessoas que procuravam confortá-la, dizendo que iam agora mais crentes, porque foi o primeiro dia em que apareceram os sinais. Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem. O administrador veio trazê-los à Fátima no dia quinze num carro e foi pô-las na varanda do senhor Prior. A mãe da Lúcia, que estava lá, veio com a filha para casa. As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las. O administrador disse que o povo estava com uma doença por ter visto sinais, e o cunhado Marto disse-lhe que então estava muita gente doente.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Manuel Pedro Marto

Família dos videntesGente da terrapai dos videntes Francisco e Jacinta
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoTrovão / ruídoNuvem / coluna de fumoEstrela / globo luminosoA multidão

Em treze de agosto, foi à fazenda buscar milho com a ideia de lá ir ao local à hora própria, sabendo, quando já estava na eira, pela Florinda3, que o administrador tinha chegado entretanto a sua casa. Ainda não eram dez horas. Voltou logo para casa e encontrou o administrador e um padre4 que não conhecia. O administrador perguntou: “Então, senhor Marto, sabe porque cá venho hoje? Quero lá ir acima à Cova da Iria, ao Milagre, quero ir ver. Sou como S. Tomé, ver e crer”. Manuel Marto disse: “Faz bem, senhor administrador”. Este declarou que levava as crianças no seu carro. Elas ainda andavam com o gado. Marto pediu a sua mulher que as chamasse, porque eram horas. Não chegou a chamá-las, mas elas vieram com o gado. A Lúcia sabendo que o administrador estava em casa dos tios, dirigiu-se logo para lá, e ele, assim que a viu, disse-lhe que as levava de carro, ao que ela retorquiu que não iam de carro. A pequena voltou a casa e depois veio com o pai. Ouviu-se nessa ocasião falar num segredo. Como a estrada não estava feita, o carro ficou à espera numa encruzilhada. O administrador disse que então os esperava na Fátima para lhes fazer umas perguntas em casa do Senhor Prior.

Dirigiram-se os pais das três crianças a casa do Senhor Prior, não estando ainda lá o administrador, que chegou pouco depois. Ficaram todos na varanda. Só a Lúcia foi chamada lá dentro para ser interrogada pelo senhor Prior em presença do administrador.

Depois do interrogatório, o administrador convidou as crianças a descer as escadas da varanda e a subir para a charrete em que tinha vindo, deu uma volta à igreja e fugiu para Vila Nova de Ourém. O pai da Jacinta seguiu então para a Cova da Iria tendo ficado admirado da partida do administrador. Na Cova da Iria, depois de falar com várias pessoas, ouviu perfeitamente um estrondo seguido de poeira e nevoeiro. O povo fugiu. Quase todas as pessoas tiraram os chapéus, gritaram por Nossa Senhora e ficaram muito contentes, dizendo que tinham roubado as crianças, é verdade, mas que Nossa Senhora se tinha manifestado. Viu também uma espécie de globo luminoso girando nas nuvens. Parecia haver uma névoa em volta da carrasqueira, depois do estrondo. O povo queixava-se não só do administrador, como do senhor Prior, dizendo que ele também tinha culpa. O tio da Lúcia, António da Silva5, nesse dia à tarde, queria ir pedir satisfações ao senhor Prior, julgando-o culpado, mas não apareceu. O pai da Jacinta procurou o senhor Prior, supondo que ele sabia alguma coisa a respeito das crianças. Voltou depois com o cunhado para casa. O povo continuava a falar contra o senhor Prior, afirmando que ele é que tinha a culpa do roubo das crianças. O administrador trouxe os pequenos na quarta-feira, dia 15, depois da Missa, cerca das onze horas. No sábado, onze, tinham sido chamados a Ourém os pais de Lúcia e de Jacinta, indo só os pais e a Lúcia. Primeiro chamaram a Lúcia e os pais. Depois chamaram o pai da Jacinta. O pai respondeu que a não trouxera, porque ela, sendo tão pequena, não podia ir a pé, nem sabia ir de burra. Replicou o administrador: “Então desobedece?!”. “Não, porque aqui estou”, acentuou Manuel Marto. Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, disse-lhe que já nesse dia tinha tido tenção de prender as crianças. Logo que chegou levou as crianças a casa do senhor Prior. Declarou que acusavam o regedor e o senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes quisessem. O que é certo porém, é que pelo caminho, no regresso de Ourém, já tinha dito às crianças que tornaria a prendê-las se fossem outra vez à Cova da Iria.

Notas dos editores (3)

3 Florinda de Jesus, irmã de Francisco e Jacinta. Nasceu 3 de agosto de 1902 e faleceu a 20 de maio de 1920, vítima da pneumónica.

4 Pe. Manuel Carreira Poças.

5 Foi casado em primeiras núpcias, com Teresa de Jesus, irmã de António dos Santos, pai de Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Olímpia de Jesus

Família dos videntesGente da terramãe dos videntes Francisco e Jacinta
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Em treze de agosto o Administrador do Concelho chegou a casa de Manuel Marto de manhã cedo e a mulher não o conhecia. Ele pediu muito que preparassem os pequenos que andavam com o gado, para irem para a Cova da Iria. Olímpia de Jesus dizia que era muito cedo, que andavam com o gado e que não costumavam ir para lá senão ao meio-dia. O administrador mostrava-se muito aflito, porque queria que os videntes regressassem mais cedo. Chegaram quase às horas do costume e ainda não queriam ir. A mãe tinha-os mandado chamar. A Lúcia declarou que ainda era muito cedo. O administrador disse à Lúcia que haviam de vir à Fátima a casa do senhor Prior para serem interrogados e que dali seguiriam no carro para a Cova da Iria. E assim os enganou. As três crianças foram em companhia dos pais. As mães ficaram em casa. A mãe da Jacinta soube no caminho da Cova da Iria, para onde se dirigia, que o Administrador tinha levado as crianças para Ourém. Voltou então para trás e foi dar parte do sucedido à cunhada, mãe da Lúcia. “Ó Maria, disse ela, então não levaram os cachopos para a Aldeia!” Ela sorriu-se e disse: “Então não andem a mentir!”. “Ai, o que lhes farão por lá!” exclamou a mãe da Jacinta. – “Não tenhas medo que não os comem por lá!”, disse a mãe de Lúcia. Em casa da cunhada quando ouviram o povo a gritar, disse: “O que irá por lá?” A mãe da Lúcia olhou para o sol e disse: “O sol está diferente”. Veio o povo e contou que se tinham visto sinais no sol e no céu.

As crianças chegaram no dia quinze de agosto de manhã em que o administrador as veio trazer. Ele disse às crianças, na presença da mãe da Jacinta: – “Agora podem ir à Cova da Iria quantas vezes quiserem”. Disse o administrador ao pai da Jacinta que “eles diziam ver e ouvir coisas extraordinárias por causa de uma doença que tinham”.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioa 12 km

No mês de agosto, passou-se tudo da mesma maneira?”. Respondeu: “No mês de agosto foi diferente. Antes do dia 13 de agosto, eu e meus primos fomos chamados à Administração; o meu tio não levou lá os filhos, mas eu fui com meu pai. O senhor Administrador interrogou-me, quis insistentemente que eu lhe revelasse o segredo da Senhora, o que eu não fiz; depois de escrever mandou-me embora. No dia treze iamos para o sítio da carrasqueira, quando nos disseram que primeiro tínhamos de ir a casa do Senhor Prior. Lá fomos, subindo para a varanda da casa. Depois de estarmos algum tempo à espera, apareceu o Senhor Administrador que nos mandou entrar para um carro, dizendo que assim íamos mais depressa para a Cova da Iria.

Meu pai disse que nós iamos a pé, mas o Senhor Administrador teimou que era melhor irmos no carro, porque íamos livres do povo. Então, por ordem de meu pai, subi para o carro com os meus primos. O carro deu uma volta e seguiu na direção de Vila Nova de Ourém. “Não é para este lado”, disse eu, mas o Senhor Administrador respondeu que íamos a Ourém a casa do Senhor Prior e que ainda viríamos a tempo porque vínhamos de automóvel. Quando chegámos a Ourém, fecharam-nos num quarto e disseram que não sairíamos dali enquanto não declarássemos o segredo que a Senhora nos confiou. No dia seguinte3, uma senhora de idade interrogou-nos sobre o segredo; depois levaram-nos para a Administração, onde fomos de novo interrogados, oferecendo-nos peças de oiro para revelarmos o segredo. Voltámos para casa do Senhor Administrador, onde tínhamos ficado na noite anterior e de tarde fomos outra vez interrogados sobre o segredo. Levaram-nos à cadeia, e ameaçaram-nos de lá ficar, se o não disséssemos. Tornámos para a Administração, e como não disséssemos o segredo, prometeram que nos iam fritar com azeite. O Senhor Administrador mandou-nos retirar e disse a um homem que aprontasse uma caldeira com azeite quente. Chamou depois a Jacinta, dizendo que era a primeira a ser queimada. Ela foi prontamente, sem se despedir. Interrogaram-na e meteram-na num quarto. Chamaram a seguir o Francisco; disseram-lhe que a Jacinta já estava queimada e que ele teria a mesma sorte se não declarasse o segredo. Interrogaram-no e mandaram-no para o mesmo quarto. Foi depois a minha vez; disseram que os meus primos já estavam queimados e que eu teria a mesma sorte, se não dissesse o segredo. Embora pensasse que era certo, não tive medo. Mandaram-me para ao pé dos meus primos, e um homem disse que não tardaria a sermos queimados todos três. Levaram-nos para casa do Administrador, e lá ficámos aquela noite no mesmo quarto. No dia seguinte4, foi quase a mesma coisa: interrogatórios de manhã e à tarde, com muitas promessas e ameaças. No dia dezasseis5, fomos outra vez à Administração pelas dez horas, mas nada conseguiram de nós, como das outras vezes. Então o Senhor Administrador mandou-nos subir para um carro, e deixou-nos em casa do Senhor Prior, na varanda.

Notas dos editores (3)

3 Dia 14 de agosto.

4 Dia 15 de agosto.

5 Lúcia acrescenta, por engano, um dia. O regresso a Fátima foi no dia 15 de agosto, feriado, Assunção de Nossa Senhora.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes

Chegando a nossa casa, fomos logo com as ovelhas para um sítio chamado Valinho na companhia do Francisco e do João. A Jacinta tinha ficado em casa. Deu um relâmpago, e eu mandei chamar a Jacinta pelo João, irmão dela. O João não queria ir, e eu prometi-lhe dois vinténs para ele ir. Quando chegou a Jacinta, disse-lhe que tinha dado um relâmpago e que provavelmente a Senhora ia aparecer. Descemos por um atalho, e vimos a Senhora em cima duma azinheira. “O que é que Vossemecê me quer?”, perguntei eu. Ela disse: – “Quero que continuem a ir à Cova da Iria o resto dos meses até outubro e que rezem o Terço”. Perguntei mais: “O que se há de fazer ao dinheiro que estava na Cova da Iria?” A Maria do Rosário, da Moita6, tinha tomado conta dele e como nem os meus pais nem os dos meus primos quisessem ficar com ele, disse-me a mim que perguntasse à Senhora o que se havia de fazer desse dinheiro. A Senhora respondeu: “Façam dois andores, no dia da festa da Senhora do Rosário; um leve-o o Francisco com mais três rapazitos, o outro levem-no as duas com mais duas meninas”. Pedi-lhe a cura de algumas pessoas, e Ela disse que dentro dum ano algumas seriam curadas. Pedi-lhe também um milagre para o povo acreditar e Ela disse que no último mês fazia um sinal no sol, que todos haviam de acreditar; que com São José viria o Menino Jesus dar a bênção ao mundo, e Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Dores; que Nosso Senhor viria dar a paz ao mundo. Depois desapareceu como nos outros meses para o lado do nascente.”

– “Viram todos a Senhora?” – Respondeu: – “Eu e a Jacinta vimos e ouvimos; o Francisco como das outras vezes viu-a, mas não ouviu o que ela disse, e o João não viu nem ouviu nada”

– “Foi muita gente a tua casa perguntar pela Senhora?”. Respondeu: “foi muita gente, e até muitos sacerdotes, alguns dos quais me trataram de intrujona”.

Notas dos editores (4)

3 Dia 14 de agosto.

4 Dia 15 de agosto.

5 Lúcia acrescenta, por engano, um dia. O regresso a Fátima foi no dia 15 de agosto, feriado, Assunção de Nossa Senhora.

6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntesFiguras / visõesDisco pálido / prateado

No dia treze do corrente Nossa Senhora disse que a guerra acabava nesse mesmo dia? Quais foram as palavras que empregou?

– Disse assim: “A guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito em breve”.

2a – Ela disse: “esperem cá pelos seus militares” ou “esperem cá pelos vossos soldados”?

– Disse: “esperem cá pelos militares”.

3a – Mas olha que a guerra ainda continua!... Os jornais noticiam que tem havido combates depois do dia treze!... Como se explica isto, se Nossa Senhora disse que a guerra acabou nesse dia?

– Não sei. Só sei que lhe ouvi dizer que a guerra acabava no dia 13. Não sei mais nada.

4a – Algumas pessoas afirmam que te ouviram dizer nesse dia que Nossa Senhora tinha declarado que a guerra acabava brevemente. É verdade?

– Disse tal e qual como Nossa Senhora tinha dito.

5a – No dia 27 do mês passado fui a tua casa falar contigo, lembra-te?

– Lembro-me de o ver cá.

6a – Pois nesse dia disseste-me que Nossa Senhora tinha dito que no dia 13 de outubro vinham também S. José e o Menino Jesus e que depois disso brevemente acabaria a guerra, não nesse dia.

– Não me recordo já bem como Ela disse. Podia ter dito isso; não sei. Talvez não entendesse bem a Senhora.

7a – No dia treze do corrente mandaste ao povo que olhasse para o sol?

– Não me lembro de assim fazer.

8a – Mandaste fechar os chapéus?

– No outro mês atrás mandei. Da última vez não me lembro de mandar.

9a – Sabias quando devia começar o sinal no sol?

– Não.

10a – Olhaste para ele?

– Olhei; parecia que era a lua.

11a – Porque foi que olhaste para o sol?

– Olhei, porque toda aquela gente disse que olhassem para o sol.

12a – Nossa Senhora disse que pediria a seu Divino Filho pelas almas dos soldados mortos na guerra?

– Não, senhor.

13a – Disse que o povo seria castigado se não se emendasse dos seus pecados?

– Não me lembro se Ela o disse. Parece-me que não.

14a – No dia 13 não tinhas dúvidas como agora acerca do que a Senhora disse. Como se compreendem as tuas dúvidas de hoje?

– Nesse dia lembrava-me melhor, tinha sido há menos tempo.

15a – O que viste há cerca de um ano? Tua mãe diz que tu e outras crianças viram um vulto embrulhado, que não deixava ver o rosto. Porque foi que me disseste o mês passado que não foi nada?

– !...

16a – Dessa vez fugiste?

– Cuido que fugi.

17a – No dia onze deste mês não me quiseste dizer que no dia treze do corrente haviam de aparecer Nosso Senhor abençoando o povo e Nossa Senhora das Dores. Foi com receio de que eu fizesse troça de ti, como outras pessoas já tinham feito, dizendo que isso era impossível? Ou era porque estavam presentes muitas pessoas estranhas e tiveste acanhamento de dizer isso diante e tanta gente? Olha que a Jacinta disse-me tudo...

– !...

18a – Quando foi que Nossa Senhora te disse que se haviam de dar essas aparições no dia treze de outubro?

– Foi no dia em que apareceu nos Valinhos ou no outro dia treze. Não sei bem.

19a – Viste também Nosso Senhor?

– Vi uma figura que parecia ser um homem; parecia Nosso Senhor.

20a – Onde estava essa figura?

– Estava ao lado do sol.

21a – Viste-a abençoar o povo?

– Não vi; mas Nossa Senhora tinha dito que Nosso Senhor viria abençoar o povo.

22a – Se o povo soubesse o segredo que Nossa Senhora te revelou ficava triste?

– Cuido que ficava como está, quase à mesma.

DCF Seleção, Doc. 18 (= DCF I, Doc. 16) · interrogatório · 19 out. 1917 (2 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Manuel Gonçalves Júnior

Gente da terrafilho do anfitrião de Formigão no Montelo
13 jun.13 jul.13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioNuvem / coluna de fumoCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão

No dia 13 de julho alguns companheiros dele, mal intencionados, embriagaram-no no intuito de o levarem a praticar desatinos no local das aparições. Efetivamente, embora, como sempre, deixasse ir a filha àquele local, mandou retirar o povo. Ele é o proprietário da charneca onde está a carrasqueira que serve de pedestal à Aparição. O povo, vendo-o em estado de embriaguez, não se importou com essa intimação e um homem empurrou-o, fazendo-o cair.

[…]

A princípio o povo não queria ir à Cova da Iria. Ninguém acreditava nas crianças. Em treze de junho, dia da segunda aparição, havia festa na igreja da freguesia em honra de Santo António. Na Cova da Iria estavam apenas, à hora da aparição, umas sessenta pessoas. Os pais do Francisco e da Jacinta tinham ido de manhã cedo para Porto de Mós à feira chamada dos treze, com o fim de comprar bois, e chegaram já de noite. Na sua ausência a residência encheu-se-lhes de gente, que queria ver as crianças e fazer-lhes perguntas. Presentemente uma grande parte do povo julga que as crianças falam verdade. Pela minha parte, estou convencido disso.

[…]

Os sinais são muitos. Em agosto quase todos os que estavam presentes viram esses sinais. Uma nuvem baixou até à carrasqueira. Em julho notou-se o mesmo. Não havia poeira no local. A nuvem empoou os ares, que pareciam enevoados.

– Houve mais algum sinal?

– Veem-se no céu, próximo do sol, umas nuvens brancas que se tornam sucessivamente vermelhas vivas (cor de sangue), cor de rosa e amarelas. O povo torna-se desta última cor. A luz do sol diminui bastante de intensidade.

Sentiu-se também um rumor em julho e em agosto.

[…]

Reza o terço. Quando se dirige à Senhora, fala alto.

Eu próprio a ouvi em junho, porque estava próximo. Algumas pessoas afirmam que ouvem o som das respostas.

10a – O local das aparições é muito frequentado também nos outros dias por pessoas piedosas ou por curiosos?

– É muito frequentado, sobretudo aos domingos. A maior concorrência é à noite. Vão ali muitas pessoas, de longe e de perto, e mais ainda de fora da freguesia. Rezam o terço e entoam cânticos em honra da Virgem.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Maria do Carmo

Gente da terramulher casada, do Arnal, Maceira; afirma ter sido curada
13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoCura

Eu Manuel Antunes Marto2, Prior da freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, concelho de Leiria, diocese de Coimbra3, a pedido do mui digno Prior da freguesia de Fátima, Manuel Marques Ferreira, chamei à minha presença Maria do Carmo, minha paroquiana, casada com Joaquim dos Santos, que me merece inteira confiança e que declarou o seguinte: Ter andado doente cinco anos e sem esperança de melhorar, pois de dia para dia, sentia faltarem-lhe as forças, andava muito magra, tinha muita tosse, passando noites inteiras a tossir pelo que a julgaram tuberculosa e ela também estava convencida disso; convencida a ponto de retirar as crianças, suas filhas4, de junto de si, para as não contagiar. E constando-lhe que na freguesia da Fátima aparecera Nossa Senhora a umas criancinhas, fez a promessa de lá ir no dia treze de quatro mezes seguidos a pé e rezando todo o caminho a fim de ver se Nossa Senhora a melhorava. Logo que lá foi a primeira vez, com muita dificuldade, sentiu melhoras, pois o caminho custou-lhe menos quando voltou do que quando para lá foi.

Continuou sempre experimentando melhoras e no dia treze de novembro do ano mil novecentos e dezassete, dia em que completou a sua promessa, achou-se completamente boa, atribuíndo a sua cura a um milagre de Nossa Senhora de Fatima.

Notas dos editores (4)

1 Nasceu em Alcobaça. Casou com Joaquim dos Santos, a 13 de janeiro de 1897, ficando a residir no Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria. Faleceu a 20 de janeiro de 1982, com 82 anos de idade.

2 Nasceu a 7 de março de 1884. Foi ordenado sacerdote a 18 de julho de 1909. Foi coadjutor e pároco de Maceira, onde faleceu, a 7 de outubro de 1918, vítima da pneumónica.

3 A freguesia de Maceira pertenceu à diocese de Coimbra no período em que a diocese de Leiria esteve extinta. À data deste documento, já estava restaurada (17 de janeiro de 1918). O lapso do Pároco deve-se ao hábito criado.

4 Maria do Carmo teve cinco filhos: Júlia (n. 1897), Maria (n. 1902), José (n. 1904), Carlos (n. 1917) e Maria do Rosário (n. 1910).

DCF Seleção, Doc. 34 (= DCF I, Doc. 38) · depoimento · 18 jun. 1918 (10 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde o mez de Maio ultimo na Cova da Iria no dia treze de cada mez durante o tempo da apparição.

Entre mim e elle estabeleceu-se o curto dialogo que se segue:

- Que é que tens visto na Cova da Iria nos ultimos mezes?
- Tenho visto Nossa Senhora.
- Onde é que ella apparece?
- Em cima de uma carrasqueira.
- Apparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?
- Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e collocar-se sobre a carrasqueira.
- Vem devagar ou depressa?
- Vem sempre depressa.
- Ouves o que ella diz á Lucia?
- Não ouço.
- Fallaste alguma vez com a Senhora? Ella já te dirigiu a palavra?
- Não, nunca lhe perguntei nada; falla só com a Lucia.
- Para quem olha, tambem para ti e para a Jacinta ou só para a Lucia?
- Olha para todos tres; mas olha durante mais tempo para a Lucia.
- Já alguma vez chorou ou se sorriu?
- Nem uma cousa nem outra; está sempre séria.
- Como está vestida?
- Tem um vestido comprido e por cima um manto que lhe cobre a cabeça e desce até á extremidade do vestido.
- Qual é a côr do vestido e do manto?
- É branca, tendo o vestido riscos dourados.
- Qual é a attitude da Senhora?

– É a de quem está a rezar. Tem as mãos postas á altura do peito.

– Traz alguma coisa nas mãos?

– Traz entre a palma e as costas da mão direita umas contas que estão pendentes sobre o vestido.

– E nas orelhas o que tem?

– As orelhas não se vêem, porque estão cobertas com o manto.

– De que côr são as contas?

– São tambem brancas.

– A Senhora é bonita?

– É, sim.

– Mais bonita que aquella menina que tu alli vês?

– Mais.

– Mas ha senhoras muito mais bonitas que aquella menina...

– É mais bonita que qualquer pessoa que eu visse.

DCF III-2, Doc. 414 · notícia de imprensa · 27 set. 1917 (5 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (4)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Concluido o interrogatorio do Francisco, chamei de parte a Jacinta, que andava a brincar na rua com outras creanças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatorio logrando obter della respostas completas e minuciosas como as do irmão.

– Tens visto Nossa Senhora no dia treze de cada mez desde Maio para cá?

– Tenho visto.

– Donde é que ella vem?

– Vem do Ceu, do lado do sol.

– Como está vestida?

– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça um manto tambem branco.

– De que côr são os cabelos?

– Não se lhe vêem os cabelos, que estão cobertos com o manto.

– Traz brincos nas orelhas?

– Não sei, porque tambem não se lhe vêem as orelhas

– Qual é a posição das mãos?

– As mãos estão postas á altura do peito, com os dedos voltados para cima.

– As contas estão na mão direita ou na esquerda?

A esta pergunta a creança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a uma insistencia propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia á mão que a Apparição segurava o rosario.

– O que foi que Nossa Senhora recommendou á Lucia com mais empenho?

– Mandou que rezassemos o terço todos os dias.

– E tu reza-lo?

– Rezo-o todos os dias com o Francisco e com a Lucia.

DCF III-2, Doc. 414 · notícia de imprensa · 27 set. 1917 (5 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Que é que tens visto na Cova da Iria nos últimos meses?
- Tenho visto Nossa Senhora.
- Onde aparece ela?
- Em cima duma carrasqueira
- Aparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?

– Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira.

– Vem devagar ou depressa?

– Vem sempre depressa.

– Ouves o que ela diz à Lúcia?

– Não ouço.

– Falaste alguma vez com a Senhora? Ela já te dirigiu a palavra?

– Não, nunca lhe perguntei nada; fala só com a Lúcia.

– Para quem olha ela, também para ti e para a Jacinta, ou só para a Lúcia?

– Olha para todos três; mas olha durante mais tempo para a Lúcia.

Notas dos editores (1)

3 Nasceu em Aljustrel a 31 de maio de 1869. Casou com José Ferreira da Rosa, a 6 de fevereiro de 1888, ficando viúva em 1895. Deste matrimónio nasceram dois filhos, António Ferreira Rosa e Manuel Ferreira Rosa. A 11 de fevereiro de 1898, casou com Manuel Pedro Marto. Faleceu, em Aljustrel, a 3 de abril de 1957.

DCF Seleção, Doc. 10 (= DCF I, Doc. 7) · interrogatório · 27 set. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada mês desde maio para cá?

– Tenho visto.

– Donde é que ela vem?

– Vem do Céu, do lado do sol.

– Como está vestida?

– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça tem um manto, também branco. Em volta da cintura há uma fita doirada que desce até à orla do vestido.

– Usa botas ou sapatos?

– Não usa botas nem sapatos.

– Então tem só meias?

– Parece que tem meias, mas talvez os pés sejam tão brancos que pareçam trazer meias calçadas.

– De que cor são os cabelos?

– Não se lhe veem os cabelos, que estão cobertos com o manto.

– Traz brincos nas orelhas?

– Não sei, porque não se lhe veem também as orelhas.

– Qual é a posição das mãos?

– As mãos estão postas sobre o peito, com os dedos voltados para cima.

– As contas estão na mão direita ou na mão esquerda?

– .....

A esta pergunta a criança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a insistência da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia à mão com que a Senhora segurava o Rosário.

- O que é que a Senhora recomendou à Lúcia com mais empenho?
- Mandou que rezássemos o terço todos os dias.
- E tu reza-lo?
- Rezo-o todos os dias com o Francisco e a Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 10 (= DCF I, Doc. 7) · interrogatório · 27 set. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?

– É verdade.

– Quantas vezes te apareceu já?

– Cinco vezes, sendo uma cada mês.

– Em que dia do mês?

– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.

– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?

– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.

[…]

Donde é que ela vem? Das bandas do nascente?
- Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira é que toma a direção donde nasce o sol.
- Quanto tempo se demora? Muito ou pouco?
- Pouco tempo.
- O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Avé Maria, ou mais?
- Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez não chegasse para rezar o terço).
- Da primeira vez que a viste não ficaste assustada?
- Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal. Disse: “não tenham medo que eu não vos faço mal.”
- Como é que está vestida?
- Tem um vestido branco, que desce até um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido.
- O vestido não tem enfeites?
- Veem-se nele, na parte anterior, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reunem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo.
- Tem algum cinto ou alguma fita?
- Não tem.
- Usa brincos nas orelhas?
- Usa umas argolas pequenas e de cor amarela.
- Qual das mãos segura as contas?
- A mão direita.
- Eram um terço ou um rosário?
- Não reparei bem.
- Terminavam por uma cruz?
- Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas. A cadeia era também branca.
- Perguntaste-lhe alguma vez quem era?
- Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de outubro.
- Não lhe perguntaste de onde vinha?
- Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu.
- E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?
- Da segunda vez, a treze de junho.
- Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?

- Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria.
- Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações?
- Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo.
- Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria?
- Não disse nada a esse respeito.
- É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse?
- É certo.
- Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros?
- A todos três.
- Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor?
(A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta).
- Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade?
- Não é; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo. Não o quis enganar.
- A Senhora mandou que aprendesses a ler?
- Mandou, sim, da segunda vez que apareceu.
- Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler?
- Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa.
- O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira?
- Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova.
- Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?
- Não sei: ela não o disse.

- Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?
- Estou.
- No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?
- Vem também S. José com o menino, e será concedida a paz ao mundo.
- E fez mais alguma revelação?
- Declarou que no dia 13 fará com que todo o povo acredite que ela realmente aparece.
- Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?
- É que ela às vezes cega.
- Ensinou-te alguma oração?
- Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.
- Sabes de cor essa oração?
- Sei.
- Diz lá...
- Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem10.

Notas dos editores (1)

10 O Dr. Formigão fez um apontamento, possivelmente na mesma data, em que escreveu: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, e aquelas que mais precisarem. Para se recitar depois de cada mistério do rosário. Posteriormente, o Dr. Formigão acrescentou: e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas.

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Disseste-me há dias que Nossa Senhora queria que o dinheiro oferecido pelo povo fosse levado para a igreja da freguesia em dois andores. Como é que arranjam os andores e quando é que eles devem ser levados para a igreja?

– Os andores compram-se com o dinheiro oferecido e serão levados nas festas da Senhora do Rosário.

2a – Sabes com certeza em que sítio é que Nossa Senhora deseja que seja edificada uma capela em sua honra?

– Não sei ao certo, mas julgo que Ela quer a capela na Cova da Iria.

3a – O que é que Ela disse que havia de fazer para que todo o povo acreditasse que ela aparecia?

– Disse que havia de fazer um milagre.

4a – Quando foi que ela disse isso?

– Disse-o umas poucas de vezes, mas só uma vez, na ocasião da primeira aparição é que lhe fiz essa pergunta.

5a – Não tens medo de que o povo te faça mal se não vir nada de extraordinário nesse dia?

– Não tenho medo nenhum.

6a – Sentes dentro de ti alguma coisa, alguma força que te arraste para a Cova da Iria no dia 13 de cada mês?

– Sinto vontade de lá ir e ficava triste se não fosse.

7a – Viste alguma vez a Senhora benzer-se, rezar ou desfiar as contas do Rosário?

– Não vi.

8a – Mandou-te rezar?

– Mandou-me rezar umas poucas de vezes.

9a – Disse-te que rezasses pela conversão dos pecadores?

– Não disse; mandou-me só rezar a Nossa Senhora do Rosário para que acabasse a guerra.

10a – Viste os sinais que outras pessoas dizem ter visto, como uma estrela, rosas a despregarem-se do vestido da Senhora, etc.?

– Não vi a estrela nem outros sinais extraordinários.

11a – Ouviste algum rumor, trovão ou tremor de terra?

– Nunca ouvi.

12a – Sabes ler?

– Não sei.

13a – Andas a aprender a ler?

– Não ando.

14a – Como cumpres então a ordem que a Senhora te deu nesse sentido?

!.....

15a – Quando dizes ao povo que ajoelhe e reze, é a Senhora que manda que o digas?

– Não é a Senhora que manda, sou eu que quero.

16a – Sempre que ela aparece, tu ajoelhas?

- Às vezes fico de pé, outras vezes ajoelho-me.
16a – Quando fala, a sua voz é doce e agradável?
– É.
17a – Que idade parece ter a Senhora?
– Parece ter uns quinze anos.
18a – De que cor é o cadeado do rosário?
– É branco.
19a – E a do crucifixo?
– O crucifixo também é branco.
20a – O véu cobre a testa da Senhora?
– Não cobre. Vê-se-lhe a testa bem.
21a – O esplendor que a envolve é bonito?
– É mais bonito que a luz do sol e muito brilhante.
22a – A Senhora nunca te saudou com a cabeça ou com as mãos?
– Nunca.
23a – Nunca se sorriu para ti?
– Também não.
24a – Costuma olhar para o povo?
– Nunca a vi olhar para ele.
25a – Ouves as conversas, rumores e gritos do povo, durante o tempo que vês a Senhora?
– Não ouço.
26a – A Senhora pediu-te em maio que voltasses todos os meses até outubro à Cova da Iria?
– Disse que voltássemos lá de mês a mês durante seis meses, no dia 13.
27a – Ouviste ler a tua mãe o livro chamado “Missão abreviada” onde se conta a história da aparição de Nossa Senhora a um menino e uma menina?
– Ouvi.
28a – Pensavas muitas vezes nessa história e falavas dela a outras crianças?
– Não pensava nessa história nem a contei a ninguém.

Notas dos editores (4)

6 Manuel Gonçalves da Silva, residente em Aljustrel, casado com Maria dos Prazeres.

7 Pode tratar-se de Manuel Henriques, nascido em 1850, casado com Maria Violante, então residente em Fátima, ou de seu filho, também Manuel Henriques, nascido a 15 de fevereiro de 1891, que veio a casar com Maria dos Anjos.

8 Filho de António Carreira Ribeiro e de Rosa de Jesus Ribeiro. Nasceu na Moita do Martinho, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 19 de novembro de 1865. Casou com Maria da Cunha. Faleceu a 18 de janeiro de 1919. No Rol dos Confessados de 1917, não consta nenhum Francisco Rodrigues, mas sim Francisco Ribeiro. Deve tratar-se de um lapso do autor.

5 Anastácio Vieira, de Aljustrel. Padrinho de batismo de Lúcia, casado, a 29 de novembro de 1882, com Teresa de Jesus, tia paterna e madrinha de batismo de António dos Santos, pai de Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (3)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Que idade é que tens?
– Tenho nove anos feitos.
2a – Só vês a Senhora ou ouves também o que Ela diz?
– Só a vejo, não ouço nada do que Ela diz.
4a – Tem algum clarão em volta da cabeça?

- Tem.
5a – Podes olhar bem para a cara dela?
- Posso olhar, mas pouco, por causa da luz.
6a – Tem alguns enfeites no vestido?
- Tem uns cordões de ouro.
7a – De que cor é o crucifixo do rosário?
- É branco.
8a – E a cadeia do rosário?
- Também é branca.
9a – O povo ficava triste se soubesse o segredo?
- Ficava.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Jacinto de Sousa Bento

Gente da terrahomem de Assentiz
13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuNotaNuvem / coluna de fumoLuz a diminuirDescida da temperaturaTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão

Cerca da Fátima ou Aljustrel, Cova da Iria, ao lado de Aljustrel, [perto] da estrada [de] macadame, ao lado do norte. Casos presenciados por mim. No dia 13 de Junho fui lá a primeira vez, à qual não fui a tempo ao acto, mas falei com as pequenas no adro da Fátima. Interroguei-as atentamente e vi nelas o que me pareceu impossível não ser verdade. Desde essa hora fiquei crente que era a Virgem Santíssima que ali vinha. No dia 13 de Julho compareci também. À hora da aparição [via-se] uma nevoazinha. O sol perdeu a força deixando de fazer calor, o que até ali fazia muito. E muita gente disse que, quando a aparição falava, ouviam-na mas não

[…]

presenciavam [percebiam] o que Ela dizia. Eu só ouvi quando a Lúcia disse: lá vai Ela! Ouvi no ar um rugido. Parecia o princípio de um trovão. No dia 13 de Agosto compareci também. As meninas e o menino foram presos. Estava muita gente. Às mesmas horas da aparição os astros e o sol representaram o mesmo das outras vezes; e um sinal extraordinaríssimo nos astros. No dia 13 de Setembro compareci também. O sol e os astros fizeram a mesma figura. O povo entusiasmado a olhar para o ar, dizendo uns que viam estrelas, outros que viam uma pomba, outros que viam estrelas a correr e andorinhas a acompanhar. Era um entusiasmo em todos. Ainda outros que viam flores a cair. No dia 13 de Outubro choveu quase toda a manhã. À hora próxima à aparição deixou de chover. Os factos extraordinários que se deram no sol! Toda a gente presenciou: quem tinha os olhos abertos; quem os fechou não viu nada. E talvez houvesse quem visse e dissesse que não viu para não dar honras à Mãe do Céu. Haja o equívoco que houver com respeito à guerra, os [factos] extraordinários que lá houve são inegáveis.

DCF III-1, Doc. 77 · nota · depois de 13 out. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe de Lúcia
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 kmA multidão

Como soube que a Senhora apareceu à sua filha da primeira vez? Foi ela que lhe contou?

– Tive conhecimento desse facto pela família das outras crianças, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada com receio de que lhes ralhassem. Só depois de interrogada por mim é que disse o que tinha visto.

3a – Nunca repreendeu sua filha por ir à Cova da Iria? Deu-lhe sempre inteira liberdade de lá ir, no dia 13 de cada mês?

– Nunca a proibi de ir a esse sítio. Umas vezes perguntava-lhe se queria ir e ela respondia afirmativamente, outras vezes ela mesma dizia que ia, se eu lhe desse licença.

4a – As três crianças costumam ir sozinhas ao local das aparições ou vão acompanhadas de outras crianças?

– Vão sós. Quase sempre vão também outras crianças, mas acompanhadas dos pais e ficam ao pé deles, não se juntam com a Lúcia e os primos dela.

5a – As crianças guardavam gado? A quem é que ele pertencia?

– A Lúcia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e os primos outro. Pertenciam esses rebanhos às respetivas famílias. Às vezes juntavam o gado, mas unicamente porque queriam. As ovelhas que a Lúcia guardava, já as vendi.

6a – Como é que as crianças têm ido vestidas?

– Da primeira vez iam mal arranjadas, como andam quase sempre os pastores. Das outras vezes, no dia 13 de cada mês, vão vestidas de fato claro e levam um lenço branco na cabeça.

[…]

Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais?

– Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.

11a – Tem vindo muita gente ver sua filha?

– Tem vindo muita gente quase todos os dias.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesLuz a diminuir

Antes de cada aparição vias algum relâmpago?

– Às vezes via um, outras vezes via dois. Os ares estavam turvos, como de trovoada.

29a – Da primeira vez que a Senhora te apareceu o céu estava sem nuvens?

– Não me recordo se havia nuvens.

30a – Quando a Senhora te apareceu da 1a vez o que é que estavas a fazer?

– Rezei o terço antes dela vir.

31a – Quando sucedeu a primeira aparição ajoelhaste-te ou ficaste de pé?

– Da primeira vez fiquei de pé.

32a – A Senhora vinha sempre envolta num esplendor?

– Vinha.

– De que côr era esse esplendor?

– Era muito claro, muito branco.

33a – O esplendor aparecia primeiro que a Senhora?

– Aparecia quase ao mesmo tempo que a Senhora.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (6 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Sento-me ao pé dele e começo a minha conversa: “Viste Nossa Senhora?” — “Vi”. “Como vinha vestida?” — “Toda de branco e oiro.” “E não trazia nada de côr?” — “Não”. “E na cabeça?” — “Um manto.” “E mais nada?” — “Sim, trazia uma coisa.” “O quê?” — “Não sei, uma coisa.” “E via-se o cabelo?” — “Não”. “E os olhos de que côr eram?” — “Eram pretos.” Estas respostas eram dadas com um ar de uma naturalidade enorme, um pouco arrastadas. Todas as três crianças com quem falei separadamente, mudam de tom descrevendo o olhar de N. Senhora. Vê-se que foi o que mais as impressionou.

DCF III-2, Doc. 370 · carta · 13 mai. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

A Lucia diz dos olhos: “Eram muito escuros.” “E o fato?” — “Branco e oiro.”

“Com cinto de côr?” — “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” “E na cabeça?” — “Um manto e uma coisa, assim...” “Mas o quê?” — “Não sei, era assim um açafatico” (um açafatesinho). Eu nem disse a palavra corôa que me veio logo á ideia; deixar a pequena explicar-se como sabe e confesso que achei de apetite a comparação. “E via-se o cabelo?” — “Não.” “Olha, N. Senhora estava a rir-se, alegre?” — “Não, estava séria.” “Zangada?” — “Não, séria.” “Trazia as contas, não trazia?” — “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos, assim...” A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha visto: A certa altura diz-me que N. Senhora tinha muita luz. “Como o sol?” — “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: “Porque tiveste medo ao principio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.” — “É que a senhora não me cegava.” Diz que N. Senhora pede ao povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a N. Senhora do Rosario. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se emenda, o povo não se emenda...”

DCF III-2, Doc. 370 · carta · 13 mai. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (4)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuRecordação posteriorFiguras / visões

O vestido de Nossa Senhora era destas cores; o vestido era todo branco; tinha dos estrelas da cinta para baixo uma na direção da outra; ao pescosso um cordão com uma bola chegava até á cinta; as mãos postas, e delas caia umas contas não sei se era Rosario se era Terço branco com um cruxifixo tambem branco. O manto cobria-lhe a cabeça até ao fim do vestido. tinha uma beirinha doirada; os pés não sei se tinha maias se vinha descalços, porque eu não lhe defrençava os dedos, era porcausa da luz que me não deixava fitalos tudo em vol[ta] dela era uma luz tam brilhante e tam forte que me não deixava ver como eu queria porque parecia cegar-me.

Paresseme que já disse quase tudo se me falta alguma coisa duque ela disse para escrever não me lembro.

DCF III-3, Doc. 685 · documento · 5 jan. 1922 (5 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Os teus primos falaram alguma vez com a Senhora?”. Respondeu: “Nunca falaram; uma vez combinámos que a Jacinta lhe falasse, mas, chegando lá, a Jacinta não disse nada.”

– “O semblante da Senhora era risonho?”. Respondeu: “Era triste; quando falava, abria as mãos que estavam juntas e erguidas de encontro ao peito”.

[…]

Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”. Respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário.

– “E quem era essa Senhora?”. Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora”.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador do concelho, mas que nesse mês A viu no domingo seguinte – dia dezanove – no sítio chamado Valinho, onde foi chamada por seu irmão João, a pedido da Lúcia.

Disse que viu uma Senhora muito bonita, toda vestida de branco, com fato dourado aos cordõezinhos, com um véu ou manto pela cabeça, do tamanho de F. – indica uma rapariga de regular estatura e dos seus catorze anos – e que trazia umas contas muito branquinhas penduradas nas mãos e seguras entre os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, que tinha erguidas à cintura, e que separava uma da outra, pouco mais ou menos à largura dos ombros, quando falava à Lúcia.

Quando Ela falava para a Lúcia, que ouvia uma voz muito piedosa, mas que não se lembra de ouvir dizer, senão que a gente – elas videntes – ia para o Céu. Pelas várias vezes que a interroguei nunca se contradisse no essencial, havendo todavia coisas acidentais, algumas contradições, verdadeiras ou aparentes. Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:

– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.

Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:

– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.

Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:

– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!

Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.

Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta. A respeito do segredo também não consegui que me o revelasse; apenas disse que ele – segredo – não era mau para elas, videntes. Disse mais, que a Senhora lhe apareceu mais três vezes: uma no dia da Ascensão do Senhor na Igreja durante a missa e que lhe ensinou a rezar as contas; outra vez, à noite, sobre o alçapão do sótão estando a família a dormir; e mais uma, debaixo (ou salvo erro em cima) duma mesa, sem nada lhe dizer, até que ela, Jacinta, disse para a mãe: Olhe... não vê a Senhora, que lá vi em cima, ali debaixo?!... Olhe!!! Como a própria mãe me declarou.

13 ago.Testemunho diretoInterrogatórioa 2 kmPalavras dos videntes

Ao interrogar a menina Lúcia sobre quem lhe tinha ensinado a dizer o que tem dito; responde que foi aquela Senhora que viu na Cova da Iria. Ao dizer-lhe que vai para o inferno quem diz mentiras que causam tanto prejuízo como o que causa o que ela diz – se fôr mentira, por tanta gente vir enganada – responde, que, se quem diz mentiras vai para o inferno, ela que não vai para o inferno por causa disso, porque não diz mentiras, mas só diz o que viu e o que a Senhora lhe disse, e que se o povo vem é porque quer, que ainda não chamou ninguém. Pergunto-lhe se a Senhora lhe tinha dito algum segredo. Responde que sim; mas, que me o não diz. Feitas várias interrogações sobre ele, responde: Olhe!... se quer... vou lá acima e pergunto à Senhora se Ela me dá licença para eu dizer o segredo e se Ela me der licença, então digo-lhe.

Manuel Marques Ferreira

Cleropároco de Fátima
13 ago.Testemunho diretoCartaa 2 kmA multidão

O reverendo Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, em carta datada de quinze de agosto de mil novecentos e dezassete, publicada no mesmo jornal, defende-se das acusações que injustamente lhe são feitas de cumplicidade com o administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém no rapto dos videntes realizado no dia treze desse mês. Afirma nela que a sua vida chegou a correr perigo, tão grande era a excitação dos ânimos, provocada pelo rapto e pela calúnia que lhe foi assacada. Finalmente, expõe as razões da sua ausência sistemática do local das aparições no dia treze de cada mês, a qual é devida à convicção em que se acha de que a sua presença não é necessária, se as aparições são realmente sobrenaturais, e ao desejo de não fornecer aos inimigos da Igreja um pretexto para que atribuam a fé da multidão à presença ou aos conselhos do pároco de Fátima.

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · 15 ago. 1917 (2 dias depois)DigitalizaçãoLigação

Manuel Marques Ferreira

Cleropároco de Fátima
13 ago.Testemunho diretoCartaa 3 km

P.S. — Chegou no dia 15, a autoridade com as crianças a minha casa, onde se juntaram os pais das mesmas e muitas outras pessoas perante as quais pretendeu com todas as amabilidades explicar o seu modo de proceder.

DCF III-1, Doc. 19 · carta · antes de 1 set. 1917 (3 semanas depois)DigitalizaçãoLigação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 ago.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 km

No dia dezanove, a Lúcia chegou a casa à noite, trazendo na mão um raminho de azinheira e disse que Nossa Senhora lhe tinha aparecido um pouco antes do sol posto, aí pelo meio da tarde, às quatro horas, tendo estado ao meio-dia com o gado em casa. A mãe pegou no ramo e notou que cheirava muito bem. O cheiro não se podia comparar com nenhum outro cheiro. Ela era descrente e ficou um pouco quebrada, um pouco mais convencida.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

José Alves

Gente da terramorador da Moita, de 58 anos
13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoNão viu nadaDepoimento ajuramentadoAtitude cética

Quase todos os meses José Alves foi lá no dia treze depois de maio e não viu nada, só ouvia dizer aos outros que viam coisas no céu. Não ouviu o estrondo em agosto. Ouvia dizer muitas vezes que aparecia um fumozinho.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

33 - Nunca disse a que horas vinha mas nós íamos lá àquelas horas.

[37]4

[37-] A Senhora disse-lhe um segredo mas ela não o revelará.

Notas dos editores (1)

4 Quase certamente, o autor dispensou-se de fazer as perguntas nº 34 a 36. Tal como no interrogatório anterior, o Pe. Lacerda também aqui continuou a conversa com a Lúcia, de que resultaram as duas respostas seguintes.

DCF Seleção, Doc. 15 (= DCF I, Doc. 46) · interrogatório · 19 out. 1917 (5 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

O que a Senhora trazia nos pés eram meias? Tens a certeza disso?

– Cuido que eram meias, mas podiam não ser.

4ª – Tu nunca disseste o segredo, nem mesmo disseste que o povo ficava triste se o soubesse. O Francisco e a Jacinta dizem que ficava triste. Se tu não podes dizer isso, também eles o não podiam dizer. Que te parece?

– Não sei se eles deviam ou não dizer, que o povo ficava triste. Nossa Senhora disse que não devíamos dizer nada a ninguém. Por isso não posso dizer nada.

2a – Tu disseste uma vez que a Senhora tinha meias brancas. Então eram as meias ou eram os pés?

– Se eram meias, eram brancas, mas eu não sei ao certo se eram meias ou se eram os pés.

3a – A saia era sempre do mesmo comprimento?

– A saia da última vez parecia mais comprida.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (6 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

Quando foi que a Senhora te ensinou a oração que devias rezar depois de cada mistério?

– Parece-me que foi no terceiro mês.

2a – Quantas foram as pessoas que a Senhora prometeu curar e converter?

– Eu pedi por muitas e ela disse que curava e convertia umas, outras não.

3a – Quantas vezes lhe fizeste esse pedido?

– Parece-me que foi cinco vezes, ora por umas pessoas, ora por outras.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 3 nov. 1917 (6 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Algumas vezes e em diversas ocasiões interroguei o Francisco e sempre me disse que viu uma Senhora muito bonita na Cova da Iria e no Valinho nos mesmos dias que suas companheiras tinham indicado e que vinha vestida de branco, mas que não A ouvia falar. A respeito do segredo nada consegui que me revelasse. Dizendo-lhe eu que, não ouvindo ele a Senhora, não tinha segredo algum, respondeu que sim, tem, que lhe disse a Lúcia. Disse-lhe que, como foi a Lúcia que o disse, podia-me dizer, porque não é segredo nem Nossa Senhora lhe disse que o não dissesse, respondeu: não digo, que é pecado, que a Lúcia disse que o não dissesse eu, por isso não digo.

Testemunhos indiretos 37

O que uma testemunha contou a outra pessoa, tal como essa pessoa o relatou.

Peregrinos não identificados que regressavam da Cova da Iria

GrupoVisitantepessoas da multidão interrogadas pelo autor na estrada
13 ago.Testemunho indiretoViuCartaTrovão / ruídoNuvem / coluna de fumoFiguras / visões
Transmitido por: Joel de Deus Magno

Estavamos n'isto quando apparecêram uns homens muito contentes dizendo que N. Senhôra tinha apparecido. Despedi-me logo dos padres e fui para cima. Vinham já as estradas cheias d'aquelle pôvo que comentava o estrondoso facto. A cada grupo eu perguntava o que tinham visto e em menos de um phosphoro via-me cercado de tôda aquella gente que em grande gritaria me contavam que ouviram um trovão e tôda a gente fugira; voltando depois, viram descer uma nuvem, azul e branca que brevemente se levantára e desapparecêra. Outros que tinham visto um relampago e havia mulhersinha que com as lagrimas nos olhos dizia convencidissima que vira N. Senhôra; emfim tôdos ficáram satisfeitos

DCF III-1, Doc. 7 · carta · depois de 13 ago. 1917Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Pedro Marto (pai de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Chegaram a mulher e a Jacinta e ele perguntou à filha o que havia, tendo ela dito que Nossa Senhora tinha aparecido; que quem ia com o gado eram o João, a Lúcia e o Francisco, que o João chamou-a e que, logo que ela lá chegou apareceu Nossa Senhora, e que haviam de aparecer Nossa Senhora das Dores, (segundo lhe parece), Nossa Senhora do Rosário, S. José e o Menino Jesus.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · depoimento · 19 ago. 1917 (6 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Rosa (mãe de Lúcia), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

No dia dezanove, a Lúcia chegou a casa à noite, trazendo na mão um raminho de azinheira e disse que Nossa Senhora lhe tinha aparecido um pouco antes do sol posto, aí pelo meio da tarde, às quatro horas, tendo estado ao meio-dia com o gado em casa. A mãe pegou no ramo e notou que cheirava muito bem. O cheiro não se podia comparar com nenhum outro cheiro. Ela era descrente e ficou um pouco quebrada, um pouco mais convencida. Disse a filha que a Senhora tinha dito que continuassem a ir à Cova da Iria e que havia de fazer um milagre em outubro na Cova da Iria, que os militares haviam de vir da guerra, que havia de vir Nossa Senhora das Dores e outras coisas mais.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · depoimento · 19 ago. 1917 (6 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoDepoimento ajuramentado
Transmitido por: Manuel Pedro Marto (pai de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

O que é certo porém, é que pelo caminho, no regresso de Ourém, já tinha dito às crianças que tornaria a prendê-las se fossem outra vez à Cova da Iria.

Quando o administrador tomou a direção de Ourém, a Lúcia e a Jacinta disseram-lhe que a Cova da Iria não era para aquele lado, retorquindo ele nestes termos: “levo-as a casa do senhor Prior de Ourém que as quer interrogar e depois vêm em automóvel, que ainda chegam a tempo”. Logo que chegaram, pediram-lhe que as levasse a casa do senhor Prior, mas o administrador disse que primeiro haviam de comer, ao que elas se prestaram.

13 ago.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Leonor de Avelar e Silva Constâncio

Soubemos depois, que, as creanças postas em liberdade no dia 15, diziam ter sido no dia 19 favorecidas com nova apparição, não na Cova da Iria, mas nos Valinhos, onde andavam apascentando o gado. Que a Senhora lhes recommendára novamente que rezassem o terço em honra da Senhora do Rosario para abrandar a guerra, e que por terem sido presas no dia 13 não se veriam no proximo mez, os mesmos signaes, e que o milagre seria mais conhecido. Mas que Ella viria no dia 13 de Setembro à Cova da Iria, e que fossem as creanças tambem lá.

DCF III-1, Doc. 129 · nota · depois de 19 out. 1917 (2 meses depois)Digitalizações (4)Ligação
13 ago.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria da Capelinha, da Moita), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Nos Valinhos perguntou a Lúcia à Senhora, a pedido da depoente, se Nossa

Senhora tinha aparecido a mais alguém na Cova da Iria, e a Senhora respondeu que não era ela, mas sim um anjo, o vulto que a Carolina, filha mais nova da depoente, de doze anos, e uma pequena de sete anos, de Espite, viram a vinte e oito de julho junto da azinheira, de pequena estatura, muito lindo, de cabelo loiro, vulto que depois a Carolina viu em cima da azinheira.

João Marto

Família dos videntesGente da terrairmão de Francisco e Jacinta, de 11 anos
13 ago.Testemunho indiretoEm parteDepoimento ajuramentadoa 2 kmTrovão / ruídoPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus

Quando o João veio à noite, a mãe perguntou se tinha visto alguma coisa. Ele respondeu que viu a Lúcia, o Francisco e a Jacinta de joelhos, ao pé da azinheira, ouviu a Lúcia falar e quando a Lúcia disse: – “Ela já lá vai, ó Jacinta” – ouviu uma rugida como de um foguete, mas não viu nada. E acrescentava que até lhe doía os olhos de olhar para o ar. Contava então onze anos de idade.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoNotaa 12 km
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Logo que chegaram a Ourém, as crianças são fechadas num quarto e dizem-lhes que não sairiam dali, enquanto não declarassem o segredo que a Senhora lhes tinha confiado. No dia seguinte, depois de interrogadas por uma senhora, são conduzidas à administração do concelho e novamente interrogadas, havendo quem lhes ofereça peças de ouro para revelarem o segredo. À tarde foram outra vez interrogadas sobre o segredo. Levaram-nas à cadeia e ameaçaram-nas de lá as fazerem ficar, se o não dissessem. Como elas o não quisessem dizer, ameaçaram que as iam fritar em azeite. Nessa altura, na presença das crianças, o administrador disse a um indivíduo que estava próximo que aprontasse uma caldeira com azeite quente. Chamou depois a Jacinta, dizendo que era a primeira a ser queimada. Ela foi prontamente, e a Lúcia, no seu depoimento, acrescenta ingenuamente que foi sem se despedir. Interrogaram-na e meteram-na num quarto. Chamaram em seguida o Francisco, disseram-lhe que a Jacinta já estava queimada e que ele teria a mesma sorte, se não declarasse o segredo. Interrogaram-no e mandaram-no para o mesmo quarto. Foi depois a vez da Lúcia. Disseram-lhe que os primos já estavam queimados e que ela teria a mesma sorte, se não dissesse o segredo. Embora pensasse que era certo, a vidente não teve medo, como ela própria declara. Mandaram-na para junto dos primos e um homem disse que não tardariam a ser queimados todos três. Levaram-nos para casa do administrador e lá ficaram mais uma noite no mesmo quarto. No dia seguinte, sucedeu quase a mesma coisa: interrogatórios de manhã e de tarde, com muitas promessas e ameaças. No dia dezasseis foram outra vez à administração, pelas dez horas, mas nada conseguiram dos videntes, como das outras vezes, até que por fim o administrador os foi levar à residência paroquial de Fátima.

Notas dos editores (2)

21 O relator quereria referir-se ao 1º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Braga, de 2 a 6 de julho de 1924.

22 Três meses (maio, junho e julho).

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.13 set.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria da Capelinha, da Moita), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Quando as crianças voltaram à Cova da Iria, disse-lhes que perguntassem à Senhora o que havia de fazer ao dinheiro. Nos Valinhos, quando se deu ali a aparição, a dezanove do mesmo mês, a pequena fez realmente à Senhora essa pergunta e a Senhora disse que fizessem dois andores e os levassem para a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Muitas pessoas ficaram com pena de que o dinheiro não se aplicasse em alguma coisa a fazer no local e disseram à Lúcia que pedisse autorização para fazer uma ermida no local, autorização que a Senhora deu em treze de setembro, com a condição de darem metade do dinheiro existente para a Senhora do Rosário da Fátima. Reuniu-se a quantia de treze mil quinhentos e quarenta, em treze de setembro. E cumpriu-se o que a Senhora ordenou.

13 ago.13 set.Testemunho indiretoViuNotaPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

A dezasseis de agosto, dia da quarta aparição, depois dos tristes episódios de Ourém, a Lúcia pediu à Senhora um milagre para que o povo acreditasse, e Ela disse que no último mês faria um sinal no sol e que todos haviam de acreditar. Depois do que se passara na sede do concelho e em face das dúvidas que tantas pessoas manifestavam acerca da realidade e sobrenaturalidade das aparições, era natural que a Lúcia se lembrasse de pedir à Senhora uma prova evidente de que ela não era mentirosa, como muitos pretendiam. Se não se lembrou, decerto alguém a aconselharia a fazer esse pedido. No dia treze de setembro, a Lúcia insistiu pelo cumprimento da promessa. Eis as palavras textuais que constam do relatório a fls. 526: “Pedi outra vez que fizesse um milagre para o povo acreditar, porque diziam que eu era uma intrujona que devia ser enforcada e queimada. A Senhora deu-me a mesma resposta da outra vez”.

Notas dos editores (1)

26 Trata-se do interrogatório a Lúcia, no dia 8 de julho de 1924 (cf. Doc. 82).

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · 8 jul. 1924 (7 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 ago.13 out.Testemunho indiretoViuLivroFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Na manhã do dia treze de Maio de 1917 um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas, pertencente a suas familias, numa propriedade da serra de Minde, situada na freguezia de Fátima, concelho de Villa Nova d’Ourem, districto de Leiria.

[…]

Approximava-se naquelle dia a hora do meio-dia astronomico. Segundo o seu costume, as tres creanças, depois de se terem occupado durante bastante tempo nos seus innocentes divertimentos, puzeram-se a rezar o terço do Rosario, devoção muito querida dos habitantes daquella freguezia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distancia dellas, a claridade fulgurante de um relampago e apparecer quasi simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher de extraordinaria belleza. Assustadas comum successo tão insolito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilisou completamente a ttitude benevola da Apparição, que numa voz dulcissima prometteu que não lhes faria mal algum.

A Apparição parecia não ter mais de dezoito annos de edade. O vestido era de uma alvura purissima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irreprehensivel e que tinha um não sei quê de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas á altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosario, cujas contas, brancas de arminho, pareciam perolas. De todo o seu vulto, circumdado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formusura impossivel de descrever e incomparavelmente superior a qualquer belleza humana.

Entre a Apparição e a Lucia estabeleceu-se um dialogo, que durou cerca de dez minutos.

A Jacinta via a Apparição e ouvia distinctamente as palavras que ella pronunciava dirigindo-se á Lucia, mas nunca lhe fallou nem a Apparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Apparição, não ouvindo nunca o que ella dizia á Lucia, apesar de se encontrar á mesma distancia e de possuir um excellente ouvido.

[…]

A Apparição recommendou insistentemente que todos fizessem penitencia e rezassem o terço do Rosario. Communicou ás creanças um segredo, que não podiam revellar a ninguem. Prometeu-lhe o Ceu.

Pediu que naquelle local se erigisse uma capella em sua honra e declarou que no dia treze de Outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que elle realmente tinha alli apparecido. Em treze de Agosto, momentos antes da hora da apparição, as creanças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou pelo menos não revelassem o segredo que a Apparição lhe tinha confiado.

Nesse mês a apparição teve logar no dia dezanove, no sitio chamado dos Vallinhos, quando as creanças já não pensavam que ella se verificasse senão no mês seguinte.

Notas dos editores (1)

1 Este capítulo, com ligeiras alterações, viria a ser publicado em Visconde de Montelo - Os acontecimentos de Fatima, Guarda, Empresa Veritas, 1923, p. 7-10; cf. também DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, p. 161-162 (texto reformulado). A partir da p. 162 até à p. 164, o texto é inteiramente novo, escrito para o Relatório da Comissão Canónica

DCF III-3, Doc. 621 · livro · 10 jun. 1921 (4 anos depois)Digitalizações (4)Ligação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe de Lúcia
13 mai.13 ago.Outros de 1917Testemunho indiretoNotaAtitude céticaa 2 km
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Foi pela família dos outros dois videntes, Francisco e Jacinta, seus sobrinhos, que ela soube que Nossa Senhora tinha aparecido à filha da primeira vez, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada, com receio de que lhes ralhassem. Esta, só depois de interrogada pela mãe, é que disse o que tinha visto.

[…]

A princípio não acreditava na sinceridade das crianças. Perante a concorrência das multidões à Cova da Iria nos dias treze, o seu desejo era obstar a ida de sua filha a esse local em tais dias. Só a muito custo e guiando-se pelos conselhos de pessoas de autoridade, que a aconselhavam a dar liberdade à filha para fazer o que lhe aprouvesse, é que se resolvia a permitir a sua partida. Temendo que a filha andasse a enganar o povo com falsas declarações, embora não a tivesse por mentirosa, exprobava-lhe severamente o seu procedimento, ameaçando-a várias vezes com pancadas, e uma ocasião, num dos primeiros meses das aparições, chegou até a bater-lhe com um chinelo, tratando-a de impostora.

[…]

A mãe da Lúcia, quando lhe disseram que a filha tinha sido presa, respondeu: “Se foi por Deus, Deus os guardará, se mentiram, não continuam!...”. E, enquanto muitas pessoas choravam de pena ou de indignação, ela conservava a serenidade duma alma verdadeiramente cristã.

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Carlos de Azevedo Mendes

Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais leve alteração. A base principal, que de tudo o que me dizem, eu deduzi é “– que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço –”. Todos os pequenos dizem sempre, que, quem lhes aparece, é a Senhora. Não sabem quem é... Só depois das 6 vezes, no dia 13 de Outubro, lhes diz quem é e o que quer!!... A naturalidade e ingenuidade, com que falam e contam o que viram é admirável e impressionante.

A Lúcia vê a Senhora, fala com ela e ouve-a. A Jacinta vê a Senhora, ouve-a, mas não fala com Ela. O Francisco vê a Senhora, mas não lhe fala, nem a ouve!!!... É interessante esta diferença, não achas Prazeres??... Mas além de interessante tem até mesmo muito de extraordinário!!... Ouvir as petizas, vê-las na sua simplicidade, examinar-lhes o seu todo, impressiona-nos de uma maneira extraordinária, e leva-me a concluir, que em tudo o que me dizem, alguma coisa existe de sobrenatural. Estar com elas choca-nos com uma forte intensidade... Hoje, Prazeres, é convicção minha que há um facto extraordinário, que a nossa razão não alcança. Qual?... Com ansiedade mais crescente ainda espero o próximo dia 13. O que é certo, é que nos sentimos bem junto das pequenas e chegamos a perder a noção do tempo. Há uma atração, que não sei como explicar... Uma das impressões mais intensas das crianças é a da beleza da Senhora. O rapaz para exprimir a sua admiração dizia-me que era “muito bonitica”!!!... Mostrei-lhe o teu retrato e perguntei: é mais bonita? “Muito mais!!...”. A Senhora vem toda de branco com ouro. Não traz nenhuma faixa azul como se dizia. Se é a Senhora da Paz.... Já te recordaste, o que disse na 2ª aparição?... Que aprendessem a ler... Dizia-me a Jacintita “que já ia na carreira do A”!!...

[…]

A oração, que dizem a Senhora lhes ensinou é simples, é a seguinte:

“Ó meu Jesus perdoai-me.

Livrai-me do fogo do inferno

Levai as alminhas todas para o céu, principalmente as que mais precisarem.”

Queres maior simplicidade? Achei interessante que a Senhora a tivesse ensinado, mas não lhe recomendasse que a rezassem.

Maria do Carmo

Gente da terramulher de 47 anos do Arnal (Maceira, Leiria), dada como curada na Cova da Iria
13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoNotícia de imprensaCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Maria do Carmo, de quarenta e sete annos de edade, natural do logar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco annos que soffria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os symptomas caracteristicos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estomago e nos intestinos. Em principios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinario. Eram continuas e difficeis de supportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta d'ár. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe immenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no utero. Definhava e emmagrecia a olhos vistos. Trez meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr á cabeça nenhum objecto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe occasionava. Tinha com frequencia vontade de vomitar, embora não vomitasse.

Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, augmentavam as dores de cabeça. As dores de estomago quasi que não lhe permittiam dormir. Para não passar peor comia muito pouco.

Sustentava-se exclusivamente ou quasi exclusivamente de leite.

Uma tosse funda e secca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os visinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ella propria não deixava approximar de si os filhos com medo do contagio. Um individuo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar proximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a duvidas que ella estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do anno proximo findo. Debalde procurou lenitivo para os seus incommodos nos recursos da medicina. Pobre como era e não havendo medico senão a alguns kilometros de distancia, na Batalha, só alli foi uma vez com o marido consultar o distincto e habil clinico dr. Padrão. Os remedios que esse facultativo receitou não lhe produziram allivio algum.

Nestas circunstancias não alimentava nenhumas illusões ácerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa occasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do paiz, a nova consoladora de que a Virgem Santissima desde o mez de maio precedente apparecia todos os mezes no dia treze a umas humildes creancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria” pertencente á freguezia de Fatima, concelho de Villa Nova d'Ourem, a sete leguas de distancia de Maceira. Um clarão de suave esperança illuminou subitamente o seu espirito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fatima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa. Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empreza uma verdadeira temeridade, oppoz-se á sua ida. “Nós somos pobres, dizia elle á mulher, não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efectuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciencia, mas não te deixo ir”.

Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava immenso quando caminhava, por pouco que fôsse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possue um pequeno predio rustico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem numero de vezes á beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuindo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalavel confiança, accedeu ás suas porfiadas instancias e resolveu-se a acompanhá-la. Veio finalmente o dia treze de Agosto, tão ardentemente esperado. Á uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou varias vezes no percurso.

Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das apparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ella, segundo a sua propria expressão, era uma dôr. Alguns instantes depois, com grande surpreza, experimentou notaveis allivios.

Sentou-se á sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e alli se conservou até ás tres horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como á ida.

De dia para dia as melhoras accentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos solidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de Setembro voltou pela segunda vez a Fatima, não lhe causando a viagem tanto incommodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia resava o terço do Rosario tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando attenção ás conversas das pessoas que a acompanhavam.

A partir desse dia melhorou ainda mais.

Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos difficuldade á fazenda. A treze de Outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar á Fatima surprehendeu-a a memoravel chuva torrencial que assignalou aquelle dia de outomno. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das apparições. As dores desappareceram para não mais voltar. A intumescencia do ventre e dos membros superiores e inferiores desappareceu egualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indegestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incommodo. Não tornou a sentir falta d'ar. Trabalha muito e pode por á cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e gosa de excelente saude. Jámais em tempo algum da sua vida, se lembra de ter passado tão bem. No dia treze de novembro foi de novo á Fatima afim de agradecer a sua cura á Virgem do Rosario4.

Notas dos editores (1)

4 Sobre este relato de cura cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918.

DCF III-2, Doc. 382 · notícia de imprensa · 12 fev. 1918 (6 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (6)Ligação
13 mai.13 ago.13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoViuLivroFiguras / visõesPalavras dos videntesA multidão
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Na manhã do dia treze de maio de 1917, um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas pertencentes a suas famílias, numa propriedade da serra de Minde situada na freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, diocese de Leiria.

A mais velha das três crianças, de nome Lúcia de Jesus, era filha de António dos Santos, que faleceu no ano seguinte1, e de Maria Rosa dos Santos, e contava dez anos de idade. O menino e a outra menina, que eram irmãos, chamavam-se Francisco e Jacinta, tendo aquele nove anos e esta sete anos de idade. Foram seus pais Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. Eram primos da Lúcia. As habitações das duas famílias, que, não sendo ricas, possuíam contudo alguns bens de fortuna, ficavam próximas uma da outra, no lugar de Aljustrel, cerca de um quilómetro da igreja paroquial de Fátima. Nenhuma das crianças sabia ler nem escrever. A sua instrução religiosa era ainda muito rudimentar. Só a Lúcia tinha feito a primeira comunhão.

Aproximava-se naquele memorável dia a hora do meio-dia astronómico. Segundo o seu costume, as três crianças, depois de se terem ocupado durante bastante tempo em inocentes divertimentos, puseram-se a rezar o terço do Rosário, devoção muito querida dos habitantes daquela freguesia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distância delas, a claridade fulgurante de um relâmpago e aparecer quase simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher, de extraordinária beleza. Assustadas com um sucesso tão insólito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilizou completamente a atitude benévola da Aparição, que numa voz dulcíssima prometeu que não lhes faria mal algum.

A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha o que quer que fosse de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana.

Entre a Aparição e a Lúcia estabeleceu-se um diálogo, que durou cerca de dez minutos.

A Jacinta viu a Aparição e ouvia distintamente as palavras que ela pronunciava, dirigindo-se à Lúcia, mas nunca lhe falou nem a Aparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Aparição, não ouvindo nunca o que ela dizia à Lúcia, apesar de se encontrar à mesma distância e possuir um excelente ouvido.

A Aparição convidou nesse dia os três pastorinhos a voltarem todos os meses no dia treze, durante seis meses consecutivos, àquele local, vulgarmente conhecido pelo nome de Cova da Iria e situado a pouco mais de dois quilómetros da igreja paroquial de Fátima, ao lado da estrada distrital de Vila Nova de Ourém à Batalha.

[…]

A Aparição recomendou insistentemente que todos fizessem penitência e rezassem o terço do Rosário. Comunicou às crianças um segredo, que não podiam revelar a ninguém. Prometeu-lhes o Céu.

Pediu que naquele local se erigisse uma capela em sua honra e declarou que no dia treze de outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que ela realmente tinha ali aparecido. Em treze de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou se pelo menos não revelassem o segredo que a Aparição lhes tinha confiado.

Nesse mês a aparição teve lugar no dia dezanove, no sítio chamado dos Valinhos, quando as crianças já não pensavam que ela se verificasse senão no mês seguinte. No dia treze de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o diálogo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol.

Notas dos editores (1)

1 António dos Santos faleceu a 31 de julho de 1919.

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Reproduz-se aqui, em resumo, o relato das aparições.

A Senhora diz que o seu lugar é o Céu, promete a felicidade eterna às três crianças, comunica-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensina-lhes uma pequena oração4, recomenda a Lúcia que aprendam a ler, manda que todos rezem o terço, para que a guerra acabe, anuncia o aparecimento de Nosso Senhor, de S. José com o Menino Jesus, de Nossa Senhora sob as invocações do Rosário, do Carmo e das Dores, recomenda de novo a recitação do terço, declara que a guerra acabava brevemente e no último dia afirma que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens, suplica que não O ofendam mais, insiste mais uma vez em que rezem o terço, declara que ela é a Senhora do Rosário e ordena que se edifique ali uma capela em sua honra. O depoimento da Jacinta confirma, dum modo geral, o depoimento da Lúcia, assim como o do Francisco, que contudo só via a Senhora, não ouvindo nada do que ela dizia a sua prima.

Notas dos editores (1)

4 Jaculatória: Ó Meu Jesus perdoai-nos...

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Mas se me reportava a declarações dos videntes que conservasse de memoria, é-me totalmente impossivel precisar, depois de tantos annos, qual das crianças me assegurou que a cruz do rosario era ou parecia de ouro. Teria sido o Francisco? Teria sido a Jacinta? Não sei. Importa acentuar que a Lucia, assim como os primos, ás vezes diziam ser brancas certas partes do corpo ou certas peças do vestuario da visão por causa da luz clara e brilhante que a envolvia e que quasi lhes cegava os olhos. Pag. 77, Lucia: "É que ella ás vezes cega". Pag. 94, Francisco: "Posso olhar para a cara della, mas pouco, por causa da luz".

DCF V-4, Doc. 1229 · carta · 1917 · também publicado em DCF V-4, Doc. 1277DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo), entrevistado por A Guarda

Duas pastorinhas e um zagalete afirmaram que uma senhora de incomparavel beleza lhes aparecia no dia treze de cada mês desde Maio a Outubro dêsse ano, fazendo-lhes diversas comunicações, algumas delas de caracter secreto. A Visão, segundo o testemunho das tres creanças, prometeu dizer no dia treze de Outubro quem era e operar nesse dia um prodigio, para que todos acreditassem nas suas palavras, pedindo ao mesmo tempo que erigissem uma capela em sua honra no local das aparições.

Por varias vezes declarou que Deus estava muito ofendido com os pecados dos homens e que graves castigos os ameaçavam, recomendou a todos que fizessem penitencia, aconselhou a recitação frequente do terço e por ultimo disse que era a Senhora do Rosário.

DCF III-3, Doc. 775 · notícia de imprensa · 13 mar. 1922 (5 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria

A 13 de maio de 1917, três crianças da freguesia da Fátima, vigararia de Ourém, desta Diocese, apascentavam um pequeno rebanho num lugar, então ermo, chamado Cova da Iria.

A mais velha, Lúcia de Jesus, tinha 10 anos de idade, Francisco nove e Jacinta seisa. Estes eram irmãos e a primeira prima deles.

Nenhum sabia ler nem escrever.

Aproximava-se o meio dia e as crianças, conforme o costume da sua terra, rezaram o terço do Rosário de Nossa Senhora.

Terminada a oração, entretinham-se a fazer uma pequenina casa com pedras soltas quando, de repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. Apesar de o céu estar diáfano e sem nuvens, as crianças, com receio de alguma trovoada, juntaram o gado e iam retirar-se. Ao chegarem, porém, perto do ponto onde se encontram atualmente as bicas de água, fuzila novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira no sítio onde está a pequenina e pobre Capela das Aparições, veem, com espanto, o vulto duma Senhora de incomparável formosura, envolvida num vestido de alvura puríssima; um manto, orlado de ouro, cobre-lhe a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma beleza celeste, sobrenatural, apresentava-se sereno, grave e toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário.

De todo o vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz.

As crianças aproximaram-se, travou-se um diálogo entre a Senhora e a mais velha, convidando-os a irem ali todos os dias 13 de cada mês até outubro.

Como consta do testemunho das crianças e de muitas pessoas, as aparições foram seis, todas no dia 13 de cada mês, exceto em agosto que se realizou alguns dias depois por a autoridade administrativa ter as crianças presas em Ourém.

A Senhora disse-lhes que o seu lugar é o céu, confiou-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensinou-lhes uma pequena jaculatória, recomendou a recitação do Rosário, aconselhou a Lúcia a aprender a ler, insistiu na necessidade de oração e penitência para a guerra acabar, afirmou que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens e sobretudo com o pecado da carne, ordenou que se edifique ali uma capela em sua honra e declara que é a Senhora do Rosário...

Notas dos editores (4)

15 Mat VII, 15.

16 Mat VII, 16, 18.

17 Jo X, 37, 38.

a Jacinta tinha já sete anos. A data oficial do nascimento de Jacinta é 11 de março de 1910.

DCF Seleção, Doc. 133 (= DCF II, Doc. 11) · documento oficial · 13 out. 1930 (13 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Mário Mourão e António Poças

GrupoVisitanteconhecidos instruídos do autor, da terra
13 ago.Testemunho indiretoNão viu nadaCartaAtitude cética
Transmitido por: Joel de Deus Magno

Em tudo isto, porem, parece que teve grande influencia no povo o dictado certissimo — quod volumus facile credimus (o que não quer dizer que me atrêva a negar porque não estava lá e d'isso tenho bem pena) porque algumas pessôas instruidas e ponderadas cômo Mario Mourão, o Poças e outras de cá me disseram que não houve prova sufficiente de sobrenaturalidade e isto ... para não dizerem que nada tinham visto, o que eu ouvi tambem a outras pessôas.

DCF III-1, Doc. 7 · carta · depois de 13 ago. 1917Digitalizações (2)Ligação

Manuel Marques Ferreira, António de Oliveira Reis e Manuel Carreira Poças

GrupoClerosacerdotes (pároco de Fátima, vigário de Torres Novas, pároco de S. João de Porto de Mós)
13 ago.Testemunho indiretoCartaa 3 km
Transmitido por: Joel de Deus Magno

E assim foi, aquelle homem mau e cobarde atraiçoou assim tôdo aquelle pôvo, mas n'isto parece bem ter havido intervenção de Deus por que aquelle logar em que passava constantemente muita gente estava deserto, sendo unicas testemunhas de visu o Prior, o Snr. Vigario de Torres Novas19 e o Pe. Manuel Poças20 que estavam na varanda d'elle

(priôr), cômo elles mesmos depois me disseram.

Notas dos editores (8)

8 José Caetano da Silva, de Tomar. Não se ordenou.

9 Francisco Pereira dos Reis, de Fátima. Faleceu devido à pneumónica em 1918-1919.

10 Poderá tratar-se do Pe. António Carreira Poças. Nasceu no Reguengo, Batalha, a 3 de Novembro de 1892. Faleceu em Belas, Sintra.

11 João Marques Vieira, do Olival (?).

12 Abílio Marques Vieira, do Olival (?).

13 Hora solar.

19 Pe. António de Oliveira Reis, nasceu em Montelo, Fátima, no dia 22 de Janeiro de 1874. Foi ordenado sacerdote a 28 de Junho de 1901. Faleceu a 22 de Junho de 1962.

20 Nasceu a 13 de Janeiro de 1881, no Reguengo, Batalha. Foi condiscípulo do Pe. Joel e pároco de S. João de Porto de Mós, de 1908 a 15 de Novembro de 1939. Faleceu a 8 de Agosto de 1944. Segundo referiu o Sr. Marto ao Dr. Fischer, o Pe. Manuel Carreira Poças interrogou as crianças oito ou nove dias antes de 13 de Outubro. Cf. FISCHER, Ludwig - Die Botschaft unserer Lieben Frau von Fátima, Bamberg, Fátima-Verlag, 1937, p. 147. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 54, de 13-15 de Agosto de 1917, nota 7.

DCF III-1, Doc. 7 · carta · depois de 13 ago. 1917Digitalizações (2)Ligação

Manuel Carreira Poças

Clerosacerdote, pároco de S. João de Porto de Mós
13 ago.Testemunho indiretoCartaa 3 km
Transmitido por: Joel de Deus Magno

O Snr. Pe. Manuel Poças fallou com os meninos (são 3 irmãos23), 1 menino de 10 annos e 2 meninas de 6 e 8 annos) e ficou encantado; diz que não se pode duvidar do facto da

Notas dos editores (1)

23 Como se sabe apenas Jacinta e Francisco eram irmãos. Lúcia era prima.

DCF III-1, Doc. 7 · carta · depois de 13 ago. 1917Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho indiretoDepoimento ajuramentado
Transmitido por: Maria Rosa (mãe de Lúcia), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · depoimento · 15 ago. 1917 (2 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoa 2 kmPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Então o pequeno declarou que a Lúcia lhe dissera que já via os sinais no Céu, que Nossa Senhora também aparecia nesse dia e que queria que a Jacinta também lá estivesse.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · depoimento · 19 ago. 1917 (6 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoa 2 kmFiguras / visões
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Mas então já vinham de regresso a casa o Francisco e a Jacinta, dizendo que Nossa Senhora tinha tornado a aparecer, mas que o João não a tinha visto.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · depoimento · 19 ago. 1917 (6 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoViuCarta
Transmitido por: Assinante anónima do Raio de Luz

Porquê, o que é que se deu? Não t'o sei dizer; muita gente, entre ella as minhas creadas, diziam que viram uma nuvem linda mesmo ao pé do sol e que em momentos desapparece

DCF III-1, Doc. 20 · notícia de imprensa · ago. 1917 (2 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria da Conceição Stokler Parente

No dia 19 appareceu Nossa Senhora ás ditas creanças n'outro logar, dizendo-lhes que por estarem presas tinha sido mais visivel o milagre. Foi assim mesmo que as ouvi expressar-se.

DCF III-1, Doc. 211 · notícia de imprensa · 15 out. 1917 (2 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Homem não identificado das Lapas

Gente da terraaldeão de uns 40 anos, até então incrédulo, que veio a pedido da mulher
13 ago.Testemunho indiretoViuNotaAtitude céticaFiguras / visões
Transmitido por: Leonor de Avelar e Silva Constâncio

De subito um homem das Lapas, (logar não longe de Torres Novas) que ali tinha ido só para satisfazer a mulher, e que não acreditava na possibilidade do milagre, grita banhado em lagrimas: “Eu vejo, eu vejo a Senhora!!! Olhem, n'esta direcção entre aquellas duas nuvens, não a veem?” Todos olhámos na direcção indicada mas... nenhum de nós vio mais do que as nuvens. No entanto o homem cheio de fé dizia: “Prendam-me se quizerem, mas hei de sempre dizer o que vi”!

A mulher, não vio nada, mas estava radiante por ter sido o marido quem tinha visto, pois que, não acreditava, ella acreditava, não precisava vêr.

DCF III-1, Doc. 129 · nota · depois de 19 out. 1917 (2 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho indiretoViuInterrogatórioa 2 kmPalavras dos videntes
Transmitido por: João Marto (irmão de Francisco e Jacinta), interrogado por Manuel Nunes Formigão

O que foi que a Lúcia disse à Senhora?
– Perguntou-lhe o que é que ela cá vinha fazer.
14a – Ouviste a resposta da Senhora?
– Não ouvi, mas a Lúcia esteve um bocadito à espera.
15a – A Lúcia fez mais perguntas?
– Fez. Tornou a falar, mas não me lembro do que disse, a não ser da última pergunta que foi se ela trazia cá o meu Manuel.
16a – A Lúcia não te contou depois o que a Senhora lhe tinha dito?
– Disse-me no mesmo dia ao pé da carrasqueira, logo de caminho, que, se não fosse levada para a aldeia (Vila Nova de Ourém) no dia 13, o milagre não seria tão conhecido.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (3 meses depois)DigitalizaçãoLigação

Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo

Aristocratasenhora católica de Torres Novas
13 ago.Testemunho indiretoViuCartaNuvem / coluna de fumo
Transmitido por: Gonçalo de Almeida Garrett

Esteve aqui a Sra D. Maria de Jesus Raposo. Diz que esteve em Fátima no dia 13 agosto (em q. não estavam as creanças) de 1917. A manifestação do fumo foi muito maior, como uma especie de globo que envolveu a azinheira.

DCF III-2, Doc. 381 · carta · 29 set. 1918 (14 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 ago.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 km
Transmitido por: Olímpia de Jesus

Em casa da cunhada quando ouviram o povo a gritar, disse: “O que irá por lá?” A mãe da Lúcia olhou para o sol e disse: “O sol está diferente”.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Irmãos de Jacinta Marto

Família dos videntesGente da terraGrupoirmãos da vidente Jacinta
13 ago.Testemunho indiretoDepoimento ajuramentadoa 14 km
Transmitido por: Maria Rosa (mãe de Lúcia), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica

Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · depoimento · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Lúcia, Francisco e Jacinta

VidenteGrupovidentes (as duas meninas, Lúcia e Jacinta)
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaFiguras / visões
Transmitido por: Anna Maria dos Santos, do Caneiro

Seguimos a viagem e quando chegámos á Fatima o Ex.mo Snr. Pedro perguntou pelas pequenas, onde ellas então vinham a sair da escola e depois por mandado da Sn.a professora as meninas chegaram ao pé do carro e falaram com mais pessoas que ali estavam, onde lhe perguntámos com respeito a N. Senhora e ellas afirmaram sempre a mesma cousa, que a viram, ouviram e falaram com ella:

DCF III-1, Doc. 322 · notícia de imprensa · 6 nov. 1917 (6 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

R. A pag. 11 affirmo que a apparição parece não ter mais de 18 annos, porque uma vez a mãe da Lucia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a edade da visão, que ella parecia ser como uma rapariga do logar de Aljustrel que estava presente e que já tinha completado 17 annos. A pag. 90 declaro ter dito a Lucia que a Visão parecia ter uns 15 annos, porque realmente o disse, embora fosse uma pequena rude e ignorante, apenas com 10 annos de edade, e incapaz de calcular com exactidão a edade de uma pessoa. De resto, a differença entre uns quinze annos e não mais de dezoito annos não é grande e a expressão que emprego a pag. 90 não só não contradiz nem exclue a affirmação da pag. 11 senão que até a completa e permitte uma maior approximação da verda

DCF V-4, Doc. 1229 · carta · 1917 · também publicado em DCF V-4, Doc. 1277DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (resumindo o inquérito paroquial do Pe. Manuel Marques Ferreira)

O Franc. morreu no dia 4 de abril de 1919. Recebeu os ult. sac. com grande lucidez e piedade E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Vallinho3.

Notas dos editores (1)

3 O Dr. Formigão resume, nas p. 7-19, o processo paroquial de Fátima, seguindo os depoimentos dos videntes e de outras testemunhas até à declaração final do padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, sobre o falecimento do Francisco. Não publicamos este resumo, pois o processo foi editado, na íntegra, em DCF, vol. I, Docs. 31-37, p. 245-287.

DCF III-2, Doc. 485 · nota · 3 abr. 1919 (23 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visões
Transmitido por: Manuel Marques Ferreira (aditamento ao inquérito paroquial)

O Francisco – vidente – faleceu às dez horas da noite, do dia 4 de abril corrente, vitimado por uma prolongada ralação de 5 meses da pneumónica tendo recebido os Sacramentos com grande lucidez e piedade – E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho.

DCF Seleção, Doc. 44 (= DCF I, Doc. 36) · documento oficial · 18 abr. 1919 (24 meses depois)DigitalizaçãoLigação
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