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DCF Seleção, Doc. 72
Depoimento de Inácio António Marques1, sobre os acontecimentos de Fátima, enviado ao Promotor da Fé da Comissão Canónica.
Publ.: DCF, II - Doc. A
“... Sr. Promotor da Fé
Em maio de 1917 correu um boato que três crianças – pastores de gado – estando recitando o terço em coro no sítio da Cova da Iria, freguesia de Fátima, lhes tinha aparecido uma senhora vestida de branco dizendo-lhes que não tivessem medo que era Nossa Senhora do Rosário; que viessem ali todos os meses no dia 13 rezar o terço que lhes apareceria sempre, e que no dia 13 de outubro lhes diria um segredo. Esta voz correu logo pelos lugarejos em redor mas ninguém podia acreditar, parecendo quase impossível que a Virgem baixasse dos céus à terra e viesse aparecer a três rudes crianças nas chãs ásperas a arenosas da Serra de Aire. É chegado o dia 13 de junho e eu desejoso por saber o que se passa encaminho-me para o local a fim de me certificar do que há de verdade.
Eram 11 e 3/4 quando chego à dita Cova e encontro ali na expetativa umas 12 pessoas. Dirijo-me a alguém e pergunto: Então onde estão essas crianças que veem aqui Nossa Senhora? E uma voz me responde: espere que ainda não é tarde. Passados momentos, eis aí vêm elas, acompanhadas dum pequeno grupo. Ajoelham-se junto da célebre azinheirinha e principiam a rezar o terço. Conto as pessoas e vejo que estão presentes umas 40. Terminada a ladainha, a Lúcia diz: “Lá vem Ela”, e manda ajoelhar. Principia interrogando e respondendo a alguém que os meus olhos não veem nem os ouvidos ouvem. É a segunda aparição e mais uma vez ali afirma perante o reduzido número de espetadores – porque ainda se lhes não pode chamar crentes – que Ela lhe está dizendo que vem ali todos os meses e que a 13 de outubro será a última vez e então dirá um segredo.
A Lúcia volve o olhar através do espaço como que a acompanhar com a vista alguém que se eleva e como extasiada vai indicando o rumo que ela leva até se perder no Infinito. Eu como descrente quero negar mesmo até tudo que estou vendo, mas contemplando a atmosfera, vejo que tudo se encontra turvado. Parece que duas correntes de ar opostas se vêm encontrar ali levantando uma nuvem de poeira. O tempo escurece e parece-me estar ouvindo um trovão subterrâneo. Sinto que a temperatura é quase sobrenatural e tenho medo de estar ali. Regresso a casa pensando em tal fenómeno e cogitando uma maneira de o interpretar. Minha mãe pergunta-me o que vi, ao que respondi que não sei, mas tenho a certeza que, embora haja mistério, não vem a ser bom. Não quero crer e condeno em toda a parte tal aparição.
Dão-se os mesmos fenómenos que no mês passado. A fama alastra e agora o local é um dos grandes centros frequentados por pessoas de todas as classes.
De toda a parte chegam peregrinos entoando descantes sentindo-nos viver umas horas felizes. Já passa da hora e as crianças não aparecem; o povo espera impaciente quando corre uma voz por cima daquela massa de povo que o sr. administrador de Ourém as tinha levado. Ouvem-se protestos e, quando vão começar a debandar, ouve-se uma gritaria e uma onda de cabeças volve-se para o céu afirmando cada um o que está vendo. Eu então olho para o céu e vejo as nuvens mudando de cores e correndo em diversos sentidos.
O dia 13 de setembro amanheceu sem uma nuvem no horizonte. Um sol abrasador nos faz procurar a sombra. A Lúcia reza o terço à hora indicada. Segue-se a conversação com a dita Senhora e assim que diz: lá vai ela, o sol escurece a pontos de se ver a lua e as estrelas que circundam o firmamento. O calor diminui e uma aragem nos vem mimosear a fronte. Então veem-se lá muito em cima, cortando os ares do Oriente para o Ocidente, uns corpos muito pequeninos, brancos como a neve. Há quem afirme serem pombas mas vê-se perfeitamente que não são aves. Na encosta do lado do nascente estava o reverendo Padre sr. Joaquim Ferreira Gonçalves das Neves, pároco de Santa Catarina da Serra, e eu como vejo que talvez esteja olhando sem ver nada, dirijo-me a ele e pergunto-lhe o que vê, respondendo-me que não vê nada. Indico-lhe uma direção e imediatamente disse que já está vendo. Passado o fenómeno vou encontrar o mesmo senhor de joelhos pedindo o terço. Parece-me ser este o primeiro ministro da Igreja que rezou em comum naquele recinto bendito.
O dia 13 de outubro acorda como um dia de pesada invernia, embora a chuva caia com lentidão. Durante toda a manhã chove sem cessar. Os caminhos e estradas vão repletos de gente que vindas de longes terras não faziam conta que chovesse em virtude de haver muitos meses que nem uma pinga caía. Chegados ao local iam acendendo fogueiras até que se aproximasse a hora.
Ao lugar da Chainça, que dista uma légua, foram ficar muitas pessoas entre elas dois senhores, um sr. Ferreira, de Leiria e outro de ao pé das Caldas, que dizem ser padre e dr. No dia seguinte, como chovesse muito e não estando acostumados ao rigor do tempo, não podiam seguir viagem demais não tendo com que se resguardar da água.
Não havia quem emprestasse guarda-chuvas porque os que havia eram poucos para as precisões. Eu então peguei num inutilizado e dando-lhe um conserto serviu para um e ao outro emprestei o meu, indo sem ele, chegando também todo a escorrer.
Chega-se o momento da aparição e passa-se o que todo o mundo sabe. O sol gira em torno de si mesmo e todos que se encontravam molhados aparecem enxutos como fui eu um deles. Apareceu um sr. de Leiria a distribuir ilustrações com os retratos das três crianças e de Nossa Senhora, encarregando-me dum maço apesar de me não conhecer.
Daí para o futuro encontra-se ali sempre um movimento de vai-vem de gente dominada pela fé: uns pedindo favores e outros agradecendo graças concedidas. Vem a gripe pneumónica que assolou o país e aí acorrem os crentes formando procissões nas suas terras, indo através das serras pedregulhentas e das charnecas desertas, altas horas da noite, debaixo dos maiores vendavais pedir a essa Virgem consoladora dos aflitos, proteção e misericórdia. A fé vai aumentando e de toda a parte se ouvem afamar os milagres.
Eu, apesar de tudo continuava a descrer, seguindo a prudência da Santa Igreja.
Havia 12 anos que eu padecia do estômago; vomitava tudo que comia. Consulto os melhores médicos com a esperança de me curar por meio da medicina, mas debalde o faço... Estou desenganado mas restam-me ainda os hospitais de Lisboa como único recurso. Dirijo-me ao hospital de S. José, sou observado pelo sr. dr. Damas Mora, diretor do Banco do mesmo hospital. Como o meu estado fosse pouco satisfatório, o mesmo sr. mandou-me baixar ao hospital do Desterro onde me operou a 18 de dezembro de 1917, tendo como ajudantes (ainda que não me recorde bem) os srs. drs. Hermano Medeiros e Balbino do Rego. Devido ao muito frio constipei-me e, fosse por isso ou por outra causa, no dia seguinte estava ardendo em febre e com uma pneumonia.
É chamado o médico de serviço e, depois de me observar bem, diz que estou irremediavelmente perdido. Tenho os pulmões ambos atacados; a febre está sempre acima de 40 graus. Mandam-me aplicar ventosas, umas após outras, mas era preciso tomar remédios que combatessem a febre e isso é impossivel porque no estômago não pode entrar nada. A operação era das mais melindrosas e por conseguinte só podia esperar a morte. Estava quase sempre variado mas, nos pequenos intervalos que tinha lucidez, pensava na minha situação e via que era crítica. Vejo que morro num hospital sem o conforto que os ministros duma religião levam às almas nas negras e atribuladas horas; sem ver à cabeceira do meu leito uma mãe, irmãos, irmãs, pessoas de família e amigos que me animem e fortaleçam. Antes que baixe ao coval de um cemitério, quero ainda escrever a minha mãe dizendo-lhe que morro, que peça e mande pedir por mim, que ali não tenho quem o faça.
Esse pedido foi feito pelo reverendo pároco de Santa Catarina parece-me que em dia de Natal à missa das Almas. Do mundo não posso esperar nada e então vem-me à imaginação tudo o que se passou nessa Cova bendita, dessa Virgem que disse ser a Consoladora dos aflitos.
Bem sei que tenho de morrer mas é triste não ter a consolação de ver nesse momento cruciante e transe doloroso, em volta de meu leito, quem ore e dê conforto. Então animado com uma grande fé peço a Nossa Senhora do Rosário da Fátima que, se possível fosse, eu ainda poder um dia ir à minha terra ver minha família, faria uma festa em sua honra e mandaria pregar um sermão, indo ao local rezar um terço. No dia seguinte já não tinha febre e passados dois dias estava completamente curado dos pulmões. Aos médicos parecia um sonho, quando me julgavam morto aparecia-lhes curado. Foi a medicina? Não, porque não tomei remédios. Então uma pneumonia e febre a 40 graus cura-se em três dias, e por acaso? Já escaparia alguém operado do estômago que fosse atacado por uma pneumonia? Que responda quem souber.
Poderão dizer que melhorava da mesma forma, mas como tenho a certeza que só escapei por meio dum grande milagre e da grande fé com que me apeguei com Nossa Senhora, hei de dizer isto sempre e em toda a parte, custe o que custar. Essa promessa mandei encarregar o sr. prior de Santa Catarina de a cumprir assim como pregou o sermão em ação de graças na dita festa na pequena ermida da Chainça em Setembro de 1919. A Cova da Iria é para mim um cantinho do Céu a quem devo a vida... Desculpe V. o tempo que inutilmente lhe tomei. Sou um humilde católico que vejo na religião que professo o único pedestal onde o mundo se firma.
S. de V.
m.to a.to ven.or e obgo.
Inácio António Marques
de 26 anos de idade, natural da Chainça, freguesia de Santa Catarina, filho de José António Novo (falecido) e de Josefa Marques, residente em Lisboa, Rua dos Heróis de Kionga, 43.
Aos 23 de novembro de 1922.
Inácio António Marques
empregado nos Correios