Explorar / Relato

Inácio António Marques · outros acontecimentos de 1917

Gente da terrajovem da Chainça (Santa Catarina da Serra), mais tarde empregado dos correios em Lisboa
Outros de 1917Testemunho diretoRecordação posteriorAtitude céticaa 120 kmCura

Havia 12 anos que eu padecia do estômago; vomitava tudo que comia. Consulto os melhores médicos com a esperança de me curar por meio da medicina, mas debalde o faço... Estou desenganado mas restam-me ainda os hospitais de Lisboa como único recurso. Dirijo-me ao hospital de S. José, sou observado pelo sr. dr. Damas Mora, diretor do Banco do mesmo hospital. Como o meu estado fosse pouco satisfatório, o mesmo sr. mandou-me baixar ao hospital do Desterro onde me operou a 18 de dezembro de 1917, tendo como ajudantes (ainda que não me recorde bem) os srs. drs. Hermano Medeiros e Balbino do Rego. Devido ao muito frio constipei-me e, fosse por isso ou por outra causa, no dia seguinte estava ardendo em febre e com uma pneumonia.

É chamado o médico de serviço e, depois de me observar bem, diz que estou irremediavelmente perdido. Tenho os pulmões ambos atacados; a febre está sempre acima de 40 graus. Mandam-me aplicar ventosas, umas após outras, mas era preciso tomar remédios que combatessem a febre e isso é impossivel porque no estômago não pode entrar nada. A operação era das mais melindrosas e por conseguinte só podia esperar a morte. Estava quase sempre variado mas, nos pequenos intervalos que tinha lucidez, pensava na minha situação e via que era crítica. Vejo que morro num hospital sem o conforto que os ministros duma religião levam às almas nas negras e atribuladas horas; sem ver à cabeceira do meu leito uma mãe, irmãos, irmãs, pessoas de família e amigos que me animem e fortaleçam. Antes que baixe ao coval de um cemitério, quero ainda escrever a minha mãe dizendo-lhe que morro, que peça e mande pedir por mim, que ali não tenho quem o faça.

Esse pedido foi feito pelo reverendo pároco de Santa Catarina parece-me que em dia de Natal à missa das Almas. Do mundo não posso esperar nada e então vem-me à imaginação tudo o que se passou nessa Cova bendita, dessa Virgem que disse ser a Consoladora dos aflitos.

Bem sei que tenho de morrer mas é triste não ter a consolação de ver nesse momento cruciante e transe doloroso, em volta de meu leito, quem ore e dê conforto. Então animado com uma grande fé peço a Nossa Senhora do Rosário da Fátima que, se possível fosse, eu ainda poder um dia ir à minha terra ver minha família, faria uma festa em sua honra e mandaria pregar um sermão, indo ao local rezar um terço. No dia seguinte já não tinha febre e passados dois dias estava completamente curado dos pulmões. Aos médicos parecia um sonho, quando me julgavam morto aparecia-lhes curado. Foi a medicina? Não, porque não tomei remédios. Então uma pneumonia e febre a 40 graus cura-se em três dias, e por acaso? Já escaparia alguém operado do estômago que fosse atacado por uma pneumonia? Que responda quem souber.

Poderão dizer que melhorava da mesma forma, mas como tenho a certeza que só escapei por meio dum grande milagre e da grande fé com que me apeguei com Nossa Senhora, hei de dizer isto sempre e em toda a parte, custe o que custar.

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