Havia 12 anos que eu padecia do estômago; vomitava tudo que comia. Consulto os melhores médicos com a esperança de me curar por meio da medicina, mas debalde o faço... Estou desenganado mas restam-me ainda os hospitais de Lisboa como único recurso. Dirijo-me ao hospital de S. José, sou observado pelo sr. dr. Damas Mora, diretor do Banco do mesmo hospital. Como o meu estado fosse pouco satisfatório, o mesmo sr. mandou-me baixar ao hospital do Desterro onde me operou a 18 de dezembro de 1917, tendo como ajudantes (ainda que não me recorde bem) os srs. drs. Hermano Medeiros e Balbino do Rego. Devido ao muito frio constipei-me e, fosse por isso ou por outra causa, no dia seguinte estava ardendo em febre e com uma pneumonia.
É chamado o médico de serviço e, depois de me observar bem, diz que estou irremediavelmente perdido. Tenho os pulmões ambos atacados; a febre está sempre acima de 40 graus. Mandam-me aplicar ventosas, umas após outras, mas era preciso tomar remédios que combatessem a febre e isso é impossivel porque no estômago não pode entrar nada. A operação era das mais melindrosas e por conseguinte só podia esperar a morte. Estava quase sempre variado mas, nos pequenos intervalos que tinha lucidez, pensava na minha situação e via que era crítica. Vejo que morro num hospital sem o conforto que os ministros duma religião levam às almas nas negras e atribuladas horas; sem ver à cabeceira do meu leito uma mãe, irmãos, irmãs, pessoas de família e amigos que me animem e fortaleçam. Antes que baixe ao coval de um cemitério, quero ainda escrever a minha mãe dizendo-lhe que morro, que peça e mande pedir por mim, que ali não tenho quem o faça.
Esse pedido foi feito pelo reverendo pároco de Santa Catarina parece-me que em dia de Natal à missa das Almas. Do mundo não posso esperar nada e então vem-me à imaginação tudo o que se passou nessa Cova bendita, dessa Virgem que disse ser a Consoladora dos aflitos.
Bem sei que tenho de morrer mas é triste não ter a consolação de ver nesse momento cruciante e transe doloroso, em volta de meu leito, quem ore e dê conforto. Então animado com uma grande fé peço a Nossa Senhora do Rosário da Fátima que, se possível fosse, eu ainda poder um dia ir à minha terra ver minha família, faria uma festa em sua honra e mandaria pregar um sermão, indo ao local rezar um terço. No dia seguinte já não tinha febre e passados dois dias estava completamente curado dos pulmões. Aos médicos parecia um sonho, quando me julgavam morto aparecia-lhes curado. Foi a medicina? Não, porque não tomei remédios. Então uma pneumonia e febre a 40 graus cura-se em três dias, e por acaso? Já escaparia alguém operado do estômago que fosse atacado por uma pneumonia? Que responda quem souber.
Poderão dizer que melhorava da mesma forma, mas como tenho a certeza que só escapei por meio dum grande milagre e da grande fé com que me apeguei com Nossa Senhora, hei de dizer isto sempre e em toda a parte, custe o que custar.