Acontecimentos /

Outros acontecimentos de 1917

Fenómenos vistos noutros dias, observadores à distância, o corte da azinheira, visitas aos videntes.

Testemunhos diretos 46

O que as próprias testemunhas viram ou ouviram.

Carlos de Azevedo Mendes

Profissionaljovem advogado de Soudos (Torres Novas), mais tarde deputado
Outros de 1917Testemunho diretoCartaPalavras dos videntes

O almoço animado. Expliquei o motivo da minha ida. Trocámos impressões. Na véspera as Pequenas tinham estado na casa do Prior, para os padres as interrogarem. Mantiveram todas as suas afirmações de sempre, o que juntamente com a atitude das Pequenas, os impressionou. Não era razão suficiente para poderem formar um juízo, mas todos concordavam, que havia algo de extraordinário. O quê?

Esperemos a sequência dos factos, e que a vontade de Deus se manifeste. O almoço terminou. O Prior destaca como nosso oficial às ordens o seu criado com as maiores e melhores recomendações para a mãe das pequenas. Uma curiosidade intensa me prendia. A Mãe dos dois mais pequenos, depois do recado do prior recebe-me com o melhor dos sorrisos. Entrámos para a sala. A mãe, uma velhota seca, modos desembaraçados, todo de mulher ativa. Começa as suas explicações. Só a Jacinta (de 7 anos) e o Francisco (que vai em 9) eram seus filhos, a Lúcia (que vai em 11) é sua sobrinha. A Jacinta estava em casa da Lúcia. Mandou logo chamá-la.

O Francisco tinha chegado com o gadito e enquanto o jantar não chega fôra para junto do Pai roçar o matito. Estou só com a mãe.

Fala-me nas suas apreensões por causa do alvoroço que as Pequenas têm causado. “Ainda se nós fôssemos merecedores!!!...”. “Mas calcule que até o meu irmão (pai de Lúcia) não se importa com a Igreja e é um homem de vinho!!!...”.

Contou-me a visita do Administrador e a prisão das pequenas. Enfim foi falando até que chegou a Jacinta. A Lúcia tinha ido levar o jantar ao Pai, vinha já. A pequerrucha não queria vir sem a prima (são inseparáveis), foi preciso a irmã trazê-la às cavalitas. Muito pequerrucha, muito encolhidita foi chegando para ao pé de mim. Estava sentado, para melhor a apreciar sentei-a em cima de uma arca e eu ao pé. Observei-a então muito à vontade. O Vigário tinha-me dito que era um Anjo. Quis também formular opinião. Afirmo-te Prazeres, é um anjo, mas um anjo muito muito Amor!!!... Muitas vezes o pensei e algumas o disse, se a minha Prazeres a visse e falasse com ela, só a não raptaria, se não lhe fosse possível!!!... Um lenço com ramagem encarniçada embrulhado na cabeça com as pontas atadas atrás. Lenço velhito e já roto... Um casaquito, que também não primava muito pela limpeza, uma saia sobre o encarnado, mas com uma roda enorme à moda da terra.

Aqui tens o traje do nosso anjito. Queria descrever-te a carita, mas, creio bem, que nada conseguirei dizer-te, aproximado ao menos!!!...

O lenço da maneira como o usava ainda mais lhe realçava as feições: os olhos de uma vivacidade encantadora, uma expressão angélica, de uma bondade que nos seduz, num todo extraordinário, que não sei porquê, nos atrai.

Muito envergonhadita com dificuldade ouvíamos o pouco que falava em resposta a minhas perguntas. Faltava-lhe a sua Lúcia. Não estava bem!!... Depois de durante algum tempo a ter entretido, conversando e... (não te rias!!) brincando, chegou o Francisco. Carapuço enterrado pela cabeça, jaleca muito curta, colete deixando ver a camisa, calças justas, enfim um homem em miniatura. Bela cara de rapaz!... Olhar vivo e cara agarotada!!... Com ar desempenado responde a minhas perguntas. A Jacinta começa a ganhar confiança. Pouco depois chega a Lúcia. Não imaginas a alegria da Jacinta, quando a viu!!... Toda ela riu, correu para ela e nunca mais a largou!!!... Era um quadro lindo. A Lúcia num lado, não, a Lúcia ao centro, de um lado o Francisco e do outro, muito junto dela e com a cabecita mesmo em cima dela, a Jacinta.

A Lúcia não tem feições que nos impressionem. Só o olhar é vivo. As feições são vulgares. O tipo da região. Ao princípio também retraída. Mas em breve as tenho à vontade e então, sem embaraços, respondem e vão satisfazendo a minha curiosidade. Depois de me convencer que estaria completo o meu interrogatório, peço-lhes, se iriam comigo rezar o terço ao local da aparição. Se a mãe deixar, vão. Eu mesmo alcanço a licença. Apenas a mãe a deu, a Jacintita foi logo fazer a sua toilete... Pôs um lenço lavado, um outro casaco e um aventalito!!!... Esperas com ansiedade a minha impressão, não é verdade?... Pois vamos a ela, minha Filhinha. Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais leve alteração. A base principal, que de tudo o que me dizem, eu deduzi é “– que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço –”. Todos os pequenos dizem sempre, que, quem lhes aparece, é a Senhora. Não sabem quem é... Só depois das 6 vezes, no dia 13 de Outubro, lhes diz quem é e o que quer!!... A naturalidade e ingenuidade, com que falam e contam o que viram é admirável e impressionante.

A Lúcia vê a Senhora, fala com ela e ouve-a. A Jacinta vê a Senhora, ouve-a, mas não fala com Ela. O Francisco vê a Senhora, mas não lhe fala, nem a ouve!!!... É interessante esta diferença, não achas Prazeres??... Mas além de interessante tem até mesmo muito de extraordinário!!... Ouvir as petizas, vê-las na sua simplicidade, examinar-lhes o seu todo, impressiona-nos de uma maneira extraordinária, e leva-me a concluir, que em tudo o que me dizem, alguma coisa existe de sobrenatural. Estar com elas choca-nos com uma forte intensidade... Hoje, Prazeres, é convicção minha que há um facto extraordinário, que a nossa razão não alcança. Qual?... Com ansiedade mais crescente ainda espero o próximo dia 13. O que é certo, é que nos sentimos bem junto das pequenas e chegamos a perder a noção do tempo. Há uma atração, que não sei como explicar... Uma das impressões mais intensas das crianças é a da beleza da Senhora. O rapaz para exprimir a sua admiração dizia-me que era “muito bonitica”!!!... Mostrei-lhe o teu retrato e perguntei: é mais bonita? “Muito mais!!...”. A Senhora vem toda de branco com ouro. Não traz nenhuma faixa azul como se dizia. Se é a Senhora da Paz.... Já te recordaste, o que disse na 2ª aparição?... Que aprendessem a ler... Dizia-me a Jacintita “que já ia na carreira do A”!!...

Enquanto as pequenas tomaram alguma coisa, conversei com o Pai. Fizeram-me comer pão com queijo e uvas!!... Para os não desconsolar fiz-lhe a vontade e ofereci-lhe em troca cigarros dos meus!!...

Também me parecia interessante ouvir os pais, por isso tudo correu às mil maravilhas. Só sabem o que as crianças dizem; os conhecimentos deles hoje não vão mais longe, que os meus!!!...

Depois da refeição deles fomos ao local com os petizes rezar o terço. Só eles nos acompanhavam. É ainda um bocado bom da casa deles. Pelo caminho perguntei-lhes:

- Não poderei arranjar uma folha da carrasqueira?
- Ela já não tem nada, mas eu tenho lá em casa, dizem-me eles.
- E não me arranjam uma??...
- Sim senhor.

Depois de vermos quem a iria buscar, esperamos que o Francisco voltasse a casa.

As duas pequerruchas brincavam. Jogavam os “pontos”; atirando com uma pedra para um certo sítio, ganhava quem mais perto ficasse. Era interessante vê-las brincar. Discutiam, mas sempre sem se alterarem e com a maior amizade. O Francisco chega, já não tinha nenhuma, mas trouxe das da Lúcia!!... (Que alegria para a minha Filhinha!!!!...). Um ramito só com duas folhas inteiras. Guardei-o. A minha Prazeres terá a sua folhita... Se mais não houvera isto me chegava para me dar por satisfeito com o passeio!!!...

Pelo caminho rimo-nos!!... Os “petizes” já muito à vontade e como amigos de há muito conhecidos foram todo o caminho brincando connosco!!... Ficavam para trás para ver se conhecíamos o caminho, riam-se, enfim éramos já... amigos!!!...

Assim já à vontade como a Jacinta era...amor... A Lúcia, apesar das feições menos corretas, prende-nos pelo seu todo, que tem um não sei quê, que nos encanta...

Chegámos ao local. Perto da estrada, numa encosta, em local magnífico, onde se pode ver muito à vontade de muito longe. A carrasqueira (pequena azinheira) está reduzida à expressão mais simples. Em volta um muro de pedra. Rodeando-a um arco de verdura. Em cima do muro, vasos com manjericos e outras flores. Os três ajoelham. A Lúcia, que está no meio, começa a recitar o terço. O recolhimento, o fervor com que ela vai rezando, impressiona-nos. O oferecimento do terço é interessante. É pelos soldados, que estão em guerra. Com que devoção, Prazeres, se reza ali o terço... Creio que nunca o rezei com tanta atenção!!!... No fim pedi licença às pequenas para guardar um ramito de manjerico. Todas elas depois me ofereceram um bocadito!!... Guardei o um raminho para ti, Prazeres. Guardei também uma outra folhita, que depois te levarei. São preciosas em demasia tais recordações para as confiar ao correio, por isso o teu Carlos será o portador. A oração, que dizem a Senhora lhes ensinou é simples, é a seguinte:

“Ó meu Jesus perdoai-me.

Livrai-me do fogo do inferno

Levai as alminhas todas para o céu, principalmente as que mais precisarem.”

Queres maior simplicidade? Achei interessante que a Senhora a tivesse ensinado, mas não lhe recomendasse que a rezassem.

Com saudades via que tinha de deixar as pequenas. Eram 6 horas. Tínhamos saído de casa do Prior às 4!!!... No fim do jantar o Prior ainda me leu o interrogatório, que tinha feito às crianças.

[…]

À volta tinha mais por companhia o Vigário e um Prior aqui dos meus lados. As minhas pressas de pela manhã, antes de falar com as pequenas, deram depois em vagares. Eram 8 horas quando deixámos Fátima.

Manuel Nunes Formigão

Cleropadre que investigava as aparições
Outros de 1917Testemunho diretoArtigo da testemunhaAtitude céticaa 2 km

No intuito de completar as impressões colhidas no dia treze do corrente mez de Setembro e habilitar-me com os elementos indispensaveis para fundamentar tanto quanto possivel um juizo acertado ácerca dos acontecimentos que nos ultimos cinco mezes se teem desenrolado a tres kilometros ao sul da aldeia de Fatima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira ultima, vinte e sete4 áquella pittoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da magestosa serra d'Ayre.

Eram tres horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Villa Nova d'Ourem á humilde povoação cujo nome é hoje pronunciado como uma promessa de bençãos e graças celestes por dezenas de milhares de labios de um extremo ao outro de Portugal. O reverendo Parocho, a quem logo procurei, não estava em casa: tinha sahido para fóra da freguezia e só á noite devia voltar.

Pesaroso por não poder trocar com elle algumas palavras sobre o assumpto que allí me levava, resolvi ir a casa das creanças favorecidas com aparições da Virgem Santissima e ouvir da boca dellas a narrativa pormenorisada dos estranhos successos, cuja noticia tem attrahido dia a dia á Fatima um sem numero de pessoas de todas as classes e condições sociaes.

Á distância de dois kilometros da egreja parochial e do presbyterio, num insignificante logarejo chamado Aljustrel, pertencente á freguezia, ficam situadas as modestas habitações das familias dos videntes.

As duas creanças mais novas estavam ausentes. Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que accedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha, que eu procurava, respondeu-me que ella andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava a dois kilometros distante.

Alguem se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto as duas creanças mais novas que tinham regressado do campo sabendo pelas visinhas que eu lhes desejava falar vieram ter comigo.

São dois irmãos, um menino e uma menina. Chegou primeiro a menina.

Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete annos de edade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olympia de Jesus. Bastante alta para a sua edade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a sáia até a altura dos artelhos, o seu aspecto é de uma creança saudavel, accusando perfeita normalidade no seu todo physico e moral. Surprehendida com a presença de pessoas estranhas que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a principio mostra um grande embaraço, respondendo por monosylabos e num tom de voz quasi imperceptivel ás perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois apparece o irmão, rapaz de nove annos de edade, que entra com um certo desembaraço no quarto onde estavamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que devia descobrir-se. Um sinal que a irmã lhe fez nesse sentido não foi percebido por elle. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente e sem nenhuma reluctancia.

[…]

Concluido o interrogatorio do Francisco, chamei de parte a Jacinta, que andava a brincar na rua com outras creanças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatorio logrando obter della respostas completas e minuciosas como as do irmão.

[…]

A esta pergunta a creança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a uma insistencia propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia á mão que a Apparição segurava o rosario.

Notas dos editores (1)

4 Vinte e sete de Setembro de 1917.

DCF III-2, Doc. 414 · notícia de imprensa · 27 set. 1917Digitalizações (6)Ligação

Manuel Nunes Formigão

Cleropadre, professor no seminário e no liceu de Santarém
Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 km

No intuito de completar as impressões colhidas no dia 13 do corrente mês de Setembro e habilitar-me com os elementos indispensáveis para fundamentar um juízo, tanto quanto possível, acertado acerca dos acontecimentos que nos últimos cinco meses se têm desenrolado a três quilómetros ao sul da aldeia de Fátima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira última, 27, àquela pitoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da majestosa serra de Aire. Eram três horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Vila Nova de Ourém à humilde povoação, cujo nome é hoje pronunciado como uma esperança fagueira de bênçãos e graças celestes por dezenas de milhares de lábios, de um extremo ao outro de Portugal. O rev.do Pároco a quem logo procurei, não estava em casa: tinha saído para fora da freguesia e só à noite devia voltar. Pesaroso por não poder trocar algumas palavras com ele sobre o assunto que ali me levava, resolvi ir a casa das crianças que se dizem favorecidas com aparições da Virgem Santíssima e ouvir da boca delas a narração pormenorizada dos estranhos sucessos cuja notícia tem atraído dia a dia à Fátima um sem número de pessoas de todas as classes e condições sociais.

À distância de dois quilómetros da igreja paroquial e do presbitério, num insignificante lugarejo chamado Aljustrel, pertencente à freguesia, ficam situadas perto uma da outra, as modestas habitações das famílias dos videntes. As duas crianças mais novas estavam ausentes.

Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que acedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha que eu procurava, respondeu-me que ela andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava dois quilómetros distante.

Alguém se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto, as duas crianças mais novas, que tinham regressado do campo, sabendo pelos vizinhos que eu lhes desejava falar, vieram ter comigo. Eram dois irmãos, um menino e uma menina.

Chegou primeiro a menina. Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete anos de idade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus3. Bastante alta para a sua idade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia até à altura dos artelhos, o seu aspeto é o de uma criança saudável, acusando perfeita normalidade no seu todo físico e moral. Surpreendida com a presença de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a princípio mostra um grande embaraço, respondendo, por monossílabos, e num tom de voz quase impercetível, às perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois aparece o irmão, rapaz de nove anos de idade, que entra com um certo desembaraço no quarto, onde estávamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que o devia tirar. Um sinal que a irmã lhe fez para se descobrir não foi percebido por ele. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente sem nenhuma relutância. Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde maio último na Cova da Iria no dia 13 de cada mês durante o tempo da aparição. Estabeleceu-se entre mim e ele o curto diálogo que segue.

[…]

Meia hora depois de terminado o interrogatório de Jacinta de Jesus, aparece Lúcia de Jesus. Vinha, como disse de uma pequena propriedade de sua família, situada a dois quilómetros de distância, onde tinha estado a vindimar. Mais alta e mais nutrida que as outras duas crianças, de tez mais clara, robusta e saudável, apresenta-se diante de mim com um desembaraço que contrasta singularmente com o acanhamento e a timidez excessiva da Jacinta. Singelamente vestida como esta, a sua atitude não denota e o seu rosto não traduz nenhum sentimento de vaidade nem de confusão.

Sentando-se, a um aceno meu, numa cadeira, ao meu lado, presta-se da melhor vontade a ser interrogada sobre os acontecimentos de que ela é a principal protagonista, sem embargo de se sentir visivelmente fatigada e abatida, mercê das visitas incessantes que recebe e dos inquéritos repetidos e prolongados a que é submetida.

Filha de António dos Santos4, de 50 anos de idade, e de Maria Rosa, de 48 anos, tem um irmão e quatro irmãs, todos mais velhos do que ela: Maria5, de 26 anos, já casada, Teresa6, de 24, Manuel7, de 22, Glória8, de 20, e Carolina9, de 15. Completou dez anos de idade em 22 de março do corrente ano10.

Tinha oito anos quando fez a sua primeira comunhão. A mãe, tipo da mulher cristã, e da boa dona de casa, entregue às lides domésticas, procurou sempre inspirar aos filhos o santo temor de Deus e levá-los ao cumprimento de todos os seus deveres morais e religiosos. Altamente preocupada com os sucessos que atraem a todo o momento as atenções de milhares de pessoas para a sua pobre habitação, até há pouco tempo ignorada do mundo, nota-se desde logo que o seu espírito hesita, numa ansiedade inquieta, entre a esperança de que sua filha seja realmente privilegiada com a aparição da Virgem e o receio de que ela seja vítima de uma alucinação que lhe traga desgostos e cubra de ridículo toda a sua família.

A uma pergunta minha acerca da piedade da sua Lúcia, responde que não lhe nota nada de extraordinário neste particular, vendo-a rezar da mesma forma e com o mesmo fervor que antes das aparições, exatamente como fazem as suas irmãs.

Notas dos editores (10)

1 Mãe de Lúcia. Nasceu na Perulheira, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 6 de julho de 1869 e faleceu, em Aljustrel, a 16 de julho de 1942.

2 Nasceu em Tomar a 1 de janeiro de 1883. Foi professor do Seminário e do Liceu de Santarém. Em 1922, foi nomeado, por D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, membro da Comissão Canónica para o estudo dos acontecimentos de Fátima, sendo o autor do Relatório, apresentado a D. José em 1930. Em 1926, fundou a Congregação das Religiosas Reparadoras de Nossa Senhora Dores de Fátima. Faleceu, em Fátima, a 30 de janeiro de 1958.

3 Nasceu em Aljustrel a 31 de maio de 1869. Casou com José Ferreira da Rosa, a 6 de fevereiro de 1888, ficando viúva em 1895. Deste matrimónio nasceram dois filhos, António Ferreira Rosa e Manuel Ferreira Rosa. A 11 de fevereiro de 1898, casou com Manuel Pedro Marto. Faleceu, em Aljustrel, a 3 de abril de 1957.

4 Nasceu a 3 de janeiro de 1868, em Aljustrel; casou a 19 de novembro de 1890 com Maria Rosa. Faleceu a 31 de julho de 1919.

5 Maria dos Anjos, nasceu 13 de agosto de 1891. Casou a 23 de agosto de 1916 com António dos Santos Valinho. Faleceu a 26 de agosto de 1986.

6 Teresa de Jesus nasceu a 22 de maio de 1893. Casou com José da Lomba. Faleceu a 29 de novembro de 1972.

7 Manuel dos Santos nasceu a 22 de agosto de 1895. Casou com Emília de Jesus de Oliveira, a 21 de junho de 1922. Faleceu, no Brasil, a 30 de abril de 1977.

8 Glória de Jesus nasceu a 5 de outubro de 1898. Casou com Francisco Inácio Vieira, a 6 de julho de 1922. Faleceu a 6 de agosto de 1971.

9 Carolina de Jesus nasceu a 17 de outubro de 1902. Casou com Manuel Pereira Carvalho, a 28 de julho de 1929. Faleceu a 31 de março de 1992.

10 Segundo declaração da própria Lúcia, a 23 de fevereiro de 1989, o dia de nascimento foi a 28 de março de 1907 e não a 22 de março: “Meu pai era muito assíduo em levar os filhos à pia batismal. Quando eu nasci – ouvi contar a minha mãe numa entrevista com o Dr. Formigão, que a interrogou perguntando em que dia eu fazia anos - a Mãe respondeu: “Nós dizemos que é no dia 22 de março, porque ela foi registada como tendo nascido nesse dia, mas, na verdade, não é bem assim. Ela nasceu no dia 28 de março. Era quinta-feira Santa. [...] O Pai tratou logo do batizado. Não lhe convinha na próxima semana, por motivo dos seus trabalhos, mas, como estava mandado que os pais levassem os filhos a batizar aos oito dias, depois de nascidos - que, de contrário, pagavam multa, o Pai resolveu dá-la como nascida no dia 22, para que o Pároco a batizasse no Sábado de Aleluia, que era o dia 30 do mesmo mês” (Memórias da Irmã Lúcia, Memória V, capítulo 1, nº 2, Fátima, Vice-Postulação).

Manuel Nunes Formigão

Cleropadre, professor em Santarém
Outros de 1917Testemunho diretoNotaAtitude céticaA multidão

Depois do meio-dia parti de automóvel para a Fátima pela estrada da Mendiga, Reguengo de Fetal e Porto de Mós. Cheguei a Fátima às 3 horas da tarde. Na Cova da Iria, junto da azinheira das aparições, algumas piedosas mulheres do campo, ajoelhadas, rezam devotamente o terço. A azinheira reduzida ao tronco, que tem pouco mais de um palmo de altura, está envolta em ramos de plantas campestres e flores. A devoção dos peregrinos, que desejavam conservar uma recordação do arbusto, que servia de pedestal à Virgem durante as aparições, aniquilou-o quase completamente. Tudo o mais se conservava no mesmo estado em que se via no dia 11, antevéspera da última aparição. Dirigi-me em seguida a casa da família da Jacinta, onde se encontravam os três videntes, que estavam sendo submetidos a um interrogatório pelo Pe. José Ferreira de Lacerda, pároco dos Milagres e diretor do semanário católico “O Mensageiro”, de Leiria, e atualmente alferes-capelão do corpo expedicionário português, o qual tinha vindo à sua terra em gozo de licença e quis, antes de regressar a França, ver e falar com as crianças de Aljustrel. Acompanhavam o Pe. Lacerda outro sacerdote de Leiria e o pároco da Fátima. O número de visitantes das crianças aumenta de dia para dia. Vêm a toda a hora, dos pontos mais distantes e opostos do país. As crianças sentem-se bastante abatidas. A Lúcia sobretudo, devido a ser interrogada mais detidamente, acha-se profundamente exausta, notando-se que o cansaço excessivo a obriga a responder às perguntas que lhe são feitas sem a atenção e a reflexão que era para desejar. Responde às vezes quase maquinalmente, ocorrendo com frequência não se recordar bem de certas circunstâncias das aparições, ao contrário do que sucedia antes do dia 13 de outubro. Se não há cuidado em poupar as crianças à fadiga das inquirições frequentes e demoradas, a sua saúde corre risco de sofrer um profundo abalo.

Leonor de Avelar e Silva Constâncio

Visitanteviúva, senhora católica que estava nas Caldas da Rainha
Outros de 1917Testemunho diretoNota

Voltei á Fatima no dia 19 de Outubro, fui vêr as creanças e fallar com ellas. Foi comnosco um sacerdote que já por vezes as tinha interrogado, sendo interessantissimos esses interrogatorios.

Ao contrario do que succedera a algumas pessôas, agradaram-me immenso as creanças, que são robustas, sadias, alegres, francas e sympathicas, com uma desinvoltura propria da sua edade. Não fugiram de nós, antes nos receberam amavelmente. Assistimos a um demorado interrogatorio, feito a cada creança separadamente. Respondem francamente, promptamente, e com a maior singeleza. No entanto vê-se que gostam pouco de ser interrogadas, que isso as massa, e que só respondem, por se acharem obrigadas a isso.

DCF III-1, Doc. 129 · nota · depois de 19 out. 1917Digitalizações (2)Ligação

Correspondente não identificado de O Século em Santarém

Jornalistacorrespondente local, O Século (assina «C.»)
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensaAtitude céticaA multidão

Como Santarem é conhecida pela terra dos milagres, não quiz ainda d'esta feita que Fátima lhe tomasse a dianteira, e por isso, pessoas d'aqui foram a noite passada em automovel áquela povoação do concelho de Vila Nova de Ourem e d'ali trouxeram para Santarem o tronco da azinheira onde a virgem fazia as suas aparições, aos 13 dias de cada mez e com essa parte da arvore "santa", cortada a machado trouxeram tambem uma pequena meza, que, junto da arvore, simulava um altar, várias gravuras de imagens religiosas, duas cruzes, sendo uma de pau e outra de cana, um arco de murta, uma lata servindo de vazo com verdura e duas lanternas, todo o material que ornava o milagroso local.

Tudo isto chegou a Santarem esta manhã e tem estado exposto ao publico n'uma casa na praça Sá da Bandeira, onde a concorrencia tem sido extraordinaria durante todo o dia e parte da noite, constando que a exposição será feita de ámanhã em diante n'outro local, com entradas pagas, revertendo o seu produto em beneficio d'uma instituição de caridade.

No tronco "milagroso", aqui em exposição, notam-se vestigios varios de lhe terem sido cortados alguns bocados de casca que os crentes tinham levado no dia 13 d'este mez, como reliquias milagrentas.

DCF III-1, Doc. 169 · notícia de imprensa · 23 out. 1917 · também publicado em DCF III-1, Doc. 191DigitalizaçãoLigação

Correspondente não identificado do Diário de Notícias em Santarém

Jornalistacorrespondente local, Diário de Notícias
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensa

Durante a noite de ontem, algumas pessoas que se fizeram transportar num automovel a Fatima, foram ao local onde se deu o tão afamado fenomeno do dia 13 do corrente mês, e de que tanto a imprensa se tem ocupado e, munidos dum machado, cortaram a carvalheira, sob a qual as três crianças (pastoras), se apresentaram naquele dia.

Trouxeram a arvore assim como uma mesa, sobre a qual alguns crentes haviam armado um modesto altar, onde foi encontrada a fotografia duma imagem religiosa, (Nossa Senhora), um arco que a encimava, feito de rama de murteira, duas lanternas de folha, duas cruzes, sendo uma de madeira e outra de cana, envolta em papéis de seda.

Todos estes objectos assim como dois vasos com plantas, deram entrada nesta cidade as 9 horas d’hoje, encontrando-se em exposição num primeiro andar do largo do Seminario.

O automovel, na ocasião da partida do referido local, teve uma “pane”, não ganhando o “chauffeur” e seus companheiros para o susto, receiosos de serem ali encontrados.

O caso deve ter produzido grande sensação no espirito dos crentes e bons catolicos da Fatima e suas cercanias.

Constou que iam ser pagas as entradas para a visita aos ramos da arvore e imagens e que o apurado reverteria em beneficio das Cantinas Escolares desta cidade, mas sabemos que a direcção desta instituição de caridade recusa qualquer quantia que daí provenha.

DCF III-1, Doc. 176 · notícia de imprensa · 23 out. 1917 · também publicado em DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9)DigitalizaçãoLigação

Manuel Nunes Formigão

Cleropadre, cónego; Santarém
Outros de 1917Testemunho diretoCartaAtitude cética

Hontem á noite sahiu d'aqui secretamente para a Fatima um automovel com carbonarios, entre os quaes um certo Fialho, e alli pela calada da noite, como salteadores, arrancaram a armação de madeira, e trouxeram-na juntamente com a cruz, o arco de verdura e um quadro de Nossa Senhora, não trazendo tambem a carrasqueira porque restava apenas uma pequena parte do tronco d'ella, que não sei se se trouxeram. Ao front bater-se com os allemães é que elles não vão, os heroicos paysanos. Nem sequer á Fatima se atreveram a ir de dia, os valentes.

Autor não identificado de O Debate

JornalistaO Debate (semanário republicano, Santarém)
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensaAtitude cética

Damos aos leitores a sensacional noticia, de que, tudo quanto assinalava o local escolhido por Nossa Senhora, para se mostrar aos seus fieis, acaba de aparecer... em casa dum nosso amigo desta cidade, que por isso tem sido muito visitada.

Ali se encontram, a celebre carrasqueira, já muito depenada pelos dedos tremulos dos crentes; uma cruz, feita a podão; um pequeno quadro, mostrando uma moçoila de faces robicundas e vestes pintalgadas, comodamente sentada entre verdejante alfombra; duas lanternas de folha, bezuntadas d’azeite, etc., etc.

Não se sabe como isto foi... Ha porém quem seja de opinião que foi a propria Nossa Senhora quem operou o milagre desta mudança — para poupar os devotos ás inclemencias da quadra invernosa.

Efectivamente, ali ha um pouco mais de conforto... por fóra e por dentro.

DCF III-1, Doc. 173 · notícia de imprensa · 25 out. 1917DigitalizaçãoLigação

Correspondente não identificado de O Século em Santarém

Jornalistacorrespondente local, O Século (assina «C.»)
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensa

SANTAREM. 24.— C. — Continuou hoje aqui a romaria de visitantes ao tronco da arvore da aparição da Virgem de Fátima e dos objetos que a crendice ali tinha colocado e hontem chegaram a Santarem. Como tinha constado que a exposição d’aqueles objetos ia ser paga a tanto por entrada e que o produto revertia a favor das cantinas escolares d’esta cidade, pede o presidente d’esta benemerita instituição para declarar que as cantinas não aceitam importancia alguma d’essa proveniencia.

SANTAREM, 25. — A noite passada muitos populares organisaram um cortejo, á laia de procissão, levando á frente uns tambores e a seguir os ramos da celebre arvore da aparição da Virgem em Fátima. Pelo mesmo cortejo eram conduzidos o arco de murta, as lanternas acesas, a cruz e mais objetos que os crentes tinham colocado no improvisado altar.

O acompanhamento entoava pitorescas “ladainhas”, e, n’um passo cadenciado percorreu as principaes ruas da cidade, dispersando na praça Sá da Bandeira, de onde tinha saido, indo muitos dos manifestantes depois juntar-se defronte de uma janela, na rua Direita, de onde tinha sido lançado um balde de agua, que apanhou alguns manifestantes e um dos policias que no cortejo se tinham incorporado, e ali permaneceram algum tempo, em atitude hostil ao dono da casa, até que um cabo e um guarda da policia civica apareceram pedindo aos manifestantes para dispersarem, o que depois fizeram.

DCF III-1, Doc. 188 · notícia de imprensa · 25 out. 1917 · também publicado em DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9)DigitalizaçãoLigação

Correspondente não identificado do Diário de Notícias em Santarém

Jornalistacorrespondente local, Diário de Notícias
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensa

Ás 21 horas de ontem, um grupo de populares exibiu um cortejo pelas tres principais ruas da cidade conduzindo alguns deles, procissionalmente, os objectos ha dias trazidos da Fatima, onde se deu o afamado fenomeno do dia 13 do corrente mês.

Um dos populares conduzia a carrasqueira, um outro, acolitado por mais dois, figurando de eclesiasticos, conduziam sob um chapeu de sol uma cruz e, por fim, uns outros transportavam a estampa duma imagem religiosa, sendo encimada por um arco de mortinheira, ladeada por duas lanternas.

Ao som do badalar duma campainha e o rufar dum tambor, cerca de 100 populares entoavam uma ladainha, sendo sobre os mesmos e um policia civil lançado um balde de agua quando passavam proximo da ourivesaria Lemos.

A senhora que lançou a agua foi multada pela policia, mas o marido resolveu não pagar a multa e fazer escandalo no tribunal.

Toda a gente estranha ao cortejo, especialmente os catolicos, comentam verberantemente a indiferença ou consentimento de tal desacato por parte da autoridade administrativa que durante a sua estada aqui só tem revelado uma manifesta incompetencia no desempenho da sua missão, não sabendo evitar factos vexatorios e improprios duma cidade, como o que vimos relatando.

Notas dos editores (1)

2 Era, nesta altura, António R. Almeida Ribeiro, sob a presidência de Afonso Costa, que se manteve até à revolução de Sidónio Pais, a 8 de Dezembro de 1917.

DCF III-1, Doc. 190 · notícia de imprensa · 25 out. 1917 · também publicado em DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9)Digitalizações (2)Ligação

Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo

Aristocratasenhora católica de Torres Novas
Outros de 1917Testemunho diretoCartaPalavras dos videntes

Recebi a sua carta quando ia metter-me no automovel para partir para a Fatima; assim, poude na passagem por Torres Novas receber o dinheiro que entreguei em mão ao Rdo Prior de Fatima, não sem grande protesto da parte d'este, que me mostrou um officio contendo todas as instrucções do Exmo Arcebispo de Mytilene sobre esse assumpto e entre ellas a recommendação expressa de não receber donativos; que deveria de preferencia deixar que pessoas de reconhecida probidade guardassem em seu poder, mas nunca elle.

Depois de muito argumentar e provando-lhe que se não tratava de nada meu, lá lhe deixei o dinheiro, dizendo-lhe que o entregasse ao Exmo Sr. Arcebispo se assim o entendesse e deixei escripto por fóra a origem e proveniencia6. Cada vez me impressiona melhor a simplicidade e sinceridade d'aquelle bom Parocho a quem li a carta de V. Exa e logo me disse que o livro que sabia havia em caza da familia, era a "Missão Abreviada" aonde effectivamente vem na instrucção 12a uma pequena noticia sobre a apparição de La Salette. A pequena mais velha disse-me que só muito depois de N. Sra lhe apparecer lh'a tinham contado e os outros pequenos, nem pouco mais ou menos sabiam do cazo. A mãe lê alguma cousa; a pequena anda agora na eschola e não consegui que nos quizesse accompanhar ao local sem licença da mãe. Foi preciso o prior mandar-lh'a pedir a caza. A Lucia está estafada d'audiencias e inquirições que começam ao romper d'alva e acabam noute fóra. Disse-me o prior que se o tivessem martyrisado assim a elle com perguntas, já estaria doudo. Diz que a pequena sobretudo quando vêem Padres, já a sua vontade é fugir, tanto a massacram com perguntas e repetições.

O rapazinho, que é irmão da pequenina Jacintha e primo da Lucia, é que hontem8 me deixou uma optima impressão: olhar muito brilhante, cara muito alegre, muito á vontade, confirmou (a sós é que foi entrevistado por nós) que a Lucia dissera no momento do milagre: Olhem para o Sol. Mas a Lucia diz e sustentou que se não lembrava, nem de N. Sa lh'o ter dito, nem de ella o têr repetido. Mas o facto é que mais pessoas fidedignas que estavam ao pé d'ella o affirmam. Eu creio que a pequena se perturba, à força de exgotada e cansada.

O que ella confirma é ter-lhe N. Sra dito que a guerra acabava n'aquelle dia quando Ella chegasse ao Céo e que muito breve os militares voltariam para as suas famílias. Diz que não está bem certa se N. Sra lhe disse que era N. Sra Rosario ou se queria a Capella a N. Sra do Rosario, que foi uma das cousas.

O segredo, não lhe disse que o dissesse a ninguem10 e continuam na mesma tenacidade em o guardar.

O pequeno, offerecendo-lhe as pessoas que iam commigo tudo quanto se lembraram, e recusando tudo, acabou por dizer muito enthusiasmado: "Nem que me dêem o mundo". O pae d'este e da pequenina é muito crente, diz o Parocho que se pecca, é por exaggero; mas o da Lucia, esse é effectivamente alcoolico e pouco religioso; a pequena diz que elle reza ás vezes, mas pouco se importa com isso, creio.

É certo alguns carbonarios de Santarem terem ido á Fatima na noute de 22 para 23 e trazerem de lá o que restava da carrasqueira; que eu vi cortada12; e até a pequena Lucia, com uma navalhinha me cortou umas lascasinhas do que restava do troço que não chega a ter um palmo fóra da terra. Levaram o arco, o banco, as lanternas, emfim tudo o que lá encontraram e no dia 24 fizeram uma farça de procissão, que indignou todos os catholicos.

Notas dos editores (5)

1 Freguesia de Riachos, concelho de Torres Novas.

6 No Arquivo Episcopal de Leiria, encontra-se um apontamento manuscrito do padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Maceira (de Junho de 1920 a Fevereiro de 1927), não datado, mas seguramente posterior à entrada de D. José Alves Correia da Silva na diocese de Leiria (5 de Agosto de 1920), no qual se regista: "Dinheiro que tenho em meu poder destinado ás despezas a fazer na construção da Capella em honra de N. Senhora, da Cova da Iria em Fatima. Entregue por D. Maria de Jesus Raposo de Torres Novas, produto d'uma quette, apoz uma conferencia feita por Dr. Garrett fº (Granja): 50:500 [...] Pe. Manuel Marques Ferreira Prior de Maceira e antigo parocho de Fatima -" (AEL, L1-79). O aditamento e antigo parocho de Fatima é letra do bispo de Leiria. Cremos que este apontamento se refere precisamente ao dinheiro entregue ao pároco de Fátima, a 26 de Outubro de 1917.

8 Dia 26 de Outubro de 1917.

10 A autora deveria querer dizer: "O segredo, disse-lhe que o não dissesse a ninguem [...]"; ninguem, sublinhado no texto.

12 A Autora esteve no local das aparições. Cremos que foi precisamente no dia 26 de Outubro, que foi tirada a fotografia aos videntes e outras seis pessoas (Doc. 186, de 26 de Outubro de 1917).

Beatriz Gorjão

Visitantesenhora visitante (possivelmente de Leiria)
Outros de 1917Testemunho diretoCartaA multidãoPalavras dos videntes

Na charneca, a poucos metros da estrada, avistamos um arco tosco, com uma lanterna de cada lado, e umas mulheres do povo a rezar o terço, o chaufeur pára, e diz-nos ser alli o lugar da apparição; depois d'uma pequena paragem, continuamos para Fatima. Fomos a casa do Prior, que não estava, appareceu-nos a irmã, (que se vê ser de familia humilde mas muito sympathica); disse-nos ter visto tambem os signaes no sol. Dissemos lhe que gostariamos de ver as crianças e ella mandou um rapazito ensinar-nos a casa d'elles. Deixamos Fátima que nos pareceu um logar muito pequeno; a casa melhor que vimos foi a do Prior, que é muito modesta, com um alpendre à antiga. Lojas nem sei se lá existe alguma!

Como te disse deixamos Fatima, e continuamos a pé (porque não ha estrada) para Aljustrel, a terra das 3 creanças. No caminho encontramos uma caravana, e a pé junto a um dos burros ia a mais velha das pequenas; pedimos que parasse, mas ella, como creança que é, estava desejando continuar para Ourem. Pouco fallou comnosco, dizia-nos que fossemos ter com a Jacintha (a mais pequena) que ella contaria tudo e apontava para o lugar que já se avistava d'alli. Umas mulheres que alli estavam disseram que a mais pequena nunca fallava, nem mesmo a ellas, mas eu lembrando-me das inspirações da Maria Delphina e achando estraordinaria a insistencia da pequena, desde logo me convenci que ella abriria excepção para nós, e assim aconteceu.

Quando estavamos para partir apparece a pequena Jacintha; tem 7 annos e é um verdadeiro apetite, nós alli ficamos sentadas no chão passando a pequena de collo para collo. Perguntamos-lhe como era e como estava vestida N. Senhora: e a pequena sem a mais pequena exitação e querendo explicar ao vivo, põe-se em pé e diz que N. Senhora era da sua altura; aperta um pouco a saia em baixo para explicar que N. Senhora trazia o vestido um pouco mais estreito em baixo, depois com grandes esforços tenta chegar a saita d'ella aos pés mostrando que o vestido era comprido.

Explica depois que N. Senhora não trazia veu, mas um manto que lhe cahia da cabeça até, segundo o gesto da pequenita, a 3 ou 4 dedos acima da tunica; estava toda de branco (sem a facha azul) as mãos erguidas a pequena para melhor explicar, tirou-me o terço das mãos enfiando-o na mãozita d'ella entre o dedo pulgar, levantou as mãos imitando o gesto de N. Senhora de Lourdes e separando-as um pouco enseguida disse: quando fallava ficava assim: Tinha na cabeça uma coisa de muitas côres. A mesma explicação nos deu a mais velha e o pequenito que depois encontramos. Uma mulherzita perguntou-lhe se em tantas senhoras que viu no dia 13 e entre tantas que a teem visitado, encontrou alguma tão bonita como a senhora do Ceu, a pequena disse que tão bonita nunca viu nenhuma, e o pequeno a quem depois perguntamos o mesmo disse: que tão bonita não havia nenhuma no mundo. Pedimos que nos contasse como tinha sido a primeira apparição: A pequenita explicou que andavam a guardar as ovelhas que pertencem à familia da Lucia (a outra vidente) na terra do Tio Abobera de repente viram um relampago e tiveram medo, muito mêdo, quando estavam de joelhos a rezar, viram a Senhora na Azinheira e logo outro relampago, o rebanho foi para os chicharros11 e a dona d'elles gritava de longe — “volta-me essas ovelhas” — mas a senhora disse: (a pequena tentou tornar a vóz mais doce) “não voltem as ovelhas que ellas não comem nada.

Então a Lucia perguntou: “Quem é Vocemecê?” — “Eu sou a Mãe do Céu” — “O que quer à gente?” - “Que aqui vanham n'este dia durante 6 mezes, no fim dos 6 mezes direi o que quero. Rezem o terço.” —

Depois appareceu o dono dos chicharros, que a mulher foi chamar, vinha ralhar porque é muito mau, mas não ralhou nada porque viu que os chicharos não estavam comidos. E, aqui tens o que eu acho mais admiravel; passa-se um caso com tres creancinhas que guardavam ovelhas; uma scena tão simples do[s] chicharos passa-se na serra no meio da charneca. As creanças são d'um logarsito que quasi se lhe póde chamar uns casaes onde não ha lojas nem commercio de especie alguma; este logar pertence à freguezia de Fatima, mas Fatima é tambem como já disse um logar muito pequeno; a estrada acaba alli não está portanto em caminho para parte nenhuma, de certo alli vae pouca gente, não se fazem reclames nos jornaes, e em 6 mezes a noticia espalha-se por toda a parte, e apezar da chuva e da falta de transportes junta-se alli umas 30:000 pessoas, segundo uns; 50:000 segundo outros! — mas vamos retomar o fio, — “A pequena falla depois do fim da guerra e do fim do mundo caso não houvesse fé (não te assustes ainda ha muita). São estes dois pontos que eu acho duvidoso[s]; fallaria realmente N. Senhora no fim da guerra e do mundo, ou estariam as creanças confundidas com tantas perguntas que lhes têem feito? — N. Senhora disse-lhes um segredo. As mães, coitadas como ignorantes que são, têem feito todo o possivel para o saber. Segundo dizem, o administrador já prometteu 20.000rs se lh'o dissessem, mas não ha meio de lhes arrancar o segredo. Ao pequeno ouvi dizer que nem que lhe dessem o mundo inteiro o diriam. Quando lhes perguntam se é mau, dizem que é bom para todos. — N. Senhora no ultimo dia disse mais ser a Virgem do Rosario, e querendo o povo lhe eregisse alli uma capella — Mas isto está bem longe de ser a parte mais importante; calcula a nossa imperssão quando a pequenita continuando a conversar nos diz que no ultimo dia (13 Outubro) lhe appareceu S. José e o Menino Jesus!! Tratava-se portanto da Sagrada Familia. A nossa primeira impressão foi de duvida e de susto, iria cahir tudo pela base?! Mas umas vizinhas que alli estavam, disseram-nos que as 3 creanças já por vezes tinham fallado em S. José e no Menino Jesus. — A pequenita então explicou que S. José tinha vindo dar a paz ao mundo, e com a mão repetiu muitas vezes o signal da cruz, imitando o gesto dos Bispos quando vão andando e abençoando os fieis. Disse-nos que o Menino Jesus e S. José eram eguaes a uns santinhos que tinha em casa. Houve alguem que se offereceu para ir buscar o santo mas a pequena respondeu que tambem tinha quadros na parede. Lembrando-me outra vez da Maria Delphina, pareceu-me comprehender que seria conviniente irmos a casa d'ella. Dei a ideia, e continuamos para o pequenino lugar de Aljustrel. Chegamos a casa dos pequenitos é pequena e de gente muito humilde mas limpa — Appareceu-nos a mãe dos pequenitos uma mulher do povo, muito sympathica e parecendo muito boa. Tanto ella como o marido não acceitam dinheiro, pensam e bem, que poderiam julgar haver alli qualquer interesse, e depois graças a Deus não passamos fóme” — temos, (segundo a sua expressão,) batatas para todo o anno”. No dia 13 houve alguem que metteu na mão d’um dos pequenos, uma moeda de 500rs, a creança não sabendo do que se tratava, pois estava embrulhada n’um papel, foi leval-a à mãe, que afflicta perguntou em vóz alta quem se accusava de ter dado os 500rs. — Ninguem respondeu; e os cinco tostões lá estão embrulhados no mesmo papel ao canto da gaveta. Não lhe quer tocar: aquelle dinheiro não é d’ella.

Contou-nos mais, que os pequenos um dia lhe entraram em casa dizendo que tinham visto a Senhora do Ceu; respondendo ella que elles estavam a sonhar e que não eram dignos d’isso a pequena insistindo, fez à Mãe a discripção do que tinha visto, e contou o que já nos tinha dito no caminho! mas voltemos ao fio: a pequenita diz que tinha em casa uns quadros, mas nem para elles olhou: foi a uma caixa e tirou um grupo da Sagrada familia dizendo: “vêem?” S. José e o Menino Jesus estavam como estão aqui: mas aqui S. José está com os olhos fechados, e lá estávam com os olhos abertos. — Querendo nós ver se ella se atrapalhava, dissemos-lhe que uma vez que o S. José e o Menino estavam como alli estão, N. Senhora no ultimo dia tambem devia estar como aquella de veu e manto de côres; perguntamos isto varias vezes, respondendo ella sempre que N. Senhora não estava como aquella, mas sim de branco e com o terço. Dissemos mais que sendo a Sagrada familia devia estar toda junta, ao que ella respondia sempre que não. N. Senhora estava na azinheira, e S. José e o Menino Jesus, perto do Sol. — A mesma esperiencia fizemos com o pequeno respondendo sempre como a irmã. — É portanto fóra de duvida que se póde confirmar as 6 apparições de N. Senhora, sem se confirmar a da S. Familia. A pequena mais velha antes de partir para Ourem tambem nos fallou de S. José e do Menino Jesus. No emtanto isto está muito pouco espalhado, e nós mesmo a pouca gente temos dito porque sendo este um facto muito mais extraordinario (que me parece ainda não aconteceu em parte nenhuma do mundo)18, temos medo que isso vá fazer espanto a muita “gente” e possam não acreditar.

[…]

Rezamos o terço no logar da apparição com as creanças e umas trinta pessoas. O terço foi recitado por um homem do povo; poucas vezes tenho ouvido rezar tão bem e com tanta devoção e sempre de mãos erguidas como elles dizem. — Appareceram depois umas mulheres com enormes ramos de urzes, que deixaram no logar da apparição: com que devoção foram apanhadas! N. Senhora muito deve ter gostado d’ellas!

Notas dos editores (5)

1 Lugar da freguesia de Favaios, concelho de Alijó, distrito de Vila Real.

2 Sobre este documento, não conseguimos mais elementos de informação.

3 Este documento pertencia à mãe de Maria da Assunção Vaz Pato, de nome Maria da Assunção Tinoco Lobo Vaz Pato, e foi-lhe oferecida por Maria de Lourdes de Almeida Neto Navarro Silva, sobrinha-neta do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Neto.

11 chicharros, sublinhado no texto. O termo exacto é chícharos, planta leguminosa.

18 A autora não fechou o parênteses, mas pelo sentido da frase, pensamos que se deve fechar aqui.

Francisco da Silva Reis

Autoridaderegedor da freguesia de Fátima
Outros de 1917Testemunho diretoCartaA multidão

Acuso a receção do Oficio de V. Excia. de 29 de Outubro findo, e no 1165, em que V Ex.cia me manda informar-me por quem foi feito o corte das carrasqueiras, sendo uma délas a que disiam ser a que servia de pedestal a Nossa Senhora; essas ditas carrasqueiras na ocasião do corte já não havia senão o tronco em consequencia do grande ajuntamento de povo que se juntava nos dias 13 de cada mez, e todos crião8 levar uma reliquia e por isso ja não tinhão senão o tronco, mas esse mesmo tronco devia ter de diametro junto da terra 5 a 7 centimetros; davão-lhe o nome de carrasqueira por ser rebento da rais da asinheira hoje ainda considerado sem valor.

Notas dos editores (1)

8 crião é um erro de redacção, em vez de queriam. O ofício do Regedor de Fátima contém outros erros menores que nos abstemos de corrigir.

DCF III-1, Doc. 245 · documento oficial · 1 nov. 1917Digitalizações (2)Ligação

Anna Maria dos Santos

Gente da terramulher inválida do Caneiro, sem sair de casa havia 9 anos
Outros de 1917Testemunho diretoArtigo da testemunhaPalavras dos videntes

No dia 6 o Ex.mo Snr. Pedro me convidou para eu ir ao local onde dizem ter aparecido N. Senhora na Freguezia da Fatima; eu acceitei o favor com muita satisfação porque ha 9 annos que não tenho saido de minha casa por causa da minha doença e de estar impossibilitada de não poder andar e por isto o Ex.mo Snr. Pedro elle proprio me conduziu no seu carro onde fui acompanhada do meu marido e da Snr.a Gertrudes; todos me prestaram os melhores auxilios; quando sairam de minha casa seguimos em direção ao outeiro das matas onde passei á capela de S. Bernardo onde tive muita satisfação, porque ha 9 annos não passei aqueles sitios nem a outros; em seguida Sobral, onde vi a capela da Senhora da Graça; no Bairro tambem vi a capela da Senhora de Lurdes; mais alem um bocadinho vimos o Snr. Manuel Pereira e tambem a sua mulher que se aproximaram do carro onde nos cumprimentaram e nos ofereceram um copinho de vinho. Seguimos a viagem e quando chegámos á Fatima o Ex.mo Snr. Pedro perguntou pelas pequenas, onde ellas então vinham a sair da escola e depois por mandado da Sn.a professora as meninas chegaram ao pé do carro e falaram com mais pessoas que ali estavam, onde lhe perguntámos com respeito a N. Senhora e ellas afirmaram sempre a mesma cousa, que a viram, ouviram e falaram com ella: depois de ouvirmos o que ellas diziam, o Ex.mo Snr. Pedro as convidou para irem no carro até de fronte do logar de Ajustrel, onde ellas seguiram acompanhadas do meu marido para irem pedir em obediencia aos paes para lhes dar licença para irem na nossa companhia ao sitio onde as pequenas dizem ter aparecido N. Senhora, onde havia um bocadinho de não poder ir o carro, mas eu por ter tanta vontade e com o auxilio da Santissima Virgem Maria e com os esforços da Snr.a Gertrudes e do meu marido, lá cheguei com muito custo. Não posso explicar o que senti dentro do meu coração, quando me encontrei n'aquelle sitio. Minhas lagrimas corriam fio a fio. Por mais que eu quizesse reprimil-as não podia ser. Depois chegaram os três pequeninos, na companhia do Ex.mo Snr. Pedro e mais algumas pessoas que nos acompanharam, e em seguida a menina Lucia resou o terço em publico com uma fé e devoção que eu não posso explicar. Em seguida resou-se a oração da Paz e outra á Virgem Santissima. Eu, em lembrança da minha viagem, lá deixei uma imagem da Senhora de Lurdes; de lá dirigimos para o carro que estava além um bocadinho; o Ex.mo Snr. Pedro mandou ir os meninos todos três no carro até de fronte do logar de Ajustrel, e quando lá chegaram despediram-se de nós com muitos beijos e saudações. De volta, quando chegámos á Fatima, descemo-nos do carro, onde entrei n'aquella Igreja, que já havia 15 annos que então não tinha entrado, fui acompanhada da Snr.a Gertrudes onde nos prostrámos em adoração ao S. Sacramento por alguns minutos; depois saimos, aproximando-se de nós o Rev.mo Snr. Prior Manoel Marques Ferreira e tambem a mana, que nos cumprimentaram, o que nós fizemos tambem com muito gosto, depois subimos para o carro continuando a viagem, chegámos a casa ás 17 horas, todos bem. Eu, da minha parte, não vim com os meus soffrimentos aumentados, graças a Deus para sempre.

DCF III-1, Doc. 322 · notícia de imprensa · 14 nov. 1917Digitalizações (2)Ligação

António dos Santos

Família dos videntesGente da terralavrador, pai da vidente Lúcia, dono do terreno da Cova da Iria
Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatório

Perguntado acerca do córte das carrasqueiras ou azinheiras, declarou: Que na sua propriedade, da Cóva da Iria, no local aonde sua filha Lucia dizia lhe aparecera uma Santa, foram cortadas trez azinheiras pequenas, sendo duas cortadas a sérra ou serróte, e a terceira com machado ou podôa, não tendo sido cortadas no dia _____ treze de Outubro findo mas sim dias depois6, egnorando comtudo o dia cérto, e não sabendo tambem quem foi a pessôa ou pessôas que as cortaram7. Que o prejuiso que sofreu é calculado em dois ou trez escudos. Que não tem testemunhas do facto.

Notas dos editores (3)

5 Carimbo ao cimo da página.

6 Como já sabemos, o corte foi feito na noite de 22 para 23 de Outubro (cf. Doc. 169, de 24 de Outubro de 1917).

7 As outras seis azinheiras de que se fala (cf. Doc. 310, de 19 de Novembro de 1917), deviam pertencer a propriedades vizinhas.

DCF III-1, Doc. 329 · interrogatório · 29 nov. 1917Digitalizações (3)Ligação

Correspondente não identificado de O Mundo com a missão da Associação do Registo Civil

Jornalistajornalista anticlerical / propagandista do livre-pensamento
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensaAtitude céticaA multidão

Sorrindo do ridiculo truc do tonsurado, os excursionistas seguiram para a Cova da Iria, teatro escolhido para o milagre. Apesar da grande distancia e das dificuldades de transporte, e apesar ainda do truc do padre, não faltou quem escutasse os oradores srs. Augusto José Vieira, Conceição Vasques, Machado Toledo e Artur Santos, que deu conta de um telegrama de adesão do Centro Republicano Democrático de Leiria. Todos os oradores frizaram que não iam ali ofender nem desrespeitar as crenças sinceras de quem quer que fosse, mas apenas verberar a especulação clerical dos burlões do povo e convencer este de que quem lhe fala em milagres e aparições só tem em vista ludibriá-lo para melhor o escravizar. Soltaram-se calorosos vivas á Republica, entusiasticamente correspondidos, junto á grosseira caranguejola ali construida de ripas de madeira, para armar ao efeito. Ao longe, pobres mulheres fanatizadas, cantavam o Bemdito! É o que prova a necessidade de se repetirem missões como esta.

[…]

O regresso fez-se por Aljustrel, no intuito de ver as crianças milagreiras, sobretudo a vidente Lucia, o que se não conseguiu, por ter ido com o padre para a Ortiga e as outras foram negadas pela mãe, naturalmente industriada para isso pelo padre.

DCF III-1, Doc. 337 · notícia de imprensa · 4 dez. 1917Digitalizações (3)Ligação

Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos

ProfissionalAristocrataadvogado e conservador do registo civil de Vila Nova de Ourém
Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaPalavras dos videntes

Algumas semanas depois voltei ao local das aparições para entrevistar as pastoras. Desejava conhecer essas crianças. Acompanharam-me minha mãe, a Baronesa de Alvaiázere9, minha irmã, Maria Celeste10, e o meu particular amigo Conde do Juncal11, e sua Ex.ma Mulher, que então eram nossos hóspedes. Junto da Igreja da Fátima parámos e pedimos que nos dissessem onde se encontravam as pastorinhas. Disseram-nos que deviam estar no local das aparições e que o pastorinho que as acompanhava e a quem a Virgem também aparecia que estava ali próximo e que o iam chamar. Pouco depois apareceu este. Era uma criança de dez a doze anos, trajando à moda do campo, bastante alegre e despreocupado, ao que parecia. Convidámos o pequeno a acompanhar-nos ao que ele se prontificou logo, saltando sorridente para o automóvel que nos conduzia. Fizemos-lhe várias perguntas mas ele sorria mais do que falava, mostrando-se muito deslumbrado com as várias peças do automóvel. Junto do local, em frente de uma mesa de madeira bastante velha, onde estava colocado um Crucifixo, várias pessoas oravam. Lá estava o tronco da azinheira cortada e os tais postes de madeira dos quais pendiam duas lanternas de lata. Ajoelhámos e rezámos também.

A pequena Lúcia, aquela a quem a Virgem aparecia, conversava a certa distância com alguns forasteiros. Esperámos que estes a deixassem e aproximámo-nos dela. Esta era uma criança dos seus doze anos, de feições grosseiras e de cor muito macilenta. Estava vestida pobremente, à moda do campo, tendo ao peito uma pequena flor de papel vermelho e nas mãos um pequeno cofre, onde tilintavam algumas moedas. Tinham um ar tristonho e sombrio. Narrou-nos a aparição da Virgem da forma que já é de todos conhecida. Que a Virgem lhe dissera “que nós tínhamos ofendido muito a Deus e que nos emendássemos”. “Que fízéssemos ali uma capelinha e que lhe pusessem o nome da Senhora do Rosário”. “Que a guerra acabaria em breve”. Perguntando-lhe minha irmã o que vira ela no sol na ocasião do milagre, respondeu “que vira S. José”. Perguntei-lhe também se ela não tinha receado que se não desse o milagre pois que o povo a poderia matar julgando que ela estivesse enganando todos, disse-me com certa energia “que sabia que o milagre se daria e que por isso nem em tal perigo tinha pensado”. Disse-nos também que já tinha anteriormente ouvido contar os milagres da Senhora de Lourdes. Uma mulher que dizia ser tia dela auxiliava-a algumas vezes nas respostas e fazia várias considerações sobre um segredo que elas tinham e que a ninguém o revelavam embora já lhes tivessem feito vários prometimentos sedutores e até as tivessem ameaçado de que as deitariam a um poço ou de que as queimariam se elas o não revelassem. Disseram-nos ainda que as esmolas que recebiam eram para a construção de uma capela e que dessas esmolas era depositária outra mulher que ali se encontrava. Informaram-nos também ali que a pequena se encontrava fatigadíssima com a constante série de perguntas que toda a gente lhe fazia. A referida pequena, umas vezes me parecia concentrada, outras vezes me parecia distraída. Devo declarar que a impressão que me deixou não foi boa, ou foi pelo menos muito diferente da que eu esperava. Uma criança cheia de lógica, de coêrencia e de perspicácia seria também de recear. Se apesar dessas aparências estava ali uma criatura escolhida por Deus para uma tão assombrosa revelação, não posso eu dizê-lo. No regresso, parámos novamente junto da Igreja da Fátima; ali conseguimos falar à outra pequena, cujo nome não me recorda. Subiu ao estribo do automóvel que nos conduzia mas não conseguimos arrancar-lhe uma palavra por mais diligências que empregámos para esse fim. Tinha esta aspeto muito jovial e uns olhos expressivos. Devia ter sete ou oito anos de idade.

Notas dos editores (3)

9 Maria José da Câmara Faria Serpa Magalhães. Faleceu a 1 de janeiro de 1934.

10 Maria Celeste da Câmara e Vasconcelos, nascida a 22 de março de 1897. Faleceu, solteira, a 16 de setembro de 1977.

11 Pedro Sande Mexia Aires de Campo Vieira da Mota, segundo filho dos Condes do Ameal. Casou duas veze: a primeira com Maria Albina Cochofel da Silva Correia; a segunda, com Maria Luísa Tavraes Aires de Campos.

Manuel Marques Ferreira

Cleropároco de Fátima
Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes

Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:

– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.

Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:

– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.

Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:

– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!

Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.

Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta.

Inácio António Marques

Gente da terrajovem da Chainça (Santa Catarina da Serra), mais tarde empregado dos correios em Lisboa
Outros de 1917Testemunho diretoRecordação posteriorAtitude céticaa 120 kmCura

Havia 12 anos que eu padecia do estômago; vomitava tudo que comia. Consulto os melhores médicos com a esperança de me curar por meio da medicina, mas debalde o faço... Estou desenganado mas restam-me ainda os hospitais de Lisboa como único recurso. Dirijo-me ao hospital de S. José, sou observado pelo sr. dr. Damas Mora, diretor do Banco do mesmo hospital. Como o meu estado fosse pouco satisfatório, o mesmo sr. mandou-me baixar ao hospital do Desterro onde me operou a 18 de dezembro de 1917, tendo como ajudantes (ainda que não me recorde bem) os srs. drs. Hermano Medeiros e Balbino do Rego. Devido ao muito frio constipei-me e, fosse por isso ou por outra causa, no dia seguinte estava ardendo em febre e com uma pneumonia.

É chamado o médico de serviço e, depois de me observar bem, diz que estou irremediavelmente perdido. Tenho os pulmões ambos atacados; a febre está sempre acima de 40 graus. Mandam-me aplicar ventosas, umas após outras, mas era preciso tomar remédios que combatessem a febre e isso é impossivel porque no estômago não pode entrar nada. A operação era das mais melindrosas e por conseguinte só podia esperar a morte. Estava quase sempre variado mas, nos pequenos intervalos que tinha lucidez, pensava na minha situação e via que era crítica. Vejo que morro num hospital sem o conforto que os ministros duma religião levam às almas nas negras e atribuladas horas; sem ver à cabeceira do meu leito uma mãe, irmãos, irmãs, pessoas de família e amigos que me animem e fortaleçam. Antes que baixe ao coval de um cemitério, quero ainda escrever a minha mãe dizendo-lhe que morro, que peça e mande pedir por mim, que ali não tenho quem o faça.

Esse pedido foi feito pelo reverendo pároco de Santa Catarina parece-me que em dia de Natal à missa das Almas. Do mundo não posso esperar nada e então vem-me à imaginação tudo o que se passou nessa Cova bendita, dessa Virgem que disse ser a Consoladora dos aflitos.

Bem sei que tenho de morrer mas é triste não ter a consolação de ver nesse momento cruciante e transe doloroso, em volta de meu leito, quem ore e dê conforto. Então animado com uma grande fé peço a Nossa Senhora do Rosário da Fátima que, se possível fosse, eu ainda poder um dia ir à minha terra ver minha família, faria uma festa em sua honra e mandaria pregar um sermão, indo ao local rezar um terço. No dia seguinte já não tinha febre e passados dois dias estava completamente curado dos pulmões. Aos médicos parecia um sonho, quando me julgavam morto aparecia-lhes curado. Foi a medicina? Não, porque não tomei remédios. Então uma pneumonia e febre a 40 graus cura-se em três dias, e por acaso? Já escaparia alguém operado do estômago que fosse atacado por uma pneumonia? Que responda quem souber.

Poderão dizer que melhorava da mesma forma, mas como tenho a certeza que só escapei por meio dum grande milagre e da grande fé com que me apeguei com Nossa Senhora, hei de dizer isto sempre e em toda a parte, custe o que custar.

Manuel Marques Ferreira

Cleropároco de Fátima (1914-1919)
Outros de 1917Testemunho diretoRecordação posteriora 2 km

A respeito de perseguições, só me lembro – 1º - Que em certa noite foi roubado na Cova da Iria, um quadro, 2 lanternas e uns ramos de azinheira cortados em vários – fazendo-os passar por aquela onde Nossa Senhora aparecia – isto foi levado para Santarém onde esteve em Exposição, e onde andaram parodiando pelas ruas em procissão. Parece que não foi alheio a isto Artur de Oliveira Santos. – 2º - Um comício, que foi resolvido em Vila Nova de Ourém, para se realizar em Fátima, às 11 horas, à saída da missa paroquial, de propaganda contra as Aparições e a ida dos fiéis à Cova da Iria – tendo eu tido conhecimento dois ou três dias antes, preveni o povo – avisei e mandei avisar às missas da manhã que a missa do dia era na Ortiga, onde fui celebrar. Chegando os comiceiros à hora da Missa não encontrando ninguém a não ser algum mirone ou alguém enviado meu, barafustaram, perguntando por mim, mandaram vigiar, por guardas, a residência, e porque naquele dia não voltei a casa, não me encontraram nem eu os vi; – parece que a casa onde me recolhi aquela noite também foi, de noite, rondada às ordens ou complacência de Francisco da Silva, que era o democrático da terra, creio que Regedor também. Não me lembro se nesta altura era administrador Artur de Oliveira Santos, creio que sim. – 3º - Recebi uma carta anónima, de pessoa amiga, avisando-me que foi resolvido na chafarica em Santarém (ou não me recordo, em Torres Novas) sequestrar-me de noite e aos videntes, pelo que avisei que não saía de noite, em virtude das ciladas, que me estavam armando, a não ser em casos extremos quando chamado por pessoas de reconhecida confiança e aos pais dos videntes preveni-os de que se acautelassem e não entregassem seus filhos a pessoas desconhecidas ou que não fossem acompanhadas por mim, ou por minha indicação.

Notas dos editores (1)

1 Nasceu no dia 4 de fevereiro de 1903, no lugar de Aldeia Nova, freguesia do Olival, concelho de Ourém. Entrou no Seminário Patriarcal de Santarém, em 1914. Após o curso de preparatórios, ingressou na Universidade Gregoriana de Roma, em 1919, concluindo o doutoramento em Filosofia em 1922 e o bacharelato em Teologia e Direito Canónico. Por falta de saúde, interrompeu os estudos em 1924, regressando a Portugal e concluiu os estudos teológicos em 1926, no Seminário Diocesano de Leiria. Foi ordenado presbítero por D. José Alves Correia da Silva, a 11 de julho de 1926. Fundou o semanário “A Voz do Domingo”, a 19 de março de 1933. Foi nomeado cónego da Sé de Leiria em 1943 e Monsenhor em 1983. Sempre ligado aos acontecimentos de Fátima, escreveu o livro “Jacinta” (1938), que teve oito edições em português, e “Fátima à prova” (1946). Foi um dos maiores estudiosos e divulgadores da história e do conteúdo da Mensagem de Fátima. Faleceu a 25 de setembro de 1984.

13 jun.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

No dia de Santo António (a 13 de junho). Neste dia houve uma festa na Fátima à qual a mãe da Lúcia (e não sei se também a do Francisco e da Jacinta queria que fossem assistir, mas em obediência ao que lhe tinha recomendado no mês anterior, deixaram a festa para irem ao local da aparição, onde se encontraram com algumas pessoas desconhecidas e apenas umas 3 ou 4 conhecidas. Um pouco mais ou menos pela mesma hora do mês anterior aparece-lhes a mesma visão pela mesma forma e desta vez disse-lhes que continuassem a ir ali nos meses seguintes; que aprendessem a ler; e disse-lhes um segredo, que lhes proibiu revelar fosse a quem fosse. – Dias depois próximo do sítio da aparição andando os três com o seu gado, pensaram em ir rezar o terço no local da aparição, mas para isso era forçoso, ou abandonarem o gado, com perigo de ir danificar as searas próximas, ou um pelo menos ficar em guarda e não ir rezar o terço; resolveram ir todos rezar o terço e abandonar o gado, que imediatamente foi para uma terra de milho, couves, chícharos e outros legumes. Uma mulher que por ali próximo andava, ao ver as ovelhas naquela seara, chama os pastores que não lhe responderam pelo que ela mesma foi virar as ovelhas, que ao voltar as costas imediatamente para lá voltaram. Terminado o terço foram os três para o seu gado, virá-lo do sítio em que andava e observar o prejuízo que tinha causado, mas qual não foi o seu espanto quando viram que nada tinha sido danificado o que foi confirmado pelo próprio dono que sendo-lhe dito que o gado tinha andado na sua fazenda foi ao outro dia para observar o prejuízo que lá tinha, constatando que prejuízo algum lhe tinha causado.

DCF Seleção, Doc. 9 (= DCF I, Doc. 45) · interrogatório · 17 set. 1917 (3 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

O que foi que disse a Senhora da primeira vez que apareceu, no mês de maio?

– A Lúcia perguntou o que lhe queria e ela disse que fôssemos lá de mês a mês até fazer seis meses e que no último mês diria o que queria.

2a – A Lúcia fez-lhe mais alguma pergunta?

– Perguntou se ela ia para o Céu e a Senhora disse que sim. Perguntou depois se eu ia para o Céu e ela disse que sim. Depois perguntou se o Francisco ia para o Céu e ela disse que sim, mas que havia de rezar as contas.

3a – A Senhora disse mais alguma coisa?

– Não me lembro que tivesse dito mais nada nesse dia. Foi dessa vez que o gado foi para os chícharos.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (6 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatório

É verdade que uma vez em que estavas a rezar o terço, o gado que apascentavas foi para o campo onde havia trigo e chícharo já crescido sem que comesse nenhuma dessas plantas?
– É verdade.
18a – Quando foi que isso sucedeu?
– Não me recordo, mas parece-me que foi num Domingo.
19a – Não viste o gado comer o trigo e o chícharo?
– Não vi.
20a – Mas sabes com certeza que não comeu?
– Sei, porque um dos donos da propriedade disse que o gado não tinha dado perda.
21a – Afastaste o gado desse sítio?

– Afastámo-lo depois de rezar o terço.

22a – A quem pertencia a propriedade?

23a – Pertencia ao José Matias e a Francisco António5, da Casa Velha. São dois talhões pegados.

24a – Porque não afastaste o gado logo que o viste ir para o campo semeado?

– Não afastei logo porque queria rezar o terço.

25a – Não receavas que ele comesse o que estava semeado?

– Pensava que ele comia, mas deixei-o andar.

26a – Então não sabias que a tua obrigação era retirares imediatamente o gado para que ele não causasse dano?

– Já me confessei dessa falta.

Notas dos editores (3)

3 Manuel das Neves Marto, filho de José das Neves e de Maria Vitória. Nasceu em Aljustrel a 15 de novembro de 1904 e casou a 29 de setembro com Maria do Rosário. Faleceu a 19 de janeiro de 1996.

4 Manuel Pereira Carvalho, filho de Maria de Jesus e de pai incógnito. Nasceu na Casa Velha a 6 de abril de 1906. Casou a 28 de julho de 1929, com Carolina de Jesus, irmã de Lúcia. Faleceu a 22 de outubro de 1978.

5 Francisco António, nascido em 1873 e casado com Jacinta de Jesus, então residente na Casa Velha.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (6 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos

ProfissionalAristocrataadvogado e conservador do registo civil de Vila Nova de Ourém (mais tarde barão de Alvaiázere)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoAtitude céticaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corMovimento em ziguezagueCores nas pessoas e na paisagem

Foi nestas disposições de espírito que eu, no dia 13 de outubro, próximo passado, pela primeira vez me dirigi para o local das aparições. Era curioso; não era um romeiro. Na véspera e antevéspera desse dia, e mesmo durante a noite, eu vi uma enorme multidão atravessar esta vila em direção à Fátima. De longes terras vinham ranchos de camponeses, na sua maior parte descalços, que cheios de fé e devoção atravessavam esta terra, entoando cânticos religiosos como o “Bendito” e o “Queremos Deus”. Alguns com quem falei já vinham de catorze léguas de distância, mortos de fome e de fadiga, mas mostravam-se esperançados e contentes. Estes eram por certo os romeiros. Veículos de toda a espécie, desde a carroça desconjuntada até à “limusine” perfumada, atravessavam também a terra numa fila interminável. Estes últimos eram talvez na sua maior parte os curiosos, os “mirones”. Tive informações de que nas estradas de Torres Novas e de Leiria a concorrência foi igual. Como atrás deixei dito, no dia 13 parti para o local das aparições, logo de manhã, às oito horas, aproximadamente. Acompanhavam-me meus irmãos António e Fernando.

Logo à saída daqui, a chuva começou caíndo copiosamente, tornando as estradas num contínuo lamaçal. O vento soprava rijo, principalmente nas alturas da serra da Fátima. Pelas estradas continuava ainda enorme concorrência. Passámos ao lugar da Fátima e seguimos pela estrada que liga este lugar com a vila da Batalha. A chuva continuava caindo torrencialmente. À distância de um quilómetro, aproximadamente, vimos uma multidão de muitos milhares de pessoas que de preferência se aglomerava nos outeiros. Seriam trinta mil pessoas, seriam cinquenta mil? Ninguém o poderia dizer ao certo. Parámos. Centenas de carros e automóveis, pejavam por completo a estrada enlameada. No fundo do vale, por entre a multidão, consegui divisar uns toscos postes de madeira clara que se assemelhavam a um trapézio, os quais eram encimados por uma pequena cruz, segundo depois observei de mais perto. A chuva era agora menos intensa. O sol continuava escondido entre grossas nuvens pardacentas. Em volta do trapézio a que me referi, aglomerava-se um numeroso grupo. Era o local indicado pelas pastoras, no qual se concentravam todas as atenções. A paisagem naquele ponto é agreste e nada tem de interessante. Montes na maior parte cobertos de pedra e urze. Alguns carvalhos e azinheiras de pequeno porte alternam com um pinhal escasso que fica para os lados do nascente. Aqui e além, baixas paredes de pedra solta, quase desmoronadas, afirmam alguma estrema. Encontrei nessa ocasião, bastantes pessoas das minhas relações tanto de Lisboa como de vários pontos afastados daqui. Quase todas perguntavam a minha opinião, talvez com particular interesse, por saberem que vivia nesta região. A todas respondi, sorrindo incredulamente, que tudo era uma “blague”. “Que como católico, me não repugnava acreditar na possibilidade de um milagre mas que por isso mesmo que era católico, é que não acreditava, enquanto esse milagre se não operasse por uma forma evidente, inconfundível. Que o próprio clero do concelho duvidava também, segundo me constava”. Entre outras pessoas, lembro-me que disse isso à esposa do Snr. Emílio Infante da Câmara3, de Vale de Figueira e a seus filhos Emílio4 e José5, ao Dr. Gualdim de Queirós6, de Cernache de Bonjardim, ao Snr. José Rino7 de Alcobaça e a sua esposa, a Senhora Dona Capitolina Guimarães Rino8. Tentei aproximar-se do ponto onde estavam as pastoras que era junto do trapézio a que me referi anteriormente, a uns duzentos metros da estrada, mas não o consegui, tão compacto era o círculo de gente que se formava em volta delas. Assim não as consegui ver nem ouvir nessa ocasião; percebi apenas que oravam. Voltei para cima, para a estrada, e aproximei-me do Snr. José Rino e de sua esposa que estavam junto da sua “limusine” conversando com várias pessoas. Foi então que estes meus bons amigos que desde criança me conhecem pediram a minha opinião que lhes manifestei pela forma que anteriormente expus. Mostraram-se quase indignados e disseram-me “que para eles não restava a menor dúvida de que se tratava de um milagre, pois que eles já anteriormente, no dia 13 de setembro último, ali tinham estado e tinham presenciado no sol extraordinários fenómenos luminosos, precisamente à hora indicada pelas pastorinhas; que o clero não estava bem informado e que, se eu duvidava, que esperasse”. Como insistir seria inconveniência, calei-me, mas fiquei absolutamente convencido de que nada veria. Recordei então, como já por várias vezes tinha recordado aquele princípio de Gustave Le Bon que se resume à corrente hipnótica que a domina. Era preciso precaver-me, não me deixar influenciar. Esse meu amigo, tirando o relógio disse-me: faltam cinco minutos, à uma hora olhe para o sol, foi a hora anunciada pelas pastorinhas, depois me dirá.

Isto surpreendeu-me pois que para onde eu tencionava olhar e para onde eu julgava que todos olhariam era para o local onde se encontravam as pastoras. Constava-me que elas tinham afirmado que nesse dia se daria uma coisa que depois disso ninguém poderia duvidar. O céu nesse momento estava duma cor plúmbea. A chuva tinha parado. O sol não se via, encoberto pelas nuvens, e ninguém diria que ele tornaria mais a aparecer nesse dia tão chuvoso e tão desabrido. À uma hora em ponto, ouço um grande clamor. Esses meus amigos gritam-me: olhe, olhe, mas eu a princípio apenas via nuvens correndo ligeiras deixarem o sol a descoberto. De repente vejo uma orla intensamente cor-de-rosa, circundar o sol que se assemelhava a um disco de prata fosca, como já alguém disse, ao mesmo tempo que me dava a impressão de que este se deslocava da sua primitiva posição. Nuvens diáfanas, vaporosas, um tanto roxas, um tanto alaranjadas, perpassavam. Em vários pontos da linha do horizonte, contrastando com a cor plúmbea do céu, eu vi também manchas cor-de-rosa e amarelas. O clamor cada vez era maior. Isto não durou segundos: durou talvez minutos. Ao observar estas manifestações, que não duvidei um momento fossem devidas à Infinita Omnipotência de Deus, uma indiscritível impressão se apoderou de mim. Sei apenas que gritei, creio, creio, creio, e que as lágrimas caíam dos meus olhos, maravilhado, extasiado, perante essa demonstração do Poder Divino. Sei também que não senti a menor sombra de receio ou terror. Se não fosse católico, nesse momento ter-me-ia convertido. Lembro-me também que não ajoelhei mas a maior parte das pessoas caíram de joelhos sem se importarem com o enorme lamaçal. Então estes fenómenos escapam à previsão da ciência e não escapam à previsão de umas pequenas pastorinhas da serra, que os anunciam com uma precisão verdadeiramente matemática?!... Demais, sendo eles tão deslumbrantes, tão maravilhosos?!

Fui procurar meus irmãos que me disseram ter presenciado o mesmo, assim como as restantes pessoas que encontrei, variando um tanto as descrições do que observaram no sol. Às pessoas a quem tinha classificado o caso de “blague” disse-lhes o que vira e que estava agora absolutamente convencido de que estávamos em face de um milagre. O astro-rei brilhava agora intensamente e não mais deixou de brilhar nesse dia, assim como não tornou a chover.

Notas dos editores (6)

3 Emílio Infante da Câmara nasceu em Vale de Figueira em 1888 e faleceu a 29 de janeiro de 1949. Filho de Emílio Infante da Câmara e de Emília César de Mac-Mahon. Casou com Emília Mota.

4 Emílio Infante da Câmara (neto), bacharel formado em direito, casado em 1915 com Maria da Nazaré Almeida Centeno.

5 José Infante da Câmara casado com Maria Luísa Schwalbach Ribeiro da Silva.

6 Gualdim António de Queirós e Melo, filho de Higino Oto de Queirós e Melo e de Maria Violante. Nasceu em Cernache do Bonjardim, a 22 de outubro de 1867. Casou com Maria do Céu Matos, a 4 de janeiro de 1899. Faleceu a 2 de setembro de 1961.

7 José Pereira da Silva Rino, natural de Alcobaça e aí proprietário e lavrador.

8 Capitolina Guimarães Rino, filha de Joaquim Ferreira de Araújo Guimarães. Esta senhora adquiriu em Fátima, no dia 13 de outubro de 1917, uma estampa com a fotografia dos três videntes, que atualmente se encontra no Santuário de Fátima.

DCF Seleção, Doc. 32 (= DCF I, Doc. 28) · depoimento · 30 dez. 1917 (3 meses depois)Digitalizações (4)Ligação

C.

Jornalistacorrespondente em Vila Nova de Ourém (a comissão cita o artigo de O Mensageiro, Leiria)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensaA multidão

O caso da aparição da Virgem aos três pastores no sítio do Vale da Iria está causando sérios engulhos aos nossos livres-pensadores. Um terno deles lembrou-se de vir até Vila Nova de Ourém ver se conseguia arranjar adeptos, e, de camaradagem com o administrador do concelho, o mestre funileiro, apareceram no dia um, no fim de muito anunciados, no Centro Republicano, para falar às turbas contra o milagre da Fátima. Tanto essa conferência como um comício, fizeram-nos anunciar em alguns jornais da capital e em panfletos distribuídos nesta vila e por todo o concelho, no dia de mercado e já no domingo anterior. O que se sabe, porém, é que para o milagre, ou como lhe queiram chamar, não foi preciso convites e no local da aparição da Virgem, no dia treze de outubro, reuniram-se para cima de cinquenta mil pessoas, não tendo sido precisa a intervenção da autoridade para manter a ordem, nem força militar, não obstante a grande quantidade de automóveis, carros de diversas qualidades, bicicletas, etc., etc., não havendo o mais pequeno desastre. Haja agora em vista o tão anunciado comício, no local da aparição da Virgem, que não chegou a efetuar-se porque só apareceram os célebres oradores, acompanhados do administrador do concelho e por mais seis indivíduos daqui, e guardados por uma força de guarda republicana desta vila e outras vindas de Tomar e de Torres Novas, que foram obrigados a ir ao local da Fátima, visto a consciência da seriedade e do papel que iam desempenhar os oradores! Então, srs. ministros do Interior e da Guerra, as tropas republicanas desviam-se dos seus serviços para guardar as costas aos srs. republicanos? Foi um verdadeiro fiasco, já a conferência no Centro, e muito maior no lugar de Fátima, onde os oradores tiveram de desistir, visto que o povo do concelho, por desprezo, não concorreu ao local, não obstante tanto convite que lhe foi feito, pois que ali só apareceram oito pessoas para os ouvirem, à exceção de grande número de mulheres que à sua chegada entoaram o Bendito, voltando-lhes logo as costas. Eis pois, o paralelo entre os dias treze de outubro e dois de dezembro. Por isso lhes dizemos: outro ofício, e a quem vos convidou, para a sensaboria que apanharam e o susto, quando no trajeto de regresso a esta vila foram mimoseados com algumas pedradas, pelo que o sargento comandante da força teve que fazer fogo.”

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · dez. 1917 (2 meses depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 335Digitalizações (2)Ligação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Em treze de agosto a Lúcia saíu pela manhã com as ovelhas e quando veio já estava a casa cheia de gente. Estava com tenção de ir à Cova da Iria, como nos meses anteriores, mas o administrador levou-a para Ourém, tendo sido a notícia da prisão comunicada à mãe pela cunhada que, indo para a Cova da Iria, ouviu dizer que o administrador tinha abalado com as crianças. A mãe da Lúcia ficou magoada, mas não se apoquentou porque sabia que não comiam as crianças, pensando ao mesmo tempo que se elas mentiam, mereciam algum castigo e que se diziam a verdade, Nossa Senhora as defenderia. Vieram depois, à tarde muitas pessoas que procuravam confortá-la, dizendo que iam agora mais crentes, porque foi o primeiro dia em que apareceram os sinais. Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem. O administrador veio trazê-los à Fátima no dia quinze num carro e foi pô-las na varanda do senhor Prior. A mãe da Lúcia, que estava lá, veio com a filha para casa. As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las. O administrador disse que o povo estava com uma doença por ter visto sinais, e o cunhado Marto disse-lhe que então estava muita gente doente.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Manuel Pedro Marto

Família dos videntesGente da terrapai dos videntes Francisco e Jacinta
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoTrovão / ruídoNuvem / coluna de fumoEstrela / globo luminosoA multidão

Em treze de agosto, foi à fazenda buscar milho com a ideia de lá ir ao local à hora própria, sabendo, quando já estava na eira, pela Florinda3, que o administrador tinha chegado entretanto a sua casa. Ainda não eram dez horas. Voltou logo para casa e encontrou o administrador e um padre4 que não conhecia. O administrador perguntou: “Então, senhor Marto, sabe porque cá venho hoje? Quero lá ir acima à Cova da Iria, ao Milagre, quero ir ver. Sou como S. Tomé, ver e crer”. Manuel Marto disse: “Faz bem, senhor administrador”. Este declarou que levava as crianças no seu carro. Elas ainda andavam com o gado. Marto pediu a sua mulher que as chamasse, porque eram horas. Não chegou a chamá-las, mas elas vieram com o gado. A Lúcia sabendo que o administrador estava em casa dos tios, dirigiu-se logo para lá, e ele, assim que a viu, disse-lhe que as levava de carro, ao que ela retorquiu que não iam de carro. A pequena voltou a casa e depois veio com o pai. Ouviu-se nessa ocasião falar num segredo. Como a estrada não estava feita, o carro ficou à espera numa encruzilhada. O administrador disse que então os esperava na Fátima para lhes fazer umas perguntas em casa do Senhor Prior.

Dirigiram-se os pais das três crianças a casa do Senhor Prior, não estando ainda lá o administrador, que chegou pouco depois. Ficaram todos na varanda. Só a Lúcia foi chamada lá dentro para ser interrogada pelo senhor Prior em presença do administrador.

Depois do interrogatório, o administrador convidou as crianças a descer as escadas da varanda e a subir para a charrete em que tinha vindo, deu uma volta à igreja e fugiu para Vila Nova de Ourém. O pai da Jacinta seguiu então para a Cova da Iria tendo ficado admirado da partida do administrador. Na Cova da Iria, depois de falar com várias pessoas, ouviu perfeitamente um estrondo seguido de poeira e nevoeiro. O povo fugiu. Quase todas as pessoas tiraram os chapéus, gritaram por Nossa Senhora e ficaram muito contentes, dizendo que tinham roubado as crianças, é verdade, mas que Nossa Senhora se tinha manifestado. Viu também uma espécie de globo luminoso girando nas nuvens. Parecia haver uma névoa em volta da carrasqueira, depois do estrondo. O povo queixava-se não só do administrador, como do senhor Prior, dizendo que ele também tinha culpa. O tio da Lúcia, António da Silva5, nesse dia à tarde, queria ir pedir satisfações ao senhor Prior, julgando-o culpado, mas não apareceu. O pai da Jacinta procurou o senhor Prior, supondo que ele sabia alguma coisa a respeito das crianças. Voltou depois com o cunhado para casa. O povo continuava a falar contra o senhor Prior, afirmando que ele é que tinha a culpa do roubo das crianças. O administrador trouxe os pequenos na quarta-feira, dia 15, depois da Missa, cerca das onze horas. No sábado, onze, tinham sido chamados a Ourém os pais de Lúcia e de Jacinta, indo só os pais e a Lúcia. Primeiro chamaram a Lúcia e os pais. Depois chamaram o pai da Jacinta. O pai respondeu que a não trouxera, porque ela, sendo tão pequena, não podia ir a pé, nem sabia ir de burra. Replicou o administrador: “Então desobedece?!”. “Não, porque aqui estou”, acentuou Manuel Marto. Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, disse-lhe que já nesse dia tinha tido tenção de prender as crianças. Logo que chegou levou as crianças a casa do senhor Prior. Declarou que acusavam o regedor e o senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes quisessem. O que é certo porém, é que pelo caminho, no regresso de Ourém, já tinha dito às crianças que tornaria a prendê-las se fossem outra vez à Cova da Iria.

Notas dos editores (3)

3 Florinda de Jesus, irmã de Francisco e Jacinta. Nasceu 3 de agosto de 1902 e faleceu a 20 de maio de 1920, vítima da pneumónica.

4 Pe. Manuel Carreira Poças.

5 Foi casado em primeiras núpcias, com Teresa de Jesus, irmã de António dos Santos, pai de Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Manuel António de Paula

Gente da terranatural de Boleiros, residente em Lisboa, de 61 anos
13 set.Outros de 1917Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoVeio de longeA multidão

Em setembro apressou a sua vinda por estar ansioso de saber bem e presenciar o que se passava. Em treze de setembro foi à Cova da Iria, mas não viu senão muito povo, que muitos calculavam em cinquenta mil pessoas. Esteve pouco mais ou menos à distância de sete metros das crianças, que viu chegar no meio de uma grande multidão que as acompanhava e viu-as ajoelhadas junto da azinheira a rezar o terço. A certa altura as pessoas que estavam próximo disseram que se descobrissem, porque as crianças o tinham mandado por Nossa Senhora estar presente. Onde ele estava todos se descobriram respeitosamente. Uns estavam de pé, outros de joelhos. Quase todos ajoelharam quando elas deram a ordem. Houve pessoas que disseram ter visto uma estrela. Outros lastimaram-se de não ter visto nada. Em seguida foi a casa das crianças e primeiro à da Jacinta. Ali encontrou muita gente. Umas senhoras estavam interrogando a Jacinta e pedindo-lhe que rezasse para que acabasse a guerra. Por isso foi para casa da Lúcia. Estavam ela e os pais. Falou com a mãe. Também estava a casa tão cheia de povo, que quase ninguém podia lá mover-se. Perguntou então à mãe o resultado. A mãe respondeu que a filha depois da primeira aparição foi para casa à noite e que lhe disse ter visto Nossa Senhora na Cova da Iria. Não quis acreditar porque a filha não era o que ela desejava que fosse, com méritos para ver Nossa Senhora. Quis bater-lhe. A Lúcia com medo dela, começou a dizer por fora o que se passava e não queria contar à mãe mais nada. Como a mãe soubesse, disse-lhe: “Então tu andas a dizer por fora, que Nossa Senhora te aparece e a mim não me dizes nada?” A pequena respondeu: “Então a minha mãe queria-me bater!” Depois perguntou à filha que tamanho a Senhora tinha. Ela disse que a comparava com uma menina dali de quinze anos. Era de uma beleza tal que nunca tinha visto igual. Um sacerdote de longe pediu licença ao pai para falar à filha, e ele disse que não consentia, porque não acreditava nas aparições e davam cabo da filha, que estava ao pé do pai muito sucumbida. Ouviu dizer que por fim sempre tinha conseguido falar-lhe. Depois o depoente dirigiu-se com o pai a casa de uma tia dele, de nome Teresa, com quem queria falar, o qual o acompanhou para lhe indicar onde ela morava. A tia perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa na Cova da Iria. Respondeu que não tinha visto senão uma borboleta branca, ao que ela disse: “Isso há por aí muitas; depois senhor Manuel” acrescentou ela, “que será de nós?”. “Porquê?” perguntou o depoente. “Porque passaram por aqui pessoas fazendo os seus comentários, ameaçando e dizendo que os pequenos e as famílias precisavam de ser processados, porque andavam a enganar o povo. O depoente disse-lhe desta maneira: “esteja descansada, porque se for obra de Deus ou de Nossa Senhora, não há razão para se assustarem, porque nada havia nem podia haver contra ela”. O pai estava um pouco exaltado e por isso não lhe falou em mais nada.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Olímpia de Jesus

Família dos videntesGente da terramãe dos videntes Francisco e Jacinta
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Em treze de agosto o Administrador do Concelho chegou a casa de Manuel Marto de manhã cedo e a mulher não o conhecia. Ele pediu muito que preparassem os pequenos que andavam com o gado, para irem para a Cova da Iria. Olímpia de Jesus dizia que era muito cedo, que andavam com o gado e que não costumavam ir para lá senão ao meio-dia. O administrador mostrava-se muito aflito, porque queria que os videntes regressassem mais cedo. Chegaram quase às horas do costume e ainda não queriam ir. A mãe tinha-os mandado chamar. A Lúcia declarou que ainda era muito cedo. O administrador disse à Lúcia que haviam de vir à Fátima a casa do senhor Prior para serem interrogados e que dali seguiriam no carro para a Cova da Iria. E assim os enganou. As três crianças foram em companhia dos pais. As mães ficaram em casa. A mãe da Jacinta soube no caminho da Cova da Iria, para onde se dirigia, que o Administrador tinha levado as crianças para Ourém. Voltou então para trás e foi dar parte do sucedido à cunhada, mãe da Lúcia. “Ó Maria, disse ela, então não levaram os cachopos para a Aldeia!” Ela sorriu-se e disse: “Então não andem a mentir!”. “Ai, o que lhes farão por lá!” exclamou a mãe da Jacinta. – “Não tenhas medo que não os comem por lá!”, disse a mãe de Lúcia. Em casa da cunhada quando ouviram o povo a gritar, disse: “O que irá por lá?” A mãe da Lúcia olhou para o sol e disse: “O sol está diferente”. Veio o povo e contou que se tinham visto sinais no sol e no céu.

As crianças chegaram no dia quinze de agosto de manhã em que o administrador as veio trazer. Ele disse às crianças, na presença da mãe da Jacinta: – “Agora podem ir à Cova da Iria quantas vezes quiserem”. Disse o administrador ao pai da Jacinta que “eles diziam ver e ouvir coisas extraordinárias por causa de uma doença que tinham”.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 jun.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntesA multidão

Estiveste lá no dia treze do mês seguinte? Respondeu: “No dia treze de junho era festa de Santo António e a minha mãe não tinha muita vontade de me deixar ir à Cova da Iria, porque queria que eu fosse à festa de Santo António, mas algumas pessoas que tiveram conhecimento da Aparição foram buscar-me e à Jacinta e acompanharam-nos até à carrasqueira, aí pela volta do meio-dia. A Jacinta contou à mãe que na Cova da Iria tinha visto uma coisa muito bonita e, por insistência dela, disse-lhe o que foi; eu, só passados oito dias, a uma pergunta da minha mãe, disse o que se tinha passado. Foi assim que se soube.

Quando chegámos junto da carrasqueira, rezámos; e, terminada a oração, vi um relâmpago, estando um dia de muito calor, e a seguir apareceu a Senhora em cima da carrasqueira, vestida da mesma moda. Perguntei-lhe: “O que me quer Vossemecê?” A resposta dela foi: – “Quero que continuem a vir aqui nos outros meses, que rezem o terço todos os dias e que aprendam a ler”. Como me tinham recomendado, pedi à Senhora que curasse um entrevado, e ela respondeu que, se ele se convertesse, ficaria curado dentro dum ano. Depois subiu para o lado do nascente e desapareceu entre as nuvens e o azul do céu”.

– “As pessoas presentes também viram a Senhora?” Respondeu: “O povo perguntou-me e eu disse o que vi, mas não sei se mais alguém viu; depois rezámos o terço, cantámos e fomos para a festa”.

– “Depois dessa Aparição foste visitada por pessoas que te interrogassem sobre ela?”. Respondeu: “Fui visitada por muitas pessoas, e entre elas alguns sacerdotes, que me apertaram com perguntas e me ralharam muito, dizendo-me pessoas da minha família que eu mentia, e a minha mãe chegou a bater-me com o cabo duma vassoura”.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioa 12 km

No mês de agosto, passou-se tudo da mesma maneira?”. Respondeu: “No mês de agosto foi diferente. Antes do dia 13 de agosto, eu e meus primos fomos chamados à Administração; o meu tio não levou lá os filhos, mas eu fui com meu pai. O senhor Administrador interrogou-me, quis insistentemente que eu lhe revelasse o segredo da Senhora, o que eu não fiz; depois de escrever mandou-me embora. No dia treze iamos para o sítio da carrasqueira, quando nos disseram que primeiro tínhamos de ir a casa do Senhor Prior. Lá fomos, subindo para a varanda da casa. Depois de estarmos algum tempo à espera, apareceu o Senhor Administrador que nos mandou entrar para um carro, dizendo que assim íamos mais depressa para a Cova da Iria.

Meu pai disse que nós iamos a pé, mas o Senhor Administrador teimou que era melhor irmos no carro, porque íamos livres do povo. Então, por ordem de meu pai, subi para o carro com os meus primos. O carro deu uma volta e seguiu na direção de Vila Nova de Ourém. “Não é para este lado”, disse eu, mas o Senhor Administrador respondeu que íamos a Ourém a casa do Senhor Prior e que ainda viríamos a tempo porque vínhamos de automóvel. Quando chegámos a Ourém, fecharam-nos num quarto e disseram que não sairíamos dali enquanto não declarássemos o segredo que a Senhora nos confiou. No dia seguinte3, uma senhora de idade interrogou-nos sobre o segredo; depois levaram-nos para a Administração, onde fomos de novo interrogados, oferecendo-nos peças de oiro para revelarmos o segredo. Voltámos para casa do Senhor Administrador, onde tínhamos ficado na noite anterior e de tarde fomos outra vez interrogados sobre o segredo. Levaram-nos à cadeia, e ameaçaram-nos de lá ficar, se o não disséssemos. Tornámos para a Administração, e como não disséssemos o segredo, prometeram que nos iam fritar com azeite. O Senhor Administrador mandou-nos retirar e disse a um homem que aprontasse uma caldeira com azeite quente. Chamou depois a Jacinta, dizendo que era a primeira a ser queimada. Ela foi prontamente, sem se despedir. Interrogaram-na e meteram-na num quarto. Chamaram a seguir o Francisco; disseram-lhe que a Jacinta já estava queimada e que ele teria a mesma sorte se não declarasse o segredo. Interrogaram-no e mandaram-no para o mesmo quarto. Foi depois a minha vez; disseram que os meus primos já estavam queimados e que eu teria a mesma sorte, se não dissesse o segredo. Embora pensasse que era certo, não tive medo. Mandaram-me para ao pé dos meus primos, e um homem disse que não tardaria a sermos queimados todos três. Levaram-nos para casa do Administrador, e lá ficámos aquela noite no mesmo quarto. No dia seguinte4, foi quase a mesma coisa: interrogatórios de manhã e à tarde, com muitas promessas e ameaças. No dia dezasseis5, fomos outra vez à Administração pelas dez horas, mas nada conseguiram de nós, como das outras vezes. Então o Senhor Administrador mandou-nos subir para um carro, e deixou-nos em casa do Senhor Prior, na varanda.

Notas dos editores (3)

3 Dia 14 de agosto.

4 Dia 15 de agosto.

5 Lúcia acrescenta, por engano, um dia. O regresso a Fátima foi no dia 15 de agosto, feriado, Assunção de Nossa Senhora.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes

Chegando a nossa casa, fomos logo com as ovelhas para um sítio chamado Valinho na companhia do Francisco e do João. A Jacinta tinha ficado em casa. Deu um relâmpago, e eu mandei chamar a Jacinta pelo João, irmão dela. O João não queria ir, e eu prometi-lhe dois vinténs para ele ir. Quando chegou a Jacinta, disse-lhe que tinha dado um relâmpago e que provavelmente a Senhora ia aparecer. Descemos por um atalho, e vimos a Senhora em cima duma azinheira. “O que é que Vossemecê me quer?”, perguntei eu. Ela disse: – “Quero que continuem a ir à Cova da Iria o resto dos meses até outubro e que rezem o Terço”. Perguntei mais: “O que se há de fazer ao dinheiro que estava na Cova da Iria?” A Maria do Rosário, da Moita6, tinha tomado conta dele e como nem os meus pais nem os dos meus primos quisessem ficar com ele, disse-me a mim que perguntasse à Senhora o que se havia de fazer desse dinheiro. A Senhora respondeu: “Façam dois andores, no dia da festa da Senhora do Rosário; um leve-o o Francisco com mais três rapazitos, o outro levem-no as duas com mais duas meninas”. Pedi-lhe a cura de algumas pessoas, e Ela disse que dentro dum ano algumas seriam curadas. Pedi-lhe também um milagre para o povo acreditar e Ela disse que no último mês fazia um sinal no sol, que todos haviam de acreditar; que com São José viria o Menino Jesus dar a bênção ao mundo, e Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Dores; que Nosso Senhor viria dar a paz ao mundo. Depois desapareceu como nos outros meses para o lado do nascente.”

– “Viram todos a Senhora?” – Respondeu: – “Eu e a Jacinta vimos e ouvimos; o Francisco como das outras vezes viu-a, mas não ouviu o que ela disse, e o João não viu nem ouviu nada”

– “Foi muita gente a tua casa perguntar pela Senhora?”. Respondeu: “foi muita gente, e até muitos sacerdotes, alguns dos quais me trataram de intrujona”.

Notas dos editores (4)

3 Dia 14 de agosto.

4 Dia 15 de agosto.

5 Lúcia acrescenta, por engano, um dia. O regresso a Fátima foi no dia 15 de agosto, feriado, Assunção de Nossa Senhora.

6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

No dia 14 de julho de 1917 apareceu na minha presença Jacinta de 7 anos de idade, filha de Manuel Pedro Marto; interrogada sobre a visão, disse:

Que tinha visto uma mulher pequena 4 vezes, uma em sua casa à noite e três na Cova da Iria ao meio dia; diz ser do tamanho da Albina, filha de António Rosa da Casa Velha2; em casa viu-a à borda do alçapão do sótão, não dizendo nada; estava a mãe e irmãos a dormir e era de noite; na Cova da Iria viu-a em pé em cima duma carrasqueira3; vinha vestida com meias brancas e fato todo dourado; não trazia sapatos; a saia era branca e toda dourada e dava-lhe pelos joelhos; o dourado era aos cordões a atravessar e nos cordões aos biquinhos; casaco branco todo dourado; um manto pela cabeça era branco e todo dourado; as mãos erguidas à cintura e abriam, separando-as quando falava à Lúcia; não lhe ouviu dizer nada, ouviu falar (ora diz que sim, ora diz que não), não ouviu dizer quantas vezes cá vinha; à saída abria-se o céu e ficavam os pés entalados e o corpo já escondido; ouviu uma fala muito piedosa e só se lembra de ouvir que a gente (elas) ia para o céu; diz ter visto relâmpago mas ora diz ser uma vez ora mais duma, ora antes, ora depois; trazia umas contas brancas nas mãos, seguras entre o dedo polegar e indicador das duas mãos; não viu brincos; trazia um cordão de ouro delgado ao pescoço.

Notas dos editores (2)

2 Nasceu a 3 de dezembro de 1901. Era filha de António Ferreira Rosa, de Aljustrel, irmão de José Ferreira Rosa (primeiro marido de Olímpia de Jesus, mãe de Francisco e Jacinta) e de Maria Rosa (mãe de Lúcia).

3 A carrasqueira, tantas vezes referida, é uma azinheira nova, de pequeno porte. Azinheira: Quercus rotundifolia, Lam., árvore da família das fagáceas, de copa ampla arredondada e densa, de folhas persistentes, muito coriáceas, pequenas, dentado-espinhosas no estado juvenil, com cinco a oito pares de nervuras. Ao fruto se dá popularmente o nome de “azinha”, “boleta” ou “bolota”.

DCF Seleção, Doc. 3 (= DCF I, Doc. 3) · interrogatório · 14 jul. 1917 (2 meses depois)DigitalizaçãoLigação

Manuel Gonçalves Júnior

Gente da terrafilho do anfitrião de Formigão no Montelo
13 jun.13 jul.13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioNuvem / coluna de fumoCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão

No dia 13 de julho alguns companheiros dele, mal intencionados, embriagaram-no no intuito de o levarem a praticar desatinos no local das aparições. Efetivamente, embora, como sempre, deixasse ir a filha àquele local, mandou retirar o povo. Ele é o proprietário da charneca onde está a carrasqueira que serve de pedestal à Aparição. O povo, vendo-o em estado de embriaguez, não se importou com essa intimação e um homem empurrou-o, fazendo-o cair.

[…]

A princípio o povo não queria ir à Cova da Iria. Ninguém acreditava nas crianças. Em treze de junho, dia da segunda aparição, havia festa na igreja da freguesia em honra de Santo António. Na Cova da Iria estavam apenas, à hora da aparição, umas sessenta pessoas. Os pais do Francisco e da Jacinta tinham ido de manhã cedo para Porto de Mós à feira chamada dos treze, com o fim de comprar bois, e chegaram já de noite. Na sua ausência a residência encheu-se-lhes de gente, que queria ver as crianças e fazer-lhes perguntas. Presentemente uma grande parte do povo julga que as crianças falam verdade. Pela minha parte, estou convencido disso.

[…]

Os sinais são muitos. Em agosto quase todos os que estavam presentes viram esses sinais. Uma nuvem baixou até à carrasqueira. Em julho notou-se o mesmo. Não havia poeira no local. A nuvem empoou os ares, que pareciam enevoados.

– Houve mais algum sinal?

– Veem-se no céu, próximo do sol, umas nuvens brancas que se tornam sucessivamente vermelhas vivas (cor de sangue), cor de rosa e amarelas. O povo torna-se desta última cor. A luz do sol diminui bastante de intensidade.

Sentiu-se também um rumor em julho e em agosto.

[…]

Reza o terço. Quando se dirige à Senhora, fala alto.

Eu próprio a ouvi em junho, porque estava próximo. Algumas pessoas afirmam que ouvem o som das respostas.

10a – O local das aparições é muito frequentado também nos outros dias por pessoas piedosas ou por curiosos?

– É muito frequentado, sobretudo aos domingos. A maior concorrência é à noite. Vão ali muitas pessoas, de longe e de perto, e mais ainda de fora da freguesia. Rezam o terço e entoam cânticos em honra da Virgem.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Maria do Carmo

Gente da terramulher casada, do Arnal, Maceira; afirma ter sido curada
13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoCura

Eu Manuel Antunes Marto2, Prior da freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, concelho de Leiria, diocese de Coimbra3, a pedido do mui digno Prior da freguesia de Fátima, Manuel Marques Ferreira, chamei à minha presença Maria do Carmo, minha paroquiana, casada com Joaquim dos Santos, que me merece inteira confiança e que declarou o seguinte: Ter andado doente cinco anos e sem esperança de melhorar, pois de dia para dia, sentia faltarem-lhe as forças, andava muito magra, tinha muita tosse, passando noites inteiras a tossir pelo que a julgaram tuberculosa e ela também estava convencida disso; convencida a ponto de retirar as crianças, suas filhas4, de junto de si, para as não contagiar. E constando-lhe que na freguesia da Fátima aparecera Nossa Senhora a umas criancinhas, fez a promessa de lá ir no dia treze de quatro mezes seguidos a pé e rezando todo o caminho a fim de ver se Nossa Senhora a melhorava. Logo que lá foi a primeira vez, com muita dificuldade, sentiu melhoras, pois o caminho custou-lhe menos quando voltou do que quando para lá foi.

Continuou sempre experimentando melhoras e no dia treze de novembro do ano mil novecentos e dezassete, dia em que completou a sua promessa, achou-se completamente boa, atribuíndo a sua cura a um milagre de Nossa Senhora de Fatima.

Notas dos editores (4)

1 Nasceu em Alcobaça. Casou com Joaquim dos Santos, a 13 de janeiro de 1897, ficando a residir no Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria. Faleceu a 20 de janeiro de 1982, com 82 anos de idade.

2 Nasceu a 7 de março de 1884. Foi ordenado sacerdote a 18 de julho de 1909. Foi coadjutor e pároco de Maceira, onde faleceu, a 7 de outubro de 1918, vítima da pneumónica.

3 A freguesia de Maceira pertenceu à diocese de Coimbra no período em que a diocese de Leiria esteve extinta. À data deste documento, já estava restaurada (17 de janeiro de 1918). O lapso do Pároco deve-se ao hábito criado.

4 Maria do Carmo teve cinco filhos: Júlia (n. 1897), Maria (n. 1902), José (n. 1904), Carlos (n. 1917) e Maria do Rosário (n. 1910).

DCF Seleção, Doc. 34 (= DCF I, Doc. 38) · depoimento · 18 jun. 1918 (10 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe de Lúcia
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 kmA multidão

Como soube que a Senhora apareceu à sua filha da primeira vez? Foi ela que lhe contou?

– Tive conhecimento desse facto pela família das outras crianças, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada com receio de que lhes ralhassem. Só depois de interrogada por mim é que disse o que tinha visto.

3a – Nunca repreendeu sua filha por ir à Cova da Iria? Deu-lhe sempre inteira liberdade de lá ir, no dia 13 de cada mês?

– Nunca a proibi de ir a esse sítio. Umas vezes perguntava-lhe se queria ir e ela respondia afirmativamente, outras vezes ela mesma dizia que ia, se eu lhe desse licença.

4a – As três crianças costumam ir sozinhas ao local das aparições ou vão acompanhadas de outras crianças?

– Vão sós. Quase sempre vão também outras crianças, mas acompanhadas dos pais e ficam ao pé deles, não se juntam com a Lúcia e os primos dela.

5a – As crianças guardavam gado? A quem é que ele pertencia?

– A Lúcia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e os primos outro. Pertenciam esses rebanhos às respetivas famílias. Às vezes juntavam o gado, mas unicamente porque queriam. As ovelhas que a Lúcia guardava, já as vendi.

6a – Como é que as crianças têm ido vestidas?

– Da primeira vez iam mal arranjadas, como andam quase sempre os pastores. Das outras vezes, no dia 13 de cada mês, vão vestidas de fato claro e levam um lenço branco na cabeça.

[…]

Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais?

– Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.

11a – Tem vindo muita gente ver sua filha?

– Tem vindo muita gente quase todos os dias.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador do concelho, mas que nesse mês A viu no domingo seguinte – dia dezanove – no sítio chamado Valinho, onde foi chamada por seu irmão João, a pedido da Lúcia.

Disse que viu uma Senhora muito bonita, toda vestida de branco, com fato dourado aos cordõezinhos, com um véu ou manto pela cabeça, do tamanho de F. – indica uma rapariga de regular estatura e dos seus catorze anos – e que trazia umas contas muito branquinhas penduradas nas mãos e seguras entre os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, que tinha erguidas à cintura, e que separava uma da outra, pouco mais ou menos à largura dos ombros, quando falava à Lúcia.

Quando Ela falava para a Lúcia, que ouvia uma voz muito piedosa, mas que não se lembra de ouvir dizer, senão que a gente – elas videntes – ia para o Céu. Pelas várias vezes que a interroguei nunca se contradisse no essencial, havendo todavia coisas acidentais, algumas contradições, verdadeiras ou aparentes. Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:

– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.

Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:

– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.

Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:

– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!

Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.

Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta. A respeito do segredo também não consegui que me o revelasse; apenas disse que ele – segredo – não era mau para elas, videntes. Disse mais, que a Senhora lhe apareceu mais três vezes: uma no dia da Ascensão do Senhor na Igreja durante a missa e que lhe ensinou a rezar as contas; outra vez, à noite, sobre o alçapão do sótão estando a família a dormir; e mais uma, debaixo (ou salvo erro em cima) duma mesa, sem nada lhe dizer, até que ela, Jacinta, disse para a mãe: Olhe... não vê a Senhora, que lá vi em cima, ali debaixo?!... Olhe!!! Como a própria mãe me declarou.

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem), chefe miguelista
Outros de 1917Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeSol a mudar de corSol a girar

Uma duvida nos restava, porém.

O que viramos no sol era cousa excepcional? Ou reproduzir-se-hia em circumstancias analogas?

Ora precisamente esta analogia de circumstancias proporcionou-se-nos hontem. Pudemos ver o sol meio toldado de nuvens, como no sabbado. E sinceramente: — vimos as mesmas successões de cores, o mesmo movimento rotativo, etc.

DCF III-1, Doc. 97 · notícia de imprensa · 16 out. 1917 · também publicado em DCF III-1, Doc. 273; DCF III-1, Doc. 261Digitalizações (2)Ligação

Francisco da Silva Reis

Autoridaderegedor da freguesia de Fátima
Outros de 1917Testemunho diretoCarta

Acuso a receção do oficio de V Excia Nº 1233, em que V. Excia me diz que o regente agricula, lhe disse que eram nove e não uma carrasqueira as cortadas eu tinha mandado indagar, e disseram-me que era uma, mas agora fui pessoalmente verificar e realmente vi que eram as nove e não uma como tinha informado V Ex

DCF III-1, Doc. 310 · documento oficial · 19 nov. 1917DigitalizaçãoLigação

C.

Jornalistacorrespondente local da imprensa católica, Liberdade
Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensaA multidão

No dia seguinte, foram em dois carros até á Fátima, acompanhados de tropa, (tal era o medo!) e guardas civicos, e ahi, no proprio local onde parece ter havido as aparições, e perante o numeroso auditorio, (14 pessoas, incluidos os oradores!) parece que pouco ou nada fallaram, por falta de numero, tendo encerrado a sessão, sem ser preciso pôr os chapeus, porque já os tinham na cabeça, antes de começarem. E, assim, votados ao desprezo, a melhor bofetada que o povo lhes podia dar, voltaram cabisbaixos e rancorosos para Villa Nova, com pouca vontade de se metterem n'outra, que lhes poderá custar mais cara, pois que desta vez só apanharam com algumas pedradas, que não os molestaram.

DCF III-1, Doc. 341 · notícia de imprensa · 4 dez. 1917Digitalizações (2)Ligação

Maria dos Santos

Gente da terramoradora da Moita, mais tarde encarregada das esmolas da Capelinha
Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoA multidão

No domingo seguinte foi ela com as duas filhas mais velhas rezar o terço junto da azinheira. No outro domingo voltaram só as filhas e já se juntaram mais algumas pessoas a rezar. Ao domingo e mesmo de semana começava-se a rezar no local.

Maria do Carmo Marques da Cruz Meneses

Gente da terraanfitriã de Lúcia e Jacinta na Reixida, Cortes (Leiria)
Outros de 1917Testemunho diretoRecordação posterior

a cada uma das meninas dei uma saia com pintinhas brancas, uma blusa clarinha, um lenço e um avental. É com este simples vestuário, mas sem o avental, que às pastorinhas foi tirado um retrato que anda, por aí, muito espalhado"

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA chuva a parar

Ora que dissémos nós ácerca do caso de Fátima? Que nós, obscuro auctor d’estas linhas, não tinhamos observado facto algum que nos levasse a suppôr o sobrenatural. Mas não só se trata d’um modo de vêr pessoal e desautorisado, senão que, por fórma alguma, queremos contestar as observações que outras pessoas tenham feito, diversas das nossas.

Nada desejariamos mais do que presencear factos a que nenhuma explicação natural se ajustasse.

Grande foi o desapontamento, quando no domingo, como dissémos, verificámos a inanidade do que na vespera nos parecera maravilhoso: tanto mais quanto grandemente nos impresionára a coincidencia de ter a chuva, de tres horas consecutivas, cessado quasi precisamente á hora em que as creanças oravam, apparecendo então o sol entre as nuvens.

Notas dos editores (4)

3 Filósofo e político francês. Nasceu em 1753. Era propagador da doutrina da teofilantropia. Foi membro do Directório em 1795. Faleceu em 1824.

4 Junta de cinco membros a que a Constituição Francesa entregou o poder executivo entre 1795 e 1799.

5 Charles Maurice de Talleyrand-Périgors. Nasceu em Paris em 1754. Era Bispo de Autun, quando surgiu a Revolução, em 1789. Adere às novas ideias e é eleito deputado dos Estados Gerais. Em 1792 abandona a vida eclesiástica, indo para Inglaterra como representante diplomático da França. Regressa em 1796 e é escolhido para Ministro do Directório. Desempenhou um papel de relevo no Congresso de Viena (1814-1815), no qual consegue evitar o desmembramento da França. Foi presidente do Conselho alguns meses (1815), afastando-se depois da política até 1830. Nesse ano foi nomeado embaixador em Londres, conservando-se ali até morrer, em 1838, reconciliado com a Igreja.

6 Cf. De Civ. Dei, XXII, 8. ML 41, 760.

DCF III-1, Doc. 109 · notícia de imprensa · 17 out. 1917 (4 dias depois)Digitalizações (3)Ligação

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado católico, colaborador de A Ordem (A. de F.)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA chuva a pararA multidão

Que os effeitos do sol no dia 13 pareceram maravilhosos e impressionaram fortemente a multidão, constatámol-o nós já nos artigos de 16 e 17.

E ahi salientámos tambem a coincidencia do phenomeno se produzir no dia e á hora annunciada (com differença apenas de alguns momentos) e de, até então, a chuva ter cahido horas a fio, com uma persistencia de impacientar, cessando por essa occasião.

[…]

Ou são até de observação corrente, dadas certas circumstancias favoraveis no céu, como nos pareceu que resultava da observação de domingo?

DCF III-1, Doc. 184 · notícia de imprensa · 25 out. 1917 (12 dias depois)Digitalizações (2)Ligação

Testemunhos indiretos 19

O que uma testemunha contou a outra pessoa, tal como essa pessoa o relatou.

Casal não identificado de Coimbra

GrupoVisitantevisitantes de boa posição social
Outros de 1917Testemunho indiretoCartaVieram de longeA multidão
Transmitido por: Maria Joaquina Tavares de Proença de Almeida Garrett

Um d'estes dias, foi d'aqui um sujeito casado com a mulher, pessoas de cathegoria e bons sentimentos, visitar o local da Apparição. Havia lá bastantes pessoas rezando e a pequena Lucia lá estava, mas causou má impressão vê-la com um mealheiro pedindo esmolas.

[…]

Tambem a mesma familia d'aqui, que contou o facto do mealheiro, disse, que não o impressionara bem a pequena a responder ás perguntas que lhe faziam, dizendo tudo como realejo, ou relogio de repetição.

Parecendo que repetia uma lição ensinada, sem um certo sentimento de piedade, e sem bem consciencia da graça recebida.

Carolina Carreira

Gente da terrafilha mais nova de Maria dos Santos, de 12 anos
Outros de 1917Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visões
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria Carreira)

Nos Valinhos perguntou a Lúcia à Senhora, a pedido da depoente, se Nossa

Senhora tinha aparecido a mais alguém na Cova da Iria, e a Senhora respondeu que não era ela, mas sim um anjo, o vulto que a Carolina, filha mais nova da depoente, de doze anos, e uma pequena de sete anos, de Espite, viram a vinte e oito de julho junto da azinheira, de pequena estatura, muito lindo, de cabelo loiro, vulto que depois a Carolina viu em cima da azinheira.

Maria Francesca Aloisi Fitipaldi

Visitantenapolitana residente em Leiria, de 57 anos; afirma ter sido curada
13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoLivroa 20 kmA multidãoCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (como Visconde de Montelo)

Maria Francesca Aloisi Fitipaldi, de 57 anos, natural de Nápoles, Itália, e residente há mais de dezanove anos em Leiria, sofria horrivelmente de diversas doenças que lhe tornavam quase insuportável a vida (dispneia, lesão do coração, úlcera no estômago, albumina, etc.). Não podia falar, nem deitar-se, nem sair de casa. No dia 12 de outubro de 1917, à noite, viu de uma das janelas de sua casa as multidões que se dirigiam para a Fátima e ficou com imensa pena de não poder ir também. Cheia de fé, pediu a Nossa Senhora de Fátima que ao menos a melhorasse de maneira que pudesse descansar um pouco. Sentindo sono, foi-se deitar e dormiu toda a noite. No dia seguinte de manhã, quando acordou, achou-se perfeitamente bem.

DCF Seleção, Doc. 73 (= DCF IV-2, Doc. 256) · livro · antes de 18 mar. 1923 (5 anos depois)DigitalizaçãoLigação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe de Lúcia
13 mai.13 ago.Outros de 1917Testemunho indiretoNotaAtitude céticaa 2 km
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Foi pela família dos outros dois videntes, Francisco e Jacinta, seus sobrinhos, que ela soube que Nossa Senhora tinha aparecido à filha da primeira vez, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada, com receio de que lhes ralhassem. Esta, só depois de interrogada pela mãe, é que disse o que tinha visto.

[…]

A princípio não acreditava na sinceridade das crianças. Perante a concorrência das multidões à Cova da Iria nos dias treze, o seu desejo era obstar a ida de sua filha a esse local em tais dias. Só a muito custo e guiando-se pelos conselhos de pessoas de autoridade, que a aconselhavam a dar liberdade à filha para fazer o que lhe aprouvesse, é que se resolvia a permitir a sua partida. Temendo que a filha andasse a enganar o povo com falsas declarações, embora não a tivesse por mentirosa, exprobava-lhe severamente o seu procedimento, ameaçando-a várias vezes com pancadas, e uma ocasião, num dos primeiros meses das aparições, chegou até a bater-lhe com um chinelo, tratando-a de impostora.

[…]

A mãe da Lúcia, quando lhe disseram que a filha tinha sido presa, respondeu: “Se foi por Deus, Deus os guardará, se mentiram, não continuam!...”. E, enquanto muitas pessoas choravam de pena ou de indignação, ela conservava a serenidade duma alma verdadeiramente cristã.

Maria do Carmo

Gente da terramulher de 47 anos do Arnal (Maceira, Leiria), dada como curada na Cova da Iria
13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoNotícia de imprensaCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Maria do Carmo, de quarenta e sete annos de edade, natural do logar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco annos que soffria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os symptomas caracteristicos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estomago e nos intestinos. Em principios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinario. Eram continuas e difficeis de supportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta d'ár. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe immenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no utero. Definhava e emmagrecia a olhos vistos. Trez meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr á cabeça nenhum objecto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe occasionava. Tinha com frequencia vontade de vomitar, embora não vomitasse.

Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, augmentavam as dores de cabeça. As dores de estomago quasi que não lhe permittiam dormir. Para não passar peor comia muito pouco.

Sustentava-se exclusivamente ou quasi exclusivamente de leite.

Uma tosse funda e secca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os visinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ella propria não deixava approximar de si os filhos com medo do contagio. Um individuo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar proximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a duvidas que ella estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do anno proximo findo. Debalde procurou lenitivo para os seus incommodos nos recursos da medicina. Pobre como era e não havendo medico senão a alguns kilometros de distancia, na Batalha, só alli foi uma vez com o marido consultar o distincto e habil clinico dr. Padrão. Os remedios que esse facultativo receitou não lhe produziram allivio algum.

Nestas circunstancias não alimentava nenhumas illusões ácerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa occasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do paiz, a nova consoladora de que a Virgem Santissima desde o mez de maio precedente apparecia todos os mezes no dia treze a umas humildes creancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria” pertencente á freguezia de Fatima, concelho de Villa Nova d'Ourem, a sete leguas de distancia de Maceira. Um clarão de suave esperança illuminou subitamente o seu espirito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fatima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa. Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empreza uma verdadeira temeridade, oppoz-se á sua ida. “Nós somos pobres, dizia elle á mulher, não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efectuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciencia, mas não te deixo ir”.

Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava immenso quando caminhava, por pouco que fôsse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possue um pequeno predio rustico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem numero de vezes á beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuindo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalavel confiança, accedeu ás suas porfiadas instancias e resolveu-se a acompanhá-la. Veio finalmente o dia treze de Agosto, tão ardentemente esperado. Á uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou varias vezes no percurso.

Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das apparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ella, segundo a sua propria expressão, era uma dôr. Alguns instantes depois, com grande surpreza, experimentou notaveis allivios.

Sentou-se á sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e alli se conservou até ás tres horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como á ida.

De dia para dia as melhoras accentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos solidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de Setembro voltou pela segunda vez a Fatima, não lhe causando a viagem tanto incommodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia resava o terço do Rosario tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando attenção ás conversas das pessoas que a acompanhavam.

A partir desse dia melhorou ainda mais.

Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos difficuldade á fazenda. A treze de Outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar á Fatima surprehendeu-a a memoravel chuva torrencial que assignalou aquelle dia de outomno. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das apparições. As dores desappareceram para não mais voltar. A intumescencia do ventre e dos membros superiores e inferiores desappareceu egualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indegestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incommodo. Não tornou a sentir falta d'ar. Trabalha muito e pode por á cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e gosa de excelente saude. Jámais em tempo algum da sua vida, se lembra de ter passado tão bem. No dia treze de novembro foi de novo á Fatima afim de agradecer a sua cura á Virgem do Rosario4.

Notas dos editores (1)

4 Sobre este relato de cura cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918.

DCF III-2, Doc. 382 · notícia de imprensa · 12 fev. 1918 (6 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (6)Ligação
13 mai.13 ago.13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoViuLivroFiguras / visõesPalavras dos videntesA multidão
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Na manhã do dia treze de maio de 1917, um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas pertencentes a suas famílias, numa propriedade da serra de Minde situada na freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, diocese de Leiria.

A mais velha das três crianças, de nome Lúcia de Jesus, era filha de António dos Santos, que faleceu no ano seguinte1, e de Maria Rosa dos Santos, e contava dez anos de idade. O menino e a outra menina, que eram irmãos, chamavam-se Francisco e Jacinta, tendo aquele nove anos e esta sete anos de idade. Foram seus pais Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. Eram primos da Lúcia. As habitações das duas famílias, que, não sendo ricas, possuíam contudo alguns bens de fortuna, ficavam próximas uma da outra, no lugar de Aljustrel, cerca de um quilómetro da igreja paroquial de Fátima. Nenhuma das crianças sabia ler nem escrever. A sua instrução religiosa era ainda muito rudimentar. Só a Lúcia tinha feito a primeira comunhão.

Aproximava-se naquele memorável dia a hora do meio-dia astronómico. Segundo o seu costume, as três crianças, depois de se terem ocupado durante bastante tempo em inocentes divertimentos, puseram-se a rezar o terço do Rosário, devoção muito querida dos habitantes daquela freguesia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distância delas, a claridade fulgurante de um relâmpago e aparecer quase simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher, de extraordinária beleza. Assustadas com um sucesso tão insólito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilizou completamente a atitude benévola da Aparição, que numa voz dulcíssima prometeu que não lhes faria mal algum.

A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha o que quer que fosse de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana.

Entre a Aparição e a Lúcia estabeleceu-se um diálogo, que durou cerca de dez minutos.

A Jacinta viu a Aparição e ouvia distintamente as palavras que ela pronunciava, dirigindo-se à Lúcia, mas nunca lhe falou nem a Aparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Aparição, não ouvindo nunca o que ela dizia à Lúcia, apesar de se encontrar à mesma distância e possuir um excelente ouvido.

A Aparição convidou nesse dia os três pastorinhos a voltarem todos os meses no dia treze, durante seis meses consecutivos, àquele local, vulgarmente conhecido pelo nome de Cova da Iria e situado a pouco mais de dois quilómetros da igreja paroquial de Fátima, ao lado da estrada distrital de Vila Nova de Ourém à Batalha.

[…]

A Aparição recomendou insistentemente que todos fizessem penitência e rezassem o terço do Rosário. Comunicou às crianças um segredo, que não podiam revelar a ninguém. Prometeu-lhes o Céu.

Pediu que naquele local se erigisse uma capela em sua honra e declarou que no dia treze de outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que ela realmente tinha ali aparecido. Em treze de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou se pelo menos não revelassem o segredo que a Aparição lhes tinha confiado.

Nesse mês a aparição teve lugar no dia dezanove, no sítio chamado dos Valinhos, quando as crianças já não pensavam que ela se verificasse senão no mês seguinte. No dia treze de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o diálogo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol.

Notas dos editores (1)

1 António dos Santos faleceu a 31 de julho de 1919.

Rapazote não identificado do serviço de char-à-bancs de Chão de Maçãs

Gente da terrarapazote da terra que trabalhava no serviço de char-à-bancs
Outros de 1917Testemunho indiretoNão viu nadaNotícia de imprensaAtitude céticaA multidão
Transmitido por: Avelino de Almeida

Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezesseis horas de hontem, na estação de Chão de Maçãs5, onde se apearam tambem pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao “milagre”, perguntei, de chofre, a um rapazote do “char-á-bancs” da carreira se já tinha visto a Senhora. Com seu sorriso sardonico e o olhar enviezado, não hesitou em responder-me:

— Eu cá só lá vi pedras, carros, automoveis, cavalgaduras e gente!

Notas dos editores (1)

5 Também conhecida por Estação de Fátima.

DCF III-1, Doc. 87 · notícia de imprensa · 12 out. 1917 · também publicado em DCF III-1, Doc. 155DigitalizaçãoLigação

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem)
Outros de 1917Testemunho indiretoViuCartaAtitude céticaVeio de longe
Transmitido por: Leonor das Dores Salema Manoel

De tudo isto, só põe duvidas ou prudencias exageradas os Pintos Coelhos, sahindo até o Domingos a escrever na "Ordem" que no dia seguinte vio a mesma coisa no sol!

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado; autor dos artigos de A Ordem (pseud. «A. de F.»)
Outros de 1917Testemunho indiretoViuCartaAtitude céticaVeio de longe
Transmitido por: Maria Joaquina Tavares de Proença de Almeida Garrett

A Ordem mostra duvidar da Apparição suspeita as creanças de sugestão, e declara que no dia seguinte vio no sol o mesmo phenomeno, para tirar do espirito do publico toda a idéia de milagre!

Os pais da autora e «Zinha»

GrupoAristocratafamília da autora
Outros de 1917Testemunho indiretoCarta
Transmitido por: Maria Benedita Oriol Pena

Os meus Paes e a Zinha foram hontem tambem á Fatima para as verem de perto e falarem com ellas. Dizem que são muito sympathicas, mas não bonitas6; o pequeno é que é d'appetite. São muito pobres e a Mãe é uma santa mulher que tem aturado as passas do Algarve ao marido, um beberrão de marca. Nem ella nem o Prior teem querido tomar conta das esmolas, mas uma outra mulherzinha encarregou-se d'isso e já teem muito mais de 100.000.

Notas dos editores (1)

6 Esta indicação deixa entrever que a autora não terá visto pessoalmente as crianças por altura da sua ida a Fátima.

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado católico, colaborador de A Ordem
Outros de 1917Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaAtitude céticaVeio de longea 120 km
Transmitido por: O Mensageiro (editorial)

dr. Pinto Coelho affirma que no dia seguinte viu (em Cascaes) o mesmo phenomeno que presencearam 50 mil pessôas na serra de Fátima, em meio da maior emoção. Mas é singular que só o illustre advogado de novo visse a repetição do phenomeno (que diz natural) em contradição com o astronomo Oom, que nega que seja elle natural, e mais ninguem alli désse pelo sensacional acontecimento.

DCF III-1, Doc. 180 · notícia de imprensa · 25 out. 1917DigitalizaçãoLigação

Bispo de Portalegre e Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo

GrupoCleroAristocratabispo; senhora católica (também presente em Fátima a 13 de outubro)
Outros de 1917Testemunho indiretoViuCartaa 20 kmSol a girarSol a mudar de cor
Transmitido por: Gonçalo Xavier de Almeida Garrett

Relatam o Sr. Bispo de Portalegre e a Sra D. Maria de Jesus Raposo que estando com outras pessoas em Torres Novas, no dia 20 de Outubro findo pelas ____?11 horas do dia viram o movimento de rotação do sol e mudança de côres.

Diz a mesma Senhora que essas manifestações do sol foram mui differentes, das de Fátima e não tiveram a importância de 13 de outubro findo.

Notas dos editores (1)

11 O traço e a interrogação estão no original, certamente porque o autor da carta não pôde apurar a hora exacta.

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem)
Outros de 1917Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaAtitude céticaVeio de longe
Transmitido por: Pe. João Vacondeus

A esse desagrado dos que acreditam nas revelações ás crianças e no milagre do sol — e são quasi todos os que estiveram em Fátima em 13 d'outubro ultimo, á uma da tarde, não escapou o snr. dr. Domingos Pinto Coelho, caracter dos mais nobres, catholico d'auctoridade e prestigio indiscutiveis, porque veio lealmente confessar que viu no sol, no dia seguinte, os mesmos phenomenos e explicar o conceito catholico a observar em casos d'esta ordem: prudencia, estudo e expectativa.

DCF III-1, Doc. 354 · notícia de imprensa · dez. 1917Digitalizações (2)Ligação

Bispo de Portalegre e Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo

GrupoCleroAristocratabispo; senhora católica (também presente em Fátima a 13 de outubro)
Outros de 1917Testemunho indiretoViuCartaa 20 kmSol a girar
Transmitido por: Gonçalo Xavier de Almeida Garrett

Pedia mais uma vez explicações sôbre a differença do phenomeno da rotação do sol em Fátima, e a que foi observada em T. Novas pela Sa D. Maria de Jesus Raposo e o Sr. Bispo de Portalegre. E desejava saber tambem: 1º a que horas do dia teve isso logar; 2º por quanto tempo durou esse tal movimento.

Outros de 1917Testemunho indiretoViuNotaPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (notas do que lhe contou a mãe de Francisco, Olímpia de Jesus)

Ás vezes a mãe dizia-lhe e á pequena: Vocês mentem! Na Sa não lhes appareceu. Você é que mente. Mas eu nunca vi N. Sa. Você não vê porque não quer, porque é muito ruim, muito mentirosa.

Outros de 1917Testemunho indiretoNotaa 2 km
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

No inquérito a que foi submetida, quando era educanda do Asilo de Vilar, no Porto, Lúcia de Jesus declarou que, depois da primeira aparição, foi visitada por muitas pessoas, e entre elas alguns sacerdotes, que a apertaram com perguntas e lhe ralharam muito, dizendo-lhe pessoas da sua família que ela mentia e chegando a própria mãe a bater-lhe com o cabo duma vassoura. Declarou também, noutra altura do interrogatório, que, depois do dia treze de agosto, alguns sacerdotes que foram a casa dela para lhe falar a trataram de intrujona.

Outros de 1917Testemunho indiretoViuNotaPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Uma vez, durante as aparições, tendo a Lúcia perguntado à misteriosa Senhora que lhe falava, se ela e a Jacinta iriam para o Céu, e obtendo resposta afirmativa, fez idêntica pergunta acerca do Francisco, respondendo a Visão que também lhe caberia tamanha ventura, mas que primeiro havia de rezar muitas vezes o terço. Desde esse momento até adoecer, o ditoso vidente nunca mais deixou passar um dia sem oferecer essa singela homenagem à Rainha do Céu.

António Lalanda dos Santos

Profissionalprofessor primário
Outros de 1917Testemunho indiretoNota
Transmitido por: Comissão Canónica Diocesana (relator: Manuel Nunes Formigão)

Um ilustrado professor de instrução primária6, que, ainda antes do fim do mês de outubro, assistiu no local das aparições à recitação do terço presidida pela Lúcia, declarou ter ficado mal impressionado ao ver a distração da criança, que ele esperava que se recolhesse e concentrasse num alheamento quase estático de todas as coisas do mundo no sítio em que tivera a ventura incomparável de contemplar a Rainha do Céu.

Notas dos editores (1)

6 Tratar-se-á do Professor António Lalanda dos Santos. Há uma carta deste para Maria Piedade Ordaz, datada de fins de outubro de 1917, descrevendo o que viu no dia 13 de outubro.

Outros de 1917Testemunho indiretoNotaVieram de longe
Transmitido por: Comissão Canónica Diocesana (relator: Manuel Nunes Formigão)

Um cavalheiro de elevada categoria que no mesmo mês foi visitar a Cova da Iria, afirmou ter-lhe causado estranheza ouvir a Lúcia responder às perguntas que lhe faziam relativamente às aparições, dizendo tudo sem um certo sentimento de piedade e sem ter bem consciência da graça recebida.

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