Explorar / Relato

Beatriz Gorjão · outros acontecimentos de 1917

Visitantesenhora visitante (possivelmente de Leiria)
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Na charneca, a poucos metros da estrada, avistamos um arco tosco, com uma lanterna de cada lado, e umas mulheres do povo a rezar o terço, o chaufeur pára, e diz-nos ser alli o lugar da apparição; depois d'uma pequena paragem, continuamos para Fatima. Fomos a casa do Prior, que não estava, appareceu-nos a irmã, (que se vê ser de familia humilde mas muito sympathica); disse-nos ter visto tambem os signaes no sol. Dissemos lhe que gostariamos de ver as crianças e ella mandou um rapazito ensinar-nos a casa d'elles. Deixamos Fátima que nos pareceu um logar muito pequeno; a casa melhor que vimos foi a do Prior, que é muito modesta, com um alpendre à antiga. Lojas nem sei se lá existe alguma!

Como te disse deixamos Fatima, e continuamos a pé (porque não ha estrada) para Aljustrel, a terra das 3 creanças. No caminho encontramos uma caravana, e a pé junto a um dos burros ia a mais velha das pequenas; pedimos que parasse, mas ella, como creança que é, estava desejando continuar para Ourem. Pouco fallou comnosco, dizia-nos que fossemos ter com a Jacintha (a mais pequena) que ella contaria tudo e apontava para o lugar que já se avistava d'alli. Umas mulheres que alli estavam disseram que a mais pequena nunca fallava, nem mesmo a ellas, mas eu lembrando-me das inspirações da Maria Delphina e achando estraordinaria a insistencia da pequena, desde logo me convenci que ella abriria excepção para nós, e assim aconteceu.

Quando estavamos para partir apparece a pequena Jacintha; tem 7 annos e é um verdadeiro apetite, nós alli ficamos sentadas no chão passando a pequena de collo para collo. Perguntamos-lhe como era e como estava vestida N. Senhora: e a pequena sem a mais pequena exitação e querendo explicar ao vivo, põe-se em pé e diz que N. Senhora era da sua altura; aperta um pouco a saia em baixo para explicar que N. Senhora trazia o vestido um pouco mais estreito em baixo, depois com grandes esforços tenta chegar a saita d'ella aos pés mostrando que o vestido era comprido.

Explica depois que N. Senhora não trazia veu, mas um manto que lhe cahia da cabeça até, segundo o gesto da pequenita, a 3 ou 4 dedos acima da tunica; estava toda de branco (sem a facha azul) as mãos erguidas a pequena para melhor explicar, tirou-me o terço das mãos enfiando-o na mãozita d'ella entre o dedo pulgar, levantou as mãos imitando o gesto de N. Senhora de Lourdes e separando-as um pouco enseguida disse: quando fallava ficava assim: Tinha na cabeça uma coisa de muitas côres. A mesma explicação nos deu a mais velha e o pequenito que depois encontramos. Uma mulherzita perguntou-lhe se em tantas senhoras que viu no dia 13 e entre tantas que a teem visitado, encontrou alguma tão bonita como a senhora do Ceu, a pequena disse que tão bonita nunca viu nenhuma, e o pequeno a quem depois perguntamos o mesmo disse: que tão bonita não havia nenhuma no mundo. Pedimos que nos contasse como tinha sido a primeira apparição: A pequenita explicou que andavam a guardar as ovelhas que pertencem à familia da Lucia (a outra vidente) na terra do Tio Abobera de repente viram um relampago e tiveram medo, muito mêdo, quando estavam de joelhos a rezar, viram a Senhora na Azinheira e logo outro relampago, o rebanho foi para os chicharros11 e a dona d'elles gritava de longe — “volta-me essas ovelhas” — mas a senhora disse: (a pequena tentou tornar a vóz mais doce) “não voltem as ovelhas que ellas não comem nada.

Então a Lucia perguntou: “Quem é Vocemecê?” — “Eu sou a Mãe do Céu” — “O que quer à gente?” - “Que aqui vanham n'este dia durante 6 mezes, no fim dos 6 mezes direi o que quero. Rezem o terço.” —

Depois appareceu o dono dos chicharros, que a mulher foi chamar, vinha ralhar porque é muito mau, mas não ralhou nada porque viu que os chicharos não estavam comidos. E, aqui tens o que eu acho mais admiravel; passa-se um caso com tres creancinhas que guardavam ovelhas; uma scena tão simples do[s] chicharos passa-se na serra no meio da charneca. As creanças são d'um logarsito que quasi se lhe póde chamar uns casaes onde não ha lojas nem commercio de especie alguma; este logar pertence à freguezia de Fatima, mas Fatima é tambem como já disse um logar muito pequeno; a estrada acaba alli não está portanto em caminho para parte nenhuma, de certo alli vae pouca gente, não se fazem reclames nos jornaes, e em 6 mezes a noticia espalha-se por toda a parte, e apezar da chuva e da falta de transportes junta-se alli umas 30:000 pessoas, segundo uns; 50:000 segundo outros! — mas vamos retomar o fio, — “A pequena falla depois do fim da guerra e do fim do mundo caso não houvesse fé (não te assustes ainda ha muita). São estes dois pontos que eu acho duvidoso[s]; fallaria realmente N. Senhora no fim da guerra e do mundo, ou estariam as creanças confundidas com tantas perguntas que lhes têem feito? — N. Senhora disse-lhes um segredo. As mães, coitadas como ignorantes que são, têem feito todo o possivel para o saber. Segundo dizem, o administrador já prometteu 20.000rs se lh'o dissessem, mas não ha meio de lhes arrancar o segredo. Ao pequeno ouvi dizer que nem que lhe dessem o mundo inteiro o diriam. Quando lhes perguntam se é mau, dizem que é bom para todos. — N. Senhora no ultimo dia disse mais ser a Virgem do Rosario, e querendo o povo lhe eregisse alli uma capella — Mas isto está bem longe de ser a parte mais importante; calcula a nossa imperssão quando a pequenita continuando a conversar nos diz que no ultimo dia (13 Outubro) lhe appareceu S. José e o Menino Jesus!! Tratava-se portanto da Sagrada Familia. A nossa primeira impressão foi de duvida e de susto, iria cahir tudo pela base?! Mas umas vizinhas que alli estavam, disseram-nos que as 3 creanças já por vezes tinham fallado em S. José e no Menino Jesus. — A pequenita então explicou que S. José tinha vindo dar a paz ao mundo, e com a mão repetiu muitas vezes o signal da cruz, imitando o gesto dos Bispos quando vão andando e abençoando os fieis. Disse-nos que o Menino Jesus e S. José eram eguaes a uns santinhos que tinha em casa. Houve alguem que se offereceu para ir buscar o santo mas a pequena respondeu que tambem tinha quadros na parede. Lembrando-me outra vez da Maria Delphina, pareceu-me comprehender que seria conviniente irmos a casa d'ella. Dei a ideia, e continuamos para o pequenino lugar de Aljustrel. Chegamos a casa dos pequenitos é pequena e de gente muito humilde mas limpa — Appareceu-nos a mãe dos pequenitos uma mulher do povo, muito sympathica e parecendo muito boa. Tanto ella como o marido não acceitam dinheiro, pensam e bem, que poderiam julgar haver alli qualquer interesse, e depois graças a Deus não passamos fóme” — temos, (segundo a sua expressão,) batatas para todo o anno”. No dia 13 houve alguem que metteu na mão d’um dos pequenos, uma moeda de 500rs, a creança não sabendo do que se tratava, pois estava embrulhada n’um papel, foi leval-a à mãe, que afflicta perguntou em vóz alta quem se accusava de ter dado os 500rs. — Ninguem respondeu; e os cinco tostões lá estão embrulhados no mesmo papel ao canto da gaveta. Não lhe quer tocar: aquelle dinheiro não é d’ella.

Contou-nos mais, que os pequenos um dia lhe entraram em casa dizendo que tinham visto a Senhora do Ceu; respondendo ella que elles estavam a sonhar e que não eram dignos d’isso a pequena insistindo, fez à Mãe a discripção do que tinha visto, e contou o que já nos tinha dito no caminho! mas voltemos ao fio: a pequenita diz que tinha em casa uns quadros, mas nem para elles olhou: foi a uma caixa e tirou um grupo da Sagrada familia dizendo: “vêem?” S. José e o Menino Jesus estavam como estão aqui: mas aqui S. José está com os olhos fechados, e lá estávam com os olhos abertos. — Querendo nós ver se ella se atrapalhava, dissemos-lhe que uma vez que o S. José e o Menino estavam como alli estão, N. Senhora no ultimo dia tambem devia estar como aquella de veu e manto de côres; perguntamos isto varias vezes, respondendo ella sempre que N. Senhora não estava como aquella, mas sim de branco e com o terço. Dissemos mais que sendo a Sagrada familia devia estar toda junta, ao que ella respondia sempre que não. N. Senhora estava na azinheira, e S. José e o Menino Jesus, perto do Sol. — A mesma esperiencia fizemos com o pequeno respondendo sempre como a irmã. — É portanto fóra de duvida que se póde confirmar as 6 apparições de N. Senhora, sem se confirmar a da S. Familia. A pequena mais velha antes de partir para Ourem tambem nos fallou de S. José e do Menino Jesus. No emtanto isto está muito pouco espalhado, e nós mesmo a pouca gente temos dito porque sendo este um facto muito mais extraordinario (que me parece ainda não aconteceu em parte nenhuma do mundo)18, temos medo que isso vá fazer espanto a muita “gente” e possam não acreditar.

[…]

Rezamos o terço no logar da apparição com as creanças e umas trinta pessoas. O terço foi recitado por um homem do povo; poucas vezes tenho ouvido rezar tão bem e com tanta devoção e sempre de mãos erguidas como elles dizem. — Appareceram depois umas mulheres com enormes ramos de urzes, que deixaram no logar da apparição: com que devoção foram apanhadas! N. Senhora muito deve ter gostado d’ellas!

Notas dos editores (5)

1 Lugar da freguesia de Favaios, concelho de Alijó, distrito de Vila Real.

2 Sobre este documento, não conseguimos mais elementos de informação.

3 Este documento pertencia à mãe de Maria da Assunção Vaz Pato, de nome Maria da Assunção Tinoco Lobo Vaz Pato, e foi-lhe oferecida por Maria de Lourdes de Almeida Neto Navarro Silva, sobrinha-neta do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Neto.

11 chicharros, sublinhado no texto. O termo exacto é chícharos, planta leguminosa.

18 A autora não fechou o parênteses, mas pelo sentido da frase, pensamos que se deve fechar aqui.

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