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DCF III-1, Doc. 197

27 out. 1917Mondego (Favaios, Alijó)cartaAna (Anita), copiando uma carta de Beatriz Gorjão

27 out. 1917, Mondego1

Carta de Ana ou Anita a Joana, em que se transcreve parte de uma outra, recebida no mesmo dia 27 de Outubro e escrita seguramente entre o dia 13 e 26 de Outubro, e enviada por Beatriz Gorjão (de Leiria?) à mesma Anita, sobre uma visita à Cova da Iria, Fátima e Aljustrel (alguns dias depois do dia 13 e antes do dia 23, em que o arco da Cova da Iria foi arrancado)2.

A - Na posse de D. Maria da Assunção Vaz Pato, Gramaços, Oliveira do Hospital3.

Descrição do documento: Papel de carta com 13x20cm, com 20 páginas, a última das quais em branco.

Mondego 27-10-1917

Querida Joaninha

Recebi hoje uma carta muito interessante da Beatriz sobre a ida a Fátima de que vou copiar uns bocados para tu leres e todos d'ahi como a Beatriz me pede pois não tem tempo de vos escrever como queria. Lê tu e dà a ler, pois merece bem a pena!

Para mim já não resta duvida nenhuma sobre a realidade do Milagre. Demos graças a N. Senhora por tão grande mesericordia para comnosco, portuguezes!

Conta a Beatriz......

“Na charneca, a poucos metros da estrada, avistamos um arco tosco, com uma lanterna de cada lado, e umas mulheres do povo a rezar o terço, o chaufeur pára, e diz-nos ser alli o lugar da apparição; depois d'uma pequena paragem, continuamos para Fatima. Fomos a casa do Prior, que não estava, appareceu-nos a irmã, (que se vê ser de familia humilde mas muito sympathica); disse-nos ter visto tambem os signaes no sol . Dissemos lhe que gostariamos de ver as crianças e ella mandou um rapazito ensinar-nos a casa d'elles. Deixamos Fátima que nos pareceu um logar muito pequeno; a casa melhor que vimos foi a do Prior, que é muito modesta, com um alpendre à antiga. Lojas nem sei se lá existe alguma!

Como te disse deixamos Fatima, e continuamos a pé (porque não ha estrada) para Aljustrel, a terra das 3 creanças. No caminho encontramos uma caravana, e a pé junto a um dos burros ia a mais velha das pequenas; pedimos que parasse, mas ella, como creança que é, estava desejando continuar para Ourem. Pouco fallou comnosco, dizia-nos que fossemos ter com a Jacintha (a mais pequena) que ella contaria tudo e apontava para o lugar que já se avistava d'alli. Umas mulheres que alli estavam disseram que a mais pequena nunca fallava, nem mesmo a ellas, mas eu lembrando-me das inspirações da Maria Delphina e achando estraordinaria a insistencia da pequena, desde logo me convenci que ella abriria excepção para nós, e assim aconteceu.

Quando estavamos para partir apparece a pequena Jacintha; tem 7 annos e é um verdadeiro apetite, nós alli ficamos sentadas no chão passando a pequena de collo para collo. Perguntamos-lhe como era e como estava vestida N. Senhora: e a pequena sem a mais pequena exitação e querendo explicar ao vivo, põe-se em pé e diz que N. Senhora era da sua altura; aperta um pouco a saia em baixo para explicar que N. Senhora trazia o vestido um pouco mais estreito em baixo, depois com grandes esforços tenta chegar a saita d'ella aos pés mostrando que o vestido era comprido.

Explica depois que N. Senhora não trazia veu, mas um manto que lhe cahia da cabeça até, segundo o gesto da pequenita, a 3 ou 4 dedos acima da tunica; estava toda de branco (sem a facha azul) as mãos erguidas a pequena para melhor explicar, tirou-me o terço das mãos enfiando-o na mãozita d'ella entre o dedo pulgar, levantou as mãos imitando o gesto de N. Senhora de Lourdes e separando-as um pouco enseguida disse: quando fallava ficava assim: Tinha na cabeça uma coisa de muitas côres. A mesma explicação nos deu a mais velha e o pequenito que depois encontramos. Uma mulherzita perguntou-lhe se em tantas senhoras que viu no dia 13 e entre tantas que a teem visitado, encontrou alguma tão bonita como a senhora do Ceu, a pequena disse que tão bonita nunca viu nenhuma, e o pequeno a quem depois perguntamos o mesmo disse: que tão bonita não havia nenhuma no mundo. Pedimos que nos contasse como tinha sido a primeira apparição: A pequenita explicou que andavam a guardar as ovelhas que pertencem à familia da Lucia (a outra vidente) na terra do Tio Abobera de repente viram um relampago e tiveram medo, muito mêdo, quando estavam de joelhos a rezar, viram a Senhora na Azinheira e logo outro relampago, o rebanho foi para os chicharros11 e a dona d'elles gritava de longe — “volta-me essas ovelhas” — mas a senhora disse: (a pequena tentou tornar a vóz mais doce) “não voltem as ovelhas que ellas não comem nada.

Então a Lucia perguntou: “Quem é Vocemecê?” — “Eu sou a Mãe do Céu” — “O que quer à gente?” - “Que aqui vanham n'este dia durante 6 mezes, no fim dos 6 mezes direi o que quero. Rezem o terço.” —

Depois appareceu o dono dos chicharros, que a mulher foi chamar, vinha ralhar porque é muito mau, mas não ralhou nada porque viu que os chicharos não estavam comidos. E, aqui tens o que eu acho mais admiravel; passa-se um caso com tres creancinhas que guardavam ovelhas; uma scena tão simples do[s] chicharos passa-se na serra no meio da charneca. As creanças são d'um logarsito que quasi se lhe póde chamar uns casaes onde não ha lojas nem commercio de especie alguma; este logar pertence à freguezia de Fatima, mas Fatima é tambem como já disse um logar muito pequeno; a estrada acaba alli não está portanto em caminho para parte nenhuma, de certo alli vae pouca gente, não se fazem reclames nos jornaes, e em 6 mezes a noticia espalha-se por toda a parte, e apezar da chuva e da falta de transportes junta-se alli umas 30:000 pessoas, segundo uns; 50:000 segundo outros! — mas vamos retomar o fio, — “A pequena falla depois do fim da guerra e do fim do mundo caso não houvesse fé (não te assustes ainda ha muita). São estes dois pontos que eu acho duvidoso[s]; fallaria realmente N. Senhora no fim da guerra e do mundo, ou estariam as creanças confundidas com tantas perguntas que lhes têem feito? — N. Senhora disse-lhes um segredo. As mães, coitadas como ignorantes que são, têem feito todo o possivel para o saber. Segundo dizem, o administrador já prometteu 20.000rs se lh'o dissessem, mas não ha meio de lhes arrancar o segredo. Ao pequeno ouvi dizer que nem que lhe dessem o mundo inteiro o diriam. Quando lhes perguntam se é mau, dizem que é bom para todos. — N. Senhora no ultimo dia disse mais ser a Virgem do Rosario, e querendo o povo lhe eregisse alli uma capella — Mas isto está bem longe de ser a parte mais importante; calcula a nossa imperssão quando a pequenita continuando a conversar nos diz que no ultimo dia (13 Outubro) lhe appareceu S. José e o Menino Jesus!! Tratava-se portanto da Sagrada Familia. A nossa primeira impressão foi de duvida e de susto, iria cahir tudo pela base?! Mas umas vizinhas que alli estavam, disseram-nos que as 3 creanças já por vezes tinham fallado em S. José e no Menino Jesus. — A pequenita então explicou que S. José tinha vindo dar a paz ao mundo, e com a mão repetiu muitas vezes o signal da cruz, imitando o gesto dos Bispos quando vão andando e abençoando os fieis. Disse-nos que o Menino Jesus e S. José eram eguaes a uns santinhos que tinha em casa. Houve alguem que se offereceu para ir buscar o santo mas a pequena respondeu que tambem tinha quadros na parede. Lembrando-me outra vez da Maria Delphina, pareceu-me comprehender que seria conviniente irmos a casa d'ella. Dei a ideia, e continuamos para o pequenino lugar de Aljustrel. Chegamos a casa dos pequenitos é pequena e de gente muito humilde mas limpa — Appareceu-nos a mãe dos pequenitos uma mulher do povo, muito sympathica e parecendo muito boa. Tanto ella como o marido não acceitam dinheiro, pensam e bem, que poderiam julgar haver alli qualquer interesse, e depois graças a Deus não passamos fóme” — temos, (segundo a sua expressão,) batatas para todo o anno”. No dia 13 houve alguem que metteu na mão d’um dos pequenos, uma moeda de 500rs, a creança não sabendo do que se tratava, pois estava embrulhada n’um papel, foi leval-a à mãe, que afflicta perguntou em vóz alta quem se accusava de ter dado os 500rs. — Ninguem respondeu; e os cinco tostões lá estão embrulhados no mesmo papel ao canto da gaveta. Não lhe quer tocar: aquelle dinheiro não é d’ella.

Contou-nos mais, que os pequenos um dia lhe entraram em casa dizendo que tinham visto a Senhora do Ceu; respondendo ella que elles estavam a sonhar e que não eram dignos d’isso a pequena insistindo, fez à Mãe a discripção do que tinha visto, e contou o que já nos tinha dito no caminho! mas voltemos ao fio: a pequenita diz que tinha em casa uns quadros, mas nem para elles olhou: foi a uma caixa e tirou um grupo da Sagrada familia dizendo: “vêem?” S. José e o Menino Jesus estavam como estão aqui: mas aqui S. José está com os olhos fechados, e lá estávam com os olhos abertos. — Querendo nós ver se ella se atrapalhava, dissemos-lhe que uma vez que o S. José e o Menino estavam como alli estão, N. Senhora no ultimo dia tambem devia estar como aquella de veu e manto de côres; perguntamos isto varias vezes, respondendo ella sempre que N. Senhora não estava como aquella, mas sim de branco e com o terço. Dissemos mais que sendo a Sagrada familia devia estar toda junta, ao que ella respondia sempre que não. N. Senhora estava na azinheira, e S. José e o Menino Jesus, perto do Sol. — A mesma esperiencia fizemos com o pequeno respondendo sempre como a irmã. — É portanto fóra de duvida que se póde confirmar as 6 apparições de N. Senhora, sem se confirmar a da S. Familia. A pequena mais velha antes de partir para Ourem tambem nos fallou de S. José e do Menino Jesus. No emtanto isto está muito pouco espalhado, e nós mesmo a pouca gente temos dito porque sendo este um facto muito mais extraordinario (que me parece ainda não aconteceu em parte nenhuma do mundo)18, temos medo que isso vá fazer espanto a muita “gente” e possam não acreditar. Calcula por isso o meu espanto quando vindo hontem aqui uma rapariga que esteve em Alemquer, me disse disse, que tendo ido a Fatima um homem de Alemquer muito incredulo e dos peores de lá, veiu impressionadissimo e descrevendo a toda a gente as coisas extraordinarias que viu e que affirma ter visto o Menino Jesus e S. José. — Ninguem o acredita, coitado, porque para lá ninguém sabe que realmente appareceu a Sagrada Familia. — Terá N. Senhora concedido a esse homem, essa grande graça para a sua conversão? — O Emilio Infante21 e Nazareth22 estiveram em Fatima no dia 13; o Emilio cahiu de joelhos a chorar, e diz que se soubesse que havia outra apparição não faltaria lá, ainda que tivesse que apanhar tanta chuva como apanhou agora! — Os signaes no sol foram vistos nos arredores de Leiria, Batalha, etc... Em Leiria todos acreditam.

Rezamos o terço no logar da apparição com as creanças e umas trinta pessoas. O terço foi recitado por um homem do povo; poucas vezes tenho ouvido rezar tão bem e com tanta devoção e sempre de mãos erguidas como elles dizem. — Appareceram depois umas mulheres com enormes ramos de urzes, que deixaram no logar da apparição: com que devoção foram apanhadas! N. Senhora muito deve ter gostado d’ellas!

Aqui tens minha querida Joaninha, o que a Beatriz me conta hoje sobre a sua ida a Fatima; e eu copiei textualmente para não se fazerem confusões. — Que caso tão extraordinario. Eu fico fóra de mim quando penso em tudo isso que ahi fica, e mal saberia dizer-te as minhas impressões, e a pena immensa que tenho em não ter ido eu tambem como tanta gente foi, no dia 13, a esse logar, que crêmos previligiado, de Fatima.

Estou escrevendo muito à pressa e com uma pena horrivel. Não repares como vae, e guarda esta carta, que apezar de mal, muito me custou a levar ao fim; é tão grande!....

Mostra-a depois à prima Guilhermina e manda-a a Tia Chica, que deve gostar de a ler.

Para ti, e todos que a lerem muitas saudades da

Annita

Copia da carta de uma testemunha idonea que fallou com os pequeninos previligiados (a Senhora D. Beatriz Grojão).

Notas dos editores

1 Lugar da freguesia de Favaios, concelho de Alijó, distrito de Vila Real.
2 Sobre este documento, não conseguimos mais elementos de informação.
3 Este documento pertencia à mãe de Maria da Assunção Vaz Pato, de nome Maria da Assunção Tinoco Lobo Vaz Pato, e foi-lhe oferecida por Maria de Lourdes de Almeida Neto Navarro Silva, sobrinha-neta do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Neto.
11 chicharros, sublinhado no texto. O termo exacto é chícharos, planta leguminosa.
18 A autora não fechou o parênteses, mas pelo sentido da frase, pensamos que se deve fechar aqui.
21 Pensamos que seja Emílio Infante da Câmara (neto). Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 20.
22 Maria da Nazaré Almeida Centeno. Esposa de Emílio Infante da Câmara. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 20.
Aparato crítico e remissões (16)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

4 sol, sublinhado no texto.
5 Riscou palavra ilegível.
6 Maria Delphina, sublinhado no texto.
7 Riscou existen e substituiu por sem.
8 Riscou quando.
9 A seguir a pri, riscou ma.
10 Tio Abobora, sublinhado no texto.
12 Eu sou a Mãe do Céu, sublinhado no texto.
13 Toda esta frase está sublinhado no texto.
14 No texto, da.
15 -a escrito sobre emenda.
16 -e- escrito sobre emenda.
17 Maria Delphina, sublinhado no texto.
19 Sic.
20 realmente, sublinhado no texto.
23 textualmente, sublinhado no texto.
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