As duas filhas, Maria dos Anjos e Carolina, interrogaram a Lúcia sobre os acontecimentos da véspera e foram para casa e disseram que realmente a irmã tinha visto alguma coisa. Por fim, a mãe perguntou-lhe também o que vira. Ela disse que via uma mulherzinha muito bonita; que o vestido que trazia era todo branco, que à pergunta” – “de onde era” – apontara para o Céu dizendo que era de lá, e que tendo-lhe perguntado se não iam para o Céu o Francisco, a Jacinta e ela Lúcia, a aparição respondeu que sim. A Mãe, ao ouvir estas palavras exclamou: “Que felizes que vocês são!”. Disse a Senhora que queria que fossem lá seis meses a fio e que por fim diria o que queria.
Lúcia de Jesus (Irmã Lúcia)
Lúcia de Jesus (dos Santos), nascida a 22 (ou 28) de março de 1907 e com 10 anos em 1917, pastora de Aljustrel, filha de António dos Santos e de Maria Rosa; a mais velha dos três videntes e prima de Francisco e Jacinta Marto. Foi interrogada repetidas vezes em 1917 pelo pároco, pelo Dr. Formigão e por outros, e mais tarde tornou-se religiosa doroteia.
Ver também: Lúcia, Francisco e Jacinta (33 relatos, em conjunto) · Francisco Marto (18 relatos) · Jacinta Marto (34 relatos) · Francisco e Jacinta Marto (2 relatos, em conjunto)
13 de maio de 1917 23 relatos
A Lúcia disse que andavam todos... e todos viam uma mulher. O Francisco que só a viu quando ela partiu. A Lúcia disse que estavam assentados todos e que a mulher apareceu ficando para o lado da Fátima.
Primeiro viram um relâmpago, levantaram-se e começaram a juntar as ovelhas para se irem embora com medo, depois viram outro relâmpago, depois viram uma mulher em cima duma carrasqueira, vestida de branco, nos pés meias brancas, saia branca dourada, casaco branco, manto branco, que trazia pela cabeça, o manto não era dourado e a saia era toda dourada a atravessar, trazia um cordão de ouro e umas arrecadas muito pequeninas, tinha as mãos erguidas e quando falava alargava os braços e mãos abertas.
Essa mulher disse que não tivessem medo, que não lhes fazia mal.
Perguntou a Lúcia:
– Que lugar é o de vossemecê?
Ela disse:
– O meu lugar é o céu.
– Para que é que vossemecê cá vem ao mundo?
– Venho cá para te dizer que venhas cá todos os meses até fazer seis meses e no fim de seis meses te direi o que quero.
– Vossemecê sabe-me dizer se a guerra ainda dura muito tempo ou se acaba breve?
– Não te posso dizer ainda enquanto te não disser também o que quero.
Perguntei-lhe se ia para o Céu e ela disse-me:
– Tu vais.
– E minha prima?
– Também vai.
– E meu primo?
– Esse ainda há-de rezar as continhas dele.
E depois disto abalou pelo ar acima.
Os outros dois ouviram as perguntas e as respostas mas não fizeram perguntas.
Posto isto, procedi ao interrogatório da filha – a dita vidente Lúcia – a qual disse que no dia treze do corrente mês de maio, andava pastoreando as ovelhas, com os primos Francisco e Jacinta, no sítio chamado Cova da Iria – fica a dois quilómetros a noroeste desta Igreja Paroquial de Fátima, junto à estrada que segue para a Batalha – por cerca de uma hora da tarde – hora solar – e que tendo acabado de rezar as contas – o terço – (o que fazia muitas vezes), viu um relâmpago de que teve muito medo; começou logo a ajuntar as ovelhas e a mandar os primos ajuntá-las para se irem embora, – para casa –, dizendo que vinha lá trovoada, mas não via nuvens. De repente, viu outro relâmpago e logo uma Senhora, de mediana estatura e extraordinária beleza, em cima de uma carrasqueira – azinheira pequena – e que lhe disse:
– Não tenhas medo que te não faço mal.
E que ficando logo sem medo algum Lhe perguntou:
– Que lugar é o de Vossemecê?
E a Senhora lhe respondeu:
– O meu lugar é o Céu.
– O que vem Vossemecê cá fazer ao mundo?
– Venho cá para te dizer que venhas aqui todos os meses até fazer seis meses, e no fim dos seis meses te digo o que quero.
– Vossemecê sabe-me dizer se a guerra ainda dura muito tempo ou se acaba breve?
– Não te posso dizer ainda, enquanto te não disser também o que quero.
– Sabe-me dizer se eu vou para o Céu?
– Tu vais.
– E a minha prima?
– Vai.
– E o meu primo?
– Esse ainda há de rezar as contas dele...
– Dito isto que a Senhora se começou a elevar, no ar, seguindo para o nascente até desaparecer.
A visão
Disse a Lúcia que a Senhora, que ela e seus primos viram, tinha um pouco mais ou menos de um metro de altura e vinha vestida de branco. A saia era branca e dourada aos cordõezinhos ao comprido e a atravessar e era curta, isto é não descia até aos pés. O casaco era branco não dourado. Manto branco, que ia da cabeça até à orla da saia, dourado aos cordõezinhos de alto a baixo e a atravessar, nas orlas o ouro era mais junto. O casaco tinha dois ou três cordõezinhos dourados nos punhos. Não tinha cinto, fita, faixa à cintura. Tinha as mão postas, um pouco acima da cintura e delas pendia um terço branco. Todas as vezes que falava, separava as mãos, pouco mais ou menos, à distância dos ombros. Tinha os olhos pretos, e era tão linda no rosto, como nunca tinha visto Senhora alguma. Quase a cegava a sua beleza, e nunca se cansava de olhar para Ela.
Parecia-lhe que tinha meias brancas, não douradas, mas que não dava a certeza porque para pouco mais olhava do que para o rosto. Até mesmo em uma ocasião na minha presença, estando também a Jacinta, ela volta-se para esta e pergunta-lhe se Ela trazia meias, porque não tinha reparado.
Soube pelo marido e por outras pessoas que a Lúcia dizia que lhe tinha aparecido Nossa Senhora no dia treze de maio de mil novecentos e dezassete, assim como a seus primos Francisco e Jacinta, pela hora do meio dia solar.
Três creanças — Lucia, de 10 anos, Francisco, de 8 e Jacinta, de 7 - residentes em Aljustrel, andavam na vasta planice da Cova de Santa Iria a apascentar doceis ovelhas, quando lhes apareceu uma senhora, toda vestida de branco, diz a Lucia. A senhora disse aos pastorinhos que deviam aprender a ler e a escrever e que no dia 13 de cada mês lhes apareceria no mesmo sitio, junto a uma carvalheira. No dia 13 de outubro desceria pela ultima vez do ceu á terra para fazer a paz no mundo — e acabar com a guerra. Todas as pessoas que não acreditassem na sua obra seriam castigadas.
[…]
E insiste em que conserva um segredo que só poderá revelar no dia 13 de outubro.
A mãe respondeu que a filha depois da primeira aparição foi para casa à noite e que lhe disse ter visto Nossa Senhora na Cova da Iria. Não quis acreditar porque a filha não era o que ela desejava que fosse, com méritos para ver Nossa Senhora. Quis bater-lhe. A Lúcia com medo dela, começou a dizer por fora o que se passava e não queria contar à mãe mais nada. Como a mãe soubesse, disse-lhe: “Então tu andas a dizer por fora, que Nossa Senhora te aparece e a mim não me dizes nada?” A pequena respondeu: “Então a minha mãe queria-me bater!” Depois perguntou à filha que tamanho a Senhora tinha. Ela disse que a comparava com uma menina dali de quinze anos. Era de uma beleza tal que nunca tinha visto igual.
O que diz a Lúcia interrogada na presença da Jacinta que pouco diz: Que no dia 13 de maio de 1917, andando os três pastoreando as suas ovelhas, no sítio da Cova da Iria, limite da Fátima, depois de haverem merendado (isto é jantado) foram, segundo o seu costume, rezar o terço a Nossa Senhora e que quando já tinham quase terminado o oferecimento do mesmo, viram um relâmpago que os amedrontou, pelo que a Lúcia convidou os outros a retirar dizendo-lhes: vamos-nos embora porque está a trovejar; nisto viram um outro relâmpago e na sua frente uma Senhora extremamente bela vestida de branco, com um manto igualmente branco, mas dourado e com um resplendor na cabeça fazendo lembrar o resplendor do sol, mas mais brilhante; como que pousou sobre uma pequena carrasqueira, de pé, com as mãos postas donde pendiam umas contas brancas, mas lindíssimas. Ficaram aterrados com a visão, mas a Senhora tranquilizou-os dizendo-lhes, que não tivessem medo porque não lhes fazia mal, nisto a Lúcia perguntou-lhe quem era e o que queria ao que Ela respondeu, que fossem ali durante seis meses no mesmo dia treze e que no último dia lhe diria quem era e o que desejava. Em seguida começou a desaparecer lentamente, primeiro pela cabeça, braços e o resto do corpo até aos pés que foi a última coisa a desaparecer.
Notas dos editores (2)
1 Jacinta e Lúcia estiveram na Reixida, hospedadas em casa de Maria do Carmo da Cruz Meneses, a partir de 14 ou 15 de setembro. A data deste documento não está indicada, mas a comparação da caligrafia e da tinta usada nos livros paroquiais de 1917, leva-nos a supor uma data próxima a 17 de setembro.
2 Nasceu a 13 de março de 1877. Frequentou o seminário de Leiria e de Coimbra. Em 1903 foi nomeado pároco da Barosa e em 1908, pároco das Cortes. Faleceu a 19 de maio de 1956.
É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?
– É verdade.
– Quantas vezes te apareceu já?
– Cinco vezes, sendo uma cada mês.
– Em que dia do mês?
– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.
– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?
– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.
[…]
Donde é que ela vem? Das bandas do nascente?
- Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira é que toma a direção donde nasce o sol.
- Quanto tempo se demora? Muito ou pouco?
- Pouco tempo.
- O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Avé Maria, ou mais?
- Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez não chegasse para rezar o terço).
- Da primeira vez que a viste não ficaste assustada?
- Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal. Disse: “não tenham medo que eu não vos faço mal.”
- Como é que está vestida?
- Tem um vestido branco, que desce até um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido.
- O vestido não tem enfeites?
- Veem-se nele, na parte anterior, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reunem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo.
- Tem algum cinto ou alguma fita?
- Não tem.
- Usa brincos nas orelhas?
- Usa umas argolas pequenas e de cor amarela.
- Qual das mãos segura as contas?
- A mão direita.
- Eram um terço ou um rosário?
- Não reparei bem.
- Terminavam por uma cruz?
- Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas. A cadeia era também branca.
- Perguntaste-lhe alguma vez quem era?
- Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de outubro.
- Não lhe perguntaste de onde vinha?
- Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu.
- E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?
- Da segunda vez, a treze de junho.
- Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?
- Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria.
- Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações?
- Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo.
- Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria?
- Não disse nada a esse respeito.
- É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse?
- É certo.
- Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros?
- A todos três.
- Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor?
(A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta).
- Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade?
- Não é; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo. Não o quis enganar.
- A Senhora mandou que aprendesses a ler?
- Mandou, sim, da segunda vez que apareceu.
- Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler?
- Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa.
- O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira?
- Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova.
- Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?
- Não sei: ela não o disse.
- Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?
- Estou.
- No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?
- Vem também S. José com o menino, e será concedida a paz ao mundo.
- E fez mais alguma revelação?
- Declarou que no dia 13 fará com que todo o povo acredite que ela realmente aparece.
- Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?
- É que ela às vezes cega.
- Ensinou-te alguma oração?
- Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.
- Sabes de cor essa oração?
- Sei.
- Diz lá...
- Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem10.
Notas dos editores (1)
10 O Dr. Formigão fez um apontamento, possivelmente na mesma data, em que escreveu: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, e aquelas que mais precisarem. Para se recitar depois de cada mistério do rosário. Posteriormente, o Dr. Formigão acrescentou: e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas.
Disseste-me há dias que Nossa Senhora queria que o dinheiro oferecido pelo povo fosse levado para a igreja da freguesia em dois andores. Como é que arranjam os andores e quando é que eles devem ser levados para a igreja?
– Os andores compram-se com o dinheiro oferecido e serão levados nas festas da Senhora do Rosário.
2a – Sabes com certeza em que sítio é que Nossa Senhora deseja que seja edificada uma capela em sua honra?
– Não sei ao certo, mas julgo que Ela quer a capela na Cova da Iria.
3a – O que é que Ela disse que havia de fazer para que todo o povo acreditasse que ela aparecia?
– Disse que havia de fazer um milagre.
4a – Quando foi que ela disse isso?
– Disse-o umas poucas de vezes, mas só uma vez, na ocasião da primeira aparição é que lhe fiz essa pergunta.
5a – Não tens medo de que o povo te faça mal se não vir nada de extraordinário nesse dia?
– Não tenho medo nenhum.
6a – Sentes dentro de ti alguma coisa, alguma força que te arraste para a Cova da Iria no dia 13 de cada mês?
– Sinto vontade de lá ir e ficava triste se não fosse.
7a – Viste alguma vez a Senhora benzer-se, rezar ou desfiar as contas do Rosário?
– Não vi.
8a – Mandou-te rezar?
– Mandou-me rezar umas poucas de vezes.
9a – Disse-te que rezasses pela conversão dos pecadores?
– Não disse; mandou-me só rezar a Nossa Senhora do Rosário para que acabasse a guerra.
10a – Viste os sinais que outras pessoas dizem ter visto, como uma estrela, rosas a despregarem-se do vestido da Senhora, etc.?
– Não vi a estrela nem outros sinais extraordinários.
11a – Ouviste algum rumor, trovão ou tremor de terra?
– Nunca ouvi.
12a – Sabes ler?
– Não sei.
13a – Andas a aprender a ler?
– Não ando.
14a – Como cumpres então a ordem que a Senhora te deu nesse sentido?
!.....
15a – Quando dizes ao povo que ajoelhe e reze, é a Senhora que manda que o digas?
– Não é a Senhora que manda, sou eu que quero.
16a – Sempre que ela aparece, tu ajoelhas?
- Às vezes fico de pé, outras vezes ajoelho-me.
16a – Quando fala, a sua voz é doce e agradável?
– É.
17a – Que idade parece ter a Senhora?
– Parece ter uns quinze anos.
18a – De que cor é o cadeado do rosário?
– É branco.
19a – E a do crucifixo?
– O crucifixo também é branco.
20a – O véu cobre a testa da Senhora?
– Não cobre. Vê-se-lhe a testa bem.
21a – O esplendor que a envolve é bonito?
– É mais bonito que a luz do sol e muito brilhante.
22a – A Senhora nunca te saudou com a cabeça ou com as mãos?
– Nunca.
23a – Nunca se sorriu para ti?
– Também não.
24a – Costuma olhar para o povo?
– Nunca a vi olhar para ele.
25a – Ouves as conversas, rumores e gritos do povo, durante o tempo que vês a Senhora?
– Não ouço.
26a – A Senhora pediu-te em maio que voltasses todos os meses até outubro à Cova da Iria?
– Disse que voltássemos lá de mês a mês durante seis meses, no dia 13.
27a – Ouviste ler a tua mãe o livro chamado “Missão abreviada” onde se conta a história da aparição de Nossa Senhora a um menino e uma menina?
– Ouvi.
28a – Pensavas muitas vezes nessa história e falavas dela a outras crianças?
– Não pensava nessa história nem a contei a ninguém.
Notas dos editores (4)
6 Manuel Gonçalves da Silva, residente em Aljustrel, casado com Maria dos Prazeres.
7 Pode tratar-se de Manuel Henriques, nascido em 1850, casado com Maria Violante, então residente em Fátima, ou de seu filho, também Manuel Henriques, nascido a 15 de fevereiro de 1891, que veio a casar com Maria dos Anjos.
8 Filho de António Carreira Ribeiro e de Rosa de Jesus Ribeiro. Nasceu na Moita do Martinho, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 19 de novembro de 1865. Casou com Maria da Cunha. Faleceu a 18 de janeiro de 1919. No Rol dos Confessados de 1917, não consta nenhum Francisco Rodrigues, mas sim Francisco Ribeiro. Deve tratar-se de um lapso do autor.
5 Anastácio Vieira, de Aljustrel. Padrinho de batismo de Lúcia, casado, a 29 de novembro de 1882, com Teresa de Jesus, tia paterna e madrinha de batismo de António dos Santos, pai de Lúcia.
O que faziam quando viram a Senhora?
2 - Guardava as ovelhas. Deu um relâmpago e eu disse: ó Francisco é melhor irmos embora que vem trovoada. Deu outro relâmpago e olhei para a carrasqueira e vi uma Senhora que disse: Não tenham medo que não faço mal. Estava em cima da carrasqueira. A Senhora era nova, tinha saia justa. Não sabe o que é saia travadinha, e tem visto senhoras com saias às pregas mas o vestido da Senhora não era. Não reparou se o vestido era inteiro.
3 - É verdade o menino correr a Imagem à pedra?
3 - Noutro ano é que o João atirara a pedra.
A mãe conta que o ano passado em maio aparecera outra imagem e que esta é que fora corrida. Só um ano depois é que houve outra aparição.
4 - Como apareceu a imagem?
4 - [...]
5 - Que vestidos trazia e o que disse?
5 - Primeira vez que não tivéssemos medo que não fazia mal: fosse a gente lá 6 vezes até fazer 6 meses e depois dizia o que queria. Foi a pouco e pouco subindo e desapareceu.
6 - Ouviram todos?
6 - [...]
7 - Tinham ido à missa no domingo anterior? E onde?
7 - Tinha ido à missa que era domingo na 1ª aparição. Apareceu ao meio-dia.
8 - Onde costumam ir à missa?
8 - [...]
9 - Que veste a Imagem da capela onde costumam ir à missa?
9 - Que na Igreja há a Senhora do Rosário, mas tem um menino, um manto e não tem contas e aquela tinha contas.
10 - Tinham ouvido algum sermão sobre Nossa Senhora de Lourdes ou prática?
10 - Não sabia da história de Lourdes, mas um sr. prior contou-a agora.
11 - Costumavam ir muitas vezes à missa mesmo de semana?
11 - Às vezes.
12 - O que fizeram depois de verem a Senhora?
12 - Vieram embora e não contou nada. Tinha visto o outro ano e tinha contado à mãe e ela ralhou-lhe. A primeira vez que vira foi num sítio chamado as Estrumeiras.
13 - Que fatos trazia ela da primeira e das outras vezes?
13 - Trazia sempre o mesmo fato.
14 - Disse porque vinha no dia 13?
14 - Vid. nº 5.
15 - Viram sempre as manchas no sol?
15 - Nunca vi nada no sol porque só olhava para a Senhora.
16 - Como estava ela na Azinheira? Ria-se ou estava triste?
16 - Estava séria
17 - De que cor era o vestido e como trazia os braços?
17 - Branco - braços erguidos.
18 - Tiveram medo quando viram a Senhora?
18 - Tiveram medo da primeira vez.
19 - A quem disseram que a tinham visto?
19 - Esta não disse. A Jacinta é que espalhou.
20 - Quando falaram com qualquer padre sobre o assunto?
20 - Não contou logo, mas sim mais tarde.
21 - O que lhes disse este?
21 - Fez perguntas e não disse nada.
33 - Nunca disse a que horas vinha mas nós íamos lá àquelas horas.
[37]4
[37-] A Senhora disse-lhe um segredo mas ela não o revelará.
Notas dos editores (1)
4 Quase certamente, o autor dispensou-se de fazer as perguntas nº 34 a 36. Tal como no interrogatório anterior, o Pe. Lacerda também aqui continuou a conversa com a Lúcia, de que resultaram as duas respostas seguintes.
É verdade que uma vez em que estavas a rezar o terço, o gado que apascentavas foi para o campo onde havia trigo e chícharo já crescido sem que comesse nenhuma dessas plantas?
– É verdade.
18a – Quando foi que isso sucedeu?
– Não me recordo, mas parece-me que foi num Domingo.
19a – Não viste o gado comer o trigo e o chícharo?
– Não vi.
20a – Mas sabes com certeza que não comeu?
– Sei, porque um dos donos da propriedade disse que o gado não tinha dado perda.
21a – Afastaste o gado desse sítio?
– Afastámo-lo depois de rezar o terço.
22a – A quem pertencia a propriedade?
23a – Pertencia ao José Matias e a Francisco António5, da Casa Velha. São dois talhões pegados.
24a – Porque não afastaste o gado logo que o viste ir para o campo semeado?
– Não afastei logo porque queria rezar o terço.
25a – Não receavas que ele comesse o que estava semeado?
– Pensava que ele comia, mas deixei-o andar.
26a – Então não sabias que a tua obrigação era retirares imediatamente o gado para que ele não causasse dano?
– Já me confessei dessa falta.
Notas dos editores (3)
3 Manuel das Neves Marto, filho de José das Neves e de Maria Vitória. Nasceu em Aljustrel a 15 de novembro de 1904 e casou a 29 de setembro com Maria do Rosário. Faleceu a 19 de janeiro de 1996.
4 Manuel Pereira Carvalho, filho de Maria de Jesus e de pai incógnito. Nasceu na Casa Velha a 6 de abril de 1906. Casou a 28 de julho de 1929, com Carolina de Jesus, irmã de Lúcia. Faleceu a 22 de outubro de 1978.
5 Francisco António, nascido em 1873 e casado com Jacinta de Jesus, então residente na Casa Velha.
Antes de cada aparição vias algum relâmpago?
– Às vezes via um, outras vezes via dois. Os ares estavam turvos, como de trovoada.
29a – Da primeira vez que a Senhora te apareceu o céu estava sem nuvens?
– Não me recordo se havia nuvens.
30a – Quando a Senhora te apareceu da 1a vez o que é que estavas a fazer?
– Rezei o terço antes dela vir.
31a – Quando sucedeu a primeira aparição ajoelhaste-te ou ficaste de pé?
– Da primeira vez fiquei de pé.
32a – A Senhora vinha sempre envolta num esplendor?
– Vinha.
– De que côr era esse esplendor?
– Era muito claro, muito branco.
33a – O esplendor aparecia primeiro que a Senhora?
– Aparecia quase ao mesmo tempo que a Senhora.
Da primeira vez pediste ao Francisco e à Jacinta que não dissessem à família nada do que tinham visto?
– Pedi.
35a – Porquê?
– Porque o ano passado minha mãe ralhou-me, quando eu lhe disse que tinha visto o vulto branco, e disse-me que eu andava a mentir.
36a – Tua mãe soube por ti da 1a aparição?
– Não; foi pelo Francisco e pela Jacinta ou por pessoas a quem eles tivessem contado o que viram.
37a – Conta-me o que ouviste dizer à Senhora em maio.
– Em maio a Senhora disse que não tivéssemos medo porque não nos fazia mal. Perguntei-lhe donde era e ela disse-me que era do Céu. Perguntei-lhe o que que queria e ela respondeu que fôssemos lá todos os meses de mês a mês e ao fim de seis meses dizia o que queria.
38a – Porque foste daí em diante ao local das aparições no dia 13 e não noutro dia de cada mês?
– Fui no dia 13 porque fazia um mês. Entendi que devia ir no dia 13, porque o dia da primeira aparição era 13.
39a – Fizeste-lhe mais algumas perguntas?
– Perguntei se íamos para o Céu e a Senhora disse que sim, mas que o Francisco devia rezar as contas.
40a – A Senhora disse mais alguma coisa?
– Talvez dissesse mais alguma coisa, mas não me lembro.
Notas dos editores (1)
5 Francisco António, nascido em 1873 e casado com Jacinta de Jesus, então residente na Casa Velha.
O que a Senhora trazia nos pés eram meias? Tens a certeza disso?
– Cuido que eram meias, mas podiam não ser.
4ª – Tu nunca disseste o segredo, nem mesmo disseste que o povo ficava triste se o soubesse. O Francisco e a Jacinta dizem que ficava triste. Se tu não podes dizer isso, também eles o não podiam dizer. Que te parece?
– Não sei se eles deviam ou não dizer, que o povo ficava triste. Nossa Senhora disse que não devíamos dizer nada a ninguém. Por isso não posso dizer nada.
2a – Tu disseste uma vez que a Senhora tinha meias brancas. Então eram as meias ou eram os pés?
– Se eram meias, eram brancas, mas eu não sei ao certo se eram meias ou se eram os pés.
3a – A saia era sempre do mesmo comprimento?
– A saia da última vez parecia mais comprida.
Quando foi que a Senhora te ensinou a oração que devias rezar depois de cada mistério?
– Parece-me que foi no terceiro mês.
2a – Quantas foram as pessoas que a Senhora prometeu curar e converter?
– Eu pedi por muitas e ela disse que curava e convertia umas, outras não.
3a – Quantas vezes lhe fizeste esse pedido?
– Parece-me que foi cinco vezes, ora por umas pessoas, ora por outras.
R. A pag. 11 affirmo que a apparição parece não ter mais de 18 annos, porque uma vez a mãe da Lucia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a edade da visão, que ella parecia ser como uma rapariga do logar de Aljustrel que estava presente e que já tinha completado 17 annos. A pag. 90 declaro ter dito a Lucia que a Visão parecia ter uns 15 annos, porque realmente o disse, embora fosse uma pequena rude e ignorante, apenas com 10 annos de edade, e incapaz de calcular com exactidão a edade de uma pessoa. De resto, a differença entre uns quinze annos e não mais de dezoito annos não é grande e a expressão que emprego a pag. 90 não só não contradiz nem exclue a affirmação da pag. 11 senão que até a completa e permitte uma maior approximação da verda
A Lúcia disse que via uma mulher muito bonita, com um resplendor ao cabo da cabeça, que cegava.
A Lucia diz dos olhos: “Eram muito escuros.” “E o fato?” — “Branco e oiro.”
“Com cinto de côr?” — “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” “E na cabeça?” — “Um manto e uma coisa, assim...” “Mas o quê?” — “Não sei, era assim um açafatico” (um açafatesinho). Eu nem disse a palavra corôa que me veio logo á ideia; deixar a pequena explicar-se como sabe e confesso que achei de apetite a comparação. “E via-se o cabelo?” — “Não.” “Olha, N. Senhora estava a rir-se, alegre?” — “Não, estava séria.” “Zangada?” — “Não, séria.” “Trazia as contas, não trazia?” — “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos, assim...” A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha visto: A certa altura diz-me que N. Senhora tinha muita luz. “Como o sol?” — “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: “Porque tiveste medo ao principio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.” — “É que a senhora não me cegava.” Diz que N. Senhora pede ao povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a N. Senhora do Rosario. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se emenda, o povo não se emenda...”
Andava guardando as ovelhas na cova de Iria na companhia do meu primo Francisco e da Jacinta, brincando fazendo um muro á volta duma moita; e virmos um relampago; e disse eu para o Francisco, vamos embora porque está a dar relampagos e pode vir trevoáda, voltarmos as ovelhas para nos virmos embora; chegando ao meio da fazenda, deu outro relampago e virmos uma Senhora em sima duma carrasqueira; ficarmos muito assustados por vermos a quele resplendor que a envolvia. Entam disse-nos Ela; não tenham medo porque eu não vos faço mal. Perguntei-lhe eu Dedonde é vossemecê? Eu sou do céu. O que é que vossemecê me quer? Quero que venhas aqui durante 6 meses e no fim te direi o que quero. Perguntei-lhe pela Maria do José das Neves e Ela me disse está no céu perguntei-lhe pela Amelia e disse-me que estava no purgatorio. Se me disse mais alguma coisa neste mez não me lembro E nisto dezapareceu subindo tam alta que chegou a ponto de não a vermos mais.
Notas dos editores (1)
2 O presente documento foi escrito pela vidente Lúcia a pedido do seu confessor, no Asilo de Vilar, Pe. Manuel Pereira Lopes, como se depreende de uma carta dirigida pelo mesmo a D. João Pereira Venâncio a 26 de Julho de 1961: “Tive grande satisfação em ser incluido no número dos sacerdotes que, por incumbencia do Exmo Snr. Dom José saudoso Bispo de Leiria, assistiram aos depoimento della na primeira sessão do Processo Oficial das Aparições de Fátima (cf. DCF, vol. 2, Doc. 8, de 8 de Julho de 1924). O que então lhe ouvi e consta do processo, confirmou uma narração que ela, a meu pedido tinha escrito sobre essas aparições. Descrição simples, com incorrecções ortográficas, que exalava um suave perfume de espontaneidade e sinceridade. Infelizmente esse original que eu tinha em grande apreço, emprestei-o a alguém que não me restituiu. Decerto, nada tirava nem acrescentava ao seu depoimento posterior” (AEL, Documentos de Fátima, J-29). Esteve em poder do Dr. Sebastião dos Reis que o publicou e entregou ao Pe. António Maria Martins e que, após a morte deste, foi entregue, pela Província Portuguesa da Companhia de Jesus, ao Santuário de Fátima.
O vestido de Nossa Senhora era destas cores; o vestido era todo branco; tinha dos estrelas da cinta para baixo uma na direção da outra; ao pescosso um cordão com uma bola chegava até á cinta; as mãos postas, e delas caia umas contas não sei se era Rosario se era Terço branco com um cruxifixo tambem branco. O manto cobria-lhe a cabeça até ao fim do vestido. tinha uma beirinha doirada; os pés não sei se tinha maias se vinha descalços, porque eu não lhe defrençava os dedos, era porcausa da luz que me não deixava fitalos tudo em vol[ta] dela era uma luz tam brilhante e tam forte que me não deixava ver como eu queria porque parecia cegar-me.
Paresseme que já disse quase tudo se me falta alguma coisa duque ela disse para escrever não me lembro.
Aconteceu-te alguma coisa importante na Cova da Iria? Respondeu: aconteceu-me o seguinte: No dia treze de maio de mil novecentos e dezassete, andava eu a guardar o gado no sítio da Cova da Iria, da freguesia de Fátima, na companhia dos meus primos Francisco Marto e Jacinta Marto; depois de rezarmos o terço, como de costume, começámos a brincar, fazendo um muro à volta duma moita, quando vimos um relâmpago para o lado do nascente, e, receando que viesse trovoada, embora estivesse bom tempo, eu disse ao Francisco que era melhor irmos para casa recolher o gado quando chegámos ao meio da fazenda, deu outro relâmpago, e, dois passos adiante, vimos em cima duma carrasqueira, que teria um metro de altura aproximadamente, uma Senhora muito formosa, com aparências de nova, talvez de dezoito a vinte e dois anos, envolta num clarão mais brilhante que o sol. Ficámos muito assustados por vermos aquele resplendor que a envolvia, mas a Senhora a meia voz, mas bem inteligível, disse-nos: “Não tenham medo, porque eu não vos faço mal”. Eu perguntei-lhe: “donde é Vossemecê?” ao que ela respondeu: – “Eu sou do Céu” – “O que é que Vossemecê me quer?” Ela respondeu: – “Quero que venhas aqui durante seis meses, e no fim te direi o que quero”. Perguntei-lhe pela Maria, do José das Neves, e ela disse-me que estava no céu; perguntei-lhe pela Amélia, e disse-me que estava no purgatório. Se me disse mais alguma coisa neste mês, não me lembro. Nisto, desapareceu, subindo muito alto para o lado do nascente”.
– “Como estava vestida a Senhora?”. Respondeu: “Estava vestida de branco, coberta desde a cabeça até à extremidade do vestido com um manto galoado a ouro, preso com um cordão dourado, terminado por uma borla também dourada, nada tendo sobre a cabeça além do manto; as mangas do vestido chegavam até às mãos postas à altura do peito e donde pendiam umas contas brancas, terminadas por uma cruz também branca; parece-me que não vinha descalça, mas não posso determinar bem porque pousava sobre folhas envoltas em luz e porque não reparei bem nos pés; via-se um pouco das orelhas, mas não posso precisar se tinha brincos ou não, parecendo-me contudo que tinha um fiozinho de ouro”.
– “Qual era a tua idade e a dos teus primos nessa ocasião?”. Respondeu: – “Eu nesse tempo tinha dez anos, o Francisco nove e a Jacinta seis2”.
– “Os teus primos também viram e falaram com essa Senhora?”. Disse: – “Os meus primos não fizeram perguntas, mas a Jacinta dizia tê-la ouvido e o Francisco via-a, mas não a ouvia”.
– “E não te lembras de mais nada que acontecesse nesse dia?”. Disse: “Agora lembra-me isto: quando a Senhora me disse que ela era do Céu, eu perguntei-lhe se eu ia para o Céu, e ela disse que sim; se ia a Jacinta e ela disse que sim; se ia o Francisco e ela disse que sim, mas que ele devia rezar o terço; também me lembro que, depois de desaparecer a Senhora, veio um homem dizer que as ovelhas tinham ido para os chícharos e que já lhes tinha atirado com pedras e que os chícharos estariam comidos; foi por lá ver para avisar o dono, e depois disse ao dono, José Matias, que as ovelhas tinham ido para os chícharos, mas que eles não estavam comidos”.
– “A Aparição durou muito tempo? Tiveste medo durante ela? Contaste a alguém o que viste?”. Disse: “A Aparição durou pouco tempo e durante ela não tive susto nenhum; ao irmos para casa, combinei com os meus primos não dizer nada a ninguém, e nos dias seguintes íamos, quando podíamos com as ovelhas para a Cova da Iria, ou passaríamos lá ao recolher o gado, rezando aí uma Avé Maria”.
Notas dos editores (2)
1 António Rodrigues Pena. Foi pároco de Fátima entre 1909 e 1914.
2 Jacinta tinha já sete anos.
Os teus primos falaram alguma vez com a Senhora?”. Respondeu: “Nunca falaram; uma vez combinámos que a Jacinta lhe falasse, mas, chegando lá, a Jacinta não disse nada.”
– “O semblante da Senhora era risonho?”. Respondeu: “Era triste; quando falava, abria as mãos que estavam juntas e erguidas de encontro ao peito”.
[…]
Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”. Respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário.
– “E quem era essa Senhora?”. Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora”.
13 de junho de 1917 11 relatos
Quando mais tarde pude chegar ao pé dela, perguntou-lhe o que tinha visto. Respondeu que tinha visto a mesma mulherzinha do outro dia. Perguntou-lhe o que ela tinha dito. Disse que tinha dito que continuassem a ir lá e que aprendessem a ler.
Ali perguntaram à Lúcia qual era a azinheira sobre a qual tinha aparecido a Senhora e ela indicou-a com a mão. Depois dirigiram-se para a sombra de uma azinheira grande que ficava próxima, onde estiveram algum tempo à espera. Pouco depois, tendo-lhe perguntado se a Senhora tardava muito tempo, respondeu que não. Uma rapariga pediu que rezassem todos a ladainha, declarando a Lúcia que já não havia tempo. Quase ao mesmo tempo levantou-se e disse que lá vinha Nossa Senhora, pois já tinha feito o relâmpago. Correu para o pé da azinheira, ajoelhou-se e todos fizeram como ela. Momentos depois perguntou à Aparição: “Vossemecê mandou-me aqui vir, faça favor de me dizer o que me quer”. Ouviu uma zunida que vinha da azinheira, não compreendendo uma só palavra da resposta. A Lúcia olhava para a azinheira, assim como as outras duas crianças, estando todos de mãos postas. A depoente não compreendeu bem o que ela depois disse à Aparição mas as outras pessoas disseram-lhe que a pequena lhe tinha perguntado se lhe queria mais alguma coisa. Em seguida disse: – “Olhem! Querem-na ver?... Lá vai ela, lá vai ela!”
Diz a Lúcia que esteve um bocado à espera e durante este tempo esteve a rezar o terço e quando iam para rezar a ladainha disse: não comecem que já não têm tempo, pois estava muita gente, por já ter visto o relâmpago e dirigiu-se à carrasqueira com o povo que estava: ao chegar fez uma vénia dobrando um joelho e ao mesmo tempo chegou a Senhora vindo em linha oblíqua do lado do nascente e fez a pergunta:
– Então o que é que me quer?
– “Quero-te dizer que voltes cá no dia 13 e que aprendas a ler para te dizer o que te quero.”
– Então não quer mais nada?
– Não quero mais.
O traje era: um manto branco que da cabeça chegava ao fundo da saia, era dourado da cintura para baixo dos cordões a atravessar e de alto a baixo e nas orlas era o ouro mais junto. A saia era branca toda e dourada em cordões ao comprido e a atravessar, mas só chegava ao joelho; casaco branco sem ser dourado, tendo nos punhos só dois ou três cordões; não tinha sapatos, tinha meias brancas, sem serem douradas; ao pescoço tinha um cordão de ouro com medalha aos bicos; tinha as mãos erguidas; tinha nas orelhas uns botões muito pequeninos e muito chegados às orelhas; separava as mãos quando falava; tinha os olhos pretos; era de meia altura.
Logo após o dia treze de junho comparece na minha presença e residência paroquial, a menina Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório da Lúcia, a qual me disse que no dia treze do corrente mês de junho, por cerca da uma hora da tarde, se dirigiu com seus primos Francisco e Jacinta para a Cova da Iria. Chegados lá, rezou o terço, com as pessoas que estavam presentes. Terminado o terço, iam as pessoas para rezar a Ladainha, e ela, que já tinha visto o relâmpago, lhes disse: não comecem que já não têm tempo.
Que vai mais para o pé da carrasqueira e vê chegar a Senhora, vindo do nascente. E lhe pergunta:
– Então o que é que me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que voltes cá nos dias treze e que aprendas a ler para te dizer o que quero.
– Então não me quer mais nada?
– Não te quero mais nada.
E logo se começou a elevar e desapareceu.
No dia de Santo António (a 13 de junho). Neste dia houve uma festa na Fátima à qual a mãe da Lúcia (e não sei se também a do Francisco e da Jacinta queria que fossem assistir, mas em obediência ao que lhe tinha recomendado no mês anterior, deixaram a festa para irem ao local da aparição, onde se encontraram com algumas pessoas desconhecidas e apenas umas 3 ou 4 conhecidas. Um pouco mais ou menos pela mesma hora do mês anterior aparece-lhes a mesma visão pela mesma forma e desta vez disse-lhes que continuassem a ir ali nos meses seguintes; que aprendessem a ler; e disse-lhes um segredo, que lhes proibiu revelar fosse a quem fosse. – Dias depois próximo do sítio da aparição andando os três com o seu gado, pensaram em ir rezar o terço no local da aparição, mas para isso era forçoso, ou abandonarem o gado, com perigo de ir danificar as searas próximas, ou um pelo menos ficar em guarda e não ir rezar o terço; resolveram ir todos rezar o terço e abandonar o gado, que imediatamente foi para uma terra de milho, couves, chícharos e outros legumes. Uma mulher que por ali próximo andava, ao ver as ovelhas naquela seara, chama os pastores que não lhe responderam pelo que ela mesma foi virar as ovelhas, que ao voltar as costas imediatamente para lá voltaram. Terminado o terço foram os três para o seu gado, virá-lo do sítio em que andava e observar o prejuízo que tinha causado, mas qual não foi o seu espanto quando viram que nada tinha sido danificado o que foi confirmado pelo próprio dono que sendo-lhe dito que o gado tinha andado na sua fazenda foi ao outro dia para observar o prejuízo que lá tinha, constatando que prejuízo algum lhe tinha causado.
22 - Da 2a vez: Que continuasse a gente lá a ir e que aprendesse a ler.
O que foi que disse a Senhora em junho?
– Disse que continuássemos a ir à Cova da Iria e que aprendêssemos a ler.
42a – Disse mais alguma coisa?
– Estava presente um filho do Manuel Carreira, da Moita, aleijadinho das pernas e das costas6. Perguntei à Senhora se o curava, e ela disse que seria curado dentro de um ano. Já se curou pouco a pouco das costas. Perguntei também se a Senhora era servida converter uma mulher da Moita e ela disse que a converteria dentro de um ano7.
43a – Que mais disse a Senhora?
– Não me recordo de mais nada.
Notas dos editores (2)
6 João Carreira. Filho de Manuel Carreira e de Maria Carreira ou Maria dos Santos (Maria da Capelinha). Nasceu a 26 de março de 1901, na Moita. Foi guardião da Capelinha das Aparições. Faleceu, no Santuário de Fátima, no dia 6 de abril de 1975.
7 Deve notar-se que estes pedidos da Lúcia, aqui referidos como tendo sido feitos em junho, aparecem nos primeiros interrogatórios do Pároco de Fátima, em julho. Por outro lado, aqui fala-se de “uma mulher da Moita”, enquanto naqueles se refere “uma mulher de Fátima”.
Quando foi que perguntaste à Senhora o que é que fazia para que o povo acreditasse que era ela que te aparecia?
– Perguntei-lhe umas poucas de vezes; a primeira vez que perguntei cuido que foi em junho.
61a – Quando te disse o segredo?
– Parece-me que foi da 2a vez.
Estava-mos á espera que a Senhora aparece-se junto da carrasqueira, e deu um relampago e a Senhora apareceu em sima da carrasqueira.
Perguntei-lhe o que me queria; a resposta. Quero que continuêm a vir aqui todos os meses, e que aprendam a ler. Pedi-lhe para curar um côcho e algumas pessoas que me tinham pedido; umas duentes outras pela coverção de alguns peccadores. Resposta; Daqui a um ano seram curados. Com isto desapareceu subindo para o lado do nascente e indo tam alta que as nuvens e o azul do céu não nos deixou ver mais. Se êste mez aconteceu mais alguma coisa não me lembro.
Estiveste lá no dia treze do mês seguinte? Respondeu: “No dia treze de junho era festa de Santo António e a minha mãe não tinha muita vontade de me deixar ir à Cova da Iria, porque queria que eu fosse à festa de Santo António, mas algumas pessoas que tiveram conhecimento da Aparição foram buscar-me e à Jacinta e acompanharam-nos até à carrasqueira, aí pela volta do meio-dia. A Jacinta contou à mãe que na Cova da Iria tinha visto uma coisa muito bonita e, por insistência dela, disse-lhe o que foi; eu, só passados oito dias, a uma pergunta da minha mãe, disse o que se tinha passado. Foi assim que se soube.
Quando chegámos junto da carrasqueira, rezámos; e, terminada a oração, vi um relâmpago, estando um dia de muito calor, e a seguir apareceu a Senhora em cima da carrasqueira, vestida da mesma moda. Perguntei-lhe: “O que me quer Vossemecê?” A resposta dela foi: – “Quero que continuem a vir aqui nos outros meses, que rezem o terço todos os dias e que aprendam a ler”. Como me tinham recomendado, pedi à Senhora que curasse um entrevado, e ela respondeu que, se ele se convertesse, ficaria curado dentro dum ano. Depois subiu para o lado do nascente e desapareceu entre as nuvens e o azul do céu”.
– “As pessoas presentes também viram a Senhora?” Respondeu: “O povo perguntou-me e eu disse o que vi, mas não sei se mais alguém viu; depois rezámos o terço, cantámos e fomos para a festa”.
– “Depois dessa Aparição foste visitada por pessoas que te interrogassem sobre ela?”. Respondeu: “Fui visitada por muitas pessoas, e entre elas alguns sacerdotes, que me apertaram com perguntas e me ralharam muito, dizendo-me pessoas da minha família que eu mentia, e a minha mãe chegou a bater-me com o cabo duma vassoura”.
O que em 1917 foi confiado a este respeito é o seguinte: Ela pediu para os levar para o céu: a Santíssima Virgem respondeu: sim a Jacinta e o Francisco levo-os em breve, mas tu ficas cá mais algum tempo; Jesus quer servir-se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração; a quem a abraçar prometo a salvação e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por mim a adornar o seu trono. Fico cá sozinha?, disse com tristeza. Não, filha, Eu nunca te deixarei, o meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.
13 de julho de 1917 18 relatos
A uma d’elas, a que tinha o privilegio de ouvir e vêr a santa, fizeram varias pessoas muitas perguntas, ás quaes respondia dizendo que via uma especie de boneca muito bonita, que lhe falava. Tinha, dizia, um resplendor em torno da cabeça e chamava-a para junto de si, n’uma voz muito fininha e melodiosa. Entre muitas coisas que lhe disse, a principal foi anunciar-lhe a sua reaparição do dia 13 a um mez e no mesmo sitio, aparecendo ainda mais outra, para declarar o motivo por que tinha vindo ao mundo.
Quando acabaram de o rezar, a Lucia disse: “ajoelhe quem puder”. Em seguida ouvi-lhe fazer algumas perguntas. Entre outras cousas disse: “Uma creatura no Pedrogam pede á Senhora que a cure ou a leve para o Ceu”. Pediu tambem a conversão de uma familia de Athouguia e de outra da Fatima. Por ultimo ouvi-lhe estas palavras: “A Senhora disse que havia de fazer um milagre com que todo o povo acredite”.
A pequena perguntou: “O que deseja, minha Senhora, que eu possa fazer.” Em seguida accrescentou: “Está uma pessoa no Pedrogam que pede que lhe converta a familia da casa. Está uma mulher na Fatima que lhe pede a graça de converter a familia toda. E está um homem na Athouguia que pede a Nossa Senhora que o leve para o Ceu quanto mais depressa melhor. E peço a Nossa Senhora que melhore os coxos.” No fim de cada pergunta e de cada pedido esperava um pouco. Depois disse que Nossa Senhora tinha dito que os melhorava e se os não melhorasse lhes daria auxilio para que se governassem. Emquanto a Lucia estava a ouvir a resposta parecia-me sentir um zunido (uma zunida) como de uma guitarra. Quando ella se levantou, disse: “Voltem-se para alli se a querem ver.”
[…]
Esquecia-me [de] dizer que tambem pediu á Senhora que fizesse um milagre com que o povo todo acreditasse.”
Falou então e disse que ajoelhasse quem pudesse. Em seguida perguntou: “O que é que minha Mãe me quer?” D’ahi a pouco perguntou de novo: “Então não me quer mais nada?” Depois fez-lhe varios pedidos por pessoas do Pedrogam, da Athouguia e de Aljustrel, pedindo curas e conversões” Perguntou tambem se ella não era capaz de fazer um milagre com que todo o povo acreditasse. Depois de escutar a resposta disse: “Adeus! Virem-se todos para alli!” Uma hora depois, estando a creança comigo, disse-me que a Senhora tinha dito que no ultimo dia faria um milagre para que todo o povo acreditasse.
A Lúcia disse, o que o pai ouviu: “Eu o que queria – ai! Nossa Senhora!”, e pediu a cura e a conversão de diversas pessoas, não se recordando o pai o nome delas.
A Lúcia depois acrescentou: “diz que nem todas melhoram, porque algumas são más”. Declarou ainda que a Senhora tinha dito que rezassem todos o terço e que a guerra em breve ia acabar. Estavam então as crianças de joelhos, a Lúcia levantou-se rapidamente, ficando o vestido em balão, e disse apontando: “Olhem para acolá, se a querem ver” – e acrescentou logo: “Já não vão a tempo”. Ela estava voltada quase ao poente e voltou-se para o nascente a indicar a Senhora que se retirava.
Quando a Lúcia disse que vinha a Senhora, o filho escorregou e caiu. Pediu-lhes que rezassem por ele, ao que ela disse que a Senhora tinha dito que o melhorava ou que lhe daria meios de se governar e que rezasse sempre o terço a Nossa Senhora com a família. Estavam todos ajoelhados. Disse a Lúcia: “Já lá vem Nossa Senhora”. Ouviu-se a mesma zunida quando falava e o mesmo assobio de foguete à partida. Antes da aparição rezaram o terço. O marido disse que ela olhava para a Senhora e de vez em quando para o lado e que lhe perguntou porque fazia isso, ao que ela respondeu que era porque cegava a vista com o resplendor que tinha. Pediu a Lúcia pelas melhoras duma pessoa de Pedrógão, pela conversão duma família de Fátima, e por um homem da Atouguia que lhe pedira que Nossa Senhora o levasse para o Céu quanto antes. Depois a depoente ouviu dizer que a pequena tinha afirmado que Nossa Senhora dissera que não tivesse pressa, porque bem sabia quando o havia de levar.
Afirmou também a Lúcia que a Senhora lhe tinha dito o segredo. Na ocasião da aparição ouviu-se um ai, ficando a pequena assustada. Depois desse dia muitas pessoas a procuravam e lhe perguntavam o segredo. Um dia vieram umas senhoras e uma delas perguntou-lhe se o segredo era bom ou mau, e ela disse que para uns era bom, para outros era mau, e para ela e para os primos era bom.
No dia 14-7-1917 veio à minha presença Lúcia de 10 anos, disse que saiu de casa no dia 13 pelas onze horas, chamou a Jacinta e chegámos à estrada nova: fomos a correr até lá, a gente dizia que fôssemos devagar e nós dizíamos que não nos cansavam as pernas para irmos devagar. Chegámos e encontrámos lá minha irmã e ela mandou-me pedir o terço, eu pedi-o e rezámo-lo; estivemos um nadita, deu um relâmpago e veio a Senhora. Levantei-me, disse que se chegassem para trás alguma coisa e que ajoelhassem os que pudessem e quisessem, tornei a joelhar e perguntei-lhe:
– O que é que me quer?
– Quero-te dizer que voltem cá no dia 13.
E disse mais:
– “Rezem o terço a Nossa Senhora do Rosário que abrande a guerra que só ela é que lhe pode valer.”
Eu disse mais:
– Tenho aqui por pedido se vossemecê converte uma mulher do Pedrógão e uma da Fátima e se melhora um menino da Moita1.
Ela disse que os convertia e melhorava entre um ano.
Eu disse:
– Faça um milagre para que todos se acreditem.
– Daqui a três meses farei então com que todos acreditem.
– Não me quer mais nada?
– “Não, eu por mim agora não te quero mais nada.”
Eu disse-lhe:
– Pois eu por mim também não quero mais nada.
Depois ela foi-se para o lado do nascente e eu disse ao povo:
– Olhem para ali para a ver, para o lado onde ela ia.
O povo voltou-se.
Era exatamente a mesma que tinha visto das outras vezes.
[…]
Tinha aqui um pedido se vossemecê levava para o céu um homem da Atouguia o mais depressa melhor.
–Levo-o.
Notas dos editores (1)
1 João Carreira. Filho de Manuel Carreira e de Maria dos Santos, ou Maria Carreira (“Maria da Capelinha”). Nasceu a 26 de março de 1901, na Moita Redonda,
No dia catorze do mês de julho, compareceu na minha presença e residência paroquial, a vidente Lúcia, vindo acompanhada de sua mãe.
Procedi ao interrogatório, e ela, – a vidente Lúcia – disse que no dia treze deste mês de julho, se dirigiu com os seus primos, Francisco e Jacinta, à hora do costume, para a Cova da Iria, e que chegados lá pediu o terço – isto é, presidiu à sua recitação, – rezando-o com o povo (calculado em duas mil pessoas) –. Terminado o terço esperou um bocadito, e logo viu o relâmpago e em seguida veio a Senhora. Levanta-se, estava ajoelhada, e diz ao povo que se chegue para trás alguma coisa; que ajoelhem os que puderem e quiserem, e tornando a ajoelhar pergunta à Senhora:
– O que é que me quer hoje?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que voltes cá no dia treze: Rezem o terço a Nossa Senhora do Rosário que abrande a guerra que só Ela é que lhe pode valer.
– Tenho aqui por pedido se Vossemecê converte uma mulher do Pedrógão e uma de Fátima, e se melhora um menino da Moita?
E que a Senhora lhe respondeu que os convertia e melhorava dentro de um ano.
– Tenho aqui por pedido se Vossemecê leva um homem da Atouguia para o Céu o mais depressa melhor.
E Ela respondeu:
– Levo mas... (aqui não sei que mais disse).
– Faça um milagre para que todos acreditem!?
E a Senhora respondeu:
– Daqui a três meses faço então com que todos acreditem.
– Não me quer mais nada?!
– Não te quero mais nada.
Dito isto, que se elevou como das outras vezes seguindo para o nascente e desapareceu.
Dizia a pequena, que a Senhora lhe tinha dito um segredo que não podia dizer a ninguém e que ela tinha pedido por alguns doentes e que lhe parece que a Senhora dizia que uns melhoravam outros não.
A 13 de julho. Desta vez recomendou-lhe que rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário para que abrandasse a guerra; que só Ela lhe podia valer e que nos meses futuros continuassem a ir àquele sítio como até ali.
Fômos hontem entrevistar os videntes. A Lucia que é a unica que falla com Nossa Senhora, estava na igreja, onde tinha ido com a mãe para ouvir missa e commungar. Recebeu a primeira communhão aos 7 annos. É muito meiga. Disse-nos — a brincar sempre com as nossas mãos ou os nossos lorgnons — que Nossa Senhora quer que se reze o terço todos os dias; que peçamos muito perdão dos nossos peccados, porque Nosso Senhor está muito offendido; e que se lhe levante n'aquelle logar uma capellinha. Apresenta-se sob a invocação de Nossa Senhora do Rosario. Veste de branco; descalça; manto branco na cabeça e umas contas tambem brancas na mão direita. Annunciou para já — a vidente diz “hoje” — a cessação da guerra, e que os nossos militares veem brevemente. Nossa Senhora disse-lhe um segredo, que ella tem sido instada a divulgar, mas que persiste em não dizer. Respondeu a um homem: — Nossa Senhora disse-me que não dissesse a ninguem; e vocemecê é alguem.
Notas dos editores (2)
5 A autora deve referir-se a José Rino e Capitolina Guimarães Rino, de Alcobaça, que estiveram na Cova da Iria, nesse dia, e contaram, com os mesmos pormenores, a Luís Vasconcelos, depois barão de Alvaiazere, os fenómenos de 13 de Setembro de 1917 (Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 25).
6 Cremos que se trata da "limousine" de José Rino (cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 27).
3a vez - Que continuasse a vir, que rezasse o terço a N. Senhora para que acabasse a guerra pois só ela é que podia valer. Demorava-se pouco; já estava muita gente.
Mas a Lucia diz e sustentou que se não lembrava, nem de N. Sa lh'o ter dito, nem de ella o têr repetido. Mas o facto é que mais pessoas fidedignas que estavam ao pé d'ella o affirmam. Eu creio que a pequena se perturba, à força de exgotada e cansada.
O que ella confirma é ter-lhe N. Sra dito que a guerra acabava n'aquelle dia quando Ella chegasse ao Céo e que muito breve os militares voltariam para as suas famílias. Diz que não está bem certa se N. Sra lhe disse que era N. Sra Rosario ou se queria a Capella a N. Sra do Rosario, que foi uma das cousas.
O segredo, não lhe disse que o dissesse a ninguem10 e continuam na mesma tenacidade em o guardar.
Notas dos editores (1)
10 A autora deveria querer dizer: "O segredo, disse-lhe que o não dissesse a ninguem [...]"; ninguem, sublinhado no texto.
Que disse a Senhora em julho?
– Disse que continuássemos a ir à Cova da Iria e que rezássemos o terço a Nossa Senhora do Rosário para que abrandasse a guerra, que só ela lhe poderia valer. Pedi à Senhora a cura de enfermos e a conversão de pecadores que me tinham recomendado e ela disse-me que melhoraria uns, outros não, e converteria uns, outros não.
45a – Disse mais alguma coisa?
– Não me recordo que tivesse dito mais nada nesse dia.
A folhas cinco do inquérito paroquial, no interrogatório sobre a terceira aparição, que se verificou a treze de julho de mil novecentos e dezassete, a Lúcia depõe que, tendo dito a Senhora: “Faça um milagre para que todos acreditem!”, esta respondeu: “Daqui a três meses faço então com que todos acreditem”.
Pela hora do meio dia assim como todos os outros mezes aprossimarmo-nos da carrasqueira para vermos a Senhora. Deu um relampago e apareceu a Senhora em sima da asinheira. Pergunta. O que é que vosseme-se me quer hoge? Resposta. Quero que continuem a a vir aqui o resto dos mezes Querem aprender uma oração Queremos sim, é a seguinte. Ó meu Jesus perdoai-nos, livrae-nos do fogo do inferno e levai as alminhas todas para o céu pricipalmente aquelas que mais d'ele precizarem.
Em seguida confiou-nos algumas palavrinhas; disendo-nos. Não digão histo a ninguem só o podem dizer ao Francisco. Quero-lhe pedir por algumas pessoas que me pediram para eu lhe pedir por élas; umas cégas outras aleijàdas outras mudas. Daqui a um ano algumas seram curadas.
E nisto subio ao céu como todos os outros mezes.
Voltaste a Cova da Iria no mês de julho?”. Respondeu: “Voltei no dia treze de julho, como a Senhora recomendara; estava lá bastante gente, pela hora do meio dia. Rezámos o Terço ao pé da carrasqueira; depois de acabar, estando de pé, deu um relâmpago, e apareceu a Senhora em cima da azinheira. E eu perguntei-lhe: o que é que Vossemecê me quer hoje? A Senhora respondeu: – “Quero que continuem a vir aqui o resto dos meses e continuem a rezar o terço”. Depois a Senhora disse: “Querem aprender uma oração?”. “Queremos sim”, respondi. E a Senhora ensinou assim: – “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno e levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem”.
Em seguida, confiou a mim e à Jacinta algumas palavrinhas, recomendando-nos que não as disséssemos a ninguém, só as podendo dizer ao Francisco. Como me tinham pedido, pedi à Senhora a cura de algumas pessoas, umas cegas, outras aleijadas e outras mudas, e ela disse que dentro dum ano algumas seriam curadas. E nisto subiu ao Céu como das outras vezes”.
A Lucia, hoje religiosa e a unica vidente viva, aludiu a um segredo que a S.S. Virgem lhe declarou. Não m'o disse, nem eu insisti.
13 de agosto de 1917 18 relatos
Ao interrogar a menina Lúcia sobre quem lhe tinha ensinado a dizer o que tem dito; responde que foi aquela Senhora que viu na Cova da Iria. Ao dizer-lhe que vai para o inferno quem diz mentiras que causam tanto prejuízo como o que causa o que ela diz – se fôr mentira, por tanta gente vir enganada – responde, que, se quem diz mentiras vai para o inferno, ela que não vai para o inferno por causa disso, porque não diz mentiras, mas só diz o que viu e o que a Senhora lhe disse, e que se o povo vem é porque quer, que ainda não chamou ninguém. Pergunto-lhe se a Senhora lhe tinha dito algum segredo. Responde que sim; mas, que me o não diz. Feitas várias interrogações sobre ele, responde: Olhe!... se quer... vou lá acima e pergunto à Senhora se Ela me dá licença para eu dizer o segredo e se Ela me der licença, então digo-lhe.
Então o pequeno declarou que a Lúcia lhe dissera que já via os sinais no Céu, que Nossa Senhora também aparecia nesse dia e que queria que a Jacinta também lá estivesse.
No dia dezanove, a Lúcia chegou a casa à noite, trazendo na mão um raminho de azinheira e disse que Nossa Senhora lhe tinha aparecido um pouco antes do sol posto, aí pelo meio da tarde, às quatro horas, tendo estado ao meio-dia com o gado em casa. A mãe pegou no ramo e notou que cheirava muito bem. O cheiro não se podia comparar com nenhum outro cheiro. Ela era descrente e ficou um pouco quebrada, um pouco mais convencida. Disse a filha que a Senhora tinha dito que continuassem a ir à Cova da Iria e que havia de fazer um milagre em outubro na Cova da Iria, que os militares haviam de vir da guerra, que havia de vir Nossa Senhora das Dores e outras coisas mais.
Fiz-lhe uma vénia, levantei-me outra vez e perguntei-lhe:
– O que é que vossemecê me quer?
– “Quero dizer-te que voltes lá à Cova da Iria; se não tivessem abalado contigo para a Aldeia4 seria o Milagre mais conhecido; havia de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda.”
Perguntei:
– Aquele dinheiro que vossemecê tem, o que é que vossemecê quer feito dele?
– Aquele dinheiro façam dois andorzinhos pequeninos; um leva-o tu mais três meninas como tu e vão de branco; o outro leva-o o Francisco e mais três meninos como ele; levem uma capa branca, levem-no à Senhora do Rosário e apliquem-no a ela. Depois abalou pelo ar acima e eu disse adeus.
Perguntei-lhe da 1a ou 2a vez quem era e ela disse que no último dia me dizia.
Notas dos editores (3)
2 Dia 19 de agosto.
3 Atualmente Valinhos, a cerca de 400 metros a noroeste da casa de Lúcia.
4 Aldeia da Cruz, antigo nome de Vila Nova de Ourém, atualmente Nossa Senhora da Piedade.
No dia vinte e um compareceu na minha presença a menina Lúcia e disse que no dia treze em que foi levada pelo administrador para Vila Nova de Ourém, e onde esteve, na casa do mesmo administrador, até ao dia quinze, não viu nada de extraordinário. No dia dezanove, que fôra domingo, andava a pastorear as ovelhas, no sítio do Valinho, com o primo Francisco e um irmão deste chamado João, mais velho que o Francisco, e vendo os ares semelhantes àqueles em que costumavam ver a Senhora, pede ao primo João, oferecendo-lhe um vintém, para ir chamar a Jacinta que estava em casa dos pais. E logo que esta chegou lhes apareceu a Senhora em cima de uma carrasqueira; que todos a viram, menos o primo João, irmão do Francisco e da Jacinta. E então que lhe perguntou:
– Então o que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora lhe respondeu:
– Quero dizer-te que voltes lá à Cova da Iria: se não tivessem abalado contigo para a Aldeia (Vila Nova de Ourém), o milagre seria mais conhecido. Havia de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo. Havia de vir Nosso Senhor benzer o povo. Vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjinho de cada lado. Vinha Nossa Senhora das Dores com um arco de flores à roda.
– Aquele dinheiro que Vossemecê tem, o que é que Vossemecê quer feito dele? (É o dinheiro das esmolas oferecidas).
Feita esta pergunta, a Senhora respondeu:
– Aquele dinheiro... façam dois andorzinhos; um leva-o tu e mais três meninas como tu e vão de branco, e outro leve-o o Francisco e mais três meninos como ele, levem uma capa branca, levem-nos à Senhora do Rosário e apliquem-nos a Ela.
Dito isto, desapareceu, elevando-se pelo ar acima. Da primeira ou segunda vez que lhe apareceu perguntou-lhe quem era, – e a Senhora respondeu que lho dizia no último dia. Disse também que da segunda vez ou terceira vez que lhe apareceu, lhe ensinou uma oração que costuma rezar, entre os mistérios do terço quando o reza, na Cova da Iria. – A oração é: Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno:
levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem.
Desta vez apareceu-lhes no sítio dos Valinhos no domingo imediato ao do dia 13 de agosto (porque neste dia foram traiçoeiramente levadas para Ourém, pelo respetivo administrador que as enganou, dizendo que ele mesmo as levava no seu carro para o local da aparição). Neste dia disse-lhe que se elas no dia 13 não tivessem sido levadas pelo administrador, o milagre (para o povo) não teria sido tão conhecido. Fez-lhe a Lúcia vários pedidos para que convertesse certas pessoas e melhorasse alguns doentes ao que Ela respondeu que se converteriam e melhorariam alguns, mas outros não porque não acreditavam e alguns nem sequer em seu Filho.
4a vez - Fui presa
No dia treze do corrente Nossa Senhora disse que a guerra acabava nesse mesmo dia? Quais foram as palavras que empregou?
– Disse assim: “A guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito em breve”.
2a – Ela disse: “esperem cá pelos seus militares” ou “esperem cá pelos vossos soldados”?
– Disse: “esperem cá pelos militares”.
3a – Mas olha que a guerra ainda continua!... Os jornais noticiam que tem havido combates depois do dia treze!... Como se explica isto, se Nossa Senhora disse que a guerra acabou nesse dia?
– Não sei. Só sei que lhe ouvi dizer que a guerra acabava no dia 13. Não sei mais nada.
4a – Algumas pessoas afirmam que te ouviram dizer nesse dia que Nossa Senhora tinha declarado que a guerra acabava brevemente. É verdade?
– Disse tal e qual como Nossa Senhora tinha dito.
5a – No dia 27 do mês passado fui a tua casa falar contigo, lembra-te?
– Lembro-me de o ver cá.
6a – Pois nesse dia disseste-me que Nossa Senhora tinha dito que no dia 13 de outubro vinham também S. José e o Menino Jesus e que depois disso brevemente acabaria a guerra, não nesse dia.
– Não me recordo já bem como Ela disse. Podia ter dito isso; não sei. Talvez não entendesse bem a Senhora.
7a – No dia treze do corrente mandaste ao povo que olhasse para o sol?
– Não me lembro de assim fazer.
8a – Mandaste fechar os chapéus?
– No outro mês atrás mandei. Da última vez não me lembro de mandar.
9a – Sabias quando devia começar o sinal no sol?
– Não.
10a – Olhaste para ele?
– Olhei; parecia que era a lua.
11a – Porque foi que olhaste para o sol?
– Olhei, porque toda aquela gente disse que olhassem para o sol.
12a – Nossa Senhora disse que pediria a seu Divino Filho pelas almas dos soldados mortos na guerra?
– Não, senhor.
13a – Disse que o povo seria castigado se não se emendasse dos seus pecados?
– Não me lembro se Ela o disse. Parece-me que não.
14a – No dia 13 não tinhas dúvidas como agora acerca do que a Senhora disse. Como se compreendem as tuas dúvidas de hoje?
– Nesse dia lembrava-me melhor, tinha sido há menos tempo.
15a – O que viste há cerca de um ano? Tua mãe diz que tu e outras crianças viram um vulto embrulhado, que não deixava ver o rosto. Porque foi que me disseste o mês passado que não foi nada?
– !...
16a – Dessa vez fugiste?
– Cuido que fugi.
17a – No dia onze deste mês não me quiseste dizer que no dia treze do corrente haviam de aparecer Nosso Senhor abençoando o povo e Nossa Senhora das Dores. Foi com receio de que eu fizesse troça de ti, como outras pessoas já tinham feito, dizendo que isso era impossível? Ou era porque estavam presentes muitas pessoas estranhas e tiveste acanhamento de dizer isso diante e tanta gente? Olha que a Jacinta disse-me tudo...
– !...
18a – Quando foi que Nossa Senhora te disse que se haviam de dar essas aparições no dia treze de outubro?
– Foi no dia em que apareceu nos Valinhos ou no outro dia treze. Não sei bem.
19a – Viste também Nosso Senhor?
– Vi uma figura que parecia ser um homem; parecia Nosso Senhor.
20a – Onde estava essa figura?
– Estava ao lado do sol.
21a – Viste-a abençoar o povo?
– Não vi; mas Nossa Senhora tinha dito que Nosso Senhor viria abençoar o povo.
22a – Se o povo soubesse o segredo que Nossa Senhora te revelou ficava triste?
– Cuido que ficava como está, quase à mesma.
Que disse a Senhora em agosto?
– Em agosto não fui lá.
47a – Mas que disse ela no domingo seguinte quando te apareceu no sítio dos Valinhos?
– Nos Valinhos disse que se não tivéssemos sido presas não seria o milagre tão conhecido e que teriam vindo S. José com o Menino dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo.
48a – Que mais disse Ela?
– Perguntei-lhe o que devia fazer ao dinheiro que se tinha juntado e ela disse que o levássemos em dois andores à Senhora do Rosário, nos dias das festas da Senhora do Rosário.
49a – Foste tu que te lembraste de fazer essa pergunta?
– Não; quem tinha o dinheiro é que me mandou fazer essa pergunta.
50a – A Senhora não disse mais nada?
– Tornei a pedir pelos doentes e pecadores recomendados e ela disse que uns seriam melhorados e outros convertidos dentro de um ano.
Nesse dia não lhe perguntei mais nada.
O que foi que a Lúcia disse à Senhora?
– Perguntou-lhe o que é que ela cá vinha fazer.
14a – Ouviste a resposta da Senhora?
– Não ouvi, mas a Lúcia esteve um bocadito à espera.
15a – A Lúcia fez mais perguntas?
– Fez. Tornou a falar, mas não me lembro do que disse, a não ser da última pergunta que foi se ela trazia cá o meu Manuel.
16a – A Lúcia não te contou depois o que a Senhora lhe tinha dito?
– Disse-me no mesmo dia ao pé da carrasqueira, logo de caminho, que, se não fosse levada para a aldeia (Vila Nova de Ourém) no dia 13, o milagre não seria tão conhecido.
Quando as crianças voltaram à Cova da Iria, disse-lhes que perguntassem à Senhora o que havia de fazer ao dinheiro. Nos Valinhos, quando se deu ali a aparição, a dezanove do mesmo mês, a pequena fez realmente à Senhora essa pergunta e a Senhora disse que fizessem dois andores e os levassem para a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Muitas pessoas ficaram com pena de que o dinheiro não se aplicasse em alguma coisa a fazer no local e disseram à Lúcia que pedisse autorização para fazer uma ermida no local, autorização que a Senhora deu em treze de setembro, com a condição de darem metade do dinheiro existente para a Senhora do Rosário da Fátima. Reuniu-se a quantia de treze mil quinhentos e quarenta, em treze de setembro. E cumpriu-se o que a Senhora ordenou.
Nos Valinhos perguntou a Lúcia à Senhora, a pedido da depoente, se Nossa
Senhora tinha aparecido a mais alguém na Cova da Iria, e a Senhora respondeu que não era ela, mas sim um anjo, o vulto que a Carolina, filha mais nova da depoente, de doze anos, e uma pequena de sete anos, de Espite, viram a vinte e oito de julho junto da azinheira, de pequena estatura, muito lindo, de cabelo loiro, vulto que depois a Carolina viu em cima da azinheira.
Ea-mos a caminho para o sitio da carrasqueira e disséram-nos que primeiro tinha-mos de ir a casa do Senhor Prior; formos pençando que êle nos queria alguma coisa; chegando lá subir-mos para a baranda esperando pelas ordens que nos davam; ninguem nos queria para nada.
Disseram-nos então. Subam para este carro para que cheguem mais de pressa lá ao sitio; primeiro meu pai disse que nós ia mos a pé; mas o Senhor Admenistrador mandou-nos subir de novo para o carro dizendo que indo no carro iamos livres do povo. Então por ordem do meu pai subi para o carro e os meus primos em vez de irem com nosco para a cova de Iria foram para Vila Nova de Ourem. Disse eu não é para aqui para êste lado; mas o Senhor Admenistrador respondeu dizendo que nós iamos a Ourem a casa do Senhor Prior e depois vinhamos num altemovel que ainda cá chegavamos a tempo; E assim que chegamos a Ourem fichou-nos dentro dum quarto prometendu-nos não sair-mos da-li enquanto não dissésse-mos o segredo que a Senhora nos tinha cofiado; e assim se passaram trez dias amiacando-nos com diversos castigos e prometendu-nos algumas peças de oiro mas nada conseguiram de nós. Entam vieram-nos por em casa do Senhor Prior.
Chegando a nossa casa formos logo pastar as ovelhas para um sitio chamado Valinho; andando na companhia do Francisco e do João a Jassinta tinha ficado em casa; então eu desconfiava que nossa Senhora nos fise-se alguma vesita e por inspiração de nossa Senhora, pedi ao João que fosse a casa chamar a Jassinta e como êle não quise-se ir prometi dar-lhe um vintem que tinha; então êle foi; chegando a Jassinta deu um relampago e apareceu a Senhora em sima du-ma carrasqueira.
Então o que é que vosse-messe me quer hoge? Quero que continuem a [ir] o resto dos meses á cova de Iria; Se não tivessem ido embora o milágre não era tam conhessido. A mulher que tem o dinheiro manda perguntar o que é que quer que se faça á quele dinheiro. Quero que façam dois andores no dia da festa de nossa Senhora do Rosario; um leva-o o Francisco com mais três rapazitos outro levano as meninas com mais duas. Quero lhe pedir por algumas peçôas que me pediram para a Senhora as curar; daqui a um ano algumas Seram curadas. E nisto subio como todos os outros mezes inclinada para o lado do nascente.
No mês de agosto, passou-se tudo da mesma maneira?”. Respondeu: “No mês de agosto foi diferente. Antes do dia 13 de agosto, eu e meus primos fomos chamados à Administração; o meu tio não levou lá os filhos, mas eu fui com meu pai. O senhor Administrador interrogou-me, quis insistentemente que eu lhe revelasse o segredo da Senhora, o que eu não fiz; depois de escrever mandou-me embora. No dia treze iamos para o sítio da carrasqueira, quando nos disseram que primeiro tínhamos de ir a casa do Senhor Prior. Lá fomos, subindo para a varanda da casa. Depois de estarmos algum tempo à espera, apareceu o Senhor Administrador que nos mandou entrar para um carro, dizendo que assim íamos mais depressa para a Cova da Iria.
Meu pai disse que nós iamos a pé, mas o Senhor Administrador teimou que era melhor irmos no carro, porque íamos livres do povo. Então, por ordem de meu pai, subi para o carro com os meus primos. O carro deu uma volta e seguiu na direção de Vila Nova de Ourém. “Não é para este lado”, disse eu, mas o Senhor Administrador respondeu que íamos a Ourém a casa do Senhor Prior e que ainda viríamos a tempo porque vínhamos de automóvel. Quando chegámos a Ourém, fecharam-nos num quarto e disseram que não sairíamos dali enquanto não declarássemos o segredo que a Senhora nos confiou. No dia seguinte3, uma senhora de idade interrogou-nos sobre o segredo; depois levaram-nos para a Administração, onde fomos de novo interrogados, oferecendo-nos peças de oiro para revelarmos o segredo. Voltámos para casa do Senhor Administrador, onde tínhamos ficado na noite anterior e de tarde fomos outra vez interrogados sobre o segredo. Levaram-nos à cadeia, e ameaçaram-nos de lá ficar, se o não disséssemos. Tornámos para a Administração, e como não disséssemos o segredo, prometeram que nos iam fritar com azeite. O Senhor Administrador mandou-nos retirar e disse a um homem que aprontasse uma caldeira com azeite quente. Chamou depois a Jacinta, dizendo que era a primeira a ser queimada. Ela foi prontamente, sem se despedir. Interrogaram-na e meteram-na num quarto. Chamaram a seguir o Francisco; disseram-lhe que a Jacinta já estava queimada e que ele teria a mesma sorte se não declarasse o segredo. Interrogaram-no e mandaram-no para o mesmo quarto. Foi depois a minha vez; disseram que os meus primos já estavam queimados e que eu teria a mesma sorte, se não dissesse o segredo. Embora pensasse que era certo, não tive medo. Mandaram-me para ao pé dos meus primos, e um homem disse que não tardaria a sermos queimados todos três. Levaram-nos para casa do Administrador, e lá ficámos aquela noite no mesmo quarto. No dia seguinte4, foi quase a mesma coisa: interrogatórios de manhã e à tarde, com muitas promessas e ameaças. No dia dezasseis5, fomos outra vez à Administração pelas dez horas, mas nada conseguiram de nós, como das outras vezes. Então o Senhor Administrador mandou-nos subir para um carro, e deixou-nos em casa do Senhor Prior, na varanda.
Notas dos editores (3)
3 Dia 14 de agosto.
4 Dia 15 de agosto.
5 Lúcia acrescenta, por engano, um dia. O regresso a Fátima foi no dia 15 de agosto, feriado, Assunção de Nossa Senhora.
Chegando a nossa casa, fomos logo com as ovelhas para um sítio chamado Valinho na companhia do Francisco e do João. A Jacinta tinha ficado em casa. Deu um relâmpago, e eu mandei chamar a Jacinta pelo João, irmão dela. O João não queria ir, e eu prometi-lhe dois vinténs para ele ir. Quando chegou a Jacinta, disse-lhe que tinha dado um relâmpago e que provavelmente a Senhora ia aparecer. Descemos por um atalho, e vimos a Senhora em cima duma azinheira. “O que é que Vossemecê me quer?”, perguntei eu. Ela disse: – “Quero que continuem a ir à Cova da Iria o resto dos meses até outubro e que rezem o Terço”. Perguntei mais: “O que se há de fazer ao dinheiro que estava na Cova da Iria?” A Maria do Rosário, da Moita6, tinha tomado conta dele e como nem os meus pais nem os dos meus primos quisessem ficar com ele, disse-me a mim que perguntasse à Senhora o que se havia de fazer desse dinheiro. A Senhora respondeu: “Façam dois andores, no dia da festa da Senhora do Rosário; um leve-o o Francisco com mais três rapazitos, o outro levem-no as duas com mais duas meninas”. Pedi-lhe a cura de algumas pessoas, e Ela disse que dentro dum ano algumas seriam curadas. Pedi-lhe também um milagre para o povo acreditar e Ela disse que no último mês fazia um sinal no sol, que todos haviam de acreditar; que com São José viria o Menino Jesus dar a bênção ao mundo, e Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Dores; que Nosso Senhor viria dar a paz ao mundo. Depois desapareceu como nos outros meses para o lado do nascente.”
– “Viram todos a Senhora?” – Respondeu: – “Eu e a Jacinta vimos e ouvimos; o Francisco como das outras vezes viu-a, mas não ouviu o que ela disse, e o João não viu nem ouviu nada”
– “Foi muita gente a tua casa perguntar pela Senhora?”. Respondeu: “foi muita gente, e até muitos sacerdotes, alguns dos quais me trataram de intrujona”.
Notas dos editores (4)
3 Dia 14 de agosto.
4 Dia 15 de agosto.
5 Lúcia acrescenta, por engano, um dia. O regresso a Fátima foi no dia 15 de agosto, feriado, Assunção de Nossa Senhora.
6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.
Logo que chegaram a Ourém, as crianças são fechadas num quarto e dizem-lhes que não sairiam dali, enquanto não declarassem o segredo que a Senhora lhes tinha confiado. No dia seguinte, depois de interrogadas por uma senhora, são conduzidas à administração do concelho e novamente interrogadas, havendo quem lhes ofereça peças de ouro para revelarem o segredo. À tarde foram outra vez interrogadas sobre o segredo. Levaram-nas à cadeia e ameaçaram-nas de lá as fazerem ficar, se o não dissessem. Como elas o não quisessem dizer, ameaçaram que as iam fritar em azeite. Nessa altura, na presença das crianças, o administrador disse a um indivíduo que estava próximo que aprontasse uma caldeira com azeite quente. Chamou depois a Jacinta, dizendo que era a primeira a ser queimada. Ela foi prontamente, e a Lúcia, no seu depoimento, acrescenta ingenuamente que foi sem se despedir. Interrogaram-na e meteram-na num quarto. Chamaram em seguida o Francisco, disseram-lhe que a Jacinta já estava queimada e que ele teria a mesma sorte, se não declarasse o segredo. Interrogaram-no e mandaram-no para o mesmo quarto. Foi depois a vez da Lúcia. Disseram-lhe que os primos já estavam queimados e que ela teria a mesma sorte, se não dissesse o segredo. Embora pensasse que era certo, a vidente não teve medo, como ela própria declara. Mandaram-na para junto dos primos e um homem disse que não tardariam a ser queimados todos três. Levaram-nos para casa do administrador e lá ficaram mais uma noite no mesmo quarto. No dia seguinte, sucedeu quase a mesma coisa: interrogatórios de manhã e de tarde, com muitas promessas e ameaças. No dia dezasseis foram outra vez à administração, pelas dez horas, mas nada conseguiram dos videntes, como das outras vezes, até que por fim o administrador os foi levar à residência paroquial de Fátima.
Notas dos editores (2)
21 O relator quereria referir-se ao 1º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Braga, de 2 a 6 de julho de 1924.
22 Três meses (maio, junho e julho).
A dezasseis de agosto, dia da quarta aparição, depois dos tristes episódios de Ourém, a Lúcia pediu à Senhora um milagre para que o povo acreditasse, e Ela disse que no último mês faria um sinal no sol e que todos haviam de acreditar. Depois do que se passara na sede do concelho e em face das dúvidas que tantas pessoas manifestavam acerca da realidade e sobrenaturalidade das aparições, era natural que a Lúcia se lembrasse de pedir à Senhora uma prova evidente de que ela não era mentirosa, como muitos pretendiam. Se não se lembrou, decerto alguém a aconselharia a fazer esse pedido. No dia treze de setembro, a Lúcia insistiu pelo cumprimento da promessa. Eis as palavras textuais que constam do relatório a fls. 526: “Pedi outra vez que fizesse um milagre para o povo acreditar, porque diziam que eu era uma intrujona que devia ser enforcada e queimada. A Senhora deu-me a mesma resposta da outra vez”.
Notas dos editores (1)
26 Trata-se do interrogatório a Lúcia, no dia 8 de julho de 1924 (cf. Doc. 82).
13 de setembro de 1917 10 relatos
5ª Aparição: 13-9-917 – Chamei à minha presença a Lúcia no dia 15 que disse que no dia 13 viu a mesma mulher vestida de branco que lhe pareceu ser a mesma que viu das outras vezes; pouco mais viu do que a cara para onde olhava continuamente para tomar sentido no que ela dizia; vem do nascente; diz que viu um relâmpago, depois viu aquela mulher a chegar à carrasqueira e diz que perguntou:
– O que é que vossemecê quer?
– Quero dizer-te que continues a rezar sempre o terço à Senhora do Rosário, que abrande ela a guerra, que a guerra está para acabar1; para o último dia há de vir S. José dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo; que venhas cá para o dia 13 de outubro.
– Está aqui este menino que é mudo e mouco, se vossemecê o melhora.
– Daqui a um ano se acharia com algumas melhoras.
– Tinha aqui muitos pedidos, uns para os converter outros para os melhorar.
– Melhoro alguns, outros não porque Nosso Senhor não quer crer neles.
– O povo muito gostava aqui duma capelinha.
– Metade do dinheiro que juntaram até hoje façam os andores e deem-os à Senhora do Rosário; a outra metade seja para ajuda da capelinha.
Ofereci-lhe duas cartas e um vidro com água de cheiro.
– Deram-me isto, se vossemecê os quer.
– Isso não é conveniente lá para o céu.
E foi-se para o nascente e eu disse ao povo: se a querem ver voltem-se para acolá.
Notas dos editores (1)
1 A primeira guerra mundial (1914-1918) terminou com o armistício de 11 de novembro de 1918. O tratado de paz foi assinado pelas potências beligerantes, em Versalhes, a 28 de junho de 1919.
No dia quinze do mês de setembro, compareceu na minha presença e residência paroquial a vidente Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório. A qual disse que no dia treze do corrente mês de setembro, se dirigiu com seus primos, Francisco e Jacinta, ao sítio chamado Cova da Iria, e à hora do costume viu um relâmpago e logo viu chegar a Senhora que tinha visto das outras vezes; que lhe parecia a mesma vestida de branco, mas que para pouco mais olhava do que para o rosto, para tomar sentido no que Ela dizia. E lhe perguntou:
– O que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que continues a rezar o terço sempre à Senhora do Rosário, que abrande Ela a guerra; que a guerra está para acabar. Para o último dia há-de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo. E que venhas cá para o dia treze de outubro.
Está aqui esta menina que é muda e mouca, se Vossemecê a melhora?! Lhe disse a Lúcia. E que a Senhora lhe respondeu, dizendo que daqui a um ano acharia algumas melhoras.
Tenho aqui muitos pedidos – uns para converter e outros para os melhorar!...
E a Senhora lhe respondeu:
– Melhoro uns, outros não, porque Nosso Senhor não quer crer neles.
– O povo muito gostava aqui duma capelinha!
– Metade do dinheiro que ajuntaram até hoje façam os andores e levem-nos à Senhora do Rosário, e outra metade seja para ajuda da Capelinha – lhe respondeu a Senhora.
Disse mais a Lúcia que lhe ofereceu duas cartas e um vidro – pequeno frasco – com água de cheiro, que lhe foram apresentadas por um homem da freguesia do Olival, e que quando lhas oferecia lhe disse:
– Deram-me isto... se Vossemecê as quer?!...
E a Senhora respondeu:
– Isso não é conveniente lá para o Céu.
Dito isto, que se elevou indo para o lado do nascente.
E então ela – a Lúcia – que se voltou para o povo e que diz: se A querem ver voltem-se para acolá. – E aponta para onde Ela ia.
Disse-lhes que apareceria em outubro primeiro sob a representação de Nossa Senhora das Dores e depois sob a de Nossa Senhora do Rosário. Recomendou-lhes que rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário para que abrandasse a guerra que estava para acabar. Disse-lhes também que em outubro viria também S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo e seu Divino Filho para dar a bênção ao povo.
No dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete, e portanto com dezasseis dias de antecedência, a vidente Lúcia de Jesus declarou ao autor do folheto “Os Episódios Maravilhosos de Fátima”, na presença de várias pessoas, entre elas as senhoras D. Adelaide Braamcamp de Melo Breyner e D. Maria de Jesus do Rosário, de Santarém, na própria casa de habitação da vidente, em Aljustrel, que a Senhora que lhe aparecia tinha dito que no dia treze de outubro faria um sinal para que todo o povo acreditasse que ela realmente aparecia.
Lúcia de Jesus Santos, a principal protagonista das aparições de Fátima afirmou no dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete que pouco depois do dia treze de outubro seguinte seria concedida a paz ao mundo. No dia 13 de outubro declarou que a Aparição assegurara que a guerra acabava nesse mesmo dia. Tendo um sacerdote perguntado à vidente, pouco depois da aparição, se a Senhora dissera que o grande conflito europeu terminaria brevemente, e não naquele dia, ela contestou, insistindo em que a Visão havia afirmado que a guerra acabava nesse mesmo dia treze, porque empregara a palavra hoje. “Ela disse que a guerra acaba hoje, hoje” foram as palavras textuais da vidente.
O que disse a Senhora em setembro?
– Não me recordo do que Ela disse.
Talvez fôsse nesse dia que disse que em 13 de outubro havia de vir S. José com o Menino e Nosso Senhor dar a bênção ao povo e Nossa Senhora do Rosário com um anjinho de cada lado e Nossa Senhora das Dores com um arco de flores.
Parece-lhe ter ouvido à Lúcia que a Senhora lhe tinha recomendado que aprendesse a ler.
Pela hora do meio dia lá estavamos á espera que a Senhora viesse. Deu então um relampago e apareceu a Senhora. O que é que vossemece me quer hoje? Quero que continuem a vir aque o resto dos meses e que continuem a rezar o terço todos os dias; quero lhe pedir para fazer um milagre para que todo o povo aquerdite; no ultimo mez farei um sinal no sol para que aquerditem; e vira Santo José com o menino Jesus dar a bença ao mundo. Nossa Senhora do Rosario. Depois Nossa Senhora das Dôres e Nosso Senhor. Quero lhe pedir por algumas peçoas que me pediram; para a Senhora as curar umas cochas outras mudas outras cega e outras duensas daqui a um ano alguma seram curadas. Se me disse mais coizas neste mez não me lembro. Subio para o lado do nascente como todos os outros mezes.
Foste à Cova da Iria no mês de setembro?”. Respondeu: – “Fui lá várias vezes porque a cada passo algumas pessoas nos vinham pedir para lá irmos rezar com elas o terço. No dia treze também lá fui acompanhada por muito povo; já lá estavam os meus primos com muita gente. Pela hora do meio dia deu um relâmpago e a Senhora apareceu como das outras vezes. Eu perguntei: “O que é que Vossemecê me quer?”. Ela respondeu: – “Quero que venham aqui no mês seguinte e que continuem a rezarem o Terço”. Por lembrança da Maria do Rosário6, perguntei se Ela queria que fizessem ali uma capelinha, e Ela disse que fizessem ali uma capelinha em honra de Nossa Senhora do Rosário. Pedi a conversão e a cura de algumas pessoas e Ela respondeu que dentro dum ano algumas seriam curadas e outras não.
– “E no mês de setembro não aconteceu mais nada?”. Respondeu: – ”Pedi outra vez que fizesse um milagre para o povo acreditar, porque diziam que eu era uma intrujona que devia ser enforcada e queimada. A Senhora deu-me a mesma resposta da outra vez; retirou-se como de costume”.
Notas dos editores (1)
6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.
A treze de setembro, depois da aparição, um cavalheiro espanhol, que estava presente, ofereceu a Lúcia uma pequena medalha de metal branco de pouco valor que ela a princípio não queria aceitar, supondo que era uma moeda de prata.
13 de outubro de 1917 36 relatos
A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez,
Notas dos editores (2)
14 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10).
15 O acento agudo desta palavra está na penúltima sílaba: terminára (pretérito-mais-que-perfeito) e não na última sílaba: terminará (futuro).
A pequenita Lucia disse ser a Senhora do Rosario, que quer lhe façam alli uma egreja, e annunciou que Deus está muito offendido com o povo e que mostrava o seu poder a fim de que se convertessem e se salvem se não aproveitarem nada com esta manifestação do seu poder mandará um castigo.
Eu não ouvi nem fallei com a criança, mas parece-me natural tudo isto.
Disse muito mais coisas, mas ainda não sei tudo.
[…]
Nossa Senhora disse à Lucia que São José veiu abençoar o povo, e que todos os crentes (alli presentes) ficavam perdoados até áquelle momento.
Aquelle logar ficou bento, pessoas e animaes, tudo foi benzido.
E essa impressão subiu de ponto, quando o rev. Cardoso, de Portalegre4, que durante a visão esteve junto das pastorinhas, nos contou que a mais velha, estando ainda de joelhos junto da carrasqueira, disse para todos que a cercavam: — Olhem agora para o sol! — seguindo-se immediatamente o phenomeno solar.
Notas dos editores (1)
4 Pe. António Augusto Cardoso, da diocese de Portalegre. Tinha por alcunha "Pe. Pistolas". Segundo um depoimento de D. Maria de Lourdes Malato Correia, de Portalegre, de 14 de Novembro de 2000, este padre foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, acompanhado de Maria Francisca Mergulhão, Deodata Amélia Malato, Emília Malato de Noronha e uma sobrinha delas, então com vinte e sete anos, Maria da Encarnação Malato Correia, mãe da autora do depoimento, casada com Joaquim da Cruz Correia.
Isto condiz com a resposta que ella me deu, quando lhe perguntei se a apparição tivera logar durante o phenomeno. "Não, respondeu ella; a Senhora já tinha desapparecid
De repente a Lucia disse-lhe que olhasse para a carrasqueira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os beiços. Em seguida ouvi-lhe fazer esta pergunta: O que é que vocemecê quer? Vocemecê disse que no dia de hoje que é 13 de Outubro me diria o que queria. Calou-se um momento e logo acrescentou: “Pois sim, mas se vocemecê não fizer algum milagre o povo diz que é mentira.” Depois calou-se por um pouco. Em seguida disse: “Mas o que hei-de eu pedir? Pedia que vocemecê salvasse este povo todo e o levasse para o Ceu e que curasse estes enfermos.” Nesta occasião estava muita gente a pedir. Não sei a quem se referia a pequena. Disse mais o seguinte: “Já aqui vim fallar umas poucas de vezes e nunca lhe perguntei como se chamava”. Depois de ouvir a resposta disse: “é a Senhora do Rosario.” Inclinando-se depois para a mãe, que estava proximo, mas sem se voltar para o povo, disse mais alto: “Diz Nossa Senhora que olhem para o sol, que ella se quer manifestar nos astros.”
De repente, a voz de Lucia:
– Lá está Ella, na Carrasqueira.
Sensação eterna, sobrenatural a de saber a Mãe de Deus, junto de nós!
De rôjo, no chão, mãos erguidas, na supplica, na contrição fervorosa, da miseria humana, perante a grandeza divina, a santidade das Santidades!
Então distinctamente ouvi esta phrase da Lucia: – Vocemecê não faz hoje o milagre que me prommetteu? –
E a seguir estas singelas palavras dessa creança predestinada, á que ouvi a phrase que destróe todas as duvidas, esclarece toda a hesitação com que os sabios pretendem confundir o sobrenatural, como um phenomeno da natureza, illusão que perturbou a firmeza de tantos crentes!
Olhem para o Sol –
E só depois, dessa exclamação de Lucia, como uma ordem do Céu, é que a Rainha dos Anjos, fez surgir esse prodigioso milagre, esse Sol glorioso que illuminou a sua Apparição, com uma luz, que nenhuma alma christã, poderá apagar!
Mais quatro phrases ainda affirmo ter escutado: – Vocemecê não manda hoje mais nada de mim? –
E, após a pergunta, como que repetindo syllabas e palavras, que, do Céu, lhe murmurava a Mãe de Christo: – Ca - Capella ou Egreja aqui? –
E, pela primeira vez, com physionomia, radiante, e batendo as mãos.
– É Nossa Senhora do Rosario –
Voltando-se novamente para a Jacintha, e baixando a cabeça da direita para a esquerda, como seguindo a mesma direcção, que a Virgem Immaculada, exclamou:
– Foi para ali.
Ouviu a Jacinta gritar que não a apertassem. A Lúcia disse: “Já cá está!” O povo afirmava ver cores no sol e no céu. O sol não fazia nenhuma impressão à vista. Não ouviu voz nenhuma. Ouviu dizer ou à Lúcia ou a outras pessoas que Nossa Senhora queria que não se ofendesse mais a Nosso Senhor, o qual estava muito ofendido e que a guerra ia acabar.
A Lúcia tomou a respiração por duas vezes, como pessoa a quem faltasse o ar. Em seguida disse: “Que é que me quereis hoje?”. Daí a poucos momentos, a Lúcia disse mais: “Queria que me melhorasse os doentes.” Depois declarou: “Nossa Senhora disse que os não podia melhorar todos, que eram muito maus”. Passados alguns momentos levantou-se muito rapidamente e disse: “Se a quiserem ver voltem-se para o nascente”. Mas logo a seguir exclamou: “Já a não veem”.
Todos três a um tempo deram um grito, um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”. Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com fitas e rosas, quase não se via nada dela.
Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada. Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse: “Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo. A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois, naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a chegar” (A pequena não se lembra de ter mandado o povo olhar para cima, digo, para o céu, para o sol).
Depois de treze de setembro disse à Lúcia que perguntasse à Senhora quem ela era. A azinheira abanava muito quando ela disse que vinha a Senhora. Ouviu a Lúcia perguntar: “A Senhora deu licença para fazer a capelinha, agora diga com que título havemos de a adorar”. Quando ela se levantou, depois da aparição, perguntou-lhe que título ela tinha dito e a pequena disse que era Nossa Senhora do Rosário. Nesse dia a Lúcia disse também: “Agora fechem os chapéus”, que já vem S. José ao sol e o Menino deitar a bênção, em bem Nossa Senhora chegando ao Céu”. Depois que ela disse isto o sol bailou.
A pequena mais velha, Lucia, de 10 anos, pergunta a Virgem em voz alta quem é vocês-mecê? Vocês-mecê o que quer? As respostas não se ouvem, mas quando o sol retoma o seu curso habitual a creança volta-se para o povo e ao colo de um homem7 que a segura nos braços repete as palavras da Senhora
Eu sou a Virgem do Rosario quero que me edifiquem aqui uma capella.
Diz ao povo que se emende de attentar contra Deus diz-lhe que hoje se faz a paz e que os vossos militares hão de voltar
As duas outras creanças Francisco e Jacyntha, vêem a Virgem mas não lhe falam.
Notas dos editores (1)
7 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10 e DCF, vol. 2, Doc. B, de 13 de Setembro de 1927).
Disse-lhes que era Nossa Senhora do Rosário; que a guerra acabava naquele dia; que os nossos soldados em breve, viriam; que construissem no sítio da aparição uma capela a Nossa Senhora do Rosário e que o povo se emendasse de seus pecados que muito têm ofendido a seu Filho.
Quando a pequena voltou para casa o Dr. João do Val9 foi-lhe falar assim como as Saraivas.
Respondia a tudo com a maior das simplecidades e disse isto: “que Nossa-Senhora pedia aos homens que fizessem um esforso para serem melhores que seu amado filho já estava zangado, que a guerra acabaria em breve e que os soldados portuguezes voltariam às suas terras. Recomendava sobretudo que rezassem muito. Se quisessem, que fisessem ali uma capelinha, que a venerassem sob o nome de Na. Senhora do Rosario”.
Fazendo-se-lhe perguntas sobre a Na Senhora, disse que era linda, tinha um vestido branco mto direito (deve ser tunica) descalça e na cabeça um lenço azul muito comprido (manto). A sua voz é muito bonita, e chamava a pequena pelo seu nome: “Lucia”.
A pequena só responde ao que se pergunta, mas sem nenhum embaraço, sendo ela antes da aparição muito envergonhada.
Diz ela, como tambem das outras vezes que a Senhora lhe diz um segredo, que ela não diz a ninguem, nem mesmo à mãe.
Notas dos editores (1)
9 Segundo informação de Mons. Cón. João de Castro, a Família Vale, desde o dia 13 de Junho de 1917, inclusivé, nunca faltou a nenhum dos dias 13, até à morte do Dr. João do Vale.
a ditosa menina grita ao pôvo que a nossa Senhora disse que todo o povo olhe para o sól
[…]
depois de tudo passado diz a ditosa menina Lucia que nossa senhora disse que ia acabar a guerra e que já estavam as bandeiras da páz á vista (milagre) mas tambem a nossa Senhora recomendou que dissesse ao povo para que todos rezassem o terço todos os dias e que lhe fizessem uma Igreja n'aquele sitio.
Mas como explicam os descrentes o facto d’aquela creança, segundos antes do fenomeno se produzir, ter dito “Olhem para o sol. É agora”.
[…]
P.S. Uma inexactidão ha no Seculo. A creança não disse que a guerra tinha terminado mas sim ia terminar e brevemente os soldados regressariam a Portugal.
Lúcia, depois de dizer que fez vários pedidos e que Nossa Senhora lhe respondeu que despacharia uns, outros não, acrescentou: "Não fiz nenhum pedido em particular porque então ainda lá estava a fazer pedidos".
6ª Aparição – 13-10-1917 – No dia 16 de outubro chamei à minha presença Lúcia e interrogada disse que viu primeiro um relâmpago, o que se tem dado sempre: disse ao povo que se calasse que já tinha dado o relâmpago; voltei-me para o nascente e vi vir Nossa Senhora pelo ar abaixo e disse ao povo: calem-se que já lá vem Nossa Senhora – Veem-na! Veem-na!
A Senhora veio e pôs-se em cima das rosas e fitas de seda que estavam a cobrir os troços da carrasqueira.
Eu perguntei:
– O que é que vossemecê me quer?
– Quero-te dizer que não ofendas1 mais a Nosso Senhor; que rezem o terço a Nossa Senhora; façam aqui uma capelinha à Senhora do Rosário (Lúcia tem dúvida se foi assim se foi: façam aqui uma capelinha, eu sou a Senhora do Rosário); a guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares, muito breve. Tudo isto disse a Lúcia que a Senhora havia dito em resposta à 1ª pergunta.
– Tenho muitos pedidos, se a Senhora mos despacha todos ou não?
– Uns despacharei, outros não.
Não fiz nenhum pedido em particular porque então ainda lá estava a fazer pedidos.
– Ainda me quer mais alguma coisa?
– Já não quero mais nada.
Depois ela foi-se embora voltando pelo mesmo caminho e na mesma direção e eu disse ao povo: olhem, lá vai ela! Lá vai ela! Lá vai ela!
A Senhora desapareceu e parece-me que foi por a minha vista já não ver mais, mas sem nuvens que a ocultassem.
Depois diz que olhou para o sol e que viu São José à esquerda do sol e o Menino Jesus; de S. José só viu da cintura para cima, vinha vestido de branco e o Menino Jesus vinha vestido de encarnado. O Menino Jesus, viu-o todo e estava assentado no braço esquerdo de S. José. S. José estava a fazer cruzes com a mão direita; julga que fez umas 3 ou 4, depois desapareceu; depois de S. José desaparecer estava tudo amarelo; chegou Nosso Senhor mas parecia que não divisava senão um vestido com capa; só o vi da cintura para cima; as barbas eram pequenas e o cabelo não o vi; não cheguei a ver as mãos, vi só o peito.
Junto de Nosso Senhor estava uma Senhora em pé ao lado direito de Nosso Senhor, e Nosso Senhor estava à direita do sol. Ambos tinham resplendor amarelo, não tinha menino; esta Senhora estava vestida de branco e tinha um manto azul pela cabeça; tinha as mãos sobre o peito, de palmas para o peito por baixo uma da outra. A saia era branca e comprida e chegava aos pés; parece-lhe que a saia e casaco brancos não eram dourados; não a via tão bem no sol como quando estava na carrasqueira; depois desapareceu.
Junto com S. José vi outra imagem ou Senhora que estava ao lado direito do sol; vi-a toda vestida de encarnado, o manto era azul debruado ao pescoço; tinha as mãos à cintura com os dedos entrelaçados; não tinha menino, tinha resplendor amarelo; desapareceu com S. José.
Na ocasião em que estava a ver esta imagem estava o povo a gritar: olhem! olhem! tão bonito!
E eu também olhei a dizer ao povo que olhassem para lá, que estava S. José e depois Nosso Senhor.
A Senhora da Carrasqueira vinha vestida de branco exatamente como das outras vezes; não vi nem menos, nem mais; a saia julgo que era curta como das mais vezes; disse que o dinheiro era para uma capela mas não todo, porque algum deve ser para um andor; disse que não tinha ideia de quem devia fazer a capela ou tomar a direção.
Notas dos editores (1)
1 Na redação final deste depoimento, datada de 6 de agosto de 1918, diz-se: “ofendam”.
No dia dezasseis do corrente mês de outubro compareceu na minha presença, e residência paroquial a vidente Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório da Lúcia, a qual disse que no dia treze do mês corrente tendo-se dirigido, com seus primos, Francisco e Jacinta, para o local chamado Cova da Iria, uma vez ali viu à mesma hora das outras vezes um relâmpago – o que sempre se tem dado nos dias treze desde maio, – que se voltou para o nascente, tendo dito ao povo que se calasse que já se tinha dado o relâmpago, e logo viu descer Nossa Senhora pelo ar abaixo; e que disse outra vez ao povo: calem-se... que já lá vem Nossa Senhora! Olhem!... Veem-nA... veem-nA... veem-nA?... E a Senhora veio e se pôs com os pés em cima das fitas de seda e flores de rosa, que estavam a cobrir os troncozinhos da carrasqueira.
E então que Lhe perguntou:
– O que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que não ofendam mais a Nosso Senhor que está muito ofendido; que rezem o terço a Nossa Senhora. Façam aqui uma Capelinha à Senhora do Rosário (a Lúcia tem dúvida se foi assim como fica dito ou se foi: façam aqui uma Capelinha – Sou a Senhora do Rosário). A guerra acaba ainda hoje, esperem cá pelos seus militares muito breve.
– Tenho muitos pedidos, se Vossemecê os despacha todos ou não?!
– Uns despacharei, outros não.
– Já me não quer mais nada?
– Já te não quero mais nada – respondeu a Senhora.
– E eu também Lhe não quero mais nada. Dito isto, a Senhora abalou pelo mesmo caminho e na mesma direção das outras vezes. E então se voltou para o povo e lhe disse:
– Olhem... lá vai Ela – lá vai Ela – lá vai Ela!... E que foi subindo até desaparecer da vista. Uma vez perdida de vista, olhou para o sol – mas não por Ela mandar – e viu S. José, a meio corpo, vestido de branco, com o menino assentado no braço esquerdo. S. José estava à esquerda do sol e abençoava o povo com a mão direita. Parece-lhe que fez três ou quatro cruzes sobre o povo. O Menino Jesus, viu-O a todo o corpo, vestido de encarnado. E viu, ao lado direito do sol, Nossa Senhora, a todo o corpo, vestida de encarnado com um manto azul pela cabeça, brochado ao pescoço e as mãos à cintura com os dedos entrelaçados.
Desapareceu esta visão, diz ela, e ficou tudo amarelo por alguns instantes – e logo viu aparecer Nosso Senhor, a meio corpo, vestido de branco, à direita do Sol; e à direita de Nosso Senhor viu Nossa Senhora, a todo o corpo, de pé, vestida de branco, com um manto azul pela cabeça, e as mãos sobre o peito de palmas para dentro, uma ao lado da outra em posição horizontal. O manto não era brochado como o da primeira visão. Nossa Senhora em nenhuma destas visões se apresentou com o Menino. Todas estas visões tinham resplendor amarelo, exceto a de S. José.
Na ocasião em que estava a ver estas representações o povo gritava: Olhem... Olhem... Olhem... tão bonito!!! Declarou mais a Lúcia que neste momento também disse ao povo que olhasse para lá – para o sol – que estava lá S. José – e – depois Nosso Senhor. Sendo interrogada sobre o que se há de fazer ao dinheiro, disse que é para uma Capela; e sobre quem há de fazer a Capela e tomar a direção da obra, disse que não sabia porque a Senhora lhe o não tinha dito. E sendo também interrogada sobre quando Nossa Senhora lhe tornava a aparecer, ou esperava tornar a vê-la, disse que não esperava mais por Ela, porque lhe não tinha prometido senão para seis meses ou seis vezes, – e estas já vieram – e que agora só espera tornar a vê-la no Céu.
Sabe que d'esta vez appareceu a Sagrada Família? E que o phenomeno do Sol se deu, quando N.S.a disse à pequenita: “Manda o povo olhar para o sol”?! — Não me consta que haja mais nenhuma apparição anunciada, mas não resistirei muito tempo sem ir fallar com as ditosas creanças. A criança respondeu a um padre que lhe perguntava porque é que ella não estava sempre a olhar para a visão e abaixava os olhos: “Não, que Ella cega”! Explicando assim o brilho e a belleza da Senhora.
É certo N.S.a ter mandado que continuassem rezando muito o terço. Parece que de todas as vezes tem feito esta recomendação. Disse que queria alli uma Capella, que a guerra acabaria muito breve, o que já tinha promettido das outras vezes. Mas também disse que se depois d'este signal, d'este aviso, o povo se não emendasse, um grande castigo viria a Portugal.
[…]
N.S.a appareceu sempre séria, sem sorrir e as duas pequenas em separado, fizeram a descripção d'esta visão, perfeitamente da mesma forma: N. S.a com o rosario branco, á esquerda S. José e o menino Jesus entre os dois.
Notas dos editores (1)
1 Vivia em Torres Novas. Faleceu a 8 de Junho de 1932, deixando um filho: José Maria P. Sousa d'Alte Espargosa. Cf. Doc. 20, de 1 de Setembro de 1917, nota 2.
Soube depois que a pequena lhes tinha dito que N. Sra. lhe dissera: "manda o povo olhar para o sol".
[…]
Acabada a apparição, as pequenas contaram que N. Sra. lhes tinha apparecido com S. José e o Menino Jesus à direita, e lhes tinha dito que queria que alli lhe erigissem uma pequena capella, que aquellas apparições eram uma prova de que protegia Portugal, mas que era preciso que todos rezassem e fizessem penitencia, porque senão uma grande castigo cairia sobre Portugal. Que a guerra acabaria em breve, mas sobre este ponto a carta é um pouco confusa, por isso não te posso repetir o que ella diz. Disse tambem que era N. Sra do Rozario. Tudo isto a pequena repetio em voz sonora e pausada, sem mostrar o menor embaraço por se ver rodeada de milhares de pessoas.
A Snra D. Maria de Jesus Alte Espargosa8 escreve-me e diz-me, que ás creanças appareceu também São José e o Menino Jesus estando este entre N. Senhora e S. José. E que N. Senhora ordenara á Lucia que dissesse ao povo que olhasse para o sol e que se Portugal se não emendasse dos seus pecados viria sobre elle um grande castigo.
Notas dos editores (1)
8 Maria de Jesus d’Oriol de Pena Raposo. Cf. Doc. 105, de 17 de Outubro de 1917, nota 1.
Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado.
A Antoninha10 consegue vêr uma das pequenas, muito córada, lavada em lagrimas, ao cólo d’um homem e mais tarde esse mesmo homem, um medico11, repete-lhe as palavras da pequenita: N. Sra pede que não offendam mais a N. S., que façam penitencia. Promette para breve o fim da guerra. As mães que rezem e tenham confiança que os soldados estão a voltar. Abençôa todo o povo e pede uma capellinha debaixo da invocação de N. Sra do Rosario.
Notas dos editores (2)
10 Deve tratar-se de Antónia Rafaela da Câmara. Cf. Doc. 259, de 3 de Novembro de 1917.
11 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, que não era médico, mas sim advogado.
Da 6a - Que não ofendesse a gente mais a Nosso Senhor que ele já estava muito ofendido. – Que rezasse a gente o terço a Nossa Senhora do Rosário para que ele nos perdoasse os nossos pecados, querendo a gente ir para o Céu.
Que fizesse ali uma capelinha à Senhora do Rosário, querendo; que a guerra acabava hoje e que esperassem pelos nossos militares muito breve.
[...]
Desaparecia primeiro a cabeça, depois o corpo e os pés.
Viu junto ao sol - uma coisa que parecia uma cara dum homem e dum menino.
A pequena Lúcia disse que Nossa Senhora lhe pedira que fizessm ali uma capela com a invocação da Senhora do Rosário; que a guerra ia terminar; que os soldados portugueses em breve regressariam a suas casas; que se unissem os portugueses e fizessem penitência, pois Deus estava cansado de tantas ofensas; que rezassem o Rosário, a fim de evitar os castigos que pesariam sobre Portugal, se os portugueses se não emendassem.
Francisco Brás das Neves, coadjutor da freguesia da Freixianda, deste Patriarcado de Lisboa, declara: que, tendo entrevistado no dia vinte de outubro, do corrente ano, as duas meninas da freguesia da Fátima, que dizem ter-lhes aparecido Nossa Senhora no sítio da Cova da Iria, da mesma freguesia, no dia 13 dos meses de maio a outubro, inclusive, também do corrente ano, a mais velha, de nome Lúcia, lhe afirmara que Nossa Senhora, quando lhe apareceu no dia 13 de outubro, lhe prometera que a guerra havia de terminar naquele mesmo dia. Outrossim declara: que, encontrando-se de novo com ela, Lúcia, no dia oito do corrente mês de dezembro, e sendo-lhe feita a observação de que a guerra não tinha acabado no dia designado nem tão pouco até àquela data, pela mesma foi respondido que talvez se tivesse enganado, pois que a sua companheira Jacinta dissera que Nossa Senhora havia dito por sua vez que a guerra acabaria, sim, mas se o povo se emendasse.
Recebi a sua pressada cartinha4 que muito lhe agradeço.
Aguardo anciosa as graças; prometidas pela Nossa querida Mãe do ceo5.
Notas dos editores (2)
4 Lúcia terá respondido à carta da mesma autora de a.13 de Outubro de 1917 com uma carta escrita depois da aparição de 13 de Outubro de 1917.
5 Na sua carta, Lúcia terá mandado dizer que tinha feito o pedido a Nossa Senhora, na aparição de 13 de Outubro. No entanto, no interrogatório do pároco de Fátima, a 16 de Outubro de 1917 (cf. DCF, vol. 1, Doc. 6, p. 24), Lúcia, depois de dizer que fez vários pedidos e que Nossa Senhora lhe respondeu que despacharia uns, outros não, acrescentou: "Não fiz nenhum pedido em particular porque então ainda lá estava a fazer pedidos". No depoimento de Lúcia, datado de 6 de Agosto de 1918 e inserido no inquérito paroquial, enviado para o Patriarcado de Lisboa, a 28 de Abril de 1919, não está referida esta frase da vidente no relato da aparição de 13 de Outubro de 1917 (AEL, Documentos de Fátima, I-1D, fl. 8v). Provavelmente a redacção desta carta de Lúcia foi feita por outra pessoa, pois nesta data, Lúcia ainda não sabia escrever. É, no entanto, a primeira alusão a uma carta de Lúcia.
A minha Adelaide4 que conseguio fallar á pequena, ouvio-lhe dizer que Nossa Senhora lhe tinha dicto que éra a Senhora do Rozario, que queria lhe fizéssem ali uma capella que se arrependessem porque porque estavam offendendo muito a Deus, que a guerra acabava bréve e que esperassem pelos nossos soldados que voltam bréve! — Eis tudo o que sei é pequena é feia, pouco sympatica e com um feitio muito simplório; mas falla muito firme e nunca se desdiz.
Notas dos editores (1)
4 Adelaide da Câmara Villar, filha da autora da carta.
Entretanto o Milagre finda e as crianças erguem-se da oração e levadas ao colo de varios individuos a mais velha diz ao Povo: N. Senhora que falou pela ultima vez comigo encarrega-me de dizer-vos: que a Paz se faz hoje; que vão descançados para suas Casas que a chuva os não molhará no regresso; que orem a N Senhor quem teem ofendido muito e que em breve virão os soldados da França e que deseja lhe façam uma capela no local.
[…]
Dentro do globo luminoso observava-se um grupo de pessoas que se moviam e que a criança diz ser S. Jose a anunciar a Paz aos homens; Seu bendito Filho a lançar-lhe a benção e N. Senhora das Dôres.
Dentro do globo luminoso viam-se um grupo de pessoas que se moviam, e que depois a criança explicou ser S. José a anunciar a Paz aos homens, seu bendito Filho a abençoar o Povo e N. Senhora das Dôres.
A mesma explicação nos deu a mais velha e o pequenito que depois encontramos.
[…]
A pequena mais velha antes de partir para Ourem tambem nos fallou de S. José e do Menino Jesus.
A treze de outubro viste os anjinhos e o arco de flores?
– Não vi, não reparei, quando a Senhora apareceu ao pé do sol.
52a – O que disse a Senhora em outubro?
– Perguntei-lhe o que me queria. Disse que não ofendessem mais a Deus Nosso Senhor, que já estava muito ofendido, que rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário que lhes perdoasse os pecados (sic), querendo ir para o Céu, e disse também que queria que fizessem ali uma capelinha à Senhora do Rosário ou que ela era a Senhora do Rosário. Eu não sei se ela disse “à Senhora do Rosário” ou “eu sou a Senhora do Rosário”.
53a – Que mais disse ela?
– Eu disse-lhe que tinha muitos pedidos de curas e conversões e ela disse que melhoraria e converteria uns, outros não.
54a – Não disse mais nada?
– Disse: “a guerra acaba hoje e esperem cá pelos seus militares muito breve”.
55a – Não disse que a guerra acabava logo que chegasse ao Céu?
– Não me recordo se disse que era logo que chegasse ao Céu.
56a – Nesse dia disseste ao povo que fechasse os chapéus?
– Não me recordo que o dissesse.
57a – Soltaste um grito dizendo ao povo que olhasse para o sol?
– Não me recordo que soltasse tal grito.
58a – É verdade que a Senhora apontou para o sol?
– Não me recordo que o tivesse feito.
59a – De que cor era o traje de Nossa Senhora ao pé do sol?
– O manto era azul e o vestido branco.
– E o de Nosso Senhor, o de S. José e o do Menino?
– O de S. José era encarnado, e o de Nosso Senhor e o do Menino penso que também eram encarnados.
A pequena Lúcia, aquela a quem a Virgem aparecia, conversava a certa distância com alguns forasteiros. Esperámos que estes a deixassem e aproximámo-nos dela. Esta era uma criança dos seus doze anos, de feições grosseiras e de cor muito macilenta. Estava vestida pobremente, à moda do campo, tendo ao peito uma pequena flor de papel vermelho e nas mãos um pequeno cofre, onde tilintavam algumas moedas. Tinham um ar tristonho e sombrio. Narrou-nos a aparição da Virgem da forma que já é de todos conhecida. Que a Virgem lhe dissera “que nós tínhamos ofendido muito a Deus e que nos emendássemos”. “Que fízéssemos ali uma capelinha e que lhe pusessem o nome da Senhora do Rosário”. “Que a guerra acabaria em breve”. Perguntando-lhe minha irmã o que vira ela no sol na ocasião do milagre, respondeu “que vira S. José”. Perguntei-lhe também se ela não tinha receado que se não desse o milagre pois que o povo a poderia matar julgando que ela estivesse enganando todos, disse-me com certa energia “que sabia que o milagre se daria e que por isso nem em tal perigo tinha pensado”. Disse-nos também que já tinha anteriormente ouvido contar os milagres da Senhora de Lourdes.
Segundo as declarações da vidente Lúcia de Jesus, profetizara com meses de antecedência uma tríplice aparição da Santíssima Virgem, no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, a Rainha do Céu manifestou-se nesse dia memorável sucessivamente sob três invocações diferentes, a do Rosário, a das Dores e a do Carmo.
Como todos os outros mezes derigirmo-nos ao pé da carrasqueira para vermos a Senhora. Deu um relampago; e apareceu a Senhora. O que é que vocemecê me quer hoje? Quero te dizer que não ofendam mais a Deus nosso Senhor porque já está muito ofendido e que continuem a rezar o terço todos os dias e quero que fação aque uma Capelinha á Senhora do Rosario. Então como é que vossemece se chama? Eu sou a Senhora do Rosario. Agora eu compriendi que ela disse assim. Quando Eu chegar ao céu a guerra acaba hoje. Mas a minha prima Jacinta disse que ela tinha dicto deste modo. Se o povo se imendar a guera acaba hoje. Por isto não não posso afirmar de qual foi o modo que ela pronuciou estas palavras. Quero-lhe pedir por a quelas pessoas que me pediram para a Senhora as curar; umas cochas outras cegas outras mudas outras duentes; umas curo outras não.
e Nisto subio para o lado do nascente como todos os outros mezes; indo a tal altura que o azul do céu e as nuvens não nos deixaram ver mais. Tendo-se escondido olharmos para o sol e virmos ao lado direito do sol um homem da cinta para cima, com um menino ao colo fazendo cruzes + com a mão direita; e na outra tinha um menino vestidinho de branco tinhão em volta um grande resplandor que nos não deixava olhar à nossa vontade. Ao lado esquerdo Nossa Senhora talqual tinha descido á azinheira.
Acabandó de Fazer as cruzes Santo José com o menino e Nossa Senhora dezapareceram. Logo em seguida apareceu ao lado direito do Sól Nosso Senhor vendo só da cinta para cima tinha o vestido vermelho. Do outro lado Nossa Senhora das Dôres com um manto rocho; e sempre cobertos com o resplendo[r] que parecia cegarnos; com isto dezapareceram e nunca mais vi nada até hoje.
Foste à Cova da Iria no dia treze de outubro?”. Respondeu: – “O povo veio buscar-nos. Eu já estava em casa dos primos, quando uma senhora apareceu com um vestido azul e quis que eu o levasse; deu outro branco à Jacinta. Levámos também uma grinalda de flores artificiais na cabeça. Chovia muito. Quando chegámos à Cova da Iria não se podia romper com o povo; a estrada estava cheia de carros e automóveis. À hora do meio-dia deu um relâmpago e a Senhora apareceu na carrasqueira: “O que é que Vossemecê me quer?”, perguntei eu. Ela respondeu: “Quero-te dizer que não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já esta muito ofendido; continuem a rezar o terço todos os dias; quero que façam aqui uma capelinha à Senhora do Rosário”. Então como é que Vossemecê se chama? Ela respondeu: – “Eu sou a Senhora do Rosário”. Parece-me que disse ainda deste modo: “Convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito breve”. A minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falou assim: “Convertam-se que a guerra acaba dentro dum ano”. Como estava a pensar nos pedidos que queria fazer a Senhora, não deitei bem sentido. Fiz-lhe os pedidos e ela deu-me a resposta das outras vezes. Nisto subiu para o lado do nascente, escondeu-se nas nuvens. Pouco antes de a Senhora aparecer, parou a chuva; e quando ela desapareceu, olhamos para o sol. Dum lado do sol vimos um vulto de homem, da cinta para cima, com o Menino Jesus nos braços, e do outro lado a Senhora que tinha estado na azinheira. O Menino Jesus abençoava o povo. Veio-me a ideia de que o homem seria S. José. Estava um resplendor tão grande que não nos deixava ver à vontade. Desapareceram e depois apareceu do lado direito do sol Nosso Senhor, que só se via da cinta para cima, vestido de vermelho, e do outro lado Nossa Senhora, vestida de roxo, parecendo Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor fazia várias cruzes. Parece-me que ainda vi outra figura, que parecia ser Nossa Senhora do Carmo, porque tinha qualquer coisa pendurada na mão direita. Desapareceu tudo e nunca mais vi nada, até hoje”.
Notas dos editores (1)
6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.
No interrogatório que foi feito a Lúcia, aos dezoito anos da sua idade30, quando estava internada no Asilo de Vilar no Porto, a vidente diz textualmente o seguinte: “parece-me que a Senhora me disse ainda deste modo: “convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito breve. Minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falara assim: “convertam-se, que a guerra acaba dentro dum ano. Como estava a pensar nos pedidos que queria fazer a Senhora, não deitei bem sentido”.
Notas dos editores (1)
30 Lúcia tinha apenas 17 anos. Nasceu a 22 (28) de março de 1907.
Outros acontecimentos de 1917 3 relatos
Aqui recordo-me que a Lúcia em certa ocasião me havia dito que Senhora só lhe deu licença ou mandou que o dissesse ao Francisco e à Jacinta.
No inquérito a que foi submetida, quando era educanda do Asilo de Vilar, no Porto, Lúcia de Jesus declarou que, depois da primeira aparição, foi visitada por muitas pessoas, e entre elas alguns sacerdotes, que a apertaram com perguntas e lhe ralharam muito, dizendo-lhe pessoas da sua família que ela mentia e chegando a própria mãe a bater-lhe com o cabo duma vassoura. Declarou também, noutra altura do interrogatório, que, depois do dia treze de agosto, alguns sacerdotes que foram a casa dela para lhe falar a trataram de intrujona.
Uma vez, durante as aparições, tendo a Lúcia perguntado à misteriosa Senhora que lhe falava, se ela e a Jacinta iriam para o Céu, e obtendo resposta afirmativa, fez idêntica pergunta acerca do Francisco, respondendo a Visão que também lhe caberia tamanha ventura, mas que primeiro havia de rezar muitas vezes o terço. Desde esse momento até adoecer, o ditoso vidente nunca mais deixou passar um dia sem oferecer essa singela homenagem à Rainha do Céu.