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DCF Seleção, Doc. 26 (= DCF I, Doc. 42)
1917-p.11-23, Coimbra
Publ.: DCF, I - Doc. 42 (Este documento faz parte do Processo Paroquial de Fátima).
A MINHA PEREGRINAÇÃO A FÁTIMA
Notícia dos maravilhosos acontecimentos
ocorridos em Fátima, no dia 13 de outubro de 1917
por
Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos
Coimbra
Tipografia França Amado
outubro de 1917.
O produto da venda deste folheto reverte a favor do patronato que sustentam em Coimbra as Senhoras católicas que constituem a associação “Auxílio dos Pobres”.
Nihil obstat
Conimbrige, 23 novembris, 1917.
Emanuel Fernandes Nogueira
Pode imprimir-se
Coimbra, 23 de novembro de 1917.
† MANUEL, Bispo de Coimbra.
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Conde.
Peço a Vossa Excelência Reverendíssima a autorização para
publicar o folheto incluso intitulado “A minha peregrinação a
Fátima”.
Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos
Ao Sr. Dr. José de Almeida Correia3
Ex.mo Senhor:
Como sócia do Círculo de Estudos4 que V. Exa tem dirigido em Coimbra e a cujas lições tenho tido a satisfação de assistir, lembrei-me de oferecer a V. Exa esta breve notícia da minha peregrinação a Fátima, onde se deram acontecimentos extraordinários que vivamente impressionaram todo o país.
Não tem pretensões literárias o meu modesto escrito; é um simples relato do que vi e presenciei, que ficará como depoimento de uma testemunha que conserva as melhores e mais fundas impressões da peregrinação que fez àquele lugar, levada, como tantos milhares de pessoas que ali se dirigiram, pelo desejo de presenciar os sinais miraculosos que acompanhavam a aparição de Nossa Senhora a uns pastorinhos.
Sobre o caráter miraculoso dos sinais e a realidade das aparições, pronunciar-se-á, quando o entender, a autoridade competente. Publicando esta resumida notícia, o meu fim é chamar a atenção daqueles que porventura ainda não os conhecessem, para o que me parece haver de extraordinário nestes acontecimentos.
E oferecendo a V. Exa o meu modestíssimo trabalho, desejo que o considere como testemunho do interesse com que tenho acompanhado as suas lições, das quais alguma coisa julgo haver aproveitado e ao mesmo tempo de reconhecimento pelas atenções que tem dispensado à mais humilde das suas alunas.
Coimbra, 19 de outubro de 1917.
Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos.
Foi no dia 7 de setembro que uma mulher do povo, criada de uma pessoa da minha família, que me contou que em Fátima, aldeia que fica entre Leiria e Vila Nova de Ourém, se dava um milagre com umas pastorinhas a quem Nossa Senhora aparecia desde o dia 13 de maio, tendo-lhe prometido que lhes apareceria durante meio ano, e que no dia 13 de outubro lhes faria as últimas revelações.
Esta promessa não fora feita propriamente às três crianças, mas só à privilegiada Lúcia, a mais velhita, única que recebia a graça de ouvir e falar a Nossa Senhora. Contava-se que ofereciam à criança cordões de ouro e dinheiro para ela dizer o que sabia; mas a pequena nem ao pároco de Fátima, com quem fizera a sua primeira comunhão, deixando-o maravilhado pela maneira como se preparava para um ato de culto, se prestava a dizer o que ouvira a Nossa Senhora. No dia 13 de agosto o administrador do concelho foi buscar a pequena Lúcia mais os seus companheiros, outra pequena e um rapazito tambem pastores, companheiros da primeira, mas que só recebiam a graça de ver a Senhora, não a ouvindo porém nem lhe falando5.
Contava-se mais: que muita gente que naquele local se encontrou, à hora do meio-dia solar, sentira qualquer coisa de extraordinário, de sobrenatural, ajoelhando e rezando.
O mesmo se dera em 13 de agosto, dia em que a pequena Lúcia esteve presa à ordem da autoridade administrativa. No domingo imediato, 19 de agosto, a criança pediu à Senhora a não deixasse ficar por mentirosa no dia 13 de outubro; e acrescentava-se que a Senhora lhe fizera essa promessa, dizendo: descansa, que todos aqueles que aqui vierem hão de ver o milagre. E assim aconteceu. O povo e o próprio pároco de Fátima metiam medo à criança, dizendo-lhe que, se no dia 13 de outubro o povo não visse o milagre, ali mesmo seria feita em pedaços; ao que ela respondia serena e sorrindo: não fazem, não senhor, porque a Senhora não mente.
Aqui chegámos às 7 horas da manhã, indo procurar o rev. pároco da freguesia6 para que nos ministrasse a sagrada comunhão.
Pudemos assistir à missa, que foi ouvida por bastantes pessoas, e fomos depois tomar uma pequena refeição, utilizando os farnéis que levamos. Tínhamos de andar uns 18 quilómetros a pé, caminho a subir. A dificuldade do caminho não nos desalentou. Tomámos por ele resolutamente, rezando o terço em coro. O povo que passava descobria-se em sinal de respeito. Era enorme a concorrência de automóveis, carros de todas as espécies, bicicletas, cavalgaduras; e como nós, a pé, seguia grande quantidade de povo.
Fazia um calor sufocante, ameaçando tempestade, pois muitas nuvens se acastelavam no espaço.
Os passageiros de um pequeno carro que passou por nós, gente boa que notou a nossa sensação de fadiga, ofereceram-se para nos levarem as sacas de viagem, favor que aceitámos reconhecidas, confiando na sua seriedade, apesar de não os conhecermos. Passado pouco tempo principiou a chover, e a chuva foi aumentado, tocada por um rígido e frigidíssimo vento, ficando nós em breve tão molhadas e encharcadas de água como se saíssemos de um banho.
A estrada parecia não ter fim; caminho aos zig-zags, muita gente molhada como nós, mas andando sempre, movida pelo mesmo desejo, pela mesma ânsia de chegar a tempo ao lugar da aparição.
Ao meio dia e meia hora, chegámos ao local, bem dispostas apesar de tudo. O espetáculo era imponente!
Apresentava-se-nos um pequeno vale, bastante árido, sem uma única casa; milhares de guarda-chuvas, abertos sobre as cabeças, davam a impressão de um verdadeiro acampamento. A multidão comprimia-se; caíam sobre ela torrentes de água, e contudo ninguém se retirava. O terreno, em volta do local da aparição era barrento e encharcado. No local destacava-se uma espécie de pórtico tosco, formado por três barrotes aparelhados; aqui e acolá pequenos carvalheiros, e em redor milhares de pessoas de todas as classes e condições.
Entre a multidão tomámos lugar, começando a rezar o terço em coro, cantando o Avé de Lourdes, que o povo e as senhoras acompanhavam, o Queremos Deus, recitando a oração de S. Bernardo, etc.
A chuva não parava um instante; tremia-se de frio porque o vento era cortante. Entretanto ouve-se dizer: lá trazem as pastorinhas.
De facto uns homens transportavam ao colo as crianças vestidas de azul claro, com véus de tule branco, seguros por coroas de rosas brancas e folhagem verde.
Reparo na minha companheira, D. Ermelinda Gomes Ribeiro, e noto-lhe uma impressão de grande sofrimento. Pergunto-lhe o que tem, e diz-me que sente uma pontada tão forte que mal a deixa respirar. Senhora doente, com febre quase todos os dias, assim molhada, com os pés sobre a terra encharcada, não tendo ali meio de transporte que nos conduzisse a um lugar onde pudesse tratar-se, o seu estado causou-me aflição. Lembrei-me de lhe fazer uma massagem sobre a pleura, o que aceitou; mas estava tão fria, tão molhada, que receei que nada valesse.
Confesso que já então nenhuma esperança me restava de ver o milagre. Como o local era ainda distante da estrada, viemos até lá à procura de alguém que por caridade nos cedesse um lugar em automóvel ou carro, em que pudesse vir a minha amiga, pois receava bem que não aguentasse o caminho, tendo de fazer novamente a viagem a pé.
Na estrada onde chegámos com as saias cobertas de barro vermelho, nenhum automóvel ou carro nos dispensou um lugar nem pago nem por favor.
Era grande a nossa impressão de desânimo, quando, de repente, se ouve de todos os lados: Milagre! Olhem o sol! Parara como por encanto a chuva; fecharam-se os chapéus; sentiu-se um calor como se entrássemos numa estufa aquecida, e começou a vêr-se o disco do sol, a perceber-se claramente na camada pardacenta que corria todo o céu. O calor aumentava, e o sol parecia descer, descer cada vez mais, apresentando novos e variados cambiantes. Vimos como que um véu prateado, com forma arredondada como se fosse a lua cheia; pouco depois passava para o roxo vivo, depois para o vermelho, depois para o verde-esmeralda e tomava finalmente a cor primitiva.
Ouviam-se gritos de todos os lados, quando se destacava do sol como que uma forma branca de neve, brilhante, sem ferir a retina, vindo para nós, voltando de novo ao sol, e por fim escondendo-se a terceira vez entre as nuvens. Todos choravam e de muitas bocas se ouviam preces, súplicas, atos de fé.
A pequena Lúcia disse que Nossa Senhora lhe pedira que fizessm ali uma capela com a invocação da Senhora do Rosário; que a guerra ia terminar; que os soldados portugueses em breve regressariam a suas casas; que se unissem os portugueses e fizessem penitência, pois Deus estava cansado de tantas ofensas; que rezassem o Rosário, a fim de evitar os castigos que pesariam sobre Portugal, se os portugueses se não emendassem.
Para maior satisfação nossa, depois da alegria inexprimível, da consolação de havermos presenciado o grande milagre, tivemos a boa fortuna de encontrar lugar num automóvel que do Luso tinha levado meus primos Jaime Forjaz de Serpa Pimentel e esposa, transportando-nos assim a Vila Nova de Ourém, onde umas senhoras caritativas nos emprestaram roupas para substituirmos as que trazíamos e que continuavam molhadas, e um sacerdote hospitaleiro7 nos deu pousada onde pudéssemos descansar essa noite, prosseguindo depois na nossa viagem até à estação de Chão de Maçãs, donde regressámos pelo comboio, em carruagem de 3a classe como tínhamos ido, à cidade de Coimbra.