Explorar / Relato

Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos · 13 de outubro de 1917

Visitantesenhora católica de Coimbra, mulher de um oficial do exército; autora de um folheto
13 out.Testemunho diretoViuLivroVeio de longeA multidãoA chuva a pararCalorDisco pálido / prateadoSol a cairSol a mudar de cor

Saí pois de Coimbra, na meia noite de 12 para 13 de outubro, com duas amigas minhas, D. Ermelinda Gomes Ribeiro e D. Matilde Forjaz de Sampaio, tomando lugar no comboio em 3ª classe, por promessa, e seguindo até Chão de Maçãs, onde tomamos uma diligência que nos conduziu até Vila Nova de Ourém.

Aqui chegámos às 7 horas da manhã, indo procurar o rev. pároco da freguesia6 para que nos ministrasse a sagrada comunhão.

Pudemos assistir à missa, que foi ouvida por bastantes pessoas, e fomos depois tomar uma pequena refeição, utilizando os farnéis que levamos. Tínhamos de andar uns 18 quilómetros a pé, caminho a subir. A dificuldade do caminho não nos desalentou. Tomámos por ele resolutamente, rezando o terço em coro. O povo que passava descobria-se em sinal de respeito. Era enorme a concorrência de automóveis, carros de todas as espécies, bicicletas, cavalgaduras; e como nós, a pé, seguia grande quantidade de povo.

Fazia um calor sufocante, ameaçando tempestade, pois muitas nuvens se acastelavam no espaço.

Os passageiros de um pequeno carro que passou por nós, gente boa que notou a nossa sensação de fadiga, ofereceram-se para nos levarem as sacas de viagem, favor que aceitámos reconhecidas, confiando na sua seriedade, apesar de não os conhecermos. Passado pouco tempo principiou a chover, e a chuva foi aumentado, tocada por um rígido e frigidíssimo vento, ficando nós em breve tão molhadas e encharcadas de água como se saíssemos de um banho.

A estrada parecia não ter fim; caminho aos zig-zags, muita gente molhada como nós, mas andando sempre, movida pelo mesmo desejo, pela mesma ânsia de chegar a tempo ao lugar da aparição.

Ao meio dia e meia hora, chegámos ao local, bem dispostas apesar de tudo. O espetáculo era imponente!

Apresentava-se-nos um pequeno vale, bastante árido, sem uma única casa; milhares de guarda-chuvas, abertos sobre as cabeças, davam a impressão de um verdadeiro acampamento. A multidão comprimia-se; caíam sobre ela torrentes de água, e contudo ninguém se retirava. O terreno, em volta do local da aparição era barrento e encharcado. No local destacava-se uma espécie de pórtico tosco, formado por três barrotes aparelhados; aqui e acolá pequenos carvalheiros, e em redor milhares de pessoas de todas as classes e condições.

Entre a multidão tomámos lugar, começando a rezar o terço em coro, cantando o Avé de Lourdes, que o povo e as senhoras acompanhavam, o Queremos Deus, recitando a oração de S. Bernardo, etc.

A chuva não parava um instante; tremia-se de frio porque o vento era cortante. Entretanto ouve-se dizer: lá trazem as pastorinhas.

De facto uns homens transportavam ao colo as crianças vestidas de azul claro, com véus de tule branco, seguros por coroas de rosas brancas e folhagem verde.

Reparo na minha companheira, D. Ermelinda Gomes Ribeiro, e noto-lhe uma impressão de grande sofrimento. Pergunto-lhe o que tem, e diz-me que sente uma pontada tão forte que mal a deixa respirar. Senhora doente, com febre quase todos os dias, assim molhada, com os pés sobre a terra encharcada, não tendo ali meio de transporte que nos conduzisse a um lugar onde pudesse tratar-se, o seu estado causou-me aflição. Lembrei-me de lhe fazer uma massagem sobre a pleura, o que aceitou; mas estava tão fria, tão molhada, que receei que nada valesse.

Confesso que já então nenhuma esperança me restava de ver o milagre. Como o local era ainda distante da estrada, viemos até lá à procura de alguém que por caridade nos cedesse um lugar em automóvel ou carro, em que pudesse vir a minha amiga, pois receava bem que não aguentasse o caminho, tendo de fazer novamente a viagem a pé.

Na estrada onde chegámos com as saias cobertas de barro vermelho, nenhum automóvel ou carro nos dispensou um lugar nem pago nem por favor.

Era grande a nossa impressão de desânimo, quando, de repente, se ouve de todos os lados: Milagre! Olhem o sol! Parara como por encanto a chuva; fecharam-se os chapéus; sentiu-se um calor como se entrássemos numa estufa aquecida, e começou a vêr-se o disco do sol, a perceber-se claramente na camada pardacenta que corria todo o céu. O calor aumentava, e o sol parecia descer, descer cada vez mais, apresentando novos e variados cambiantes. Vimos como que um véu prateado, com forma arredondada como se fosse a lua cheia; pouco depois passava para o roxo vivo, depois para o vermelho, depois para o verde-esmeralda e tomava finalmente a cor primitiva.

Ouviam-se gritos de todos os lados, quando se destacava do sol como que uma forma branca de neve, brilhante, sem ferir a retina, vindo para nós, voltando de novo ao sol, e por fim escondendo-se a terceira vez entre as nuvens. Todos choravam e de muitas bocas se ouviam preces, súplicas, atos de fé.

Notas dos editores (2)

5 Na realidade, a Jacinta também ouvia.

6 Pe. Manuel José Alves, pároco de Vila Nova de Ourém de 1904 a 1934. Faleceu em Valadares, Monção, a 9 de janeiro de 1952.

DCF Seleção, Doc. 26 (= DCF I, Doc. 42) · livro · 19 out. 1917 (6 dias depois)Digitalizações (3)
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