Jornalistapoetisa e escritora, mulher de um juiz em Pinhel
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuir
Despovoaram-se os logares, as aldeias, as cidades proximas.
Pelas estradas, já nas vesperas, seguiam grupos de romeiros a caminho de Fátima.
Pescadores da Vieira4 deixaram as casa de madeira negra assentes sobre o mar, as lides da arrumação da pescaria. Pelos pinhaes, onde as camarinhas parecem gotas de orvalho na verdura, pelos areaes onde giram as vellas dos moinhos, vieram a pé, os coturnos de lã nas pernas musculosas, saias de agazálho sobre as costas, á cabeça o sáco com o farnel, no passo meúdo e meneado, que lhes fazia voltear a rodaria das saias, e agitar os lenços alaranjados onde assentavam os chapeus pretos. Operarios da Marinha5, lavradores de Monte Real6, das Córtes7, dos Marrazes8, serranas de longe — das serras do Soubio9, de Minde10, do Louriçal11, gentes de toda a parte onde chegasse a voz do milagre, deixavam as casas e os campos, e vinham por ahi fóra a cavalo, de carro ou a pé, cruzando as estradas, atravessando montes e pinhaes, de longada pelos caminhos, que durante dois dias se animaram do rodar dos carros, do chouto dos jumentos, do vozear dos grupos dos romeiros.
O outomno avermelhava as vinhas vindimadas. O vento do nordeste, frio e cortante, anunciando o inverno, fazia tremer os choupos transparentes das bordas dos rios, que desmaiavam saúdosos do sol, em tons amarellos de rendas antigas.
Nos areaes giravam as vellas brancas dos moinhos. Nos pinhaes curvavam-se ao vento os cimos verdes dos pinheiros.
As nuvens iam cobrindo o ceu. Amontoava-se o nevoeiro em flócos leves e macios.
O mar, na vastidão da praia da Vieira, espumava, bramia, enrolava-se em ondas altas, e pelos campos ia-se ouvindo, n'um clamor sinistro, a sua voz!
Toda a noite, toda a madrugada choveu, uma chuva miudinha, persistente, que encharcava os campos, que entristecia a terra, que ia trespassando até aos ossos, de uma humidade fria, as mulheres, as creanças, os homens e os animaes, que cruzavam as estradas lamacentas, no caminhar apressado para a Serra do Milagre.
A chuva cahia, cahia, macia e teimosa.
As saias grossas d'estamenha e riscadilho pingavam, pezavam como chumbo, nas fitas das cinturas. Os barretes e os chapeus largos escorriam agua sobre as jaquetas novas dos fatos de vêr a Deus. Os pés descalços das mulheres, as botas ferradas dos homens, chapinhavam nas poças largas do lodaçal das estradas.
Mas a chuva parecia que não molhava, parecia que não sentiam a chuva!
Caminhavam sempre, subindo a serra, illuminados de fé, na ancia do milagre que Nossa Senhora promettera, no dia 13, pela uma hora, a hora do Sol, ás almas simples e puras de trez creanças que apascentavam gados!
Iam ficando para traz, perdidos na nevoa, esfumados na transparencia da chuva, pinheiros, choupos, carvalheiras, manchas vermelhas de vinhas, casaes, campos lavrados de terra escura... Os campos eram desertos. As casas eram fechadas!
Havia um silencio estranho nos campos desertos, de gentes e de gados, havia um ar de espera e de emoção na attitude das cousas, das casas pobres como adormecidas no silencio, janellas e portas fechadas á luz!
A serra era alta, mas parecia aos caminheiros que os não cançava a subida da serra!
A serra era triste, cada vez mais triste, de pedras escalvadas e negras sem a alegria da verdura de uma arvore, mas os caminheiros não sentiam a tortura impressionante e tragica da paysagem de dôr!
A chuva começou a rarear. Era agora só um veu de nevoa muito leve que se ia desfazendo a pouco e pouco, e pouco a pouco a serra ia aclarando.
Approximava-se um murmurio que vinha descendo do monte. Murmurio que parecia a voz longinqua do mar, que se tinha calado no silencio dos campos...
Eram canticos que se definiam, entoados por milhares de boccas.
No planalto da serra, cobrindo o monte, enchendo um valle, via-se uma mancha enorme e movediça de milhares e milhares de creaturas de Deus, milhares e milhares d'almas em prece!
Mãos erguidas, olhos em extase, vinham na fé ardente da crença. Vinham pedir o milagre a Nossa Senhora, pedir a redempção dos peccados, pedir a benção para as amarguras da vida!
Á uma hora da tarde, hora do sol, parou a chuva.
O céu tinha um tom acinzentado de perola e uma claridade extranha illuminava a vastidão biblica e tragica da paysagem triste, cada vez mais triste...
O sol tinha como um véu de gaze transparente para que os olhos o pudéssem olhar. O tom cinzento da madreperola transformava-se como n'uma chapa de prata luzidia, que se ia rompendo até que as nuvens se rasgaram e o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar, a girar em volta do circulo das nuvens afastadas!
Foi um grito só em todas as boccas; cahiram de joelhos na terra encharcada, os milhares e milhares de creaturas de Deus que a fé levantava até ao céu!
A luz azulava-se n'um azul exquisito, como se viesse, atravez dos vitraes de uma cathedral immensa, espalhar-se n'aquella nave gigantesca ogivada pelas mãos que se ergueram no ar...
O azul extinguiu-se lentamente para a luz parecer coada por vitraes amarellos.
Manchas amarellas cahiam agora sobre as caras, sobre os lenços brancos, sobre as saias escuras e pobres das estamenhas. Eram manchas que se repetiam indefinidamente sobre as azinheiras rasteiras, sobre as pedras, sobre a serra.
Tudo chorava, tudo rezava, de chapeu na mão, na impressão grandiosa e unica do milagre esperado!
Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vivídos foram!
Passaram nuvens sobre a claridade vaga e cinzenta que velava o sol!
As almas em prece, que tiveram por instantes a vida suspensa, á vida voltaram.
Esfarraparam-se as nuvens, appareceram bocados azues do céu. O sol, na serenidade impassivel de todo o sempre, illuminou vagamente a serra escalvada, onde Nossa Senhora fez juntar, pela bocca de trez creanças que apascentavam gados, milhares e milhares de creaturas de Deus!
Notas dos editores (9)
3 Este artigo viria a ser publicado em PATRICIO, Maria Magdalena Martel - Impressões de arte e de tristeza, Porto, Officinas da Empreza Lit e Typographia, 1918, p. 63-68
4 Vieira de Leiria, lugar e freguesia do concelho de Marinha Grande, distrito de Leiria.
5 Marinha Grande, concelho do distrito de Leiria.
6 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.
7 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.
8 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.
9 Não identificámos esta localidade.
10 Localidade do concelho de Alcanena, distrito de Santarém.
11 Freguesia do concelho de Pombal, distrito de Coimbra.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
De repente a Lucia disse-lhe que olhasse para a carrasqueira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os beiços. Em seguida ouvi-lhe fazer esta pergunta: O que é que vocemecê quer? Vocemecê disse que no dia de hoje que é 13 de Outubro me diria o que queria. Calou-se um momento e logo acrescentou: “Pois sim, mas se vocemecê não fizer algum milagre o povo diz que é mentira.” Depois calou-se por um pouco. Em seguida disse: “Mas o que hei-de eu pedir? Pedia que vocemecê salvasse este povo todo e o levasse para o Ceu e que curasse estes enfermos.” Nesta occasião estava muita gente a pedir. Não sei a quem se referia a pequena. Disse mais o seguinte: “Já aqui vim fallar umas poucas de vezes e nunca lhe perguntei como se chamava”. Depois de ouvir a resposta disse: “é a Senhora do Rosario.” Inclinando-se depois para a mãe, que estava proximo, mas sem se voltar para o povo, disse mais alto: “Diz Nossa Senhora que olhem para o sol, que ella se quer manifestar nos astros.”
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararSol a girarSol a cairLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagem
Nossa Senhora fez-me a vontade. Dignou-se dar signal evidente da sua aparição ás pequenas da Fatima.
Ao meio dia estavam na Fatima mais de noventa automoveis, uma infinidade de carros de todos os tamanhos, formas e feitios, e uma multidão enorme de pessoas (multitudo magna ... ex omnibus gentibus (?) et linguis (?)). Tudo molhadinho, encharcado, a escorrer mas alegre.
Cerca do meio dia vieram as pequenas ao local e começaram, como de costume, resando o terço. Acabado elle, perguntaram os pequenos10 a N. Senhora do Rosario se dava o tal signal prometido. Imediatamente apareceu o sol com a circunferencia bem definida. Aproxima-se como que até á altura das nuvens e começa girando sobre si mesmo vertiginosamente como uma roda de fogo prêso, com algumas intermitencias, durante mais de oito minutos. Ficou tudo quasi escuro e as feições de cada um eram amareladas. Tudo ajoelhou mesmo na lama.
Em todo o tempo, aqui e além, cantava-se, rezava-se, etc. Tudo saiu satisfeito.
Notas dos editores (1)
10 C Acabado êle, preguntaram as pequenas. Como se vê, o Autor trata os videntes, Lúcia, Francisco e Jacinta, ora por as pequenas ora por os pequenos, imprecisão que se repete adiante. Igualmente impreciso é o plural perguntaram (preguntaram), pois só Lúcia falava com a aparição.
13 out.Testemunho diretoViuNotaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagemSol a girar
Passamos o dia em preparativos para a viagem. Deviamos partir às 11 h da noite fazendo a viagem de noite para lá chegar de manhã.
Para a noite o tempo começa a toldar-se e pouco depois a trovoada desencadeia-se mas que trovoada era mais de meia noite e não se ouvem senão trovões e as faiscas são continuadas que fazer não partir é uma desolação. O Carlos persigna-se e diz que assim não vai espera-se pedindo a N. Senhora que afaste a trovoada. Ás 2h o tempo está melhor decidem-se a partir, a noite está escurissima prendem a mula à carroça; dentro poem umas cadeiras baixas para nós, e com uns cobertores lá nos instalamos. No banco da frente vai a mulher do Carlos e a afilhada17 a trás vamos nós18 a Regina19 e a Emilia20. O Carlos leva a mula pela arreata e assim começamos a viagem.
De quando em quando, os clarões iluminam o caminho, a trovoada está mais longe mas continua.
Assim andamos mais de uma hora os caminhos são medonhos a carroça vai sempre aos tombos tem a vantagem de não nos deixar dormir a Emilia faz-nos rir constantemente.
Já começamos a subir a serra de Aire o pior é que a chuva volta e nós temos pouca defesa, pois a agua que cai dos chapeus de chuva encharca a carroça e molha os cobertores.
O Carlos uns bocados sobe para o banco e lá continua a guiar o bicho o que vale é que conhece muito bem os caminhos.
Começa a clarear a chuva, agora é miudinha quasi um nevoeiro molhado como já está alguma luz vemos arvores rachadas pelas faiscas da trovoada aqui na serra, devia ter sido medonha. Bem dizia o Carlos que não vinha; ele já as conhece.
Muito temos andado por esta serra que parece não ter fim. Agora dizem que estamos perto de Fatima chove a valer já estamos encharcadas. Para não arrefecer muito e nas subidas para ajudar a mula vamos todos a pé, menos a Emilia que não pode andar muito.
Finalmente chegamos a Fatima são 9h o tempo está um pouco melhor, mas o ceu está todo coberto e ameaça mais chuva vem chegando muita gente, por vários caminhos da serra como nós veem molhados a maior parte mas todos vão, nem eu sei para quê, pois não está nada marcado e é só porque dizem que a Senhora falará hoje à Lucia.
A carroça fica em Fatima comemos alguma coisa, e agora vamos a pé para a Cova da Iria que é o lugar onde dizem tem havido as aparições.
Andamos quasi uma hora quando chegamos ao campo uma extensão bastante mais baixa que a estrada e onde há apenas algumas azinheiras, está bastante gente que espera, vamos a ver o quê!
É perto de meio dia dizem que os pastorinhos vão chegar gostava de os ver. O local onde se deram já as aparições está marcado com uns paus para deixar espaço para os pequenos estarem mais livres do povo mas já não podemos aproximar-nos muito, pois está muita gente. A terra está tão encharcada que os pés enterram-se já estamos de tal maneira enlameadas. Resolvemos ficar num ponto um pouco mais alto embora mais longe. Há movimento na multidão são os pastorinhos que chegam uns homens abrem-lhe caminho mal os vejo vão para o sitio dos paus chove a valer.
Começa a dizer-se que a Lucia diz para fecharem os chapeus, que a Senhora vem mas chove tanto embora todos obedecem e fechamos os chapeus. Com efeito pouco depois a chuva pára, mas não vemos mais nada. Os nossos olhos procuram por toda a parte. Agora uma pequena nuvem parece que pousa sobre uma azinheira ao pé dos paus, o sol aparece entre nuvens, mas sem brilho nenhum, parece a lua e dir-se-ia que tem uma cruz no meio e agora, ó maravilha a atmosfera tinge-se das cores do arco-iris vejo o chapeu de feltro branco da Rita24 cor de laranja depois verde, depois azulado depois rosa25 e por ultimo doirado; está tudo doirado que coisa linda!
Todos se sentem fascinados um homem perto de nós cai no chão sem sentidos de repente, o sol negro completamente parece que se despega do ceu e começa a rodar sobre si mesmo muito depressa parece que vai cair ouve-se um grito de toda a multidão que cai de joelhos pedindo misericordia.
Encontro-me tambem de joelhos em cima26 dum monte de pedras sem dar por isso. Mas tudo passa num momento o sol volta a estar encoberto pelas nuvens, a nuvem parece que levanta estão todos sem saber o que se passou como que atordoados dizem que a Lucia falou com a Senhora. Não conseguimos tornar a ver os pastorinhos. Encaminhamo-nos para Fatima, onde nos metemos na carroça e voltamos para Rodrigo o tempo está bom apenas se veem algumas nuvens soltas no ceu e o sol tem o brilho natural.
Notas dos editores (7)
17 Clotilde da Assunção Ferreira que veio a casar com Manuel Pinto, do Carvalhal da Aroeira. Falecida a 4 de Março de 1986.
18 Trata-se da Autora e da sua irmã Rita (cf. nota 24).
19 Regina Ferreira ficou órfã, ainda pequena, passando a viver em casa de sua prima Isabel da Nóbrega Machado. Faleceu em 1953.
20 Governanta da casa do conselheiro Augusto Jacques de Magalhães Machado, casado com Isabel da Nóbrega Machado, vizinhos e amigos da família Basto (cf. notas 3 e 15).
24 Rita, irmã de Maria Bettina. Nasceu a 1 de Março de 1896. Casou com o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990). Rita faleceu a 8 de Agosto de 1969, no Porto.
25 Maria Bettina diz-nos: "a silhueta que desenhei foi a que imaginámos ser o vulto da Senhora que aparecia aos pastorinhos".
26 Maria Bettina diz-nos: "O esboço da igreja de Valhelhas foi feito no dia 12, quando visitámos essa igreja situada próximo de Rodrigos" (cf. nota 14).
13 out.Testemunho diretoViuNotícia de imprensaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarMovimento em ziguezagueSol a cair
Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezesseis horas de hontem, na estação de Chão de Maçãs5, onde se apearam tambem pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao “milagre”, perguntei, de chofre, a um rapazote do “char-á-bancs” da carreira se já tinha visto a Senhora. Com seu sorriso sardonico e o olhar enviezado, não hesitou em responder-me:
— Eu cá só lá vi pedras, carros, automoveis, cavalgaduras e gente!
Por um facil equivoco, o trem que nos devia conduzir, a Judah Ruah e a mim, até á vila, não apareceu e decidimo-nos a calcorriar corajosamente cêrca de duas leguas7 por não haver logar para nós na diligencia e estarem, desde muito, afreguezadas as carriotas que aguardavam passageiros. Pelo caminho, topámos os primeiros ranchos que seguiam em direção [sic] ao local santo, distante mais de vinte kilometros bem medidos8. Homens e mulheres vão quasi todos descalços — elas com saquiteis á cabeça, sobrepujados pelas sapatorras; eles abordoando-se a grossos vara-paus e cautelosamente munidos tambem de guarda-chuva. Dir-se-hiam, em geral, alheados do que se passa á sua volta, n'um desinteresse grande da paizagem e dos outros viandantes, como que imersos em sonho, rezando n'uma triste melopeia o terço. Uma mulher rompe com a primeira parte da ave--maria, a saudação; os companheiros, em côro, continuam com a segunda parte, a suplica. N'um passo certo e cadenciado, pisam a estrada poeirenta, entre pinhaes e olivedos, para chegarem antes que se cerre a noite ao sitio da aparição, onde, sob o relento e a luz fria das estrelas, projetam dormir, guardando os primeiros lugares junto da azinheira bemdita — para no dia de hoje verem melhor.
Á entrada da vila, mulheres do povo a quem o meio já infétou com o virus do céticismo, comentam, em tom de troça, o caso do dia: — Então vaes vêr ámanhã a santa?
— Eu, não. Se ela ainda cá viesse!
E riem-se com gosto, emquanto os devotos proseguem indiferentes a tudo o que não seja o objetivo da sua romagem. Em Ourem só por uma amabilidade extrema se encontra aposentadoria9. Durante a noite, reunem-se na praça da vila os mais variados veículos conduzindo crentes e curiosos sem que faltem velhas damas vestidas de escuro, vergadas já ao peso dos anos, mas faiscando-lhes nos olhos o lume ardente da fé que as animou ao ato [sic] corajoso de abandonar por um dia o inseparavel cantinho da sua casa. Ao romper d'alva, novos ranchos surgem intrepidos e atravessam, sem pararem um instante, o povoado, cujo silencio quebram com a harmonia dos canticos que vozes femininas, muito afinadas, entoam n'um violento contraste com a rudeza dos tipos...
O sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta. As nuvens negras acastelam-se precisamente sobre as bandas de Fátima. Nada, todavia, detem os que por todos os caminhos e servindo-se de todos os meios de locomoção para lá confluem. Os automoveis luxuosos deslisam vertiginosamente, tocando as buzinas; os carros de bois arrastam-se com vagar a um lado da estrada; as galeras, as vitorias, os caleches fechados, as carroças nas quaes se improvisaram assentos vão ajoujados a mais não poderem. Quasi todos levam com os farneis, mais ou menos modestos, para as bocas cristãs a ração de folhelho para os irracionaes que o "poverelo" de Assis chamava nossos irmãos e que cumprem, valorosamente a sua tarefa... Tilinta uma ou outra guiseira, vê-se uma carrocinha adornada de buxo; no emtanto, o ar festivo é discreto, as maneiras são compostas e a ordem absoluta... Burrinhos choutam á margem da estrada e os ciclistas, numerosissimos, fazem prodigios para não esbarrar de encontro aos carros.
Pelas dez horas, o ceu tolda-se totalmente e não tardou que entrasse a chover a bom chover. As cordas de agua, batidas por um vento agreste, fustigam os rostos, encharcando o macadame e repassando até os ossos os caminhantes desprovidos de chapeus e de quaesquer outros resguardos. Mas ninguem se impacienta ou desiste de proseguir e, se alguns se abrigam sob a copa das arvores, junto dos muros das quintas ou nas distanciadas casas que se debruçam ao longo do caminho, outros continuam a marcha com uma impressionante resistencia, notando-se algumas senhoras cujos vestidos colados aos corpos, por efeito do impeto e da pertinácia da chuva, lhes desenham as fórmas como se tivessem saído do banho!
* * *
O ponto da charneca de Fátima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do logarejo de Aljustrel, é dominado n'uma enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automoveis alguem contou e mais de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancaram a estrada, um d'eles o auto-omnibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociaes.
Mas o grosso dos romeiros, milhares de creaturas que foram de muitas leguas ao redor e a que se juntaram fieis idos de varias províncias, alemtejanos e algarvios, minhotos e beirões, congregam-se em torno da pequenina azinheira que, no dizer dos pastorinhos, a visão escolhera para seu pedestal e que podia considerar-se como que o centro de um amplo circulo em cujo rebordo outros espectadores e outros devotos se acomodam. Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantastico. Os prudentes camponios, abarracados sob os chapeus enormes, acompanham, muitos d'eles, o desbaste dos parcos farneis com o conduto espiritual dos hinos sacros e das dezenas do rosario. Não ha quem tema enterrar os pés na argila empapada, para ter a dita de ver de perto a azinheira sobre a qual ergueram um tosco portico em que bamboleiam duas lanternas... Alteram-se os grupos que cantam os louvores da Virgem, e uma lebre, espavorida, que galga matagal em fóra, apenas desvia as atenções de meia duzia de zagaletes que a alcançam e prostram á cacetada...
E os pastorinhos? Lucia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flôres, ao sitio em que se levanta o portico. A chuva cae incessantemente mas ninguem desespera. Carros com retardatarios chegam á estrada. Grupos de fieis ajoelham na lama e a Lucia pede-lhes, ordena que fechem os chapeus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a minima relutancia. Ha gente, muita gente, como que em extase; gente comovida, em cujos labios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural... A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o céu, ainda caliginoso, começa, de subito, a clarear no alto; a chuva pára e presente-se que o sol vae inundar de luz a paizagem que a manhã invernosa tornou ainda mais triste...
A hora antiga é a que regula para esta multidão, que calculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias ás influencias misticas computam em trinta ou quarenta mil creaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visivel anunciado está prestes a produzir-se — asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetaculo unico e inacreditavel para quem não foi testemunha d'ele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter á terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possivel fitar-lhe o disco sem o minimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-hia estar-se realisando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:
— Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!
Aos olhos deslumbrados d'aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos biblicos e que, palido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fóra de todas as leis cosmicas — o sol “bailou”, segundo a tipica expressão dos camponezes.. Empoleirado no estribo do auto-omnibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja fisionomia, ao mesmo tempo doce e energica, lembram as de Paul Déroulède10, recita, voltado para o sol, em voz clamorosa, de principio a fim, o Credo. Pergunte quem é e dizem-me ser o sr.
João Maria Amado de Melo Ramalho da Cunha Vasconcelos12. Vejo-o depois dirigir-se aos que o rodeiam, e que se conservaram de chapeu na cabeça, suplicando-lhes, veementemente, que se descubram em face de tão extraordinária demonstração da existência de Deus. Cenas identicas repetem-se n'outros pontos e uma senhora clama, banhada em aflitivo pranto e quasi n'uma sufocação:
— Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem deante de tão estupendo milagre!13
E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior numero confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porém, declaram ter visto o rosto risonho da propria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artificio, que ele baixou quasi a ponto de queimar a terra com os seus raios... Ha quem diga que o viu mudar sucessivamente de côr...
* * *
São perto de quinze horas.
O ceu está varrido de nuvens e o sol segue o seu curso com o esplendor habitual que ninguem se atreve a encarar de frente. E os pastorinhos? Lucia, a que fala com a Virgem, anuncia, com ademanes teatraes, ao colo de um homem14, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminára15 e que os nossos soldados iam regressar... Semelhante nova, todavia, não aumenta o jubilo de quem a escuta. O sinal celeste foi tudo. Ha uma intensa curiosidade em vêr as duas rapariguinhas com suas grinaldas de rosas, ha quem procure oscular as mãos das "santinhas", uma das quaes, a Jacinta, está mais para desmaiar do que para danças, mas aquilo por que todos anciavam — o sinal do ceu — bastou a satisfazel-os, a radical-os na sua fé de carvoeiro. Vendedores ambulantes oferecem os retratos das crianças em bilhetes postaes e outros bilhetes que representam um soldado do Corpo Expedicionario Portuguez "pensando no auxilio da sua protetora para salvação da Patria" e até uma imagem da Virgem como sendo a figura da visão... Bom negocio foi esse e decerto mais centavos entraram na algibeira dos vendedores e no tronco das esmolas para os pastorinhos do que nas mãos estendidas e abertas dos leprosos e dos cegos que, acotevelando-se com os romeiros, atiravam aos ares seus gritos lancinantes...
O dispersar faz-se rapidamente, sem dificuldades, sem sombra de desordem, sem que fosse mister que o regulasse qualquer patrulha da guarda. Os peregrinos que mais depressa se retiram, correndo estrada fóra, são os que primeiro chegaram, a pé e descalços com os sapatos á cabeça ou dependurados nos varapaus. Vão, com a alma em lausperene, levar a boa nova aos logarejos que não se despovoaram de todo. E os padres? Alguns compareceram no local, sorridentes, enfileirando mais com os espectadores curiosos do que com os romeiros avidos de favores celestiaes. Talvez um ou outro não lograsse dissimular a satisfação que no semblante dos triunfadores tantas vezes se traduz... Resta que os competentes digam de sua justiça sobre o macabro bailado do sol que hoje, em Fátima, fez explodir hossanas dos peitos dos fieis e deixou naturalmente impressionados — ao que me asseguraram sujeitos fidedignos os livres pensadores e outras pessoas sem preocupações de natureza religiosa que acorreram á já agora celebrada charneca.
Notas dos editores (10)
4 Vila Nova de Ourém.
5 Também conhecida por Estação de Fátima.
7 De Chão de Maçãs a Vila Nova de Ourém são 10 kilómetros.
8 De Vila Nova de Ourém a Fátima são 13 kilómetros.
9 D. Maria Isabel de Barros e Sá Pereira Machado, de Vila Nova de Ourém, filha de António José Pereira, nessa altura correspondente de "O Século" em Vila Nova de Ourém, diz que foi a Fátima na carruagem de seu pai, com Avelino de Almeida e seu companheiro (Ruah). Ao ter conhecimento dos factos de Fátima, seu pai pôs-se em contacto com o jornal "O Século", que enviou Avelino de Almeida e Ruah. Estes passaram por Ourém, procuraram o Administrador que não estava e partiram para Fátima em carruagem alugada.
10 Escritor e político francês, nasceu em Paris a 2 de Setembro de 1846. Em 1882 fundou e foi o presidente da “Liga dos Patriotas”. Foi o autor de Chant du Soldat (1872) e de Nouveaux Chants du Soldat (1875). Faleceu, em Nice, a 30 de Janeiro de 1914.
12 Segundo informação de Maria Elisa Cunha Serra, João Vasconcelos foi a Fátima na mesma carruagem que Maria Raposo, ela própria e outras pessoas. Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 4.
13 D. Maria Isabel de Barros e Sá Pereira Machado diz que no momento do milagre estava junto à carruagem da família do Marquês da Foz. Ouviu ao Marquês uma frase muito semelhante a esta: "Ainda há gente que não se descobre perante tão grande milagre".
14 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10).
15 O acento agudo desta palavra está na penúltima sílaba: terminára (pretérito-mais-que-perfeito) e não na última sílaba: terminará (futuro).
13 out.Testemunho diretoEm parteNotícia de imprensaAtitude céticaA multidãoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairPalavras dos videntes
Vila Nova de Ourem, 13.— Apesar da chuva miudinha e impertinente que começou a cair logo de manhã, extraordinario numero de pessoas acorreu á freguesia de Fátima para presencear o caso extraordinario da aparição que desde quinta feira de Ascenção tem ocupado a atenção destes povos e atraído áquela localidade milhares e milhares de peregrinos de todas as classes sociais e sexos.
Já ante-ontem3 começaram a passar por esta vila ranchos de homens e mulheres, que com toda a devoção e crença, entoando canticos e resando o terço, se dirigiam para o local onde o "milagre" se devia repetir pela ultima vez, conforme as declarações dos três pastorinhos, a quem Nossa Senhora se dignou aparecer várias vezes, como eles dizem, nos dias 13 desde aquela data.
Para se poder imaginar a afluencia de pessoas, vamos dar uma nota dos veículos que nos foi possivel contar: Carros, 240; bicicletas, 135; automoveis para cima de 100. Esta estatistica representa apenas o numero de veículos que regressou por esta vila.
A anciedade pela hora do coloquio, 13 horas, era manifesta.
Embora a chuva continuasse a fustigar aquela multidão ninguem arredou pé do local previlegiado. Precisamente aquela mesma hora os três pastorinhos, cujos nomes são Lucia, Jacinta e Francisco, chegaram ao lugar preciso, postando-se imediatamente de joelhos sob um arco “adrede” arranjado, assim como um altar que junto foi levantado.
A sugestão tomou imediatamente aqueles milhares de crentes e curiosos. Como grande numero de pessoas tivesse os guarda-chuvas abertos, os pequenos mandaram fecha-los, e coisa extranha, segundo testemunho de milhares e milhares de pessoas, o sol apareceu com uma côr de prata fosca, numa agitação circular como se fosse tocado pela electricidade, segundo a expressão empregada por pessoas ilustradas que presencearam o facto.
E milhares de pessoas sugestionadas, e quem sabe mesmo se ofuscadas pela propria luz do sol que durante o dia aparecia pela primeira vez, cairam por terra chorando e levantando para o alto as mãos, que instintivamente juntavam.
Nos seus rostos notava-se um embevecimento estatico que denotava um absoluto alheiamento da vida. Choravam e rezavam as suas almas simples, perante a estranha sensação dum facto que para eles, naquele momento, era milagroso. Pessoas houve mesmo segundo ouvimos a algumas, que lhes pareceu ver o sol abandonar a sua ficticia orbita, romper as nuvens e descer no horisonte. A sugestão destes videntes estendia-se a outros a quem eles explicavam o fenomeno, e por esse motivo, muitas prégando que o astro rei viria precipitar-se no solo, preromperam em altos gritos, impetrando a protecção da Virgem.
A “hora milagrosa” passára.
As crianças levantaram-se, sorridentes, e explicaram aos seus anciosos ouvintes que a “Senhora” lhes dissera que a paz viria breve e que não tardaria o regresso dos nossos bravos soldados que em França se batem heroicamente. No local eram vendidos postaes com os retratos das ingenuas crianças.
Os peregrinos, após aqueles momentos de anciedade, regressaram a suas casas, desejosos de contar aos que não tiveram a felicidade de ir ao local santo, o que os seus olhos e principalmente as suas almas crentes, haviam com tanto deslumbramento presenciado.
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeSol a cairCalorSol a girarDisco pálido / prateadoA multidãoPalavras dos videntes
Venho contar-lhe as minhas impressões de Fátima, no dia 13 do corrente (13 d'Outº 1917). Foram as maiores e por muitos anos que eu viva, nunca esquecerei aquelles momentos deliciosos — Vi immensas coisas! Vi o sol descer á terra d'uma maneira extraordinaria, chegando a incomodar o calor; vi-o andar á roda com velocidade como as rodinhas de fogo preso; vi o sol como uma hostia.
Há quem diga, que viu o sol de variadissimas côres, eu, vi-o branco de neve, ou então cinzento escuro; vi tudo isto e o que mais impressiona e consola a grande manifestação de Fé. Fallei com a pequena mais velha, que não é bonita mas muito sympathica, vergonhosa e modesta foi preciso arrancar-lhe as palavras e no fim de tudo, — fallando ás massas — parecia um Padre no pulpito, e com a cara transfigurada.
GrupoVisitantesenhora; atestado conjunto com a irmã Maria Garrett Correia, a cunhada e pessoas amigas
13 out.Testemunho diretoViuNotaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCalorSol a cair
Eu Maria Luisa Garrett Corrêa minha irmã Maria Garrett Corrêa minha cunhada e outras pessoas amigas que nos acompanhavam afirmamos que fomos testemunhas do que resumidamente passo a descrever3
Perto de sessenta mil pessoas aguardam a hora predita pelas creanças hora que a Virgem lhes anunciára se deveria dar o prodígio visível para todos os que no dia 13 de Outubro visitassem aquele lugar santo.
A hora antiga4 é a que regula. Á meia hora5, pouco mais ou menos pela hora solar, o sol que até essa ocasião estava cuberto por densas e negras nuvens, pois desde as oito da manhã a chuva não cessára um momento acompanhada por um vento tempestuoso, mostra-se de repente liberto de nuvens, no zenith, a chuva cessa, o sol lembra uma placa de prata fosca que é possível fixar sem o mínimo esforço, e aos olhos espantados da multidão, em quanto a creança, que se dirige á Virgem, manda que se ajoelhem e se descubram, o sol gira sobre si mesmo n'um movimento vertiginoso lançando bafaradas de calor como um forno acceso que se houvera aberto, o sol parece aproximar-se da terra em movimentos bruscos e rápidos sucessivamente muda de côr, e a paisagem torna-se amarela depois torna-se arroxeada segundo as côres revestidas pelo sol. Este fenómeno dura aproximadamente 10 minutos durante os quais a multidão de joelhos e de mãos postas clamava perdão e misericórdia.
Do lugar aonde a Virgem falla ás creancinhas elevava-se um fumo branco transparente que forma como uma nuvensinha que envolve o lugar entre dois pequenos carvalhos6 aonde as creanças aguardam a aparição. A pequena mais velha, Lucia, de 10 anos, pergunta a Virgem em voz alta quem é vocês-mecê? Vocês-mecê o que quer? As respostas não se ouvem, mas quando o sol retoma o seu curso habitual a creança volta-se para o povo e ao colo de um homem7 que a segura nos braços repete as palavras da Senhora
Eu sou a Virgem do Rosario quero que me edifiquem aqui uma capella.
Diz ao povo que se emende de attentar contra Deus diz-lhe que hoje se faz a paz e que os vossos militares hão de voltar
As duas outras creanças Francisco e Jacyntha, vêem a Virgem mas não lhe falam.
Notas dos editores (7)
1 Documento não datado. Foi entregue ao Sr. Bispo de Leiria em 10 de Março de 1972 pelo Rev. Dr. Hugo Fernandes de Azevedo, que o tinha recebido de uma pessoa do Porto.
2 Não temos elementos que nos permitam identificar a cunhada e as pessoas amigas.
3 A autora começou por escrever o seu testemunho a partir de "Perto de..." depois inseriu na margem superior da folha 1 a introdução: "Eu... até... descrever". Mas por falta de espaço, duas linhas dessa introdução tiveram de ocupar os espaços entre a primeira e a terceira linha.
4 Hora solar, isto é, a hora natural do sol. Sobre a cronologia do fenómeno solar, ver AMORIM, D.P., O Fenómeno solar de 13 de Outubro de 1917, Coimbra, "O Instituto", 1961, p.8-16.
5 Cerca das 14.07h da hora nova, hora de Verão.
6 Pela documentação existente não se tratava de carvalhos, mas de pequenas azinheiras ou carrasqueiras
7 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10 e DCF, vol. 2, Doc. B, de 13 de Setembro de 1927).
Na sexta feira fomos a Thomar e das janelas das senhoras Mousinhos7 vimos passar carros cheios de gente muito calada e pensativa, vendo-se que ia dominada por um sentimento serio. Muitas pessoas a pé e em burros seguiam pelo mesmo caminho. Algumas deviam ser das serras, de muito longe; os homens tinham chapeus como o do Pai, à alemtejana, mas maiores, e cacetes revirados em cima como os dos antigos pastores. Não vimos mais nada.
Notas dos editores (1)
7 Eram duas irmãs, D. Júlia e D. Beatriz. Viviam na Várzea Pequena, Tomar, numa casa antiga, que faz esquina para a estrada que segue para Ourém e donde facilmente se pode assistir a todo o movimento da estrada. Tinham mais uma irmã, D. Matilde, casada com o General Leão, que vivia na Levada, Tomar. Um tio destas senhoras, José Isidro, ainda viveu no Convento de Cristo e usou hábito.
AristocrataEstudantealuno do Colégio Militar, filho do Marquês do Funchal (mais tarde Conde do Funchal)
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemSol a cair
Durante toda a noite passou gente para Fátima. Ás 4 da manhã pessôas vindas num automovel bateram á porta aproveitando eu a ocasião para sair da casa sem saudades andando 12 K. de baixo de chuva constante e vento que cortava a cara se não fosse agua ardente que levava nem sei se chegaria ao sitio do milagre.
Ás 9, hora a que eu cheguei já se encontrava gente que tinha passado a noite á chuva. Até ás 2 horas hora a que devia haver o milagre não parou a chuva grauda tendo toda a gente sem arredar pé do sitio ficado molhada até aos ossos. Eu com capote e almofada na cabeça e manta por cima de tudo corria-me a agua pelos braços a baixo. Até ás 2 não parou a afluencia de gente e de vieculos de todas as especies e todas as provincias. Automoveis de Espanha e França; mulheres vindas a pé do Algarve e Alemtejo Varinas de Lisbôa que gastariam 18 000 na viagem emfim coisa (2) que eu nem tu vimos em dias da nossa vida. A charneca da aparição é no genero dos cassais do meu pae uma planicie circundada de montes e por esses montes e vale as pessôas acotevelavam-se como num comicio na Rotunda13.
Eu e toda a gente (apesar dos jornais anti-catholicos darem para baixo no numero de pessôas calculamos mais de cento e tantas mil pessoas de todas as regioes do pais etc.
Apesar da chuva incessante ouvia-se por todos os lados córos de raparigas afinadas a cantarem cantos sagrados.
Até ás 2 horas hora a que vieram as raparigas a quem aparecia Nossa Senhora não cessou afluencia de gente de todas os sitios do paiz com 12 leguas de vinda e 12 de ida a pé.
As pequenas ajoelharam-se no meio da turba onde havia um altar tosco e do qual eu estava distante apenas 100 metros tendo por isso muita sorte. O circulo de gente em volta das pequenas tinha um Kilometro de comprido por outro de largo dentro do qual se achava uma denssa maça de gente. A chuva continuava sempre sempre as mulheres até tremiam o queixo de molhadas que estavam nisto as pequenas mandaram fechar os chapéus de chuva e a chuva parou imediatamente.
Em o ceu que estava completamente toldado de nuvens abriu-se um circulo onde se via o sol como se fosse a lua num dia de luar e apresentava em volta uma aureola de prata.
O circulo tomou então as cores sucessivamente azul encarnado amarelo e verde ao mesmo tempo todos os objectos tomavam essa côr. Isto durou 1 minuto findo o qual toldou-se de novo o ceu. Em seguida a ocasião em que Nossa Senhora falou com as pequenas e para o que desceu do ceu formou-se uma nuvem escura em volta do sol que toda a gente podia fitar sem lhe doer a vista tomando varias cores e parecendo descer sobre nós. Depois quando Nossa Senhora subiu ao ceu a nuvem agora que parcia fogo subiu de novo com o sol e a nuvem começou a girar em volta do sol em quanto este sobre o fundo azul do ceu sempre com a aureola de prata começou a tremer imenso.
Só visto este milagre deslumbrante é que se pode fazer ideia e eu dou-te a minha palavra d'honra que me convenci de que era milagre e tenho por testemunhas as 100 000 pessôas que assistiram. Digo-te tambem que logo que acabou o milagre que ao todo teve a duração de 15m. o sol brilhava de tal forma e como costuma todos os dias que ninguem como sabes é capás apenas durante 1m de o fitar. Ao mesmo tempo que se dava tal fenomeno elevava se ao ar de 100 000 bocas esclamações pias. Tendo eu assim como me disseram mais pessôas, uma impressão extraordinaria de modo ao mesmo tempo do que uma vontade saber o impossível. Findo o milagre toda a gente acordou como dum sonho e a impressão passou.
(3) Nossa Senhora disse áos pequenos para se fazer uma ermida nesse sitio e que a guerra acabava daqui a pouco tempo e que os Portuguezes voltariam em breve. O homem a meu lado que não acreditava em nada foi-se convertendo a pouco e pouco emquanto o milagre se dava. No fim de tudo toda a gente quiz ver as pequenas para o quê fiz varios esforços mas não consegui nada e quasi por um triz que não partia um braço. Toda a gente começou a retirar na melhor ordem sem ser preciso policias.... Não vi nenhum bebado nem houve sequer uma discussão. Enterroguei varias pessoas sobre o sucedido e toda a gente me dizia e me contava da maneira porque eu tinha visto. Durante 4 a 5 a 6 horas (só a metade porque a outra metade que éra de oeste retirou por outra estrada) desfilou como na avenida aos domingos ou como a saida da Praza de touros durante a estrada de 12 Kilometros a ponto tal que os automoveis acompanhavam os carros. Fiz-me a caminho de chão de maçãs percorrendo 22 Kilometros ao som dos canticos das raparigas de Tomar do Alemtejo etc. Veiculos ao todo deveriam ser 1000 pois que automoveis somente da parte de leste passava de 100 o seu numero.
Notas dos editores (1)
13 Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, local habitual das manifestações políticas da época.
Visitantemulher de Viseu residente em Torres Novas
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoCores nas pessoas e na paisagemEstrela / globo luminosoPalavras dos videntesSol a girarDisco pálido / prateado
Sabe minha mãe; tres dias antes, já para lá caminhava gente que vinha de longes terras, faça ideia que estavam lá para cima de 50 mil pessoas, só ver tanta gente ficava um descrente convertido. Consta se que se converteram muitas pessoas; estamos todos admirados; sabe que ao meio dia em ponto vieram umas côres do Ceu, cair sobre aquella grande multidão, a seguir veio uma estrela sobre a Carrasqueira aonde as pequenas estão ajoelhadas; n'isto cai uma atmosfera encantadora sobre todos quanto lá estavamos e nota-se que é a Santissima Virgem que está falando com a feliz menina chamada Lucia; a ditosa menina grita ao pôvo que a nossa Senhora disse que todo o povo olhe para o sól e toda aquela gente começa a clamar "Viva a Virgem do Ceu e da terra. Ao pé de mim estavam todos de joelhos em terra dizendo bem alto "Viva a Nossa Senhora e outros estavam admirando as maravilhas do sól; sabe que o sól pôz-se numa volucidade a andar á róda, que parecia uma roda de fogo, depois parou e já sem brilho; para todos verem melhor, ficou á vista de todos em forma d'uma Sagrada Hóstia; ahi toda a gente ficou aterrada de "tal milagre", depois de tudo passado diz a ditosa menina Lucia que nossa senhora disse que ia acabar a guerra e que já estavam as bandeiras da páz á vista (milagre) mas tambem a nossa Senhora recomendou que dissesse ao povo para que todos rezassem o terço todos os dias e que lhe fizessem uma Igreja n'aquele sitio. Sabe minha mãe, a menina Lucia andou em triunfo toda a gente a queria ouvir e beijar, e uma fui eu; que me meti num apertão e consegui vê-la.
Notas dos editores (3)
1 Nasceu em S. Salvador, Viseu, a 13 de Maio de 1881. Filha de João Sampaio e Maria de Sant'Anna. Casou com António Lopes Rodrigues. Faleceu, em Lisboa, 24 de Setembro de 1945.
2 Nasceu em 1854, filha de José Ferreira Ramos e de Maria Almeida Sant'Anna. Casou com João Sampaio a 14 de Agosto de 1880.
3 A existência de uma cópia desta carta na Quinta da Cruz, poderá ser explicada pelo facto de a madrinha de casamento de Maria Sant'Anna, residir nesta Quinta.
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoSol a girarA chuva a pararPalavras dos videntes
Deveriam estar pela estrada fora mais de 300 vehiculos e talvez, entre eles, mais de 100 automoveis. Veio gente de Lisboa, Santarem e até de Guimarães! De todos os pontos do paiz.
A comoção que avalassou o espirito da maioria d’aquela gente podes ainda avalia-la pela descripção do Seculo.
Foi assombroso!
E o caso não era para menos.
Deem eles — os sabios — a explicação que quiserem ao fenomeno, mas o que é facto é que se produziu um fenomeno — não previsto — e produziu-se precisamente no dia e á hora que aquelas creanças indicaram.
Que deveremos concluir d’aqui?
Não sei.
O sol teve uns movimentos de rotação d’uma rapidez vertiginosa.
Via-se andar à roda que parecia “um rodisio” segundo a expressão d’um qualquer camponio.
E o tempo que estava de chuva parecendo que seria para todo o dia levantou precisamente n’aquela altura. Coincidencia? Talvez.
Mas como explicam os descrentes o facto d’aquela creança, segundos antes do fenomeno se produzir, ter dito “Olhem para o sol. É agora”.
E o fenomeno produziu-se. E ninguem tinha conhecimento de que natureza era o fenomeno que ia produzir-se e todos, desde o mais proximo ao mais afastado, e compreendes que estando ali umas 30.000 pessoas segundo os calculos feitos estava gente muito afastada uma da outra, todos, repito n’aqueles breves momentos, viram o mesmo fenomeno. Por isso não houve sugestão.
Notas dos editores (4)
1 Filho de José Ferreira Patrício. Pelo que está impresso nas folhas do seu memorandum, pensamos que se trata de um comerciante de Leiria.
2 As informações que possuímos acerca desta carta foram fornecidas pelo Sr. António José Patrício Sampaio, morador em Leiria, filho ou sobrinho do autor.
3 Esta fotocópia foi oferecida, em 8 de Julho de 1995, por Alfredo João Conde Búzio Sampaio Ramos. Este senhor veio ao Santuário de Fátima trazendo consigo o original da carta que seu pai, António José Patrício Sampaio Ramos, descobriu entre os papéis da família. Permitiu que fossem tiradas fotocópias e disse que iria enviar o original para o Arquivo Distrital de Leiria.
Visitantesenhora católica instruída, mulher de um oficial de cavalaria em Alcobaça
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararPalavras dos videntes
O 13 de outubro era esperado por crentes e descrentes, por bem diversas razões, com indiscriptivel anciedade. Amanheceu de chuva; e esta foi sempre augmentando até que chegou a ser copiosa. Não sei descrever-lhe o aspecto que o logar offerecia!
As creanças tinham ido para o logar á hora do costume, e nós, que por causa da chuva tinhamos ficado no automovel6 a grande distancia, vimos muito bem quando o povo ajoelhou e calculamos que seria quando a vidente annunciou a apparição da Virgem. Ouvem-se canticos. Olhamos: o ceo e a tristeza certamente se haviam apoderado de todos os corações, porque a chuva cahia incessante e nenhum phenomeno se apresentava! A hora adeantava-se, e nada! Olhavamos porém o logar da apparição e lá viamos ainda a enorme multidão, que não se havia retirado. Era signal que a vidente ainda lá se achava. E a esperança renascia. O Luiz Alvaiazere, já meio descrente, tambem disse: Ainda agora, no sitio onde estão as creanças dizia-se que a vidente affirmára que hoje seria á uma hora em ponto. Vêem-se os relogios. Faltavam 2 minutos. De repente, a chuva cessa como por encanto, o sol rompe brilhantissimo, e seguem-se coisas que mil annos que eu viva nunca da minha memoria se poderão apagar!! É uma indescriptivel maravilha o que os nossos olhos vêem! Mas para mim que sou crente — e hoje mais do que nunca — o mais maravilhoso d'esta maravilha consiste em ter sido annunciada por uma simples creança de 10 annos; e, precisamente no dia e á hora para que ella a annunciou, o phenomeno deslumbra-nos! Os sabios saberão explicar este; mas o que elles certamente não saberão, não poderão, nem quererão explicar, é o poder sobrenatural que o produziu. Não confessarão talvez o milagre; mas creio bem que nos seus corações o reconhecem, porque é indiscutivel.
[…]
Na occasião do milagre tudo chorava, e de quasi todas as bocas saía o angustiado grito de: — Minha Mãe Santissima, salvae os nossos Filhos! Minha Nossa Senhora, salvae Portugal!
Notas dos editores (1)
6 Cremos que se trata da "limousine" de José Rino (cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 27).
Aristocrataaristocrata lisboeta, filha do Marquês de Sousa Holstein
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoCores nas pessoas e na paisagemA chuva a pararPalavras dos videntes
Tive a grande felicidade d'ir a Fatima, com as maiores das contrariedades até ao fim, mas tudo se venceu, e fui. Nunca me esquecerei!! Estávam para cima de 50.000 pessoas e com que respeito e devoção.
Homens aos milhares. Já se vê ninguem viu Na Sa a não sêr as 3 pequenas, mas o que todos viram foi a luz d'ouro que deu em toda a gente durante a estada de N. S. na terra. Imagina que chovia a potes, mas ás 2 horas em ponto apareceu o sol havendo depois as luzes mais extraordinarias possiveis. N. S. disse que era a Senhora do Rosario que vinha trazer a paz, que ainda este anno acabava a guerra e que breve cá tínhamos os nossos soldados. Que se lhe fizesse ali uma Capella, que rezassemos muito o terço, e que nos emendássemos porque temos ofendido muito a Deus!!! Podes calcular a impressão que tudo fez. As 3 pequenas nunca se contra dizem e são o mais innocentes e simples possivel.
O grito de toda aquella gente por Na Sa não me esquecerei e a devoção com que rezávam.
Notas dos editores (3)
1 Nasceu a 29 de Novembro de 1869, em Lisboa. Filha dos primeiros Marqueses de Sousa Holstein, neta paterna dos primeiro Duques de Palmela e materna dos segundos Condes do Sobral. Residia em casa de sua tia materna, D. Maria Margarida, Condessa de Mossâmedes. Faleceu, solteira, a 21 de Fevereiro de 1948.
2 Nasceu a 13 de Novembro de 1866 em Lisboa. Era filha dos primeiros Condes de Mossâmedes. Casou a 26 de Junho de 1893 com D. Pedro de Mendoça Rolim de Moura Barreto, terceiro filho dos terceiros Condes de Azambuja, com geração referida neste documento por "pequenos". Faleceu em Lisboa a 12 de Fevereiro de 1954.
3 Impresso. Quinta assim chamada por ter pertencido ao Barão de Mossâmedes, antepassado do primeiro Conde do mesmo título, que veio a ser seu proprietário. Fica situada em Carcavelos, concelho de Cascais.
Aristocrataaristocrata (filha do Marquês de Tancos), de 59 anos
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarA multidãoPalavras dos videntes
Creio firmemente que Aquilo é Verdade, n'essa Fé já para lá fui, tive lá momentos de afflicção e desconsolo, que não fizeram com que deixasse de acreditar, só me faziam uma grande pena! Foi quando no momento solemne eu não vi nada do que os outros viam! Não vi então nada no sol, não vi nada ali que justificasse tudo o mais que eu via á roda de mim, mas esse espectaculo e tudo o que eu vinha vendo desde as 10 horas da manhã eram o bastante para eu continuar a crêr. Mas era uma lucta, porque ao mesmo tempo estava triste, tristeza que sem eu querer me vinha á cára, que a algumas pessôas fez impressão. Puzemos-nos a caminho, e feitos já alguns kilometros d'automovel, a Marianna Ribeira5, que tudo tinha visto, que tinha ouvido o recado da criança (eu não estava bastante perto para ouvir as palavras mas tinha podido vêr que ella vinha fallando muito animada em contraste com o que tinha visto antes como depois te direi) a Marianna diz-me: reparem para o sol que ainda não está normal. Eu então olho e vi, affianço que vi e juraria se necessario fosse. O sol sem brilho, sem côr e poude fital-o. Ia passando uma ligeira nuvem branca. Eu disse: deixa vêr quando passar a nuvem. Passou e eu sempre a fital-o, vi-o passar por differentes côres que não posso precizar e fez-se verde, bem verde claro, como verde salsa com um aro doirado á roda, e girando. Uns raios muito compridos pareciam tocar na terra e o sol parecia estar separado do ceu. Depois o ceu tomava uns clarões côr de rosa 2/ mudou para amarellado de roda do sol, e mais longe manchas aqui e alem. Passados uns momentos compridos que não sei precizar, ficou normal e não tornei a poder fital-o.
Porque vi ali e não vi lá? Aconteceria a mais alguem alem de mim e da Geni14, que lá não vio nada e alguma coisa vio depois, não tanto como eu ia vendo e lhe dizia, ao passo que a Marianna foi das quazi extasiadas! Não sei, o que sei, o que affianço é que isto assim aconteceu! Como chegassemos cedo fomos até Aljustrel; fomos a pé e já chovia bem. Vi a pequena, fallamos-lhe, fizemos-lhe algumas perguntas a que ella se não mostrava disposta a responder, comquanto nos sorrise com um modo muito simples e bom. Muito instada disse, como quem repete uma coisa já muito dita a historia da primeira Apparição tal qual tu m'a mandaste contar. Nada mais disse e não insistimos.
[…]
Eu agora, quando rezo, não vejo diante de mim senão aquelle tosco arco de pinho, as duas candeias e uns ramos de flôres, e diante d'isso aquelle povo a rezar o terço e a cantar a ladainha, só porque acreditaram que ali tinha estado e ia estar Nossa Senhora!
Notas dos editores (5)
1 Nasceu a 4 de Abril de 1858, era filha dos quintos Marqueses de Tancos e décimo primeiro de Atalaya. Faleceu a 6 de Setembro de 1930. Em 1917 tinha 59 anos.
2 Nasceu a 21 de Janeiro de 1881. Filha de João Evangelista Gonçalves Zarco da Câmara (Ribeira Grande) e de Eugénia de Melo Breyner (Mafra). Foi educanda no Colégio das Religiosas da Visitação de Santa Maria (Salesias), em Belém, Lisboa. Faleceu a 4 de Julho de 1928.
5 Marianna Caetana Rita da Câmara, nasceu a 22 de Maio de 1858, casou a 16 de Agosto de 1877 com Manuel Maria de Castro Lemos de Magalhães Menezes, Senhor da Casa do Covo. Faleceu a 22 de de Novembro de de 1935.
14 Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo, nasceu a 17 de Junho de 1901. Filha de Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein e António Mimoso Brandão de Melo.
ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem), chefe miguelista
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararSol a mudar de corSol a girarSol a cairCalor
Do que, a este ultimo respeito, occorreu no recente dia 13, sabbado, podemos nós testemunhar, porque lá estivemos, não como peregrino, note-se bem, mas como curioso.
Das 11 á uma e meia a chuva foi constante e impelida por vento forte: um tempo francamente agreste e desagradavel que a enorme multidão de muitos milhares de pessoas supportou d'excellente humor, sem outro abrigo mais que os chapeus de chuva e os vehiculos — pois não se descortina nas immediações uma só edificação.
Uma hora e 37 minutos e meio — o meio dia solar — era a hora annunciada da visão, com a qual se esperava coincidissem os phenomenos no ceu.
A essa hora continuava chovendo.
Minutos depois, a chuva diminuiu e quando era uma e tres quartos cessou por completo.
O sol, até então encoberto, mostrou-se entre nuvens que corriam com certa velocidade. E como era variavel a densidade d'estas, mais ou menos diaphano era o veu que ellas punham sobre o astro-rei.
Como toda aquella multidão, olhámos então para o sol com attenção sustentada e, atravez das nuvens, vimol-o com aspectos novos: novos para nós, note-se bem.
Umas vezes rodeado de chammas encarniçadas, outras vezes aureolado de amarello ou roxo esbatido, outras vezes parecendo animado de velocissimo movimento de rotação, outras vezes, ainda, apparentando destacar-se do ceu, approximar-se da terra e irradiar um forte calor.
Para quê, negal-o? Estes phenomenos que jámais tinhamos visto, impressionaram-nos fortemente. Estabelece-se, nas multidões, uma psychologia collectiva. E, na sua grande generalidade, sobre aquella multidão perpassava uma grande onda de fé, que fortemente commovia.
[…]
Em summa, voltámos de Fátima n'aquelle mesmo estado d'espirito em que para lá fôramos - na duvida.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntesCores nas pessoas e na paisagemA multidão
6ª Aparição – 13-10-1917 – No dia 16 de outubro chamei à minha presença Lúcia e interrogada disse que viu primeiro um relâmpago, o que se tem dado sempre: disse ao povo que se calasse que já tinha dado o relâmpago; voltei-me para o nascente e vi vir Nossa Senhora pelo ar abaixo e disse ao povo: calem-se que já lá vem Nossa Senhora – Veem-na! Veem-na!
A Senhora veio e pôs-se em cima das rosas e fitas de seda que estavam a cobrir os troços da carrasqueira.
Eu perguntei:
– O que é que vossemecê me quer?
– Quero-te dizer que não ofendas1 mais a Nosso Senhor; que rezem o terço a Nossa Senhora; façam aqui uma capelinha à Senhora do Rosário (Lúcia tem dúvida se foi assim se foi: façam aqui uma capelinha, eu sou a Senhora do Rosário); a guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares, muito breve. Tudo isto disse a Lúcia que a Senhora havia dito em resposta à 1ª pergunta.
– Tenho muitos pedidos, se a Senhora mos despacha todos ou não?
– Uns despacharei, outros não.
Não fiz nenhum pedido em particular porque então ainda lá estava a fazer pedidos.
– Ainda me quer mais alguma coisa?
– Já não quero mais nada.
Depois ela foi-se embora voltando pelo mesmo caminho e na mesma direção e eu disse ao povo: olhem, lá vai ela! Lá vai ela! Lá vai ela!
A Senhora desapareceu e parece-me que foi por a minha vista já não ver mais, mas sem nuvens que a ocultassem.
Depois diz que olhou para o sol e que viu São José à esquerda do sol e o Menino Jesus; de S. José só viu da cintura para cima, vinha vestido de branco e o Menino Jesus vinha vestido de encarnado. O Menino Jesus, viu-o todo e estava assentado no braço esquerdo de S. José. S. José estava a fazer cruzes com a mão direita; julga que fez umas 3 ou 4, depois desapareceu; depois de S. José desaparecer estava tudo amarelo; chegou Nosso Senhor mas parecia que não divisava senão um vestido com capa; só o vi da cintura para cima; as barbas eram pequenas e o cabelo não o vi; não cheguei a ver as mãos, vi só o peito.
Junto de Nosso Senhor estava uma Senhora em pé ao lado direito de Nosso Senhor, e Nosso Senhor estava à direita do sol. Ambos tinham resplendor amarelo, não tinha menino; esta Senhora estava vestida de branco e tinha um manto azul pela cabeça; tinha as mãos sobre o peito, de palmas para o peito por baixo uma da outra. A saia era branca e comprida e chegava aos pés; parece-lhe que a saia e casaco brancos não eram dourados; não a via tão bem no sol como quando estava na carrasqueira; depois desapareceu.
Junto com S. José vi outra imagem ou Senhora que estava ao lado direito do sol; vi-a toda vestida de encarnado, o manto era azul debruado ao pescoço; tinha as mãos à cintura com os dedos entrelaçados; não tinha menino, tinha resplendor amarelo; desapareceu com S. José.
Na ocasião em que estava a ver esta imagem estava o povo a gritar: olhem! olhem! tão bonito!
E eu também olhei a dizer ao povo que olhassem para lá, que estava S. José e depois Nosso Senhor.
A Senhora da Carrasqueira vinha vestida de branco exatamente como das outras vezes; não vi nem menos, nem mais; a saia julgo que era curta como das mais vezes; disse que o dinheiro era para uma capela mas não todo, porque algum deve ser para um andor; disse que não tinha ideia de quem devia fazer a capela ou tomar a direção.
Notas dos editores (1)
1 Na redação final deste depoimento, datada de 6 de agosto de 1918, diz-se: “ofendam”.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntesCores nas pessoas e na paisagemA multidão
No dia dezasseis do corrente mês de outubro compareceu na minha presença, e residência paroquial a vidente Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório da Lúcia, a qual disse que no dia treze do mês corrente tendo-se dirigido, com seus primos, Francisco e Jacinta, para o local chamado Cova da Iria, uma vez ali viu à mesma hora das outras vezes um relâmpago – o que sempre se tem dado nos dias treze desde maio, – que se voltou para o nascente, tendo dito ao povo que se calasse que já se tinha dado o relâmpago, e logo viu descer Nossa Senhora pelo ar abaixo; e que disse outra vez ao povo: calem-se... que já lá vem Nossa Senhora! Olhem!... Veem-nA... veem-nA... veem-nA?... E a Senhora veio e se pôs com os pés em cima das fitas de seda e flores de rosa, que estavam a cobrir os troncozinhos da carrasqueira.
E então que Lhe perguntou:
– O que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que não ofendam mais a Nosso Senhor que está muito ofendido; que rezem o terço a Nossa Senhora. Façam aqui uma Capelinha à Senhora do Rosário (a Lúcia tem dúvida se foi assim como fica dito ou se foi: façam aqui uma Capelinha – Sou a Senhora do Rosário). A guerra acaba ainda hoje, esperem cá pelos seus militares muito breve.
– Tenho muitos pedidos, se Vossemecê os despacha todos ou não?!
– Uns despacharei, outros não.
– Já me não quer mais nada?
– Já te não quero mais nada – respondeu a Senhora.
– E eu também Lhe não quero mais nada. Dito isto, a Senhora abalou pelo mesmo caminho e na mesma direção das outras vezes. E então se voltou para o povo e lhe disse:
– Olhem... lá vai Ela – lá vai Ela – lá vai Ela!... E que foi subindo até desaparecer da vista. Uma vez perdida de vista, olhou para o sol – mas não por Ela mandar – e viu S. José, a meio corpo, vestido de branco, com o menino assentado no braço esquerdo. S. José estava à esquerda do sol e abençoava o povo com a mão direita. Parece-lhe que fez três ou quatro cruzes sobre o povo. O Menino Jesus, viu-O a todo o corpo, vestido de encarnado. E viu, ao lado direito do sol, Nossa Senhora, a todo o corpo, vestida de encarnado com um manto azul pela cabeça, brochado ao pescoço e as mãos à cintura com os dedos entrelaçados.
Desapareceu esta visão, diz ela, e ficou tudo amarelo por alguns instantes – e logo viu aparecer Nosso Senhor, a meio corpo, vestido de branco, à direita do Sol; e à direita de Nosso Senhor viu Nossa Senhora, a todo o corpo, de pé, vestida de branco, com um manto azul pela cabeça, e as mãos sobre o peito de palmas para dentro, uma ao lado da outra em posição horizontal. O manto não era brochado como o da primeira visão. Nossa Senhora em nenhuma destas visões se apresentou com o Menino. Todas estas visões tinham resplendor amarelo, exceto a de S. José.
Na ocasião em que estava a ver estas representações o povo gritava: Olhem... Olhem... Olhem... tão bonito!!! Declarou mais a Lúcia que neste momento também disse ao povo que olhasse para lá – para o sol – que estava lá S. José – e – depois Nosso Senhor. Sendo interrogada sobre o que se há de fazer ao dinheiro, disse que é para uma Capela; e sobre quem há de fazer a Capela e tomar a direção da obra, disse que não sabia porque a Senhora lhe o não tinha dito. E sendo também interrogada sobre quando Nossa Senhora lhe tornava a aparecer, ou esperava tornar a vê-la, disse que não esperava mais por Ela, porque lhe não tinha prometido senão para seis meses ou seis vezes, – e estas já vieram – e que agora só espera tornar a vê-la no Céu.
Visitantejovem lisboeta que viajava com um grupo familiar
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corFiguras / visõesSol a cair
Nunca pensei que puderia ver um milagre e não fazes ideia a impressão que me fez.
Partimos daqui na quinta feira para Torres Novas depois metemo-nos num carro para ir até á vila depois montamos em burros até Rodrigo que é uma aldeiazinha onde mora uma gente conhecida da Belinha7, gastamos o dia todo neste caminho, porque tudo é longissimo ahi ficamos e no sabado, á 1h da manhã8 partimos para Fatima num carro (ou melhor numa carroça) onde fomos aos trambulhões todo o caminho porque não julgues que é perto pois só lá chegamos ás 10h e meia, e desde as 4 que chovia não ficamos com um fio enchuto mas tudo isso nada vale porque o que então presenciamos nunca mais verei. Nunca vi tanta gente. Agora imagina toda essa gente resando o terço e depois cantando, tudo debaixo de chuva. Ao meio dia chega a pastorinha que pede para fecharem os chapéus no mesmo instante a chuva para e nós vemos as nuvens afastarem-se e o sol aparece-nos sem brilho e branco e no meio uma cruz como uma hostia depois as nuvens tornam-se doiradas e vê-se passar como uma nuvem muito transparente o vulto de N. Senhora as nuvens tornam-se azus rouxas e verdes o sol parece que se desprende do ceu, gira sobre si e desaparece para logo depois nos aparecer brilhante como de costume as nuvens vão andando e fica uma tarde linda. Não é extraordinario? Isto é o principal as peripecias depois te contarei.
Notas dos editores (5)
2 Fernanda Guiot Basto Rosado, irmã de Maria Bettina, estava a passar o Verão em casa de uns tios do marido, Manuel Dias Ferreira e Joaquina Dias Ferreira, na Quinta das Lanças, em Ferreira do Zêzere. Tinha casado com Álvaro da Costa Rosado, filho do General Garcia Rosado e de uma irmã de Joaquina Dias Ferreira. Faleceu em Maio de 1978.
3Corr. Mamã. Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 2. Por este documento, não se pode concluir que a mãe, Fernanda Guiot Correia Basto, tenha ido também a Fátima. Por outro lado, o Doc. 147, de 21 de Outubro de 1917, também não refere o nome da Mãe.
4 Para a identificação das pessoas que foram com Maria Bettina cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 147, de 21 de Outubro de 1917.
7 Isabel da Nóbrega Machado. Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 20.
Visitantelisboeta que se dizia agnóstico imparcial; carta a um jornal republicano anticlerical
13 out.Testemunho diretoNão viu nadaCartaAtitude céticaVeio de longeA multidão
Como curioso fui, portanto, a Fátima, no dia 13, para "dar fé" dos milagres que ocorressem e que com tanto e clamoroso réclamo tinham sido anunciados. Não havia entre a assistencia espectador mais imparcial do que eu que, acêrca da existencia de Deus, não afirmo nem nego, porque, se ele existe, é decerto grande e complicado de mais a sua essencia para que a minha curta inteligencia humana o conceba e se ele não existe esse facto parece-me razão suficiente para que eu me não esfalfe a convencer os outros disso mesmo ou do contrario.
Fui, pois, a Fátima, sr. redator, e este impulso da minha curiosidade custou-me algum dinheiro e incomodos que agora sinceramente lamento, porque a verdade é que só pela leitura da reportagem do
Seculo eu tive conhecimento dos milagres ocorridos, dos nomes dos pastorinhos inspirados e até do numero de pessoas que esperavam a revelação do ceu, pois os meus olhos, afeitos a vêr multidões, não fixaram a impressão dos milhares que o redátor daquele jornal denuncia. Cincoenta mil homens temos nós em França e já nos parece que está lá o país em pêso. Pois foi pelo Seculo que eu soube que o sol tinha “bailado”, que a Lucia tinha falado com a Virgem e que um sujeito chamado Ramalho e parecido com Paul Dérouléde recitára o Crédo, empoleirado no estribo dum auto-omnibus. É claro que sinto lograda a minha curiosidade e perdido o dinheiro dispendido, porque de todos os sucessos narrados pelo Seculo só um observei e confirmo: o convite feito aos homens para que se descobrissem perante a evidencia do milagre e a santidade dos pastorinhos. Convite um tanto sui generis, mais parecido com intimação, como o que me foi dirigido por um dos crentes nestes termos humildemente cristãos: “Tire lá a tampa, ó seu malandro!”
Mas se lhe escrevo, sr. redátor, não é para lamentar o tempo e o dinheiro desbaratados, é simplesmente para lhe pedir que nas colunas do seu acreditado jornal, de que sou leitor assiduo, insista para que os “entendidos”, para quem apela o redátor do Seculo, expliquem os fenomenos astronomicos que se diz terem-se produzido no dia treze do corrente na charneca de Fátima. Já que lá não vi nada, ao menos quero que os observatorios e as sociedades scientificas da especialidade se pronunciem, para tirar o meu dinheiro a limpo e não deixar comprometido o redátor do Seculo, sr. Avelino de Almeida, que parece crêr bastante na sciencia e um pouco tambem na Virgem.
Insista pelas explicações, sr. redátor e terá prestado, se as conseguir, um valioso serviço áqueles que, como eu, nada de miraculoso viram na Fátima, talvez por não estarem em estado de graça. Eu, pelo menos, estava em estado de... pagar.
Aristocratasenhora da Quinta de S. Venâncio (Leiria)
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA multidãoMovimento em ziguezague
Uma das vezes que mais me lembraram foi na minha ida á Fatima. Que pena tive que não tivessem podido presenciar o que eu vi! Não sei o que a Tia terá ouvido a este respeito, mas sem duvida não ignora que trez pastorinhos da Serra, no ultimo mez de maio, afirmaram terem visto Nossa Senhora que lhes prometeu apparecer-lhes ainda seis vezes, sendo a ultima em outubro e que n'esse dia havia de ser visto um signal no ceu para que todos cressem. A apparição estava annunciada para o dia 13 e já no principio do mez não havia em Leiria e nas outras terras do districto um unico meio de transporte disponivel, tendo-se chegado a alugar automoveis por 200.000rs. Apezar de estar um dia pessimo de chuva e frio, apezar d'os jornaes não terem feito "réclame" nenhum, está avaliado entre 40 a 50 mil o numero de pessoas que se juntaram no local marcado. A ordem, o socego eram extraordinarios e n'aquella multidão de gente, de todas as classes, de todos os meios, vindo muitos dos homens de longe com os seus farneis e os seus pipos de vinho, não houve um unico que bebesse um copo a mais, não vi um gesto d'enfado nem ouvi uma palavra mal-soante. Já isto, só por si, tem o seu quê de milagroso.
Nós tinhamos cá a Tia Camilla Maldonado e fomos com ella no seu automovel.
A apparição de Nossa Senhora não era artigo de fé e confesso que estava pouco crente, mas asseguro que vi, como milhares de pessoas viram tambem, dar-se no ceu — á hora marcada pelas creanças — um phenomeno tão extraordinario como não espero tornar a ver outro egual em dias de minha vida. Descrevê-lo por miudos levar-me-hia muito longe e isso fica para a vista. O Seculo do dia 15 traz sobre o acontecimento um artigo bastante extenso, que V. Excias naturalmente já viram. Tirado uma ou outra phrase, a denunciar-lhe a origem, não está mal feito e tudo quanto la diz do que se observou no ceu é absolutamente verdade.
As cores extraordinarias que o sol apresentou muitas pessoas as viram (sendo uma d'ellas a minha Tia Camilla) mas eu essas não as posso descrever porque quando o vi n'aquella agitação espantosa, senti uma impressão tão grande que cahi de joelhos e não poude ver mais nada.
Da carvalheirinha junto do sitio onde as creanças dizem ter falado a Nossa Senhora, foi colhida essa folhinha, uma das poucas que ainda restavam5. Todo o povo as queria e a carvalheira, muito pequena, não resitiu ao assalto e ficou inteiramente destruida até ás raizes.
Notas dos editores (1)
5 Não é provável que a folha aludida pertencesse à azinheira, uma vez que já em Setembro o Dr. Carlos Mendes tinha recorrido às "reservas" da Lúcia por já não se encontrar nenhuma na origem.
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarCores nas pessoas e na paisagem
Convidado pela Senhora D. Maria de Jesus, que num requesito de extremada gentileza quiz tambem por ventura proporcionar a um suposto descrente ensejo para lhe pôr á prova a sua crença, fui á Fátima, lugar de tradição moirisca, no dia 13 do corrente, em que, conforme estava de há muito anunciado, se devia produzir o grande sinal que teria o condão de converter em crentes os descrentes. O dia, ao contrário dos que o antecederam, amanheceu chuvoso e frio.
E o meu entusiasmo, que frio tambem era porque o não estimulava o calor de uma convicção intima, teria cedido á contrariedade que á jornada opunha o tempo agreste e inclemente, se á mente não me acudisse que a desistencia poderia maguar a Senhora D. Maria de Jesus que com tão penhorante amabilidade quiz reservar-me um dos muito cobiçados lugares4.
A chuva que nos déra treguas desde a nossa partida de Tôrres, ás 9 horas, até chegarmos perto de Vila Nova de Ourem, começou de fustigar-nos batida do vento que soprava rijo, encharcando-nos e enregelando-nos, até á Fátima, em casa de cujo prior nos recolhemos para enxugarmos a roupa e tomarmos alguma coisa que nos confortasse.
Não julgues que eramos nós só que assim tão corajosamente afrontavamos sem dar mostras de cobardia ou fraqueza a intemperie do tempo e a fúria do vendaval. Dezenas, centenas, milhares de pessoas de todas as classes e condições sociais encontrámos nós pelo longo caminho utilizando todos os variados meios de transporte, desde o burro cabisbaixo e de orelhas cahidas até ao automovel luxuoso e cómodo. A todos a fé no desconhecido dava alento e coragem, sem um grito de revolta, sem um gesto de desânimo. A gravidade e a compostura que em todos os rostos se descobria éra garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingénua e pura a todos impunha.
Reconfortados com os cómodos e gasalhado do lar hospitaleiro do bom do Prior, seguimos para o teatro dos sensacionais e estupendos acontecimentos, que da Fátima dista uns bons dois quilómetros.
Entretanto a chuva continuava impertinente e o vento soprava rijo, apenas se vendo correr na atmosfera os castelos encantados de nuvens densas e negras. Ao chegarmos ao sitio já agora memoravel, eu tive a impressão de um vastissimo acampamento onde milhares de pessoas se acolhiam em barracas cobertas de ardósia. Tal o efeito de milhares de chapeus de chuva abertos...
Como a estrada estava alagada da chuva que caía abundante, não saímos do auto, e ficámos ali, onde centenas de carros e automoveis estavam alinhados num extensão aproximada de um quilómetro.
A distancia que nos separava da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trono á celeste Visão, não mediria cem metros, e não prejudicava a observação do que junto dela se passava. A multidão, em muitos milhares de pessoas computada, aglomerava-se numa ordem, num respeito, num acatamento que impressionavam vivamente o espirito dos espectadores. Até nós vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solene.
Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e estraordinário que ainda me foi dado presenciar. No relógio do auto o ponteiro marcava duas horas: aproximava-se o momento augusto por que milhares de corações ricos de fé anciavam. A chuva, que tinha abrandado, deixou-nos então de todo; e para o norte diviso numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.
Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã chuvosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. O ponteiro indicou 2h e 5m, depois 2h e 10m e na terra o silencio éra apenas cortado por ecos mal distintos que repetem as orações que junto á Carrasqueira se fazem. Emquanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé, eu pensava no modo mais airoso de me sair do ridiculo a que não me pouparia a mofa dos meus amigos companheiros de todos os dias.
Já em algumas almas piedosas surgia o receio de que facto estrondoso anunciado não se désse realizasse, quando de repente toda aquela imensa multidão se agitou e num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o ceu, aonde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias num movimento de veloz rotação, que na frase pitoresca de alguns lembrava uma rodinha de fogo.
Os espectadores, entreolhando-se, apresentavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte vermelho-alaranjado onde quer que os olhos se fitavam viam-se fachos de luz esbatida, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.
Tal foi o fenomeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou n'uma expectativa benévola.
Descrentes lá houve, e alguns até com resaibos de ateísmo, que se declararam rendidos perante o poder que tal prodigio operava.
Aqui tens, minha boa Isabelinha, o que eu observei, e comigo milhares de pessoas.
[…]
Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado. Imediatamente o sol, que até então se conservára encoberto, aparece e mostra-se pela fórma que fica dito.
Notas dos editores (3)
1 Nasceu em Castelo Branco. Foi Inspector escolar em Torres Novas. Foi convidado por Maria de Jesus Raposo para ir a Fátima, pois ela queria ter consigo uma pessoa responsável e de confiança. Faleceu a 23 de Novembro de 1919.
2 Isabel de Maria Amado Jara de Carvalho, sobrinha da esposa de Lúcio Serra, portanto sua sobrinha, por afinidade. Filha de João Maria Amado de Melo Ramalho Pimentel de Almeida da Cunha e Vasconcelos Matamouros e de Isabel Maria de Figueiredo Azevedo Velez Dantas Pereira.
4 Foram no automóvel as seguintes pessoas: Mariana Dantas, João Amado da Cunha Vasconcelos, Josefina da Cunha Serra, esposa do autor, Maria Ermelinda de Vilhena Barbosa e sua Mãe, Branca Lobo de Moura Vilhena Barbosa, o Dr. Formigão, a filha de João Serra, Maria Elisa da Cunha Serra e o autor desta carta.
Visitanteautor de uma carta a O Mensageiro, que dizia não ser fanático
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararCores nas pessoas e na paisagemSol a girarRoupa a secarPalavras dos videntes
De vespera fui ficar a casa do meu amigo e correspondente do Mensageiro Antonio Pereira das Neves, na Quinta da Sardinha3, onde fui tratado por este nosso amigo e sua ex.ma esposa, com todos os carinhos de que não sou digno. Ás 4 horas puz pés a caminho da Fátima afim de assitir á aparição milagrosa que as pequenas diziam ser a ultima vez.
Atravessando a serra tive ocasião de vêr a grande peregrinação de devotos que de todos os lados faziam caminho para mais depressa chegarem ao local indicado. O aspecto é sublime, mulheres com sacas á cabeça, os seus trages garridos e domingueiros, a pé, a cavalo, etc..
Perguntava d'onde eram, e... ao ouvir pronunciar as suas terras admirava-me como aquelas almas vinham de tão longe para presenciar o que duas creancinhas afiançavam!...
Mas que lindo era o serpentear de tantas creaturas pela serra! Sublime! Isto só visto para se poder apreciar os efeitos de tão grande romaria.
Depois de atravessar a Loureira4 e a Moita5, diviso a uns 200 metros a estrada que segue para Vila Nova de Ourem passando pelo Reguengo do Fétal6 e outras povoações. Os carros já ali se encontravam em grande numero, carroças, caléches, automoveis, bicicletes, e toda a qualidade e feitio de veículos, alguns originaes que transportavam crentes e não crentes do que se estava para presenciar.
A chuva começa caindo, engrossando pouco a pouco; os guarda-chuvas abriram-se e em pouco tempo, açoitada pelo vento, enxarca as pernas dos que se tapavam com os chapeus e punha em verdadeiros pintos aqueles que se não tinham prevenido contra este contra-tempo. Todos olhavam para o céu a vêr se haveria esperança do temporal passar, mas cada vez mais fechada a cerração. Ninguém arredou pé de onde estava, ouvindo-se sempre vários canticos á Virgem, e o movimento dos peregrinos cada vez mais!
Era uma hora (oficial) e tudo estava ancioso pela chegada das meninas. Eu estava perto de uma enorme azinheira teritando com frio e enxarcadinho até aos ossos. Nisto, não sei como, levanta-se uma lebre que faz várias evoluções fugindo ás pessôas que a perseguiam, sucumbindo a uma paulada, não chegando um pêlo a cada um que a seguia!
Olho em frente e vejo uma enorme bicha de gente que acompanhava as meninas para junto da pequena azinheira, onde elas dizem lhes apareceu N. Senhora, azinheira de que apenas existe um fragmento do tronco de 10 centimetros de fóra da terra, pois que a teem pelado para recordação.
Diz uma das meninas: Já lá está Nossa Senhora! Fechem os chapeus e resem...
A chuva pára, as nuvens correm com grande velocidade e o Sol aparece brilhante, espalhando seus luminosos raios sôbre a assistencia.
Não sei como, vejo todos tirarem os seus chapeus e ajoelharem. Eram 14 horas e 10 minutos oficiaes.
Oiço várias preces, suplicas á Virgem e Mãe Santissima e vejo os róstos da enorme assistencia de côr de rosa carregado, depois transformou-se para um anilado e em seguida para um amarelo cadaverico!!
Não sei o que isto significava, nem quiz fitar o Sol para não atribuir a ilusão optica.
Mas na minha frente estava uma senhora com um chapeu de feltro branco, que me servia de espelho do que se passava no rei dos astros. Isto durou uns 20 minutos. Ouvia a meu lado chóros, suplicas várias e dizer que o Sol andava de roda que parecia uma roda de fogo de vista!
Pouco depois as meninas disseram o que Nossa Senhora lhes tinha dito:
— A guerra acaba por estes dias; brevemente os nossos soldados regressam a Portugal; os homens devem ser bons uns para os outros; rezem o terço e façam uma capela pois que sou a Senhora do Rosario.
As pequenas são levadas em triunfo por entre a multidão, regressando a casa de seus paes, e a assistencia começa retirando para as suas terras, dando por bem empregado o tempo que estiveram a pé firme apanhando toda a chuva e o vento da serra!
E eu fiquei com cara de palerma a olhar para tudo isto sem saber explicar tão imponente fenomeno.
Se ámanhã se repetisse, eu lá estava caído novamente, pois que não estou arrependido de ter assistido ao que nunca tinha presenciado.
O que é para me fazer admirar é que estando eu todo molhado, momentos antes, reparei que já estava enxuto! Seria milagre? não creio. O que creio é que a mais pessôas sucedeu o mesmo.
Tanto milhar de gente junta e tanto respeito, nunca vi, pois que não foi preciso policia, guarda republicana, nem força militar para conter a ordem! Seria milagre? não sei.
Tanto carro, trens, carroças, automoveis, bicicletas, etc. sem se dar um desastre! Seria milagre? não sei.
O que sei é que o caso deu-se e que de todas as paragens mais longinquas, ali afluiu gente trazida pelos ditos de duas creancinhas e não a reclames, foguetes ou musicas!
Notas dos editores (4)
3 Lugar da freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho e distrito de Leiria.
4 Lugar da freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho e distrito de Leiria.
5 Lugar da freguesia de Fátima, concelho de Ourém, distrito de Santarém.
6 Lugar e freguesia do Reguengo do Fetal, concelho da Batalha, distrito de Leiria.
Aristocrataaristocrata lisboeta, antiga aluna das religiosas da Visitação
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarSol a cair
É-me impossivel encontrar palavras para descrever o que se passou. Tive que luctar com difficuldades de toda a especie para ir a Fátima, mas consegui-o e dou graças a Deus por isso.
O sitio das Apparições é em plena charneca e a paysagem o mais portuguesa possivel.
Chegámos perto das 10h7, debaixo de uma chuva torrencial que nos encharcou até aos ossos. A multidão era espantosa. Os jornaes falam em 50:000 pessôas, não duvido que fossem mais. Não se notava máu humor contra o tempo, não se ouvia uma má palavra. Resava-se alto e cantava-se. Perto da 1 hora desci da estrada para o campo e fiquei chegada ao altarsinho muito tôsco, levantado no sitio da apparição, mas nunca consegui vêr as pequenitas. Estas logo que chegaram mandaram fechar os chapéos de chuva e logo esta parou e o sol, o sol de todos os dias, rompeu o véu cinzento que toda a manhã tinha toldado o céo. Ficamo-nos a rezar. Pergunto as horas. Alguem me responde: “Passa um bocadinho da 1 e meia”. Estamos portanto em pleno meio dia solar. D’ahi a uns minutos oiço como um suspiro gigantesco e alguem me diz: “Olhe para o sol”. Ao principio nada notei mas segundos depois vejo-o como se fosse a lua d’uma côr azul prateada muito clara d’ahi por deante o sol tinge-se de verde, rôxo, amarello, azul, mas conserva-se sempre desprovido de raios. Atira para longe com rôlos, por assim dizer de fumo da côr que apresenta, mas a fórma do disco é perfeita e esse disco gira de uma maneira vertiginosa e a certa altura o sol desceu. Mais tarde mostra-se mais á direita e depois mais á esquerda, ou vice versa. N’um momento o disco tóma uma côr de rosa vivo; por traz de cada monte levanta-se como um véu da mesma côr. Campos e multidão tudo a reflecte.
Não ha palavras para descrever semelhante esplendor. Muito tenho pensado nas palavras da Egreja: “Quem é esta que vem raiando como a nascente aurora?” E o povo? O povo chóra, grita, implora N. Senhora e Jesus Sacramentado. Ha uma mistura de confiança, alegria e temor. Sinto como todos que estamos em pleno sobrenatural e só posso dizer como os outros: “Nossa Senhora valei-nos”. Não sei quanto tempo durou, mas ouvi falar em 4 minutos. Pareceu-me muito mais.
[…]
No momento em que o sol desceu, o clamor da multidão foi muito maior; logo, todos viram ao mesmo tempo e perto de mim um homem exclamava aterrorisado: "Virgem SSma valei-nos que morremos aqui todos. Perdoae os nosso pecados!"
Notas dos editores (1)
7 Desta família, foram nesse dia à Cova da Iria: Eugénia de Mello Breyner da Câmara e os filhos: Vicente da Câmara e sua mulher Maria Seabra; Emília da Câmara e seu marido Alexandre de Proença de Almeida Garrett, engenheiro civil; a autora da carta; Maria de Jesus da Câmara; Maria Antónia da Câmara; Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein Brandão de Melo e seus filhos, José de Sousa Holstein Brandão de Melo e Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntesFiguras / visões
Da 6a - Que não ofendesse a gente mais a Nosso Senhor que ele já estava muito ofendido. – Que rezasse a gente o terço a Nossa Senhora do Rosário para que ele nos perdoasse os nossos pecados, querendo a gente ir para o Céu.
Que fizesse ali uma capelinha à Senhora do Rosário, querendo; que a guerra acabava hoje e que esperassem pelos nossos militares muito breve.
[...]
Desaparecia primeiro a cabeça, depois o corpo e os pés.
Viu junto ao sol - uma coisa que parecia uma cara dum homem e dum menino.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesSol a girarSol a mudar de corPalavras dos videntes
Viste no dia treze deste mês Nosso Senhor abençoando o povo? – Não vi. Vi, mas foi Nossa Senhora. 2a – Viste a Senhora das Dores ou a Senhora do Carmo? – Não vi. A Nossa Senhora parecia a que eu vi cá em baixo. Estava vestida do mesmo modo. 3a – Não olhaste para o sol? – Olhei. 4a – Não viste S. José e o Menino Jesus? – Vi. 5a – Estavam longe ou perto do sol? – Perto do sol. 6a – De que lado do sol estava S. José? – Estava do lado esquerdo. 7a – E de que lado estava Nossa Senhora? – Do lado direito. 8o – Onde estava o Menino Jesus? – Estava ao pé de S. José. 9o – De que lado? – Não reparei de que lado. 10a – O Menino era grande ou pequeno? – Era pequenino. 11a – Era do tamanho da Deolinda do José das Neves1? – Era assim bem como ela. 12a – Quando a Senhora estava sobre a carrasqueira ouviste o que ela dizia à Lúcia? – Não ouvia. 13a – Ouvias o som da voz dela? – Também não ouvia. 14a – Parecia que não falava? – Parecia. 15a – Não a vias mexer os beiços? – Não via. 16a – Não a vias rir-se? – Também não 17a – Viste os sinais no sol? O que foi que viste?
– Olhei e vi que o sol andava à roda. Parecia uma roda de fogo.
18a – Quando foi que apareceram os sinais, antes ou depois da Senhora desaparecer da carrasqueira?
– Foi quando a Senhora desapareceu.
19a – Ouviste a Lúcia avisar o povo para que olhasse para o sol?
– Ouvi. Deu um grito que olhasse o povo para o sol.
20a – Foi a Senhora que a mandou avisar o povo para que olhasse para o sol?
– Foi. A Senhora apontou com o dedo para a banda onde está o sol.
21a – E quando foi que fez isso?
– Foi quando desapareceu.
22a – Os sinais no sol começaram logo?
– Começaram.
23a – Quais foram as cores que viste no sol?
– Vi cores muito bonitas, azul, amarelo e outras.
Notas dos editores (1)
1 Deolinda de Jesus. Filha de José das Neves e de Maria Vitória. Nasceu a 12 de janeiro de 1913.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesSol a girarSol a mudar de corPalavras dos videntes
No dia treze do corrente viste ao pé do sol Nosso Senhor, a Senhora das Dores e a Senhora do Carmo?
– Não vi.
2a – Mas a onze deste mês disseste-me que deviam aparecer.
– Disse. A Lúcia é que viu outra Senhora, eu não.
3a – Viste S. José?
– Vi. A Lúcia disse que S. José estava dando a paz.
4a – Olhaste para o sol?
– Olhei.
5a – E o que é que viste?
– Vi o sol encarnado, verde e de outras cores e vi que andava à roda.
6a – Ouviste a Lúcia a avisar o povo para que olhasse para o sol?
– Ouvi. Ela disse numa voz muito alta que olhassem para o sol. O sol já andava à roda.
7a – Foi a Senhora que a mandou avisar o povo?
– A Senhora não disse anda.
8a – O que disse a Senhora desta última vez?
– Disse: Venho aqui para te dizer que não ofendam mais a Nosso Senhor, que estava muito ofendido, que se o povo se emendasse acabava a guerra, se não se emendasse acabava o mundo. A Lúcia ouviu melhor do que eu o que a Senhora disse.
9a – Disse que a guerra acabava nesse dia ou que acabava brevemente?
– Nossa Senhora disse que quando chegasse ao Céu acabava a guerra.
Visitantesenhora católica de Coimbra, mulher de um oficial do exército; autora de um folheto
13 out.Testemunho diretoViuLivroVeio de longeA multidãoA chuva a pararCalorDisco pálido / prateadoSol a cairSol a mudar de cor
Saí pois de Coimbra, na meia noite de 12 para 13 de outubro, com duas amigas minhas, D. Ermelinda Gomes Ribeiro e D. Matilde Forjaz de Sampaio, tomando lugar no comboio em 3ª classe, por promessa, e seguindo até Chão de Maçãs, onde tomamos uma diligência que nos conduziu até Vila Nova de Ourém.
Aqui chegámos às 7 horas da manhã, indo procurar o rev. pároco da freguesia6 para que nos ministrasse a sagrada comunhão.
Pudemos assistir à missa, que foi ouvida por bastantes pessoas, e fomos depois tomar uma pequena refeição, utilizando os farnéis que levamos. Tínhamos de andar uns 18 quilómetros a pé, caminho a subir. A dificuldade do caminho não nos desalentou. Tomámos por ele resolutamente, rezando o terço em coro. O povo que passava descobria-se em sinal de respeito. Era enorme a concorrência de automóveis, carros de todas as espécies, bicicletas, cavalgaduras; e como nós, a pé, seguia grande quantidade de povo.
Fazia um calor sufocante, ameaçando tempestade, pois muitas nuvens se acastelavam no espaço.
Os passageiros de um pequeno carro que passou por nós, gente boa que notou a nossa sensação de fadiga, ofereceram-se para nos levarem as sacas de viagem, favor que aceitámos reconhecidas, confiando na sua seriedade, apesar de não os conhecermos. Passado pouco tempo principiou a chover, e a chuva foi aumentado, tocada por um rígido e frigidíssimo vento, ficando nós em breve tão molhadas e encharcadas de água como se saíssemos de um banho.
A estrada parecia não ter fim; caminho aos zig-zags, muita gente molhada como nós, mas andando sempre, movida pelo mesmo desejo, pela mesma ânsia de chegar a tempo ao lugar da aparição.
Ao meio dia e meia hora, chegámos ao local, bem dispostas apesar de tudo. O espetáculo era imponente!
Apresentava-se-nos um pequeno vale, bastante árido, sem uma única casa; milhares de guarda-chuvas, abertos sobre as cabeças, davam a impressão de um verdadeiro acampamento. A multidão comprimia-se; caíam sobre ela torrentes de água, e contudo ninguém se retirava. O terreno, em volta do local da aparição era barrento e encharcado. No local destacava-se uma espécie de pórtico tosco, formado por três barrotes aparelhados; aqui e acolá pequenos carvalheiros, e em redor milhares de pessoas de todas as classes e condições.
Entre a multidão tomámos lugar, começando a rezar o terço em coro, cantando o Avé de Lourdes, que o povo e as senhoras acompanhavam, o Queremos Deus, recitando a oração de S. Bernardo, etc.
A chuva não parava um instante; tremia-se de frio porque o vento era cortante. Entretanto ouve-se dizer: lá trazem as pastorinhas.
De facto uns homens transportavam ao colo as crianças vestidas de azul claro, com véus de tule branco, seguros por coroas de rosas brancas e folhagem verde.
Reparo na minha companheira, D. Ermelinda Gomes Ribeiro, e noto-lhe uma impressão de grande sofrimento. Pergunto-lhe o que tem, e diz-me que sente uma pontada tão forte que mal a deixa respirar. Senhora doente, com febre quase todos os dias, assim molhada, com os pés sobre a terra encharcada, não tendo ali meio de transporte que nos conduzisse a um lugar onde pudesse tratar-se, o seu estado causou-me aflição. Lembrei-me de lhe fazer uma massagem sobre a pleura, o que aceitou; mas estava tão fria, tão molhada, que receei que nada valesse.
Confesso que já então nenhuma esperança me restava de ver o milagre. Como o local era ainda distante da estrada, viemos até lá à procura de alguém que por caridade nos cedesse um lugar em automóvel ou carro, em que pudesse vir a minha amiga, pois receava bem que não aguentasse o caminho, tendo de fazer novamente a viagem a pé.
Na estrada onde chegámos com as saias cobertas de barro vermelho, nenhum automóvel ou carro nos dispensou um lugar nem pago nem por favor.
Era grande a nossa impressão de desânimo, quando, de repente, se ouve de todos os lados: Milagre! Olhem o sol! Parara como por encanto a chuva; fecharam-se os chapéus; sentiu-se um calor como se entrássemos numa estufa aquecida, e começou a vêr-se o disco do sol, a perceber-se claramente na camada pardacenta que corria todo o céu. O calor aumentava, e o sol parecia descer, descer cada vez mais, apresentando novos e variados cambiantes. Vimos como que um véu prateado, com forma arredondada como se fosse a lua cheia; pouco depois passava para o roxo vivo, depois para o vermelho, depois para o verde-esmeralda e tomava finalmente a cor primitiva.
Ouviam-se gritos de todos os lados, quando se destacava do sol como que uma forma branca de neve, brilhante, sem ferir a retina, vindo para nós, voltando de novo ao sol, e por fim escondendo-se a terceira vez entre as nuvens. Todos choravam e de muitas bocas se ouviam preces, súplicas, atos de fé.
Notas dos editores (2)
5 Na realidade, a Jacinta também ouvia.
6 Pe. Manuel José Alves, pároco de Vila Nova de Ourém de 1904 a 1934. Faleceu em Valadares, Monção, a 9 de janeiro de 1952.
Continuámos a nossa jornada, e chegámos finalmente á Fatima, mas só meia hora depois de se ter dado o maravilhoso phenomeno, hoje já de todos conhecido pelas lindas descripções publicadas pelo "Seculo" e outros jornaes.
Que immenso ferro não o ter eu visto!
Chegáda á Fatima procuro ver pessôas conhecidas, para trocar impressões. Todos me dizem o mesmo, todos viram... Mas viram o quê?... lhes pergunto: "Vimos o sol, coberto como que por uma chapa de prata, n'um constante movimento de rotação, despedindo raios vermelhos, amarellos, roxos, e parecendo desprender-se do Céu e aproximar-se da terra."
Fallei com o povo, dizia-me o mesmo, posto que, por outras palavras. Diziam-me ter visto N. Senhora, S. José, o Menino Jesus, e que sei eu?... toda a corte celestial; ao mesmo tempo que tinham visto dançar o sol. Não acreditei em tanta visão.
É certo, que é possível que julgassem ter visto; sugestão talvez. O nosso povo, em geral muito ignorante é muito crédulo, e facil lhe seria o convencer-se de que realmente via, o que desejava ver. É mesmo graças a esta facilidade de convicção que por vezes as doutrinas demagogicas, teem sido ouvidas e acreditadas por elle!
Nas classes mais cultas ninguem me disse ter visto a apparição celeste, mas certo é, que todos, illustrados e não illustrados, manifestavam a sua fé. E que magnifica e imponente manifestação de fé, a d'aquella enorme multidão de cêrca de 50 mil pessoas, quazi todas ali levadas pela fé, pelo desejo de se certificarem da veracidade dos factos que tinham ouvido narrar! Em quazi todos os olhos haviam lagrimas, mas lagrimas da alegria infinda que lhes ia n'alma. Todos se convenciam que alguma coisa de sobrenatural se havia passado, e agradeciam a Deus, lembrar-se ainda d'este pobre e tão culpado Portugal.
Magnifica a profissão de fé do Eng.eiro Sr. João Amado, que, sem respeitos humanos, nem receios, a proclama bem alto. É lindo o seu gesto, quer n'esse momento, quer quando humildemente se accusa de peccador; lindo e edificante. Oxalá tenha imitadores.
Ainda d'esta vez não conseguimos fallar ás creanças, que todos cercavam procurando fallar-lhes, e como se fazia tarde, voltámos para casa.
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA chuva a pararSol a mudar de corSol a cairSol a girarDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagem
Faz hoje oito dias que cheguei a Lisbôa, de volta de Fatima, onde fui ver o grande milagre! Não é possivel descrever-te o que todos nós vimos.
[…]
Chovia torrencialmente e todos a pé firme se conservaram até ás 2 horas ou meio dia solar, momento em que as nuvens se afastaram para os lados deixando o sol a descoberto, e immediatamente começam a passar por diante do sol rolos de nuvens muito leves e amarellas como oiro, rouxas, côr de cravo, etc.
N'isto o sol pareceu desprender-se e desceu de de repente; momento de pavor.
N'isto começa n'um movimento rotatorio com uma rapidez incalculavel.
De repente é a lua que está mas isso é um momento, transforma-se na Sagrada Hostia vendo-se até a cruz como que cavada n'aquella materia opaca côr de farinha de trigo muito alva.
Eu vi assim no vacuo e em roda uma maravilhosa corôa das taes nuvens em varias cores. Espectaculo de espantosa belleza, não imaginas qual era a delicadeza dos tons, com que carinho Deus olhou para a nossa terra n'aquelle momento, sentiamo-nos amados com extremos sem limites.
Todos viram, perto de 100 mil pessoas.
As pessoas ficavam das cores das nuvens era interessante de ver, o sol com a sua luz por detraz parecia passar a claridade como que atravez de vidros de côres.
Tudo isto se passava em quanto a Nossa Senhora descia á terra a fallar á pequena Lucia.
Todas as trez crianças (1 rapazito e 2 pequenas) veêm, mas só falla a mais velha, 10 annos.
Nossa Senhora tornou-se visivel para algumas pessoas, eu não fui contemplada com essa graça, não me era necessaria para crer.
[…]
Em roda do valle escolhido para tantas maravilhas, succediam-se como simples ornamento e com a maior simetria umas manchas com as as trez côres preferidas20.
[…]
Tive uma comoção enorme quando vi uma tão grande e tão santa manifestação de fé. Que coragem e persistencia para arrostar com uma tempestade d'aquellas sem recuar, sem vinho, emfim admiravel. Não havia um policia, não houve nada, nada, que não fosse o respeito e o santo contentamento de que todos estavam possuidos.
N'um certo momento em que chovia muito, a pequenita disse que fechassem os chapeus, fecharam-se os chapeus e a chuva parou.
Nossa Senhora disse à Lucia que São José veiu abençoar o povo, e que todos os crentes (alli presentes) ficavam perdoados até áquelle momento.
Aquelle logar ficou bento, pessoas e animaes, tudo foi benzido.
N'esse momento houve uma grande claridade.
Notas dos editores (7)
2 Deve tratar-se de Regina Ferreira, referida no Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 19.
3 No Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, fl. 5, refere-se uma Emília, imediatamente a seguir a Regina. Trata-se da mesma pessoa: o Padre Francisco dos Santos Costa, natural de Rodrigos, certifica-nos que era Emília e não Emiliana. Foi portanto um erro da autora desta carta. Emília era criada de servir de Isabel da Nóbrega Machado, amiga de Fernanda Guiot Correia Basto.
4 Rita, irmã de Bettina Basto, dois anos mais velha, que veio veio a falecer no Porto em 1969 (cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 24).
5 Irmã de Rita, autora do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 (Cf. nota 2, do Doc. 69).
6 Rodrigos (cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 14).
15 Do texto do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 104, de 17 de Outubro de 1917, não se depreende que Bettina Basto tenha visto Nossa Senhora, mas no Doc. 69 (fl. 10v), ela desenhou um desenho com uma silhueta que, em 1978, nos explicou ser o vulto de Nossa Senhora como ela o imaginou.
20No texto está preferidas mas a autora queria dizer referidas.
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoSol a mudar de corDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairMovimento em ziguezague
Como a “Liberdade” nada disse ainda sobre tal assumpto, vamos nós referil-o como testemunha presencial. Chegamos ao local quatro ou cinco minutos antes da suposta visão. Havia ahi perto de quarenta mil pessoas vindas de todos os pontos do paiz. Alguem nos indicou um ponto marcado por uma bandeira hasteada n’um pau, dizendo ser alli que estacionavam as tres pastorinhas, aguardando a apparição. Pouco depois a enorme multidão descobre se. Todos fitam o céo ainda carregado de nuvens, em busca do sobrenatural, do signal prodigíoso. Parece que as pastorinhas haviam ajoelhado, confirmando mais uma vez que a Virgem lhes apparecera.
Teriam decorrido talvez quatro minutos, quando o sol, semilhante a peça de fogo prezo que, depois de accesa, faz um circulo luminoso no meio da escuridão da noite, fez affastar quasi rapidamente as nuvens que o toldavam, fazendo tambem um circulo, e dando ocasião a que pudessemos observar um phenomeno, que a todos pareceu extraordinario. O sol, já sem nuvens, não projectava os raios sobre a terra, mas parecia envolvido em chammas de côr desmaiada. De subito, perde toda essa luz ou chamas e apparece-nos uma placa de prata fôsca, como accertadamente disse o "Seculo", tendo um rapido e bem visivel movimento de rotação, parecendo até que se approximava da terra. Podia fixar-se indefinidamente sem incommodar a vista.
Incendiou-se pouco depois, deixem-me dizer assim, vendo-se então de novo envolvido em chamas côr de rosa, e tambem sem projecção de raios sobre a terra.
Passado talvez um minuto, perdeu de novo a luz e chamas, vendo-se outra vez a placa, agora muito branca, com o mesmo movimento de rotação muito rapido.
Ainda uma terceira vez o sol, que parecia ter movimentos bruscos, sacudidos, se envolveu em chamas azuladas, a que se seguiu a pêrda da luz e o movimento rotativo da placa. Terminára o phenomeno.
Quando o sol voltou depois a ter luz já a nossa vista não podia fitar os seus raios luminosos. A multidão, ajoelhada sobre a lama, afogada em prantos, gritava afflicta, de olhos fitos no céo e de mãos erguidas. Uns clamavam por Nossa Senhora, que lhes valesse; outros, confessando-se grandes peccadores, pediam misericordia. O quadro era deveras impressionante.
Tambem nos impressionou a coincidência do phenomeno com a hora da visão ou supposta aparição. E essa impressão subiu de ponto, quando o rev. Cardoso, de Portalegre4, que durante a visão esteve junto das pastorinhas, nos contou que a mais velha, estando ainda de joelhos junto da carrasqueira, disse para todos que a cercavam: — Olhem agora para o sol! — seguindo-se immediatamente o phenomeno solar.
Isto condiz com a resposta que ella me deu, quando lhe perguntei se a apparição tivera logar durante o phenomeno. "Não, respondeu ella; a Senhora já tinha desapparecido".
A multidão começa a debandar. Mas uma boa parte segue as pastorinhas, como a borboleta segue a luz. Todos desejam vê-las e fazer perguntas, a que ellas respondem de prompto. Venderam-se postaes com os seus retratos. E até houve quem se lembrasse de mandar fazer estampas, nas quaes já figura a pastorinha de joelhos, e no alto a imagem de Nossa Senhora.
Resta apenas o tronco da carrasqueira, que as pastorinhas dizem ter servido de pedestal á Mãe de Deus, durante as aparições.
Notas dos editores (3)
2 Nasceu na paróquia de Carvoeiro (Mação) a 14 de Outubro de 1873. Foi ordenado sacerdote em Portalegre a 16 de Agosto de 1906. A 8 de Janeiro de 1907 foi-lhe passada demissória ilimitada para a Diocese de Coimbra, para ir paroquiar a Igreja de Na Sa da Assunção, de Penacova. Cf. DCF, vol. 2, Doc. 4 de 28 de Setembro de 1917, nota 909.
3 Lugar da freguesia e concelho do distrito de Coimbra.
4 Pe. António Augusto Cardoso, da diocese de Portalegre. Tinha por alcunha "Pe. Pistolas". Segundo um depoimento de D. Maria de Lourdes Malato Correia, de Portalegre, de 14 de Novembro de 2000, este padre foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, acompanhado de Maria Francisca Mergulhão, Deodata Amélia Malato, Emília Malato de Noronha e uma sobrinha delas, então com vinte e sete anos, Maria da Encarnação Malato Correia, mãe da autora do depoimento, casada com Joaquim da Cruz Correia.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararSol a girarSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirCalor
1a testemunha – António dos Ramos Mira3, casado, morador na freguesia do Reguengo do Fetal, testemunha presencial dos factos ocorridos em Fátima no dia treze de outubro de 1917, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que se dirigiu para o local das aparições no meio de chuva e que um quarto de hora depois de parar a chuva, viu aquela ingente multidão de povo, em grande clamor e quase todo joelhado, voltado para o sol, e que este tinha sinais desusados, girando sobre si, tremendo, observando ao mesmo tempo, que em volta dele, aparecera uma cor amarela-avermelhada, que se refletiu em toda a multidão e no horizonte, havendo ao mesmo tempo um afrouxamento de luz e aumento de temperatura. Dizia a multidão até mesmo os descrentes que era um milagre conhecido. É público que as criancinhas diziam seis meses antes que naquele dia, hora e local se havia de dar milagre; o que fez atraír ali uma multidão de cerca de quarenta mil pessoas, que voltaram crentes para suas casas. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (3)
1 Nasceu no Alqueidão da Serra, Porto de Mós, a 6 de junho de 1866. Foi Vigário de Porto de Mós, durante muitos anos. Faleceu a 20 de agosto de 1938.
2 Nasceu no Reguengo do Fetal, a 14 de janeiro de 1885. Foi pároco de diversas paróquias e esteve como encarregado da paróquia de Fátima em agosto de 1914. Faleceu a 29 de outubro de 1968.
3 Nasceu a 15 de dezembro de 1890, no Reguengo do Fetal. Filho de António Francisco Mira e Maria Ramos. Casou com Laura da Piedade Ramos Meneses, a 5 de setembro de 1911. Faleceu a 15 de agosto de 1940.
Gente da terrahomem casado, analfabeto, testemunha n.º 10
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoSol a girarDisco pálido / prateadoA multidão
10ª testemunha – João Vieira Gomes12, casado, morador na freguesia do Alqueidão da Serra, testemunha ocular dos factos ocorridos em Fátima no dia treze do corrente, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que viu o sol girar como uma roda de fogo, fitando o sol sem incómodo para o órgão visual, tremendo ele e gritando toda a multidão por Nossa Senhora. Este facto foi presenciado por toda a multidão. E se alguém não viu foi porque não quis ver. E mais não disse e não assina por não saber escrever.
Notas dos editores (1)
12 Nasceu a 13 de novembro de 1871. Filho de Manuel Vieira Gomes e de Maria Gomes Correia. Casou com Ana Carvalho, a 7 de janeiro de 1906. Faleceu a 12 de junho de 1945.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoSol a cairSol a mudar de corSol a girarDisco pálido / prateadoA chuva a pararA multidão
11ª testemunha – Manuel Carvalho13, casado, morador no Alqueidão da Serra, testemunha ocular dos factos ocorridos em Fátima no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que viu o sol baixar, segundo o seu entender, revestir-se de várias cores, girando como uma roda de fogo de artifício, e que se podia sem incómodo ver. Notou a testemunha que chovendo toda a manhã, cessou a chuva àquela hora da chegada das crianças, que rezando o terço mandaram ajoelhar a multidão, calculada em cinquenta mil pessoas, que gritavam por Nossa Senhora. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (2)
12 Nasceu a 13 de novembro de 1871. Filho de Manuel Vieira Gomes e de Maria Gomes Correia. Casou com Ana Carvalho, a 7 de janeiro de 1906. Faleceu a 12 de junho de 1945.
13 Nasceu a 28 de junho de 1866. Filho de João Carvalho e de Maria de Jesus. Casou com Maria do Rosário, a 11 de fevereiro de 1900. Faleceu a 13 de fevereiro de 1951.
Gente da terrahomem casado, analfabeto, testemunha n.º 12
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararPalavras dos videntesSol a girarSol a cairA multidão
12a testemunha – Domingos Pedro14, casado, morador no lugar do Alqueidão da Serra, testemunha ocular dos factos ocorridos em Fátima no dia treze do corrente, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: viu cessar a chuva em que as criancinhas, digo, a chuva em hora que as criancinhas mandaram fechar os chapéus, e o sol girar como uma roda de fogo e baixar, segundo o seu modo de ver. A multidão joelhou à voz das pastorinhas, que diziam: lá vem Nossa Senhora, dando-se estes fenómenos em ato contínuo e à hora marcada seis meses antes. Todos os que presenciaram o facto, consideravam-no miraculoso. E mais não disse não assinando por não saber.
Notas dos editores (1)
14 Domingos Pedro ou Domingos Vieira Pedro. Nasceu a 3 de maio de 1877. Filho de José Vieira Pedro e Francisca Carvalho. Casou com Maria da Silva, a 18 de fevereiro de 1912. Faleceu a 3 de agosto de 1963.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararSol a girarSol a cairCores nas pessoas e na paisagem
2ª testemunha – Anzebino Francisco Mira4, casado, morador no lugar e freguesia do Reguengo do Fetal, testemunha presencial dos factos ocorridos em Fátima no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que tendo-se dirigido debaixo de água para o local das aparições, parou a chuva entre o meio dia e a 1 hora da tarde e logo a seguir viu o sol, girando como uma roda de fogo e que se aproximou da grande multidão, que ali estava presente, e viu também diferentes cores no povo e no horizonte e tudo à mesma hora dos factos ocorridos nos dias treze dos cinco meses transatos. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (1)
4 Nasceu no Reguengo do Fetal, a 10 de maio de 1887. Filho de Joaquim Francisco Mira Júnior e de Maria da Rosa. Casou com Maria Vitória, a 8 de agosto de 1917. Faleceu a 12 de março de 1930.
Gente da terraproprietário casado, testemunha n.º 3
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararSol a girarSol a cairCalorCores nas pessoas e na paisagem
3ª testemunha – Manuel Ribeiro de Carvalho5, casado, proprietário, morador no lugar do Reguengo do Fetal, interrogado sobre o facto ocorrido no dia treze de outubro do ano de mil novecentos e dezassete na Cova da Iria de Fátima, disse: que um quarto de hora depois, pouco mais ou menos, de parar a chuva viu que o sol girou sobre si mesmo, aproximando-se do povo, e que lançou bastante calor, e ao mesmo tempo observou a cor azul e encarnada no horizonte. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (1)
5 Nasceu no Reguengo do Fetal, a 7 de março de 1881. Filho de Manuel Ribeiro de Carvalho e de Maria de Jesus. Casou com Vitória de Jesus, a 30 de novembro de 1903. Faleceu a 13 de dezembro de 1957.
Gente da terrahomem casado, analfabeto, testemunha n.º 5
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntesA chuva a pararSol a mudar de corSol a girarA multidão
5a testemunha – Romano dos Santos7, casado, morador no lugar e freguesia do Alqueidão da Serra, testemunha presencial dos factos ocorridos no dia treze de outubro de 1917, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que ouviu dizer que ajoelhassem todos que vinha Nossa Senhora, palavras estas que ouviu da multidão e que viriam das pastorinhas, que se achavam distantes. Ditas estas palavras a multidão ajoelhou, tendo a chuva cessado nesta ocasião, e olhando para o sol viu que ele estava cercado de diferentes cores e girando como uma roda de fogo de artifício. Ouviu os clamores daquele povo, dizendo que era um milagre conhecido. E mais não disse e não assina o seu depoimento por não saber.
Notas dos editores (1)
7 Era exposto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Casou com 28 anos, a 26 de novembro de 1893, com Joana da Costa Carreira. Faleceu a 5 de outubro de 1962.
Gente da terramulher solteira, irmã do vigário da vara, testemunha n.º 6
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararSol a mudar de corSol a cairSol a girarA multidão
6a testemunha – Maria da Silva Vieira da Rosa8, solteira, de maior idade, moradora no Alqueidão da Serra, testemunha presencial dos factos ocorridos em Fátima no dia treze do corrente mês, ajuramentado aos Santos evangelhos, disse: que na ocasião em que a multidão ajoelhava, tendo cessado pouco antes a chuva, olhou para o sol e viu que este se transformou em diferentes cores, aproximando-se e girando como uma roda de fogo. Por três vezes viu este fenómeno. Toda aquela multidão banhada em lágrimas, gritava por Nossa Senhora. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (3)
6 Nasceu no Reguengo do Fetal, a 6 de junho de 1879. Filho de José Maria Gomes Menitra e de Joaquina de Jesus. Casou com Ana Soares. Faleceu a 20 de maio de 1941.
7 Era exposto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Casou com 28 anos, a 26 de novembro de 1893, com Joana da Costa Carreira. Faleceu a 5 de outubro de 1962.
8 Nasceu a 22 de junho de 1883, no Alqueidão da Serra. Filha de Domingos Vieira da Rosa e de Maria da Silva e irmã dos padres Joaquim Vieira da Rosa, António Vieira da Rosa e Francisco Vieira da Rosa. Faleceu, solteira, a 2 de abril de 1968.
Gente da terrahomem casado, analfabeto, testemunha n.º 7
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairA multidão
7a testemunha – Manuel João Sénior9, casado, morador no Alqueidão da Serra, testemunha ocular dos factos ocorridos no dia treze de outubro de 1917 em Fátima, ajuramentado aos Santos evangelhos, disse: que estando uma numerosa multidão de joelhos, olhou perfeitamente para o sol sem incómodo algum para a vista, e sem queimar, e viu-o por três vezes girar como uma roda de fogo aproximando-se, à hora marcada pelos três pastores. E mais não disse e não assina por não saber escrever.
Notas dos editores (1)
9 Nasceu a 26 de junho de 1853. Filho de Manuel Gaspar e de Francisca de Carvalho. Casou com Francisca Joana, a 7 de outubro de 1877. Faleceu a 7 de outubro de 1938.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesSol a mudar de corSol a girarA multidão
9a testemunha – António Vieira Amado11, casado, morador no Alqueidão da Serra, testemunha ocular dos factos ocorridos em Fátima no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que viu o sol muito claro e dentro representou-se-lhe ver três imagens, e diante do sol, cores diversas e girando como uma roda de fogo, tendo ouvido antes disso que ajoelhassem todos que vinha Nossa Senhora, ao que a multidão obedeceu, soltando grandes clamores e gritando por Nossa Senhora. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (3)
9 Nasceu a 26 de junho de 1853. Filho de Manuel Gaspar e de Francisca de Carvalho. Casou com Francisca Joana, a 7 de outubro de 1877. Faleceu a 7 de outubro de 1938.
10 Nasceu a 4 de fevereiro de 1869. Filho de António de Matos e de Luciana de Oliveira. Casou com Doroteia Joana, a 8 de janeiro de 1899. Faleceu a 18 de dezembro de 1949.
11 Nasceu a 23 de dezembro de 1889. Filho de José Vieira Amado e de Maria de Jesus Parreira. Casou com Joaquina Carreira. Faleceu a 30 de abril de 1968.
Aristocrataaristocrata (filha dos Condes de Sobral), mulher de Vasco Cabral da Câmara
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girar
Apezar dos jornaes já terem contado eu repetirei o que eu vi e o Tio Vasco e todos os que foram comigo, assim como todos os que comnosco falláram.
Começo por dizer que foi um espectaculo imponente e comevedor ver ali reunidas 50000 pessoas de todas as edades e de todas as classes sociaes animados da mesma fé, sem pensarem, nem se preocuparem com a chuva e horrorosa lama, sem haver o mais pequeno desastre nem desordem tudo no maior socêgo respeito e comoção. Não conseguimos chegar ao pé da carvalheira porque já lá estava muita gente desde a vespera mas, ficámos perto, embóra não podéssemos ver a attitude das pequenas, do que tenho muita pena. Pouco antes da hora a que devia apparecer Nossa Senhora, parou a chuva como por encanto e descobrio o sol, que pouco depois se tornou a encobrir, parecia um aviso. Pouco depois reparámos n'uma cousa que nos impressionou, foi ver as cáras das pessoas que estavam defronte de nós com sombra do lado de onde estava o sol (embóra encoberto) e illuminadas do lado opposto, isto é onde estava a carvalheira! Não quéro dizer com isto que visse nenhum clarão, que isso não vi. Quando estávamos reparando n'isso, assim como n'um certo fumo ou nevoeiro que se via por cima das cabeças das pessôas que estavam lá perto, fazia impressão ouvir os côros que entoavam todos de differentes lados, e pouco a pouco todos se fôram descobrindo. De repente torna a apparecer o sol começam todos a virar-se e em exclamações, nós resistimos algum tempo mas tanto insistiram que olhámos e vimos que se podia fitar o sol sem custo nenhum. Estava uma rodella branca, parecia uma hostia de repente transformou-se n'uma rodella prêta, cercada por um circulo dourado e essa rodella preta começa a andar de roda sobre si mesmo, e deitando de tempos a tempos raios luminosos ou para melhor dizer relampagos.
Tornou-se outra vez a fazer branca e depois cobrio-se d'uma nuvem doirada! — Não calculas os arrepios que fazia pela espinha; a comoção o que choraram o que éram as exclamações!
Notas dos editores (2)
1 Maria Eugénia Braancamp Sobral da Câmara (Eugénia Mello Breyner Braancamp da Câmara), filha dos Condes de Sobral, Luis de Melo Breyner e Adelaide Braancamp Sobral de Almeida Castelo Branco de Narbonne-Lara. Casou com Vasco Cabral da Câmara.
2 Maria do Carmo Figueiredo Cabral da Câmara. Filha dos Condes de Belmonte, José Maria de Figueiredo Cabral da Câmara e Maria das Necessidades de Siqueira.
JornalistaO Século (diário anticlerical), antigo seminarista
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarMovimento em ziguezagueSol a mudar de cor
Foi assim que, no dia celebre e tão anciado, afluiram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam leguas ao sol e á chuva, outras que se transportaram em variadissimos vehiculos, desde os quasi pre-historicos até os mais recentes e maravilhosos modelos de automoveis, e ainda muitissimas que suportaram os incomodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quaes, para percorrer hoje relativamente pequenas distancias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados n'um sonho, dirigirem-se, de vespera, para o sitio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo d'eles é á recitação cadenciada do terço do Rosario, sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quasi repentina do tempo, quando as bategas de agua transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçães e ás doçuras do outono sucederam, por um dia, os asperrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida á volta da pequenina arvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para os guardar como reliquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogenea concorrencia de carros e pessoas atravancou n'aquele dia memoravel, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturaes, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponencia... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam os camponios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhel-as as demonstrações do mais intenso carinho por parte d'aquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora do "milagre", a hora do "sinal sensível", a hora mistica e suspirada do contacto entre o céu e a terra...
E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacifica multidão animada pela mesma obcessiva idéa e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei —disco de prata fosca— em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superficie solar...
Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sabios? Não curo agora sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi
Jornalistajornalista de O Século (diário anticlerical)
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corA multidão
E, quando já não imaginava que via coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pré-anunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar. Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja”.
Aristocratasenhora de Viseu, que escreveu para o Correio da Beira identificando-se como assinante; esteve presente com a filha, Maria do Amparo
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corSol a cair
No dia seguinte, dia 13, fomos logo de manhã para o lugar da aparição. Entretanto é-me agradável dizer que Fátima é um pequeno lugarejo, bonitinho, talvez de cento e tantos fogos.
Às 8½, a estrada para o campo da aparição, já ia ladeada de carros, automóveis, carroças, burricos, e muita gente a pé. Devem ser 2 quilómetros de Fátima ao local do fenómeno.
Chegadas ali, o nosso trem retirou-se ao lado da estrada, como fizeram outros, para darem lugar ao trânsito. Já a essa hora estava imensa gente. Dentro do coupé envidraçado defrontávamos com o extensíssimo campo, parecendo um alguidar, levantado nos lados e abatido ao centro, formando a vastíssima bacia, com grupos aqui e além, e um extenso vale, que nos lembrava se deverá parecer com o Vale de Josafá!
Lá, muito ao longe, a um lado, víamos muita gente rodeando o local da aparição, marcado por 2 postes de madeira com uma cruz ao centro e 2 lanternas nos postes.
O dia 13 apresentou-se de chuva, o céu plúmbeo e vento.
Às 9 ou 9½ mais escureceu e mais chovia, parecendo-nos não poder melhorar o dia. Como víssemos que a chuva continuava, às 11 horas, tomámos a resolução de sair da nossa estufa e do mirante..., e seguimos com os ranchos em direção ao local que uns pastorinhos anunciaram como teatro de cenas sobrenaturais. Ao meio dia chegaram os 3 pastorinhos. Lúcia, de 10 a 11 anos, é que fala; os outros, Jacinta, a mais nova, e Francisco, irmãos um do outro e primos de Lúcia, diziam ter visto uma Senhora muito linda, toda vestida de branco com uma nuvem aos pés.
Passados minutos, depois da chegada dos pastorinhos, cessou a chuva, e o céu, até ali escuro, precisamente à hora (seria 1 da tarde) em que os 3 astrónomos anunciaram o caso mais fenomenal que se podia dar, em frente ao local da anunciada aparição, o céu aclarou um pouco, o que fez que quase todos os olhares instintivamente fitassem o mesmo local.
Cena verdadeiramente impressionável, presenciada por 40:000 a 50:000 pessoas, tantas foram aproximadamente calculadas!
Não afirmo o que não vi. Não vimos a Nossa Senhora, nem nos consideramos dignas disso. Mas vimos no sol, por si só, a afirmação dum fenómeno, dum caso sobrenatural!
Como foi e donde veio, não sabemos explicar. Mas o facto deu-se e contra factos não há argumentos.
Como já disse, à 1 hora, no céu, lugar onde a nuvem se desviara, aclarou; e qual o nosso espanto, quando apareceu um globo, prateado, fazendo um pequeno giro e aparecendo atravessado aqui e além pelas nuvens! Isto por 3 vezes, com intervalo, talvez, de 3 a 4 minutos.
Nesta ocasião, à nossa retaguarda, dava-se a cena dos pastorinhos junto à azinheira; nós ficámos a 7 ou a 10 metros deste local para escaparmos à turba-multa. A mais velha das pastorinhas impôs nesta altura silêncio e o resto da cena, ali, era para os 3! Depois deste simpático ensaio ou prelúdio ao Astro-Rei, como que eclipsado pelas nuvens, mas não de todo encoberto, de súbito rompe em todo o esplendor, muito diferente do usual, uma nuvem ou chama vermelha brilhantissima que o encobria, e passados momentos aquelle globo ou esfera se agitava nervosamente como impelido por eletricidade. Parecia avolumar-se e querer precipitar-se ou falar para a terra, a anunciar um caso de regozijo e pavor!
Mudou este cenário uma nuvem amarela, dourada; e assim foi desaparecendo esta realidade, que aos mortais parecera um sonho! Desejava poder descrever este acontecimento, único, maravilhoso, em frase burilada; limito-me a narrá-lo com a simples expressão da verdade, por nós presenciada.
[…]
Mal diríamos que o havíamos de presenciar no momento em que o sol nervoso tinha suspenso o auditório. Parecia vir para a terra, anunciando o milagre e saudando a Rainha do Céu e do universo, que naqueles momentos falava para os 3 pastorinhos, como as três crianças espontânea e intemeratamente6 afirmam.
Acredito e nada me repugna acreditar, em face do que vi. Mas, como a minha voz é fraca e débil no deserto, esperemos que outras vozes mais fortes e autorizadas o confirmem.
Logo que o astro-rei entrara na sua normalidade, tudo se retirou na melhor ordem e silêncio, subjugado pela verdade dos factos! Peripécias: o vasto campo do milagre era todo de barro, separado em arretos de pedras soltas.
Como choveu, ficou feito em lama. Logo que saí do carro, enterrei as botas na lama e os pés pesavam, que julguei não poder andar! Lá fomos indo, indo até parar bem próximo da azinheira, já cortada e depenada, cujos raminhos davam-se aos devotos, como os nossos irmãos que vão para o front levam lembranças e relíquias da família.
Comoveu-nos, no entanto, ver colegas nossas de sapatinho branco, julgando encontrar terreno seco e firme, onde só era barro movediço! Pena foi não subirem mais alto... calcando indiferentes a lama da terra!
[…]
Também nos não admira que entre milhares de pessoas alguma apareça como o nosso cocheiro, a quem, tendo ficado junto do carro, no alto do vale, perguntei:
– Então, sr. Manuel, gostou e viu o sol?...
Parece que nessa ocasião estava a dar de comer aos cavalos! Grande materialista (sendo aliás muito boa pessoa)...
Notas dos editores (2)
5 Joaquina Amélia nasceu em Casal Menino, Espite, a 24 de fevereiro de 1890 e faleceu a 1 de outubro de 1970, no mesmo lugar.
6 Confusão com “intimoratamente” (destemidamente, corajosamente)
Aristocrataaristocrata (filha dos Marqueses de Sesimbra), mulher de um coronel de artilharia
13 out.Testemunho diretoEm parteCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoPalavras dos videntes
Enfin comme le 13 oct. approchait et que j'avais un grand désir, un immense désir, d'aller à Fatima, l'endroit du miracle, nous avons arrangé, ma soeur, des cousines et des amies, à aller toutes ensemble. Il n'y a point de chemin de fer jusqu'au village, et du village même jusqu'à l'endroit de l'apparition c'est encore assez loin. Nous avons donc loué une grande automobile et sommes parties bravement de Lisbonne à 2 heure du matin, pour etre á l'endroit indiqué à midi. Nous avons voyagé toute la nuit, et á 10 heure[s] nous étions à l'endroit de l'apparition. Il y avait déjà une foule énorme qui attendait; on a calculé qu'il se trouvait là plus de 50.000 personnes. Pendant toute la nuit et la matinée nous avions rencontré des centaines de voitures, des gens à pied, à cheval, à âne, enfin tous les vehicules possibles; et je vous assure qu'il y en avait de véritablement préhistoriques. Cela fesait un peu rire, mais c'etait touchant en même temps de voir tant de personnes se diriger au meme endroit pour assister à l'apparition de la Vierge. Moi je disais que c'etait déjà là un vrai miracle: à la voix de ces pauvres enfants tant de milliers de personnes laissaient leurs maisons, leurs affaires, pour accourir, prier et chanter des cantiques. Il pleuvait à verse, une pluie comme il n'y a pas souvent chez nous au mois d'octobre où il fait encore si beau; et pourtant pas une personne ne se plaignait; on était là sous la pluie à attendre! on entendait comme le bruit de la mer et c'etait tous ces gens qui priaient à haute voix et chantaient des cantiques.
Enfin à midi on entend un grand murmur et des acclamations. C'étaient les enfants qui arrivaient, accompagnés par le docteur de l'endroit qui les a pris sous sa protection.
[…]
Mais j'en était à raconter quand les enfants sont arrivés à l'endroit où la Ste Vierge leur apparait. Cet endroit est marqué par un autel rustique surmonté d'une croix et ayant deux lampes allumées; c'est pres d'un olivier, ou plutot c'etait un olivier, mais il n'en reste plus qu'un tronc presque à ras du sol, les gens par dévotion ont arraché les feuilles, les branches, tout.
Mon Père, il est midi précis et la pluie qui tombait par torrents cesse tout d'un coup, les enfants sont agenouillés près de la croix et prient, leur petit visages transfigurés et couverts de larmes. Alors tout d'un coup voilà qu'on entend une clameur qui sort de milliers de bouches; tout le peuple crie: "Miracle, miracle, loué soit Jésus-Christ, louée soit la Très Ste Vierge". Et le soleil qui se laisse fixer et qui semble un disque de métal sans rayons, commence à tourner sur lui-meme et à monter et descendre plusieurs fois. Voilà ce qu'on dit à côté de moi, et ce que des milliers de personnes affirment avoir vu. Moi je ne l'ai pas vu; j'ai bien pu fixer le soleil et j'etais terriblement emotionnée d'entendre tout le monde clamer qu'on voit des signes extraordinaires dans le ciel. Je crois que N. S. ne m'a pas trouvée digne de voir ces phénomènes, mais dans mon ame je n'avait pas besoin de les voir pour croire à l'apparition de la Ste Vierge aux enfants. Deux de mes cousines qui étaient près de moi, étaient hors d'elle-même[m]es et affirmaient voir exactment le soleil comme une pièce de feu d'artifice tournant vertigineusement. Enfim cela dura quelques minutes, puis de nouveau les nuages couvrirent le soleil; les enfants se relevèrent et tout ce monde se précipita sur eux pour les entendre parler.
J'ai pu voir de loin l'une des petites filles sur les bras d'un monsieur. Je n'entendis pas ce qu'elle disait, mais on a raconté qu'elle disait ceci: "La Ste Vierge a béni tout le monde, elle veut qu'on prie, qu'on fasse pénitence et qu'on bâtisse en cet endroit une chapelle en l'honneur de la Vierge du Rosaire.
Les aumônes sont si abondantes qu'on va tout de suite commencer la chapelle, et cet endroit tout à fait inconnu il y a quelques mois, est devenu tout d'un coup célèbre. Comme je vous l'ai dit, plus de 50.000 personnes étaient réunies là le 13 Oct.; et tout ce monde-là est parti heureux et convaincu que la Ste Vierge a daigné descendre un moment sur notre pauvre Portugal. Moi, j'en suis sûre. Dites-moi, mon Père ce que vous trouvez de tout cela. Je suis heureuse d'avoir pu assister à une telle manifestation de foi et de religion.
Près de moi un vieux paysan ne faisait que crier: "Ste Vierge, mon fils, mon petit enfant, meu filhinho en portugais;" C'est une expression qu'on ne peut pas bien traduire, mais qui est si touchante; sans doute son fils est à la guerre, et le pauvre vieux sentant la Ste Vierge toute proche, lui demandait de le protéger.
Visitanteleigo, companheiro de Joaquim Sacristão, de Turquel
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoDisco pálido / prateadoMovimento em ziguezagueSol a mudar de cor
Fui dos primeiros que ali chegou, e dos ultimos a retirar. Nunca senti uma tão grande alegria e nunca tão pura satisfação d'alma. Desde o principio e apesar da chuva contínua e incómoda, notei logo que todos nós, numa comunhão de sentimentos e ideas, nos achávamos satisfeitos e esperançados; nem um gesto de desespero ou desfalecimento nem uma palavra de desagrado ou incorrecção. Tenho a certeza meu Caro amigo que podia chover ou fazer o peor tempo possivel que ninguem arredava d'ali, e apezar da multidão que viste, parece que já nos conheciamos, que eramos amigos e que todos desejavamos o bem estar dos outros. Ao pé de mim e debaixo do nosso guarda-chuva varias pessoas passaram abrigando-se e conversando como se nos conhecessemos de há muito e amigos velhos fossemos.
Entre êstes apareceu um velhote (pai do Joaquim de Maceira) 70 anos bem contados, que já tinha andado cinco leguas e tinha que novamente as percorrer; quiz saber se estava massado pela jornada e pela chuva mas não consegui obter outra resposta do amigo e simpático senão que “Mandava quem podia” e parece-me que isto sintetisava no seu “Manda quem pode” a opinião de quasi nós todos que lá estavamos; d’aí o nosso estoicismo e perseverança.
Por isso e apezar de tudo, nós esperavamos alguma cousa, aínda que alguns, e eu um dêles, anciosos, e diga-se a verdade com algum receio de que nada houvesse.
Nem todos têm a fé profunda dos verdadeiros crentes. Digo-te mais meu amigo, o meu companheiro o Joaquim Sacristão de “Turquel” tinha na mão um relogio certo pelo sol e nós viamos passar o tempo bastante inquietos.
Agora meu amigo descreva quem possa, eu não sou capaz, seriam 12 horas e trinta e cinco a quarenta minutos, no respeitavel relógio do meu amigo, vi com toda a evidencia porque a luz solar nos permitia fixar à vontade o sol, êste e as nuvens que o rodeavam tremer numa hesitação, de quem obedece a uma vontade e força superior que nêsse momento lhe houvesse lançado a mão e o obrigasse a obedecer-lhe. Tive a impressão de quando se dá um safanão numa pessoa e se força a ouvirmos. Que houve naquela ocasião um fenómeno solar, com mais ou menos apresentação de diversas cores não te reste dúvidas destas; só vi um amarelo muito pronunciado e pareceu-me ver uma côr preta por debaixo do disco solar mas esta não garanto.
Mais não te sei explicar, ainda que o sentisse e aínda hoje sinto, e tanto que nunca mais passarei tão agradaveis momentos.
Não reparaste tu na nossa alegria e satisfação depois do facto; todos nós interrogavamos e só uma unica pessoa me disse não ter visto. Pelo que se passou antes; a correcção do porte de tanta gente, as rezas, os canticos, a confiança em todos, a fé que transparecia nos rostos, o fenómeno solar que se deu, a alegria, a amizade que a todos nos uniu naqueles instantes e até a nossa estada alí, o respeito da multidão ajoelhada e fervorosa, as lágrimas de contentamento íntimo, o não ter havido a mais pequena zanga, roubo ou desastre tudo meu amigo e sobretudo pelo fenómeno solar que vi acredito que houve na Fátima no dia 13 de Setembro6 de 1917 um caso tão extraordinario que emquanto a sciencia mo não explicar é única e exclusivamente obra de Deus.
[…]
As crianças vi-as chegar e retirar, indo até ao pé da casa delas onde entrou minha familia.
Não entrei nem concordo com tanta pregunta tola e insediosa que fizeram às pobres creanças muitas pessoas que continuamente as procuravam e procuram.
De resto umas pobres camponezas mal ajeitadas nos seus fatos novos e coroas de flores.
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarSol a cair
Por varias vezes tenho lançado mão da pena para escrever-lhe a fim de comunicar-lhe que fui dos felizes que teve a felicidade de ver o Milagre que N. S. operou no lugar da Fatima no dia 13 do mês corrente. Mas pensando que o terá já sabido por outras pessoas e até pelos jornais deixei de o fazer até agora. Mas á medida que o tempo vaí passando eu sinto um grande desejo de dizer a todos os que me são caros aquilo que vi. E por isso V Exa desculpará-me do tempo que lhe vou roubar aos seus muitos afazeres lendo a minha fraca narração do acontecido. Foi o seguinte: Tendo - ouvido contar varias coisas a tal respeito e de que Nossa Senhora no dia 13 faria com que todos acreditassem levou-me a ir daqui até ao local em biciclete, indo ficar na vespera ao Reguengo em casa de minha irmã S. José4. No dia 13 depois de almoçar5 dirigi-me ao local a que me refiro e que dista do Reguengo umas 2 leguas. Mal tinha saido de casa (9 horas pouco mais ou menos) a chuva e o vento começou a mimosear--me (e a todos quantos seguiam o mesmo destino) com tal impetuosidade que chegámos ao local todos molhados. No caminho ainda me abriguei numa casa á beira da estrada até a ver se a chuva parava mas passadas 2 horas de espera não houve outro remedio se não seguir por baixo de chuva e vento. Pelo caminho não se viam senão pessoas a pé a cavalo, em carros automoveis, bicicletes etc mais concorrencia [que] nos dias da romaria da Senhora de Mercules8. Chegados ao local encontravam-se ali milhares de pessoas já para o mesmo fim sendo dum efeito deslumbrante o conjunto de pessoas, carros etc.
Dirigi-me para o local onde se erguia um pequeno arco e onde soube que era ali que outras vezes N. S. se dignára aparecer [a] 3 crianças pastorinhas. Constava que as crianças haviam dito que o Milagre se daria do meio dia á 1 hora solar.
A chuva não cessava e o céu completamente nublado levava a pensar que nada se daria.
Um pouco antes de hora aprazada chcgam as crianças e a chuva ainda cai. Dirigem-se ao local e pedem aos presentes que fechem os chapéus de chuva no que são obedecidas logo, e até mais, todos os homens tiraram os chapéus da cabeça. Começaram o terço e a chuva deixa de cair lentamente. As nuvens muito densas começam a rarefazerem-se e o Sol por entre uma nuvem ou outra começa a ver-se como se fosse a lua. Algum tempo depois as nuvens afastam-se e o Sol mostra-se em todo o seu esplendor. Quiz fita-lo mas não pude. As nuvens continuam a encobri-lo e momentos depois afastam-se de novo e o Sol mostra-nos o quadro mais grandioso que meus olhos teem visto. Tomando a aparencia da lua todo amarelo mas sem emitir l[u]z muda de côr para um azul celeste a seguir toma [u]m brilho muito intenso como uma nascente de luzes [de] brilhantes toma um movimento circular muito rápido e aproxima-se da Terra chegando a dar-nos a impressão de que tudo vai ser fulminado. Mas oh! maravilha Divina! O Sol retoma de novo o seu lugar e parece dizer-nos não tenhais medo! Tudo já de joelhos dirige os seus pensamentos para Deus para N. Senhora e ninguem se lembra deste mundo.
As exclamações Milagres! Mãe do Ceu! Nossa Senhora são gerais e o Sol como a mostrar bem aos descrentes que não é uma ilusão o que veem toma de novo o aspecto da lua, a côr azul celeste, o mesmo brilho e movimento circular desaproximando-se da Terra o que nos faz supor que dista de nós a uns 500 ou 600 metros.
Entretanto o Milagre finda e as crianças erguem-se da oração e levadas ao colo de varios individuos a mais velha diz ao Povo: N. Senhora que falou pela ultima vez comigo encarrega-me de dizer-vos: que a Paz se faz hoje; que vão descançados para suas Casas que a chuva os não molhará no regresso; que orem a N Senhor quem teem ofendido muito e que em breve virão os soldados da França e que deseja lhe façam uma capela no local.
Durante o Milagre os objectos tomaram a côr amarelo dourado sendo dum efeito deslumbrante o vasto recinto onde se reuniam para cima de 50 mil pessoas.
Dentro do globo luminoso observava-se um grupo de pessoas que se moviam e que a criança diz ser S. Jose a anunciar a Paz aos homens; Seu bendito Filho a lançar-lhe a benção e N. Senhora das Dôres.
Dentro do globo luminoso viam-se um grupo de pessoas que se moviam, e que depois a criança explicou ser S. José a anunciar a Paz aos homens, seu bendito Filho a abençoar o Povo e N. Senhora das Dôres.
O quadro é emocionante e comovedor! As lagrimas de comoção e alegria veem-se em quasi todos os olhos e dos meus algumas cairam tambem.
Quadro grandioso que os meus olhos jámais viram! Durante o Milagre tudo toma a côr amarelada um amarelo dourado conservando-se neste estado [as .....ras ...[dura]nte uns 30 .....[dep]ois findo[u].30
As crianças erguem-se da oração e a mais velha levada ao colo dum individuo diz ao Povo: que N. S lhe falou pela ultima vez e lhe disse que a Paz se fazia hoje; que orassem e fossem descançados para suas casas que a chuva os não molharia no regresso; que esperassem os nossos soldados que em breve viriam da França que era a N. S. do Rozario e que desejava lhe erigisem naquele sitio uma capela31
Notas dos editores (6)
1 António Lalanda dos Santos. Vivia no Reguengo do Fetal. Cf. DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, nota 18.
4 Maria de S. José, irmã do Prof. António Lalanda dos Santos.
5 Na época era assim chamado o pequeno almoço.
8 Ermida de Nossa Senhora de Mércoles, próximo de Castelo Branco, com portal romano-gótico. Festas no domingo, segunda e terça-feira da segunda semana da Páscoa.
30A deteriorização do papel não permite a correcta leitura desta frase. No entanto, com as letras que ficaram visíveis, depois do rasgão, com o cálculo aproximado das letras e espaços, apresentamos duas possíveis redacções: "as sombras ao menos durante uns 30 minutos e depois findou"; "as sombras aproximadamente uns 30 minutos e depois findou".
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirA multidão
Eu declaro, e juntamente comigo varias pessoas de distincção com quem fallei e cujos nomes illustres posso citar; que propositadamente observámos o sol por varias vezes, e por espaços determinados, para nos certificarmos bem da veracidade dos factos; mas nada vimos de anormal depois do phenomeno milagroso. Que o milagre se deu é certo e bem certo; affirmam-no milhares de pessoas, não só rudes e ingenuos camponezes, mas pessoas illustradissimas, que conhecem bem as leis da natureza e que n'um brado unisono de respeito cahiram de joelhos proclamando a grandiosidade do milagre sem a mais pequena duvida.
Se se tratasse de qualquer phenomeno cosmico, não estaria isso já previsto e annunciado pelos sabios que se entregam á sciencia dos astros? E comtudo não houve d'isto a menor noticia desde o mez da Virgem que foi quando principiaram a dar-se os factos extraordinarios em todos os dias treze de cada mez, até agora, no mez do Rosario, que foi quando terminaram estas milagrosas manifestações, préviamente annunciadas pela pequena Lucia.
Eu (modestia á parte) que não sou de todo estupida nem ignorante, que fui ali cheia de curiosidade, mas sem fé na apparição, com a alma perfeitamente alheiada á grandiosidade do mysterio, surda ás vozes da inspirada creança que nos mandava em nome de Nossa Senhora olhar para o sol, receando estragar ou perder por isso a vista, segundo é crença geral; resistio á suggestão; e só depois de todos em volta de mim, em exclamações extaticas me despertarem a curiosidade de olhar, arrostei contra o receio egoista de perder a vista, e então olhei; e, Bemdito seja Deus! vi! Vi o que milhares de pessoas estavam contemplando!
A chuva que cahira toda a noite e toda a manhã, miudinha, persistente e enfadonha, cobrindo por completo o céu d'um manto cinzento, cessou de repente á hora annunciada pelos pastorinhos; as nuvens começaram a esfarrapar-se e a abrirem-se (permittam-me a comparação) como se fôra o panno d'um theatro, para deixarem ver o sol dardejando e insidindo os seus raios luminosos sobre o sitio onde se achavam em extasi as propheticas creanças.
O sol apresentava então o aspecto d'um globo de prata fôsca, circundando-o um disco arroxeado, muito escuro, como quando os eclipses não são inteiramente totaes.
Viu-se então uma coisa maravilhosa! O sol girando apressadamente como se fôra uma roda de fogo d'artificio: este prodigio repetiu-se por tres vezes consecutivas.
Realisava-se o prodigio annunciado pelos pequenos, para que todos cressem na apparição de Nossa Senhora!
Depois as nuvens foram desapparecendo a pouco e pouco do firmamento, que ficou limpido, sereno e azul como não ha nenhum que se eguale ao d'esta nossa bella terra portugueza.
Olhei em volta; o aspecto e as côres da paisagem eram as mesmas que se observam durante a duração d'um eclypse; a mesma luz azulada, sui generis, d'esse azul electrico especialissimo e particular aos phenomenos d'esta natureza.
Para bem mostrar quanto eu evitei deixar-me suggestionar, direi ainda que as côres amarella, vermelha e rôxa que muitas pessoas diziam ter visto ao baixarem os olhos sobre a paisagem, ou sobre os lenços que a commoção das lagrimas nos obrigava a levar aos olhos, não era mais do que o resultado de estarmos fixando o sol a olho nu, o que sempre acontece em circumstancias identicas.
Sobre a grandiosidade do espectaculo, as bellezas da paisagem, a imponencia da multidão, sobre o enternecimento que causava a devoção de tanta alma crente, entoando em côro o Avé, o Crêmos Deus, o Tantum Ergo, as preces fervorosas á Virgem Nossa Senhora do Rosario.
Visitantesenhora católica, assinante do Raio de Luz
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cair
Ficara combinado juntar-nos em Torres Novas todos os que deviam seguir no camion que nos levaria a Fátima. Com que commoção escrevo e pronuncio o nome d’esta terra abençoada!
Ás 9 horas menos 10 minutos partiamos debaixo de uma chuva continua que nos acompanhou até lá e que, a meu ver, era o primeiro beneficio que a Virgem Santissima nos alcançava, depois de 5 mezes de estiagem. Chegando a Villa Nova d’Ourem, começámos a subir para Fátima, não podes calcular a quantidade de vehiculos de toda a especie e de gente a pé por quem iamos passando e tanto primeiro do que nós tinham partido de suas casas. Apezar da chuva insistente, ninguem se via desanimado, todos olhavam prazenteiros, felizes, como que dizendo: “Cá vamos tambem animados da mesma fé.” Sentimo-nos todos como fazendo parte da mesma familia, e na verdade assim era.
Parámos na egreja, aonde fômos adorar o Santissimo Sacramento e renovar a Nossa Senhora a prece de que não permittisse que o Seu povo ficasse dasapontado. Eu por certo não descria do poder de Deus, descria de que nos fôsse dado vêl-o manifestar-se em nosso favor depois de tão ultrajado, tão desconhecido!...
Era meio dia, comemos alguma coisa dos nossos farneis, mais por reflexão do que por necessidade. Á 1 hora partimos para o local... e não podes fazer ideia da extensão de terreno occupada por uma multidão compacta, no maior socego e respeito; da quantidade de automoveis, carruagens, galeras e transportes de toda a especie que enchia a estrada n’uma extensão de quasi um kilometro, mal deixando passar a custo quem se aventurasse a atravessal-a a pé. Estivemos dentro do camion nem era possivel outra coisa.
Aproximava-se a hora e eu tinha a certeza que o tempo ia levantar. Effectivamente um bocadinho antes das 2 horas parou a chuva, conservando-se porem o céo de chumbo. De repente, toda aquella gente possuida de indiscriptivel anciedade e parte d’ella talvez desanimada começou a notar uma ligeira nevoa no sitio da carrasqueira e passando-se alguns minutos vimos todos a voltarem se para o lado do sol. Ouvi depois que Nossa Senhora tinha dito n’esse instante a Lucia (uma das creanças): “Manda o Povo olhar para o sol.”
De repente um disco luminoso do tamanho d’uma hostia grande, mas que todos podiam fitar como se fita a lua, como que se destacou do sol, (ou antes se lhe antepoz) baixando visivelmente n’uma rotação seguida que depois d’uma paragem se repetiu. Uma nuvem linda ora côr de fogo, ora roxa, ora côr de rosa, ora dourada se mostrava e desaparecia sucessivamente reflectindo-se a côr não só em todos os circumstantes como em todo aquelle recinto. A côr amarella sobretudo foi muito impressionante e já das outras vezes se tinha feito notar mas menos intensa. O horizonte, era limitado em circulo perfeito por focos luminosos eguaes em tamanho e distancia uns dos outros dando um pouco a impressão de quémadas mas no tom amarellado que por vezes se nota ao pôr do sol. Todo este effeito foi duradouro e os fócos a que alludo foram surgindo uns apoz outros. Simplesmente maravilhoso e assombroso!
..... Levei uma lista das pessoas por quem queria pedir especialmente. Parecia que advinhára que lá só poderia gritar: “Louvado seja Deus, louvado seja Deus”; e isto sem cessar!
Muitos viram (e pessoas de todo o credito) uma estrella linda a caminhar na direcção da carvalheira com clarão.
Estive com as duas pequenitas que iam vestidinhas de branco com umas corôasinhas muito singelas nas cabecinhas. Disséram-me que Nossa Senhora lhes apareceu com S. José e o Menino ao pé, disse que era a Senhora do Rosario, que o rezassem muito, que isto era um aviso mas que se se não arrependessem e continuassem a offender o seu Divino Filho, Este mandaria um grande castigo a Portugal.
As duas pequenas em separado, fizeram a descripção da visão da mesma fórma e a Lucia, que, dado a sua pouca edade deveria estar doida no meio d'aquelle alvoroço de que se via rodeada, ia dizendo a todos em voz clara e sem se alterar, á medida que ia passando (ao collo do pae) — o que Nossa Senhora lhe disséra
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
Que disse a Senhora em outubro?
– A Lúcia disse: “Que me quer”? A Senhora respondeu: “não ofendam mais a Nosso Senhor que estava muito ofendido”. Disse que perdoava [sic] os nossos pecados, querendo ir para o Céu. Disse também que rezasse a gente o terço. Disse que esperassem cá os militares muito breve e que acabava a guerra naquele dia. Disse que fizesse a gente lá uma capela e não sei se disse “à Senhora do Rosário” ou que “ela era a Senhora do Rosário”.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntesFiguras / visões
A treze de outubro viste os anjinhos e o arco de flores?
– Não vi, não reparei, quando a Senhora apareceu ao pé do sol.
52a – O que disse a Senhora em outubro?
– Perguntei-lhe o que me queria. Disse que não ofendessem mais a Deus Nosso Senhor, que já estava muito ofendido, que rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário que lhes perdoasse os pecados (sic), querendo ir para o Céu, e disse também que queria que fizessem ali uma capelinha à Senhora do Rosário ou que ela era a Senhora do Rosário. Eu não sei se ela disse “à Senhora do Rosário” ou “eu sou a Senhora do Rosário”.
53a – Que mais disse ela?
– Eu disse-lhe que tinha muitos pedidos de curas e conversões e ela disse que melhoraria e converteria uns, outros não.
54a – Não disse mais nada?
– Disse: “a guerra acaba hoje e esperem cá pelos seus militares muito breve”.
55a – Não disse que a guerra acabava logo que chegasse ao Céu?
– Não me recordo se disse que era logo que chegasse ao Céu.
56a – Nesse dia disseste ao povo que fechasse os chapéus?
– Não me recordo que o dissesse.
57a – Soltaste um grito dizendo ao povo que olhasse para o sol?
– Não me recordo que soltasse tal grito.
58a – É verdade que a Senhora apontou para o sol?
– Não me recordo que o tivesse feito.
59a – De que cor era o traje de Nossa Senhora ao pé do sol?
– O manto era azul e o vestido branco.
– E o de Nosso Senhor, o de S. José e o do Menino?
– O de S. José era encarnado, e o de Nosso Senhor e o do Menino penso que também eram encarnados.
Aristocratafidalga de Lisboa, membro das Filhas de Maria
13 out.Testemunho diretoViuNotaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagem
No campo de Fátima perto da 1 hora. Chove torrencialmente, o que não consegue indispôr os grupos perto de mim. Resa-se o terço, a ladainha, a Corôa da Immaculada Conceição. Conhecidos e desconhecidos unem as suas orações.
Algum tempo depois pára a chuva e o sol, o sol de todos os dias faz a sua apparição....
Pássam uns minutos da 1 e meia. Sinto o coração ligeiramente opprimido. Recomeço o Rosario e a meio do 2º mysterio oiço um suspiro gigantesco da multidão e alguem me diz: "Olha para o sol". Respondo que nada vejo, mas segundos depois sáe-me da bocca esta exclamação: "É a lua". Vejo um disco muito claro azul prateado, sem raios, que logo retomando a côr natural, começa rodando vertiginosamente depois esse disco, tóma differentes côres.
Lança para fóra de si como rôlos de fumo da côr de que está tinto, mas conserva sempre a fórma perfeitamente redonda, sem raios e podendo ser perfeitamente fixado. Em certa occasião vejo-o colorir-se de côr de rosa vivo. Por detraz de cada cabeço levanta-se como um véo de gaze da mesma côr campo e multidão tudo a reflecte. É grandiosamente lindo e no emtanto cresce na alma um sentimento de temor, inexplicavel, se não tivessemos a convicção do "sobrenatural".
Ninguem diz alto o que vê, mas pelo redobrar do ardor das invocações a Nossa Senhora nas occasiões "culminantes" se percebe que todos mais ou menos vêem e sentem o mesmo.
O clamor é immenso no momento em que o sol desce, movimento que observo distinctamente, assim como um movimento para a direita e esquerda, ou vice-versa, mas já á altura regular do sol. Estes dois ultimos movimentos foram muito menos sensiveis que o movimento descendente e não posso affirmar que se seguiram immediatamente a este.
O que acabo de escrever é o que os meus olhos viram em Fátima
Gente da terramulher do Casal da Fonte (Assentiz), de 63 anos, casada com José Pereira Lopes
13 out.Testemunho diretoInterrogatórioA multidãoPalavras dos videntes
Em 13 de Outubro, achava-se proximo das creanças quando se deu a apparição. Do logar onde estava vi-as muito bem. Logo que chegaram, rezaram o terço, a confissão e o acto de contrição. Entretanto o povo comprimia-se cada vez mais de tal maneira que as creanças corriam perigo de ser esmagadas, apesar dos esforços que empregavam as pessoas que as rodeavam para conter aquella onda. Todos queriam ver e ouvir de perto, o que era impossivel. A Jacintha, distrahida e com muito medo chorava por causa dos empurrões que soffria. A Lucia acariciava-a e pedia-lhe que não chorasse porque ninguem lhe fazia mal. O Francisco tambem estava distrahido por causa do povo. De repente a Lucia disse-lhe que olhasse para a carrasqueira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os beiços. Em seguida ouvi-lhe fazer esta pergunta: O que é que vocemecê quer? Vocemecê disse que no dia de hoje que é 13 de Outubro me diria o que queria. Calou-se um momento e logo acrescentou: “Pois sim, mas se vocemecê não fizer algum milagre o povo diz que é mentira.” Depois calou-se por um pouco. Em seguida disse: “Mas o que hei-de eu pedir? Pedia que vocemecê salvasse este povo todo e o levasse para o Ceu e que curasse estes enfermos.” Nesta occasião estava muita gente a pedir. Não sei a quem se referia a pequena. Disse mais o seguinte: “Já aqui vim fallar umas poucas de vezes e nunca lhe perguntei como se chamava”. Depois de ouvir a resposta disse: “é a Senhora do Rosario.” Inclinando-se depois para a mãe, que estava proximo, mas sem se voltar para o povo, disse mais alto: “Diz Nossa Senhora que olhem para o sol, que ella se quer manifestar nos astros.” É então que a Jacintha exclama: “Já se vae embora a minha mãe do Ceu, olha onde vae ella!” Por sua vez diz o pequeno: “Já a não vejo!” Tornou-lhe a Jacintha: “Esta mesmo á endireitura do
Notas dos editores (1)
1 Parte deste depoimento vem inserido no Relatório da Comissão Canónica (DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930; capítulo: “O êxtase”, p. 174-175).
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarSol a cair
Tambem eu lá fui; não que me estimulasse o entusiasmo vivo de uma convicção intima na realização anunciada de factos portentosos, mas porque a ir me obrigava a gratidão devida a gentileza penhorante e insigne.
O dia 13 de outubro amanhêcêra chuvoso e desabrido mas o turbilhão do vento impetuoso, acompanhado de fortes aguaceiros, não bastou para vencer a fé sincera de uns e a curiosidade ardente de outros.
Pelo longo caminho encontrei dezenas, centenas, milhares de pessoas que, açoutadas pelo vendaval tempestuoso, sem um gesto de enfado, sem uma quebra de ânimo, seguiam pela estrada alagada em demanda do sitio onde factos prodigiosos se diz terem-se já dado, e aonde outros deviam nêste dia produzir-se. A gravidade e a compostura que em todos os rostos transluziam, eram garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingenua e pura a todos impunha.
Chegado ao teatro dos retumbantes acontecimentos, impressionou-me vivamente a enorme multidão, em muitos milhares de pessoas computada, e que se aglomerava numa ordem, num respeito, numa compostura que comoviam.
Não podendo romper caminho até junto da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trôno á Celeste Vizão, quedei-me na estrada em sitio donde tudo bem se podia observar.
Até mim vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solêne por que milhares de corações anciavam.
Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e extraordinário que ainda me foi dado presenciar. Aproximava-se o momento augusto. A chuva impertinente abrandou, e para o norte divisa-se numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.
Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava, ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã brumosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. No relógio o ponteiro marcava vagarosamente 2 horas; e entretanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé.
Já em algumas almas cândidas surgia o receio de que o facto anunciado não se produzisse, quando de repente toda aquela imensa multidão á voz da vidente se agitou num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o céu, onde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias, num movimento de veloz rotação, parecendo por vezes desprender-se da abóbada celeste, aproximando-se da terra. Os espectadores, entreolhando-se, representavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte, vermelho-alaranjado, onde quer que os olhos se fitavam, viam-se fachos de luz esbatida, afectando a fórma oval, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.
Tal foi o fenómeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou numa espectativa benévola.
Notas dos editores (2)
2 Este testemunho foi publicado no jornal “A Ordem”, de 21 de Novembro de 1917 (Doc. 312). Pela sua apresentação (títulos e o parágrafo final), este testemunho foi escrito com a intenção de ser publicado. Mas como a sua publicação não foi integral, criámos dois documentos diferentes: este documento (295) de 13 de Novembro de 1917 (data da redacção) e o Doc. 312, de 21 de Novembro de 1917, data da publicação no jornal “A Ordem”.
3 Maria Elisa da Cunha Serra, que o acompanhou na sua ida a Fátima (Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 14).
Gente da terracamponesa, de 63 anos, mulher de José Pereira Lopes
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA multidãoPalavras dos videntes
Trata-se do depoimento de Maria Rosa Pereira, de sessenta e três anos de idade, casada com José Pereira Lopes, do Casal da Fonte, freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas. O rev.do António Lopes Laranjeiro9, antigo professor do Seminário Patriarcal em Santarém, e então capelão no lugar das Moreiras Grandes, da mesma freguesia, declarou que conhecia perfeitamente a testemunha e que a considerava muito séria e absolutamente digna de crédito. Este depoimento foi feito a treze de novembro de mil e novecentos e dezassete e refere-se à aparição do dia treze de outubro anterior. Diz a testemunha que nesse dia se achava próximo das crianças quando se deu a aparição, vendo-as muito bem do lugar onde estava. O povo comprimia-se cada vez mais, de tal maneira que as crianças corriam perigo de ser esmagadas apesar do esforço que empregavam as pessoas que as rodeavam para conter aquela onda humana. Todos queriam ver e ouvir de perto, o que era impossível. A Jacinta distraída e cheia de medo chorava por causa dos empurrões que recebia. A Lúcia acariciava-a e pedia-lhe que não chorasse, porque ninguém lhe faria mal. O Francisco também estava distraído por causa do povo. De repente, a prima disse-lhe que olhasse para a azinheira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os lábios10. Maria Pereira que se expressou nestes termos com a maior simplicidade e naturalidade, ignorando o que eles podiam significar de muito extraordinário, era pessoa de condição humilde, sem cultura literária, possuindo uma educação religiosa elementar.
Notas dos editores (2)
9 Nasceu na freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas, em 1880. Frequentou o Seminário de Santarém e faleceu a 26 de junho de 1922, em Moreiras Grandes.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntesFiguras / visões
A pequena Lúcia, aquela a quem a Virgem aparecia, conversava a certa distância com alguns forasteiros. Esperámos que estes a deixassem e aproximámo-nos dela. Esta era uma criança dos seus doze anos, de feições grosseiras e de cor muito macilenta. Estava vestida pobremente, à moda do campo, tendo ao peito uma pequena flor de papel vermelho e nas mãos um pequeno cofre, onde tilintavam algumas moedas. Tinham um ar tristonho e sombrio. Narrou-nos a aparição da Virgem da forma que já é de todos conhecida. Que a Virgem lhe dissera “que nós tínhamos ofendido muito a Deus e que nos emendássemos”. “Que fízéssemos ali uma capelinha e que lhe pusessem o nome da Senhora do Rosário”. “Que a guerra acabaria em breve”. Perguntando-lhe minha irmã o que vira ela no sol na ocasião do milagre, respondeu “que vira S. José”. Perguntei-lhe também se ela não tinha receado que se não desse o milagre pois que o povo a poderia matar julgando que ela estivesse enganando todos, disse-me com certa energia “que sabia que o milagre se daria e que por isso nem em tal perigo tinha pensado”. Disse-nos também que já tinha anteriormente ouvido contar os milagres da Senhora de Lourdes.
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemNuvem / coluna de fumo
Foram os seguintes: 1º Os phenomenos duraram uns 8 a 10 minutos; 2º O sol perdeu o seu brilho offuscante, tomando o aspecto da lua podendo ser encarado facilmente, 3º O sol por trez vezes, durante esse periodo de tempo, manifestou um movimento rotatorio na periferia, faiscando chispas de luz nos seus bórdos, á similhança do que se dá com as ródas de artificio, de fogo mui conhecidas, 4º Esse movimento rotatorio dos bórdos do sol, 3 vezes manifestado e 3 interrompido, era rapido e durou 8 ou 10 minutos, pouco mais ou menos; 5º A seguir, o sol tomou a côr violacea e depois alaranjada espalhando essas côres por sôbre a terra, readquirindo alfim o seu brilho e fulgor, impossivel de ser encarado com a vista. 6º Foi pouco depois do meio dia e perto do zenith, (o que é importantissimo) que estes factos se deram.
[…]
Na ultima apparição viu toda a minha familia a nuvem, e como estava a alguma distancia julgaram que havia lume e incenso no local. Por uma pessoa minha parenta e por outras que estavam perto das creanças verificou-se não haver lume algum.
Notas dos editores (1)
3 Embora a carta esteja datada de 3-11-1917, trata-se de um engano do autor. Logo depois refere "Dia de S. Francisco Xavier". A festa deste Santo, celebra-se no dia 3 de Dezembro.
Jornalistafilho de Gonçalo Xavier de Almeida Garrett
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairSol a mudar de cor
Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade o que vi em Fátima no dia 13 de Outubro de 1917.
A[s] horas a que me referirei são as que nessa epocha marcavam officialmente o tempo segundo a determinação do governo que unificara a nossa hora com a dos paises beligerantes. Faço isto para maior verdade pois me não era facil designar com precisão o momento em que o sol alcançou o zenith.
Cheguei ao meio dia. A chuva que desde manhã caia miuda e presistente, tocada de um vento agreste, proseguia, irritante, na ameaça de querer tudo liquifazer. O ceu baixo e pesado tinha uma cor pardacenta prenhe de agua prenuncio de chuva abundante e de longa duração.
Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automovel e um pouco sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter me ao lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado. Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes que uma tosca cruz encimava vendo distinctamente em redor delles o largo circulo de gente que, com os guarda chuvas abertos, parecia um vasto sobrado de broqueis.
Pouco depois da uma hora chegaram a este sitio as creanças a quem a Virgem (garantiam ellas) marcara logar, dia e hora da aparição. Ouviam se os canticos entoados pelo povo que as cercava.
Numa determinada altura esta larga massa, confusa e compacta, fechou os guarda chuvas e descobriu se num gesto que devia ser de humildade ou respeito mas que me deixou su[r]preso e admirado porque a chuva, [n]uma continuidade cega, molhava agora cabeças, encharcava e ensopava. Disseram me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar na lama, tinha obedecido a voz de uma creança.
Devia ser uma e meia (14 h e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as creanças, uma columna de fumo, delgada, tenue e azulada que subiu direita ate dois metros, talvez, acima das cabeças para se nesta altura se esvair. Durou este phenomeno, perfeitamente visivel a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo de duração não posso affirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir se o phenomeno uma segunda e uma terceira vez. Das trez vezes, e sobretudo da ultima, destacaram-se nitidamente os fustes esguios na atmosphera cinzenta.
Diriji para lá o binoculo. Nada consegui ver alem das columnas de fumo mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum thuribulo, não agitado, em que queimava insenso. Depois pessoas dignas de fé affirmaram me que era de uso produzir se o acontecimento no dia 13 do[s] cinco mezes anteriores e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo.
Continuando a olhar o logar da aparição numa espetativa serena e fria e com uma curiosidade que ia amolecendo porque o tempo decorrera longo e vagaroso sem que nada activasse a minha atenção, ouvi o bruhaha de milhares de vozes e vi aquella multidão, espraiada, pelo largo campo que se estendia a meus pez, ou concentrada em vagas compactas, em redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergira os desejos e ancias e olhar o ceu do lado oposto.
Eram quasi duas horas.
O sol momentos antes tinha rompido ovante, a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e inte[n]samente.
Voltei me para este iman que attrahia todos os olhares e pude ve lo semelhante a um disco de bordo nitido e aresta viva luminosa e luzente mas sem maguar.
Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fatima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, activa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma perola. Em nada se assemelhava á lua em noite transparente e pura porque se via e sentia se ser um astro vivo. Não era como a lua esferica e não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros. Parecia uma rodela brunida cortada no nacar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim. Tambem se não confundia com o sol encarado atravez [do] nevoeiro (que aliaz não havia áquelle tempo) porque não era opaco, difuso e velado. Em Fatima tinha luz e calor e desenhava se nitido e com a borda cortada em aresta como uma tabela de jogo.
A abobada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acola, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de ceu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do sol dando a impressão facilmente comprehensivel e explicavel de passar por detraz mas por vezes esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslisando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diafana.
Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro labareda de luz e braza de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina, que cegasse.
Este phenomeno com duas breves interrupções em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.
Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a scintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.
De repente ouve se um clamor como que um grito de angustia de todo aquelle povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca se do firmamento e sanguinio avança sobre a terra ameaçando esmagar nos com o pezo da sua ignea e ingente mó. São segundos de impressão terrifica.
Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosphera coloridos cambiantes. Não posso precisar bem a occasião porque já lá vão dois mezes passados e eu não tomei notas. Lembro me que não foi logo no principio e ante[s] creio que foi para o fim.
Estando a fixar o sol notei que tudo escurecia a minha volta. Olhei o que estava perto e alonguei a vista para o largo ate ao extremo horisonte e vi tudo cor de amethysta. Os objectos, o ceu e a camada atmospherica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arrocheada que se erguia na minha frente lançava sobre a terra uma sombra carregada. Receando ter soffrido uma afecção da retina, hypothese pouco provavel porque dado este caso não devia ver as coisas em rocho, voltei me, cerrei as palpebras e retive as com as mãos para interceptar toda a luz. Ainda de costas abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor rocha.
A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi o eclipse de 8 que em Viseu, onde estava, foi total. Á medida que a lua marcha a esconder o sol a luz vai se acinsentando ate que tudo se torna basso e negro. A vista alcança um pequeno circulo para la do qual os objectos se vão tornando cada vez mais confusos ate que se perdem no negrume. Baixa a temperatura consideravelmente e dir se ha que a vida na terra morreu. Em Fatima, [a] atmosphera, embora rocha, permaneceu transparente10 ate ao confim do horisonte, que se distingue e ve claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem na energia universal.
Continuando a olhar o sol reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um camponio que cerca de mim estava [a]
dizer com voz de pasmo: esta senhora esta amarella. De facto tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarellos. As pessoas pareciam doentias e com i[c]tericia. Sorri me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarello.
Dias depois fiz a experiencia de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista vi, apoz alguns momentos, manchas amarellas irregulares na forma. Não se ve tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilisado um topasio, mas nodoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam.
Todos estes phenomenos que citei e descrevi observei os eu socegado e serenamente sem uma emoção ou sobresalto. A outros cumpre explica los ou interpreta los.
Para terminar devo fazer a affirmação, que nunca, nem antes nem depois do dia 13 de outubro, vi eguaes phenomenos, solares ou atmosphericos.
Notas dos editores (1)
10Riscou Em Fátima a atmophera, embora rocha permaneceu transparente ate ao confim do horisonte que se distingue e ve claramente e substituiu por Baixa a temperatura consideravelmente e dir se hia que a vida na terra morreu. Em Fátima, atmosphera, embora rocha, permaneceu transparente.
Visitanteperegrina que sofria de febres palustres, relata a sua cura
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaNuvem / coluna de fumoCuraA multidão
Pedem-me para relatar a fórma como me acho curada d'umas febres que me não largavam havia 4 mezes. Tive um grande empenho d'ir a Fátima no dia 13 d'Outubro por ser o ultimo em que devia apparecer Nossa Senhora ás 3 creanças e por ser esse tambem em que estava annunciado um milagre em que os descrentes ficariam crentes. Pensava muito como poderia ir, visto andar assim doente e como supportaria tantas leguas n'um carro sem me puder sequer encostar, eu que estava quasi sempre deitada.
Mas lá me metti no camion, aonde uma amiga me tinha offerecido uns lugares e não pensei mais em mim até ao momento em que principiou a chuva que se tornou torrencial, acompanhada d'um frio intenso. Não pude então deixar de pensar que uma mólha e tanto frio não eram das coizas mais indicadas para quem tem febres palustres, pois mesmo dentro do carro algumas pessôas se molharam bastante. O meu prazer d'ir a Fátima n'aquelle dia era enorme mas nem por um momento pensei em associar a minha saude a essa ida ali. O que lá se passou não [o] descrevo pois é já bastante conhecido (embora nunca demais tão grande maravilha) e algumas pessôas o teem relatado com grande exactidão. Apenas me referirei a uma coiza, por vêr que em nenhuma das discripções que tenho lido, é notada. Fallo d'uma especie de fumo que se via sair do sitio pouco mais ou menos aonde devia apparecer a Santissima Virgem; não posso bem precizar o sitio pois que do camion aonde estava não podia fazer ideia exacta d'onde elle sahia; fazia effeito de ser de entre a multidão mas da que estava mais perto do sitio aonde estava armado o arco tosco. Houve quem, notando esse fumo, dissesse que era qualquer coiza de sobrenatural mas essa ideia passou e não se deu mais attenção a isso embora essa especie de nuvem se repetisse por umas 3 vezes. Mais tarde é que pensei novamente na nuvemsinha que ninguem soube explicar e que eu julgo ter sido como que o signal da presença de Nossa Senhora ali. D'ahi a bocado dava-se o milagre, bem visivel para todos, crentes e descrentes e eu que n'esse momento Bendito não senti nenhuma impressão especial, e só a alegria de ver um milagre e que Deus nos concedia tão grande graça, principiei, com o decorrer d'esse dia, a sentir uma consolação immensa, um bem-estar e uma paz interiôr, que não sentia ha annos.
No dia seguinte é que notei que não tinha nenhum dos symptomas palustres que me apoquentaram sempre e que tinha voltado á minha antiga actividade. Depois nada mais tenho sentido d'essa doença e só, como já disse uma grande consolação. A minha cura podia dar-me bem estar más o que sinto é mais do que isso: é bôa disposição, uma consolação vinda do Céu e que me faz dizer muitas vezes mentalmente: Louvado seja Deus! — Foi aquelle um dia abençoado para aquelles lados e por varias fórmas se mostrou milagroso. Uma d'ellas foi o não ter havido entre as 40 ou 50 mil pessôas que ali estavam, a mais pequena questão ou dissidencia nem um desastre ou susto sequer entre tantos automoveis, carros e carroças de toda a especie, burros f f. Tambem, de tantas pessôas que ali estiveram encharcadas até aos ossos, de nenhuma se sabe a quem fizesse mal e d'algumas sei eu fracas ou doentes. Em tudo se vê bem a mão de Deus e bem nos consola vêr que não estamos por Elle abandonados como tanto merecíamos. Direi ainda que a fórma de vêr o que se deu no Céu (ou antes entre o Céu e a terra) foi verdadeiramente miraculosa pois que uns viram d'uma fórma, uns outros, d'outra e ainda outros d'uma maneira não igual a nenhum d'elles.
Notas dos editores (1)
1 Sabemos que foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, na companhia de outras pessoas. Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 4.
CleroProfissionalpadre, formado em Teologia e em Direito, advogado/notário
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairCalor
Eu abaixo assinado, Luís de Andrade e Silva, bacharel formado em Teologia e direito pela Universidade de Coimbra, morador em Vila Nova de Ourém, declaro, que no dia 13 de outubro de 1917, observei na charneca de Fátima, o seguinte:
No local onde dizem ter aparecido Nossa Senhora, durante seis meses seguidos, estavam mais de cinquenta mil pessoas, mais de cem automóveis, incalculável número de carros, carroças, cavalos, bicicletas, e motocicletes, que, de quase todas as províncias portuguesas, vieram à Fátima, atraídos pela declaração de três inocentes crianças.
Pelas 12 ½ solares, pouco mais ou menos, chegaram ao local da aparição, as três crianças, apesar da chuva impertinente e atrevida, que tudo encharcava.
Quase toda aquela gente se descobriu a uma ordem das videntes.
Rezaram o terço, entoaram cânticos religiosos, cuja melopeia chegava até mim, que me encontrava à distância dos videntes, cerca de cem metros.
A chuva entretanto havia cessado.
A certa altura, ouço exclamações repassadas de admiração e pasmo, e vejo toda a gente, fitando o sol a olho nu.
Alguém a meu lado, chamou a minha atenção para o astro-rei, e divisei nele, fenómenos que, até hoje, jamais observei.
O globo do sol, semelhante a um disco de prata fosca, girava em volta dum eixo imaginário, e nesse momento, parecia descer na atmosfera, em direção à terra, acompanhado por vezes, dum brilho extraordinário, e dum calor intensíssimo.
Os raios solares apresentaram a cor amarela, verde, azul e roxa, segundo dizem, mas eu só reparei na cor amarela.
Passados poucos minutos, durante os quais se deram esses fenómenos, já ninguém podia fitar o sol, porque os seus raios feriam a retina. Só quem presenciou estes fenómenos, pode avaliar o que então se passou, mas não os pode descrever exatamente.
Notas dos editores (1)
1 Nasceu no Sardoal, a 11 de junho de 1887. Ordenado sacerdote a 25 de setembro de 1910. Exerceu advocacia e notariado em Vila Nova de Ourém e foi capelão em diversas localidades do concelho. Faleceu a 29 de dezembro de 1965.
Jornalistaadvogado/doutor em Direito, filho de Gonçalo Garrett
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeNuvem / coluna de fumo
Devia ser uma e meia (treze e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada, que subiu direita até dois metros talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo da duração, não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda e uma terceira vez. Das três vezes e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os postes esguios na atmosfera cinzenta. Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de fumo, mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que se queimava incenso. Depois pessoas dignas de fé afirmaram-me que era de uso produzir-se o acontecimento no dia treze dos cinco meses anteriores, e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo.
AristocrataMarquesa da Ribeira Grande, Filha de Maria
13 out.Testemunho diretoViuCartaA chuva a pararPalavras dos videntesA multidão
Ha quasi um anno, a treze d'Outubro de 1917, que milhares de pessoas, se encontravam em Fátima, na piedosa aspiração de assistirem ao milagre que a Rainha do Céu, annunciara, em eguaes dias, dos cinco mezes anteriores.
Ás 8 da manhã, já me encontrava no meu posto, junto ao local das Apparições.
Desde as 9 horas, que, uma chuva ininterrupta, nos encharcava, como se Nossa Senhora quizesse provar a paciencia dos seus fieis com essa pequena provação.
Como uma primeira benção de sua misericordia infinita, nenhum mal a registar, em tantas saudes débeis, que a supportaram.
Perto do meio dia – hora de Deus chegam os Pastorsinhos, Lucia, Jacintha e Francisco.
Como por encanto, cessa a chuva, emquanto os Pequenos rezam o Terço no que os acompanhamos devotamente, na tremura da approximação da Hora Sagrada!
De repente, a voz de Lucia:
– Lá está Ella, na Carrasqueira.
Sensação eterna, sobrenatural a de saber a Mãe de Deus, junto de nós!
De rôjo, no chão, mãos erguidas, na supplica, na contrição fervorosa, da miseria humana, perante a grandeza divina, a santidade das Santidades!
Então distinctamente ouvi esta phrase da Lucia: – Vocemecê não faz hoje o milagre que me prommetteu? –
E a seguir estas singelas palavras dessa creança predestinada, á que ouvi a phrase que destróe todas as duvidas, esclarece toda a hesitação com que os sabios pretendem confundir o sobrenatural, como um phenomeno da natureza, illusão que perturbou a firmeza de tantos crentes!
Olhem para o Sol –
E só depois, dessa exclamação de Lucia, como uma ordem do Céu, é que a Rainha dos Anjos, fez surgir esse prodigioso milagre, esse Sol glorioso que illuminou a sua Apparição, com uma luz, que nenhuma alma christã, poderá apagar!
Mais quatro phrases ainda affirmo ter escutado: – Vocemecê não manda hoje mais nada de mim? –
E, após a pergunta, como que repetindo syllabas e palavras, que, do Céu, lhe murmurava a Mãe de Christo: – Ca - Capella ou Egreja aqui? –
E, pela primeira vez, com physionomia, radiante, e batendo as mãos.
– É Nossa Senhora do Rosario –
Voltando-se novamente para a Jacintha, e baixando a cabeça da direita para a esquerda, como seguindo a mesma direcção, que a Virgem Immaculada, exclamou:
– Foi para ali.
Findava a Apparição.
Notas dos editores (1)
3 Embora não assinada, esta carta é seguramente de Luísa da Madre de Deus da Cunha e Menezes, Marquesa da Ribeira Grande: Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 40, de 3 de Outubro de 1917, nota 2 e Doc. 74, de p.13 de Outubro de 1917.
Gente da terraproprietário casado, da Amoreira (Fátima)
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoNuvem / coluna de fumoA chuva a pararSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemDisco pálido / prateadoSol a girar
No dia treze de outubro, dirigiu-se como tanta gente ao local das Aparições, na ansiedade de observar algum facto extraordinário, pois tinha ouvido dizer que a Senhora dissera à Lúcia que no último dia fazia milagre. A chuva fustigava-o fortemente, mas pouco o incomodava porque o seu objetivo estava na observação do extraordinário. Enquanto a hora se aproxima e o povo se vai aglomerando, observa que umas avezinhas andam volitando sobre a carrasqueira, saltitando de um lado para o outro. Vê, por cima do povo que rodeia a carrasqueira, por vezes, umas seguidas às outras, elevar-se da terra pequenas nuvens de fumo – ou lhe parece fumo – semelhante ao fumo do turíbulo em ocasião de incensação, ou às fumaradas de cigarro. Julga a princípio, – que era alguém que ali estava a fumar ou a fazer fogueira para se aquecer, mas veio averiguar que ali não estava lume de espécie alguma. A hora aproxima-se, e eis que, como que por encanto, a chuva suspende, o sol rompe as densas e negras nuvens e mostra-se dardejante com seus luminosos raios, que bem depressa tomam as cores do amarelo, encarnado e verde, tornando os objetos que estavam sob sua influência de iguais cores; e logo perde o seu brilho e cores, – podendo ser fixado a olho nu sem ferir a vista – e toma um vertiginoso movimento de rotação, parecendo precipitar-se sobre a terra. E enquanto observa estas maravilhas, todo o povo se encontra em altas exclamações. Isto durou, o máximo, uns cinco minutos, depois voltou ao seu estado normal.
Gente da terraproprietário casado, de 34 anos, do Montelo (Fátima)
13 out.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoCores nas pessoas e na paisagemA multidão
Mais disse que em treze de outubro do mesmo ano, à hora marcada pelas crianças para as Aparições, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saindo da carrasqueira, uma espécie de fumo, semelhante ao fumo do incenso na ocasião da incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado, que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de espécie alguma.
De olhos sempre fixos na carrasqueira a fim de ver alguma coisa de extraordinário, sem, propositadamente, olhar para o sol, notou que, na mesma ocasião em que o povo estava em altos gritos e exclamações pelo que via no sol, tanto as pessoas como as árvores, e tudo quanto a sua vista atingia na direção da carrasqueira tomou diferentes cores.
Cleropadre, professor no Seminário de Santarém, que escrevia como Visconde de Montelo
13 out.Testemunho diretoViuLivroAtitude céticaA chuva a pararSol a girarSol a mudar de corA multidãoPalavras dos videntes
No dia treze de Outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociaes e de todos os pontos do paiz, terminado o dialogo entre a Lucia a Apparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosario, a vidente recommendou aos circumstantes que olhassem para o sol. O firmamento estava completamente nublado. Chovia torrencialmente.
Como que por encanto rasgaram-se de repente as nuvens, e o sol no zenith appareceu em todo o seu esplendor e girou vertiginosamente sobre si mesmo como a mais bella roda de fogo de artificio que se possa imaginar, revestindo successivamente todas as cores do arco-iris e projectando feixes de luz de um effeito surprehendente.
Esse espectaculo sublime e incomparavel, que se repetiu por tres vezes distinctas, durou cerca de dez minutos. A multidão immensa, rendida perante a evidencia de tamanho prodigio, prostrou-se de joelhos, o Credo, a AvéMaria e o acto de contrição irromperam de todas as boccas e as lagrimas, lagrimas de alegria, de gratidão ou de arrependimento, marejaram todos os olhos.
[…]
Apesar de ter tido a ventura de presenciar os acontecimentos assombrosos do dia 13 de Outubro de 1917 e de poder por esse motivo narrá-los minuciosamente, prefiro reproduzir aqui dois relatos desses acontecimentos redigidos por escriptores insuspeitos, um delles inedito, devido á penna scintilante do espirito intelligente e cultissimo do Sr. Dr. José Maria de Proença de Almeida Garrett, que se dignou fazê lo a meu pedido dois meses depois, e o outro da auctoria do consagrado jornalista Sr. Avelino d'Almeida e publicado no numero 610, 2ª serie, de "A Illustração Portuguesa".
Cleropadre, professor do seminário, autor de Os Episódios Maravilhosos de Fátima
13 out.Testemunho diretoViuLivroAtitude céticaA chuva a pararSol a girarSol a mudar de corA multidãoPalavras dos videntes
No dia treze de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o diálogo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol. O firmamento estava completamente nublado. Chovia torrencialmente. Como que por encanto, rasgaram-se de repente as nuvens, e o sol no zénite apareceu em todo o seu esplendor e girou vertiginosamente sobre si mesmo, como a mais bela roda de fogo de artifício que se possa imaginar, revestindo sucessivamente todas as cores do arco-íris e projetando na direção da terra, feixes de luz dum efeito surpreendente. Esse espetáculo sublime e incomparável, que se repetiu por três vezes distintas, durou quase dez minutos. A multidão imensa, rendida perante a evidência de tamanho prodígio, prostrou-se de joelhos, o Credo, a Avé-Maria e o ato de contrição irromperam de todas as bocas e as lágrimas, lágrimas de alegria, de gratidão ou de arrependimento, marejaram todos os olhos.
13 out.Testemunho diretoViuRecordação posteriorFiguras / visõesPalavras dos videntes
Como todos os outros mezes derigirmo-nos ao pé da carrasqueira para vermos a Senhora. Deu um relampago; e apareceu a Senhora. O que é que vocemecê me quer hoje? Quero te dizer que não ofendam mais a Deus nosso Senhor porque já está muito ofendido e que continuem a rezar o terço todos os dias e quero que fação aque uma Capelinha á Senhora do Rosario. Então como é que vossemece se chama? Eu sou a Senhora do Rosario. Agora eu compriendi que ela disse assim. Quando Eu chegar ao céu a guerra acaba hoje. Mas a minha prima Jacinta disse que ela tinha dicto deste modo. Se o povo se imendar a guera acaba hoje. Por isto não não posso afirmar de qual foi o modo que ela pronuciou estas palavras. Quero-lhe pedir por a quelas pessoas que me pediram para a Senhora as curar; umas cochas outras cegas outras mudas outras duentes; umas curo outras não.
e Nisto subio para o lado do nascente como todos os outros mezes; indo a tal altura que o azul do céu e as nuvens não nos deixaram ver mais. Tendo-se escondido olharmos para o sol e virmos ao lado direito do sol um homem da cinta para cima, com um menino ao colo fazendo cruzes + com a mão direita; e na outra tinha um menino vestidinho de branco tinhão em volta um grande resplandor que nos não deixava olhar à nossa vontade. Ao lado esquerdo Nossa Senhora talqual tinha descido á azinheira.
Acabandó de Fazer as cruzes Santo José com o menino e Nossa Senhora dezapareceram. Logo em seguida apareceu ao lado direito do Sól Nosso Senhor vendo só da cinta para cima tinha o vestido vermelho. Do outro lado Nossa Senhora das Dôres com um manto rocho; e sempre cobertos com o resplendo[r] que parecia cegarnos; com isto dezapareceram e nunca mais vi nada até hoje.
13 out.Testemunho diretoViuRecordação posteriorAtitude céticaA multidãoSol a girarRoupa a secar
O dia 13 de outubro acorda como um dia de pesada invernia, embora a chuva caia com lentidão. Durante toda a manhã chove sem cessar. Os caminhos e estradas vão repletos de gente que vindas de longes terras não faziam conta que chovesse em virtude de haver muitos meses que nem uma pinga caía. Chegados ao local iam acendendo fogueiras até que se aproximasse a hora.
Ao lugar da Chainça, que dista uma légua, foram ficar muitas pessoas entre elas dois senhores, um sr. Ferreira, de Leiria e outro de ao pé das Caldas, que dizem ser padre e dr. No dia seguinte, como chovesse muito e não estando acostumados ao rigor do tempo, não podiam seguir viagem demais não tendo com que se resguardar da água.
Não havia quem emprestasse guarda-chuvas porque os que havia eram poucos para as precisões. Eu então peguei num inutilizado e dando-lhe um conserto serviu para um e ao outro emprestei o meu, indo sem ele, chegando também todo a escorrer.
Chega-se o momento da aparição e passa-se o que todo o mundo sabe. O sol gira em torno de si mesmo e todos que se encontravam molhados aparecem enxutos como fui eu um deles. Apareceu um sr. de Leiria a distribuir ilustrações com os retratos das três crianças e de Nossa Senhora, encarregando-me dum maço apesar de me não conhecer.
Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoAtitude céticaPalavras dos videntesSol a girarSol a cairDisco pálido / prateadoA multidão
Em treze de outubro a mãe foi ao local pela primeira vez, apesar da recomendação em contrário do senhor Prior. Foram vestir as pequenas para casa da cunhada, porque uma senhora do Pombalinho trouxe uns vestidos, uns véus e umas grinaldas. A mãe da Lúcia foi com as crianças. Mas, como ia muito povo, perdeu-as de vista. Na Cova da Iria furou e ficou mesmo ao pé delas. Como diziam que as matavam, que as faziam em postas, e como por outro lado ficava com tanta pena de tudo acabar e não ver nada, resolveu ir. As crianças diziam a hora em que se dava a aparição e queriam ir para estar a essa hora. Da última vez demoraram-se um quarto de hora junto da azinheira antes de começar a aparição. Estavam todos três de pé. A mãe da Jacinta estava perto. O povo dizia por trás que não haveria nada, porque ia a passar a hora e não se estava dando nada de extraordinário. Todos três a um tempo deram um grito, um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”. Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com fitas e rosas, quase não se via nada dela.
Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada. Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse: “Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo. A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois, naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a chegar” (A pequena não se lembra de ter mandado o povo olhar para cima, digo, para o céu, para o sol). Foi então que o povo começou a olhar para cima. A mãe da Lúcia olhou e viu o sol três vezes a desandar e a descer, podendo olhar--se para ele. Todo o povo olhava e gritava. Dizia o povo: “Olhem, olhem!” A mãe da Lúcia chegou a recear que as crianças fossem maltratadas. Um senhor doutor de Torres Novas9, pegou na filha ao colo e abalou com ela para a estrada. A mãe não sabia se era para bem ou para mal. Veio para casa da cunhada, enchendo-se a casa de gente e depois para sua casa.
Gente da terramoradora da Moita, mais tarde encarregada das esmolas da Capelinha
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoEstrela / globo luminosoSol a cairSol a girarPalavras dos videntes
Em treze de outubro quando a Lúcia disse: “Já lá vem Nossa Senhora, estando uma das filhas da depoente, chamada Maria, em cima de uma pedra, a um metro da azinheira, do lado do nascente, para guardarem o arco para o povo o não estragar, a rapariga sentiu uma pancada na cara, viu uma luz muito bonita ao pé dela e deu um grito dizendo: “Ai! Nossa Senhora!”. A depoente olhou e viu uma estrela, uma bola, não inteiramente redonda, como um ovo, muito bonita, das cores do arco celeste, mas muito mais vivas, tendo uma cauda de metro e meio de cores brilhantes. Passou muito rapidamente e perto da azinheira, e desapareceu a um palmo da terra. Viu o sol que desceu muito.
Depois de treze de setembro disse à Lúcia que perguntasse à Senhora quem ela era. A azinheira abanava muito quando ela disse que vinha a Senhora. Ouviu a Lúcia perguntar: “A Senhora deu licença para fazer a capelinha, agora diga com que título havemos de a adorar”. Quando ela se levantou, depois da aparição, perguntou-lhe que título ela tinha dito e a pequena disse que era Nossa Senhora do Rosário. Nesse dia a Lúcia disse também: “Agora fechem os chapéus”, que já vem S. José ao sol e o Menino deitar a bênção, em bem Nossa Senhora chegando ao Céu”. Depois que ela disse isto o sol bailou.
Gente da terranatural de Boleiros, residente em Lisboa, de 61 anos
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoVeio de longeA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagemA multidão
No dia treze do mês de outubro quando saiu de Boleiros com outras pessoas, começou a chover. A irmã estava com medo de não voltar, porque diziam que lançavam bombas, mas ele sossegou-a dizendo que se fosse Nossa Senhora que ali aparecia, não lhe sucederia mal algum, pois Nossa Senhora não o havia de consentir. A chuva era muita e o vento soprava com força de maneira que se molhou bastante apesar de levar chapéu de chuva. Por isso quando chegou ao pé da igreja paroquial foi a casa de uma prima e enxugou-se. A certa altura da conversa que teve com ela, disse-lhe: “Naturalmente as crianças não vão lá com esta chuva.” – “Vão, disse ela, nem que chova a potes”. Muitas pessoas estavam aflitas por causa dos animais que as tinham transportado, mas não consta que lhes sucedesse mal por causa da chuva. Tendo passado a chuva, cerca da uma hora, dirigiu-se para o local e perto da estrada encontrou um sacerdote de Penacova, que lhe perguntou onde era o local da aparição, indicando-lhe o depoente o ponto onde se via uma névoa, um fumozinho, bastante denso, que não estranhou por julgar que era incenso queimado em honra de Nossa Senhora, ficando depois admirado quando lhe disseram que não havia lá fumo nenhum, que não se tinha lá feito lume de qualidade nenhuma, nem um fósforo se tinha acendido. De repente o sacerdote olha para o sol e diz que o sol em eclipse não era assim. O depoente olhou também e viu que o sol não dava luz; sobre ele corria uma névoa branca, era uma lua sem brilho. O sol ficava à esquerda, estando o resto do céu encoberto. Tirando os olhos do sol, viu o povo de um encarnado muito vivo; e exclamou: “Ai, senhores, o povo como está todo encarnado!” E respondeu-lhe o sacerdote: “serão lenços encarnados?” Ao que ele observou: “Como pode ser? Então tinham-se todos combinado para terem lenços encarnados sobre as costas?! “Depois o povo apareceu da cor do ouro. Os movimentos de rotação do sol não os viu. O povo nessa ocasião gritava muito, ajoelhado e com as mãos levantadas, gritando por Nossa Senhora, não se importando com a lama que era muita, invocando repetidamente Nossa Senhora. A impressão do povo foi extraordinária.
Família dos videntesGente da terrapai dos videntes Francisco e Jacinta
13 out.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoA multidãoPalavras dos videntesDisco pálido / prateadoSol a mudar de cor
Em treze de outubro chovia. Aconselharam-no a que não fosse porque lhe podiam fazer mal, embora o não fizessem às crianças, por serem crianças. Foi em companhia delas. Estava então muita gente no local convertido num lamaçal enorme. Ouviu a Jacinta gritar que não a apertassem. A Lúcia disse: “Já cá está!” O povo afirmava ver cores no sol e no céu. O sol não fazia nenhuma impressão à vista. Não ouviu voz nenhuma. Ouviu dizer ou à Lúcia ou a outras pessoas que Nossa Senhora queria que não se ofendesse mais a Nosso Senhor, o qual estava muito ofendido e que a guerra ia acabar.
Família dos videntesGente da terramãe dos videntes Francisco e Jacinta
13 out.Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaPalavras dos videntes
Em treze de outubro a mãe foi de novo à Cova da Iria e ficou ao pé das crianças. A Jacinta, como a mãe ouviu, depois de dizerem que Nossa Senhora já tinha aparecido, acotovelou a Lúcia e disse-lhe: “Fala-lhe Lúcia, que Nossa Senhora já lá está”. A Lúcia tomou a respiração por duas vezes, como pessoa a quem faltasse o ar. Em seguida disse: “Que é que me quereis hoje?”. Daí a poucos momentos, a Lúcia disse mais: “Queria que me melhorasse os doentes.” Depois declarou: “Nossa Senhora disse que os não podia melhorar todos, que eram muito maus”. Passados alguns momentos levantou-se muito rapidamente e disse: “Se a quiserem ver voltem-se para o nascente”. Mas logo a seguir exclamou: “Já a não veem”.
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntesA chuva a pararA multidão
Foste à Cova da Iria no dia treze de outubro?”. Respondeu: – “O povo veio buscar-nos. Eu já estava em casa dos primos, quando uma senhora apareceu com um vestido azul e quis que eu o levasse; deu outro branco à Jacinta. Levámos também uma grinalda de flores artificiais na cabeça. Chovia muito. Quando chegámos à Cova da Iria não se podia romper com o povo; a estrada estava cheia de carros e automóveis. À hora do meio-dia deu um relâmpago e a Senhora apareceu na carrasqueira: “O que é que Vossemecê me quer?”, perguntei eu. Ela respondeu: “Quero-te dizer que não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já esta muito ofendido; continuem a rezar o terço todos os dias; quero que façam aqui uma capelinha à Senhora do Rosário”. Então como é que Vossemecê se chama? Ela respondeu: – “Eu sou a Senhora do Rosário”. Parece-me que disse ainda deste modo: “Convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito breve”. A minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falou assim: “Convertam-se que a guerra acaba dentro dum ano”. Como estava a pensar nos pedidos que queria fazer a Senhora, não deitei bem sentido. Fiz-lhe os pedidos e ela deu-me a resposta das outras vezes. Nisto subiu para o lado do nascente, escondeu-se nas nuvens. Pouco antes de a Senhora aparecer, parou a chuva; e quando ela desapareceu, olhamos para o sol. Dum lado do sol vimos um vulto de homem, da cinta para cima, com o Menino Jesus nos braços, e do outro lado a Senhora que tinha estado na azinheira. O Menino Jesus abençoava o povo. Veio-me a ideia de que o homem seria S. José. Estava um resplendor tão grande que não nos deixava ver à vontade. Desapareceram e depois apareceu do lado direito do sol Nosso Senhor, que só se via da cinta para cima, vestido de vermelho, e do outro lado Nossa Senhora, vestida de roxo, parecendo Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor fazia várias cruzes. Parece-me que ainda vi outra figura, que parecia ser Nossa Senhora do Carmo, porque tinha qualquer coisa pendurada na mão direita. Desapareceu tudo e nunca mais vi nada, até hoje”.
Notas dos editores (1)
6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.
Gente da terraprimeira testemunha do inquérito paroquial
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoNuvem / coluna de fumo
No inquérito paroquial, a primeira testemunha, Jacinto de Almeida Lopes diz que, no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, “viu, por cima do povo, que rodeava a carrasqueira, diversas vezes, elevarem-se do solo pequenas nuvens de fumo ou que lhe pareciam de fumo – semelhante ao fumo dum turíbulo em ocasião de incensação ou ao fumo de cigarros. Julgou a princípio, porque se achava afastado da carrasqueira, onde via o fumo, que era alguém que ali estava a fumar ou a fazer uma fogueira para se aquecer, mas depois veio a averiguar que ali não havia lume de espécie alguma.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoNuvem / coluna de fumoA chuva a parar
Sobre o mesmo assunto depõe a segunda testemunha, Manuel Gonçalves Júnior, dizendo que “em treze de outubro do referido ano, à hora designada pelas crianças para a aparição, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saíndo da carrasqueira, uma espécie de fumo semelhante ao fumo de incenso em ocasião de incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia o fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de qualquer espécie.
13 mai.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
2 - O que faziam quando viram a Senhora?
3 - É verdade o menino correr a Imagem à pedra?
4 - Como apareceu a Imagem?
5 - Que vestidos trazia e o que disse?
2º - Era meio dia e guardavam as ovelhas quando viram uma Senhora vestida de branco, de mãos postas com umas contas brancas enfiadas no braço. O rosto era branco, não tem com quem possa comparar; somente na altura diz que era igual a Virgínia3 – (A rapariga tem 12 anos) 1 m e 10; que lhes aparecera em cima da azinheira.
Que o irmão que atirara com uma pedra às ovelhas e passara junto dela.
6 - Ouviram todos?
6 - Ouve. Que dissera que fossem lá 6 vezes até fazer 6 meses e que depois diria o que queria e desaparecera.
7 - Tinham ido à missa no domingo anterior? E onde? 7 - Vai todos os domingos à missa; no dia da aparição era de semana e não tinha ido à missa. 8 - Onde costumam ir à missa? 8 - Vai à missa à Fátima 9 - Que veste a Imagem da capela onde costumam ir à missa? 9 - Que sabe que na igreja existe a Senhora do Rosário mas não tem contas, nem tem um vestido branco. 10 - Tinham ouvido algum sermão sobre Nossa Senhora de Lourdes ou prática? 10 - Não sabe. 11 - Costumavam ir muitas vezes à missa mesmo de semana? 11 - Vai à missa só ao domingo; porque a mãe não a deixa. 12 - O que fizeram depois de verem a Senhora? 12 - Só à noite vieram para casa e disseram que tinham visto a Senhora do Céu, pois assim ela se chamara. 13 - Que fatos trazia ela da 1ª vez e das outras vezes? 13 - Sempre o mesmo vestido. 14 - Disse porque vinha no dia 13? [...] 15 - Viram sempre as manchas no sol? 15 - Só na última vez é que viram no sol o Menino Jesus e São José e Nossa Senhora. Mas a Lúcia viu melhor. 16 - Como estava ela na Azinheira? Ria-se ou estava triste? 16 - Estava séria. 17 - De que cor era o vestido e como trazia os braços? 17 - Vestido todo branco, em baixo apertado, mãos erguidas. 18 - Tiveram medo quando viram a Senhora? 18 - Teve medo da 1ª vez; ela disse que não tivesse medo, que não fazia mal. 19 - A quem disseram que a tinham visto? 19 - Disse ao pai e irmão que tinha visto a Senhora. 20 - Quando falaram com qualquer padre sobre o assunto? 20 - Não disse. 21 - O que lhes disse este? 21 - Não se lembra.
Notas dos editores (3)
1 Nasceu em Monte Real, a 23 de abril de 1881. Foi pároco de Alvorge, Vieira de Leiria e Milagres. A 2 de maio de 1917, partiu para França, como capelão militar voluntário do Corpo Expedicionário Português, regressando a 25 de setembro do mesmo ano. Fundou o semanário “O Mensageiro”, sendo seu diretor, até à sua morte, a 20 de setembro de 1971.
2 “De duas camas” é uma expressão popular usada para designar dois matrimónios. Do segundo matrimónio com Manuel Pedro Marto, Olímpia de Jesus teve sete filhos (José, Teresa (f. 1902), Florinda, Teresa, João, Francisco e Jacinta). Como a segunda filha, Teresa, já tinha morrido, Jacinta tinha, em 1917 cinco irmãos e dois meios irmãos, estes do primeiro casamento de Olímpia de Jesus com José Ferreira Rosa.
3 Virgínia de Jesus, filha de António da Silva e Teresa de Jesus e prima materna de Lúcia, nascida a 11 de maio de 1904.
13 mai.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
O que faziam quando viram a Senhora?
2 - Guardava o gado.
3 - É verdade o menino correr a Imagem à pedra?
[3] O irmão é que o ano passado correu a Senhora.
N. B. A Jacinta diz que sim.
4 - Como apareceu a Imagem?
5 - Que vestidos trazia e o que disse?
6 - Ouviram todos?
4 - Fazia sol, vinham a passar e viu uma mulher vestida de branco. Não viu relâmpagos; a Lúcia é que viu. As ovelhas fugiam para os chícharos e milho mas a Senhora disse que não se importassem que as ovelhas não tombavam, nem comiam. Depois da aparição comiam.
A Lúcia diz que a Senhora não disse nada, só se foi à Jacinta porque ela lhe tinha já aparecido.
Via (Francisco) a Imagem.
Trazia um manto na cabeça e o vestido era todo branco.
13 - Que fatos trazia ela da 1ª vez e das outras vezes?
[13 -] Trazia sempre o mesmo fato, ela era bonita.
[...] 15 - Viram sempre as manchas no sol?
[15 -] Viu S. José e o Menino Jesus no sol.
[...] 22- O que disse N. Senhora da 1ª vez?
da 2ª da 3ª
“ 4ª
“ 5ª
“ 6ª
[22 -] Nunca a ouviu falar.
Notas dos editores (1)
4 Quase certamente, o autor dispensou-se de fazer as perguntas nº 34 a 36. Tal como no interrogatório anterior, o Pe. Lacerda também aqui continuou a conversa com a Lúcia, de que resultaram as duas respostas seguintes.
13 mai.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
O que faziam quando viram a Senhora?
2 - Guardava as ovelhas. Deu um relâmpago e eu disse: ó Francisco é melhor irmos embora que vem trovoada. Deu outro relâmpago e olhei para a carrasqueira e vi uma Senhora que disse: Não tenham medo que não faço mal. Estava em cima da carrasqueira. A Senhora era nova, tinha saia justa. Não sabe o que é saia travadinha, e tem visto senhoras com saias às pregas mas o vestido da Senhora não era. Não reparou se o vestido era inteiro.
3 - É verdade o menino correr a Imagem à pedra?
3 - Noutro ano é que o João atirara a pedra.
A mãe conta que o ano passado em maio aparecera outra imagem e que esta é que fora corrida. Só um ano depois é que houve outra aparição.
4 - Como apareceu a imagem?
4 - [...]
5 - Que vestidos trazia e o que disse?
5 - Primeira vez que não tivéssemos medo que não fazia mal: fosse a gente lá 6 vezes até fazer 6 meses e depois dizia o que queria. Foi a pouco e pouco subindo e desapareceu.
6 - Ouviram todos? 6 - [...] 7 - Tinham ido à missa no domingo anterior? E onde? 7 - Tinha ido à missa que era domingo na 1ª aparição. Apareceu ao meio-dia. 8 - Onde costumam ir à missa? 8 - [...] 9 - Que veste a Imagem da capela onde costumam ir à missa? 9 - Que na Igreja há a Senhora do Rosário, mas tem um menino, um manto e não tem contas e aquela tinha contas. 10 - Tinham ouvido algum sermão sobre Nossa Senhora de Lourdes ou prática? 10 - Não sabia da história de Lourdes, mas um sr. prior contou-a agora. 11 - Costumavam ir muitas vezes à missa mesmo de semana? 11 - Às vezes. 12 - O que fizeram depois de verem a Senhora? 12 - Vieram embora e não contou nada. Tinha visto o outro ano e tinha contado à mãe e ela ralhou-lhe. A primeira vez que vira foi num sítio chamado as Estrumeiras. 13 - Que fatos trazia ela da primeira e das outras vezes? 13 - Trazia sempre o mesmo fato. 14 - Disse porque vinha no dia 13? 14 - Vid. nº 5. 15 - Viram sempre as manchas no sol? 15 - Nunca vi nada no sol porque só olhava para a Senhora. 16 - Como estava ela na Azinheira? Ria-se ou estava triste? 16 - Estava séria 17 - De que cor era o vestido e como trazia os braços? 17 - Branco - braços erguidos. 18 - Tiveram medo quando viram a Senhora? 18 - Tiveram medo da primeira vez. 19 - A quem disseram que a tinham visto? 19 - Esta não disse. A Jacinta é que espalhou. 20 - Quando falaram com qualquer padre sobre o assunto? 20 - Não contou logo, mas sim mais tarde. 21 - O que lhes disse este? 21 - Fez perguntas e não disse nada.
ProfissionalAristocrataadvogado e conservador do registo civil de Vila Nova de Ourém (mais tarde barão de Alvaiázere)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoAtitude céticaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corMovimento em ziguezagueCores nas pessoas e na paisagem
Foi nestas disposições de espírito que eu, no dia 13 de outubro, próximo passado, pela primeira vez me dirigi para o local das aparições. Era curioso; não era um romeiro. Na véspera e antevéspera desse dia, e mesmo durante a noite, eu vi uma enorme multidão atravessar esta vila em direção à Fátima. De longes terras vinham ranchos de camponeses, na sua maior parte descalços, que cheios de fé e devoção atravessavam esta terra, entoando cânticos religiosos como o “Bendito” e o “Queremos Deus”. Alguns com quem falei já vinham de catorze léguas de distância, mortos de fome e de fadiga, mas mostravam-se esperançados e contentes. Estes eram por certo os romeiros. Veículos de toda a espécie, desde a carroça desconjuntada até à “limusine” perfumada, atravessavam também a terra numa fila interminável. Estes últimos eram talvez na sua maior parte os curiosos, os “mirones”. Tive informações de que nas estradas de Torres Novas e de Leiria a concorrência foi igual. Como atrás deixei dito, no dia 13 parti para o local das aparições, logo de manhã, às oito horas, aproximadamente. Acompanhavam-me meus irmãos António e Fernando.
Logo à saída daqui, a chuva começou caíndo copiosamente, tornando as estradas num contínuo lamaçal. O vento soprava rijo, principalmente nas alturas da serra da Fátima. Pelas estradas continuava ainda enorme concorrência. Passámos ao lugar da Fátima e seguimos pela estrada que liga este lugar com a vila da Batalha. A chuva continuava caindo torrencialmente. À distância de um quilómetro, aproximadamente, vimos uma multidão de muitos milhares de pessoas que de preferência se aglomerava nos outeiros. Seriam trinta mil pessoas, seriam cinquenta mil? Ninguém o poderia dizer ao certo. Parámos. Centenas de carros e automóveis, pejavam por completo a estrada enlameada. No fundo do vale, por entre a multidão, consegui divisar uns toscos postes de madeira clara que se assemelhavam a um trapézio, os quais eram encimados por uma pequena cruz, segundo depois observei de mais perto. A chuva era agora menos intensa. O sol continuava escondido entre grossas nuvens pardacentas. Em volta do trapézio a que me referi, aglomerava-se um numeroso grupo. Era o local indicado pelas pastoras, no qual se concentravam todas as atenções. A paisagem naquele ponto é agreste e nada tem de interessante. Montes na maior parte cobertos de pedra e urze. Alguns carvalhos e azinheiras de pequeno porte alternam com um pinhal escasso que fica para os lados do nascente. Aqui e além, baixas paredes de pedra solta, quase desmoronadas, afirmam alguma estrema. Encontrei nessa ocasião, bastantes pessoas das minhas relações tanto de Lisboa como de vários pontos afastados daqui. Quase todas perguntavam a minha opinião, talvez com particular interesse, por saberem que vivia nesta região. A todas respondi, sorrindo incredulamente, que tudo era uma “blague”. “Que como católico, me não repugnava acreditar na possibilidade de um milagre mas que por isso mesmo que era católico, é que não acreditava, enquanto esse milagre se não operasse por uma forma evidente, inconfundível. Que o próprio clero do concelho duvidava também, segundo me constava”. Entre outras pessoas, lembro-me que disse isso à esposa do Snr. Emílio Infante da Câmara3, de Vale de Figueira e a seus filhos Emílio4 e José5, ao Dr. Gualdim de Queirós6, de Cernache de Bonjardim, ao Snr. José Rino7 de Alcobaça e a sua esposa, a Senhora Dona Capitolina Guimarães Rino8. Tentei aproximar-se do ponto onde estavam as pastoras que era junto do trapézio a que me referi anteriormente, a uns duzentos metros da estrada, mas não o consegui, tão compacto era o círculo de gente que se formava em volta delas. Assim não as consegui ver nem ouvir nessa ocasião; percebi apenas que oravam. Voltei para cima, para a estrada, e aproximei-me do Snr. José Rino e de sua esposa que estavam junto da sua “limusine” conversando com várias pessoas. Foi então que estes meus bons amigos que desde criança me conhecem pediram a minha opinião que lhes manifestei pela forma que anteriormente expus. Mostraram-se quase indignados e disseram-me “que para eles não restava a menor dúvida de que se tratava de um milagre, pois que eles já anteriormente, no dia 13 de setembro último, ali tinham estado e tinham presenciado no sol extraordinários fenómenos luminosos, precisamente à hora indicada pelas pastorinhas; que o clero não estava bem informado e que, se eu duvidava, que esperasse”. Como insistir seria inconveniência, calei-me, mas fiquei absolutamente convencido de que nada veria. Recordei então, como já por várias vezes tinha recordado aquele princípio de Gustave Le Bon que se resume à corrente hipnótica que a domina. Era preciso precaver-me, não me deixar influenciar. Esse meu amigo, tirando o relógio disse-me: faltam cinco minutos, à uma hora olhe para o sol, foi a hora anunciada pelas pastorinhas, depois me dirá.
Isto surpreendeu-me pois que para onde eu tencionava olhar e para onde eu julgava que todos olhariam era para o local onde se encontravam as pastoras. Constava-me que elas tinham afirmado que nesse dia se daria uma coisa que depois disso ninguém poderia duvidar. O céu nesse momento estava duma cor plúmbea. A chuva tinha parado. O sol não se via, encoberto pelas nuvens, e ninguém diria que ele tornaria mais a aparecer nesse dia tão chuvoso e tão desabrido. À uma hora em ponto, ouço um grande clamor. Esses meus amigos gritam-me: olhe, olhe, mas eu a princípio apenas via nuvens correndo ligeiras deixarem o sol a descoberto. De repente vejo uma orla intensamente cor-de-rosa, circundar o sol que se assemelhava a um disco de prata fosca, como já alguém disse, ao mesmo tempo que me dava a impressão de que este se deslocava da sua primitiva posição. Nuvens diáfanas, vaporosas, um tanto roxas, um tanto alaranjadas, perpassavam. Em vários pontos da linha do horizonte, contrastando com a cor plúmbea do céu, eu vi também manchas cor-de-rosa e amarelas. O clamor cada vez era maior. Isto não durou segundos: durou talvez minutos. Ao observar estas manifestações, que não duvidei um momento fossem devidas à Infinita Omnipotência de Deus, uma indiscritível impressão se apoderou de mim. Sei apenas que gritei, creio, creio, creio, e que as lágrimas caíam dos meus olhos, maravilhado, extasiado, perante essa demonstração do Poder Divino. Sei também que não senti a menor sombra de receio ou terror. Se não fosse católico, nesse momento ter-me-ia convertido. Lembro-me também que não ajoelhei mas a maior parte das pessoas caíram de joelhos sem se importarem com o enorme lamaçal. Então estes fenómenos escapam à previsão da ciência e não escapam à previsão de umas pequenas pastorinhas da serra, que os anunciam com uma precisão verdadeiramente matemática?!... Demais, sendo eles tão deslumbrantes, tão maravilhosos?!
Fui procurar meus irmãos que me disseram ter presenciado o mesmo, assim como as restantes pessoas que encontrei, variando um tanto as descrições do que observaram no sol. Às pessoas a quem tinha classificado o caso de “blague” disse-lhes o que vira e que estava agora absolutamente convencido de que estávamos em face de um milagre. O astro-rei brilhava agora intensamente e não mais deixou de brilhar nesse dia, assim como não tornou a chover.
Notas dos editores (6)
3 Emílio Infante da Câmara nasceu em Vale de Figueira em 1888 e faleceu a 29 de janeiro de 1949. Filho de Emílio Infante da Câmara e de Emília César de Mac-Mahon. Casou com Emília Mota.
4 Emílio Infante da Câmara (neto), bacharel formado em direito, casado em 1915 com Maria da Nazaré Almeida Centeno.
5 José Infante da Câmara casado com Maria Luísa Schwalbach Ribeiro da Silva.
6 Gualdim António de Queirós e Melo, filho de Higino Oto de Queirós e Melo e de Maria Violante. Nasceu em Cernache do Bonjardim, a 22 de outubro de 1867. Casou com Maria do Céu Matos, a 4 de janeiro de 1899. Faleceu a 2 de setembro de 1961.
7 José Pereira da Silva Rino, natural de Alcobaça e aí proprietário e lavrador.
8 Capitolina Guimarães Rino, filha de Joaquim Ferreira de Araújo Guimarães. Esta senhora adquiriu em Fátima, no dia 13 de outubro de 1917, uma estampa com a fotografia dos três videntes, que atualmente se encontra no Santuário de Fátima.
Jornalistacorrespondente em Vila Nova de Ourém (a comissão cita o artigo de O Mensageiro, Leiria)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoNotícia de imprensaA multidão
O caso da aparição da Virgem aos três pastores no sítio do Vale da Iria está causando sérios engulhos aos nossos livres-pensadores. Um terno deles lembrou-se de vir até Vila Nova de Ourém ver se conseguia arranjar adeptos, e, de camaradagem com o administrador do concelho, o mestre funileiro, apareceram no dia um, no fim de muito anunciados, no Centro Republicano, para falar às turbas contra o milagre da Fátima. Tanto essa conferência como um comício, fizeram-nos anunciar em alguns jornais da capital e em panfletos distribuídos nesta vila e por todo o concelho, no dia de mercado e já no domingo anterior. O que se sabe, porém, é que para o milagre, ou como lhe queiram chamar, não foi preciso convites e no local da aparição da Virgem, no dia treze de outubro, reuniram-se para cima de cinquenta mil pessoas, não tendo sido precisa a intervenção da autoridade para manter a ordem, nem força militar, não obstante a grande quantidade de automóveis, carros de diversas qualidades, bicicletas, etc., etc., não havendo o mais pequeno desastre. Haja agora em vista o tão anunciado comício, no local da aparição da Virgem, que não chegou a efetuar-se porque só apareceram os célebres oradores, acompanhados do administrador do concelho e por mais seis indivíduos daqui, e guardados por uma força de guarda republicana desta vila e outras vindas de Tomar e de Torres Novas, que foram obrigados a ir ao local da Fátima, visto a consciência da seriedade e do papel que iam desempenhar os oradores! Então, srs. ministros do Interior e da Guerra, as tropas republicanas desviam-se dos seus serviços para guardar as costas aos srs. republicanos? Foi um verdadeiro fiasco, já a conferência no Centro, e muito maior no lugar de Fátima, onde os oradores tiveram de desistir, visto que o povo do concelho, por desprezo, não concorreu ao local, não obstante tanto convite que lhe foi feito, pois que ali só apareceram oito pessoas para os ouvirem, à exceção de grande número de mulheres que à sua chegada entoaram o Bendito, voltando-lhes logo as costas. Eis pois, o paralelo entre os dias treze de outubro e dois de dezembro. Por isso lhes dizemos: outro ofício, e a quem vos convidou, para a sensaboria que apanharam e o susto, quando no trajeto de regresso a esta vila foram mimoseados com algumas pedradas, pelo que o sargento comandante da força teve que fazer fogo.”
Cleropadre e professor, Santarém; pseudónimo Visconde de Montelo
13 set.13 out.Testemunho diretoViuRecordação posteriorAtitude céticaA chuva a pararSol a girarSol a mudar de corA multidão
No dia 13 de Outubro dêsse ano, cerca de 60:000 pessoas, de todas as classes e condições sociais, reuniram-se no local das aparições, atraídas pela vaga fama do milagre discretamente anunciado.
Foi então que o espectaculo mais assombroso e divinamente belo que é dado contemplar, se desenrolou deante dos olhos dessa multidão maravilhada. Toda a manhã chovera torrencialmente. O firmamento, em toda a sua vastidão imensa, estava coberto de densas nuvens negras.
Ao meio dia astronómico, o sol subitamente rasga as nuvens que lhe toldam a face e, semelhante a uma admiravel roda de fogo de artificio, rodopia vertiginosamente sobre o seu eixo pelo espaço de dez minutos, projectando em continuas explosões, feixes de luz e torrentes de chamas das mais lindas e variegadas côres.
— V. Ex.a tambem assistiu a esse assombroso fenomeno?
— Assisti. Já no dia treze de Setembro tinha ido a Fátima, mas não presenciei então nada de extraordinario, a não ser a fé e a piedade da multidão, que nesse dia atingiu talvez o elevado numero de 30:000 pessoas.
No dia vinte e sete do mesmo mês voltei lá para ver e interrogar os videntes, e confesso que me impressionou profundamente o tom de convicção e sinceridade com que descreviam os factos de que afirmavam ter sido testemunhas. Mas só no dia treze de Outubro, quando presenciei o fenómeno solar, é que reconheci a importancia dos sucessos maravilhosos de Fátima e resolvi proceder por minha iniciativa e por mero prazer intelectual a um inquerito tão profundo e minucioso quanto o comportava o cumprimento dos meus deveres profissionais.
No dia treze do corrente Nossa Senhora disse que a guerra acabava nesse mesmo dia? Quais foram as palavras que empregou?
– Disse assim: “A guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito em breve”.
2a – Ela disse: “esperem cá pelos seus militares” ou “esperem cá pelos vossos soldados”?
– Disse: “esperem cá pelos militares”.
3a – Mas olha que a guerra ainda continua!... Os jornais noticiam que tem havido combates depois do dia treze!... Como se explica isto, se Nossa Senhora disse que a guerra acabou nesse dia?
– Não sei. Só sei que lhe ouvi dizer que a guerra acabava no dia 13. Não sei mais nada.
4a – Algumas pessoas afirmam que te ouviram dizer nesse dia que Nossa Senhora tinha declarado que a guerra acabava brevemente. É verdade?
– Disse tal e qual como Nossa Senhora tinha dito.
5a – No dia 27 do mês passado fui a tua casa falar contigo, lembra-te?
– Lembro-me de o ver cá.
6a – Pois nesse dia disseste-me que Nossa Senhora tinha dito que no dia 13 de outubro vinham também S. José e o Menino Jesus e que depois disso brevemente acabaria a guerra, não nesse dia.
– Não me recordo já bem como Ela disse. Podia ter dito isso; não sei. Talvez não entendesse bem a Senhora.
7a – No dia treze do corrente mandaste ao povo que olhasse para o sol?
– Não me lembro de assim fazer.
8a – Mandaste fechar os chapéus?
– No outro mês atrás mandei. Da última vez não me lembro de mandar.
9a – Sabias quando devia começar o sinal no sol?
– Não.
10a – Olhaste para ele?
– Olhei; parecia que era a lua.
11a – Porque foi que olhaste para o sol?
– Olhei, porque toda aquela gente disse que olhassem para o sol.
12a – Nossa Senhora disse que pediria a seu Divino Filho pelas almas dos soldados mortos na guerra?
– Não, senhor.
13a – Disse que o povo seria castigado se não se emendasse dos seus pecados?
– Não me lembro se Ela o disse. Parece-me que não.
14a – No dia 13 não tinhas dúvidas como agora acerca do que a Senhora disse. Como se compreendem as tuas dúvidas de hoje?
– Nesse dia lembrava-me melhor, tinha sido há menos tempo.
15a – O que viste há cerca de um ano? Tua mãe diz que tu e outras crianças viram um vulto embrulhado, que não deixava ver o rosto. Porque foi que me disseste o mês passado que não foi nada?
– !...
16a – Dessa vez fugiste?
– Cuido que fugi.
17a – No dia onze deste mês não me quiseste dizer que no dia treze do corrente haviam de aparecer Nosso Senhor abençoando o povo e Nossa Senhora das Dores. Foi com receio de que eu fizesse troça de ti, como outras pessoas já tinham feito, dizendo que isso era impossível? Ou era porque estavam presentes muitas pessoas estranhas e tiveste acanhamento de dizer isso diante e tanta gente? Olha que a Jacinta disse-me tudo...
– !...
18a – Quando foi que Nossa Senhora te disse que se haviam de dar essas aparições no dia treze de outubro?
– Foi no dia em que apareceu nos Valinhos ou no outro dia treze. Não sei bem.
19a – Viste também Nosso Senhor?
– Vi uma figura que parecia ser um homem; parecia Nosso Senhor.
20a – Onde estava essa figura?
– Estava ao lado do sol.
21a – Viste-a abençoar o povo?
– Não vi; mas Nossa Senhora tinha dito que Nosso Senhor viria abençoar o povo.
22a – Se o povo soubesse o segredo que Nossa Senhora te revelou ficava triste?
Eu Manuel Antunes Marto2, Prior da freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, concelho de Leiria, diocese de Coimbra3, a pedido do mui digno Prior da freguesia de Fátima, Manuel Marques Ferreira, chamei à minha presença Maria do Carmo, minha paroquiana, casada com Joaquim dos Santos, que me merece inteira confiança e que declarou o seguinte: Ter andado doente cinco anos e sem esperança de melhorar, pois de dia para dia, sentia faltarem-lhe as forças, andava muito magra, tinha muita tosse, passando noites inteiras a tossir pelo que a julgaram tuberculosa e ela também estava convencida disso; convencida a ponto de retirar as crianças, suas filhas4, de junto de si, para as não contagiar. E constando-lhe que na freguesia da Fátima aparecera Nossa Senhora a umas criancinhas, fez a promessa de lá ir no dia treze de quatro mezes seguidos a pé e rezando todo o caminho a fim de ver se Nossa Senhora a melhorava. Logo que lá foi a primeira vez, com muita dificuldade, sentiu melhoras, pois o caminho custou-lhe menos quando voltou do que quando para lá foi.
Continuou sempre experimentando melhoras e no dia treze de novembro do ano mil novecentos e dezassete, dia em que completou a sua promessa, achou-se completamente boa, atribuíndo a sua cura a um milagre de Nossa Senhora de Fatima.
Notas dos editores (4)
1 Nasceu em Alcobaça. Casou com Joaquim dos Santos, a 13 de janeiro de 1897, ficando a residir no Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria. Faleceu a 20 de janeiro de 1982, com 82 anos de idade.
2 Nasceu a 7 de março de 1884. Foi ordenado sacerdote a 18 de julho de 1909. Foi coadjutor e pároco de Maceira, onde faleceu, a 7 de outubro de 1918, vítima da pneumónica.
3 A freguesia de Maceira pertenceu à diocese de Coimbra no período em que a diocese de Leiria esteve extinta. À data deste documento, já estava restaurada (17 de janeiro de 1918). O lapso do Pároco deve-se ao hábito criado.
4 Maria do Carmo teve cinco filhos: Júlia (n. 1897), Maria (n. 1902), José (n. 1904), Carlos (n. 1917) e Maria do Rosário (n. 1910).
13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuNotaNuvem / coluna de fumoLuz a diminuirDescida da temperaturaTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão
Cerca da Fátima ou Aljustrel, Cova da Iria, ao lado de Aljustrel, [perto] da estrada [de] macadame, ao lado do norte. Casos presenciados por mim. No dia 13 de Junho fui lá a primeira vez, à qual não fui a tempo ao acto, mas falei com as pequenas no adro da Fátima. Interroguei-as atentamente e vi nelas o que me pareceu impossível não ser verdade. Desde essa hora fiquei crente que era a Virgem Santíssima que ali vinha. No dia 13 de Julho compareci também. À hora da aparição [via-se] uma nevoazinha. O sol perdeu a força deixando de fazer calor, o que até ali fazia muito. E muita gente disse que, quando a aparição falava, ouviam-na mas não
[…]
presenciavam [percebiam] o que Ela dizia. Eu só ouvi quando a Lúcia disse: lá vai Ela! Ouvi no ar um rugido. Parecia o princípio de um trovão. No dia 13 de Agosto compareci também. As meninas e o menino foram presos. Estava muita gente. Às mesmas horas da aparição os astros e o sol representaram o mesmo das outras vezes; e um sinal extraordinaríssimo nos astros. No dia 13 de Setembro compareci também. O sol e os astros fizeram a mesma figura. O povo entusiasmado a olhar para o ar, dizendo uns que viam estrelas, outros que viam uma pomba, outros que viam estrelas a correr e andorinhas a acompanhar. Era um entusiasmo em todos. Ainda outros que viam flores a cair. No dia 13 de Outubro choveu quase toda a manhã. À hora próxima à aparição deixou de chover. Os factos extraordinários que se deram no sol! Toda a gente presenciou: quem tinha os olhos abertos; quem os fechou não viu nada. E talvez houvesse quem visse e dissesse que não viu para não dar honras à Mãe do Céu. Haja o equívoco que houver com respeito à guerra, os [factos] extraordinários que lá houve são inegáveis.
A ser certa a visão, haveria uma certa differença entre a maneira como ella se revelava a cada creança. Assim, a mais velha Lucia, era de certo a mais priveligiada, via, ouvia e fallava com a apparição, fazendo-lhe pedidos e perguntas, e obtendo respostas. A mais novita, Jacintha, via e ouvia a Senhora mas nunca lhe fallou, nem Esta se lhe dirigio directamente. O rapazito, Francisco, via a Senhora, mas nunca a ouvio fallar nem sequer a vio mecher os labios, e nunca A vio tão distinctamente como em 13 de Outubro.
[…]
Lá foram as creanças na sua piedosa romaria todos os dias 13 de cada mez á Cova da Iria, excepto em Agosto, em que foram presas. Dizem que viram sempre a Senhora, que a Lucia fallou sempre com Ella, que lhe pedio algumas curas e conversões; que a Senhora lhe prometteu, curar e converter uns, outros não. Que lhes recommendou sempre que rezassem o terço, e lhes disse que queria n’aquelle sitio uma Capellinha dedicada á Senhora do Rosario.
[…]
s creanças descrevem a apparição, como sendo uma Senhora
muito linda, a mais linda que tivessem visto, (palavras textuaes) de mãos erguidas para o Ceu, toda vestida de branco e ouro, tendo pendente do braço direito um terço todo branco.
Uma vez, a Lucia perguntou á Senhora: “De onde é Vocemecê e para onde vae?” e diz que a Senhora lhe respondeu: “Sou do Céu e vou para o Céu”. E perguntando-lhe a Lucia se ella, a Jacintha e o Francisco tambem irião para o Céu, que a Senhora lhe respondera que ella e a Jacintha irião, e que o Francisco tambem iria, mas teria de rezar mais o terço. Desde então o pequeno, tem por vezes rezado dez terços por dia!
Sento-me ao pé dele e começo a minha conversa: “Viste Nossa Senhora?” — “Vi”. “Como vinha vestida?” — “Toda de branco e oiro.” “E não trazia nada de côr?” — “Não”. “E na cabeça?” — “Um manto.” “E mais nada?” — “Sim, trazia uma coisa.” “O quê?” — “Não sei, uma coisa.” “E via-se o cabelo?” — “Não”. “E os olhos de que côr eram?” — “Eram pretos.” Estas respostas eram dadas com um ar de uma naturalidade enorme, um pouco arrastadas. Todas as três crianças com quem falei separadamente, mudam de tom descrevendo o olhar de N. Senhora. Vê-se que foi o que mais as impressionou.
A Lucia diz dos olhos: “Eram muito escuros.” “E o fato?” — “Branco e oiro.”
“Com cinto de côr?” — “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” “E na cabeça?” — “Um manto e uma coisa, assim...” “Mas o quê?” — “Não sei, era assim um açafatico” (um açafatesinho). Eu nem disse a palavra corôa que me veio logo á ideia; deixar a pequena explicar-se como sabe e confesso que achei de apetite a comparação. “E via-se o cabelo?” — “Não.” “Olha, N. Senhora estava a rir-se, alegre?” — “Não, estava séria.” “Zangada?” — “Não, séria.” “Trazia as contas, não trazia?” — “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos, assim...” A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha visto: A certa altura diz-me que N. Senhora tinha muita luz. “Como o sol?” — “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: “Porque tiveste medo ao principio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.” — “É que a senhora não me cegava.” Diz que N. Senhora pede ao povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a N. Senhora do Rosario. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se emenda, o povo não se emenda...”
O vestido de Nossa Senhora era destas cores; o vestido era todo branco; tinha dos estrelas da cinta para baixo uma na direção da outra; ao pescosso um cordão com uma bola chegava até á cinta; as mãos postas, e delas caia umas contas não sei se era Rosario se era Terço branco com um cruxifixo tambem branco. O manto cobria-lhe a cabeça até ao fim do vestido. tinha uma beirinha doirada; os pés não sei se tinha maias se vinha descalços, porque eu não lhe defrençava os dedos, era porcausa da luz que me não deixava fitalos tudo em vol[ta] dela era uma luz tam brilhante e tam forte que me não deixava ver como eu queria porque parecia cegar-me.
Paresseme que já disse quase tudo se me falta alguma coisa duque ela disse para escrever não me lembro.
Os teus primos falaram alguma vez com a Senhora?”. Respondeu: “Nunca falaram; uma vez combinámos que a Jacinta lhe falasse, mas, chegando lá, a Jacinta não disse nada.”
– “O semblante da Senhora era risonho?”. Respondeu: “Era triste; quando falava, abria as mãos que estavam juntas e erguidas de encontro ao peito”.
[…]
Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”. Respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário.
– “E quem era essa Senhora?”. Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora”.
Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador do concelho, mas que nesse mês A viu no domingo seguinte – dia dezanove – no sítio chamado Valinho, onde foi chamada por seu irmão João, a pedido da Lúcia.
Disse que viu uma Senhora muito bonita, toda vestida de branco, com fato dourado aos cordõezinhos, com um véu ou manto pela cabeça, do tamanho de F. – indica uma rapariga de regular estatura e dos seus catorze anos – e que trazia umas contas muito branquinhas penduradas nas mãos e seguras entre os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, que tinha erguidas à cintura, e que separava uma da outra, pouco mais ou menos à largura dos ombros, quando falava à Lúcia.
Quando Ela falava para a Lúcia, que ouvia uma voz muito piedosa, mas que não se lembra de ouvir dizer, senão que a gente – elas videntes – ia para o Céu. Pelas várias vezes que a interroguei nunca se contradisse no essencial, havendo todavia coisas acidentais, algumas contradições, verdadeiras ou aparentes. Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:
– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.
Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:
– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.
Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:
– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!
Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.
Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta. A respeito do segredo também não consegui que me o revelasse; apenas disse que ele – segredo – não era mau para elas, videntes. Disse mais, que a Senhora lhe apareceu mais três vezes: uma no dia da Ascensão do Senhor na Igreja durante a missa e que lhe ensinou a rezar as contas; outra vez, à noite, sobre o alçapão do sótão estando a família a dormir; e mais uma, debaixo (ou salvo erro em cima) duma mesa, sem nada lhe dizer, até que ela, Jacinta, disse para a mãe: Olhe... não vê a Senhora, que lá vi em cima, ali debaixo?!... Olhe!!! Como a própria mãe me declarou.
13 out.Testemunho diretoViuNotícia de imprensaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Isto condiz com a resposta que ella me deu, quando lhe perguntei se a apparição tivera logar durante o phenomeno. "Não, respondeu ella; a Senhora já tinha desapparecid
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
É então que a Jacintha exclama: “Já se vae embora a minha mãe do Ceu, olha onde vae ella!” Por sua vez diz o pequeno: “Já a não vejo!” Tornou-lhe a Jacintha: “Esta mesmo á endireitura do
Assombroso e maravilhoso milagre indiscutivel a que eu tive a grande graça de assistir no dia 13 d’outubro de 1917! Este milagre repetia-se desde 13 de maio de 917 durante 6 mêzes e nos dias 13 de cada um: atingindo purem [sic] o maior esplendor diante de 50:000 pessoas que o presenciaram no dia indicado pelas Videntes!
Gente da terralavrador e poeta popular («Poeta da Martinela»)
13 out.Testemunho diretoEm parteNotaLuz a diminuir
Fui à Mouta3 ver [a] aparição de N. Senhora e mais os meus filhos4, jantei e mais o Francisco das Boucinhas5, em caza de um sobrinho d'ele da Mouta6, e merendei em caza da filha na Barreiria7; N'esse dia choveu toda a manhã; fizermos esta romaria toda com agua. N'essa noute9 veio o Pe. Silva10 ficar a minha caza. O que se viu da aparição foi só o sol inscurecer por espaço de um quarto de ora.
Notas dos editores (8)
1 Lugar da freguesia do Arrabal, concelho de Leiria.
3 Moita Redonda, o lugar da freguesia de Fátima mais próximo da Cova da Iria.
4 Manuel Pereira da Costa Brites teve sete filhos. Mas provavelmente, refere-se apenas aos então solteiros: José, Manuel, António e Cristina.
5 Francisco da Costa Santos, residente no sítio das Boucinhas, do lugar da Martinela. Segundo informação do Padre José da Costa Santos, neto de Francisco da Costa Santos, o seu pai, também de nome Francisco da Costa Santos, esteve na Cova da Iria no dia 13 de Outubro de 1917. Por testemunho de Joaquina Ferreira, que veio a ser esposa de Francisco da Costa Santos (filho), este é uma das pessoas presentes na primeira fotografia publicada na "Ilustração Portuguesa", Lisboa, II série (610) 29 Out. 1917, p. 353 (cf. Doc. 67/3, de 13 de Outubro de 1917).
6 Provavelmente, trata-se de Anastácio Ferreira, alcunhado de Anastácio da Costa, por morar na costa da Moita, mestre-escola, casado em segundas núpcias com uma mulher da Loureira, talvez sobrinha de Teresa dos Santos, mulher de Francisco da Costa Santos, das Boucinhas.
7 Maria da Costa Santos, residente no lugar da Barreiria, freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho de Leiria. Faleceu a 22 de Outubro de 1952.
9 Refere-se à noite de 13, Sábado, para 14, Domingo, de Outubro de 1917.
10 Padre José da Silva. Nasceu no Casal da Cruz, Caranguejeira, concelho de Leiria. Foi capelão da Martinela, pelo menos até Junho de 1918. Emigrou para o Brasil e depois para África e faleceu em Nova Lisboa, em 1940 (CARREIRA, José, O Clero da Diocese de Leiria e o seu passado, s.l., s.e., 1984, p. 378-380).
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
Disse-lhes que era Nossa Senhora do Rosário; que a guerra acabava naquele dia; que os nossos soldados em breve, viriam; que construissem no sítio da aparição uma capela a Nossa Senhora do Rosário e que o povo se emendasse de seus pecados que muito têm ofendido a seu Filho.
Visitantesenhora, mulher de Gonçalo Xavier de Almeida Garrett
13 out.Testemunho diretoEm parteCartaVeio de longePalavras dos videntes
Permita-me V. Reva que debaixo ainda da grande impressão que hontem senti n'aquelle local em que estou convencida se passam cousas sobrenaturaes, venha importunar V. Reva em meu nome e no de muitas pessoas piedosas, que estão muito interessadas no mesmo assumpto.
[…]
Sustenta a pequena o que lhe ouvi, que N. Senhora dissera que a guerra acabava hontem?
[…]
Eu vi a pequena, mas de fugida e não tive tempo de lhe perguntar se N. Senhora fallara na recitação do terço e se lhe dissera mais alguma cousa que queira se faça.
D. Maria Isabel de Barros e Sá Pereira Machado, de Vila Nova de Ourém, filha de António José Pereira, nessa altura correspondente de "O Século" em Vila Nova de Ourém, diz que foi a Fátima na carruagem de seu pai, com Avelino de Almeida e seu companheiro (Ruah).
[…]
D. Maria Isabel de Barros e Sá Pereira Machado diz que no momento do milagre estava junto à carruagem da família do Marquês da Foz. Ouviu ao Marquês uma frase muito semelhante a esta: "Ainda há gente que não se descobre perante tão grande milagre".
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
Lúcia, depois de dizer que fez vários pedidos e que Nossa Senhora lhe respondeu que despacharia uns, outros não, acrescentou: "Não fiz nenhum pedido em particular porque então ainda lá estava a fazer pedidos".
13 out.Testemunho diretoEm parteNotícia de imprensa
Realmente o caso foi extraordinário de mais para ficar no silencio do esquecimento. Fui, vi e ouvi mais do que o suficiente para não permitir que na minha presença alguem me contradiga ou desminta.
Visitantemulher de Torres Novas, de apelido desconhecido
13 out.Testemunho diretoViuCartaCura
O que vi em Fatima foi simplesmente maravilhoso! Que grande milagre vi meu Deus! Que grande graça me foi concedida! Nada lhe conto aqui por ser impossivel descrever. Eu ia com a maior das serenidades, que sempre tive mas mais ainda depois que recebi a carta da minha Amiga e dou graças a Deus por ter ido n'essa disposição. Para o que eu estava guardada! Que commoção de momento! Gostava bem de estar agora comsigo havia de me comprehender tão bem! Mando-lhe uma folha tirada do campo onde apareceu N. S. do Rosario, S. José e o Menino Jesus, a carvalheira4 sobre a qual é feita a Aparição essa está só com os troncos, as folhas tinham sido tiradas das outras Aparições. A Maria Innocencia tambem lá esteve e essa ouviu a Lucia fallar com N. Senhora! Mil lembranças da minha Mãe que ha 4 mezes andava com sesões e está completamente boa desde o dia 13 apesar da enorme molha que apanhou!
Notas dos editores (1)
4 Tratava-se de uma azinheira e não de uma carvalheira.
Aristocratasenhora de Torres Novas (Quinta de Carvalhais)
13 out.Testemunho diretoViuCarta
Eu felicito-me sinceramente se d'alguma maneira a poude consolar com a vista da criança priviligiada, minha querida Senhora, e ainda não estou em mim do assombro em que me deixou o milagre estupendo, a maravilha inesperada que tive a dita de contemplar sendo tão indigna de tão grande graça!
[…]
Tudo me parece um sonho e afigura-se-me que não dei o devido valor, que não beijei as creanças com aquella reverencia e comoção devida a quem tinha estado em colloquio com a Rainha do Céo e da terra!
Estive na charneca da Fátima, no passado dia 13 presenceei todos os factos maravilhosos que se deram no momento da apparição, regressei a casa enxarcada em lama e agua mas satisfeita [e] contente assim como as pessôas que me acompanharam.
Jornalistacolaborador católico de O Mensageiro (Leiria)
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaA multidão
Sou tambem crente e fui á Fátima, mas não fui ali arrastado pelo fanatismo religioso a que o sr. Miguel Pinto recorre para explicar a afluencia extraordinaria de fieis e descrentes áquele lugar. Não. E por isso, sr. Miguel aqui lhe deixo consignado o meu mais vehemente protesto contra o epitheto de conto do vigario com que classifica os phenomenos extraordinarios que eu presenciei com muitos milhares de pessoas recrutadas dentre todas as classes sociaes.
Sim, sr. Miguel, e nessa grande manifestação de fé a que por fim se associaram algumas creaturas até então incrédulas, eu vi bem representados todos os ramos de actividade humana, desde a élite da nossa melhor sociedade até aos mais humildes e rudes camponezes. Pode ficar mesmo certo de que a sciencia e o alto pensamento ali tinham muitos representantes. Pois, sr. Miguel, a uma dessas creaturas que eu conheci em Coimbra e que no meio universitario foi sempre considerado pelo seu saber e pela sua probidade, ouvi estas palavras: "Em presença de factos desta natureza a sciencia tem de confessar-se impotente para explicar um phenomeno semelhante e que a astronomia não tinha previsto".
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Francisco Brás das Neves, coadjutor da freguesia da Freixianda, deste Patriarcado de Lisboa, declara: que, tendo entrevistado no dia vinte de outubro, do corrente ano, as duas meninas da freguesia da Fátima, que dizem ter-lhes aparecido Nossa Senhora no sítio da Cova da Iria, da mesma freguesia, no dia 13 dos meses de maio a outubro, inclusive, também do corrente ano, a mais velha, de nome Lúcia, lhe afirmara que Nossa Senhora, quando lhe apareceu no dia 13 de outubro, lhe prometera que a guerra havia de terminar naquele mesmo dia. Outrossim declara: que, encontrando-se de novo com ela, Lúcia, no dia oito do corrente mês de dezembro, e sendo-lhe feita a observação de que a guerra não tinha acabado no dia designado nem tão pouco até àquela data, pela mesma foi respondido que talvez se tivesse enganado, pois que a sua companheira Jacinta dissera que Nossa Senhora havia dito por sua vez que a guerra acabaria, sim, mas se o povo se emendasse.
cuando fui a Fatima no dia 13 Outubro fiquei muito gostozo de minha viajem e estive em sua caza falãndo com sua Senhora Arespeito de se fazer ahi uma capéla a Senhora do Rozario e eu tãnbem pertendo dar Alguma coiza e a ca mais quem dei tãmbem e eu incarregome a isso e eu pedía-lhe a Fineza de me Responder a esta minha carta se ja tinhão isso deçedido como o dinheiro era dado para ajuda da capéla eu tenho fé de ir ahi para o cabo do mes dos sãntos mas gostava de ter Resposta sua procur a sua Senhora que ela esteve converçãndo comigo edeme a sua direção ao pé de uma meza que ahi tem um
Rapas de fatto Preto
Notas dos editores (3)
1 Lugar e freguesia do concelho de Vila Nova da Barquinha, distrito de Santarém.
2 Casado com Maria José Filipe. Residiu e faleceu em Rio Maior, em 1976.
3 Pelas expressões mais abaixo "sua senhora", "sua filha Lucia" e "seu sobrinho", o autor escreve ao pai de Lúcia, António dos Santos, embora tratando-o por Manuel.
ProfissionalJornalistaadvogado católico e dirigente monárquico, colaborador de A Ordem
13 out.Testemunho diretoNão viu nadaArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longe
Ora o que dissémos nós ácerca do caso de Fátima? Que nós, obscuro auctor d'estas linhas, não tinhamos observado facto algum que nos levasse a suppôr o sobrenatural. Mas não só se trata d'um modo de vêr pessoal e desauctorisado, senão que por fórma alguma, queremos contestar as observações que outras pessoas tenham feito, diversas das nossas".
É textual a transcripçã
[…]
No meu artigo de terça-feira, depois de narrar a segunda observação que fizera, no domingo, sobre os aspectos do sol visto atravez de nuvens, accrescentei a prevenção, que um medico me fizera, de que era perigoso fitar o sol, não sendo raros os casos de cegueira produzidos por essa imprudencia.
Notas dos editores (1)
1 Trata-se do Domingos Pinto Coelho. Cf. Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917, nota 3.
Fui á Fatima e, como toda a gente, menos o Pinto Coelho, que, alem de ser um tanto vaidoso, tem a mania de se singularizar em tudo, vi o phenomeno solar e convenci-me de que era naturalmente inexplicavel como como cumprimento de profecia feita seis meses antes e como milagre em si mesmo, ao menos quoad modum.
[…]
Em 27 de Setembro ouvi essa predição da bocca das creanças e a 13 de Outubro vi o signal e vi que todo o povo acreditou.
Fui como já lhe disse á Fátima, presenciei alguns phenomenos extraordinarios; mais ainda: estou intimamente convencido de que o sobrenatural ali se manifestou, mas, emquanto a Santa Egreja, mestra infalivel da verdade o não fizer, eu não venho proclamar a realidade do milagre. Sob este ponto de vista a minha opinião é mesmo muito pessoal.
GrupoGente da terraquatro homens casados, testemunhas n.os 13-16
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararSol a girarSol a cairA multidãoPalavras dos videntes
13a, 14a, 15a e 16a testemunhas – Domingos Correia15, Joaquim dos Santos16, Manuel Boal17 e Ezequiel Vieira da Rosa18, casados, moradores na freguesia do Alqueidão da Serra, testemunhas oculares dos factos ocorridos em Fátima no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, ajuramentados aos Santos Evangelhos, disseram o mesmo que a testemunha nº 12, por estarem juntos.
Notas dos editores (4)
15 Domingos Correia ou Domingos Carreira Correia. Nasceu a 18 de outubro de 1863. Filho de José Carreira Correia e de Maria da Silva. Casou com Ana de Carvalho, a 26 de janeiro de 1890. Faleceu a 25 de dezembro de 1937.
16 Era exposto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Casou com Maria Amado, a 13 de janeiro de 1901. Faleceu a 25 de dezembro de 1953, com 78 anos.
17 Manuel da Cunha Boal. Nasceu a 21 de agosto de 1867. Casou com Maria de São José. Faleceu a 2 de junho de 1959.
18 Nasceu a 11 de novembro de 1888 e faleceu a 2 de abril de 1973.
Gente da terraproprietário casado, testemunha n.º 4
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA chuva a pararSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemA multidão
4a testemunha – António Maria Menitra6, casado, proprietário, morador no lugar do Reguengo do Fetal, interrogado sobre os factos ocorridos no dia 13 de outubro em Fátima, disse: que tendo chovido torrencialmente de manhã, um pouco depois do meio dia, parou a chuva e observou que uma grande multidão de povo, de joelhos olhava para o sol, e olhou também e viu diferentes cores no sol e no povo. E mais não disse e assina o seu depoimento.
Notas dos editores (1)
6 Nasceu no Reguengo do Fetal, a 6 de junho de 1879. Filho de José Maria Gomes Menitra e de Joaquina de Jesus. Casou com Ana Soares. Faleceu a 20 de maio de 1941.
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoDisco pálido / prateadoFiguras / visõesSol a mudar de cor
8a testemunha – Adriano de Matos10, casado, morador no Alqueidão da Serra, testemunha ocular dos factos ocorridos em Fátima no dia 13 de outubro de 1917, ajuramentado aos Santos Evangelhos, disse: que olhou perfeitamente para o sol sem este o incomodar e representou-se-lhe ver Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço esquerdo e viu em roda do dito astro cores diferentes.
Notas dos editores (1)
10 Nasceu a 4 de fevereiro de 1869. Filho de António de Matos e de Luciana de Oliveira. Casou com Doroteia Joana, a 8 de janeiro de 1899. Faleceu a 18 de dezembro de 1949.
Da Benedicta, onde estava a parochiar, fui á Fátima de carro, em companhia do Pe. Joaquim Antonio do Carmo, seu tio Antonio d’Almeida, e primas Isabel e Elvira. Partimos no dia 12 ás 10 h. da manhã, e chegámos á Batalha, pelas 4 horas da tarde. Visitámos o Mosteiro. Já ali encontrámos parochianos meus, e depois da nossa chegada, outros vieram. Talvez, ali se encontravam á noite, uns cento e tantos. Na hospedaria travei relações com o Exº. Snr. Cónego Balthasar e sobrinhas. Dormi n’um quarto, em que se aquartelaram também o Snr. Claudio Ribeiro e Joaquim Paulo, de Turquel”.
Aristocratajovem fidalga lisboeta, Filha de Maria; irmã de Ana Maria da Câmara
13 out.Testemunho diretoViuNotaVeio de longeSol a girarSol a mudar de cor
Do que vi de maravilhoso em Fátima posso affirmar com toda a certeza o movimento rotativo do sol que apresentava uma côr verde escura. Perto de mim ouvi sempre invocar Nossa Senhora, sem que o que se estava passando no sol desviasse o nosso sentimento para qualquer outra coisa que não fosse a fé na Sua presença.
Visitantemulher de Torres Novas, presente na Cova da Iria a 13 de outubro
13 out.Testemunho diretoViuCarta
O que se passou no dia 13 de Outubro, foi realmente maravilhoso, foi um grande prodigio a Ssma Virgem querer demonstrar o seu puder! Cada vez estou mais satisfeita em ter lá ido — aqui em Torres Novas á mesma hora tambem se manesfestou no sol qualquer cousa, mas pela discripção que me fazem não se pode cumparar...
Visitanteperegrina com paludismo crónico, relata a sua cura
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaCura
Faz hoje justamente 3 mezes que foi o milagre de Fátima a que eu tive a grande felicidade de assistir. A manhã d'esse feliz dia não se pudia apresentar peor para pessôa que tinha como eu sezões ha 13 annos (tendo os ultimos annos dejenerado em paludismo chronico) pois que appareceu muito chuvosa. A humidade fazia-me pessimamente, não sendo preciso mesmo sahir para lhes sentir os effeitos. A chuva foi de tal maneira impertinente que me molhei completamente, ás 10h da noite quando me deitei ainda estava com a roupa sobre o corpo completamente molhada. Não pensei de todo puder-me ali curar, não por não crêr no puder de Deus, mas sim por não ter formado uma edea do que se ia passar, embora acreditasse que haveria qualquer coisa de sobrenatural. Enquanto se deu o grande milagre, nada pedi que me dissesse respeito. Tendo a minha mãe conhecimento d'esse facto disse-me: "Alguem pediu por si, fui eu" — Que pediu? — "Um dos pedidos foi a sua saude". Só então reparei que desde o dia 13, ha dois dias, não sentia uma dôr no baço que tinha sempre, proveniente do paludismo. Habitualmente não era forte por isso não dei logo pelo seu desaparecimento, mas em estado agudo me incomodava bastante.
Um dos medicos que me viu chegou a fallar em operação, edea que foi reprovada pelo medico assistente, declarando que ella me não curaria e reputando a minha doença de incuravel, o que me afirmou mais uma vez, no dia 6 de julho de 1917, acrescentando que me resignasse a viver assim embora o estado agudo de que soffria se devesse atenuar por epocas. Este medico só me viu agora no dia 8 de dezembro nada sabia sobre a minha ida a Fátima e declarou-me com grande espanto seu nada me achar. Eis uma das graças que me foi concedida por N. S. do Smo Rosario n'aquelle abençoado dia. E nada digo sobre o milagre propriamente pois isso já tem sido muito bem descripto. Só acrescento que me sinto outra desde esse feliz momento e termino rogando á Rainha do Smo Rosario que a Egreja dê a sua decisão sobre tão maravilhoso acontecimento.
Cleropadre da diocese de Portalegre, esteve ao lado dos videntes
13 out.Testemunho diretoCartaVeio de longe
Pódes pois dizer ao Snr. Dr. Formigão que eu estive sempre ao pé dos pequenos e eu mesmo já lhe tinha dito isto lá em Fátima, é que naturalmente elle não se lembra que esteve lá commigo ao pé da egreja parochial de Fatima.
Diz-lhe tambem que estou prompto a prestar todos os esclarecimentos que elle deseje por bem da nossa causa e gloria de Deus, pois, estou ancioso por saber o resultado das investigações que, de certo por ordem de Sua Eminencia alguem havia de proceder sobre o caso tão admiravel do dia 13 d'Outubro passado.
Jornalistalivre-pensador republicano, colaborador de A Razão
13 out.Testemunho diretoEm parteArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidão
Atraído mais ou menos pela curiosidade, fui tambem até ao local da Fátima (concelho de Ourem) onde diziam aparecer uma santa nos dias 13 de cada um dos mêses do ano findo. Milhares de pessoas e milhares de veículos ali se encontravam é incontestavel. Mas perguntarei seria porventura a crença que persistia nos visitantes? Seria a devoção de religiosos que ali os atraía? Não, simplesmente a curiosidade. Uma minoria seria atraída por crenças religiosas. Os restantes não.
[…]
É incontestavel que o sol sofreu uma alteração qualquer (contra factos não ha argumentos) observado não sómente na Fátima, mas sim em muitos outros pontos do paiz; mas perguntarei:
— Teve a santa interferencia no fenomeno? Não, porque ela nem sequer apareceu. Todas as pessoas que ali compareceram, todas as que ali assistiram, nenhuma dirá: “Eu vi a santa”. Apenas dirá: “Eu vi o bailado do sol”.
Notas dos editores (2)
1 Só tivemos conhecimento deste documento na fase final da preparação deste volume. Por isso, colocamo-lo neste apêndice.
Visitanteviúva de Torres Novas / Benedita, amiga da família de Lúcia
13 out.Testemunho diretoViuCarta
Eu sendo assim gostava de ahi voltar, se se tornasse a dar outro milagre maravilhozo, como eu vi no dia 13 de Outubro!!!! Por muitos annos que eu viva nunca mais esqueçerei esse bendito dia!!!! Que couzas tão lindas!!!!!! Eu conçidero-me feliz por têr estado ao pé de Nossa-Senhora;
13 out.Testemunho diretoCartaVeio de longeA multidão
Quiz escrever de forma a chegar esta minha no dia 13 que nunca se varrerá da nossa memoria pella apotheose e grandiosidade do acontecimento a que tivemos a felicidade de assistir em Fatima.
[…]
Fatima representa uma gloria para a Mãe de Deus. Grande Mésse. Aquela multidão que vimos é na verdade como um accorde de louvores que não mais se extinguem.
Visitanteviúva de Torres Novas, amiga da família de Lúcia
13 out.Testemunho diretoViuCarta
Ahinda estou muito imprecionada com o grande Milagre que Nossa Senhora te fez e eu graças a Deus vi, por ter a dita sem saber de me achar naquelle recinto bemdito. Concidero-me muito feliz em lá ter hido.
Jornalistapoetisa e escritora, colaboradora de O Dia
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA chuva a pararA multidãoPalavras dos videntes
Fez um anno, domingo, dia 13, que na serra de Fátima quiz Deus juntar milhares de creaturas para que ouvissem da bocca de trez pastorsitos que na biblica solidão da serra escalvada apascentavam gados, promessas de Paz, de felicidade e de socego para a desgraçada e linda terra portugueza!
Rasgaram-se as nuvens no ceu torvo e triste, e rompeu o sol illuminando a serra!
Foi a promessa luminosa da Paz na tristeza pesada da vida, e de joelhos cahiram, pedindo que se cumprisse a promessa, milhares de creaturas que viam na luz bemdita do sol o sorriso de Deus, que de novo abençoava a terra onde tão tristes males se tinham espalhado!
Viam, os pastorsinhos em graça, passar o manto diaphano da Virgem, viam, nas azinhagas escuras, o rasto luminoso dos seus pés descalços, e a serra escurecer á hora do sol claro e a serra acclarar, por milagre, nos dias turvos e escuros quando o meio dia ao longe tocava nos sinos das aldeias e das villas!
Fallava a Virgem aos pastorsinhos em graça, e as suas almas puras do mal, entendiam as falas da Senhora... assim deram esperança ás mães, ás noivas, ás mulheres dos soldados que a guerra levára! Prometteram que dentro de um anno3 a guerra acabava, e voltariam os soldados para as suas terras!
Pelo caminho, em grupos, de mãos postas, olhando o sol, que promettera a Paz, vinham as mães, as noivas, as mulheres a quem a dôce promessa tinha sido feita. Repetiam baixinho, na esperança que Deus as ouvisse melhor: "Dentro de um anno acaba a guerra, voltam os soldados dentro de um anno!"
Notas dos editores (1)
3 Em nenhum documento escrito entre Outubro de 1917 e este, se refere esta predição: que a guerra acabaria "dentro de um ano". Apenas Lúcia, no interrogatório de 8 de Julho de 1924 diz: "a minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falou assim: convertam-se que a guerra acaba dentro de um ano" (cf. DCF, vol. 2, Doc. 8, p. 144 e Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, p. 228 e 257).
Como ahi estive no dia 13 d'outubro dia para mim de tão grande felicidade, muitas vezes medito, parecendo-me estar a ver a nossa querida mãe do céo, e esse recinto todo, que muito do intimo d'alma desejo um dia voltar.
Jornalistafilho do professor de Coimbra Dr. Gonçalo de Almeida Garrett; autor de um depoimento de 1917
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeNuvem / coluna de fumo
A mais importante é na pag. 21 ao fundo. Onde esta postes devo eu ter escripto fustes. Não tenho copia do meu depoimento mas pela semelhança das palavras escriptas deve ser fustes mas nunca postes. Eu refiro-me ahi á columna de fumo (fuste) e não aos postes de madeira. Essa minha phrase deve ser posta no singular, fuste e não fustes. Este engano talvez seja meu.
Aristocratasenhora de Santarém, benfeitora das obras de Fátima
13 out.Testemunho diretoViuCarta
Foi dada da melhor vontade pois tenho sido sempre enthusiasta dos acontecimentos de Fatima e tive a grande felecidade de poder lá ir nos dois dias em que foram mais impressionantes, não podendo nunca esquecer-me do que vi no dia 13 d'Outubro.
Apareceu um sr. de Leiria a distribuir ilustrações com os retratos das três crianças e N. Senhora, encarregando-me dum maço apezar de me não conhecer".
13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
No interrogatório que foi feito a Lúcia, aos dezoito anos da sua idade30, quando estava internada no Asilo de Vilar no Porto, a vidente diz textualmente o seguinte: “parece-me que a Senhora me disse ainda deste modo: “convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito breve. Minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falara assim: “convertam-se, que a guerra acaba dentro dum ano. Como estava a pensar nos pedidos que queria fazer a Senhora, não deitei bem sentido”.
Notas dos editores (1)
30 Lúcia tinha apenas 17 anos. Nasceu a 22 (28) de março de 1907.
ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA chuva a parar
Ora que dissémos nós ácerca do caso de Fátima? Que nós, obscuro auctor d’estas linhas, não tinhamos observado facto algum que nos levasse a suppôr o sobrenatural. Mas não só se trata d’um modo de vêr pessoal e desautorisado, senão que, por fórma alguma, queremos contestar as observações que outras pessoas tenham feito, diversas das nossas.
Nada desejariamos mais do que presencear factos a que nenhuma explicação natural se ajustasse.
Grande foi o desapontamento, quando no domingo, como dissémos, verificámos a inanidade do que na vespera nos parecera maravilhoso: tanto mais quanto grandemente nos impresionára a coincidencia de ter a chuva, de tres horas consecutivas, cessado quasi precisamente á hora em que as creanças oravam, apparecendo então o sol entre as nuvens.
Notas dos editores (4)
3 Filósofo e político francês. Nasceu em 1753. Era propagador da doutrina da teofilantropia. Foi membro do Directório em 1795. Faleceu em 1824.
4 Junta de cinco membros a que a Constituição Francesa entregou o poder executivo entre 1795 e 1799.
5 Charles Maurice de Talleyrand-Périgors. Nasceu em Paris em 1754. Era Bispo de Autun, quando surgiu a Revolução, em 1789. Adere às novas ideias e é eleito deputado dos Estados Gerais. Em 1792 abandona a vida eclesiástica, indo para Inglaterra como representante diplomático da França. Regressa em 1796 e é escolhido para Ministro do Directório. Desempenhou um papel de relevo no Congresso de Viena (1814-1815), no qual consegue evitar o desmembramento da França. Foi presidente do Conselho alguns meses (1815), afastando-se depois da política até 1830. Nesse ano foi nomeado embaixador em Londres, conservando-se ali até morrer, em 1838, reconciliado com a Igreja.
ProfissionalJornalistaadvogado católico, colaborador de A Ordem (A. de F.)
13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA chuva a pararA multidão
Que os effeitos do sol no dia 13 pareceram maravilhosos e impressionaram fortemente a multidão, constatámol-o nós já nos artigos de 16 e 17.
E ahi salientámos tambem a coincidencia do phenomeno se produzir no dia e á hora annunciada (com differença apenas de alguns momentos) e de, até então, a chuva ter cahido horas a fio, com uma persistencia de impacientar, cessando por essa occasião.
[…]
Ou são até de observação corrente, dadas certas circumstancias favoraveis no céu, como nos pareceu que resultava da observação de domingo?
13 set.13 out.Testemunho diretoArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidão
Em setembro e outubro do ano corrente encontravamo-nos veraneando não longe do local da aparição e confessamos que não nos moveu a curiosidade a assistir, antes nos conservámos na nossa habitual indiferença, como se a aparição da mãe de Jesus Cristo fosse para nós a coisa mais natural d'este mundo. Vimos passar para a charneca centos, milhares talvez, de peregrinos: crentes, curiosos, amadores de picnics, vendedores de agua fresca e capilé, reporters, negociantes de vinho a retalho, uma variada e interessante multidão, e dedicámos apenas alguns momentos de cogitação á causa da romaria.
Pelos casos extraordinarios que presenciei em Fatima em 13 de Setembro e 13 de Outubro de 1917 e 13 de Junho de 1920, não exagerando em nada que me foi dado presenciar sem qualquer effeito de sugestão, nem mesmo por quaesquer exageros, não me resta duvida alguma que as 6 apparições da Santissima Virgem, fôram um facto.
Quase todos os meses José Alves foi lá no dia treze depois de maio e não viu nada, só ouvia dizer aos outros que viam coisas no céu. Não ouviu o estrondo em agosto. Ouvia dizer muitas vezes que aparecia um fumozinho.
[37-] A Senhora disse-lhe um segredo mas ela não o revelará.
Notas dos editores (1)
4 Quase certamente, o autor dispensou-se de fazer as perguntas nº 34 a 36. Tal como no interrogatório anterior, o Pe. Lacerda também aqui continuou a conversa com a Lúcia, de que resultaram as duas respostas seguintes.
O que a Senhora trazia nos pés eram meias? Tens a certeza disso?
– Cuido que eram meias, mas podiam não ser.
4ª – Tu nunca disseste o segredo, nem mesmo disseste que o povo ficava triste se o soubesse. O Francisco e a Jacinta dizem que ficava triste. Se tu não podes dizer isso, também eles o não podiam dizer. Que te parece?
– Não sei se eles deviam ou não dizer, que o povo ficava triste. Nossa Senhora disse que não devíamos dizer nada a ninguém. Por isso não posso dizer nada.
2a – Tu disseste uma vez que a Senhora tinha meias brancas. Então eram as meias ou eram os pés?
– Se eram meias, eram brancas, mas eu não sei ao certo se eram meias ou se eram os pés.
Algumas vezes e em diversas ocasiões interroguei o Francisco e sempre me disse que viu uma Senhora muito bonita na Cova da Iria e no Valinho nos mesmos dias que suas companheiras tinham indicado e que vinha vestida de branco, mas que não A ouvia falar. A respeito do segredo nada consegui que me revelasse. Dizendo-lhe eu que, não ouvindo ele a Senhora, não tinha segredo algum, respondeu que sim, tem, que lhe disse a Lúcia. Disse-lhe que, como foi a Lúcia que o disse, podia-me dizer, porque não é segredo nem Nossa Senhora lhe disse que o não dissesse, respondeu: não digo, que é pecado, que a Lúcia disse que o não dissesse eu, por isso não digo.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Caminha
A pequenita Lucia disse ser a Senhora do Rosario, que quer lhe façam alli uma egreja, e annunciou que Deus está muito offendido com o povo e que mostrava o seu poder a fim de que se convertessem e se salvem se não aproveitarem nada com esta manifestação do seu poder mandará um castigo.
Eu não ouvi nem fallei com a criança, mas parece-me natural tudo isto.
Disse muito mais coisas, mas ainda não sei tudo.
[…]
Nossa Senhora disse à Lucia que São José veiu abençoar o povo, e que todos os crentes (alli presentes) ficavam perdoados até áquelle momento.
Aquelle logar ficou bento, pessoas e animaes, tudo foi benzido.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Pereira da Silva (pároco de Monte Redondo)
As pequenas disseram que apareceu N. Senhora do Rosario. Depois apareceu (quando o sol deu signal) S. José. As pequenas disseram que este dissera que hoje, ou breve, seria arvorada a bandeira da paz16; que resassem o terço que em breve cá teriam as nossas tropas; que fizessem penitencia, que mudassem de vida porque, de contrario, se acabaria o mundo.
Notas dos editores (2)
10 C Acabado êle, preguntaram as pequenas. Como se vê, o Autor trata os videntes, Lúcia, Francisco e Jacinta, ora por as pequenas ora por os pequenos, imprecisão que se repete adiante. Igualmente impreciso é o plural perguntaram (preguntaram), pois só Lúcia falava com a aparição.
16 O Pe. Manuel Pereira da Silva volta a mostrar como era precária a sua fonte de informação, quando atribui a S. José (este dissera) a notícia do fim da guerra. Note também o leitor a hesitação sobre a data. Escreve: "hoje ou em breve". Vê-se que, no mesmo dia 13 de Outubro, corriam já versões diferentes.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Luísa da Madre de Deus da Cunha e Menezes, Marquesa da Ribeira Grande (carta ao Dr. Formigão)
De repente, a voz de Lucia:
– Lá está Ella, na Carrasqueira.
Sensação eterna, sobrenatural a de saber a Mãe de Deus, junto de nós!
De rôjo, no chão, mãos erguidas, na supplica, na contrição fervorosa, da miseria humana, perante a grandeza divina, a santidade das Santidades!
Então distinctamente ouvi esta phrase da Lucia: – Vocemecê não faz hoje o milagre que me prommetteu? –
E a seguir estas singelas palavras dessa creança predestinada, á que ouvi a phrase que destróe todas as duvidas, esclarece toda a hesitação com que os sabios pretendem confundir o sobrenatural, como um phenomeno da natureza, illusão que perturbou a firmeza de tantos crentes!
Olhem para o Sol –
E só depois, dessa exclamação de Lucia, como uma ordem do Céu, é que a Rainha dos Anjos, fez surgir esse prodigioso milagre, esse Sol glorioso que illuminou a sua Apparição, com uma luz, que nenhuma alma christã, poderá apagar!
Mais quatro phrases ainda affirmo ter escutado: – Vocemecê não manda hoje mais nada de mim? –
E, após a pergunta, como que repetindo syllabas e palavras, que, do Céu, lhe murmurava a Mãe de Christo: – Ca - Capella ou Egreja aqui? –
E, pela primeira vez, com physionomia, radiante, e batendo as mãos.
– É Nossa Senhora do Rosario –
Voltando-se novamente para a Jacintha, e baixando a cabeça da direita para a esquerda, como seguindo a mesma direcção, que a Virgem Immaculada, exclamou:
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
A Jacinta, como a mãe ouviu, depois de dizerem que Nossa Senhora já tinha aparecido, acotovelou a Lúcia e disse-lhe: “Fala-lhe Lúcia, que Nossa Senhora já lá está”.
[…]
Já em casa a Jacinta disse à mãe: “Ó minha mãe, eu vi-a entrar no Céu”, e acrescentou que se lhe representara quando a viu entrar no Céu, que os pés se lhe entalavam.
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
A Lúcia tomou a respiração por duas vezes, como pessoa a quem faltasse o ar. Em seguida disse: “Que é que me quereis hoje?”. Daí a poucos momentos, a Lúcia disse mais: “Queria que me melhorasse os doentes.” Depois declarou: “Nossa Senhora disse que os não podia melhorar todos, que eram muito maus”. Passados alguns momentos levantou-se muito rapidamente e disse: “Se a quiserem ver voltem-se para o nascente”. Mas logo a seguir exclamou: “Já a não veem”.
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Rosa (mãe de Lúcia), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Todos três a um tempo deram um grito, um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”. Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com fitas e rosas, quase não se via nada dela.
Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada. Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse: “Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo. A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois, naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a chegar” (A pequena não se lembra de ter mandado o povo olhar para cima, digo, para o céu, para o sol).
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntesSol a girar
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria da Capelinha, da Moita), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Depois de treze de setembro disse à Lúcia que perguntasse à Senhora quem ela era. A azinheira abanava muito quando ela disse que vinha a Senhora. Ouviu a Lúcia perguntar: “A Senhora deu licença para fazer a capelinha, agora diga com que título havemos de a adorar”. Quando ela se levantou, depois da aparição, perguntou-lhe que título ela tinha dito e a pequena disse que era Nossa Senhora do Rosário. Nesse dia a Lúcia disse também: “Agora fechem os chapéus”, que já vem S. José ao sol e o Menino deitar a bênção, em bem Nossa Senhora chegando ao Céu”. Depois que ela disse isto o sol bailou.
13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Luísa Garrett Correia
A pequena mais velha, Lucia, de 10 anos, pergunta a Virgem em voz alta quem é vocês-mecê? Vocês-mecê o que quer? As respostas não se ouvem, mas quando o sol retoma o seu curso habitual a creança volta-se para o povo e ao colo de um homem7 que a segura nos braços repete as palavras da Senhora
Eu sou a Virgem do Rosario quero que me edifiquem aqui uma capella.
Diz ao povo que se emende de attentar contra Deus diz-lhe que hoje se faz a paz e que os vossos militares hão de voltar
As duas outras creanças Francisco e Jacyntha, vêem a Virgem mas não lhe falam.
Notas dos editores (1)
7 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10 e DCF, vol. 2, Doc. B, de 13 de Setembro de 1927).
GrupoVisitanteirmãs solteiras, filhas do feitor da Quinta do Vale
13 out.Testemunho indiretoViuCartaA multidãoA chuva a pararSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemSol a cairCalor
Transmitido por: Maria Francisca d'Assis
Agora eis o que as Saraivas disseram no dia seguinte.
Depois de 7 horas de trem com uma chuva medonha chegaram encharcadas ao campo do milagre... Gente era um por de mais!! Calcula-se para cima de 50:000 pessoas.
Entre o meio dia e a uma hora chegou a pequena acompanhada por alguns homens que impediam que com o excesso de simpatia a esmagassem.
A Lucia (a pequena) quando chegou ao pé da carrasqueira (pequeno arbusto) onde a Senhora aparece pediu ao povo que resasse o terço enquanto esperava. Juntavam-se então as familias aos grupos de 8 a 10 pessoas e resavam entre si o terço com a maior devoção. Era um espetaculo de fé mediaval [sic]. Esqueci-me de diser que quando a Lucia chegou a chuva parou imediatamente.
Derrepente começou o sol a ficar d'uma cor esverdiada, mudando sucessivamente para amarelo claro que fasia parecer a gente cadavérica; n'isto dá como uma reviravolta, um safanão, parecia que vinha a cair sobre a terra. Todos cahiram de joelhos e só se houvia os gritos de “Deus nos acuda! Jesus! Santissima Virgem! N'aquele momento o calor era tanto que quasi sofucava. Todos imaginaram que era o fim do mundo. Pessoas choravam. Durou isto 10 minutos. Quando voltaram a si d'aquela grande emoção já Nossa Senhora lá estava. Não se via nada mas a pequena olhava para um ponto fixo e sorria-se.
Quando a pequena voltou para casa o Dr. João do Val9 foi-lhe falar assim como as Saraivas.
[…]
A pequena só responde ao que se pergunta, mas sem nenhum embaraço, sendo ela antes da aparição muito envergonhada.
Diz ela, como tambem das outras vezes que a Senhora lhe diz um segredo, que ela não diz a ninguem, nem mesmo à mãe. Uma senhora no outro dia mostrou-lhe na mão 10 notas de 100:000 disendo que lhas dava se ela lhe dicesse o segredo. Acho isto uma coisa muito mal feita mas a pequena não se deixou tentar.
Quando repete o que ouve a sua fala é correta, mas quando esplica outras coisas é a fala dos pequenos do campo: “Então vomecê não ouviu?” e assim neste genero.
A Lucia é pobre mas apesar disso não acceita nada que lhe queiram dar em dinheiro. Vêsse que não é impostura.
Notas dos editores (3)
6 Pela fotocópia só conseguimos ler o dia 20.
7 Eram duas irmãs, D. Júlia e D. Beatriz. Viviam na Várzea Pequena, Tomar, numa casa antiga, que faz esquina para a estrada que segue para Ourém e donde facilmente se pode assistir a todo o movimento da estrada. Tinham mais uma irmã, D. Matilde, casada com o General Leão, que vivia na Levada, Tomar. Um tio destas senhoras, José Isidro, ainda viveu no Convento de Cristo e usou hábito.
9 Segundo informação de Mons. Cón. João de Castro, a Família Vale, desde o dia 13 de Junho de 1917, inclusivé, nunca faltou a nenhum dos dias 13, até à morte do Dr. João do Vale.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaa 2 kmFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Francisca d'Assis, transmitindo o relato de Ana e Ermelinda Saraiva
Quando a pequena voltou para casa o Dr. João do Val9 foi-lhe falar assim como as Saraivas.
Respondia a tudo com a maior das simplecidades e disse isto: “que Nossa-Senhora pedia aos homens que fizessem um esforso para serem melhores que seu amado filho já estava zangado, que a guerra acabaria em breve e que os soldados portuguezes voltariam às suas terras. Recomendava sobretudo que rezassem muito. Se quisessem, que fisessem ali uma capelinha, que a venerassem sob o nome de Na. Senhora do Rosario”.
Fazendo-se-lhe perguntas sobre a Na Senhora, disse que era linda, tinha um vestido branco mto direito (deve ser tunica) descalça e na cabeça um lenço azul muito comprido (manto). A sua voz é muito bonita, e chamava a pequena pelo seu nome: “Lucia”.
A pequena só responde ao que se pergunta, mas sem nenhum embaraço, sendo ela antes da aparição muito envergonhada.
Diz ela, como tambem das outras vezes que a Senhora lhe diz um segredo, que ela não diz a ninguem, nem mesmo à mãe.
Notas dos editores (1)
9 Segundo informação de Mons. Cón. João de Castro, a Família Vale, desde o dia 13 de Junho de 1917, inclusivé, nunca faltou a nenhum dos dias 13, até à morte do Dr. João do Vale.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Assunção Sampaio
a ditosa menina grita ao pôvo que a nossa Senhora disse que todo o povo olhe para o sól
[…]
depois de tudo passado diz a ditosa menina Lucia que nossa senhora disse que ia acabar a guerra e que já estavam as bandeiras da páz á vista (milagre) mas tambem a nossa Senhora recomendou que dissesse ao povo para que todos rezassem o terço todos os dias e que lhe fizessem uma Igreja n'aquele sitio.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Adelaide de Sousa Holstein
N. S. disse que era a Senhora do Rosario que vinha trazer a paz, que ainda este anno acabava a guerra e que breve cá tínhamos os nossos soldados. Que se lhe fizesse ali uma Capella, que rezassemos muito o terço, e que nos emendássemos porque temos ofendido muito a Deus!!!
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo
Sabe que d'esta vez appareceu a Sagrada Família? E que o phenomeno do Sol se deu, quando N.S.a disse à pequenita: “Manda o povo olhar para o sol”?! — Não me consta que haja mais nenhuma apparição anunciada, mas não resistirei muito tempo sem ir fallar com as ditosas creanças. A criança respondeu a um padre que lhe perguntava porque é que ella não estava sempre a olhar para a visão e abaixava os olhos: “Não, que Ella cega”! Explicando assim o brilho e a belleza da Senhora.
É certo N.S.a ter mandado que continuassem rezando muito o terço. Parece que de todas as vezes tem feito esta recomendação. Disse que queria alli uma Capella, que a guerra acabaria muito breve, o que já tinha promettido das outras vezes. Mas também disse que se depois d'este signal, d'este aviso, o povo se não emendasse, um grande castigo viria a Portugal.
[…]
N.S.a appareceu sempre séria, sem sorrir e as duas pequenas em separado, fizeram a descripção d'esta visão, perfeitamente da mesma forma: N. S.a com o rosario branco, á esquerda S. José e o menino Jesus entre os dois.
Notas dos editores (1)
1 Vivia em Torres Novas. Faleceu a 8 de Junho de 1932, deixando um filho: José Maria P. Sousa d'Alte Espargosa. Cf. Doc. 20, de 1 de Setembro de 1917, nota 2.
Transmitido por: Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo
N.S.a appareceu sempre séria, sem sorrir e as duas pequenas em separado, fizeram a descripção d'esta visão, perfeitamente da mesma forma: N. S.a com o rosario branco, á esquerda S. José e o menino Jesus entre os dois.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a cairSol a girarSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagem
Transmitido por: Teresa Francisca de Melo Breyner de Sousa Tavares e Moura
N'isto chegou o correio com uma carta d'ella para a Piedade7, que esta começou logo alli a ler alto, em que ella lhe contava o que presenceou, juntamente com quarenta mil pessoas, que é o que ella diz terem-se juntado alli n'aquelle dia. Vou-te fazer um resumo do que ella conta. Diz que toda a manhã tinha chovido, mas que perto das duas horas da tarde appareceu o sol atravez das nuvens, e que a essa hora, — que teem sido sempre a das apparições, — vio de repente as pessoas, que rodeavam mais de perto as creanças, voltarem-se e olharem para o sol. Soube depois que a pequena lhes tinha dito que N. Sra. lhe dissera: "manda o povo olhar para o sol". Olharam todos e viram um disco prateado, luminoso mas que se podia fitar sem o mais pequeno esforço, que ella compara com um espelho pequeno, destacar-se ou sobrepôr-se ao sol e começar descendo com um movimento de rotação, parar, e recomeçar com o mesmo movimento. Em volta d'este disco, uma nuvem linda, ora côr de rosa, ora amarella, ora roxa, que coloria as caras dos circumstantes e tudo quanto os rodeava, e em volta d'isto, o horizonte como que limitando-se n'um circulo amarello, em volta do qual uns arcos todos eguaes e a egual distancia uns dos outros, que ella representa assim
Este phenomeno foi presenciado por toda aquella multidão, porque já alguns jornaes, como o Diario de Noticias, o Dia e a Ordem o contam por testemunhas oculares. Acabada a apparição, as pequenas contaram que N. Sra. lhes tinha apparecido com S. José e o Menino Jesus à direita, e lhes tinha dito que queria que alli lhe erigissem uma pequena capella, que aquellas apparições eram uma prova de que protegia Portugal, mas que era preciso que todos rezassem e fizessem penitencia, porque senão uma grande castigo cairia sobre Portugal. Que a guerra acabaria em breve, mas sobre este ponto a carta é um pouco confusa, por isso não te posso repetir o que ella diz. Disse tambem que era N. Sra do Rozario. Tudo isto a pequena repetio em voz sonora e pausada, sem mostrar o menor embaraço por se ver rodeada de milhares de pessoas. E a mais pequena, que tem seis annos, mesmo separada da outra, disse exactamente a mesma cousa, sem se desdizer n'um só ponto.
[…]
A M. de Jesus diz que um impio se converteu alli mesmo, gritando: "eu creio, eu creio, eu creio!".
Notas dos editores (1)
7 Maria da Piedade de Mendonça Amaral, mãe de Maria de Lurdes de Mendonça Amaral Leitão. Proprietária da Casa de Urros, em Mateus, a 500 metros da Casa de Mateus.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Teresa de Melo Breyner (Condessa de Vila Real), resumindo uma carta de Maria de Jesus Raposo
Soube depois que a pequena lhes tinha dito que N. Sra. lhe dissera: "manda o povo olhar para o sol".
[…]
Acabada a apparição, as pequenas contaram que N. Sra. lhes tinha apparecido com S. José e o Menino Jesus à direita, e lhes tinha dito que queria que alli lhe erigissem uma pequena capella, que aquellas apparições eram uma prova de que protegia Portugal, mas que era preciso que todos rezassem e fizessem penitencia, porque senão uma grande castigo cairia sobre Portugal. Que a guerra acabaria em breve, mas sobre este ponto a carta é um pouco confusa, por isso não te posso repetir o que ella diz. Disse tambem que era N. Sra do Rozario. Tudo isto a pequena repetio em voz sonora e pausada, sem mostrar o menor embaraço por se ver rodeada de milhares de pessoas.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Joaquina Tavares de Proença de Almeida Garrett, a partir de uma carta de Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo
A Snra D. Maria de Jesus Alte Espargosa8 escreve-me e diz-me, que ás creanças appareceu também São José e o Menino Jesus estando este entre N. Senhora e S. José. E que N. Senhora ordenara á Lucia que dissesse ao povo que olhasse para o sol e que se Portugal se não emendasse dos seus pecados viria sobre elle um grande castigo.
Notas dos editores (1)
8 Maria de Jesus d’Oriol de Pena Raposo. Cf. Doc. 105, de 17 de Outubro de 1917, nota 1.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Carlos Silva (carta a O Mensageiro)
Diz uma das meninas: Já lá está Nossa Senhora! Fechem os chapeus e resem...
[…]
Pouco depois as meninas disseram o que Nossa Senhora lhes tinha dito:
— A guerra acaba por estes dias; brevemente os nossos soldados regressam a Portugal; os homens devem ser bons uns para os outros; rezem o terço e façam uma capela pois que sou a Senhora do Rosario.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Ana Maria da Câmara, por intermédio de Antónia (Antoninha) da Câmara e do Dr. Carlos de Azevedo Mendes
A Antoninha10 consegue vêr uma das pequenas, muito córada, lavada em lagrimas, ao cólo d’um homem e mais tarde esse mesmo homem, um medico11, repete-lhe as palavras da pequenita: N. Sra pede que não offendam mais a N. S., que façam penitencia. Promette para breve o fim da guerra. As mães que rezem e tenham confiança que os soldados estão a voltar. Abençôa todo o povo e pede uma capellinha debaixo da invocação de N. Sra do Rosario.
Notas dos editores (2)
10 Deve tratar-se de Antónia Rafaela da Câmara. Cf. Doc. 259, de 3 de Novembro de 1917.
11 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, que não era médico, mas sim advogado.
GrupoProfissionalnotáveis lisboetas; S., banqueiro de origem estrangeira
13 out.Testemunho indiretoNotícia de imprensaAtitude céticaVieram de longe
Transmitido por: Correspondente em Lisboa do jornal Liberdade (rubrica «Diario de Lisboa»)
Dois amigos, que designaremos pelas iniciaes E. L. e o sr. S.,= este muito conhecido pela sua visão financeira e educadissima intelligencia em assumptos bancarios = foram, de longada, até Fatima.
O sr. S é portuguez, mas de origem estrangeira. Homem muito serio, não é, ao que se diz hoje, muito affeito a crêr em milagres.
Foram os dois amigos no mesmo automovel, e foram pelo passeio, rindo antecipadamente da crendice popular. Pelo caminho fallavam no milagre, e commentavam-o, rindo.
A certa altura, a gazolina que levavam, incendiou-se. E incendiou-se, dizem os experimentados automobilistas, sem nada que explique o incendio: chovia a cantaros, não houve choque, nem fagulha, nada, que apparentemente explique o phenomeno. Era ao pé d'um casebre: obtiveram fielmente agua, e apagaram o fogo.
Recomeçou a marcha.
D'ahi a alguns kilometros, o parebrise, — sem um choque, sem uma pedra — fez-se em milhares de bocados, e a capota do carro foi arrancada como se mão herculea a tivesse arrancado.
Pararam o carro, percorreram o caminho onde succedera o desastre, á procura de algum arame ou galho d'arvore que explicasse o caso.
Arvore nenhuma! Arame nem sombra!
E hoje, o sr. S. declara que nem permitte que deante d'elle se falle na apparição de Fatima, porque considera que foi castigo, de irem a rir do milagre, o que lhes aconteceu
GrupoVisitantepessoas conhecidas da narradora, presentes na Cova da Iria a 13 de outubro
13 out.Testemunho indiretoViuNotaDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corSol a cair
Transmitido por: Leonor de Avelar e Silva Constâncio
Chegáda á Fatima procuro ver pessôas conhecidas, para trocar impressões. Todos me dizem o mesmo, todos viram... Mas viram o quê?... lhes pergunto: "Vimos o sol, coberto como que por uma chapa de prata, n'um constante movimento de rotação, despedindo raios vermelhos, amarellos, roxos, e parecendo desprender-se do Céu e aproximar-se da terra."
Grupotestemunhas oculares e autores de cartas de perto de Fátima
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarSol a cairCalor
Transmitido por: A Beira Baixa (artigo não assinado)
Muitos milhares de pessoas viram as creanças em extasis no dia e á hora previamente e com grande antecipação annunciados.
As apparições, a serem reaes, vinham-se repetindo no dia 13 de cada mez desde maio e a do dia 13 d'este mez estava annunciada como a ultima e seria acompanhada de phenomenos miraculosos.
Houve esses phenomenos?
Milhares de pessoas respondem affirmativamente.
Chovia torrencialmente. Á hora annunciada para a apparição a chuva cessa, como que obedecendo á voz das creanças que disseram não ser necessario conservar abertos os guarda-chuvas.
O sol descobre-se, fica com uma luz estranha, podendo ser fitado como a lua cheia. A luz passa por diversas gradações, parecendo umas vezes que o globo solar é cercado d'uma aureola de chammas, outras vezes um disco metallico como de prata. Vê-se o disco girar sobre si mesmo rapidamente e tem-se a impressão de que elle se desloca da sua orbita e se aproxima da terra, produzindo um calor excepcional.
Isto ninguem de boa fé o contesta. A testemunhas oculares o ouvimos e cartas vindas das proximidades de Fátima o confirmam.
Notas dos editores (1)
1 Semanário Democrático, fundado em 1911. Director: José Maria de Proença de Almeida Garrett (filho do Dr. Gonçalo Xavier de Almeida Garrett e de Maria Joaquina Tavares Proença de Almeida Garrett).
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longeFiguras / visões
Transmitido por: Maria Caminha
Rita e Bettina é que tiveram essa felicidade e muitas outras pessoas.
A Rita via adiante do sol a face de Nossa Senhora, só a face, e ia ficando.... nem sei como dizer, perdeu a noção do tempo, e não pode descrever o que viu, não sabe, nada se póde comparar com a belleza e doçura d'aquelle sorriso.
15 Do texto do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 104, de 17 de Outubro de 1917, não se depreende que Bettina Basto tenha visto Nossa Senhora, mas no Doc. 69 (fl. 10v), ela desenhou um desenho com uma silhueta que, em 1978, nos explicou ser o vulto de Nossa Senhora como ela o imaginou.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Eugénia da Câmara, contando o que a filha, Adelaide da Câmara Villar, ouviu à vidente
A minha Adelaide4 que conseguio fallar á pequena, ouvio-lhe dizer que Nossa Senhora lhe tinha dicto que éra a Senhora do Rozario, que queria lhe fizéssem ali uma capella que se arrependessem porque porque estavam offendendo muito a Deus, que a guerra acabava bréve e que esperassem pelos nossos soldados que voltam bréve! — Eis tudo o que sei é pequena é feia, pouco sympatica e com um feitio muito simplório; mas falla muito firme e nunca se desdiz.
Notas dos editores (1)
4 Adelaide da Câmara Villar, filha da autora da carta.
Visitantecavalheiro natural dos Açores, residente no continente
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaA multidãoDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagemSol a mudar de corMovimento em ziguezague
Transmitido por: A Verdade (a partir da carta particular que ele escreveu à família)
Por uma carta particular dum distincto cavalheiro que reside no continente para a sua familia, nesta cidade, sabemos que aquele nosso conterraneo foi uma das numerosissimas testemunhas do facto maravilhoso, ocorrido em trese do corrente mês, em Fátima. Vinha já prendendo tanto a atenção de todos o que testemunhas presenciaes diziam dar-se ali no dia trese de cada mês, desde maio, que aquele nosso conterraneo para lá partiu no dia dose do corrente, de automovel, com um seu ilustre amigo. Em Fátima encontrou uma imensa massa de povo, que ele calculou em cerca de cincoenta mil pessoas e que para ali tinham vindo atraidas pelo prodigio anunciado, utilisando todos os meios de condução, os que não puderam ir a pé. Encontravam-se naquela charneca, triste por naturesa e mais triste naquele dia escuro e em que uma chuvinha miuda e impertinente encharcou todos os espectadores, mais de quinhentos automoveis, o que está perfeitamente d'harmonia com as informações dum correspondente do Diario de Noticias, em Vila Nova d'Ourem, o qual diz terem regressado de Fátima, pela referida Vila mais de cem automoveis, cento trinta e cinco bicicletas e duzentos e quarenta carros diversos.
Chegada a hora a que era esperado o milagre, diz o citado informador que o sol, aparecendo pela primeira vez naquele dia, foi perfeitamente fixado por toda aquela multidão que os raios solares tingiram sucessivamente de azul, amarelo e cor de purpura, ao mesmo tempo que se notava naquele astro umas tremuras e movimentos desconhecidos.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: António Lalanda dos Santos (professor)
Entretanto o Milagre finda e as crianças erguem-se da oração e levadas ao colo de varios individuos a mais velha diz ao Povo: N. Senhora que falou pela ultima vez comigo encarrega-me de dizer-vos: que a Paz se faz hoje; que vão descançados para suas Casas que a chuva os não molhará no regresso; que orem a N Senhor quem teem ofendido muito e que em breve virão os soldados da França e que deseja lhe façam uma capela no local.
[…]
Dentro do globo luminoso observava-se um grupo de pessoas que se moviam e que a criança diz ser S. Jose a anunciar a Paz aos homens; Seu bendito Filho a lançar-lhe a benção e N. Senhora das Dôres.
Dentro do globo luminoso viam-se um grupo de pessoas que se moviam, e que depois a criança explicou ser S. José a anunciar a Paz aos homens, seu bendito Filho a abençoar o Povo e N. Senhora das Dôres.
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaDisco pálido / prateadoSol a mudar de corMovimento em ziguezagueCores nas pessoas e na paisagemA multidão
Transmitido por: Alfredo de Carvalho
Cerca das duas horas da tarde uma das tres creanças, que oravam junto da carvalheira, acenou e a turba-multa ajoelhou a um tempo. Então o sol, rompendo das nuvens acendeu-se num fulgor mais vivo, cingiu-se de um circulo escuro, ganhou logo uma palidez de lua, que em seguida se manchou dum azul fluido, dum amarelo doente, de outras tonalidades esmaiadas. Sacudiram-n'o por fim movimentos irregulares, descompassados — tremeu, tremeu, e quedou silencioso. Com as bruscas mudanças de côr a paizagem modificou-se, perdeu a sua nitidez, suavisaram-se numa bruma vaga os seus contornos mais duros.
As mulheres enclavinhavam as mãos, brancas de assombro, pregavam no ceu os olhos implorativos, e tinham atitudes desmanchadas de fervor e extasi: "Lindo sol! Que linda coisa! Ali vem ela!" eram as exclamações que subiam numa esfusiada de ohs e ahs. E pronto. O milagre restringira-se a mutações feericas de scenario, a ginasticas singulares do sol, a pirotecnias relumbrantes feitas nas nuvens, ás mais estramboticas decomposições de luz — um milagre etereo demais, pairante a um certo nivel, para vêr de longe como se vê Braga e que não se dignou descer até aos cocurutos dos montes e das carvalheiras. Mas todos os meus informadores juram que viram no sol extraordinarias coisas — o que nada perturba a minha critica pessoal.
Família dos videntesGente da terramãe de Francisco e Jacinta Marto
13 out.Testemunho indiretoCartaAtitude cética
Transmitido por: Beatriz Gorjão (carta copiada textualmente por Anita)
No dia 13 houve alguem que metteu na mão d’um dos pequenos, uma moeda de 500rs, a creança não sabendo do que se tratava, pois estava embrulhada n’um papel, foi leval-a à mãe, que afflicta perguntou em vóz alta quem se accusava de ter dado os 500rs. — Ninguem respondeu; e os cinco tostões lá estão embrulhados no mesmo papel ao canto da gaveta. Não lhe quer tocar: aquelle dinheiro não é d’ella.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Laura Avellar (moradora de Fátima), por intermédio de Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo
As pequenas não esperam que N. Sra. torne a apparecer.
Mandou rezar muito o terço para desaggravar o seu filho que estava muito offendido.
N. Sra pousava sobre a carrasqueira e não sobre nuvens.
Trazia as mãos postas e abria-as para fallar (como N. Sra. das Graças) Pendendo-lhe das mãos um terço. Depois de N. Sra. desapparecer, quando olharam para o Sol é que lá A viram com S. José abençoando o povo, e o menino Jesus. Mas só em meio corpo e de differentes côre
VidenteGrupovidentes (as duas meninas, Lúcia e Jacinta)
13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Senhora não identificada, assinante do Raio de Luz
Estive com as duas pequenitas que iam vestidinhas de branco com umas corôasinhas muito singelas nas cabecinhas. Disséram-me que Nossa Senhora lhes apareceu com S. José e o Menino ao pé, disse que era a Senhora do Rosario, que o rezassem muito, que isto era um aviso mas que se se não arrependessem e continuassem a offender o seu Divino Filho, Este mandaria um grande castigo a Portugal.
As duas pequenas em separado, fizeram a descripção da visão da mesma fórma e a Lucia, que, dado a sua pouca edade deveria estar doida no meio d'aquelle alvoroço de que se via rodeada, ia dizendo a todos em voz clara e sem se alterar, á medida que ia passando (ao collo do pae) — o que Nossa Senhora lhe disséra
Cientistaprofessor jubilado de Astronomia, Universidade de Coimbra
13 out.Testemunho indiretoLivroVeio de longeNuvem / coluna de fumo
Transmitido por: Comissão Canónica Diocesana (resumindo o opúsculo de Garrett)
Um ilustre lente jubilado de astronomia na Universidade de Coimbra, recentemente falecido, o doutor Gonçalo Xavier de Almeida Garret, num interessante opúsculo que publicou com o título de “Fátima” e o subtítulo de “A miraculosa nuvem de fumo”, diz que este facto, ao qual talvez se tenha ligado mediana atenção, é todavia importantíssimo, naturalmente inexplicável, e pode e deve servir de elemento de prova da realidade das aparições na Cova da Iria. Na sua autorizada opinião, era um fenómeno físico-químico, independente da ação nervosa do organismo humano. No dia treze de outubro, durante a última aparição, a nuvem de fumo tornou-se visível a grande distância e da estrada distrital distinguia-se com a mais perfeita nitidez. Parecia sair da azinheira, envolver os videntes e elevar-se a uma altura superior a seis metros, ocupando uma área de cerca de seis metros quadrados. Entre a grande multidão de pessoas que nesse dia concorreram a Fátima estiveram pessoas conhecidas e de toda a confiança, que atestam não se ter feito lume algum nesse local que pudesse originar a nuvem de fumo.
13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Lúcia de Jesus Santos, a principal protagonista das aparições de Fátima afirmou no dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete que pouco depois do dia treze de outubro seguinte seria concedida a paz ao mundo. No dia 13 de outubro declarou que a Aparição assegurara que a guerra acabava nesse mesmo dia. Tendo um sacerdote perguntado à vidente, pouco depois da aparição, se a Senhora dissera que o grande conflito europeu terminaria brevemente, e não naquele dia, ela contestou, insistindo em que a Visão havia afirmado que a guerra acabava nesse mesmo dia treze, porque empregara a palavra hoje. “Ela disse que a guerra acaba hoje, hoje” foram as palavras textuais da vidente.
13 jul.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria da Conceição Stokler Parente
Fômos hontem entrevistar os videntes. A Lucia que é a unica que falla com Nossa Senhora, estava na igreja, onde tinha ido com a mãe para ouvir missa e commungar. Recebeu a primeira communhão aos 7 annos. É muito meiga. Disse-nos — a brincar sempre com as nossas mãos ou os nossos lorgnons — que Nossa Senhora quer que se reze o terço todos os dias; que peçamos muito perdão dos nossos peccados, porque Nosso Senhor está muito offendido; e que se lhe levante n'aquelle logar uma capellinha. Apresenta-se sob a invocação de Nossa Senhora do Rosario. Veste de branco; descalça; manto branco na cabeça e umas contas tambem brancas na mão direita. Annunciou para já — a vidente diz “hoje” — a cessação da guerra, e que os nossos militares veem brevemente. Nossa Senhora disse-lhe um segredo, que ella tem sido instada a divulgar, mas que persiste em não dizer. Respondeu a um homem: — Nossa Senhora disse-me que não dissesse a ninguem; e vocemecê é alguem.
Notas dos editores (2)
5 A autora deve referir-se a José Rino e Capitolina Guimarães Rino, de Alcobaça, que estiveram na Cova da Iria, nesse dia, e contaram, com os mesmos pormenores, a Luís Vasconcelos, depois barão de Alvaiazere, os fenómenos de 13 de Setembro de 1917 (Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 25).
6 Cremos que se trata da "limousine" de José Rino (cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 27).
13 jul.13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo
Mas a Lucia diz e sustentou que se não lembrava, nem de N. Sa lh'o ter dito, nem de ella o têr repetido. Mas o facto é que mais pessoas fidedignas que estavam ao pé d'ella o affirmam. Eu creio que a pequena se perturba, à força de exgotada e cansada.
O que ella confirma é ter-lhe N. Sra dito que a guerra acabava n'aquelle dia quando Ella chegasse ao Céo e que muito breve os militares voltariam para as suas famílias. Diz que não está bem certa se N. Sra lhe disse que era N. Sra Rosario ou se queria a Capella a N. Sra do Rosario, que foi uma das cousas.
O segredo, não lhe disse que o dissesse a ninguem10 e continuam na mesma tenacidade em o guardar.
Notas dos editores (1)
10 A autora deveria querer dizer: "O segredo, disse-lhe que o não dissesse a ninguem [...]"; ninguem, sublinhado no texto.
13 jul.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Beatriz Gorjão (carta copiada textualmente por Anita)
A pequena falla depois do fim da guerra e do fim do mundo caso não houvesse fé (não te assustes ainda ha muita). São estes dois pontos que eu acho duvidoso[s]; fallaria realmente N. Senhora no fim da guerra e do mundo, ou estariam as creanças confundidas com tantas perguntas que lhes têem feito? — N. Senhora disse-lhes um segredo. As mães, coitadas como ignorantes que são, têem feito todo o possivel para o saber. Segundo dizem, o administrador já prometteu 20.000rs se lh'o dissessem, mas não ha meio de lhes arrancar o segredo. Ao pequeno ouvi dizer que nem que lhe dessem o mundo inteiro o diriam. Quando lhes perguntam se é mau, dizem que é bom para todos. — N. Senhora no ultimo dia disse mais ser a Virgem do Rosario, e querendo o povo lhe eregisse alli uma capella — Mas isto está bem longe de ser a parte mais importante; calcula a nossa imperssão quando a pequenita continuando a conversar nos diz que no ultimo dia (13 Outubro) lhe appareceu S. José e o Menino Jesus!! Tratava-se portanto da Sagrada Familia. A nossa primeira impressão foi de duvida e de susto, iria cahir tudo pela base?! Mas umas vizinhas que alli estavam, disseram-nos que as 3 creanças já por vezes tinham fallado em S. José e no Menino Jesus. — A pequenita então explicou que S. José tinha vindo dar a paz ao mundo, e com a mão repetiu muitas vezes o signal da cruz, imitando o gesto dos Bispos quando vão andando e abençoando os fieis. Disse-nos que o Menino Jesus e S. José eram eguaes a uns santinhos que tinha em casa.
[…]
a pequenita diz que tinha em casa uns quadros, mas nem para elles olhou: foi a uma caixa e tirou um grupo da Sagrada familia dizendo: “vêem?” S. José e o Menino Jesus estavam como estão aqui: mas aqui S. José está com os olhos fechados, e lá estávam com os olhos abertos. — Querendo nós ver se ella se atrapalhava, dissemos-lhe que uma vez que o S. José e o Menino estavam como alli estão, N. Senhora no ultimo dia tambem devia estar como aquella de veu e manto de côres; perguntamos isto varias vezes, respondendo ella sempre que N. Senhora não estava como aquella, mas sim de branco e com o terço. Dissemos mais que sendo a Sagrada familia devia estar toda junta, ao que ella respondia sempre que não. N. Senhora estava na azinheira, e S. José e o Menino Jesus, perto do Sol. — A mesma esperiencia fizemos com o pequeno respondendo sempre como a irmã. — É portanto fóra de duvida que se póde confirmar as 6 apparições de N. Senhora, sem se confirmar a da S. Familia. A pequena mais velha antes de partir para Ourem tambem nos fallou de S. José e do Menino Jesus.
Visitantenapolitana residente em Leiria, de 57 anos; afirma ter sido curada
13 out.Outros de 1917Testemunho indiretoLivroa 20 kmA multidãoCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (como Visconde de Montelo)
Maria Francesca Aloisi Fitipaldi, de 57 anos, natural de Nápoles, Itália, e residente há mais de dezanove anos em Leiria, sofria horrivelmente de diversas doenças que lhe tornavam quase insuportável a vida (dispneia, lesão do coração, úlcera no estômago, albumina, etc.). Não podia falar, nem deitar-se, nem sair de casa. No dia 12 de outubro de 1917, à noite, viu de uma das janelas de sua casa as multidões que se dirigiam para a Fátima e ficou com imensa pena de não poder ir também. Cheia de fé, pediu a Nossa Senhora de Fátima que ao menos a melhorasse de maneira que pudesse descansar um pouco. Sentindo sono, foi-se deitar e dormiu toda a noite. No dia seguinte de manhã, quando acordou, achou-se perfeitamente bem.
13 mai.13 ago.13 out.Testemunho indiretoViuLivroFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Na manhã do dia treze de Maio de 1917 um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas, pertencente a suas familias, numa propriedade da serra de Minde, situada na freguezia de Fátima, concelho de Villa Nova d’Ourem, districto de Leiria.
[…]
Approximava-se naquelle dia a hora do meio-dia astronomico. Segundo o seu costume, as tres creanças, depois de se terem occupado durante bastante tempo nos seus innocentes divertimentos, puzeram-se a rezar o terço do Rosario, devoção muito querida dos habitantes daquella freguezia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distancia dellas, a claridade fulgurante de um relampago e apparecer quasi simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher de extraordinaria belleza. Assustadas comum successo tão insolito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilisou completamente a ttitude benevola da Apparição, que numa voz dulcissima prometteu que não lhes faria mal algum.
A Apparição parecia não ter mais de dezoito annos de edade. O vestido era de uma alvura purissima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irreprehensivel e que tinha um não sei quê de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas á altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosario, cujas contas, brancas de arminho, pareciam perolas. De todo o seu vulto, circumdado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formusura impossivel de descrever e incomparavelmente superior a qualquer belleza humana.
Entre a Apparição e a Lucia estabeleceu-se um dialogo, que durou cerca de dez minutos.
A Jacinta via a Apparição e ouvia distinctamente as palavras que ella pronunciava dirigindo-se á Lucia, mas nunca lhe fallou nem a Apparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Apparição, não ouvindo nunca o que ella dizia á Lucia, apesar de se encontrar á mesma distancia e de possuir um excellente ouvido.
[…]
A Apparição recommendou insistentemente que todos fizessem penitencia e rezassem o terço do Rosario. Communicou ás creanças um segredo, que não podiam revellar a ninguem. Prometeu-lhe o Ceu.
Pediu que naquelle local se erigisse uma capella em sua honra e declarou que no dia treze de Outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que elle realmente tinha alli apparecido. Em treze de Agosto, momentos antes da hora da apparição, as creanças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou pelo menos não revelassem o segredo que a Apparição lhe tinha confiado.
Nesse mês a apparição teve logar no dia dezanove, no sitio chamado dos Vallinhos, quando as creanças já não pensavam que ella se verificasse senão no mês seguinte.
Notas dos editores (1)
1 Este capítulo, com ligeiras alterações, viria a ser publicado em Visconde de Montelo - Os acontecimentos de Fatima, Guarda, Empresa Veritas, 1923, p. 7-10; cf. também DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, p. 161-162 (texto reformulado). A partir da p. 162 até à p. 164, o texto é inteiramente novo, escrito para o Relatório da Comissão Canónica
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Maria do Carmo, de quarenta e sete annos de edade, natural do logar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco annos que soffria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os symptomas caracteristicos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estomago e nos intestinos. Em principios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinario. Eram continuas e difficeis de supportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta d'ár. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe immenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no utero. Definhava e emmagrecia a olhos vistos. Trez meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr á cabeça nenhum objecto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe occasionava. Tinha com frequencia vontade de vomitar, embora não vomitasse.
Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, augmentavam as dores de cabeça. As dores de estomago quasi que não lhe permittiam dormir. Para não passar peor comia muito pouco.
Sustentava-se exclusivamente ou quasi exclusivamente de leite.
Uma tosse funda e secca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os visinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ella propria não deixava approximar de si os filhos com medo do contagio. Um individuo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar proximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a duvidas que ella estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do anno proximo findo. Debalde procurou lenitivo para os seus incommodos nos recursos da medicina. Pobre como era e não havendo medico senão a alguns kilometros de distancia, na Batalha, só alli foi uma vez com o marido consultar o distincto e habil clinico dr. Padrão. Os remedios que esse facultativo receitou não lhe produziram allivio algum.
Nestas circunstancias não alimentava nenhumas illusões ácerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa occasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do paiz, a nova consoladora de que a Virgem Santissima desde o mez de maio precedente apparecia todos os mezes no dia treze a umas humildes creancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria” pertencente á freguezia de Fatima, concelho de Villa Nova d'Ourem, a sete leguas de distancia de Maceira. Um clarão de suave esperança illuminou subitamente o seu espirito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fatima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa. Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empreza uma verdadeira temeridade, oppoz-se á sua ida. “Nós somos pobres, dizia elle á mulher, não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efectuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciencia, mas não te deixo ir”.
Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava immenso quando caminhava, por pouco que fôsse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possue um pequeno predio rustico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem numero de vezes á beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuindo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalavel confiança, accedeu ás suas porfiadas instancias e resolveu-se a acompanhá-la. Veio finalmente o dia treze de Agosto, tão ardentemente esperado. Á uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou varias vezes no percurso.
Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das apparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ella, segundo a sua propria expressão, era uma dôr. Alguns instantes depois, com grande surpreza, experimentou notaveis allivios.
Sentou-se á sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e alli se conservou até ás tres horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como á ida.
De dia para dia as melhoras accentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos solidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de Setembro voltou pela segunda vez a Fatima, não lhe causando a viagem tanto incommodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia resava o terço do Rosario tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando attenção ás conversas das pessoas que a acompanhavam.
A partir desse dia melhorou ainda mais.
Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos difficuldade á fazenda. A treze de Outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar á Fatima surprehendeu-a a memoravel chuva torrencial que assignalou aquelle dia de outomno. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das apparições. As dores desappareceram para não mais voltar. A intumescencia do ventre e dos membros superiores e inferiores desappareceu egualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indegestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incommodo. Não tornou a sentir falta d'ar. Trabalha muito e pode por á cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e gosa de excelente saude. Jámais em tempo algum da sua vida, se lembra de ter passado tão bem. No dia treze de novembro foi de novo á Fatima afim de agradecer a sua cura á Virgem do Rosario4.
Notas dos editores (1)
4 Sobre este relato de cura cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918.
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Na manhã do dia treze de maio de 1917, um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas pertencentes a suas famílias, numa propriedade da serra de Minde situada na freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, diocese de Leiria.
A mais velha das três crianças, de nome Lúcia de Jesus, era filha de António dos Santos, que faleceu no ano seguinte1, e de Maria Rosa dos Santos, e contava dez anos de idade. O menino e a outra menina, que eram irmãos, chamavam-se Francisco e Jacinta, tendo aquele nove anos e esta sete anos de idade. Foram seus pais Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. Eram primos da Lúcia. As habitações das duas famílias, que, não sendo ricas, possuíam contudo alguns bens de fortuna, ficavam próximas uma da outra, no lugar de Aljustrel, cerca de um quilómetro da igreja paroquial de Fátima. Nenhuma das crianças sabia ler nem escrever. A sua instrução religiosa era ainda muito rudimentar. Só a Lúcia tinha feito a primeira comunhão.
Aproximava-se naquele memorável dia a hora do meio-dia astronómico. Segundo o seu costume, as três crianças, depois de se terem ocupado durante bastante tempo em inocentes divertimentos, puseram-se a rezar o terço do Rosário, devoção muito querida dos habitantes daquela freguesia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distância delas, a claridade fulgurante de um relâmpago e aparecer quase simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher, de extraordinária beleza. Assustadas com um sucesso tão insólito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilizou completamente a atitude benévola da Aparição, que numa voz dulcíssima prometeu que não lhes faria mal algum.
A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha o que quer que fosse de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana.
Entre a Aparição e a Lúcia estabeleceu-se um diálogo, que durou cerca de dez minutos.
A Jacinta viu a Aparição e ouvia distintamente as palavras que ela pronunciava, dirigindo-se à Lúcia, mas nunca lhe falou nem a Aparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Aparição, não ouvindo nunca o que ela dizia à Lúcia, apesar de se encontrar à mesma distância e possuir um excelente ouvido.
A Aparição convidou nesse dia os três pastorinhos a voltarem todos os meses no dia treze, durante seis meses consecutivos, àquele local, vulgarmente conhecido pelo nome de Cova da Iria e situado a pouco mais de dois quilómetros da igreja paroquial de Fátima, ao lado da estrada distrital de Vila Nova de Ourém à Batalha.
[…]
A Aparição recomendou insistentemente que todos fizessem penitência e rezassem o terço do Rosário. Comunicou às crianças um segredo, que não podiam revelar a ninguém. Prometeu-lhes o Céu.
Pediu que naquele local se erigisse uma capela em sua honra e declarou que no dia treze de outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que ela realmente tinha ali aparecido. Em treze de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou se pelo menos não revelassem o segredo que a Aparição lhes tinha confiado.
Nesse mês a aparição teve lugar no dia dezanove, no sítio chamado dos Valinhos, quando as crianças já não pensavam que ela se verificasse senão no mês seguinte. No dia treze de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o diálogo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol.
Notas dos editores (1)
1 António dos Santos faleceu a 31 de julho de 1919.
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Reproduz-se aqui, em resumo, o relato das aparições.
A Senhora diz que o seu lugar é o Céu, promete a felicidade eterna às três crianças, comunica-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensina-lhes uma pequena oração4, recomenda a Lúcia que aprendam a ler, manda que todos rezem o terço, para que a guerra acabe, anuncia o aparecimento de Nosso Senhor, de S. José com o Menino Jesus, de Nossa Senhora sob as invocações do Rosário, do Carmo e das Dores, recomenda de novo a recitação do terço, declara que a guerra acabava brevemente e no último dia afirma que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens, suplica que não O ofendam mais, insiste mais uma vez em que rezem o terço, declara que ela é a Senhora do Rosário e ordena que se edifique ali uma capela em sua honra. O depoimento da Jacinta confirma, dum modo geral, o depoimento da Lúcia, assim como o do Francisco, que contudo só via a Senhora, não ouvindo nada do que ela dizia a sua prima.
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Mas se me reportava a declarações dos videntes que conservasse de memoria, é-me totalmente impossivel precisar, depois de tantos annos, qual das crianças me assegurou que a cruz do rosario era ou parecia de ouro. Teria sido o Francisco? Teria sido a Jacinta? Não sei. Importa acentuar que a Lucia, assim como os primos, ás vezes diziam ser brancas certas partes do corpo ou certas peças do vestuario da visão por causa da luz clara e brilhante que a envolvia e que quasi lhes cegava os olhos. Pag. 77, Lucia: "É que ella ás vezes cega". Pag. 94, Francisco: "Posso olhar para a cara della, mas pouco, por causa da luz".
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo), entrevistado por A Guarda
Duas pastorinhas e um zagalete afirmaram que uma senhora de incomparavel beleza lhes aparecia no dia treze de cada mês desde Maio a Outubro dêsse ano, fazendo-lhes diversas comunicações, algumas delas de caracter secreto. A Visão, segundo o testemunho das tres creanças, prometeu dizer no dia treze de Outubro quem era e operar nesse dia um prodigio, para que todos acreditassem nas suas palavras, pedindo ao mesmo tempo que erigissem uma capela em sua honra no local das aparições.
Por varias vezes declarou que Deus estava muito ofendido com os pecados dos homens e que graves castigos os ameaçavam, recomendou a todos que fizessem penitencia, aconselhou a recitação frequente do terço e por ultimo disse que era a Senhora do Rosário.
Transmitido por: José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria
A 13 de maio de 1917, três crianças da freguesia da Fátima, vigararia de Ourém, desta Diocese, apascentavam um pequeno rebanho num lugar, então ermo, chamado Cova da Iria.
A mais velha, Lúcia de Jesus, tinha 10 anos de idade, Francisco nove e Jacinta seisa. Estes eram irmãos e a primeira prima deles.
Nenhum sabia ler nem escrever.
Aproximava-se o meio dia e as crianças, conforme o costume da sua terra, rezaram o terço do Rosário de Nossa Senhora.
Terminada a oração, entretinham-se a fazer uma pequenina casa com pedras soltas quando, de repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. Apesar de o céu estar diáfano e sem nuvens, as crianças, com receio de alguma trovoada, juntaram o gado e iam retirar-se. Ao chegarem, porém, perto do ponto onde se encontram atualmente as bicas de água, fuzila novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira no sítio onde está a pequenina e pobre Capela das Aparições, veem, com espanto, o vulto duma Senhora de incomparável formosura, envolvida num vestido de alvura puríssima; um manto, orlado de ouro, cobre-lhe a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma beleza celeste, sobrenatural, apresentava-se sereno, grave e toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário.
De todo o vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz.
As crianças aproximaram-se, travou-se um diálogo entre a Senhora e a mais velha, convidando-os a irem ali todos os dias 13 de cada mês até outubro.
Como consta do testemunho das crianças e de muitas pessoas, as aparições foram seis, todas no dia 13 de cada mês, exceto em agosto que se realizou alguns dias depois por a autoridade administrativa ter as crianças presas em Ourém.
A Senhora disse-lhes que o seu lugar é o céu, confiou-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensinou-lhes uma pequena jaculatória, recomendou a recitação do Rosário, aconselhou a Lúcia a aprender a ler, insistiu na necessidade de oração e penitência para a guerra acabar, afirmou que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens e sobretudo com o pecado da carne, ordenou que se edifique ali uma capela em sua honra e declara que é a Senhora do Rosário...
Notas dos editores (4)
15Mat VII, 15.
16Mat VII, 16, 18.
17Jo X, 37, 38.
a Jacinta tinha já sete anos. A data oficial do nascimento de Jacinta é 11 de março de 1910.
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaPalavras dos videntes
Transmitido por: Pe. José António Marques da Cruz Curado, a partir de informação do Pe. António Augusto Cardoso (Portalegre)
E essa impressão subiu de ponto, quando o rev. Cardoso, de Portalegre4, que durante a visão esteve junto das pastorinhas, nos contou que a mais velha, estando ainda de joelhos junto da carrasqueira, disse para todos que a cercavam: — Olhem agora para o sol! — seguindo-se immediatamente o phenomeno solar.
Notas dos editores (1)
4 Pe. António Augusto Cardoso, da diocese de Portalegre. Tinha por alcunha "Pe. Pistolas". Segundo um depoimento de D. Maria de Lourdes Malato Correia, de Portalegre, de 14 de Novembro de 2000, este padre foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, acompanhado de Maria Francisca Mergulhão, Deodata Amélia Malato, Emília Malato de Noronha e uma sobrinha delas, então com vinte e sete anos, Maria da Encarnação Malato Correia, mãe da autora do depoimento, casada com Joaquim da Cruz Correia.
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaPalavras dos videntes
Transmitido por: Avelino de Almeida
A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez,
[…]
Lucia, a que fala com a Virgem, anuncia, com ademanes teatraes, ao colo de um homem14, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminára15 e que os nossos soldados iam regressar...
Notas dos editores (2)
14 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10).
15 O acento agudo desta palavra está na penúltima sílaba: terminára (pretérito-mais-que-perfeito) e não na última sílaba: terminará (futuro).
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaPalavras dos videntes
Transmitido por: Correspondente não identificado do Diário de Notícias em Vila Nova de Ourém
As crianças levantaram-se, sorridentes, e explicaram aos seus anciosos ouvintes que a “Senhora” lhes dissera que a paz viria breve e que não tardaria o regresso dos nossos bravos soldados que em França se batem heroicamente.
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Pedro Marto (pai de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Ouviu a Jacinta gritar que não a apertassem. A Lúcia disse: “Já cá está!” O povo afirmava ver cores no sol e no céu. O sol não fazia nenhuma impressão à vista. Não ouviu voz nenhuma. Ouviu dizer ou à Lúcia ou a outras pessoas que Nossa Senhora queria que não se ofendesse mais a Nosso Senhor, o qual estava muito ofendido e que a guerra ia acabar.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Joaquim Ramos Pinto
Mas como explicam os descrentes o facto d’aquela creança, segundos antes do fenomeno se produzir, ter dito “Olhem para o sol. É agora”.
[…]
P.S. Uma inexactidão ha no Seculo. A creança não disse que a guerra tinha terminado mas sim ia terminar e brevemente os soldados regressariam a Portugal.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longePalavras dos videntes
Transmitido por: Leonor das Dores Salema Manoel
Puzemos-nos a caminho, e feitos já alguns kilometros d'automovel, a Marianna Ribeira5, que tudo tinha visto, que tinha ouvido o recado da criança (eu não estava bastante perto para ouvir as palavras mas tinha podido vêr que ella vinha fallando muito animada em contraste com o que tinha visto antes como depois te direi) a Marianna diz-me: reparem para o sol que ainda não está normal.
[…]
Aconteceria a mais alguem alem de mim e da Geni14, que lá não vio nada e alguma coisa vio depois, não tanto como eu ia vendo e lhe dizia, ao passo que a Marianna foi das quazi extasiadas!
Notas dos editores (2)
5 Marianna Caetana Rita da Câmara, nasceu a 22 de Maio de 1858, casou a 16 de Agosto de 1877 com Manuel Maria de Castro Lemos de Magalhães Menezes, Senhor da Casa do Covo. Faleceu a 22 de de Novembro de de 1935.
14 Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo, nasceu a 17 de Junho de 1901. Filha de Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein e António Mimoso Brandão de Melo.
Aristocratajovem companheira da autora, de 16 anos
13 out.Testemunho indiretoEm parteCartaVeio de longe
Transmitido por: Leonor das Dores Salema Manoel
Aconteceria a mais alguem alem de mim e da Geni14, que lá não vio nada e alguma coisa vio depois, não tanto como eu ia vendo e lhe dizia, ao passo que a Marianna foi das quazi extasiadas!
Notas dos editores (1)
14 Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo, nasceu a 17 de Junho de 1901. Filha de Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein e António Mimoso Brandão de Melo.
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Domingos Pinto Coelho (A Ordem), a partir de pessoas fidedignas, não identificadas, que ouviram as crianças
Tres pequenos pastores, (um rapaz e duas raparigas) dizem que uma Senhora lhes apparece, d'extrema belleza. As visões teem occorrido nos dias 13 de cada mez a partir de maio.
São rudes as creanças e pouco falladoras. Antes das visões, reaes ou pretensas, respondem com grande difficuldade ás perguntas. Immediatamente depois, fallam com muito mais firmeza e facilidade e dizem pessoas fidedignas, que as ouviram no dia 13 ultimo, que ellas affirmavam ter-lhes n'esse dia apparecido mais uma vez Nossa Senhora recommendando aos fieis que fizessem penitencia e rezassem muito e lhe erigissem uma capella modesta no logar das apparições, promettendo para breve a paz e o regresso dos soldados portuguezes.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaSol a mudar de cor
Transmitido por: Maria Benedita Oriol Pena
As cores extraordinarias que o sol apresentou muitas pessoas as viram (sendo uma d'ellas a minha Tia Camilla) mas eu essas não as posso descrever porque quando o vi n'aquella agitação espantosa, senti uma impressão tão grande que cahi de joelhos e não poude ver mais nada.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: João Maria Lúcio Serra (inspetor escolar, Torres Novas)
Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado.
Cientistahomem de ciência, respeitado no meio universitário de Coimbra
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaVeio de longe
Transmitido por: Ignotus
Pode ficar mesmo certo de que a sciencia e o alto pensamento ali tinham muitos representantes. Pois, sr. Miguel, a uma dessas creaturas que eu conheci em Coimbra e que no meio universitario foi sempre considerado pelo seu saber e pela sua probidade, ouvi estas palavras: "Em presença de factos desta natureza a sciencia tem de confessar-se impotente para explicar um phenomeno semelhante e que a astronomia não tinha previsto".
13 out.Testemunho indiretoCartaVeio de longePalavras dos videntes
Transmitido por: Ana Maria da Câmara
A Antoninha10 consegue vêr uma das pequenas, muito córada, lavada em lagrimas, ao cólo d’um homem e mais tarde esse mesmo homem, um medico11, repete-lhe as palavras da pequenita: N. Sra pede que não offendam mais a N. S., que façam penitencia. Promette para breve o fim da guerra. As mães que rezem e tenham confiança que os soldados estão a voltar. Abençôa todo o povo e pede uma capellinha debaixo da invocação de N. Sra do Rosario.
Notas dos editores (2)
10 Deve tratar-se de Antónia Rafaela da Câmara. Cf. Doc. 259, de 3 de Novembro de 1917.
11 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, que não era médico, mas sim advogado.
13 out.Testemunho indiretoEm parteNotícia de imprensaAtitude céticaVeio de longe
Transmitido por: Correspondente em Lisboa do jornal Liberdade (rubrica «Diario de Lisboa»)
O primeiro é passado com certo magistrado, muito conhecido e alegre, que foi a Ourem por passear e com vaga tenção de se rir da ingenuidade popular. Pois veio de lá impressionadissimo e confirmando, em alta voz, a appariçã
13 out.Testemunho indiretoViuLivroPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos (peregrina presente a 13 de outubro)
A pequena Lúcia disse que Nossa Senhora lhe pedira que fizessm ali uma capela com a invocação da Senhora do Rosário; que a guerra ia terminar; que os soldados portugueses em breve regressariam a suas casas; que se unissem os portugueses e fizessem penitência, pois Deus estava cansado de tantas ofensas; que rezassem o Rosário, a fim de evitar os castigos que pesariam sobre Portugal, se os portugueses se não emendassem.
13 out.Testemunho indiretoCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Clara Gândara e Silva
Recebi a sua pressada cartinha4 que muito lhe agradeço.
Aguardo anciosa as graças; prometidas pela Nossa querida Mãe do ceo5.
Notas dos editores (2)
4 Lúcia terá respondido à carta da mesma autora de a.13 de Outubro de 1917 com uma carta escrita depois da aparição de 13 de Outubro de 1917.
5 Na sua carta, Lúcia terá mandado dizer que tinha feito o pedido a Nossa Senhora, na aparição de 13 de Outubro. No entanto, no interrogatório do pároco de Fátima, a 16 de Outubro de 1917 (cf. DCF, vol. 1, Doc. 6, p. 24), Lúcia, depois de dizer que fez vários pedidos e que Nossa Senhora lhe respondeu que despacharia uns, outros não, acrescentou: "Não fiz nenhum pedido em particular porque então ainda lá estava a fazer pedidos". No depoimento de Lúcia, datado de 6 de Agosto de 1918 e inserido no inquérito paroquial, enviado para o Patriarcado de Lisboa, a 28 de Abril de 1919, não está referida esta frase da vidente no relato da aparição de 13 de Outubro de 1917 (AEL, Documentos de Fátima, I-1D, fl. 8v). Provavelmente a redacção desta carta de Lúcia foi feita por outra pessoa, pois nesta data, Lúcia ainda não sabia escrever. É, no entanto, a primeira alusão a uma carta de Lúcia.
Clerosacerdote da diocese de Portalegre («Pe. Pistolas»), esteve junto dos videntes
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaVeio de longePalavras dos videntes
Transmitido por: José António Marques da Cruz Curado
E essa impressão subiu de ponto, quando o rev. Cardoso, de Portalegre4, que durante a visão esteve junto das pastorinhas, nos contou que a mais velha, estando ainda de joelhos junto da carrasqueira, disse para todos que a cercavam: — Olhem agora para o sol! — seguindo-se immediatamente o phenomeno solar.
Notas dos editores (1)
4 Pe. António Augusto Cardoso, da diocese de Portalegre. Tinha por alcunha "Pe. Pistolas". Segundo um depoimento de D. Maria de Lourdes Malato Correia, de Portalegre, de 14 de Novembro de 2000, este padre foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, acompanhado de Maria Francisca Mergulhão, Deodata Amélia Malato, Emília Malato de Noronha e uma sobrinha delas, então com vinte e sete anos, Maria da Encarnação Malato Correia, mãe da autora do depoimento, casada com Joaquim da Cruz Correia.
Visitanteantigo seminarista, católico que perdera a fé
13 out.Testemunho indiretoViuCartaAtitude cética
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão
O Antonio Bastos de Valle de Figueira que foi meu condiscipulo no Seminario tinha perdido a fé e não sabia o que era rezar ha uns bons dez annos. Pois disse-me hoje que pois tendo ido á Fatima muito contrariado unicamente para acompanhar pessoas de familia, troçando de tudo e de todos pello caminho, á vista do prodigio, se converteu, rezou com devoção principiou a rezar o terço todos os dias, e estava-se preparando para fazer uma confissão geral.
Leu os artigos do Pinto Coelho, e convenceu-se em vista do que elle dizia de que tinha sido victima de uma illusão.
13 out.Testemunho indiretoViuArtigo da testemunhaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria José de Lemos Queirós (peregrina presente a 13 de outubro)
Lúcia, de 10 a 11 anos, é que fala; os outros, Jacinta, a mais nova, e Francisco, irmãos um do outro e primos de Lúcia, diziam ter visto uma Senhora muito linda, toda vestida de branco com uma nuvem aos pés.
[…]
A sua aspiração era mais modesta; apenas em muito simples palavras agora afirmavam terem visto uma Senhora muito linda, de mãos postas e vestida de branco, que lhes disse que deviam naquele local mandar construir uma capela com a denominação de Nossa Senhora do Rosário; que se deixassem de ofender a Deus, que já estava de mais ofendido! Que a guerra ia acabar, e que viriam os nossos soldados.
Anteriormente, a mesma Senhora lhes dissera uma coisa que a pastorinha Lucia não pode revelar.
GrupoAristocratafamiliares que estavam ao lado da autora
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVieram de longeSol a girar
Transmitido por: Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein Brandão de Melo
Deux de mes cousines qui étaient près de moi, étaient hors d'elle-même[m]es et affirmaient voir exactment le soleil comme une pièce de feu d'artifice tournant vertigineusement.
Profissionallicenciado, tratado por «doutor», outrora destacado jacobino da terra
13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaAtitude céticaFiguras / visões
Transmitido por: Alfredo de Carvalho
Um ilustre doutor da minha terra, que foi já a mais fina flor do jacobinismo local, dizem-me, que gritava como um possesso, mãos cruzadas, olhos em alvo "Lá vai a Virgem! Lá vai". E não me admiro se o homem a viu.
Fomos a casa do Prior, que não estava, appareceu-nos a irmã, (que se vê ser de familia humilde mas muito sympathica); disse-nos ter visto tambem os signaes no sol
Notas dos editores (3)
1 Lugar da freguesia de Favaios, concelho de Alijó, distrito de Vila Real.
2 Sobre este documento, não conseguimos mais elementos de informação.
3 Este documento pertencia à mãe de Maria da Assunção Vaz Pato, de nome Maria da Assunção Tinoco Lobo Vaz Pato, e foi-lhe oferecida por Maria de Lourdes de Almeida Neto Navarro Silva, sobrinha-neta do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Neto.
Visitantecético, descrito como um dos piores de Alenquer
13 out.Testemunho indiretoViuCartaAtitude céticaVeio de longeFiguras / visões
Transmitido por: Beatriz Gorjão
Calcula por isso o meu espanto quando vindo hontem aqui uma rapariga que esteve em Alemquer, me disse disse, que tendo ido a Fatima um homem de Alemquer muito incredulo e dos peores de lá, veiu impressionadissimo e descrevendo a toda a gente as coisas extraordinarias que viu e que affirma ter visto o Menino Jesus e S. José. — Ninguem o acredita, coitado, porque para lá ninguém sabe que realmente appareceu a Sagrada Familia. — Terá N. Senhora concedido a esse homem, essa grande graça para a sua conversão?
Profissionalfidalgo (identificado pelos editores), com a mulher, Maria da Nazaré
13 out.Testemunho indiretoCarta
Transmitido por: Beatriz Gorjão
O Emilio Infante21 e Nazareth22 estiveram em Fatima no dia 13; o Emilio cahiu de joelhos a chorar, e diz que se soubesse que havia outra apparição não faltaria lá, ainda que tivesse que apanhar tanta chuva como apanhou agora!
Notas dos editores (2)
21 Pensamos que seja Emílio Infante da Câmara (neto). Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 20.
22 Maria da Nazaré Almeida Centeno. Esposa de Emílio Infante da Câmara. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 20.
Jornalistafilho de Gonçalo Xavier de Almeida Garrett
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longe
Transmitido por: Maria Joaquina Tavares de Proença de Almeida Garrett
Creio lhe fez muita impressão o que vio e talvez no intimo lhe fizèsse algum bem, mas o que disseram a V. Exa não é infelizmente exacto. Não houve a conversão que eu tanto desejo e peço a Deus, d'elle se mostrar e sêr, um christão practico sem respeitos humanos. Quanto ao exterior ficou o mesmo que era.....
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Pe. Francisco Brás das Neves, coadjutor da Freixianda, por intermédio de Lúcia
Outrossim declara: que, encontrando-se de novo com ela, Lúcia, no dia oito do corrente mês de dezembro, e sendo-lhe feita a observação de que a guerra não tinha acabado no dia designado nem tão pouco até àquela data, pela mesma foi respondido que talvez se tivesse enganado, pois que a sua companheira Jacinta dissera que Nossa Senhora havia dito por sua vez que a guerra acabaria, sim, mas se o povo se emendasse.
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longeSol a girar
Transmitido por: Maria Joaquina de Proença Garrett
Só hoje o mandriao do meu filho, me entregou o relatorio que lhe havia pedido me fizesse do que vira em Fátima. Falta-lhe uma cousa que por lapso deixou de escrever, que vira a rotação do scl por 3 veses.
Transmitido por: Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos
Fui procurar meus irmãos que me disseram ter presenciado o mesmo, assim como as restantes pessoas que encontrei, variando um tanto as descrições do que observaram no sol.
Profissionalamigo do depoente, de Vale de Figueira
13 out.Testemunho indiretoDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos
Quase no momento da partida encontrei o meu amigo Emílio Infante da Câmara que me disse ter ido ver as pastoras e que estas tinham dito: que a guerra acabaria brevemente, ou que acabaria de ali a oito dias (não posso precisar). Disse-me também que elas estavam vestidas com “toiletes” de primeira Comunhão.
13 out.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos, por intermédio de Emílio Infante da Câmara
Quase no momento da partida encontrei o meu amigo Emílio Infante da Câmara que me disse ter ido ver as pastoras e que estas tinham dito: que a guerra acabaria brevemente, ou que acabaria de ali a oito dias (não posso precisar). Disse-me também que elas estavam vestidas com “toiletes” de primeira Comunhão.
13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Segundo as declarações da vidente Lúcia de Jesus, profetizara com meses de antecedência uma tríplice aparição da Santíssima Virgem, no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, a Rainha do Céu manifestou-se nesse dia memorável sucessivamente sob três invocações diferentes, a do Rosário, a das Dores e a do Carmo.
Grupofamiliares do autor (entre eles o filho, José Maria)
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVieram de longeNuvem / coluna de fumo
Transmitido por: Gonçalo de Almeida Garrett
É a manifestação da columna de fumo, similhante à do insenso, no local, em Fatima, momentos antes das Apparições da Virgem ás creanças, em todas as seis apparições, nos dias e horas previamente marcados.
Na apparição de outubro houve muitas testemunhas da manifestação de fumo.
Grupofamiliares do autor (entre eles o filho, José Maria)
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVieram de longeNuvem / coluna de fumo
Transmitido por: Gonçalo de Almeida Garrett
Expliquei como se deu o facto, do fumo, momentos antes das apparições predittas, principalmente na ultima, a que assistiu minha familia e mais pessoas, que viram a manifestação do fumo por 3 vezes, antes d’essa apparição extraordinaria de 13 de outubro.
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Um homem do povo dirige-se a mim e conta-me a traços largos a interessante história da sua cura. Chama-se António de Oliveira Dias, tem 58 anos de idade e reside no lugar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas. Sofria, havia doze anos, duma faringite crónica, rebelde a todo o tratamento. Os médicos eram de opinião que nunca se curaria radicalmente. Em treze de outubro de 1917 tinha vindo à Fátima e presenciado o estupendo fenómeno solar.
Gente da terramulher tuberculosa de 47 anos, curada na Cova da Iria
13 out.Testemunho indiretoNotícia de imprensaCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão
Uma é de Maria do Carmo, de 47 anos, do logar do Arnal, freguezia de Maceira, distrito de Leiria, tuberculosa, curada no dia 13 de Outubro de 1917, no proprio local das aparições. A sua cura constituiu um motivo de assombro para os habitantes daquela populosa freguezia que julgavam essa pobre creatura irremediavelmente perdida e com vida apenas para alguns dias.
Gente da terramulher do Arnal, Maceira, de 47 anos; afirma ter sido curada
13 out.Testemunho indiretoLivroCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (como Visconde de Montelo)
Maria do Carmo, de 47 anos de idade, do lugar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, tuberculosa, achou-se curada no dia 13 de outubro de 1917, no próprio local das aparições. A sua cura foi um motivo de assombro para todos os habitantes de Maceira, que julgavam a pobre senhora irremediavelmente perdida e com vida apenas para alguns dias.
Gente da terrahomem de Assentiz (Torres Novas), de 47 anos, que se diz curado
13 out.Testemunho indiretoLivroCura
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (como Visconde de Montelo)
Joaquim Vieira, de 47 anos, de Assentiz, Torres Novas, sofria de antigas e graves enfermidades, estando desenganado dos médicos. Curou-se no dia 13 de outubro de 1917.
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria Carreira)
Em treze de outubro quando a Lúcia disse: “Já lá vem Nossa Senhora, estando uma das filhas da depoente, chamada Maria, em cima de uma pedra, a um metro da azinheira, do lado do nascente, para guardarem o arco para o povo o não estragar, a rapariga sentiu uma pancada na cara, viu uma luz muito bonita ao pé dela e deu um grito dizendo: “Ai! Nossa Senhora!”.
13 jul.13 out.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria de Jesus d'Oriol Pena Raposo
O rapazinho, que é irmão da pequenina Jacintha e primo da Lucia, é que hontem8 me deixou uma optima impressão: olhar muito brilhante, cara muito alegre, muito á vontade, confirmou (a sós é que foi entrevistado por nós) que a Lucia dissera no momento do milagre: Olhem para o Sol
[…]
O pequeno, offerecendo-lhe as pessoas que iam commigo tudo quanto se lembraram, e recusando tudo, acabou por dizer muito enthusiasmado: "Nem que me dêem o mundo".
13 jul.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Beatriz Gorjão (carta copiada textualmente por Anita)
A mesma explicação nos deu a mais velha e o pequenito que depois encontramos. Uma mulherzita perguntou-lhe se em tantas senhoras que viu no dia 13 e entre tantas que a teem visitado, encontrou alguma tão bonita como a senhora do Ceu, a pequena disse que tão bonita nunca viu nenhuma, e o pequeno a quem depois perguntamos o mesmo disse: que tão bonita não havia nenhuma no mundo.
[…]
Ao pequeno ouvi dizer que nem que lhe dessem o mundo inteiro o diriam. Quando lhes perguntam se é mau, dizem que é bom para todos.
[…]
A mesma esperiencia fizemos com o pequeno respondendo sempre como a irmã.
Visitanteirmã, de 20 anos, de Maria Manuel dos Santos, que foi curada
13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaVeio de longe
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
or occasião da ultima apparição de Fatima, a 13 de Outubro de 1917, sua irmã Lucia Maria Anna dos Santos, de 20 annos de edade, que estava a passar o verão no logar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas, em casa de sua prima Amelia Estevão, foi com varias pessoas de familia áquella povoação da serra de Minde e assistiu aos phenomenos maravilhosos que ali se verificaram, pedindo com o maior fervor e na maior afflicção á Santissima Virgem que se dignasse curar a irmã. A cura da irmã era a sua grande preocupação de todos os dias, de todas as horas, de todos os instantes. Era o seu mais ardente desejo, a graça que mais ambicionava, o favor do bem que suplicava com mais vivo empenho e com maior constancia. Já a 13 do mez anterior tinha ido á Fatima e suplicado ardentemente essa graça. Antes desse dia, ainda em setembro, tinha pedido a um primo seu, Julio Netto d'Almeida que não se esquecesse de recomendar a sua intenção ás pastorinhas privilegiadas com as apparições da Virgem. A 13 de Outubro ella propria pediu ás videntes o auxilio de suas orações e prometteu que a irmã iria á Fatima agradecer a sua cura se Nossa Senhora se dignasse favorece-la com essa graça.
Transmitido por: Anna Maria dos Santos, do Caneiro
Seguimos a viagem e quando chegámos á Fatima o Ex.mo Snr. Pedro perguntou pelas pequenas, onde ellas então vinham a sair da escola e depois por mandado da Sn.a professora as meninas chegaram ao pé do carro e falaram com mais pessoas que ali estavam, onde lhe perguntámos com respeito a N. Senhora e ellas afirmaram sempre a mesma cousa, que a viram, ouviram e falaram com ella:
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
R. A pag. 11 affirmo que a apparição parece não ter mais de 18 annos, porque uma vez a mãe da Lucia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a edade da visão, que ella parecia ser como uma rapariga do logar de Aljustrel que estava presente e que já tinha completado 17 annos. A pag. 90 declaro ter dito a Lucia que a Visão parecia ter uns 15 annos, porque realmente o disse, embora fosse uma pequena rude e ignorante, apenas com 10 annos de edade, e incapaz de calcular com exactidão a edade de uma pessoa. De resto, a differença entre uns quinze annos e não mais de dezoito annos não é grande e a expressão que emprego a pag. 90 não só não contradiz nem exclue a affirmação da pag. 11 senão que até a completa e permitte uma maior approximação da verda
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (resumindo o inquérito paroquial do Pe. Manuel Marques Ferreira)
O Franc. morreu no dia 4 de abril de 1919. Recebeu os ult. sac. com grande lucidez e piedade E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Vallinho3.
Notas dos editores (1)
3 O Dr. Formigão resume, nas p. 7-19, o processo paroquial de Fátima, seguindo os depoimentos dos videntes e de outras testemunhas até à declaração final do padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, sobre o falecimento do Francisco. Não publicamos este resumo, pois o processo foi editado, na íntegra, em DCF, vol. I, Docs. 31-37, p. 245-287.
Transmitido por: Manuel Marques Ferreira (aditamento ao inquérito paroquial)
O Francisco – vidente – faleceu às dez horas da noite, do dia 4 de abril corrente, vitimado por uma prolongada ralação de 5 meses da pneumónica tendo recebido os Sacramentos com grande lucidez e piedade – E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho.