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DCF III-1, Doc. 107

17 out. 1917Casa de MateuscartaTeresa Francisca de Melo Breyner de Sousa Tavares e Moura (Condessa de Vila Real)

Teresa Francisca de Melo Breyner de Sousa Tavares e Moura1, escreve a seu filho Fernando de Sousa Botelho e Melo2, sobre os acontecimentos na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917.

A - ASF - AAMM, Núcleo 3, pasta D, doc. 1

Publ.: “Alvoradas”, 23 (21), Abr.-Jun., 1962, p. 23-26.

MARTINS, António Maria, S. J., Fátima, caminho da paz, Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1983, p. 32-34 (ortografia actualizada)

Descrição do documento: duas folhas de papel de carta de quatro páginas, com 19 linhas cada uma.

Casa de Matteus, 17-X-1917.

Meu querido

Fui hontem a Urros, com o Fernando3 e a Maria Theresa4. Ao chegarmos lá, encontrámos na estrada a Maria de Lourdes5, que me disse: “Já sabe da Fatima?”; respondi-lhe que não sabia nada, e ella então disse-me que tinham recebido um telegramma da Maria de Jesus Raposo, dizendo: “Milagre assombroso!” e que estavam anciosas por saber o que se tinha passado. Como sabes, no dia 13 d'este mez devia ter logar a ultima apparição de N. Sra. ás creanças de Fatima, e que estas diziam que a Senhora lhes tinha dito que em Outubro havia de succeder uma cousa, depois da qual já não haveria descrentes. O telegramma da M. de Jesus parecia confirmar que alguma cousa de extraordinario tinha havido.

N'isto chegou o correio com uma carta d'ella para a Piedade7, que esta começou logo alli a ler alto, em que ella lhe contava o que presenceou, juntamente com quarenta mil pessoas, que é o que ella diz terem-se juntado alli n'aquelle dia. Vou-te fazer um resumo do que ella conta. Diz que toda a manhã tinha chovido, mas que perto das duas horas da tarde appareceu o sol atravez das nuvens, e que a essa hora, — que teem sido sempre a das apparições, — vio de repente as pessoas, que rodeavam mais de perto as creanças, voltarem-se e olharem para o sol. Soube depois que a pequena lhes tinha dito que N. Sra. lhe dissera: "manda o povo olhar para o sol". Olharam todos e viram um disco prateado, luminoso mas que se podia fitar sem o mais pequeno esforço, que ella compara com um espelho pequeno, destacar-se ou sobrepôr-se ao sol e começar descendo com um movimento de rotação, parar, e recomeçar com o mesmo movimento. Em volta d'este disco, uma nuvem linda, ora côr de rosa, ora amarella, ora roxa, que coloria as caras dos circumstantes e tudo quanto os rodeava, e em volta d'isto, o horizonte como que limitando-se n'um circulo amarello, em volta do qual uns arcos todos eguaes e a egual distancia uns dos outros, que ella representa assim

Este phenomeno foi presenciado por toda aquella multidão, porque já alguns jornaes, como o Diario de Noticias, o Dia e a Ordem o contam por testemunhas oculares. Acabada a apparição, as pequenas contaram que N. Sra. lhes tinha apparecido com S. José e o Menino Jesus à direita, e lhes tinha dito que queria que alli lhe erigissem uma pequena capella, que aquellas apparições eram uma prova de que protegia Portugal, mas que era preciso que todos rezassem e fizessem penitencia, porque senão uma grande castigo cairia sobre Portugal. Que a guerra acabaria em breve, mas sobre este ponto a carta é um pouco confusa, por isso não te posso repetir o que ella diz. Disse tambem que era N. Sra do Rozario. Tudo isto a pequena repetio em voz sonora e pausada, sem mostrar o menor embaraço por se ver rodeada de milhares de pessoas. E a mais pequena, que tem seis annos, mesmo separada da outra, disse exactamente a mesma cousa, sem se desdizer n'um só ponto. Ahi tens o que se passou, e que talvez já tenhas visto descripto nos jornaes.

As conclusões, cada um pode tirar as que quizer. Se realmente as apparições foram verdadeiras, a verdade ha de se impôr de qualquer forma. Mesmo que os phenomenos celestes que acompanharam a ultima visão possam ser explicados pela sciencia, resta a coincidencia verdadeiramente notavel de se terem produzido n'aquelle dia e áquella hora exacta, e de terem sido annunciados com muita antecipação por estas palavras: que em Outubro succederia uma cousa, depois da qual já não haveria descrentes. A M. de Jesus diz que um impio se converteu alli mesmo, gritando: "eu creio, eu creio, eu creio!". Eu não sei o que dava para ter assistido a esta extraordinaria scena. E as d' Urros, que podiam ter ido, que estiveram para ir, e que afinal não foram! Agora estão arrependidissimas.

Tive hoje a primeira carta do meu afilhado13, que afinal parece que é irmão d'um que tem a alcunha do “manhoso”, e que vende carne de porco em Mangualde. A Maria Rita14 tambem teve carta do d'ella. Eu já lhe mandei perguntar quanto custa a viagem. Já me tinha lembrado de escrever à Sophia Burnay15 a esse respeito, mas duvido que ella possa dar alguma cousa para isso, por serem tantos, que não havia dinheiro que chegasse. Em todo o caso vou tentar. Parece que elles só pagam a passagem em Hespanha, que o resto é por conta do governo.

Não posso escrever mais, porque já é tardissimo. Espero que continues tão bem como dizes. Era optimo se pudésses ainda cá vir passar um tempo.

Abraço-te ternamente

Me e mr amga

Teresa

P.S. Pequenos16, optimos, graças a Deus.

Notas dos editores

1 Condessa de Vila Real e de Melo, nasceu a 8 de Abril de 1848 em Lisboa; casou a 8 de Maio de 1868 com José Luís de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos (nasceu em Lisboa a 23 de Setembro de 1843, faleceu a 8 de Dezembro de 1923). Tiveram três filhos.
2 Nasceu a 31 de Janeiro de 1870 em Lisboa, viveu a maior parte do tempo na Quinta de Almojanda, em Portalegre. Faleceu, em Lisboa, em 1928.
3 Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque, Conde de Mangualde, genro da autora da carta. Nasceu em Salvaterra de Magos a 14 de Março de 1874. Foi oficial de artilharia e Governador Civil do Porto. Casou a 18 de Julho de 1900 com Maria Teresa de Sousa Botelho e Melo. Faleceu, em Mangualde, a 31 de Outubro de 1932.
4 Filha da autora e irmã do destinatário da carta. Esposa de Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque. Condessa de Mangualde, de Vila Real e de Melo. Nasceu em Lisboa a 3 de Agosto de 1871 e faleceu, em Lisboa, a 5 de Setembro de 1947.
5 Maria de Lurdes de Mendonça Amaral Leitão. Nasceu em Mateus a 5 de Agosto de 1891. Casou em 1928 com Fernando de Sousa Botelho Leitão.
7 Maria da Piedade de Mendonça Amaral, mãe de Maria de Lurdes de Mendonça Amaral Leitão. Proprietária da Casa de Urros, em Mateus, a 500 metros da Casa de Mateus.
13 Trata-se de afilhados de guerra.
14 Maria Rita de Sousa Botelho de Albuquerque. Nasceu em Lisboa a 5 de Abril de 1908. Foi Religiosa da Congregação de S. Vicente de Paulo.
15 Condessa de Mafra.
16 Trata-se dos netos da autora da carta e sobrinhos do destinatário, filhos de Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque e de Maria Teresa de Sousa Botelho e Melo, Condes de Mangualde (Francisco de Sousa Botelho de Albuquerque, Maria Rita de Sousa Botelho de Albuquerque e Maria Teresa de Albuquerque da Costa Cabral).
Aparato crítico e remissões (7)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

6 Cf. Doc. 105, de 17 de Outubro de 1917, nota 1.
8 q corr. mas
9 Doc. 71, de 13 de Outubro de 1917.
10 Riscou e.
11 Doc. 88, de 15 de Outubro de 1917.
12 Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917.
17 No original, gr. a D.
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