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DCF III-1, Doc. 107
A - ASF - AAMM, Núcleo 3, pasta D, doc. 1
Publ.: “Alvoradas”, 23 (21), Abr.-Jun., 1962, p. 23-26.
MARTINS, António Maria, S. J., Fátima, caminho da paz, Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1983, p. 32-34 (ortografia actualizada)
Descrição do documento: duas folhas de papel de carta de quatro páginas, com 19 linhas cada uma.
Casa de Matteus, 17-X-1917.
Meu querido
Fui hontem a Urros, com o Fernando3 e a Maria Theresa4. Ao chegarmos lá, encontrámos na estrada a Maria de Lourdes5, que me disse: “Já sabe da Fatima?”; respondi-lhe que não sabia nada, e ella então disse-me que tinham recebido um telegramma da Maria de Jesus Raposo, dizendo: “Milagre assombroso!” e que estavam anciosas por saber o que se tinha passado. Como sabes, no dia 13 d'este mez devia ter logar a ultima apparição de N. Sra. ás creanças de Fatima, e que estas diziam que a Senhora lhes tinha dito que em Outubro havia de succeder uma cousa, depois da qual já não haveria descrentes. O telegramma da M. de Jesus parecia confirmar que alguma cousa de extraordinario tinha havido.
N'isto chegou o correio com uma carta d'ella para a Piedade7, que esta começou logo alli a ler alto, em que ella lhe contava o que presenceou, juntamente com quarenta mil pessoas, que é o que ella diz terem-se juntado alli n'aquelle dia. Vou-te fazer um resumo do que ella conta. Diz que toda a manhã tinha chovido, mas que perto das duas horas da tarde appareceu o sol atravez das nuvens, e que a essa hora, — que teem sido sempre a das apparições, — vio de repente as pessoas, que rodeavam mais de perto as creanças, voltarem-se e olharem para o sol. Soube depois que a pequena lhes tinha dito que N. Sra. lhe dissera: "manda o povo olhar para o sol". Olharam todos e viram um disco prateado, luminoso mas que se podia fitar sem o mais pequeno esforço, que ella compara com um espelho pequeno, destacar-se ou sobrepôr-se ao sol e começar descendo com um movimento de rotação, parar, e recomeçar com o mesmo movimento. Em volta d'este disco, uma nuvem linda, ora côr de rosa, ora amarella, ora roxa, que coloria as caras dos circumstantes e tudo quanto os rodeava, e em volta d'isto, o horizonte como que limitando-se n'um circulo amarello, em volta do qual uns arcos todos eguaes e a egual distancia uns dos outros, que ella representa assim
Este phenomeno foi presenciado por toda aquella multidão, porque já alguns jornaes, como o Diario de Noticias, o Dia e a Ordem o contam por testemunhas oculares. Acabada a apparição, as pequenas contaram que N. Sra. lhes tinha apparecido com S. José e o Menino Jesus à direita, e lhes tinha dito que queria que alli lhe erigissem uma pequena capella, que aquellas apparições eram uma prova de que protegia Portugal, mas que era preciso que todos rezassem e fizessem penitencia, porque senão uma grande castigo cairia sobre Portugal. Que a guerra acabaria em breve, mas sobre este ponto a carta é um pouco confusa, por isso não te posso repetir o que ella diz. Disse tambem que era N. Sra do Rozario. Tudo isto a pequena repetio em voz sonora e pausada, sem mostrar o menor embaraço por se ver rodeada de milhares de pessoas. E a mais pequena, que tem seis annos, mesmo separada da outra, disse exactamente a mesma cousa, sem se desdizer n'um só ponto. Ahi tens o que se passou, e que talvez já tenhas visto descripto nos jornaes.
As conclusões, cada um pode tirar as que quizer. Se realmente as apparições foram verdadeiras, a verdade ha de se impôr de qualquer forma. Mesmo que os phenomenos celestes que acompanharam a ultima visão possam ser explicados pela sciencia, resta a coincidencia verdadeiramente notavel de se terem produzido n'aquelle dia e áquella hora exacta, e de terem sido annunciados com muita antecipação por estas palavras: que em Outubro succederia uma cousa, depois da qual já não haveria descrentes. A M. de Jesus diz que um impio se converteu alli mesmo, gritando: "eu creio, eu creio, eu creio!". Eu não sei o que dava para ter assistido a esta extraordinaria scena. E as d' Urros, que podiam ter ido, que estiveram para ir, e que afinal não foram! Agora estão arrependidissimas.
Tive hoje a primeira carta do meu afilhado13, que afinal parece que é irmão d'um que tem a alcunha do “manhoso”, e que vende carne de porco em Mangualde. A Maria Rita14 tambem teve carta do d'ella. Eu já lhe mandei perguntar quanto custa a viagem. Já me tinha lembrado de escrever à Sophia Burnay15 a esse respeito, mas duvido que ella possa dar alguma cousa para isso, por serem tantos, que não havia dinheiro que chegasse. Em todo o caso vou tentar. Parece que elles só pagam a passagem em Hespanha, que o resto é por conta do governo.
Não posso escrever mais, porque já é tardissimo. Espero que continues tão bem como dizes. Era optimo se pudésses ainda cá vir passar um tempo.
Abraço-te ternamente
Me e mr amga
Teresa
P.S. Pequenos16, optimos, graças a Deus.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (7)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.