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DCF III-1, Doc. 89

15 out. 1917Lisboanotícia de imprensaCorrespondente do Diário de Notícias em Vila Nova de Ourém

O jornal "Diário de Notícias", publica uma correspondência de Vila Nova de Ourém, datada do próprio dia 13, sobre o que se passou na Cova da Iria. Data de redacção: 13 de Outubro de 1917.

Publ.: "Diário de Notícias", Lisboa, 53 (18650) 15 Out. 1917

O "MILAGRE" DE FÁTIMA

Mais de 50 mil pessoas acorrem ao local da aparição.

Vila Nova de Ourem, 13.— Apesar da chuva miudinha e impertinente que começou a cair logo de manhã, extraordinario numero de pessoas acorreu á freguesia de Fátima para presencear o caso extraordinario da aparição que desde quinta feira de Ascenção tem ocupado a atenção destes povos e atraído áquela localidade milhares e milhares de peregrinos de todas as classes sociais e sexos.

Já ante-ontem3 começaram a passar por esta vila ranchos de homens e mulheres, que com toda a devoção e crença, entoando canticos e resando o terço, se dirigiam para o local onde o "milagre" se devia repetir pela ultima vez, conforme as declarações dos três pastorinhos, a quem Nossa Senhora se dignou aparecer várias vezes, como eles dizem, nos dias 13 desde aquela data.

Para se poder imaginar a afluencia de pessoas, vamos dar uma nota dos veículos que nos foi possivel contar: Carros, 240; bicicletas, 135; automoveis para cima de 100. Esta estatistica representa apenas o numero de veículos que regressou por esta vila.

A anciedade pela hora do coloquio, 13 horas, era manifesta.

Embora a chuva continuasse a fustigar aquela multidão ninguem arredou pé do local previlegiado. Precisamente aquela mesma hora os três pastorinhos, cujos nomes são Lucia, Jacinta e Francisco, chegaram ao lugar preciso, postando-se imediatamente de joelhos sob um arco “adrede” arranjado, assim como um altar que junto foi levantado.

A sugestão tomou imediatamente aqueles milhares de crentes e curiosos. Como grande numero de pessoas tivesse os guarda-chuvas abertos, os pequenos mandaram fecha-los, e coisa extranha, segundo testemunho de milhares e milhares de pessoas, o sol apareceu com uma côr de prata fosca, numa agitação circular como se fosse tocado pela electricidade, segundo a expressão empregada por pessoas ilustradas que presencearam o facto.

E milhares de pessoas sugestionadas, e quem sabe mesmo se ofuscadas pela propria luz do sol que durante o dia aparecia pela primeira vez, cairam por terra chorando e levantando para o alto as mãos, que instintivamente juntavam.

Nos seus rostos notava-se um embevecimento estatico que denotava um absoluto alheiamento da vida. Choravam e rezavam as suas almas simples, perante a estranha sensação dum facto que para eles, naquele momento, era milagroso. Pessoas houve mesmo segundo ouvimos a algumas, que lhes pareceu ver o sol abandonar a sua ficticia orbita, romper as nuvens e descer no horisonte. A sugestão destes videntes estendia-se a outros a quem eles explicavam o fenomeno, e por esse motivo, muitas prégando que o astro rei viria precipitar-se no solo, preromperam em altos gritos, impetrando a protecção da Virgem.

A “hora milagrosa” passára.

As crianças levantaram-se, sorridentes, e explicaram aos seus anciosos ouvintes que a “Senhora” lhes dissera que a paz viria breve e que não tardaria o regresso dos nossos bravos soldados que em França se batem heroicamente. No local eram vendidos postaes com os retratos das ingenuas crianças.

Os peregrinos, após aqueles momentos de anciedade, regressaram a suas casas, desejosos de contar aos que não tiveram a felicidade de ir ao local santo, o que os seus olhos e principalmente as suas almas crentes, haviam com tanto deslumbramento presenciado.

Notas dos editores

3 Dia 11 de Outubro de 1917, Quinta-feira.
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 71, de 13 de Outubro de 1917, nota 1.
2 Cf. Doc. 71, de 13 de Outubro de 1917, nota 2.
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