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Correspondente não identificado do Diário de Notícias em Vila Nova de Ourém

Jornalista

Correspondente anónimo do diário lisboeta Diário de Notícias em Vila Nova de Ourém. A sua notícia, datada de 13 de outubro de 1917, atribui à sugestão as reações da multidão.

Residência: Vila Nova de OurémA região em redor1 relato · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho diretoEm parteNotícia de imprensaAtitude céticaA multidãoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairPalavras dos videntes

Vila Nova de Ourem, 13.— Apesar da chuva miudinha e impertinente que começou a cair logo de manhã, extraordinario numero de pessoas acorreu á freguesia de Fátima para presencear o caso extraordinario da aparição que desde quinta feira de Ascenção tem ocupado a atenção destes povos e atraído áquela localidade milhares e milhares de peregrinos de todas as classes sociais e sexos.

Já ante-ontem3 começaram a passar por esta vila ranchos de homens e mulheres, que com toda a devoção e crença, entoando canticos e resando o terço, se dirigiam para o local onde o "milagre" se devia repetir pela ultima vez, conforme as declarações dos três pastorinhos, a quem Nossa Senhora se dignou aparecer várias vezes, como eles dizem, nos dias 13 desde aquela data.

Para se poder imaginar a afluencia de pessoas, vamos dar uma nota dos veículos que nos foi possivel contar: Carros, 240; bicicletas, 135; automoveis para cima de 100. Esta estatistica representa apenas o numero de veículos que regressou por esta vila.

A anciedade pela hora do coloquio, 13 horas, era manifesta.

Embora a chuva continuasse a fustigar aquela multidão ninguem arredou pé do local previlegiado. Precisamente aquela mesma hora os três pastorinhos, cujos nomes são Lucia, Jacinta e Francisco, chegaram ao lugar preciso, postando-se imediatamente de joelhos sob um arco “adrede” arranjado, assim como um altar que junto foi levantado.

A sugestão tomou imediatamente aqueles milhares de crentes e curiosos. Como grande numero de pessoas tivesse os guarda-chuvas abertos, os pequenos mandaram fecha-los, e coisa extranha, segundo testemunho de milhares e milhares de pessoas, o sol apareceu com uma côr de prata fosca, numa agitação circular como se fosse tocado pela electricidade, segundo a expressão empregada por pessoas ilustradas que presencearam o facto.

E milhares de pessoas sugestionadas, e quem sabe mesmo se ofuscadas pela propria luz do sol que durante o dia aparecia pela primeira vez, cairam por terra chorando e levantando para o alto as mãos, que instintivamente juntavam.

Nos seus rostos notava-se um embevecimento estatico que denotava um absoluto alheiamento da vida. Choravam e rezavam as suas almas simples, perante a estranha sensação dum facto que para eles, naquele momento, era milagroso. Pessoas houve mesmo segundo ouvimos a algumas, que lhes pareceu ver o sol abandonar a sua ficticia orbita, romper as nuvens e descer no horisonte. A sugestão destes videntes estendia-se a outros a quem eles explicavam o fenomeno, e por esse motivo, muitas prégando que o astro rei viria precipitar-se no solo, preromperam em altos gritos, impetrando a protecção da Virgem.

A “hora milagrosa” passára.

As crianças levantaram-se, sorridentes, e explicaram aos seus anciosos ouvintes que a “Senhora” lhes dissera que a paz viria breve e que não tardaria o regresso dos nossos bravos soldados que em França se batem heroicamente. No local eram vendidos postaes com os retratos das ingenuas crianças.

Os peregrinos, após aqueles momentos de anciedade, regressaram a suas casas, desejosos de contar aos que não tiveram a felicidade de ir ao local santo, o que os seus olhos e principalmente as suas almas crentes, haviam com tanto deslumbramento presenciado.

Notas dos editores (1)

3 Dia 11 de Outubro de 1917, Quinta-feira.

DCF III-1, Doc. 89 · notícia de imprensa · 13 out. 1917 · também publicado em DCF III-1, Doc. 154Digitalizações (2)Ligação
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