Explorar / Relato

Maria Eugénia Braancamp Sobral da Câmara · 13 de outubro de 1917

Aristocrataaristocrata (filha dos Condes de Sobral), mulher de Vasco Cabral da Câmara
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girar

Apezar dos jornaes já terem contado eu repetirei o que eu vi e o Tio Vasco e todos os que foram comigo, assim como todos os que comnosco falláram.

Começo por dizer que foi um espectaculo imponente e comevedor ver ali reunidas 50000 pessoas de todas as edades e de todas as classes sociaes animados da mesma fé, sem pensarem, nem se preocuparem com a chuva e horrorosa lama, sem haver o mais pequeno desastre nem desordem tudo no maior socêgo respeito e comoção. Não conseguimos chegar ao pé da carvalheira porque já lá estava muita gente desde a vespera mas, ficámos perto, embóra não podéssemos ver a attitude das pequenas, do que tenho muita pena. Pouco antes da hora a que devia apparecer Nossa Senhora, parou a chuva como por encanto e descobrio o sol, que pouco depois se tornou a encobrir, parecia um aviso. Pouco depois reparámos n'uma cousa que nos impressionou, foi ver as cáras das pessoas que estavam defronte de nós com sombra do lado de onde estava o sol (embóra encoberto) e illuminadas do lado opposto, isto é onde estava a carvalheira! Não quéro dizer com isto que visse nenhum clarão, que isso não vi. Quando estávamos reparando n'isso, assim como n'um certo fumo ou nevoeiro que se via por cima das cabeças das pessôas que estavam lá perto, fazia impressão ouvir os côros que entoavam todos de differentes lados, e pouco a pouco todos se fôram descobrindo. De repente torna a apparecer o sol começam todos a virar-se e em exclamações, nós resistimos algum tempo mas tanto insistiram que olhámos e vimos que se podia fitar o sol sem custo nenhum. Estava uma rodella branca, parecia uma hostia de repente transformou-se n'uma rodella prêta, cercada por um circulo dourado e essa rodella preta começa a andar de roda sobre si mesmo, e deitando de tempos a tempos raios luminosos ou para melhor dizer relampagos.

Tornou-se outra vez a fazer branca e depois cobrio-se d'uma nuvem doirada! — Não calculas os arrepios que fazia pela espinha; a comoção o que choraram o que éram as exclamações!

Notas dos editores (2)

1 Maria Eugénia Braancamp Sobral da Câmara (Eugénia Mello Breyner Braancamp da Câmara), filha dos Condes de Sobral, Luis de Melo Breyner e Adelaide Braancamp Sobral de Almeida Castelo Branco de Narbonne-Lara. Casou com Vasco Cabral da Câmara.

2 Maria do Carmo Figueiredo Cabral da Câmara. Filha dos Condes de Belmonte, José Maria de Figueiredo Cabral da Câmara e Maria das Necessidades de Siqueira.

DCF III-1, Doc. 196 · carta · 27 out. 1917 (2 semanas depois)Digitalizações (3)
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