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DCF III-1, Doc. 196
27 out. 1917, Alagôa (Carcavelos)
A - ASF - Documentos de 1917. Oferecido ao Santuário de Fátima pelo Eng. Augusto da Câmara Siqueira, através da sua irmã, Ir. Ma Cecília, OP, em 1992.
Publ.: MARTINS, António Maria, S. J. - Fátima caminho da paz, Porto, Liv. Apostolado da Imprensa, 1983, p. 39-41.
Descrição do documento: Duas folhas de papel de carta, de quatro páginas cada, que numeramos recto e verso, com 17 linhas. As páginas 4 e 4v estão em branco. Por baixo da palavra "Alagôa" foi escrito, a lápis, e com caligrafia diferente: (Carcavelos)
Alagôa 27-X-917
Querida Maria do Carmo,
Desculpa só hoje vir responder á tua carta, mas não me foi possivel fazel-o mais cêdo. Vim tão impressionada e tão encantada com o que vi que o meu desejo foi escrever logo a todos, e a minha pena foi que não estivéssem todos lá! mas apezar da minha boa vontade mil cousas me teem tirado o tempo, e só hoje, repito, posso pegar na pena. Apezar dos jornaes já terem contado eu repetirei o que eu vi e o Tio Vasco e todos os que foram comigo, assim como todos os que comnosco falláram.
Começo por dizer que foi um espectaculo imponente e comevedor ver ali reunidas 50000 pessoas de todas as edades e de todas as classes sociaes animados da mesma fé, sem pensarem, nem se preocuparem com a chuva e horrorosa lama, sem haver o mais pequeno desastre nem desordem tudo no maior socêgo respeito e comoção. Não conseguimos chegar ao pé da carvalheira porque já lá estava muita gente desde a vespera mas, ficámos perto, embóra não podéssemos ver a attitude das pequenas, do que tenho muita pena. Pouco antes da hora a que devia apparecer Nossa Senhora, parou a chuva como por encanto e descobrio o sol, que pouco depois se tornou a encobrir, parecia um aviso. Pouco depois reparámos n'uma cousa que nos impressionou, foi ver as cáras das pessoas que estavam defronte de nós com sombra do lado de onde estava o sol (embóra encoberto) e illuminadas do lado opposto, isto é onde estava a carvalheira! Não quéro dizer com isto que visse nenhum clarão, que isso não vi. Quando estávamos reparando n'isso, assim como n'um certo fumo ou nevoeiro que se via por cima das cabeças das pessôas que estavam lá perto, fazia impressão ouvir os côros que entoavam todos de differentes lados, e pouco a pouco todos se fôram descobrindo. De repente torna a apparecer o sol começam todos a virar-se e em exclamações, nós resistimos algum tempo mas tanto insistiram que olhámos e vimos que se podia fitar o sol sem custo nenhum. Estava uma rodella branca, parecia uma hostia de repente transformou-se n'uma rodella prêta, cercada por um circulo dourado e essa rodella preta começa a andar de roda sobre si mesmo, e deitando de tempos a tempos raios luminosos ou para melhor dizer relampagos.
Tornou-se outra vez a fazer branca e depois cobrio-se d'uma nuvem doirada! — Não calculas os arrepios que fazia pela espinha; a comoção o que choraram o que éram as exclamações!
A minha Adelaide4 que conseguio fallar á pequena, ouvio-lhe dizer que Nossa Senhora lhe tinha dicto que éra a Senhora do Rozario, que queria lhe fizéssem ali uma capella que se arrependessem porque porque estavam offendendo muito a Deus, que a guerra acabava bréve e que esperassem pelos nossos soldados que voltam bréve! — Eis tudo o que sei é pequena é feia, pouco sympatica e com um feitio muito simplório; mas falla muito firme e nunca se desdiz.
Muito obrigada pelos registos da Senhora da Nazareth diz-me quanto te dêvo e se poderes arranjar-me mais 6 ou 12 muito te agradeço.
Mil saudades nossas a todos e adeus que não tenho mais tempo, um grande abraço
Da tua Tia muito amiga
Eugenia
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (4)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.