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DCF III-1, Doc. 228

29 out. 1917Lisboanotícia de imprensaAvelino de Almeida

Reportagem sobre o milagre de Fátima, publicada na revista "Ilustração Portuguesa".

Publ.: "Ilustração Portugueza", Lisboa, II série, (610), 29 Out. 1917, p. 353-356.

O MILAGRE DE FÁTIMA

(Carta a alguem que pede um testemunho insuspeito)2.

Quebrando um silencio de mais de vinte anos e com a invocação dos longinquos e saudosos tempos em que convivemos n'uma fraternal camaradagem, iluminada então pela fé comum e fortalecida por identicos propositos, escreves-me para que te diga, sincera e minuciosamente, o que vi e ouvi na charneca de Fátima, quando a fama de celestes aparições congregou n'aquele desolado ermo dezenas de milhares de pessoas mais sedentas, segundo creio, de sobrenatural do que impelidas por mera curiosidade ou receosas de um logro... Estão os catolicos em desacordo sobre a importancia e a significação do que presencearam. Uns convenceram-se de que se tinham cumprido prometimentos do Alto; outros acham-se ainda longe de acreditar na incontroversa realidade de um milagre. Foste um crente na tua juventude e deixaste de sel-o. Pessoas de familia arrastaram-te a Fátima, no vagalhão colossal d'aquele povo que ali se juntou a 13 de outubro. O teu racionalismo sofreu um formidavel embate e queres estabelecer uma opinião segura socorrendo-te de depoimentos insuspeitos como o meu, pois que estive lá apenas no desempenho de uma missão bem dificil, tal a de relatar imparcialmente para um grande diario, O Seculo, os factos que diante de mim se desenrolassem e tudo quanto de curioso e de elucidativo a eles se prendesse. Não ficará por satisfazer o teu desejo, mas decerto que os nossos olhos e os nossos ouvidos não viram nem ouviram coisas diversas, e que raros foram os que ficaram insensiveis á grandeza de semelhante espectaculo, unico entre nós e de todo o ponto digno de meditação e de estudo...

* * *

O que ouvi e me levou a Fatima? Que a Virgem Maria, depois da festa da Ascenção, aparecera a tres crianças que apascentavam gado, duas mocinhas e um zagalete, recomendando-lhes que orassem e prometendo-lhes aparecer ali, sobre uma azinheira, no dia 13 de cada mez, até que em outubro lhes daria qualquer sinal do poder de Deus e faria revelações. Espalhou-se a nova por muitas leguas em redondez; voou, de terra em terra, até os confins de Portugal, e a romagem dos crentes foi aumentando de mez para mez, a ponto de se juntarem na charneca de Fátima, em 13 de outubro, umas cincoenta mil pessoas consoante os calculos de individuos desapaixonados. Nas precedentes reuniões de fieis, não faltou quem tivesse suposto vêr singularidades astronomicas e atmosfericas que se tomaram como indicio da imediata intervenção divina. Houve quem falasse de subitos abaixamentos de temperatura, da scintilação de estrelas em pleno meio dia e de nuvens lindas e jámais vistas em torno do sol. Houve quem repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitencia, que pretendia a ereção de uma capela n'aquele local, que em 13 de outubro manifestaria, por intermedio de uma prova sensivel a todos, a infinita bondade e a omnipotencia de Deus...

Foi assim que, no dia celebre e tão anciado, afluiram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam leguas ao sol e á chuva, outras que se transportaram em variadissimos vehiculos, desde os quasi pre-historicos até os mais recentes e maravilhosos modelos de automoveis, e ainda muitissimas que suportaram os incomodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quaes, para percorrer hoje relativamente pequenas distancias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados n'um sonho, dirigirem-se, de vespera, para o sitio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo d'eles é á recitação cadenciada do terço do Rosario, sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quasi repentina do tempo, quando as bategas de agua transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçães e ás doçuras do outono sucederam, por um dia, os asperrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida á volta da pequenina arvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para os guardar como reliquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogenea concorrencia de carros e pessoas atravancou n'aquele dia memoravel, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturaes, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponencia... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam os camponios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhel-as as demonstrações do mais intenso carinho por parte d'aquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora do "milagre", a hora do "sinal sensível", a hora mistica e suspirada do contacto entre o céu e a terra...

E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacifica multidão animada pela mesma obcessiva idéa e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei —disco de prata fosca— em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superficie solar...

Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sabios? Não curo agora sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi ... O resto é com a Ciencia e com a Egreja...

Avelino de Almeida

[Legendas das fotografias]

Varios aspectos do povo ajoelhado e orando no momento de descobrir o sol e de se dar o fenomeno que tanto impressionou a multidão5.

1.- O povo abrigando-se sob os seus guarda-chuvas, em torno do local do milagre6

2.- Olhando para o céu e esperando a maravilha7

3.- Um grupo em que um velho ceguinho talvez espera recuperar a vista8

4.- A multidão, apertando-se em torno do sitio do milagre, onde se vê um portico rustico, começa a olhar para o ceu, á espera do sinal de Deus9.

O povo ora ajoelhado e olhando o alto10.

As tres crianças que dizem ter a Virgem falado com elas11.

O povo procurando aproximar-se da azinheira santa12

("Clichés" Benoliel13).

Notas dos editores

2 Trata-se de António Bastos, antigo seminarista, companheiro de Avelino de Almeida no Seminário. Cf. REIS, Sebastião Martins dos - Na órbita de Fátima - Rectificações e achegas, Évora, 1958, p. 23.
5 Fotografia do Doc. 64, de 13 de Outubro de 1917
6 Fotografia do Doc. 57, de 13 de Outubro de 1917
7 Fotografia do Doc. 62, de 13 de Outubro de 1917
8 Fotografia do Doc. 61, de 13 de Outubro de 1917
9 Fotografia do Doc. 59, de 13 de Outubro de 1917
10 Fotografia do Doc. 63, de 13 de Outubro de 1917
11 Reprodução da fotografia distribuída em estampa no dia 13 de Outubro de 1917 (cf. Doc. 51, de 13 de Outubro de 1917).
12 Fotografia do Doc. 58, de 13 de Outubro de 1917
13 O fotógrafo do dia 13 de Outubro de 1917 foi Judah Bento Ruah (cf. introdução aos Docs. 56 a 68, de 13 de Outubro de 1917)
Aparato crítico e remissões (3)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 225, de 28 de Outubro de 1917, nota 2.
3 Cf. Doc. 71, de 13 de Outubro de 1917, nota 2.
4 Sic, por e.
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