Explorar / Relato

Avelino de Almeida · 13 de outubro de 1917

JornalistaO Século (diário anticlerical), antigo seminarista
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarMovimento em ziguezagueSol a mudar de cor

Foi assim que, no dia celebre e tão anciado, afluiram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam leguas ao sol e á chuva, outras que se transportaram em variadissimos vehiculos, desde os quasi pre-historicos até os mais recentes e maravilhosos modelos de automoveis, e ainda muitissimas que suportaram os incomodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quaes, para percorrer hoje relativamente pequenas distancias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados n'um sonho, dirigirem-se, de vespera, para o sitio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo d'eles é á recitação cadenciada do terço do Rosario, sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quasi repentina do tempo, quando as bategas de agua transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçães e ás doçuras do outono sucederam, por um dia, os asperrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida á volta da pequenina arvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para os guardar como reliquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogenea concorrencia de carros e pessoas atravancou n'aquele dia memoravel, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturaes, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponencia... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam os camponios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhel-as as demonstrações do mais intenso carinho por parte d'aquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora do "milagre", a hora do "sinal sensível", a hora mistica e suspirada do contacto entre o céu e a terra...

E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacifica multidão animada pela mesma obcessiva idéa e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei —disco de prata fosca— em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superficie solar...

Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sabios? Não curo agora sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi

DCF III-1, Doc. 228 · notícia de imprensa · 29 out. 1917 (2 semanas depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 273; DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (4)
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