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DCF III-1, Doc. 273
Índice (9 secções)
depois de 8 nov. 19171, Lisboa
Helio de Lysia2 publica um folheto sobre o milagre de Fátima.
Publ.: LYSIA, Helio de — O Milagre de Fátima, Lisboa, editor: C. E. Campos, 1917, 20 págs.
Um dos exemplares que possuímos desta publicação está anotado pelo Pe. Sebastião Martins dos Reis, com actualização da ortografia. O Pe. Martins dos Reis reeditou este opúsculo na sua obra: O Milagre do Sol e o Segredo de Fátima (1966), justificando-o do seguinte modo: “Porque integra e ilustra, tanto sob o aspecto informativo como sob o tema ventilado, tudo o que se tem vindo a dizer, não resisti a inserir aqui, como complemento ou suplemento imediato, actualizando-lhe a ortografia, a preciosa raridade bibliográfica que é o MILAGRE DE FÁTIMA, trazido a lume por Hélio de Lísia, logo e já na primeira quinzena de Novembro de 1917. Mais do que a útil presença do infelicissimo artigo, escandalosamente oportunista, do Dr. Domingos Pinto Coelho, bastaria o magistral artigo de António Sardinha, O Milagre de Fátima, n’A Monarquia, de 8 de Novembro de 1917, para justificar a nova publicação do opúsculo. O lúcido pensador e fogoso doutrinador do Integralismo Lusitano está à altura de si mesmo, pulverizando, com lógica certeira e irresponsável, as presunções e pretensões do cientismo simiesco dos ídolos e bonzos que pontificavam na praça pública. Lamenta-se, apenas, não ter sido possível cotejar a talvez deficiente reprodução de agora com o texto primitivo original...” (p. 63).
Foi-nos fornecida pelo Sr. Pinharanda Gomes, uma fotocópia de uma página do livro O Occultismo e a guerra, onde se pode ler o seguinte: “A Frazão de Vasconcelos como preito de estima e admiração ofte Helio de Lysia (Ed. Metzner) Lx. -IV-918”.
[capa] O Milagre de Fátima
(Explicação do maravilhoso acontecimento de 13 de Outubro de 1917)
Teoria do Milagre. — Aparições
celebres. — O Milagre de Fátima
e os Catholicos. — Um caso de
sugestão coletiva? — O que dizem os psicologos. — Ocultismo.
Preço 25 cent.
Editor: C. E. Campos
TYP. CESAR PILOTO
Largo de S. Roque, 11 e 12
LISBOA
HELIO DE LYSIA
O Milagre de Fátima
(Explicação do maravilhoso acontecimento
de 13 de Outubro de 1917)
Teoria do Milagre. — Aparições
celebres. — O Milagre de Fátima
e os Catholicos. — Um caso de
sugestão coletiva? — O que dizem os psicologos. — Ocultismo.
Editor: C. E. Campos
TYP. CESAR PILOTO
Largo de S. Roque, 11 e 12
LISBOA
TEORIA DO MILAGRE
Milagre é todo o fenómeno que, impressionando extraordinariamente os nossos sentidos, infringe, ao mesmo tempo, as leis da natureza. É assim que, pouco mais ou menos, é definido nos livros canónicos.
Não discutimos.
O dogma é inviolavel. É impenetravel á nossa inteligencia e, como um grande poeta disse, se
o horisonte é infinito, o olhar humano é estreito, (1)5 quedemo-nos na insignificancia de miseros habitantes deste globo sublunar, olhando para o misterio como um camponio para uma equação algébrica.
Têm sucedido nos nossos dias acontecimentos assás perturbadores que têm lançado a revolução no campo cientifico e alarmado os sábios aferrados ás teorias materialistas.
O magnetismo, o espiritismo, casos de telepatia, sonhos, aparições, profecias, etc., vêm projectar clarões de assombro no espirito aos cientistas modernos.
O que será isto? O quê: o limiar de Eleusis continua inacessivel aos profanos, o veu de Isis ainda não se fendeu de alto a baixo, revelando os sigilos acrosóficos da natureza?
Existe o milagre — como afirmam os católicos? Não existe — como asseveram os negativistas de quasi todas as escolas filosóficas?
Será o milagre uma infração das leis naturais ou somos nós que as ignoramos, e o milagre é, portanto, absolutamente determinado por leis fixas, imutaveis e eternas, como a da gravidade ou gravitação universal?
Formidavel problema! Quem nos elucidará convenientemente sobre a estranha teoria do milagre?
Se o homem — o microcosmos, — se não conhece a si proprio, como é que se atreve a tentar profundar os segredos do Cosmos e do Macrocosmos? Porque é que, não respondendo ao desafio do distico inscrito no pórtico de Delfos, pretende, como Icaro atrevido, alar-se a esferas superiores onde a inteligencia humana se perde?
O milagre! Que espantoso óbice diante da filosofia!... Ha casos que parecem rialmente inexplicaveis... Quem explica, por exemplo, o caso de Fátima, recentemente sucedido, e que muita gente reputa de milagre?
A que categoria pertence um acontecimento desta natureza?
Alteração das leis naturais?
Misterio, maravilha, milagre e...
Digam lá os sábios da Escritura
que segredos são estes da natura,
como cantou Camões diante dos fenomenos que presenciou na contemplação da sua gloriosa odisseia maritima.
H. de L.
APARIÇÕES CELEBRES
Aparição de N. Senhora de La Salette (Isére)
19 de Setembro de 1846.
Na vespera da festa de Nossa Senhora das Dores, duas crianças, que guardavam um rebanho, — Melania, de catorze anos e Maximino, de onze, — viram, subitamente, cêrca do meio dia, uma senhora cercada duma auréola resplandecente.
A extraordinaria aparição era uma mulher formosissima, irradiando fulgurações.
Chorava...
As suas lágrimas luminosas, caindo na terra, em vez de a molharem, desapareciam como traços de fogo, como rápidas scentelhas.
A fronte, envolta n'um circulo luminoso, resplandecia coroada de rosas.
Trazia uma avental de oiro sobre um vestido recamado de pérolas.
Esta radiosa aparição não projectava sombra alguma no solo.
Falou aos pastorinhos, anunciando-lhes que era a Virgem.
Ha, neste caso, três pontos a descriminar:
1º A manifestação que, por si propria, encerra já um sentido;
2º As censuras que proferiu, relativamente á decadencia moral do seculo;
3º O segredo da Salette.
A Nossa Senhora fizera compreender tão bem ás crianças a gravidade deste sigilo, que, durante um certo tempo, se levantaram sérias dificuldades para a sua revelação, não excluindo o pontifice romano, Pio IX, que se exprimia a proposito:
A França está ameaçada de flagelos eminentes. Ela, porém, não é a unica culpada: a Alemanha, a Italia, toda a Europa, são culpadas, e merecem a punição.
.....
E, depois de varias considerações, terminava:
Deus proporcionará a paz ao mundo; os bons terão a recompensa dos seus esforços; a grande bandeira branca fluctuará sobre o mundo inteiro.
Aparição da Virgem [de] Obermaeurbach (Baviera), 1848
Nova aparição da Virgem a um pastorinho.
O vidente observou que se aproximava dele uma senhora que vestia uma toga cintilante, trazendo na fronte uma corôa de oiro mais deslumbrante que a luz solar.
As lágrimas, como pérolas rutilas, deslizaram-lhe pelas faces.
Ao chegar junto do zagal, disse-lhe: "Não posso evitar os grandes flagelos com que o Senhor vai fulminar a humanidade... Só tem, como unico remedio, fazer, imediatamente, penitencia para escaparem á colera de Deus... Se assim não procederem, a morte fulminal-os-ha terrivelmente por meio d'uma guerra de exterminio entre os povos.
Aparição da Virgem de Lourdes
De Fevereiro a Julho de 1858.
Bernadette Soubirous, uma rapariguita de 14 anos, filha d'um moleiro, foi a um bosque próximo da casa em que habitava para apanhar lenha seca, quando, repentinamente, á hora do meio dia, contemplou uma aparição magnificente que a deslumbrou.
— Diante dela, de pé, uma senhora vestida de luz, duma indescritivel beleza...
Passados quinze dias uma multidão enorme afluiu ao local, observando Bernadette em extase.
Este espectaculo emocionante produziu efeitos retumbantes; e, entre varios casos que se conhecem, é digno de registar-se a conversão d'um funcionario público que era ateu.
— A aparição radiosa repetiu a Bernadette esta palavras:
“Penitencia! Penitencia! Penitencia!
No dia seguinte, na gruta até então adusta e que é hoje famosa, nascia uma fonte, — primeiramente um fio de agua que foi engrossando sempre, transformando-se n'um caudal miraculoso.
Coincidencia curiosissima: no dia em que brotou agua na rocha de Lourdes, a Igreja recitava, precisamente, as seguintes palavras:
... As Aguas presentiram a sua vinda e estremeceram.
O Milagre de Fátima
É um dos casos mais sensacionais que têm impressionado o espirito das multidões este extraordinario acontecimento que fez reunir no dia 13 de outubro próximo transacto, no lugar de Fátima, para cima de cincoenta mil almas, segundo referem os jornais.
A historia é simples.
Três zagais, um rapaz e duas raparigas, contam que, a partir de 13 de maio, do corrente, uma Senhora de deslumbrante beleza lhes aparecia, coincidindo com este fenomeno alguns signais no ceu, principalmente, na fotósfera do sol.
Antes, porém, de emitirmos a nossa modesta opinião ácerca de tão singular acontecimento, é necessario que sejam lidos os depoimentos de alguns jornalistas, testemunhas presenciais do facto, dando o primeiro lugar ao sr. Dr. Domingos Pinto Coelho que n'A Ordem, (Ano II.— Nº 507 —de terça-feira 16 de outubro de 1917), faz a seguinte descrição imparcial do caso de Fátima:
“A Igreja Catholica tem-se constantemente mostrado de extrema exigencia na apreciação das provas, antes que consinta em estabelecer o caracter milagroso de qualquer facto ou serie de factos”.
“Em Lourdes, por exemplo, os extasis de Bernadette eram bem visiveis sobre a sua physionomia; a inteira sinceridade da pequenina pastora era patente, a sua narração das aparições era notavel de clareza e de uniformidade, o apparecimento da nascente era um facto palpavel, diversas curas extraordinarias pareciam confirmar a virtude da agua, o dr. Dozous, medico incredulo (perdôe-nos o leitor se trocamos o nome) verificára o phenomeno de chama da vela ardendo alguns minutos em contacto com uma das mãos da vidente sem lhe interessar a epiderme — e a Igreja mantinha-se silenciosa e reservada”.
“Tão silenciosa e reservada e recommendando tanta reserva aos seus ministros, que por alguns catholicos mais fogosos chegou a ser criticada”.
“D'esta attitude só a Igreja consentiu em apartar se quando — sem pressa — os seus multiplos inqueritos se fecharam com esta conclusão: as leis naturaes são absolutamente insufficientes para explicar muitos factos occorridos: o caracter sobrenatural d'estes impõe-se, pois, rigorosamente”.
“Em Fátima que ha? Que tem havido?”
“Tres pequenos pastores, (um rapaz e duas raparigas) dizem que uma Senhora lhes apparece, d'extrema belleza. As visões teem occorrido nos dias 13 de cada mez a partir de maio”.
“São rudes as creanças e pouco faladoras. Antes das visões, reaes ou pretensas, respondem com grande difficuldade ás perguntas. Immediatamente depois, fallam com muito mais firmeza e facilidade e dizem pessoas fidedignas, que as ouviram no dia 13 ultimo, que ellas affirmavam ter-lhes n'esse dia apparecido mais uma vez
Nossa Senhora recommendando aos fieis que fizessem penitencias e rezassem muito e lhe erigissem uma capella modesta no logar das aparições, promettendo para breve a paz e o regresso dos soldados portuguezes”.
“Coincidindo com as apparições e como que a corroboral-as, dizem os que no local teem estado nos dias 13 dos mezes passados, que, no ceu e sobretudo no sol, se teem manifestado signaes extraordinarios”.
“Do que, a este ultimo respeito, occorreu no recente dia 13, sabbado, podemos nós testemunhar, porque lá estivemos, não como peregrino, note-se bem, mas como curioso”.
“Das 11 á uma e meia a chuva foi constante e impelida por vento forte; um tempo francamente agreste e desagradavel que a enorme multidão de muitos milhares de pessoas supportou d’excellente humor, sem outro abrigo mais que os chapeus de chuva e os vehiculos — pois não se descortina nas immediações uma só edificação”.
“Uma hora e 37 minutos e meio — o meio dia solar — era a hora annunciada da visão, com a qual se esperava coincidissem os phenomenos no ceu”.
“A essa hora continuava chovendo”.
“Minutos depois, a chuva diminuiu e quando era uma e tres quartos cessou por completo”.
“O sol, até então encoberto, mostrou-se entre nuvens que corriam com certa velocidade. E como era variavel a densidade d’estas, mais ou menos diaphano era o veu que ellas punham sobre o astro-rei”.
“Como toda aquella multidão, olhámos então para o sol com attenção sustentada e, atravez das nuvens, vimol-o com aspectos novos: novos para nós, note-se bem”.
“Umas vezes rodeado de chammas encarniçadas, outras vezes areolado de amarello ou roxo esbatido, outras vezes parecendo animado de velocissimo movimento de rotação, outras vezes, ainda, apparentando destacar-se do ceu, approximar-se da terra e irradiar um forte calor...”
“Para que, negal-o? Estes phenomenos que jámais tinhamos visto, impressionaram-nos fortemente. Estabelece-se, nas multidões, uma psychologia collectiva. E, na sua grande generalidade, sobre aquella multidão perpassava uma grande onda de fé, que fortemente commovia”.
“Uma duvida nos restava, porém”.
“O que viramos no sol é cousa excepcional? Ou reproduzir-se-hia em circumstancias analogas?”
“Ora precisamente esta analogia de circumstancias proporcionou-se-nos hontem. Pudemos ver o sol meio toldado de nuvens, como no sabbado. E sinceramente: — vimos as mesmas successões de cores, o mesmo movimento rotativo, etc”.
“(Entre parenthesis é dever nosso prevenir o leitor de que não repita a experiencia: diz-nos um medico que, sob a luz, demasiado forte, do sol, as pupillas se contrahem por forma tal que, ás vezes, não tornam a dilatar-se. E então... ponto final sobre tamanho horror!)”.
“Eliminado, pois, o unico facto extraordinario, que fica?”
“Por ora, as affirmações de tres creanças e mais nada.”
“É muito pouco”.
“Serão as creanças sinceras? Nenhuma razão temos para duvidar d’isso; antes a sua rusticidade nos é uma garantia.”
“As historias tétricas de exploradores da crendice popular que hajam suggestionado os pastoritos com mysteriosos fins de ganancia, pedimos licença para as não crer sem provas. Desejam os espiritos fortes que não creiamos sem provas? Está muito bem. Mas com egual direito exigiram d’aquelles que em tudo veem malfeitorias de jesuitas, aquellas mesmas provas que elles tanto nos pedem, mas de que para uso da sua maledicencia tão facilmente prescindem”.
“Em summa, voltámos de Fátima n’aquelle mesmo estado d’espirito em que para lá fôramos — na duvida”.
“Ha milagre, ha apparições? É possivel”.
“Mas da possibilidade á realidade dista um abysmo”.
“Continuemos, pois, na expectativa, benevola, se quizerem, mas nada mais”.
“E seja-nos permittido aconselhar ás pessoas que pela sua situação e intelligencia possam influir em quem as rodeia, que não excedam esse limite”.
“Nós comprehendemos muito bem, porque o partilhamos, o desejo vehemente d’ellas, de que se confirmasse que a Virgem Santissima, nossa Padroeira e Mãe dos filhos d’esta Terra de Santa Maria, mais uma vez olhára para ella com predilecção. Mas... nada d'imprudencias. Não auctorisemos a que se diga que cremos sem base em factos milagrosos".
"Não é isso o que a Egreja nos manda".
"Em assumpto de tanta consequencia, sejamos filhos d'uma obediencia prompta e completa".
Depois de lido o excerto, que, com a devida vénia, transcrevemos, tem a palavra o erudito sacerdote, rev.º Pe. Vacondeus que assim se exprime in finis d'um artigo publicado no Boletim Parochial, (nº 191 — 4 novembro de 1917).
.....
"Não sendo extraordinario o facto relativo ao sol, fica-nos o testemunho de tres creanças. Parece que de minuciosos inqueritos feitos resalta uma tal parcimonia e verdade que tem impressionado altos espiritos. Todavia, apesar de tudo o que se tem dito e escripto sobre o interessante assumpto devemos ficar n'uma expectativa benevola, esperando os acontecimentos e o estudo dos factos, com prudente reserva. Nem devemos negar a responsabilidade9 de milagres, nem crer, sem provas importantes e sem o juizo da Egreja em tudo o que se diz."
"É a propria Egreja que n'estes casos nos manda ser cautelosissimos. Esperemos, pois, e confiemos que se em Fatima ha obra divina, o Senhor a confirmará de qualquer forma."
Expostas as considerações acima, devidas ás penas de jornalistas catolicos, sentimos tentados, para maior elucidação das gentes, a fazer uma transcrição de algumas passagens de um artigo (2)11 de reportage, inserto na Ilustração Portuguesa (II serie — N.º 610, Lisboa, 29 de outubro de 1917): "O que ouvi e me levou a Fátima? Que a Virgem Maria, depois da festa da Ascenção, aparecera a tres crianças que apascentavam gado, duas mocinhas e um zagalette, recomendando-lhes que orassem e prometendo-lhes aparecer ali, sobre uma azinheira, no dia 13 de cada mez, até que em outubro lhes daria qualquer sinal do poder de Deus e faria revelações. Espalhou-se a nova por muitas leguas em redondeza; voou, de terra em terra, até os confins de Portugal, e a romagem dos crentes foi aumentando de mez para mez, a ponto de se juntarem na charneca de Fátima, em 13 de outubro, umas cincoenta mil pessoas consoante os calculos de individuos desapaixonados. Nas precedentes reuniões de fieis, não faltou quem tivesse suposto vêr singularidades astronomicas e atmosfericas que se tomaram como indicio da imediata intervenção divina. Houve quem falasse de subitos abaixamentos de temperatura, da scintilação de estrelas em pleno meio dia e de nuvens lindas e jámais vistas em torno do sol. Houve quem repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitencia, que pretendia a ereção de uma capela n'aquele local, que em 13 de outubro manifestaria, por intermedio de uma prova sensivel a todos, a infinita bondade e a omnipotencia de Deus...
"Foi assim que, no dia celebre e tão anciado, afluiram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam leguas ao sol e á chuva, outras que se transportaram em variadissimos vehiculos, desde os quasi pre-historicos até os mais recentes e maravilhosos modelos de automoveis, e ainda muitissimas que suportaram os incomodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quaes, para percorrer hoje relativamente pequenas distancias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados n'um sonho, dirigirem-se, de vespera, para o sitio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo d'eles é á recitação cadenciada do terço do Rosario, sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quasi repentina do tempo, quando as bategas de agua transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçaes e ás doçuras do outono sucederam, por um dia, os asperrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida á volta da pequenina arvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para os guardar como reliquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de
Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogenea concorrencia de carros e pessoas atravancou n'aquele dia memoravel, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturaes, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponencia... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam os camponios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhel-as as demonstrações do mais intenso carinho por parte d'aquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora do "milagre", a hora do "sinal sensivel", a hora mistica e suspirada do contacto entre o céu e a terra..."
"E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacifica multidão animada pela mesma obcessiva idéa e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei — disco de prata fosca — em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superficie solar..."
"Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sabios? Não curo agora de sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciencia e com a Egreja..."
Tem a palavra a Ciencia.
Fale a Religião.
Mas, precisamente no momento em que traçamos estas linhas, um amigo chama a nossa atenção para um editorial da Monarquia (ano I — N.º 223 — Lisboa, 8 de novembro de 1917), artigo do sr. dr. Antonio Sardinha, um dos mais fulgurantes talentos da moderna geração, que, á luz da Fé e da Ciencia, explica o espantoso caso de Fátima.
"Raison et bon sens ne sufisent pas!" — já dizia o velho Renan, ajoelhado nos degraus da Acropole. Porque razão e bom senso não é o bastante, ha na vida do homem, na sua actividade interior, para além do mundo imediato dos sentidos, um outro mundo vasto e rumuroso, onde ele mergulha as raizes mais fundas e mais misteriosas da sua personalidade e com o qual não é pela inteligencia que melhor se pode comunicar. A filosofia moderna, reduzindo a inteligencia a uma mera faculdade compreensiva, dá-nos, ao seu lado e com um alcance maior, um outro agente seguro de conhecimento. Refiro-me á intuição que a psicologia se viu na necessidade de admitir como um processo scientifico de prova, e, sendo por sua obra e graça que, o racionalismo inerte e esteril do século passado não resiste mais ás criticas dum William James e dum Henri Bergson."
"O caso recente de Fatima, pondo em sobresalto a mentalidade oficial do regime, enquanto as legitimas autoridades eclesiasticas o não examinem e julguem, no seu significado religioso, importa para nós como um principio de interrogação, cuja fórmula será esta: — se em face da sciencia, e fóra de toda a influencia teologica, o Milagre é um facto aceitavel e possivel. Não nos socorramos, assim daqueles argumentos de ordem sobrenatural que, como crentes na omnipotencia dum Deus-Creador nos apresentam logo a possibilidade plena do Milagre. Encaremos antes o problema por outro aspecto, — pelo aspecto positivo e concreto, das realidades quotidianas, partindo comesinhamente da simples observação dos acontecimentos para a força oculta que os haja de determinar."
"Só em Portugal o materialismo predomina ainda nos espiritos que uma meia-tintura intelectual faz presumir de cultos. Crê-se ainda aqui na continuidade da Materia, admitindo-se como um dogma a antiga concepção estatica do universo, regida não sei porque leis inflexiveis e automaticas, anteriores a toda e qualquer causa impulsora e como tal consciente."
"Daí um certo ateismo profissional, concedendo fóros de livre-espirito a quem semiescamente o declame como a ultima palavra da sciencia. Pretende-se deste modo estabelecer entre a sciencia e a religião uma irreductabilidade que não existe no fundo. Sciencia e religião não se excluem, por que são diversos os seus fins, como diversos são por natureza os fenomenos sobre que se exerce a sua ação. O pragmatismo, dilimitando e definindo o alcance da razão, veiu reabilitar as razões de Paschal, que são as chamadas razões do coração. Como ha uma ordem intelectual nas coisas da vida, ha tambem uma ordem afectiva, a que a intuição corresponde como meio de experiencia scientificamente, a inteligencia intervem então, não para resolver só por si as questões que a intuição abrange na sua orbita mais larga, mas para as proclamar e contraprovar como verdades reconhecidas.”
“O erro fundamental do racionalismo baseia-se, pois, no orgulho da inteligencia, que nega por sistema, sempre que não consegue explicar.”
“As manifestações elevadas do misticismo entraram por essa via no capitulo das fantasias inverosimeis, quando se não qualificavam comodamente de autenticos produtos patologicos. É outro hoje o rumo do pensamento. A inteligencia, restringida apenas á apreciação do mundo material, sobre o qual incide por intermedio dos sentidos é constrangida a admitir a exigencia15 de outras realidades, que, por não serem tangiveis, são, no entanto, mais que sensiveis. A nossa epoca é uma epoca de revisão scientifica. E, quanto á indole da sciencia em si, nós temos que concluir com Brunetière e que ela não é de fórma nenhuma uma solução de vida. Se o mundo fisico é susceptivel de se tornar o seu dominio, escapa-lhe por inteiro o mundo moral. Ora é exactamente no mundo psiquico que a religião actua como senhora dos vastos campos da consciencia.”
“Eis o que a filosofia contemporanea acentua como seu principal mandamento. Depois que o metodo intuicionista foi alevantado com tanta nobreza por sabios como Henri Poincaré, que vemos nós senão a sciencia, mudada de deusa omnipotente numa modesta hipotese que a experiencia se encarrega de confirmar? Os proprios fundamentos em que a sciencia constituida se repousa são seriamente atingidos pelo revisionismo contemporaneo. A geometria, por exemplo. Repousando-se na noção eclidiana das tres dimensões, Poincaré a denuncia como deficiente, senão insubsistente, visto já hoje a sciencia se ver na necessidade de trabalhar com uma outra dimensão, — o tempo, que é bem a “quarta dimensão” dos ocultistas e que a inteligencia, por não a solidificar, não tem direito por isso só a impugna-lo. O que sucede com a geometria sucede com a noção de materia, tida como indestructivel e eterna. Ao contrario do simplismo scientifico do seculo findo, Gustave le Bon demonstra-nos a aparição e a morte da materia. A materia decompõe-se, desagrega-se, pulveriza-se e extingue-se, em desmentido formal á celebre lei de Lavoisier, pela qual na natureza nada se cria, nem nada se perde e tudo se transforma.”
“Assente a dissociação da materia, Gustave Le Bon ensina-nos assim que as suas partes primordiaes são geradas por uma como que condensação de energia. A energia, antecedendo a materia, é toda a conceção estatica do universo desfeita no ar. Por isso não nos admiremos que Reinke, naturalista alemão, apresentasse os organismos vivos como governados por uma dupla categoria de forças: — forças materiaes obedecendo ás leis da energetica geral, e forças espirituaes inteligentes que Reinke apelida de “dominantes”. Assim, scientificamente, o materialismo é por todos os modos um “contra-senso biologico”, como, com precisão vigorosa, lhe chama o Docteur X*** no seu notabilissimo livro “Les conflits de la science et les idées modernes”.
“Numa maquina não ha só um conjunto de peças, — escreve Dastre, agora falecido; ha atrás dele a finalidade que o seu inventor lhe atribuiu ao predispô-las num sentido determinado. As energias despendidas no seu funcionamento são governadas pelo fim a que se propõe, isto é, pelas dominantes saídas da inteligencia do constructor.” Outro tanto, e com motivos centuplicados, acontece com a vida. Deixa de se encarar debaixo do ponto de vista estatico para nas condições da sua genese que se estão reproduzindo continuadamente, se se encarar através de uma compreensão que só debaixo do ponto de vista dinamico nos satisfaz e serve em harmonia com as mais recentes conclusões da sciencia. A energia antecedendo a materia, condensando-se para lhe dar unidade e consistencia, o que é senão a afirmação da força primeira, consciente e omnipotente, que já existia no começo de todas as coisas?
Subordinando-se á disciplina admiravel dos factos, William James, fisiologista e filosofo, confessava que pela comunhão com o ideal uma nova energia entra no mundo e dá origem a fenómenos novos. “É o principio do Credo formulado em outras palavras”—, ponderava ao cirurgião Marsal, o abade Courmont do Sens de la mort. E, efetivamente, as sciencias da observação nos apontam á energia presidindo ao aparecimento de vida que por ela se mantem e dura, a psicologia, instituindo a “terceira experiencia” ou “experiencia religiosa”, reconhece pela boca dum dos mais sinceros sabios do nosso tempo a transformação das condições ordinarias da vida por obra e graça duma energia nova que entram no mundo e vem em nosso auxilio sempre que nos ponhamos em comunhão com essa força mistica que é Deus”, — ideal supremo. Temos assim num caso a Criação, no outro a Incarnação. Credo in verum Deum, factorem coeli et terrae... et in verum Dominum Jesum Christum per quem omnia facta sunt. Qui propter nos homines et propter nostram salutem, descendit de coelis.
Será o testemunho espantoso do dia de amanhã esse de sciencia, acolhendo-se á sombra do santuario, e confessando a sua inteira subordinação é verdade revelada. Já agora as teorias de René Quinton sobre a origem maritima da vida encheu duma actualidade invencivel a passagem da Biblia que nos figura ás vesperas da Criação, o espirito de Deus levado sobre as aguas. Por outro lado, o professor Benedikt, de Vienna, claramente assevera que a ordem de aparição dos seres vivos como no-la desenha o Genesis é a que mais se ajusta com as lições de verdadeira sciencia, daquela que se não tem como fim, mas unicamente como meio. Ninguem pensa com isto em conciliar a Fé com a sciencia. A sciencia é que se inclina diante da Fé e não tardará que ela a adore como mestra soberana da nossa pobre existencia dum momento.
A prova da mudança profunda que a este respeito se opera na inteligencia contemporanea está na discussão realisada em 28 de dezembro de 1911 na Sociedade Francêsa de Filosofia. O tema proposto foi o Milagre, que, afirmado por crentes como Le Roy e Maurice Blondel, esteve bem longe de ser considerado pelos não-crentes como um absurdo infantil e grosseiro. No seu inquerito, hoje célebre, já Agathon declarava, segundo o depoimento insuspeito de Georges Sorel, que de todos os sabios do nosso tempo os matematicos eram os que aceitavam com mais facilidade o dogma catolico!
“Quando se interroga um algebrista, ele responde-nos em geral que o milagre não oferece nada de estranho, porque o milagre comporta a intervenção de dados que não se conhecem”.
“Nada mais carecemos para mostrar quanto o materialismo atingiu o seu declino, não sendo mais de que o patrimonio de meia duzia de semi-analfabetos em quem a inferioridade do raciocinio se inculca como superioridade de espirito. Ainda a William James se deve a reabilitação dos Santos dentro do puro criterio psicologico contra o falso conceito scientifico que os reputava como meros tipos de fenomenologia hospitalar. Reduz-se á mais deploravel das insuficiencias a escola de Charcot incorporando o extasis mistico na flora larguissima das taras nervosas. É preciso julgar a arvore pelos seus fructos. Enquanto “as taras nervosas, enfraquecem e diminuem a alma, o extasi, pelo contrario, a torna mais vigorosa, a fortifica e enobrece”. A experiencia mistica dos santos condu-los á alegria, enquanto que o misticismo dos loucos é triste e aniquilador. “Um exalta, o outro deprime.” Não ha por isso possibilidade alguma de confusão. Por seu turno no Traité de pathologie mentale Ballet ensina-nos ser a fé religiosa sob todas as suas formas uma causa de tranquilidade moral.
“Já lá vão bastantes anos desde que Myers, sem intenções confissionaes, apenas pelo lado experimental, concluia ruidosamente pela sobrevivencia da personalidade humana, depois da desagregação da morte. Paralelamente, aqueles principios em que a sciencia se repouzava ha seculos desfazem-se como bolas de sabão.”
“Assim, Sobatchewski e Riemann, criando uma geometria fóra das bases de Euclides, convencem-nos não ser verdade o teorema que nos dà a soma dos angulos dum triangulo como igual a dois rectos. É menor para Sobatchewski e maior para Riemann. Com razão escrevia Poincaré que tudo era hipotese e que a sciencia não assentava senão numa rede de convenções.”
“Pois se a sciencia, — a sciencia como fim, a sciencia que procura inquirir das causas primarias e se entrega a romanescas explicações do Universo, não é mais que um edificio erguido sobre simples convenções, o mesmo não acontece com os milagres de Lourdes, que são do pão nosso de todos os dias. Não se trata sómente de casos mais ou menos complicados de historia, com motivo na alteração dos centros nervosos. O dr. Boissarie fala-nos da cicatrisação instantanea de fistulas osseas na cara dum doente. O dr. Le Bec, cirurgião-chefe dum hospital de Paris, verificou a cicatrisação dum caso de caria no calcanhar (calcaneum) e dum abcesso revelador de tuberculose vertebral. Três medicos belgas, Hoestenberghe, Royer e Deschamps, relatam-nos a consolidação rapida duma velha fractura de perna, acompanhada de chagas dolorosas. O milagre existe pleno, irrecusavel. Comporta, efectivamente, a intervenção de dados que não se conhecem nem se prevêem.”
“No estado actual da sua mentalidade, é necessário que as aparições de Fatima se tomem assim como uma realidade supra-sensivel, de modo nenhum contestavel pelo proprio espirito scientifico. Até já a aureola resplandente dos santos a sciencia honesta se vê obrigada a justifica-la, desde que a descoberta dos raios nos veiu revelar uma energia luminosa emanando do cerebro e tornando-se mais forte a sua irradiação, quanto mais intenso é o trabalho cerebral. Se o trabalho do cerebro se materealiza assim nos raios, porque é que a elevação mistica, havida por William James como o ponto maximo da vida moral, não se ha de manifestar numa luminosidade mais intensa ainda e mais duradoira? Riamos dos que em nome dum falso naturalismo se insurgem contra o Milagre em si e pretendem nivelar os acontecimentos verdadeiramente prodigiosos de Fatima com a explosão duma crendice baixa e sem resistencia ao mais leve exame.”
“Cumpre ás autoridades eclesiasticas instaurarem o respectivo processo. O sentimento de presença é um sinal poderoso de afirmação divina. Experimentaram-no numa uniformidade admiravel quantos viram o sol empalidecer diante de aquela que vinha qual “a Aurora nascente, mais formidavel de que um exercito bem ordenado”.
“Não estive em Fatima, mas de longe eu creio na assistencia da Virgem á pobre terra de Portugal. Antes que a Igreja o definisse como dogma, não fomos nós dos primeiros que a adoraram no Ministerio da Sua Imaculada Conceição? A minha crença fundamenta-se na voz reflectida da minha consciencia. Tão lamentavel é a incredulidade que cega, como a duvida que a escandaliza. O visivel não é mais que a expressão bem limitada do indivisivel. Para além do mundo imediato dos sentidos, um mundo ha, mais amplo e mais insondavel, que a inteligencia mal adivinha e de que só a Fé nos entrega o segredo. Como no epitafio do medico de Padua, a sciencia, de senhora tornada escrava, ensina-nos apenas a não ignorar a nossa ignorancia. Por isso, para edificação dos incredulos e dos precavidos, se a humildade do espirito é o caminho aberto para Deus, repitamos com o velho Renan, ajoelhados nos degraus da Acropole, que “raisons et bon sense ne suffisent pas”.
CONCLUSÕES
Que devemos, pois, concluir, depois da edificante leitura de tão interessantes documentos?
Será o milagre de Fátima uma mistificação ou ter-se-hão passado os factos tais como os descrevem as testemunhas presenciais?
Ha aqui alguns pontos que merecem reparo:
- 1.º A aparição da Virgem;
- 2.º Os sinais no céu.
Quanto ao primeiro ponto, repugna admitir a muitos católicos, com tão dificientes provas, a veracidade do facto.
Duvidam.
Para muitos, não talvez a maioria, não houve milagre. Ha, porém, os que creem fervorosamente na sua existencia, os que se reservam ante um juizo critico e os que negam.
Mas foi sempre assim.
Um facto histórico presenciado por alguns individuos, e, depois transmitido a outros, embora a sua autenticidade seja flagrante, suscita, pelo menos, as seguintes opiniões contraditorias que se baseiam respectivamente: na duvida, na reserva, no crédito ou na negação.
A afirmativa de três crianças ou mesmo até de muitos adultos não constituiria certamente o quantum suficiente de provas para que se admitisse sem discussão, como verdadeiro, um facto desta natureza.
Seriam as crianças vitimas duma ilusão, d'uma alucinação ou seriam elas industriadas habilmente para tal fim?
Quem nos elucidará?
Mas os sinais no céu?
Obra de sugestão, um caso de sugestão colectiva, como querem muitos psicólogos, ou, meramente, um fenómeno fisico?
A fé de muitos individuos reunidos é contagiosa.
Os crentes, orando em extase — e este caso é de todas as religiões — criam estes fantasmas no campo da sua visão e este fenómeno, que começa por um individuo torna-se estensivo a centenas e até a milhões deles como se tem provado. A historia está cheia de exemplos desta natureza.
Uma ideia ou uma obsessão qualquer transmite-se por indução, em conductores misteriosos, correntes psicológicas atravez do astral de individuo para individuo e de um para uma multidão.
Os grandes acontecimentos que, quasi sempre, redundaram em cataclismos para a humanidade, têm, geralmente, a sua origem no principio que acabava de expor.
Foi um homem, Pedro — o Eremita — que, ao grito de Deus o quer, conduziu os cruzados á Palestina, deslocando numa efusão efervescente de fé quasi toda a Europa cristã do seu tempo. Actualmente, o grande conflicto europeu, planeado e deflagrado pela Alemanha é, tambem, a resultante da sugestão exercida, durante algumas décadas, por grupos de individuos, girando em volta de fulcros intelectuais como Kant, Nietzsche e outros filosofos apologistas da força e da lucta que viram, num delirio de loucura mistica, a realização da hegemonia alemã sobre o globo. Modernamente, nos ultimos anos do seculo transacto, Von Bernardi, Treistcke, Lasson, Lemprecht e outros panfletarios operaram sugestivamente no espirito do povo alemão, preparando-o para uma guerra em que julga ver-se victorioso.
Estas ilusões resultantes da sugestão pertencem a uma unica familia psicológica.
Póde criar-se pela força da vontade dum unico individuo?... Os ocultistas afirmam que sim.
Será o caso de Fátima, a que muitos chamam milagre, engendrado, para determinados fins, por qualquer cultor da goécia (1)21 ou da magia branca?
Ha tantos casos como este na historia!..
E agora, depois de lidos os depoimentos que transcrevemos, falta-nos ainda saber o que, sobre o assunto, dirão os sabios ocultistas.
Eles, mais do que ninguem, estão autorisados a explicar este extraordinario fenómeno que tanto tem impressionado o espirito popular no nosso pais.
[Na contra-capa, carimbado]
LIVRARIA
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BERTRAND
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (14)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.