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DCF III-1, Doc. 97

16 out. 1917Lisboanotícia de imprensaDomingos Pinto Coelho (pseud. A. de F.)

O jornal "A Ordem"1 publica um artigo sobre o fenómeno solar ocorrido na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917.

Publ.: "A Ordem", Lisboa, 2 (507), 16 Out. 1917, p. 1, cols. 1-2.

O CASO DE FÁTIMA

Começam os jornaes de grande informação a fallar d'este caso com certa frequencia, e bom será, portanto, não deixar que a opinião se desvaire, antes assentar algumas ideias que convém ter presentes para casos d'esta natureza.

É claro que, como catholicos, admittimos a plena possibilidade do milagre. Deus, que fez as leis que regem os phenomenos da natureza, pode, por isso mesmo, alteral-as ou suspendel-as.

Simplesmente o milagre é excepção.

E as excepções não se presumem. Precisam de prova cabal.

A Egreja Catholica tem-se constantemente mostrado de extrema exigencia na apreciação das provas, antes que consinta em estabelecer o caracter milagroso de qualquer facto ou serie de factos.

Em Lourdes, por exemplo, os extasis de Bernadette eram bem visiveis sobre a sua physionomia; a inteira sinceridade da pequenina pastora era patente, a sua narração das apparições era notavel de clareza e de uniformidade, o apparecimento da nascente era um facto palpavel, diversas curas extraordinarias pareciam confirmar a virtude da agua, o Dr. Dozous, medico incredulo (perdoe-nos o leitor se trocamos o nome) verificára o phenomeno da chamma da vela ardendo alguns minutos em contacto com uma das mãos da vidente sem lhe interessar2 a epiderme — e a Egreja mantinha-se silenciosa e reservada.

Tão silenciosa e reservada e recommendando tanta reserva aos seus ministros, que por alguns catholicos mais fogosos chegou a ser criticada.

D'esta attitude só a Egreja consentiu em apartar-se quando — sem pressa — os seus multiplos inqueritos se fecharam com esta conclusão: as leis naturaes são absolutamente insufficientes para explicar muitos factos occorridos: o caracter sobrenatural d'estes impõe-se, pois, rigorosamente.

Em Fátima que ha? Que tem havido?

Tres pequenos pastores, (um rapaz e duas raparigas) dizem que uma Senhora lhes apparece, d'extrema belleza. As visões teem occorrido nos dias 13 de cada mez a partir de maio.

São rudes as creanças e pouco falladoras. Antes das visões, reaes ou pretensas, respondem com grande difficuldade ás perguntas. Immediatamente depois, fallam com muito mais firmeza e facilidade e dizem pessoas fidedignas, que as ouviram no dia 13 ultimo, que ellas affirmavam ter-lhes n'esse dia apparecido mais uma vez Nossa Senhora recommendando aos fieis que fizessem penitencia e rezassem muito e lhe erigissem uma capella modesta no logar das apparições, promettendo para breve a paz e o regresso dos soldados portuguezes.

Coincidindo com as apparições e como que a corroboral-as, dizem os que no local teem estado nos dias 13 dos mezes passados, que, no ceu e sobretudo no sol se teem manifestado signaes extraordinarios.

Do que, a este ultimo respeito, occorreu no recente dia 13, sabbado, podemos nós testemunhar, porque lá estivemos, não como peregrino, note-se bem, mas como curioso.

Das 11 á uma e meia a chuva foi constante e impelida por vento forte: um tempo francamente agreste e desagradavel que a enorme multidão de muitos milhares de pessoas supportou d'excellente humor, sem outro abrigo mais que os chapeus de chuva e os vehiculos — pois não se descortina nas immediações uma só edificação.

Uma hora e 37 minutos e meio — o meio dia solar — era a hora annunciada da visão, com a qual se esperava coincidissem os phenomenos no ceu.

A essa hora continuava chovendo.

Minutos depois, a chuva diminuiu e quando era uma e tres quartos cessou por completo.

O sol, até então encoberto, mostrou-se entre nuvens que corriam com certa velocidade. E como era variavel a densidade d'estas, mais ou menos diaphano era o veu que ellas punham sobre o astro-rei.

Como toda aquella multidão, olhámos então para o sol com attenção sustentada e, atravez das nuvens, vimol-o com aspectos novos: novos para nós, note-se bem.

Umas vezes rodeado de chammas encarniçadas, outras vezes aureolado de amarello ou roxo esbatido, outras vezes parecendo animado de velocissimo movimento de rotação, outras vezes, ainda, apparentando destacar-se do ceu, approximar-se da terra e irradiar um forte calor.

Para quê, negal-o? Estes phenomenos que jámais tinhamos visto, impressionaram-nos fortemente. Estabelece-se, nas multidões, uma psychologia collectiva. E, na sua grande generalidade, sobre aquella multidão perpassava uma grande onda de fé, que fortemente commovia.

Uma duvida nos restava, porém.

O que viramos no sol era cousa excepcional? Ou reproduzir-se-hia em circumstancias analogas?

Ora precisamente esta analogia de circumstancias proporcionou-se-nos hontem. Pudemos ver o sol meio toldado de nuvens, como no sabbado. E sinceramente: — vimos as mesmas successões de cores, o mesmo movimento rotativo, etc.

(Entre parenthesis é dever nosso prevenir o leitor de que não repita a experiencia: diz-nos um medico que, sob a luz, demasiado forte, do sol, as pupillas se contrahem por forma tal que, ás vezes, não tornam a dilatar-se. E então... ponto final sobre tamanho horror!)

Eliminado, pois, o unico facto extraordinario, que fica?

Por'ora, as affirmações de tres creanças e mais nada.

É muito pouco.

Serão as creanças sinceras? Nenhuma razão temos para duvidar d'isso; antes a sua rusticidade nos é uma garantia.

As historias tétricas de exploradores da crendice popular que hajam suggestionado os pastoritos com mysteriosos fins de ganancia, pedimos licença para as não crer sem provas. Desejam os espiritos fortes que não creiamos sem provas? Está muito bem. Mas com egual direito exigiram d'aquelles que em tudo veem malfeitorías de jesuitas, aquellas mesmas provas que elles tanto nos pedem, mas de que para uso da sua maledicencia tão facilmente prescindem.

Em summa, voltámos de Fátima n'aquelle mesmo estado d'espirito em que para lá fôramos - na duvida.

Ha milagre, ha apparições? É possivel.

Mas da possibilidade á realidade dista um abysmo.

Continuemos, pois, na expectativa, benevola, se quizerem, mas nada mais.

E seja-nos permittido aconselhar ás pessoas que pela sua situação e inteligencia possam influir em quem as rodeia, que não excedam esse limite.

Nós comprehendemos muito bem, porque o partilhamos, o desejo vehemente d'ellas, de que se confirmasse que a Virgem Santissima, nossa Padroeira e Mãe dos filhos d'esta Terra de Santa Maria, mais uma vez olhára para ella com predilecção. Mas... nada d'imprudencias. Não auctorisemos a que se diga que cremos sem base em factos milagrosos.

Não é isso o que a Egreja nos manda.

Em assumpto de tanta consequencia, sejamos filhos d'uma obediencia prompta e completa.

A. de F3.

Notas dos editores

1 Diário Católico fundado a 2 de Fevereiro de 1916. Director: J. Fernando de Souza.
2 Quer dizer: atingir, ferir.
3 Pseudónimo do Dr. Domingos Pinto Coelho. Advogado. Nasceu em Lisboa a 8 de Outubro de 1855. Foi director da Associação Central da Agricultura e do jornal "A Época". Colaborador em vários jornais: "O Portugal", "A Nação", "A Ordem", "Novidades", "A Voz". Foi autor de vários livros em matéria jurídica. Fez parte da direcção legitimista e da Lugar-Tenência de D. Miguel II. Foi eleito senador e vice-presidente do senado durante o governo de Sidónio Pais. Faleceu a 14 de Julho de 1944. Não se trata de Antero de Figueiredo, como por vezes é referido.
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