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DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)

mai. 1921GuardalivroVisconde de Montelo (Manuel Nunes Formigão), Os episódios maravilhosos de Fátima (1921)
Índice (43 secções)
  1. OS EPISÓDIOS MARAVILHOSOS DE FÁTIMA
  2. AS APARIÇÕES DE FÁTIMA
  3. INTERROGATÓRIO DOS VIDENTES (27 DE SETEMBRO DE 1917)
  4. OS FENÓMENOS DO DIA 13 DE OUTUBRO DE 1917
  5. O MILAGRE DE FÁTIMA
  6. UMA CURA EXTRAORDINÁRIA
  7. O DIA 13 DE OUTUBRO DE 1919
  8. (DOIS ANOS DEPOIS)
  9. A CAMINHO DE FÁTIMA
  10. CANTANDO E REZANDO!... BENDITO E LOUVADO SEJA!...
  11. DUAS CURAS
  12. UM FOGUETEIRO AGRADECIDO!...
  13. SENHOR DEUS!... MISERICÓRDIA!...
  14. LÚCIA, A VIDENTE
  15. TEMOS HOMEM!
  16. SALVA DA PESTE!
  17. VIRGEM SANTÍSSIMA, PERDOAI-ME!
  18. MORRERÁ A JACINTA?!...
  19. TERRA ABENÇOADA!
  20. OUTRA CURA
  21. SANGUE RUIM!
  22. VIA DOLOROSA
  23. NO SANATÓRIO
  24. DE HERODES PARA PILATOS!...
  25. A PIEDADE DE UMA IRMÃ
  26. UMA CURA EXTRAORDINÁRIA! DIZ O MÉDICO...
  27. PEDI E RECEBEREIS
  28. COMO ERA BOM CONTINUAR AQUI!...
  29. ... MAS É PRECISO PARTIR!...
  30. DE REGRESSO A CASA!...
  31. A MORTE DA PEQUENA JACINTA
  32. O DIA TREZE DE MAIO DE 1920
  33. O DILÚVIO
  34. A ARCA DE NOÉ
  35. O HERODES DE OURÉM
  36. A CAMINHO DE FÁTIMA
  37. POR AQUI NÃO SE PASSA!
  38. ORAÇÃO, COMUNHÃO E PENITÊNCIA!
  39. CHUVA E PEIXE ESPADA
  40. O FRUTO PROIBIDO
  41. A FÉ DO CARVOEIRO!
  42. É ESTÚPIDO!...
  43. CONCLUSÃO

OS EPISÓDIOS MARAVILHOSOS DE FÁTIMA

pelo
VISCONDE DE MONTELLO

Casa Editora
EMPRESA VÉRITAS
1921

AS APARIÇÕES DE FÁTIMA
O INTERROGATÓRIO DOS VIDENTES
OS FENÓMENOS ASSOMBROSOS DE 13 DE OUTUBRO DE 1917
O DIA 13 DE OUTUBRO DE 1919
A MORTE DA VIDENTE JACINTA DE JESUS MARTO
A GRANDIOSA PEREGRINAÇÃO DE 13 DE MAIO 1920

Ex.mo e Rev.mo Sr. Bispo da Guarda

Fernando Pais de Figueiredo, proprietário da “Empresa Véritas”, desejando publicar um folheto intitulado “Os episódios maravilhosos de Fátima”

Pede a V. Ex.a Rev.ma a necessária
autorização se assim o julgar conveniente.

Guarda, 19 de maio de 1921

Cónego Fernando Pais de Figueiredo

Nomeamos censor o M. R. Dr. Manuel Mendes do Carmo, Cónego da Nossa Sé.

Guarda, 19 de maio de 1921

† JOSÉ, Bispo da Guarda

Ex.mo e Rev.mo Sr.

No cumprimento da missão que V. Ex.a Rev.ma se dignou confiar-me, li o opúsculo intitulado “Os episódios maravilhosos de Fátima”. Apreciando, já em tempos de camaradagem universitária, a ciência sólida e a sólida piedade do seu autor, verifiquei que no citado opúsculo nada há contra a Fé ou contra a Moral. Repassa-o um acentuado perfume de confiança na Imaculada Virgem Maria, que só poderá fazer bem às almas que o lerem.

Não pretendendo o seu autor dizer a última palavra científica sobre a validade ou caráter sobrenatural dos factos de Fátima, faz todavia um depoimento consciencioso que ajudará a esclarecer a sua natureza objetiva.

Guarda, 9 de junho de 1921

Dr. Mendes do Carmo

Imprima-se

Guarda, 10 de junho de 1921.

† JOSÉ, Bispo da Guarda

AS APARIÇÕES DE FÁTIMA

Na manhã do dia treze de maio de 1917, um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas pertencentes a suas famílias, numa propriedade da serra de Minde situada na freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, diocese de Leiria.

A mais velha das três crianças, de nome Lúcia de Jesus, era filha de António dos Santos, que faleceu no ano seguinte1, e de Maria Rosa dos Santos, e contava dez anos de idade. O menino e a outra menina, que eram irmãos, chamavam-se Francisco e Jacinta, tendo aquele nove anos e esta sete anos de idade. Foram seus pais Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. Eram primos da Lúcia. As habitações das duas famílias, que, não sendo ricas, possuíam contudo alguns bens de fortuna, ficavam próximas uma da outra, no lugar de Aljustrel, cerca de um quilómetro da igreja paroquial de Fátima. Nenhuma das crianças sabia ler nem escrever. A sua instrução religiosa era ainda muito rudimentar. Só a Lúcia tinha feito a primeira comunhão.

Aproximava-se naquele memorável dia a hora do meio-dia astronómico. Segundo o seu costume, as três crianças, depois de se terem ocupado durante bastante tempo em inocentes divertimentos, puseram-se a rezar o terço do Rosário, devoção muito querida dos habitantes daquela freguesia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distância delas, a claridade fulgurante de um relâmpago e aparecer quase simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher, de extraordinária beleza. Assustadas com um sucesso tão insólito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilizou completamente a atitude benévola da Aparição, que numa voz dulcíssima prometeu que não lhes faria mal algum.

A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha o que quer que fosse de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana.

Entre a Aparição e a Lúcia estabeleceu-se um diálogo, que durou cerca de dez minutos.

A Jacinta viu a Aparição e ouvia distintamente as palavras que ela pronunciava, dirigindo-se à Lúcia, mas nunca lhe falou nem a Aparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Aparição, não ouvindo nunca o que ela dizia à Lúcia, apesar de se encontrar à mesma distância e possuir um excelente ouvido.

A Aparição convidou nesse dia os três pastorinhos a voltarem todos os meses no dia treze, durante seis meses consecutivos, àquele local, vulgarmente conhecido pelo nome de Cova da Iria e situado a pouco mais de dois quilómetros da igreja paroquial de Fátima, ao lado da estrada distrital de Vila Nova de Ourém à Batalha. A princípio ninguém prestava crédito às afirmações das crianças, que eram apodadas de mentirosas por toda a gente, mesmo pelas pessoas de suas famílias. A 13 de junho umas cinquenta pessoas acompanharam os videntes ao local das aparições, na esperança de presenciarem o que quer que fosse de extraordinário. Nos meses seguintes o concurso de curiosos e devotos aumentou consideravelmente, reunindo-se talvez cinco mil pessoas em julho, dezoito mil em agosto e trinta mil em setembro junto da azinheira sagrada.

No momento em que se verificava a aparição, inúmeros sinais misteriosos, de que muitas pessoas fidedignas dão testemunho, se sucediam uns após outros na atmosfera e no firmamento.

A Aparição recomendou insistentemente que todos fizessem penitência e rezassem o terço do Rosário. Comunicou às crianças um segredo, que não podiam revelar a ninguém. Prometeu-lhes o Céu.

Pediu que naquele local se erigisse uma capela em sua honra e declarou que no dia treze de outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que ela realmente tinha ali aparecido. Em treze de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou se pelo menos não revelassem o segredo que a Aparição lhes tinha confiado.

Nesse mês a aparição teve lugar no dia dezanove, no sítio chamado dos Valinhos, quando as crianças já não pensavam que ela se verificasse senão no mês seguinte. No dia treze de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o diálogo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol. O firmamento estava completamente nublado. Chovia torrencialmente.

Como que por encanto rasgaram-se de repente as nuvens, e o sol no zénite apareceu em todo o seu esplendor e girou vertiginosamente sobre si mesmo como a mais bela roda de artifício que se possa imaginar, revestindo sucessivamente todas as cores do arco-íris e projetando feixes de luz de um efeito surpreendente.

Esse espetáculo sublime e incomparável, que se repetiu por três vezes distintas, durou cerca de dez minutos. A multidão imensa, rendida perante a evidência de tamanho prodígio, prostrou-se de joelhos, o Credo, a Avé Maria e o ato de contrição irromperam de todas as bocas e as lágrimas, lágrimas de alegria, de gratidão ou de arrependimento, marejaram de todos os olhos.

Toda a imprensa, inclusivamente a de grande circulação, se referiu, em termos respeitosos e com bastante desenvolvimento, aos assombrosos acontecimentos de Fátima. As apreciações desses factos, mesmo no campo católico, não foram unânimes. As afirmações das crianças relativas ao próximo fim da grande guerra europeia contribuiram para essa divergência de opiniões. Mas, apesar disso, de ano para ano, a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima aumenta e propaga-se por toda a parte. O concurso de peregrinos é cada vez maior e verifica-se especialmente no dia treze de cada mês, nos domingos, nos dias consagrados à Santíssima Virgem, e, mais do que nunca, no dia treze de maio e no dia treze de outubro de cada ano.

As graças e curas prodigiosas atribuídas à intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima são inúmeras. Debalde os representantes da autoridade civil envidarem todos os esforços para pôr termo à corrente caudalosa e incessante das multidões atraídas pela voz humilde de três inocentes pastorinhos.

A intolerância e perseguição tiveram apenas, como sempre, o efeito de tornar ainda mais viva e intensa a fé e a piedade dos crentes. A concorrência de devotos, vindos de todos os pontos de Portugal, continua a ser cada vez mais numerosa, mais fervente, mais perseverante, e parece não haver forças humanas capazes de lhe pôr embargo. A autoridade eclesiástica, que iniciou o respetivo inquérito, ainda não ultimou os seus trabalhos, que são de sua natureza difíceis e demorados, nem proferiu o seu veredictum, que nos cumpre acatar, qualquer que ele venha a ser.

Enquanto aguardamos esse veredictum, procuremos viver como bons cristãos, cumprindo estritamente todos os nossos deveres, façamos penitência dos nossos pecados e rezemos com fervor o terço do Rosário, essa devoção tão querida de todos os portugueses, para que Nossa Senhora do Rosário, se Ela efetivamente apareceu em Fátima, se digne dissipar todas as dúvidas e tornar esse facto superior a toda a contestação de boa fé.

INTERROGATÓRIO DOS VIDENTES1 (27 DE SETEMBRO DE 1917)

No intuito de completar as impressões colhidas no dia treze do corrente mês de setembro e habilitar-me com os elementos indispensáveis para fundamentar, tanto quanto possível, um juízo seguro acerca dos acontecimentos que nos últimos cinco meses se têm desenrolado a três quilómetros ao sul da aldeia de Fátima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira última, vinte e sete, àquela pitoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da majestosa serra de Minde. Eram três horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Vila Nova de Ourém à humilde povoação, cujo nome é hoje pronunciado como uma esperança fagueira de bênçãos e graças celestes por dezenas de milhares de lábios, de um extremo ao outro de Portugal. O rev.do Pároco a quem logo procurei, não estava em casa: tinha saído para fora da freguesia e só à noite devia voltar.

Pesaroso por não poder trocar algumas palavras com ele sobre o assunto que ali me levava, resolvi ir a casa das crianças que se dizem favorecidas com aparições da Virgem Santíssima e ouvir da boca delas a narrativa pormenorizada dos estranhos sucessos cuja notícia tem atraído dia a dia à Fátima um sem número de pessoas de todas as classes e condições sociais.

À distância de dois quilómetros da igreja paroquial e do presbitério, num insignificante lugarejo chamado Aljustrel, pertencente à freguesia, ficam situadas as modestas habitações das famílias dos pastorinhos.

As duas crianças mais novas estavam ausentes. Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que acedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha, que eu procurava, respondeu-me que ela andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava dois quilómetros distante.

Alguém se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto, as duas crianças mais novas, que tinham regressado do campo, sabendo pelas vizinhas que eu lhes desejava falar, vieram ter comigo.

São dois irmãos, um menino e uma menina. Chegou primeiro a menina. Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete anos de idade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus. Bastante alta para a sua idade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia até à altura dos artelhos, o seu aspeto é o de uma criança saudável, acusando perfeita normalidade no seu todo físico e moral. Surpreendida com a presença de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a princípio mostra um grande embaraço, respondendo, por monossílabos, e num tom de voz quase impercetível, às perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois aparece o irmão, rapaz de nove anos de idade, que entra com um certo desembaraço no quarto, onde estávamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que devia descobrir-se. Um sinal que a irmã lhe fez nesse sentido não foi percebido por ele. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente sem nenhuma relutância.

Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde maio último na Cova da Iria no dia treze de cada mês durante o tempo da aparição.

Entre mim e ele estabeleceu-se entre mim e ele o curto diálogo que segue.

– Que é que tens visto na Cova da Iria nos últimos meses?

– Tenho visto Nossa Senhora.

– Onde é que ela aparece?

– Em cima duma carrasqueira.

– Aparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?

– Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira.

– Vem devagar ou depressa?

– Vem sempre depressa.

– Ouves o que ela diz à Lúcia?

– Não ouço.

- Falaste alguma vez com a Senhora? Ela já te dirigiu a palavra?
- Não, nunca lhe perguntei nada; fala só com a Lúcia.
- Para quem olha ela, também para ti e para a Jacinta, ou só para a Lúcia?
- Olha para todos três; mas olha durante mais tempo para a Lúcia.
- Já alguma vez chorou ou se sorriu?
- Nem uma coisa nem outra; está sempre séria.
- Como está vestida?
- Tem um vestido comprido e por cima um manto que lhe cobre a cabeça e desce até à extremidade do vestido.
- Qual a cor do vestido e do manto?
- É branca, tendo o vestido riscos dourados.
- Qual é a titude da Senhora?
- É a de quem está a rezar. Tem as mãos postas à altura do peito.
- Traz alguma coisa nas mãos?
- Traz entre a palma e as costas da mão direita umas contas que estão pendentes sobre o vestido.
- E nas orelhas o que tem?
- As orelhas não se veem, porque estão cobertas com o manto.
- De que cor são as contas?
- São também brancas.
- A Senhora é bonita?
- É, sim.
- Mais bonita do que aquela menina que tu ali vês?
- Mais.
- Mas há senhoras muito mais bonitas que aquela menina...
– É mais bonita que qualquer pessoa que eu visse.
Concluído o interrogatório do Francisco, chamei de parte a Jacinta que andava a brincar na rua com outras crianças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatório, logrando obter dela respostas completas e minuciosas, como as do irmão.
- Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada mês desde maio para cá?
- Tenho visto.
- Donde é que ela vem?
- Vem do Céu, do lado do sol.
- Como está vestida?
- Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça tem um manto, também branco.
- De que cor são os cabelos?

- Não se lhe veem os cabelos, que estão cobertos com o manto.
- Traz brincos nas orelhas?
- Não sei, porque também não se lhe veem as orelhas.
- Qual é a posição das mãos?
- As mãos estão postas à altura do peito, com os dedos voltados para cima.

- As contas estão na mão direita ou na mão esquerda?

A esta pergunta a criança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido à insistência propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia à mão com que a Aparição segurava o Rosário.

- O que é que a Senhora recomendou à Lúcia com mais empenho?
- Mandou que rezássemos o terço todos os dias.
- E tu reza-lo?
- Rezo-o todos os dias com o Francisco e a Lúcia.

Meia hora depois de terminado o interrogatório de Jacinta de Jesus, aparece Lúcia de Jesus. Vinha, como já disse de uma pequena propriedade de sua família, situada a dois quilómetros de distância, onde tinha estado a vindimar. Mais alta e mais nutrida que as outras duas crianças, de tez mais clara, robusta e saudável, apresenta-se diante de mim com um desembaraço que contrasta singularmente com o acanhamento e a timidez excessiva da Jacinta. Singelamente vestida como esta, a sua atitude não denota e o seu rosto não traduz nenhum sentimento de vaidade nem de confusão.

Sentando-se, a um aceno meu, numa cadeira, ao meu lado, presta-se da melhor vontade a ser interrogada sobre os acontecimentos de que ela é a principal protagonista, sem embargo de se sentir visivelmente fatigada e abatida, mercê das visitas incessantes que recebe e dos inquéritos repetidos e prolongados a que é submetida.

Filha de António dos Santos, de cinquenta anos de idade, e de Maria Rosa, de quarenta e oito anos, tem um irmão e quatro irmãs, todos mais velhos do que ela: Maria, de vinte e seis anos, já casada, Teresa, de vinte e quatro, Manuel, de vinte e dois, Glória, de vinte, e Carolina, de quinze. Completou dez anos de idade em vinte e dois de março do corrente ano. Tinha oito anos quando fez a sua primeira comunhão. A mãe, tipo da mulher cristã, e da boa dona de casa, entregue às lides domésticas, procurou sempre inspirar aos filhos o santo temor de Deus e levá-los ao cumprimento de todos os seus deveres morais e religiosos. Altamente preocupada com os sucessos que atraem a todo o momento as atenções de milhares de pessoas para a sua pobre habitação, até há pouco tempo ignorada do mundo, nota-se desde logo que o seu espírito hesita, numa ansiedade inquieta, entre a esperança de que sua filha seja realmente privilegiada com a aparição da Virgem e o receio de que ela seja vítima de uma alucinação que lhe traga desgostos e cubra de ridículo toda a sua família. A uma pergunta minha acerca da piedade da sua Lúcia, responde que não acha nela nada de extraordinário neste particular, vendo-a rezar da mesma forma e com o mesmo fervor que antes das aparições, exatamente como fazem as suas irmãs. Dou princípio ao interrogatório da vidente.

– É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?

– É verdade.

– Quantas vezes já te apareceu?

– Cinco vezes, sendo uma cada mês.

– Em que dia do mês?

– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo senhor administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.

– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?

– O ano passado nunca me apareceu, nem antes de maio deste ano; nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.

– Onde é que ela vem? Das bandas do nascente?

– Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a azinheira, e quando se retira é que toma a direção do ponto do céu em que nasce o sol.

– Quanto tempo se demora? Muito ou pouco?

– Pouco tempo.

– O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Avé Maria, ou mais?

– Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo; talvez não chegasse para rezar o terço.

– Da primeira vez que a viste não ficaste assustada?

– Fiquei, e tanto assim que quis fugir com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal.

– Como é que está vestida?

– Tem um vestido branco, que desce quase até aos pés, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido.

– O vestido não tem enfeites?

– Veem-se nele, na frente, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reúnem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo.

- Tem algum cinto ou alguma fita?
- Não tem.
- Usa brincos nas orelhas?
- Usa umas argolas pequenas.
- Qual das mãos segura as contas?
– A mão direita.
- Eram um terço ou um rosário?
- Não reparei bem.
- Terminavam por uma cruz?
- Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas.

A cadeia era igualmente branca.

- Perguntaste-lhe alguma vez quem era?
- Perguntei, mas declarou que só o diria a treze de outubro.
- Não lhe perguntaste de onde vinha?
- Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu.
- E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?
- Da segunda vez, a treze de junho.
- Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?
- Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria.
- Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações?
- Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo.
- Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas durante a aparição na Cova da Iria?
- Não disse sobre esse assunto.
- É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse?
- É certo.
- Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros?
- A todos três.
- Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor?

A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta.

– Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade?

– Não é; o senhor administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como não o podia dizer a ninguém, não lho disse, apesar de ter insistido muito comigo para que lhe fizesse a vontade. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o senhor administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo.

– A Senhora mandou-te aprender a ler?

– Mandou, sim, da segunda vez que apareceu.

– Mas se a Ela disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler?

– Isso não é verdade: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa.

– O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita ao pé da azinheira na Cova da Iria?

– Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova.

– Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?

– Não sei: ela não o disse.

– Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?

– Estou.

– No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?

– Vem também São José com o Menino, e pouco tempo depois, será concedida a paz ao mundo.

– Nossa Senhora fez mais alguma revelação?

– Declarou que no dia treze fará um milagre para que todo o povo acredite que ela realmente aparece.

– Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?

– É que ela às vezes cega.

– Ensinou-te alguma oração?

– Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.

– Sabes de cor essa oração?

– Sei.

– Diz lá...

– Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas. [DCF, I - Doc.7]

OS FENÓMENOS DO DIA 13 DE OUTUBRO DE 1917

Numerosos e interessantes relatos do chamado “milagre de Fátima” foram publicados pela imprensa periódica e em folhetos na segunda quizena de outubro de 1917 e nos dois meses que se lhe seguiram. Apesar de ter tido a ventura de presenciar os acontecimentos assombrosos do dia 13 de outubro de 1917 e de poder por esse motivo narrá-los minuciosamente, prefiro reproduzir aqui dois relatos desses acontecimentos redigidos por escritores insuspeitos, um deles inédito, devido à pena cintilante do espírito inteligente e cultíssimo do Sr. Dr. José Maria de Proença de Almeida Garrett, que se dignou fazê-lo a meu pedido dois meses depois, e o outro da autoria do consagrado jornalista Sr. Avelino de Almeida e publicado no numero 610, 2ª serie, de “A Ilustração Portuguesa”.

O relato do Sr. Dr. Almeida Garrett é do teor seguinte:

“Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade o que vi em Fátima no dia 13 de outubro de 1917.

As horas a que me referirei são as que nessa época marcavam oficialmente o tempo segundo a determinação do governo que unificara a nossa hora com a dos países beligerantes. Faço isto para maior verdade pois me não era fácil designar com precisão o momento em que o sol alcançou o zénite.

Cheguei ao meio-dia. A chuva que desde manhã caía miúda e persistente, tocada de um vento agreste, prosseguia, irritante, na ameaça de querer tudo liquifazer.

O céu baço e pesado tinha uma cor pardacenta prenhe de água, prenúncio de chuva abundante e de longa duração.

Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automóvel e um pouco sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter-me ao lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado. Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes que uma tosca cruz encimava vendo distintamente em redor deles o largo círculo de gente que, com os guarda-chuvas abertos, parecia um vasto sobrado de broquéis.

Pouco depois da uma hora chegaram a este sítio as crianças a quem a Virgem (garantiam elas) marcara lugar, dia e hora da aparição. Ouviam-se os cânticos entoados pelo povo que as cercava.

Numa determinada altura esta larga massa, confusa e compacta, fechou os guarda-chuvas e descobriu-se num gesto que devia ser de humildade ou respeito mas que me deixou surpreso e admirado porque a chuva, numa continuidade cega, molhava agora cabeças, encharcava e ensopava. Disseram-me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar na lama, tinha obedecido à voz de uma criança.

Devia ser uma e meia (14 h e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para se nesta altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo de duração não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda e uma terceira vez. Das três vezes, e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os fustes esguios na atmosfera cinzenta.

Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de fumo mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que queimava incenso. Depois pessoas dignas de fé afirmaram-me que era de uso produzir-se o acontecimento no dia 13 dos cinco meses anteriores e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo.

Continuando a olhar o lugar da aparição numa espetativa serena e fria e com uma curiosidade que ia amortecendo porque o tempo decorrera longo e vagaroso sem que nada ativasse a minha atenção, ouvi o bruhaha de milhares de vozes e vi aquela multidão, espraiada pelo largo campo que se estendia a meus pés, ou concentrada em vagas compactas em redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergira os desejos e ânsias e olhar o céu do lado oposto.

Eram quase duas horas.

O sol momentos antes tinha rompido ovante a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente. Voltei-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva luminosa e luzente, mas sem magoar.

Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, ativa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma pérola. Em nada se assemelhava à lua em noite transparente e pura, porque se via e sentia-se ser um astro vivo.

Não era como a lua, esférica, não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros. Parecia uma rodela brunida cortada no nácar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim. Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (que aliás não havia àquele tempo) porque não era opaco, difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor e desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta como uma tábula de jogo.

A abóbada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acolá, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de céu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do sol dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás, mas por vezes esses flocos que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana.

Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina, que cegasse.

Este fenómeno com duas breves interrupções em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.

Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.

De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.

Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos cambiantes. Não posso precisar bem a ocasião porque já lá vão dois meses passados e eu não tomei notas. Lembro-me que não foi logo no princípio e antes creio que foi para o fim.

Estando a fixar o sol notei que tudo escurecia à minha volta.

Olhei o que estava perto e alonguei a vista para o largo até ao extremo horizonte e vi tudo cor de ametista. Os objetos, o céu e a camada atmosférica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arroxeada que se erguia na minha frente lançava sobre a terra uma sombra carregada.

Receando ter sofrido uma afeção da retina, hipótese pouco provável porque, dado este caso, não devia ver as coisas em roxo, voltei-me, cerrei as pálpebras e retive-as com as mãos para intercetar toda a luz. Ainda de costas abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor roxa.

A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi o eclipse que em Viseu, onde estava, foi total. À medida que a lua marcha a esconder o sol, a luz vai-se acinzentando até que tudo se torna baço e negro. A vista alcança um pequeno circo para lá do qual os objetos se vão tornando cada vez mais confusos até que se perdem no negrume. Baixa a temperatura consideravelmente e dir-se-á que a vida da terra se extinguiu. Em Fátima, a atmosfera, embora roxa, permaneceu transparente até aos confins do horizonte, que se distingue e vê claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem na energia universal.

Continuando a olhar o sol, reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um campónio que cerca de mim estava a dizer com voz de pasmo: “esta senhora está amarela”.

De facto tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarelos. As pessoas pareciam doentias e com icterícia. Sorri-me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram-se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarelo. Dias depois fiz a experiência de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista vi, após alguns momentos, manchas amarelas, irregulares na forma.

Não se vê tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilizado um topázio, mas nódoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam.

Todos estes fenómenos que citei e descrevi observei-os eu sossegado e serenamente sem uma emoção ou sobressalto.

A outros cumpre explicá-los ou interpretá-los.

Para terminar devo fazer a afirmação, que nunca, nem antes nem depois do dia 13 de outubro, vi iguais fenómenos, solares ou atmosféricos.1 [DCF, III-1 - Doc. 345]

O MILAGRE DE FÁTIMA

(Carta a alguém que pede um testemunho insuspeito).

Quebrando um silêncio de mais de vinte anos e com a invocação dos longínquos e saudosos tempos em que convivemos numa fraternal camaradagem, iluminada então pela fé comum e fortalecida por idênticos propósitos, escreves-me para que te diga, sincera e minuciosamente, o que vi e ouvi na charneca de Fátima, quando a fama de celestes aparições congregou naquele desolado ermo dezenas de milhares de pessoas mais sedentas, segundo creio, de sobrenatural do que impelidas por mera curiosidade ou receosas de um logro... Estão os católicos em desacordo sobre a importância e a significação do que presenciaram.

Uns convenceram-se de que se tinham cumprido prometimentos do Alto; outros acham-se ainda longe de acreditar na incontroversa realidade de um milagre. Foste um crente na tua juventude e deixaste de sê-lo. Pessoas de família arrastaram-te a Fátima, no vagalhão colossal daquele povo que ali se juntou a 13 de outubro.

O teu racionalismo sofreu um formidável embate e queres estabelecer uma opinião segura socorrendo-te de depoimentos insuspeitos como o meu, pois que estive lá apenas no desempenho de uma missão bem difícil, tal a de relatar imparcialmente para um grande diário, O Século, os factos que diante de mim se desenrolassem e tudo quanto de curioso e de elucidativo a eles se prendesse. Não ficará por satisfazer o teu desejo, mas decerto que os nossos olhos e os nossos ouvidos não viram nem ouviram coisas diversas, e que raros foram os que ficaram insensíveis à grandeza de semelhante espetáculo, único entre nós e de todo o ponto digno de meditação e de estudo...

O que ouvi e me levou a Fátima?

Que a Virgem Maria, depois da festa da Ascensão, aparecera a três crianças que apascentavam gado, duas mocinhas e um zagalete, recomendando-lhes que orassem e prometendo-lhes aparecer ali, sobre uma azinheira, no dia 13 de cada mês, até que em outubro lhes daria qualquer sinal do poder de Deus e faria revelações. Espalhou-se a nova por muitas léguas em redondeza; voou, de terra em terra, até os confins de Portugal, e a romagem dos crentes foi aumentando de mês para mês, a ponto de se juntarem na charneca de Fátima, em 13 de outubro, umas cinquenta mil pessoas consoante os cálculos de indivíduos desapaixonados.

Nas precedentes reuniões de fiéis, não faltou quem tivesse suposto ver singularidades astronómicas e atmosféricas que se tomaram como indício da imediata intervenção divina.

Houve quem falasse de súbitos abaixamentos de temperatura, da cintilação de estrelas em pleno meio dia e de nuvens lindas e jámais vistas em torno do sol. Houve quem repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitência, que pretendia a ereção de uma capela naquele local, que em 13 de outubro manifestaria, por intermédio de uma prova sensível a todos, a infinita bondade e a omnipotência de Deus...

Foi assim que, no dia célebre e tão ansiado, afluíram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam léguas ao sol e à chuva, outras que se transportaram em variadíssimos veículos, desde os quase pré-históricos até os mais recentes e maravilhosos modelos de automóveis, e ainda muitíssimas que suportaram os incómodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quais, para percorrer hoje relativamente pequenas distâncias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados num sonho, dirigirem-se, de véspera, para o sítio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo deles e à recitação cadenciada do terço do Rosário, sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quase repentina do tempo, quando as bátegas de água transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçais e às doçuras do outono sucederam, por um dia, os aspérrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida à volta da pequenina árvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para os guardar como relíquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogénea concorrência de carros e pessoas atravancou naquele dia memorável, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturais, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponência... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam os campónios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhê-las as demonstrações do mais intenso carinho por parte daquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora do “milagre”, a hora do “sinal sensível”, a hora mística e suspirada do contacto entre o céu e a terra...

E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pré-anunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar.

Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja [DCF, III-1 - Doc. 228].

UMA CURA EXTRAORDINÁRIA

(13 DE OUTUBRO DE 1917)

À guisa de complemento destas ligeiras notas sobre as aparições, seja-me lícito transcrever aqui uma carta endereçada a uma amigo meu e publicada no número de cinco de outubro de 1918 do jornal “A Guarda”, o semanário de maior assinatura nas duas Beiras. Expondo minuciosamente e com a mais escrupulosa exatidão as circunstâncias de uma cura extraordinária ligada com a história das aparições, essa carta reveste uma dupla importância, mercê da qual tem neste lugar o seu natural cabimento.

É do teor seguinte:

A questão da origem e natureza dos acontecimentos extraordinários de Fátima, como eu já insinuava na minha carta precedente, é uma questão completamente aberta.

A Igreja não se pronunciou ainda sobre eles. O campo está, pois, patente a todas as discussões. Qualquer pensador tem o direito de apreciar, como melhor lhe aprouver, esses acontecimentos, negando a procedência sobrenatural, pondo-a em dúvida ou admitindo-a, que a ninguém assiste o direito de o censurar.

O católico não possui menos liberdade de apreciação e de crítica no exame desta matéria do que o ateu. É por isso que todas as opiniões sinceras merecem deferência e respeito, mormente numa questão como esta, que ninguém conseguiu até hoje resolver satisfatoriamente, é justo que todos, respeitem a conclusão de um estudioso, mesmo os que não a perfilham, qualquer que ela seja, na investigação a que consciosamente proceder.

Os sucessos de Fátima constituem um fenómeno assombroso incontestavelmente digno de estudo. Numa época em que a ciência atingiu, por assim dizer, o seu apogeu, seria deveras para lamentar que esse fenómeno não se impusesse à atenção daqueles que, pelo seu critério e pela sua competência, estão em condições de poder estudar com proveito e apreciar devidamente a origem e a natureza desse fenómeno, múltiplo e complexo. Eu sei que ilustres professores dos nossos mais altos institutos científicos continuam dedicando a sua esclarecida atenção ao estudo dos fenómenos metereológicos sucedidos no dia treze de cada mês desde maio a outubro e ao grandioso fenómeno solar presenciado por mais de cinquenta mil pessoas, no dia treze de outubro próximo findo, num dos planaltos da orla setentrional da serra de Minde.

Mas é absolutamente indispensável que, no interesse da verdade, seja ela qual for, todos contribuam com a sua quota parte para a solução deste difícil problema, até hoje insolúvel, para a decifração deste singular enigma até hoje impenetrável. É o que intento fazer escrevendo-te esta carta e outorgando-te a liberdade de publicar o que te parecer conveniente.

Posto isto, era propósito meu principiar hoje a narração histórica dos factos ocorridos em Fátima, se não me perguntasses na tua última carta se já se tinham verificado algumas curas extraordinárias que abonassem de algum modo a origem sobrenatural desses factos. Para satisfazer a tua legítima curiosidade passo a descrever uma das muitas curas de que tenho conhecimento, consumada e, segundo parece, definitivamente assegurada no dia treze de outubro, no chamado local das aparições, aonde desde então, sem embargo das violências brutais e sacrílegas do fanatismo antirreligioso, sempre inimigo da verdadeira liberdade de crença, concorrem ininterruptamente centenas e milhares de pessoas de todos os pontos do país, numa romagem piedosa e inofensiva que edifica, comove e encanta.

Maria do Carmo, de quarenta e sete anos de idade, natural do lugar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco anos que sofria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os sintomas caraterísticos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estômago e nos intestinos. Em princípios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinário. Eram contínuas e difíceis de suportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta de ar. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe imenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no útero. Definhava e emagrecia a olhos vistos. Três meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr à cabeça nenhum objeto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe ocasionava. Tinha com frequência vontade de vomitar, embora não vomitasse.

Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, aumentavam as dores de cabeça. As dores de estômago quase que não lhe permitiam dormir.

Para não passar pior, comia muito pouco.

Sustentava-se exclusivamente ou quase exclusivamente de leite.

Uma tosse funda e seca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os vizinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ela própria não deixava aproximar de si os filhos com medo do contágio. Um indivíduo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar próximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a dúvidas que ela estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do ano próximo findo.

Debalde procurou lenitivo para os seus incómodos nos recursos da medicina.

Pobre como era e não havendo médico senão a alguns quilómetros de distância, na Batalha, só ali foi uma vez com o marido consultar o distinto e hábil clínico dr. Padrão. Os remédios que esse facultativo receitou não lhe produziram alívio algum.

Nestas circunstâncias não alimentava nenhumas ilusões acerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa ocasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do país, a nova consoladora de que a Virgem Santíssima desde o mês de maio precedente aparecia todos os meses no dia treze a umas humildes criancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria”, pertencente à freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, a sete léguas de distância de Maceira. Um clarão de suave esperança iluminou subitamente o seu espírito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fátima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa.

Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empresa uma verdadeira temeridade, opôs-se à sua ida.

“Nós somos pobres – dizia ele à mulher – não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efetuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciência, mas não te deixo ir”.

Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava imenso quando caminhava, por pouco que fosse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possui um pequeno prédio rústico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem número de vezes à beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuíndo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalável confiança, acedeu às suas porfiadas instâncias e resolveu-se a acompanhá-la.

Veio finalmente o dia treze de agosto, tão ardentemente esperado. À uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou várias vezes no percurso.

Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das aparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ela, segundo a sua própria expressão, era uma dor. Alguns instantes depois, com grande surpresa, experimentou notáveis alívios.

Sentou-se à sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e ali se conservou até às três horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como à ida.

De dia para dia as melhoras acentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos sólidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de setembro voltou pela segunda vez a Fátima, não lhe causando a viagem tanto incómodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia rezava o terço do Rosário tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando atenção às conversas das pessoas que a acompanhavam.

A partir desse dia melhorou ainda mais.

Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos dificuldade à fazenda. A treze de outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar a Fátima surpreendeu-a a memorável chuva torrencial que assinalou aquele dia de outono. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das aparições. As dores desapareceram para não mais voltar. A intumescência do ventre e dos membros superiores e inferiores desapareceu igualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indigestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incómodo. Não tornou a sentir falta de ar. Trabalha muito e pode pôr à cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e goza de excelente saúde. No dia treze de novembro foi de novo a Fátima afim de agradecer a sua cura à Virgem do Rosário.

Eis a narração mais exata possível, sem prejuízo de algum erro insignificante de detalhe, da doença e da cura de Maria do Carmo, narração redigida em face do processo verbal a que procedi de motu proprio no dia doze de fevereiro, em Maceira, na presença de várias testemunhas fidedignas e nomeadamente do marido, os quais todos confirmaram a exatidão do seu depoimento. Não cito nomes de testemunhas, posto que a isso esteja autorizado, porque todos os habitantes da freguesia estão intimamente convencidos de que a cura daquela enferma não se pode explicar de modo nenhum pela ação das forças naturais. Poder-se-á considerar realmente essa cura como sobrenatural? Não me compete a mim dizê-lo: é à ciência e sobretudo à Igreja. Será facil estabelecer com segurança o seu caráter sobrenatural, depois de decorridos tantos meses e não tendo havido provavelmente uma observação médica tão minuciosa como convinha? Ignoro-o, nem com isso me preocupo. O meu intuito é simplesmente chamar a atenção das pessoas sérias e cultas, quaisquer que sejam os seus princípios religiosos ou as suas opiniões acerca da índole dos acontecimentos de Fátima, para estes e outros factos que se me antolham dignos de especial estudo, porque talvez possam contribuir para se determinar claramente a natureza desses acontecimentos. Serão eles o resultado de meras ilusões de sentidos, especialmente da fantasia? Serão uma mistificação habilmente arquitetada pelo poder das trevas? Serão obra de Deus? É o que importa averiguar, sem ideias preconcebidas e sem parti pris, como convém a um crítico consciencioso e imparcial. [DCF, III-2 - Doc. 382]

O DIA 13 DE OUTUBRO DE 1919

(DOIS ANOS DEPOIS)

Tínhamos escrito já este ligeiro relato do que se passou em Fátima no dia 13 de outubro de 1919, e hesitávamos em dá-lo à publicidade quando o falecimento da pequena Jacinta, uma das pastorinhas de Fátima veio de novo trazer à tela da discussão este problema que parecia um pouco esquecido.

Nossa Senhora apareceu, realmente, em Fátima?

A esta pergunta não pode, como é natural, dar-se já uma resposta concreta e positiva, quer num sentido quer noutro.

São questões de tal maneira transcendentais que seria temerário da parte de um católico, aceitar ou rejeitar in limine, qualquer intervenção sobrenatural como aquele de que se trata.

O que nos resta pois a fazer é esperar pacientemente ou que a aparição se confirme ou que pelo contrário a sua impressão se desvaneça por completo.

Entretanto devemos pedir e orar muito a Nosso Senhor para que faça brilhar a luz da verdade e ao mesmo tempo devemos fazer a penitência que a Senhora recomendou e que, muito embora a aparição não fosse uma realidade, nem por isso deixa de ser necessária e tantas vezes lembrada por Deus, desde os famosos tempos de Nínive até à gruta de Massabielle.

E ao mesmo tempo que vamos orando convém recolher imparcialmente todos os factos ocorridos sem preocupações de qualquer espécie e unicamente no intuito de esclarecer e fundamentar uma opinião, seja ela qual for.

Por isso nos resolvemos a dar à publicidade este singelo relato, a que acrescentaremos algumas notas soltas muito edificantes sobre a morte da humilde e inocente Jacinta.

A CAMINHO DE FÁTIMA

Raiou o dia treze de outubro de 1919.

Na aldeia, aonde eu tinha chegado de véspera, o relógio da torre marcava no seu mostrador, enegrecido pelo tempo, dez horas e meia da manhã (hora oficial).

Longas fiadas de nuvens pardacentas corriam brandamente no céu, parecendo anunciar uma daquelas medonhas trovoadas, acompanhadas de fortes aguaceiros, que são tão frequentes no princípio do outono.

Percorrendo com a velocidade de sessenta quilómetros à hora a distância que me separava de Vila Nova de Ourém, cheguei a esta importante povoação do distrito de Santarém às onze horas em ponto. Na véspera os jornais de grande circulação, nas suas correspondências da província anunciavam para o dia seguinte desusada concorrência de peregrinos e curiosos à terra das aparições, à estância do mistério e do prodígio, à famosa e sedutora Fátima.

Efetivamente assim sucedia. Era o segundo aniversário da sexta e última aparição aos pequenos videntes de Aljustrel e do assombroso fenómeno solar que eles tinham predito com uma certeza matemática e que cerca de sessenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país tiveram a ventura de presenciar.

Ainda está na memória de todos o eco formidável que esse acontecimento inaudito produziu em toda a imprensa portuguesa, que dele se ocupou largamente.

Na estrada de Vila Nova de Ourém à povoação de Fátima, que fica a doze quilómetros de distância, o movimento, logo ao sair da vila, é extraordinário. Os habitantes assomam às janelas ou aparecem nas varandas ou às portas de suas casas para contemplar o espetáculo interessante e comovente que se depara a seus olhos maravilhados. Veem-se numerosos grupos de pessoas, umas a pé, outras a cavalo. Veículos de todos os tamanhos e de todos os modelos pejam literalmente a estrada. Aqui são homens e mulheres do povo que caminham vagarosamente e em silêncio. Além é uma família de distinção que vai comodamente instalada num trem de luxo. Mais adiante um ilustre oficial do exército guia uma charrete, que conduz algumas pessoas de sua família.

Depois passa um automóvel, que sobe rapidamente a encosta. Os grupos de peregrinos a pé, as filas de carros, as tradicionais burricadas, as fiadas intermináveis das bicicletas, os carros de bois, os trens e os automóveis isolados circulam cada vez em maior número, à medida que o veículo que me transporta, se aproxima vertiginosamente da cumeada da serra.

São onze horas e meia quando chego ao pé da igreja paroquial de Fátima.

Bastantes peregrinos, fatigados do caminho, descansam à beira da estrada, perto da igreja. Faltam ainda três quilómetros para terminar a minha viagem, junto da modesta capela, ereta ao lado da azinheira sagrada. No resto do percurso, o movimento de peões, cavaleiros, trens e automóveis é assombroso. Os peregrinos das povoações mais próximas, satisfeitas as exigências da sua piedade já vão regressando aos seus lares para se entregarem aos trabalhos do campo, que se encontram então na sua atividade, especialmente a vindima e a apanha do figo.

Outros retiram, porque são de longe, tendo perdido a noite na viagem.

Fizeram a sua visita, cumpriram as suas promessas e voltam para suas casas, porque não foi a curiosidade, mas só o dever e a devoção o que os atraiu àquela estância privilegiada.

Achamo-nos neste instante no alto da serra. Àquela hora da manhã e naquela altitude elevada, a temperatura é ainda, como não podia deixar de ser em tal estação, extremamente baixa: sente-se frio. O side-car em que viajo tem dificuldade em abrir caminho por entre a mole imensa de povo, que enche a estrada. A buzina toca sem cessar e a marcha do veículo até então vertiginosa, afrouxa consideravelmente.

É notável o silêncio, a compostura e o recolhimento de toda aquela interminável vaga humana.

Dir-se-ia que ela tem a intuição viva e profunda de que o solo que pisa é sagrado e de que uma atmosfera de sobrenatural a envolve e satura. De todas as estradas, caminhos e atalhos aflui gente. Mas eis que a duzentos metros, do lado direito da estrada, se avista no fundo dum vale, uma multidão imensa. Estamos pois, no célebre local, vulgarmente chamado Cova da Iria, onde se verificaram as aparições da Rainha do Céu. A linda capelinha ergue-se, já perto de nós, ao lado da azinheira, em que passaram os pés da celeste visão, ostentando as suas paredes de uma alvura puríssima e erguendo para o alto, como uma súplica perene, o seu rústico, mas gracioso telhado de telha encarnada.

Em torno dela estão ajoelhadas, em fervorosa prece, mais de quinhentas pessoas. Aqui e acolá, dum e doutro lado da estrada e por toda a vasta encosta, à sombra das carvalheiras, não se veem senão veículos de todas as espécies e numerosos grupos de romeiros a descançar ou a comer os seus farnéis, num silêncio e gravidade inspirados pela devoção e pelo respeito do local.

CANTANDO E REZANDO!... BENDITO E LOUVADO SEJA!...

É quase meio-dia. Por entre nuvens, que sem cessar perpassam no firmamento o sol aparece de quando em quando e dardeja sobre as nossas cabeças os seus raios vivíssimos. Um grupo de peregrinos vem-se aproximando processionalmente do local. São cerca de cem pessoas: homens, mulheres e crianças. Alguns homens vestem opas, conduzindo um deles à frente um pendão em que se vê um painel com a imagem da Santíssima Virgem. Enquanto caminham, rezam devotamente o terço do rosário, em voz alta. De espaço a espaço, nos intervalos dos mistérios, um coro de vozes argentinas entoa maviosos cânticos em honra de Nossa Senhora. Pergunto donde vem aquela procissão e dizem-me que é do lugar das Covas, limite de Carreirancha, freguesia do Alqueidão da Serra. A procissão pára junto da capela. Alguns peregrinos entram nela e um deles reza o terço alternadamente com os circunstantes. Parte da multidão está de joelhos, a outra parte de pé. A todo o momento chega gente. Ponho-me a percorrer o local. Um pouco afastado da multidão, um indivíduo, de aspeto venerando, modestamente vestido, está sentado no chão, de mãos postas, desfiando as contas do seu rosário, sem prestar atenção ao que se passa em torno dele.

Entretanto centenas de bocas cantam o comovente cântico popular ao Augustíssimo Sacramento da Eucaristia, o Bendito e louvado seja.

DUAS CURAS

Um homem do povo aproxima-se de mim e conta-me a simples mas tocante história da sua cura. Chama-se Manuel Antunes Carvalho e tem 45 anos de idade. Durante a sua narrativa a comoção embarga-lhe por vezes a voz e as lágrimas deslizam-lhe a fio pelas faces, grossas como punhos. Antes da sua doença tinha vindo quatro vezes a Fátima. É a primeira vez que ali volta depois da sua cura. Veio com a mulher e quatro filhos cumprir a promessa que fizera para a obter.

Momentos depois passa diante de mim um homem novo, de maneiras decididas, para o qual me chamam a atenção. Pergunto-lhe por que motivo veio à Fátima. Responde com uma evasiva por suspeitar que eu o interrogava para troçar dele. Vai a retirar-se sacudidamente. Algumas pessoas conseguem convencê-lo de que me acho presente para colher informações destinadas à publicidade. Então volta confiadamente sobre os seus passos e descreve-me a cura de um filho que poucos meses antes julgara perdido sem remédio. Chama-se Veríssimo dos Reis Ambrósio e reside na freguesia da Vidigueira, concelho de Torres Vedras. Diz que estando um seu filho de nove anos em perigo de vida, só com a pele e osso, havia já dois meses, a mãe e a avó materna prometeram ir a Fátima agradecer a cura da criança, se Nossa Senhora houvesse por bem conceder-lhes essa graça. A criança curou-se completamente e ali estava agora, muito gorda e respirando saúde, ao colo da mãe, que entretanto se aproximara para me a mostrar.

UM FOGUETEIRO AGRADECIDO!...

De repente, a cerca de cinquenta metros da capela, um foguetão sobe aos ares e estraleja a enorme altura, produzindo um estampido formidável, semelhante ao tiro de um canhão, que se repercute por montes e vales ao longe e ao largo, fazendo-se ouvir a muitas léguas de distância. A este foguetão sucedem-se mais vinte.

Em torno de mim, algumas pessoas ignorando o motivo daquela salva, manifestam o seu desagrado pela profanação do local das aparição com semelhante cena, que tanto contrastava com o silêncio e recolhimento da multidão. Estranham e lamentam que o clero se alheie por completo do que ali se passa, porque decerto sob a sua direção tais factos não se dariam.

Receiam que as edificantes manifestações de fé, que com tanta frequência se repetem ali, venham a transformar-se, com o decorrer do tempo, em vãos e ruidosos folguedos de arraial. Se a autoridade eclesiástica, diziam essas pessoas, aliás respeitosamente e sem espírito de crítica, tivessem alguma ingerência no desenrolar dos acontecimentos de Fátima, não teria permitido essa descabida manifestação de regozijo que representava uma irreverência e um desacato, ou pelo menos teria impedido que ela se realizasse tão perto do venerando padrão dos sucessos maravilhosos. Com um caderno e um lápis na mão dirijo-me ao homem que deitara os foguetões e pergunto-lhe o nome. Ele perfila-se, muda de cor, formaliza-se todo e responde-me num tom sacudido e breve: “Se o senhor é autoridade e vem para me prender por ter deitado os foguetões sem licença, não me importo de pagar a multa ou ir para a cadeia. Cumpri a minha promessa e agora estou por tudo”. Tranquilizo-o sem demora, assegurando-lhe que o meu intuito é simplesmente saber se tinha dado a salva de vinte e um tiros em cumprimento de alguma promessa. Então recobra ânimo, a sua fisionomia alegra-se, e, cheio de entusiasmo, põe-se a narrar, numa linguagem singela mas eloquente, a sua tocante história.

Proprietário de uma fábrica de pólvora e fogo de artifício numa importante freguesia do concelho do Porto de Mós, vivia com a sua mulher e filhos entregue às ocupações da sua profissão e gozando de perfeita saúde. No princípio do mês de julho último começou a sofrer duma grave doença gastrointestinal. Os socorros da medicina de nada lhe valeram. De dia para dia o seu estado agravava-se cada vez mais.

Debalde os distintos facultativos Padrão, da Batalha, e Neves, de Alcobaça prodigalizaram à sua cabeceira recursos e desvelos do seu saber e da sua experiência. Perdidas todas as esperanças humanas da cura dos seus males, receando deixar, com a sua morte, os filhos na miséria, volta-se, cheio de confiança, para Aquela que é justamente chamada a Consoladora dos Aflitos e a Saúde dos Enfermos e invoca o seu patrocínio, prometendo, se obtivesse a cura, ir deitar em Fátima, no lugar das aparições, uma salva de vinte e um foguetes morteiros, cada um do preço de um escudo, preparados de propósito para esse fim. Feita a promessa, principia a sentir melhoras e pouco tempo depois acha-se completamente restabelecido. Veio à Fátima acompanhado da mulher, da sogra, de um filho e um sobrinho, agradecer essa graça a Nossa Senhora e cumprir a promessa.

SENHOR DEUS!... MISERICÓRDIA!...

É meio-dia e três quartos.

Uma mulher com uma fogaça à cabeça dirige-se de joelhos para a capela. Rodeiam-na várias pessoas, que a muito custo lhe abrem caminho por entre a multidão compacta que se comprimia em torno do padrão popular comemorativo das aparições.

Pouco depois um homem bem trajado, com um filho ao colo e seguido pela mulher com as lágrimas nos olhos encaminha-se também para a capela.

Entretanto a procissão das Covas reorganiza-se e põe-se em marcha para a igreja paroquial. Junto da capela, uma mulher do povo reza o terço alternadamente com os circunstantes. De tempos a tempos ouvem-se estas súplicas comoventes que partem do fundo da alma: “Senhor Deus, misericórdia! Senhor, escutai a minha oração e chegue até vós o meu clamor!”.

Um cavalheiro do lugar das Marruas (Torres Novas), que aparenta ter cinquenta anos, encontra-se a pequena distância do lugar onde eu estou. Impressiona-me a sua atitude. Dir-se-ia a estátua do sofrimento confortado pela fé. Pessoas que o conhecem contam-me a sua dolorosa história. Nos fins de janeiro do corrente ano um insulto apoplético entorpeceu-lhe os membros inferiores e produziu-lhe na laringe uma grave paralisia, que lhe extinguiu por completo a voz. Caminha com dificuldade e apoiado a uma bengala. Veio à Fátima, esperando com fé viva a sua cura. Aproximo-me, faço-lhe várias perguntas e dirijo-lhe algumas palavras de conforto. A comoção apodera-se dele e o pobre ancião chora alto e convulsivamente como uma criança. A esposa que se encontra a seu lado chora também mas em silêncio, tentando carinhosamente animá-lo. [DCF, III-2 - Doc. 474]

LÚCIA, A VIDENTE

É já uma hora. De boca em boca corre a notícia de que a pastorinha Lúcia, a privilegiada da Virgem, a principal protagonista das aparições vem a caminho da Cova da Iria e está já perto. Ouve-se um sussurro estranho e a multidão agita-se cada vez mais. Inúmeras pessoas precipitam-se ao encontro da vidente. Ela avança com dificuldade e dirige-se para a capela, onde reza o terço alternadamente com o povo.

De quando em quando, ao longe, na estrada, ouve-se a buzina dum automóvel que chega. A multidão é enorme. Formam-se diversos grupos, que rezam o terço em voz alta. Junto da capela uma rapariga ora fervorosamente invocando cheia de confiança a Rainha da paz.

TEMOS HOMEM!

Nesta altura tomo conhecimento doutro caso extraordinários. Trata-se dum rapaz que veio à Fátima agradecer as suas melhoras a Nossa Senhora. Chama-se Laurentino Carreira Poças. É filho de Adriano Carreira Poças e de Joana Carreira Rebela Poças e tem catorze anos de idade. Natural do Reguengo do Fetal, foi o ano passado para Leiria, onde tinha obtido colocação como caixeiro numa loja de fazendas. De compleição débil, começou a sentir-se doente e o seu mal estar agravou-se tanto que o patrão resolveu mandá-lo para casa, afim de se tratar convenientemente. Ao chegar ao fundo da escada da sua residência desmaiou e caiu desamparadamente no chão, tal era o seu estado de fraqueza. O dr. Pereira que o tinha tratado durante a sua estada em Leiria, enviou por ele uma carta para um tio de nome Francisco Carreira Poças, na qual dizia que o sobrinho estava tuberculoso. Sua mãe, logo que ele chegou, fez a promessa de ir à Fátima e dar a volta de joelhos à capela com uma oferta à cabeça, se ele melhorasse.

O pobre rapaz sentia uma forte pontada no peito, do lado direito, até à altura do pescoço. Estava proibido de fazer qualquer esforço. A sua magreza era extrema. Não podia brincar. O seu único desejo era estar sempre em descanso. Atualmente não sente mal algum. Veio em bicicleta desde o Reguengo do Fetal, que fica a duas léguas de distância trazendo um rapazito diante de si no guiador do veículo. Na véspera tinha feito três meses que havia chegado doente a casa. Há mês e meio o dr. Pereira tornou a vê-lo em Leiria, onde ele foi consultá-lo e disse que o achava muito melhor, empregando estas palavras textuais que exprimiam ao mesmo tempo surpresa e satisfação: “Temos homem!”.

SALVA DA PESTE!

Encontro de novo o pequeno grupo que pouco antes vira entrando para a capela.

São marido, mulher e um filho. O marido chama-se José António Mota e tem 31 anos de idade. A mulher chama-se Maria do Espírito Santo e tem a idade do marido. São naturais do lugar dos Vargos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas. A mulher esteve muito doente com um ataque de broncopneumonia durante cerca de um mês, em outubro e novembro do ano passado. O marido viu-a um dia tão mal que receou perdê-la e por esse motivo voltou-se para a Fátima, invocou Nossa Senhora do Rosário e fez a promessa de ir com a família àquela povoação e dar uma esmola em harmonia com as suas posses, se a mulher se curasse.

A Virgem Santíssima fez-lhe essa graça e ele veio em companhia da mulher, de um filho e da sogra, cumprir a promessa. Tinha vindo à Fátima, faz hoje dois anos no dia do grande prodígio.

A alguns metros de distância, do lado da estrada, vê-se avançar de joelhos em direção à capela, uma mulher do povo. É uma hora e meia: precisamente meio-dia astronómico. Devem estar presentes mais de duas mil pessoas. Ao pé de mim uma mulher, profundamente impressionada com tudo quanto tinha observado, dizia com intimativa que, ainda que se visse obrigada a sair para fora do país, havia de fazer toda a diligência por voltar à Fátima.

VIRGEM SANTÍSSIMA, PERDOAI-ME!

Nesta altura um homem bem trajado, que acabava de chegar, rompe por entre a multidão, que se apinhava em torno da capela, contempla com ar de troça e compaixão os peregrinos que oram ajoelhados e para em frente da porta do santuário. Momentos depois, tomado duma comoção íntima, cai de joelhos e profere, num soluço, esta súplica, que os circunstantes ouviram distintamente “Virgem Santíssima, perdoai-me!”, ficando muito tempo em recolhimento profundo.

Um oficial a cavalo avança com precaução por entre o povo a alguma distância da capela. Pergunto quem é e dizem-me que é o administrador do concelho. Observa com atenção tudo quanto sucede e passeia constantemente dum lado para o outro. Parece-me ter empenho em não faltar aos deveres que a correção impõe a uma pessoa inteligente e bem educada, apesar das ideias avançadas que me dizem possuir.

MORRERÁ A JACINTA?!...

Chega ao pé de mim Jacinta de Jesus Marto, uma das videntes de Aljustrel, acompanhada pela mãe. Ambas trajam rigoroso luto por motivo do falecimento de Francisco Marto, irmão da Jacinta, que também tinha sido favorecido com a visão da Virgem e que até ao último suspiro sustentou sempre a verdade das suas narrativas. A pequena está esquelética. Os braços são de uma magreza assombrosa. Desde que saiu do hospital de Vila Nova de Ourém, onde durante dois meses se esteve tratando sem resultado, anda sempre a arder em febre. O seu aspeto inspira compaixão.

Pobre criança! Ainda o ano passado cheia de vida e saúde, e já hoje como uma flor murcha, pendendo à beira do sepulcro! A tuberculose, depois de um ataque de broncopneumonia e duma pleurisia purulenta, mina-lhe desapiedadamente o débil organismo. Só um tratamento apropriado num bom sanatório é que poderia talvez salvá-la. Mas seus pais conquanto não sejam pobres, não podem fazer face às avultadas despesas que esse tratamento exige.

Bernadette, a humilde zagala de Lourdes, ouviu da boca da Imaculada, que se dignou aparecer-lhe nas rochas de Massabielle, a promessa de que a faria feliz, não neste mundo, mas no outro.

Teria a Virgem feito idêntica promessa à pastorinha da serra de Minde, a quem comunicou um segredo, que a vidente a ninguém pode revelar?

Assim os sofrimentos de Jacinta de Jesus, suportados com resignação cristã, serão para ela uma fonte de merecimentos que hão de tornar mais brilhante e preciosa a sua coroa de glória no Céu.

TERRA ABENÇOADA!

Juntamente com a peregrinação das Covas, que regressa da igreja paroquial, vem uma rapariga que sofria de uma grave enfermidade e cuja cura, atribuída à intercessão de Nossa Senhora de Fátima, tem sido o assunto das conversas de todos os romeiros nos últimos meses.

Muitas pessoas a acompanham, ouvindo da sua boca a narração dos episódios da sua doença e da sua cura.

Está já perto da capela. Aproximo-me, rompendo a custo por entre a multidão que a envolve num círculo apertado.

Passo a interrogá-la. Chama-se Maria da Conceição, tem 21 anos é filha de Francisco Correia e Maria dos Anjos Correia e natural e moradora no lugar da Carreirancha, freguesia do Alqueidão da Serra, distrito de Leiria. Tem dois irmãos e quatro irmãs, que vivem com ela na casa paterna.

Mora num dos extremos do lugar, na parte mais alta. Há sete anos sofreu dum forte ataque de gripe e, não se tendo tratado como devia, o estado geral da sua saúde ressentiu-se imenso. Alguns meses depois de ter tido a gripe sobreveio-lhe uma meningite cerebroespinal, sendo tratada durante esta grave doença pelo dr. Padrão, da Batalha. Os remédios que tomava não lhe produziam alívio algum. Sentia dores violentas na cabeça, no peito e nas pernas. Uma tosse funda e seca atormentava-lhe constantemente o peito. Há cerca de três anos e meio deitou sangue com abundância pela boca durante quinze dias consecutivos. O sangue deixou de correr depois de instantes súplicas a Nossa Senhora. Muita gente, vendo o seu estado de fraqueza e abatimento, dizia que ela estava condenada a morrer em breve, vítima da tuberculose. Durante os últimos sete meses esteve de cama, paralítica, mal se podendo mover. As dores que experimentava eram horríveis. Não descansava nem de dia nem de noite, porque a violência das dores não lhe permitia conciliar o sono. Porém, no meio dos seus atrozes sofrimentos, nunca perdera a confiança na proteção da Santíssima Virgem, de quem esperava inabalavelmente a sua cura.

No dia 23 de março do corrente ano, à tarde, disse à família que Nossa Senhora lhe tinha aparecido e assegurado que dois dias depois, às 9 horas da manhã, se poderia levantar do seu leito de dor, recomendando-lhe que fosse à Fátima e prometendo-lhe que se havia de curar com o uso da terra do local das aparições. Contra a expetativa da família, que se recusava a prestar crédito ao que ela dizia, supondo-a vítima de uma alucinação, no dia 25, à hora marcada, a doente levanta-se, com grande estupefação de todos, e, montando a cavalo, parte para a Fátima. Tendo regressado a casa, depois de satisfeitas as suas devoções e de dadas as devidas ações de graças, faz uma novena. Rezando o terço e uma estação cada dia e, aplicando a terra do local das aparições dissolvida em água como remédio para uso externo e interno, sente-se curada no fim da novena. Atualmente caminha sem dificuldade, não se cansa com o trabalho, nem sente dores. Todos os meses desde então tem ido à Fátima, no dia 13, exceto no mês de setembro, agradecer a Nossa Senhora a sua cura. Manuel Pastilhas e Maria de Jesus, de Boiceiros, e outras pessoas, que a acompanham, afirmam tê-la visto em estado lamentável, paralítica e extremamente magra.

OUTRA CURA

Em torno de mim comprime-se uma multidão enorme. Todos querem ouvir a narração da cura de Maria da Conceição, mas é impossível. A custo consigo romper o círculo de ferro que me aperta. Um homem do povo dirige-se a mim e conta-me a traços largos a interessante história da sua cura. Chama-se António de Oliveira Dias, tem 58 anos de idade e reside no lugar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas. Sofria, havia doze anos, duma faringite crónica, rebelde a todo o tratamento. Os médicos eram de opinião que nunca se curaria radicalmente. Em treze de outubro de 1917 tinha vindo à Fátima e presenciado o estupendo fenómeno solar. Em novembro desse mesmo ano fez a promessa de ir à Fátima agradecer a Nossa Senhora a sua cura, se ela se dignasse alcançar-lhe essa graça, por que tanto suspirava. A partir dessa data, apesar de não fazer nenhum tratamento, foi melhorando pouco a pouco e, passado um ano, em novembro de 1918, achou-se completamente curado.

SANGUE RUIM!

Um grupo interessante de quatro pessoas uma senhora e três meninas, – chama a atenção dos circunstantes. Vêm agradecer a Nossa Senhora a cura, de que uma delas foi objeto. São mãe, duas filhas e uma afilhada.

Residem em Lisboa na R. de D. Estefânia, nº 115, 3º. A mãe chama-se D. Amélia Júlia dos Santos, viúva de Carlos Alberto dos Santos. Uma das filhas, a mais velha, é a protagonista deste comovente episódio. O seu nome é Maria Manuel dos Santos e tem 25 anos de idade. Esteve quatro anos como aluna no Colégio de S. Pedro de Alcântara, tendo entrado em 1910 e saído em 1914. Pertence a uma família rudemente provada pelo sofrimento.

Muitos parentes próximos têm morrido tuberculosos, entre eles um irmão com seis anos de idade. O pai morreu louco e um irmão enlouqueceu há meses, encontrando-se atualmente no hospital dos irmãos de S. João de Deus, no Telhal.

Concluídos os estudos saiu do Colégio e foi para o Alentejo, estabelecendo-se como professora particular em Arraiolos, onde chegou a catorze de outubro de 1914. Poucos dias depois foi acometida dum ataque de apendicite, tendo retirado para Lisboa por conselho do médico a vinte e quatro do mesmo mês. Em novembro do ano seguinte sofreu um segundo ataque, e um terceiro em março. A vinte e oito de maio entrou para o hospital de D. Estefânia, afim de ser operada. A operação teve lugar a onze de junho e foi feita pelos drs. Monjardim, Pinto Coelho e Medeiros. No fim do mês, a vinte e oito, saiu do hospital, sendo conduzida num trem a sua casa. Esteve pouco mais dum mês em casa, voltando de novo para o hospital, a quinze de agosto porque o seu estado de saúde se agravara. Ali esteve até agosto de novembro, dia em que foi operada pela segunda vez. Entretanto começou de sentir uma dor fortíssima, que tinha a sua localização na perna direita, estendendo-se desde o quadril até ao joelho. Por vezes a violência da dor atingia o paroxismo, tornando-se insuportável. Só conseguia sossegar à força de injeções.

Havia épocas em que não dormia durante noites consecutivas. A perna estava sempre encolhida e dobrada.

Eram-lhe aplicadas extensões de ligaduras e gessadas. A febre era constante, mas não muito alta.

Definhava e emagrecia de dia para dia. O apetite desapareceu. Foram-lhe receitados vários tónicos – glicerofosfato de cal, xarope iodotânico e estriquinina, e injeções de diversas espécies – arrenhal, cocodilato e dinamol.

A sua doença foi diagnosticada de coxalgia, proveniente de uma queda que a enferma dera, quando ainda criança, de um quarto para um terceiro andar pela escada. Quando sucedeu esse desastre contava onze anos. Ficara apenas com a perna magoada e cheia de nódoas negras, que depressa se desvaneceram sem deixarem vestígios de lesão interna.

Os médicos eram de parecer que a ação do clorofórmio e do éter, com que foi anestesiada por ocasião das operações tinha posto a descoberto a doença latente. [DCF, III-2, Doc. 480]

VIA DOLOROSA

Antes da segunda operação as dores não eram tão fortes, e a doente podia andar, embora com muita dificuldade. Morava então na Rua de Passos Manuel, próximo do Largo de Santa Bárbara. Ficava a duzentos passos do hospital. Conservou-se em observação e tratamento durante um ano, estando ora três meses no hospital, ora seis meses em casa.

Quando estava em casa, ia ao hospital fazer o tratamento, apoiando-se a uma sombrinha. Teve de internar-se no hospital umas cinco vezes, indo ora de trem, ora em maca. Depois de dois anos e meio de tratamento, no dia um de novembro de 1916, por conselho dos médicos, saíu do hospital de D. Estefânia para o Sanatório do Outão, na esperança de que o ar do mar trouxesse algum lenitivo aos seus padecimentos. Foi transportada até ao Terreiro do Paço num automóvel da Cruz Vermelha. Passaram-na ao colo para o vapor que fez a travessia do Tejo. Do Barreiro foi levada nas mesmas condições para o comboio, em que seguiu para Setúbal. Ali aguardava-a um automóvel, que a conduziu ao Sanatório.

NO SANATÓRIO

Nessa estância esteve dez meses.

Durante o primeiro mês não se levantou da cama. Depois, com o auxílio de muletas, começou a andar a pé com a perna metida num aparelho de gesso. Ao cabo de sete meses, declarou-se-lhe uma coxalgia também na perna esquerda. Sentiu uma dor aguda na coxa, a perna principiou a encolher, vendo-se a infeliz menina obrigada a recolher à cama. A perna direita continuava imobilizada no aparelho de gesso e à perna esquerda foi adaptada uma bota de gesso. Como o médico que a tratava havia partido para França e o clínico que lhe sucedeu na direção do Sanatório era especialista de doenças pulmonares e não de doenças ósseas, a enferma tinha vontade de regressar a Lisboa. Entretanto o seu estado de saúde piorou por motivo de uma infeção intestinal, que lhe sobreveio.

Uma doente sua amiga, que para ela fora sempre uma desvelada enfermeira, compadecida do seu estado, escreveu à mãe uma carta, em que lhe dizia que fosse buscar a filha, porque ela estava a morrer.

A pobre senhora, com a alma alanceada de dor, partiu sem demora para o Outão, afim de levar a filha para a capital, mas, como o médico se opusesse ao que, justamente, considerava uma temeridade, desistiu, por então, do seu intento, regressando sozinha a Lisboa. Passados cinco dias por diligências suas, uma enfermeira do hospital de D. Estefânia seguiu para o Sanatório, a fim de ver se conseguia trazer a enferma para casa.

Por essa ocasião uma professora de Lisboa costumava ir três vezes por semana ensinar lavores às crianças do Sanatório.

Aproveitou-se um dos dias em que ela regressava à capital para que pudesse acompanhar a doente, que veio também acompanhada pela enfermeira já referida e por um enfermeiro do Sanatório.

DE HERODES PARA PILATOS!...

No pátio do Sanatório, um trem recebia a enferma, que foi transportada num tabuleiro aos ombros de dois criados. No trem vinha ao colo da professora e da enfermeira. Uma das pernas estava metida no aparelho e a outra na bota de gesso e entre talas. As dores eram horríveis. A fraqueza era extrema. Qualquer movimento fazia-a desmaiar. Na estação de Setúbal os seus três companheiros de viagem transportaram-na do trem para o comboio com mil precauções.

Um indivíduo que seguia no mesmo compartimento, ajudou-a caritativamente a subir e a instalar-se. Durante o trajeto perdeu os sentidos repetidas vezes.

A enfermeira não lhe sentindo o pulso afligia-se imenso com receio de que ela morresse durante a viagem. No Barreiro foi transportada em braços, desmaiada, do comboio para o vapor, e bem assim em Lisboa, do vapor para o automóvel da Cruz Vermelha, que a conduziu a casa, já então na rua de D. Estefânia. No cais a família aguardava a sua chegada. Quando desembarcou a sua palidez era cadavérica. As pessoas que a viam passar lamentavam, cheias de compaixão, a sua triste sorte. Umas diziam que ela estava morta, outras que estava ferida, outras finalmente, que estava queimada. Na pequena maca do automóvel foi conduzida até à cama, num terceiro andar.

Era o dia dez de agosto. Por indicação de um farmacêutico das relações da família mandou-se chamar o dr. Miranda, especialista de doenças ósseas. Só oito ou dez dias depois é que esse médico pôde visitar a doente. Logo que a viu, aconselhou-a a ir ao hospital à consulta, a fim de se lhe pôr um novo aparelho. Ela assim fez. Foi eterizada para lhe poderem estender convenientemente as pernas. Como porém, o aparelho não ficasse bem e se quebrasse, não estando por isso a perna tão direita como era preciso, o médico mandou-a estar dez dias com uma extensão. Depois voltou para casa. Mais tarde, no dia seis de julho de 1918, foi ao consultório do dr. Miranda, na Avenida da Liberdade, para que ele lhe pusesse, como efetivamente pôs, outro aparelho, grande, desde os joelhos até ao estômago. Foi em maca num automóvel da Cruz Vermelha, o qual esperou que fosse posto o aparelho, transportando-a depois para casa. Conservou esse aparelho durante os meses de janeiro e fevereiro. Entretanto a enferma por intermédio das empregadas do hospital ia fornecendo ao médico informações acerca do seu estado. Pela Páscoa mandou-lhe pedir que lhe fosse aplicar outro aparelho, porque ainda sentia dores. O médico disse-lhe que havia de ficar sempre com dores e aconselhou-a a que comprasse o cabedal preciso, pois ele se prontificava a fazer um aparelho, que ela devia usar durante toda a vida. Como o aparelho de gesso se tivesse partido e ela sentisse poucas dores quando ele estava em bom estado, pediu ao médico que substituisse aquele aparelho por outro também de gesso. O médico acedeu. A doente foi, por isso para o hospital, onde esteve catorze dias certos. Entrou a doze de março e saiu a vinte e oito do mesmo mês, sexta-feira santa. Foi e veio num automóvel da Cruz Vermelha, ficando três meses de cama com o mesmo aparelho.

A PIEDADE DE UMA IRMÃ

Por ocasião da última aparição de Fátima, a treze de outubro de 1917, sua irmã Lúcia Maria Ana dos Santos, de vinte anos de idade, que estava a passar o verão no lugar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas, em casa de sua prima Amélia Estêvão, foi com várias pessoas de família àquela povoação da serra de Minde e assistiu aos fenómenos maravilhosos que ali se verificaram, pedindo com o maior fervor e na maior aflição à Santíssima Virgem que se dignasse curar a irmã. A cura da irmã era a sua grande preocupação de todos os dias, de todas as horas, de todos os instantes. Era o seu mais ardente desejo, a graça que mais ambicionava, o favor do Céu que suplicava com mais vivo empenho e com maior constância. Já no dia treze do mês anterior tinha ido a Fátima e implorado ardentemente essa graça. Antes desse dia, ainda em setembro, tinha pedido a um primo seu, Júlio Neto de Almeida que não se esquecesse de recomendar a sua intenção às pastorinhas privilegiadas de Fátima. A treze de outubro ela própria pediu às videntes o auxílio de suas orações e prometeu que a irmã iria à Fátima agradecer a sua cura se Nossa Senhora se dignasse favorecê-la com essa graça. Entretanto continuava a orar a Nossa Senhora da Fátima, alimentando a esperança de ver a irmã curada, apesar das graves crises por que ela passava e de todos perderem as últimas esperanças de salvação.

UMA CURA EXTRAORDINÁRIA! DIZ O MÉDICO...

A enferma, quando passados três meses, em junho, se tirou o último aparelho, como a enfermeira se oferecesse para a levar ao colo até ao banho, recusou o oferecimento, dizendo que podia ir por seu pé. Um mês depois já andava sem se encostar a coisa alguma, embora com dificuldade. Foi depois para Fanhões, nas proximidades de Loures, regressando a Lisboa passados dois meses. Ali andava apoiada a uma bengala, vindo de lá a caminhar bem. Antes de sair para Fanhões, foi ao hospital.

O médico, ao vê-la, ficou estupefacto. Não queria crer que fosse a mesma pessoa. Interpelou-a, dizendo “Ó rapariga és tu?! Parece um milagre!”. E logo, como que considerando, acrescentou: “Um milagre, não uma cura extraordinária, um caso raro.” Depois observou-a atentamente e disse que a achava boa.

Muitas pessoas das relações da enferma, que eram pouco crentes, diziam assombradas, que a sua cura parecia um milagre.

As pessoas de sentimentos religiosos, que tinham conhecido o seu lastimoso estado não alimentavam dúvidas a respeito do caráter sobrenatural da sua cura...

[DCF, III-2 - Doc. 492]

PEDI E RECEBEREIS

Por ocasião das duas operações a enferma recebeu os sacramentos. A irmã todos os dias ou quase todos os dias, sobretudo depois dos acontecimentos de Fátima, rezava o terço do rosário e oferecia-o pela sua cura. A doente, por carta que a irmã escreveu dos Carrascos à mãe, quando da sua ida a Fátima, soube da promessa que ela tinha feito e associara-se às suas intenções, mas conformando-se resignadamente com a vontade de Deus e pedindo a Nossa Senhora que fizesse o que fosse melhor para a sua alma.

COMO ERA BOM CONTINUAR AQUI!...

São três horas menos um quarto.

Estão presentes mais de mil pessoas.

O movimento de vaivém é extraordinário. Entretanto tomo conhecimento doutra cura. Maria José, de 50 anos, natural do lugar da Maxieira, freguesia de Fátima, casada com António do Rosário, começou a sofrer gravemente dos olhos no mês de julho findo. Turvava-se-lhe a vista, vendo muito pouco. Tinha dores e prurido nos olhos. Prometeu, se melhorasse, ir de joelhos até junto da capela desde o ponto que primeiro a avistasse. Sente-se efetivamente melhor, quase de todo curada. Veio por isso cumprir hoje a promessa.

Olho em torno de mim. O espetáculo é soberbo. A multidão parece arrancar-se com dificuldade deste lugar sagrado, a que ficam presos os corações. Desfruta-se aqui uma alegria suave e santa, uma consolação que não parece deste mundo. Respira-se o sobrenatural a largos tragos.

... MAS É PRECISO PARTIR!...

São horas de regressar. O meu relógio marca quatro horas. Parto para a igreja paroquial, que anda em reparações. Muitos peregrinos vão ali visitar Jesus Sacramentado e ver as obras. Os operários, quando ultimamente procediam à demolição de uma parte das paredes do altar-mor, descobriram uma estátua de Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo, de tamanho natural e em perfeito estado de conservação. A descoberta desta imagem causou sensação a toda a região e entre os peregrinos, tanto mais que tudo parece indicar que se trata de uma imagem de Nossa Senhora do Rosário.

DE REGRESSO A CASA!...

Pelas estradas que percorro e que vão cheias de romeiros, de regressam a suas casas, vê-se o mesmo espetáculo da manhã, mas talvez ainda mais impressionante. Ao perto e ao longe, não se ouve senão a recitação cadenciada do terço do rosário, ou o canto da ladainha da Santíssima Virgem, ou de Hinos populares em sua honra.

E quando, à noite, a sete léguas de Fátima, me dirigia, depois de jantar, para a estação de Paialvo, a fim de tomar o rápido de Lisboa, ainda pelas estradas se ouvia o Avé de Lourdes, cantado pelos peregrinos que, a pé ou a cavalo, suspiravam por chegar o mais depressa possível aos seus lares distantes, onde nos serões de inverno à lareira, irão recontar aos que tinham ficado, as estupendas maravilhas da misteriosa Fátima. E com o poeta repetirão, cantando cheios de fé e confiança na Augusta Padroeira de Portugal, as formosas e inspiradas estrofes, cujos sons os montes e vales da serra de Aire parecem repercutir ao longe:

Hoje...Mas hoje ainda é estrela
Santa Maria!... Ainda é Mãe!
Veio ao condado de Nuno
dizê-lo em terras de Ourém!

Quando em Roma em culto alçava
Dom Nuno a trono de luz,
veio a Fátima a sorrir-nos
a doce mãe de Jesus!

Veio dizer-nos, na bruma
da nossa tarde sombria,
que ora do Céu por nós velam
Frei Nuno e Santa Maria.

A MORTE DA PEQUENA JACINTA

Como prometêramos vamos agora dar aos leitores umas ligeiras notas sobre o falecimento da pequena Jacinta, uma das videntes de Fátima, e seguidamente diremos também alguma coisa sobre as nossas impressões do dia treze de maio de 1920 que a inesperada proibição da autoridade veio pôr em destaque, produzindo efeito contraproducente.

É crença geral entre o povo que toda a família das crianças, assim como também estas, estão condenadas a desaparecer dentro de pouco tempo, e acrescenta-se que isso lhes teria sido anunciado pela Senhora. Qualquer que seja o fundamento desta crença, o certo é que o pequeno Francisco, irmão da Jacinta, já faleceu; a Jacinta também, o pai de Lúcia da mesma forma, e a mãe esteve há pouco tempo à morte, assim como também está muito mal uma irmã da Jacinta1.

Das três crianças apenas resta a Lúcia que era a que conversava com a Senhora, segundo ela afirma.

A Jacinta, que era relativamente robusta, teve, como dissémos, a pneumónica, donde lhe resultou uma pleurisia purulenta, seguida de outras complicações.

Tendo vindo a Fátima um distinto especialista da capital, e tendo observado a pequena, empenhou-se em que ela fosse para Lisboa, a fim de ver se, por meio de uma operação, era possível, ainda, salvá-la.

Buscou-se-lhe alojamento em casa de alguma pessoa abastada, mas nada se conseguiu.

Foi então hospedar-se na pobre morada de uma modesta criatura, que a recebeu de bom grado, com grande contentamento da pequena, que tirada do seu meio provinciano, toda ela era acanhamento e confusão.

Para fazer a operação escolheu-se o hospital de D. Estefânia.

Antes, porém, de a criança recolher ao hospital, disse ela que a Senhora lhe havia novamente aparecido, assegurando-lhe que morria, e por isso a pequena achava que a operação era inútil.

Apesar disso, e muito embora ela teimasse que tudo era inútil, fez-se-lhe a operação que correu bem, muito embora sem êxito feliz, como se viu.

Quatro dias antes de morrer, como a criança tivesse grandes dores e se queixasse, dizia-lhe a criatura que a havia recolhido e que ela tratava por madrinha, que suportasse com paciência as suas dores que isso seria muito agradável a Deus.

Na manhã do dia seguinte disse-lhe a Jacinta:

– Olhe madrinha! Eu já não me queixo! Nossa Senhora tornou-me a aparecer, dizendo que em breve me viria buscar – e me tirava já as dores!

E de facto, desde esse dia até que morreu, segundo se diz, não tornou a queixar-se nem deu mostras de sofrimento.

Sucedendo a madrinha passar ou sentar-se ao pé da cama, não longe do sítio em que a Jacinta disse ter visto a Senhora – exclamou:

– Tire-se daí, madrinha, que aí esteve a Senhora!...

E a mesma preocupação se lhe apresentava quando alguma enfermeira passava pelo mesmo sítio.

Como fossem ao hospital algumas pessoas, imodestamente vestidas, ou vê-la a ela, ou ver outros doentes, e algumas enfermeiras apresentassem certos exageros no traje, – dizia indicando essas pessoas e referindo-se a determinados certos enfeites e decotes:

– Para que serve aquilo! Se soubessem o que é a eternidade!...

– Falando de alguns médicos que ela julgava serem incrédulos – lastimava-os dizendo:

– Coitados, mal sabem eles o que os espera!

Afirmava a vidente que Nossa Senhora lhe havia comunicado: que o pecado que leva mais gente à perdição — era o pecado da carne, que era preciso deixarem-se de luxos, que não deviam obstinar-se no pecado como até aqui; que era preciso fazer muita penitência.

E parece que a Senhora ao dizer isto se mostrava muito consternada, – porque a pequena acrescentava:

– Ai! Eu tenho muita pena de Nossa Senhora! Tenho muita pena!

Enquanto esteve em casa, antes de ir para o hospital, vivia em companhia doutra pequenita, – a quem ela recomendava muitas vezes – que fosse muito obediente, que não fosse preguiçosa e que nunca faltasse à verdade.

Pouco antes de morrer – perguntando-lhe se queria tornar a ver a mãe, respondeu: que a família dela durava pouco tempo e que em breve se encontrariam no céu.

Disse mais que Nossa Senhora – devia ainda aparecer outra vez, mas não a ela, porque com certeza morria segundo ela lhe disse.

Pediu licença para se confessar, muito embora se tivesse confessado e comungado antes de entrar para o hospital.

Foi confessá-la – o rev.mo prior dos Anjos, Dr. Pereira dos Reis, mas não teve tempo de lhe dar a comunhão.

Entrou para o hospital no dia 2 de fevereiro, e morreu no dia 20.

Depois de falecer, alguém aventou a ideia de a transportarem para a terra de sua naturalidade e assim se fez, arranjando-se uma subcrição para esse fim.

Muitas das pessoas que a não tinham querido receber em sua casa, depois que a pequena morreu, já todas se mostravam solícitas em lhe prestar homenagem, até talvez com um bocadinho de exagero, – o que provocou alguns reparos justos dum ilustre sacerdote.

Esteve o cadáver da pequena na casa do despacho da igreja dos Anjos, aguardando a remoção para a estação e as necessárias formalidades, saíndo depois com grande acompanhamento.

Alguém notou a coincidência de quando saíu o enterro, se achar na igreja o Dr. Domingos Pinto Coelho e algumas pessoas de família, que por incidente ali haviam ido, e relacionou este facto com o célebre artigo escrito por sua exa em outubro de 1917 que, apesar de ortodoxo, motivou reparos de alguma gente que ferve em pouca água.

A pequena deixou dois segredos, para uma pessoa que se tem interessado por este assunto.

Em suma e em conclusão:

Deus permita que a luz da verdade resplandeça sobre este caso, não só pelo que ele possa ter de miraculoso – como pelas consequências que daí possam resultar para a regeneração espiritual desta nossa querida pátria.

E entretanto, seja como for, vamos nós cumprindo a exortação o que a pequena atribui a Nossa Senhora – e que é, afinal, a doutrina da Igreja:

Façamos penitência! Evitemos o luxo e o pecado da carne! Não nos obstinemos no pecado – para que não suceda como a alguns a quem a pequena se referiu, quando dizendo-lhe a madrinha que era preciso orar por eles, ela respondeu:

– Pois sim madrinha, mas esses já não têm remédio!

[DCF, III-2 - Doc. 528]

O DIA TREZE DE MAIO DE 1920

O DILÚVIO

Cheguei no dia treze de maio último, de madrugada, a Vila Nova de Ourém, debaixo de uma carga de água torrencial, entre o fuzilar dos relâmpagos e o ribombar dos trovões.

À minha saída de Lisboa, corriam os boatos mais terroristas sobre o caso de Fátima, dizendo-se que era inútil a viagem porque havia ordens terminantes para não deixar passar ninguém de Vila Nova de Ourém.

Por esse por motivo, muitos que tinham combinado vir comigo não vieram, mas eu teimei e vim, quando mais não fosse, para ver o que havia de verdade.

Ao mesmo tempo que eu, chegaram duas senhoras, uma nova ainda, elegante e formosa com uns grandes olhos cor de miosótis, filha de um antigo ministro da monarquia, e a outra de aparência distinta, já de certa idade, e que me consta ser aparentada com uma das famílias mais conhecidas da Beira, e nomeadamente da Guarda.

Coitadas! Debaixo daquela chuvada toda, que até fazia lembrar o versículo genesíaco:

– Et apertae sunt cataractae aquarum et fontes abyssi magni.
Não se queixavam, tamanha era a sua fé e entusiasmo, e apenas as preocupava a ideia de que as não deixariam chegar ao local das aparições!...

A ARCA DE NOÉ

A muito custo lá conseguimos chegar a uma estalagenzita que fica mesmo em frente da igreja e que dá pelo nome de Hospedaria da Maria Joana, e aí descansámos um pouco, num canapé tremelicante, até romper o dia, pois a respeito de quartos era coisa que não havia.

Manhãzinha cedo, mal luziu o buraco, sentimos um grande tropel de cavalos.

Corremos à janela!

Era um esquadrão de cavalaria da guarda republicana, que marchava a todo o galope para a Fátima.

– Então sempre seria verdade?

Inquirimos da criada da locanda o que havia... que se dizia por lá...

– A mesma incerteza ... Boatos!... Boatos!

Que havia infantaria... cavalaria... metralhadoras... não sei que mais...

Uma ofensiva em regra!

– Mas porquê, Santo Deus?!...

Ninguém sabia explicar!... dizia a mulherzinha.

– Uma coisa já conseguiram eles:

De Ourém não vai ninguém à Fátima. Estavam todos os carros alugados a 40$000 cada um. Pois foram todos dispensados com grande zanga do alquilador que é republicano esturrado, e que não percebe porque razão se pode proibir a um cidadão pacífico de ir em passeio onde muito bem lhe apeteça!

De Tomar não vem ninguém pelos mesmos motivos!

Em muitos concelhos, segundo dizem os respetivos administradores do concelho, proibiram a saída dos veículos!!...

Estávamos nesta conversa quando nos apareceu um rapazito da J. C. de Lisboa, dono de uma tipografia para os lados de Belém, e daí a nada o Dr. Dinis da Fonseca que dormira na hospedaria, pois tinha ali vindo na véspera defender um réu numa audiência geral.

Peço informações. Também não sabem. Que até à Fátima, parece que deixarão ir, daí por diante não... que ralha o Pai do Céu!...

Tinha levantado a chuva!...

Desço abaixo à rua e começo a ver passar carros, carroças, automóveis, camions, gente a pé, gente a cavalo, uma verdadeira romaria!...

– Ah! mas então para que diacho serviu a proibição? Começo eu a pensar...

Eu pensava que não encontraria ninguém e afinal vejo constantemente passar homens, mulheres e crianças... num verdadeiro corropio!...

É uma interminável fita de povo!

O HERODES DE OURÉM

Char à bancs enormes, puxados por machos guizalhantes, carregados de gente a rir pela estrada fora, a rir como perdida, da figura do administrador que eu vejo agora especado no meio da rua... de palhinhas, muito embaçado... com um sorrizinho amarelo a desfranzir-lhe as comissuras dos lábios... carroças engrinaldadas de flores e automóveis trepidantes com rouquejar forte de sereias ou estridentes arreda dos auto-boxes, camions pesados e resfolegantes, com seus tejadilhos amplos repletos de farnéis, e cortinas a dar... a dar!..., caleches e landaus aristocráticos, modestas carripanas, mulheres e homens a pé, encharcados, enlameados, com os guarda-chuvas em funeral, escorrendo água, mas satisfeitos, felizes, com cara presenteira, tudo isso desfilou diante de mim como uma longa fita cinematográfica!...

Donde vinha tanta gente? De muita parte, mas sobretudo de Torres Novas, dizem.

Afinal passava-se!... De Ourém pelo menos!

Mas que andaria o administrador com o seu palhinhas, e cirandar dum lado para o outro?!...

Nova fita?!... Quem sabe!...

Eu queria seguir cedo para Fátima. Mas a missa?
Pergunto a que horas é na matriz:
Às 11!
Demais a mais, num dia tão caro, eu desejaria receber Nosso Senhor.
Deixo ir toda a gente e espero pela missa...

A CAMINHO DE FÁTIMA

Depois de ouvir missa e comungar, almoço e sigo caminho de Fátima, subindo a íngreme ladeira que durante uns poucos de quilómetros serpeia pelos cabeços de Ourém, até lá.

O panorama é surpreendente.

A terra cheia de verdura e empapada em água brilha à luz dum sol envergonhado, fazendo negaça entre nuvens, ainda ameaçadoras de novas borrascas.

Por toda a parte à beira da estrada, casinhas rústicas afestoadas de toucar, numa profusão, como nunca vi.

Na parede que circunda um trigal ondeante estrelado de papoulas e malmequeres um rancho de petizes teve a delicada ideia de encher com flores campezinas todos os interstícios livres das pedras!

Vamos subindo sempre...

O Castelo de Ourém, o Castelo do Santo Condestável, ergue para o Céu o seu perfil artístico, coroando o cume da montanha em que assenta.

Aqui são cabeços de mato encantadoramente boleados, arregoados de vales, cheios de verdura onde serpeiam regatos fugitivos que a chuva da manhã tornara barrentos e apressados.

Passa veloz, vindo de cima um automóvel que deixa ver dum lado e doutro carabinas em leque, ameaçadoras...

É o administrador do concelho... e a sua escolta!...

Não a veio fazer boa, diz um rapaz que nos segue em bicicleta, pedalando...

Há hora e meia já que vimos subindo...

Fátima não está longe!...

Entram de novo a cair pingas de água...

Daí a pouco tempo entrávamos efetivamente no pequeno largo junto à Igreja.

Por toda a parte carros, carroças e automóveis parados. Uma grande multidão de gente, alguns milhares de pessoas enchiam o largo e atulhavam a igreja.

No meio da estrada forças de infantaria e cavalaria da guarda republicana, impedem de passar adiante.

POR AQUI NÃO SE PASSA!

Faltam ainda uns três quilómetros para chegar ao local das aparições.

Indago dos circunstantes, se não tem passado ninguém.

Até ao meio-dia passou toda a gente, mas depois veio o administrador do concelho e deu ordem em contrário.

Pergunto ao comandante da força se não pode passar-se. Delicadamente ele informou:

– Até aqui tenho deixado passar, mas o administrador do concelho, manda agora o contrário; tenho de cumprir as ordens.

Retrocedo e venho para o pé da enorme multidão que dentro da igreja e no alpendre, em volta, comenta o caso tristemente sem compreender como é que há perigo de ordem pública na Cova da Iria, e não há três quilómetros de distância, sendo a gente a mesma!...

É uma perfeita estupidez!...

Muita gente não podendo seguir pela estrada precipita-se ainda através dos campos, furtivamente, saltando muros, e lá consegue chegar até ao local da aparição, dando-se por muito feliz de poder ajoelhar na terra molhada e recitar devotamente o terço.

Será isto que põe em risco o regime?!...

[DCF, III-2 - Doc. 532]

ORAÇÃO, COMUNHÃO E PENITÊNCIA!

Dentro da igreja o Dr. Cruz faz piedosas práticas intercaladas com a recitação do terço e com cânticos religiosos.

Há muita gente ainda, que se confessa.

Uma senhora ceguinha vinda de ao pé de Aveiro, com grande sacrifício, caminha amparada ao ombro duma parenta, debaixo de uma chuva impertinente que entra de novo a cair.

Não se lastima, antes pelo contrário, bem diz confiadamente a Deus, e encaminha-se para a Igreja.

Um indivíduo de barbas, que me dizem ser médico e muito idoso, explica a um grupo que o rodeia a razão providencial da proibição.

Segundo lhe diziam, havia quem pretendesse começar a levar ali músicas, fungágás, foguetes, etc.

Ora a Senhora não quer nada disso.

Apareceu num descampado, precisamente porque quer ser ali amada e venerada em espírito, sem nenhuma dessas exibições espetaculosas e barulhentas de arraial.

Oração comunhão e penitência.

Isto e só isto, é o que ela quer!

Fazendo a proibição as autoridades satisfazem inconscientemente os desejos da Senhora!

CHUVA E PEIXE ESPADA

A chuva caía agora a potes outra vez...

E todos procuravam refugiar-se ou debaixo dos carros, ou debaixo do alpendre que na Igreja o apertão era já enorme.

Nisto vejo eu a guarda republicana de espadas desembaínhadas descarregando pranchada a torto e a direito nalguns pacíficos camponeses que de guarda chuva aberto olhavam melancolicamente para aquilo tudo... e que surpreendidos da agressão inesperada, desatavam a correr sem saber por que eram agredidos .

Alguém se dirige aos guardas a indagar do que se trata... Queixam-se de que um homem do povo, querendo passar à força e, como o impedissem disso, os ameaçava, e daí aquele alvoroto em que pagava o justo pelo pecador, como sucede quase sempre.

Explicado o caso e restabelecida a tranquilidade, converso com alguns camponeses a quem prudentemente aconselho que se abstenham de passar, visto que é mais meritória a obediência a ordens mesmo injustas desde que não ofendam a nossa consciência do que a resistência temerária.

Um dos guardas republicanos, diz-me então num assomo de sinceridade:

– Se o senhor soubesse o que me custa estar aqui!

Cumpro ordens e cumpro-as à risca: mas creia que cá por dentro, tudo isto me revolta!

Eu sou religioso, senhor, e não compreendo que utilidade haja em estar a proibir essa pobre gente de ir rezar lá baixo!... Isto até dá vontade de chorar!...

– Tenho uma irmã que foi à Senhora de Fátima, que lhe salvou a vida!

E de facto, pela cara tisnada do pobre guarda que ali estava cumprindo ordens, bem contra a sua vontade, deslizava vagarosamente uma gota de água que não era positivamente irmã daquelas que escorriam em borbotões do seu capuz de oleado porque a chuva continuava a caír teimosamente...

O FRUTO PROIBIDO

Volto, e ia dirigir-me a casa do prior cuja varanda à antiga portuguesa fora também assaltada pelos que procuravam abrigar-se da chuva, quando vejo a minha companheira da manhã, franzina, delicada com os seus olhos azuis e cismadores, feita num pinto, chapinhando na lama, mas sempre alegre e despreocupada, como se estivesse confortavelmente assentada nalgum tea elegante, bem abrigada e enroupada e não debaixo daquele dilúvio.

E mostra-me uma estampinha em gravura, da Senhora de Fátima...

– Está ali! diz ela, e aponta-me a sacristia da Igreja!...

E depois, baixinho, como que em segredo, rindo muito, com uma pontazinha de malícia a iluminar-lhe os grandes olhos azuis como o firmamento, acrescenta:

– E agora vou lá baixo!... Ensinem-me um atalho por onde se pode ir!... Atravessa-se o campo!... Mas hei de ir!...

E lá abalou debaixo da chuva, encharcada até aos ossos, chapinhando na lama, mas sempre risonha, sempre feliz contente por ir lá baixo e pregar assim uma pirraçasinha aos Herodes da governança!...

– Oh! as mulheres quando elas querem!...

A FÉ DO CARVOEIRO!

Entrei na sacristia a ver o que é que estava ali.

Era uma imagem da Senhora de Fátima lindíssima na verdade, que um devoto mandara de propósito fazer.

E porque a intolerância das autoridades a não deixava colocar no nichozinho da Cova da Iria, por isso a pusera ali para que os fiéis, desfilando perante ela, a vissem e admirassem!...

E era de ver a devoção com que muita daquela pobre gente lhe rezava!

Eu não sei em verdade se no culto da gente humilde e ignorante, entrará um pouco de paganismo ou de superstição, que é inata ao coração do homem, desde a queda no paraíso terreal, mas como é admirável de ingenuidade e de simplicidade a forma como, por exemplo, esta gente reza o seu terço!

Era o célebre Pasteur que dizia de si próprio ter a fé de um bretão, mas que, se vivesse mais tempo viria a ter a fé duma bretã, ou como nós dizemos cá, a fé do carvoeiro!...

E os que, às vezes censuram a materialidade das devoções populares, não são os mesmos que enchem as salas de Madame Brouillard e outras bruxas mais ou menos célebres, que se deixam embair com duas cantigas dos Bernheim de pacotilha, que as nossas Universidades engendram cada ano e se prostram reverentes perante as colunas do Templo, cobertos de aventais e de triângulos com penduricalhos ridículos ao pescoço, que deixam perder de vista as fitinhas azuis das filhas de Maria?!...

É ESTÚPIDO!...

Mas a chuva continuava impertinente...

O cocheiro advertia que a estrada não estava boa e era preciso voltar mais cedo...

Por isso, feitas as nossas devoções e as nossas despedidas até à primeira!... voltámos caminho de Ourém para depois regressarmos a casa...

Na estação, antes de tomarmos o comboio, encontrámos inúmeras pessoas de diversos pontos do país que regressavam às suas terras, como nós!...

Lá estava a ceguinha de Aveiro acompanhada por uma senhora do Porto, que apesar de terem estado ambas com os vestidos completamente molhados e serem ambas doentes, nada tinham sofrido e conservavam a mesma boa disposição. Lá estava um conhecido ourives de Lisboa, lá estavam muitas outras pessoas da capital.

Não tornei a ver a minha companheira dos olhos azuis, que provavelmente lá ficou a caminhar por montes e vales, até chegar aonde queria chegar!...

E um honrado comerciante, republicano ao que parece, cobria de enérgicas invetivas o administrador do concelho, porque tolhia o progresso da terra e impedia o comércio de fazer o seu negócio!...

– É estúpido!... concluiu ele...

– Imaginem vocês!... que esta proibição só aos alquiladores de Tomar, Ourém e Torres Novas, deu mais de vinte contos de prejuízo!...

CONCLUSÃO

Mas perguntará o leitor: “Nossa Senhora apareceu realmente em Fátima?”

Abstemo-nos adrede de formular o nosso juízo em assunto tão delicado e melindroso.

Continuamos a manter-nos, como até aqui, em benévola expetativa.

Os factos – uma parte deles apenas, e sem dúvida a menos importante, – aí ficam narrados em toda a sua singeleza e com a mais escrupulosa imparcialidade.

Cada qual, seja crente ou descrente, tem o direito de pensar o que lhe aprouver acerca da origem e natureza desses sucessos tão extraordinários. Entretanto ninguém de bom senso deixará por certo de achar justa a exclamação proferida por um ilustre advogado, que foi testemunha presencial das medidas arbitrárias e violentas adotadas pela autoridade administrativa para impedir o acesso ao local das aparições: “Palavra de honra! Não acreditava, mas agora, desde que o governo proibe que se vá lá, começo a crer que Nossa Senhora apareceu realmente em Fátima!

[DCF, III-2 - Doc. 537]

Nota. – Pede-se a todas as pessoas que tenham conhecimento de factos interessantes relativos às aparições de Fátima ou de curas extraordinárias atribuídas à intercessão e Nossa Senhora do Rosário o favor de comunicarem todos os esclarecimentos possíveis em carta fechada ao Visconde de Montelo – “Empresa Véritas” – Guarda.

Notas dos editores

1 António dos Santos faleceu a 31 de julho de 1919.
1 Reproduzo este interrogatório dos videntes, sem alteração de uma vírgula, exatamente como o redigi, no dia 29 de setembro de 1917
1 Algumas pessoas da Granja concorreram com a quantia de cinquenta mil réis, que foi entregue ao Rev. Pároco de Fátima, para a construção de uma capela no local das aparições.
1 Faleceu ao princípio do mês de maio findo.
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