Explorar / Documento
DCF III-2, Doc. 492
Índice (5 secções)
Artigo de “A Guarda”, intitulado Os Episódios de Fátima, que continuam o relato dos acontecimentos de Fátima.
Publ.: “A Guarda”, Guarda, 16 (689), 1 Mai. 1920, p. 2, cols. 1-2 e Os Episódios maravilhosos de Fátima, Guarda, Empresa Veritas, 1921, p. 49-53.
OS EPISODIOS DE FATIMA (Dois anos depois) [IX]
Via dolorosa!...
Antes da segunda operação a dor não era tão forte, e a doente podia andar, embora com muita dificuldade. Morava então na Rua de Paços Manuel proximo do Largo de Santa Barbara. Ficava a duzentos passos do hospital. Conservou-se em observação e tratamento durante um ano, estando ora tres mezes no hospital, ora seis mezes em casa.
Quando estava em casa, ia ao hospital fazer o tratamento, apoiando-se a uma sombrinha. Teve de internar-se no hospital umas cinco vezes, indo ora de trem, ora em maca. Depois de dois anos e meio de tratamento, no 1º de Novembro de 1916, por conselho dos medicos, sahiu do hospital de D. Estephania para o Sanatorio do Outão, na esperança de que o ar do mar trouxesse algum lenitivo aos seus padecimentos. Foi transportada até ao Terreiro do Paço num automovel da Cruz Vermelha. Passaram-na ao colo para o vapor que fez a travessia do Tejo. Do Barreiro foi levada nas mesmas condições para o comboio, que a conduziu a Setubal. Aguardava-a um automovel, que a conduziu ao Sanatorio.
No Sanatorio
Nessa estancia esteve dez mezes.
Durante o primeiro mez não se levantou da cama. Depois, com a ajuda de muletas, começou a andar a pé com a perna metida num aparelho de gesso. Ao cabo de sete mezes, declarou-se-lhe uma coxalgia tambem na perna esquerda. Sentiu uma dor aguda na coxa, a perna principiou a encolher, vendo-se a infeliz menina obrigada a recolher á cama. A perna direita continuava imobilisada no aparelho de gesso e á perna esquerda foi adaptada uma bota de gesso. Como o medico que a tratava teve de partir para França e o clinico que lhe sucedeu na direcção do Sanatorio era especialista de doenças pulmonares e não de doenças osseas, a enferma tinha vontade de regressar a Lisboa. Entretanto o seu estado de saude peorou por motivo de uma infecção intestinal, que lhe sobreveio.
Uma doente sua amiga, que para ella fora sempre uma desvelada enfermeira, compadecida do seu estado, escreveu á mãe uma carta, em que lhe dizia que fosse buscar a filha, porque ela estava a morrer.
A pobre senhora partiu imediatamente para o Outão, afim de levar a filha a Lisboa, mas, como o medico se opozesse ao que com razão considerava uma temeridade desistiu, por então, do seu intento, regressando sosinha a Lisboa. Passados cinco dias por deligencias suas, uma enfermeira do hospital Estephania seguiu para o Outão, afim de ver se conseguia trazer a enferma para casa.
Por essa occasião uma professora ia tres vezes por semana de Lisboa ensinar lavores ás creanças do Sanatorio.
Aproveitou se um dos dias em que ella regressava á capital para que podesse acompanhar a doente, que veio tambem acompanhada pela enfermeira já referida e por um enfermeiro do Sanatorio.
De Herodes para Pilatos!...
No pateo do Sanatorio, um trem recebia a enferma, que foi transportada num taboleiro aos ombros de dois creados. No trem vinha ao colo da professora e da enfermeira. Uma das pernas estava metida no aparelho e a outra na bota de gesso e entre talas. As dores eram horriveis. A fraqueza era extrema. Qualquér movimento fazia-a desmaiar. Na estação de Setubal os seus tres companheiros de viagem transportaram-na do trem para o comboio com mil precauções.
Um individuo que seguia no mesmo compartimento, ajudou-a caritativamente a subir e a instalar-se. Durante o trajecto perdeu os sentidos repetidas vezes.
A enfermeira não lhe sentindo o pulso afligia-se imenso com receio de que ela morresse durante a viagem. No Barreiro foi transportada em braços, desmaiada, do comboio para o vapor, e bem assim em Lisboa, do vapor para o automovel da Cruz Vermelha, que a conduziu a casa, já então na rua de D. Estephania. No caes a familia aguardava a sua chegada. Quando desembarcou a sua palidez era cadaverica. As pessoas que a viam passar lamentavam cheias de compaixão a sua sorte. Umas diziam que ela estava morta, outras que estava ferida, outras que estava queimada. Na pequena maca do automovel foi conduzida até á cama, num terceiro andar.
Era o dia 10 de agosto. Por indicação de um farmaceutico amigo da familia mandou-se chamar o dr. Miranda, especialista de doenças osseas. Só oito ou dez dias depois é que esse medico poude visitar a doente. Logo que a viu, aconselhou-a a ir ao hospital á consulta, afim de se lhe pôr um novo aparelho. Ella assim fez. Foi etherisada para lhe poderem estender convenientemente as pernas. Como porem, o aparelho não ficasse bem e se quebrasse, não estando por isso a perna tão direita como era preciso, o medico mandou-a estar dez dias com uma extensão. Depois voltou para casa. Mais tarde, no dia 6 de julho de 1918, foi ao consultorio do dr. Miranda, na Avenida da Liberdade, para que elle lhe puzesse, como efectivamente poz, outro aparelho, grande, desde os joelhos até ao estomago. Foi em maca num automovel da Cruz Vermelha, o qual esperou que fosse posto o aparelho, transportando-a depois para casa. Conservou esse aparelho durante os mezes de Janeiro e Fevereiro. Entretanto a enferma por intermedio das empregadas do hospital comunicava ao medico informações acerca do seu estado. Pela Paschoa mandou-lhe pedir que lhe fosse applicar outro aparelho, porque ainda sentia dôres. O medico disse-lhe que havia de ficar sempre com dôres e aconselhou-a a que comprasse o cabedal preciso, pois ele se prontificava a fazer um aparelho, que ela devia usar durante toda a vida. Como o aparelho de gesso se tivesse partido e ella sentisse poucas dores quando ele estava em bom estado, pediu ao medico que substituisse aquele aparelho por outro tambem de gesso. O medico acedeu. A doente foi, por isso para o hospital, onde esteve quatorze dias certos. Entrou a 12 de Março e sahiu a 28 do mesmo mez, sexta feira santa. Foi e veio num automovel da Cruz Vermelha, ficando trez meses de cama com o mesmo aparelho.
A piedade de uma irmã
Por occasião da ultima apparição de Fatima, a 13 de Outubro de 1917, sua irmã Lucia Maria Anna dos Santos, de 20 annos de edade, que estava a passar o verão no logar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas, em casa de sua prima Amelia Estevão, foi com varias pessoas de familia áquella povoação da serra de Minde e assistiu aos phenomenos maravilhosos que ali se verificaram, pedindo com o maior fervor e na maior afflicção á Santissima Virgem que se dignasse curar a irmã. A cura da irmã era a sua grande preocupação de todos os dias, de todas as horas, de todos os instantes. Era o seu mais ardente desejo, a graça que mais ambicionava, o favor do bem que suplicava com mais vivo empenho e com maior constancia. Já a 13 do mez anterior tinha ido á Fatima e suplicado ardentemente essa graça. Antes desse dia, ainda em setembro, tinha pedido a um primo seu, Julio Netto d'Almeida que não se esquecesse de recomendar a sua intenção ás pastorinhas privilegiadas com as apparições da Virgem. A 13 de Outubro ella propria pediu ás videntes o auxilio de suas orações e prometteu que a irmã iria á Fatima agradecer a sua cura se Nossa Senhora se dignasse favorece-la com essa graça. Entretanto continuava a orar a Nossa Senhora da Fátima, não perdendo a esperança de vêr a irmã curada, apesar das graves crises por que ella passava e de todos perderem as ultimas esperanças de cura.
Uma cura extraordinaria! Diz o medico...
A enferma, quando tres mezes depois em junho se tirou o ultimo apparelho, como a enfermeira se offerecesse para a levar ao collo até ao banho, recusou o offerecimento, dizendo que podia ir por seu pé. Um mez depois já andava sem se encostar a cousa alguma, embora com difficuldade. Foi depois para Fanhões, nas proximidades de Loures, regressando a Lisboa passados dois mezes. Alli andava apoiada a uma bengala, vindo de lá a andar bem. Antes de sahir para Fanhões, foi ao hospital.
O medico, ao ve-la, ficou estupefacto. Não queria crer que fosse a mesma pessoa. Interpelou-a, dizendo "Ó rapariga és tu?! Parece um milagre! E logo, como que considerando, accrescentou: "Um milagre, não uma cura extraordinaria, um caso raro." Depois observou-a attentamente e disse que a achava boa.
Muitas pessoas das relações da enferma, que eram pouco crentes, diziam assombradas, que a sua cura parecia um milagre.
As pessoas de sentimentos religiosos, que conheceram o seu estado não tinham duvidas a respeito do caracter sobrenatural da sua cura...
Visconde de Montello.
Aparato crítico e remissões (4)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.