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DCF III-2, Doc. 414

11 out. 1919Guardanotícia de imprensaVisconde de Montelo (Manuel Nunes Formigão)

Artigo de "A Guarda", Os episódios de Fátima, relatando os acontecimentos de Fátima (data de redacção: 25 de Setembro de 1919).

Publ.: "A Guarda", Guarda, 15 (659), 11 Out. 1919, p. 1, cols. 4-5; p. 2, col. 1.

OS EPISÓDIOS DE FATIMA VI

Lêste decerto com attenção e agrado a interessante carta, cuja copia te enviei ultimamente, relativa aos acontecimentos do dia treze de Setembro de 1917.

Essa carta, repassada da mais tocante sinceridade, respira atravez de todas as suas linhas uma convicção profunda e quasi inabalavel da sobrenaturalidade das apparições. Julgo-me na obrigação de dizer que nessa data eu estava muito longe de partilhar de semelhante convicção. Pelo contrario, regressei de Fatima mais sceptico do que nunca, apesar de me ter commovido bastante ao contemplar a fé ardente e a piedade sincera dos romeiros durante a minha longa viagem.

Concorreu sem duvida para isso a circunstancia de me haver conservado na estrada longe do local das apparições, donde nada ou quasi nada tinha podido observar. Não ha, porém, effeito sem causa proporcionada, e a evidencia deste axioma philosophico fazia que eu nutrisse um desejo cada vez mais vivo de perscrutar as causas de uma concorrencia tão extraordinaria de povo a um sitio ignorado dos homens, desprotegido pela natureza e perdido nos alcantis duma serra.

Resolvi, pois, voltar de novo a Fatima para conhecer pessoalmente e interrogar detidamente os videntes e ouvir da bocca de testemunhas fidedignas a narração veridica dos episodios assombrosos que se tinham verificado durante os cinco mezes precedentes.

Parti para alli no dia vinte sete de Setembro e antes de terminar o mez redigi um breve relatorio da minha viagem, que contem os depoimentos dos tres videntes.

É esse relatorio que te peço licença para transcrever, visto que a sua leitura te ha-de interessar, tanto mais que foi escripto antes dos successos maravilhosos e imprevistos do dia treze de Outubro.

Os depoimentos das creanças são imperfeitos e deficientes, o que facilmente se comprehende, se se considerar que era a primeira vez que eu falava com ellas, muito á pressa, no curto intervallo de uma viagem longa e fatigante, e sem ter redigido de antemão, ou ao menos formulado mentalmente, as perguntas que desejava faser.

Mas, sem embargo dessas imperfeições absolutamente impossiveis de evitar nas circunstancias indicadas, as declarações das humildes pastorinhas, feitas nesse dia na presença de varias testemunhas categorisadas, bastam por si só para dissipar, ainda nos espiritos mais cultos e mais exigentes, qualquer suspeita ou apprehensão ácerca da sua sinceridade. É como segue o referido relatorio que reproduzo fielmente.

"No intuito de completar as impressões colhidas no dia treze do corrente mez de Setembro e habilitar-me com os elementos indispensaveis para fundamentar tanto quanto possivel um juizo acertado ácerca dos acontecimentos que nos ultimos cinco mezes se teem desenrolado a tres kilometros ao sul da aldeia de Fatima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira ultima, vinte e sete4 áquella pittoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da magestosa serra d'Ayre.

Eram tres horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Villa Nova d'Ourem á humilde povoação cujo nome é hoje pronunciado como uma promessa de bençãos e graças celestes por dezenas de milhares de labios de um extremo ao outro de Portugal. O reverendo Parocho, a quem logo procurei, não estava em casa: tinha sahido para fóra da freguezia e só á noite devia voltar.

Pesaroso por não poder trocar com elle algumas palavras sobre o assumpto que allí me levava, resolvi ir a casa das creanças favorecidas com aparições da Virgem Santissima e ouvir da boca dellas a narrativa pormenorisada dos estranhos successos, cuja noticia tem attrahido dia a dia á Fatima um sem numero de pessoas de todas as classes e condições sociaes.

Á distância de dois kilometros da egreja parochial e do presbyterio, num insignificante logarejo chamado Aljustrel, pertencente á freguezia, ficam situadas as modestas habitações das familias dos videntes.

As duas creanças mais novas estavam ausentes. Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que accedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha, que eu procurava, respondeu-me que ella andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava a dois kilometros distante.

Alguem se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto as duas creanças mais novas que tinham regressado do campo sabendo pelas visinhas que eu lhes desejava falar vieram ter comigo.

São dois irmãos, um menino e uma menina. Chegou primeiro a menina.

Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete annos de edade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olympia de Jesus. Bastante alta para a sua edade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a sáia até a altura dos artelhos, o seu aspecto é de uma creança saudavel, accusando perfeita normalidade no seu todo physico e moral. Surprehendida com a presença de pessoas estranhas que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a principio mostra um grande embaraço, respondendo por monosylabos e num tom de voz quasi imperceptivel ás perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois apparece o irmão, rapaz de nove annos de edade, que entra com um certo desembaraço no quarto onde estavamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que devia descobrir-se. Um sinal que a irmã lhe fez nesse sentido não foi percebido por elle. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente e sem nenhuma reluctancia.

Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde o mez de Maio ultimo na Cova da Iria no dia treze de cada mez durante o tempo da apparição.

Entre mim e elle estabeleceu-se o curto dialogo que se segue:

- Que é que tens visto na Cova da Iria nos ultimos mezes?
- Tenho visto Nossa Senhora.
- Onde é que ella apparece?
- Em cima de uma carrasqueira.
- Apparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?
- Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e collocar-se sobre a carrasqueira.
- Vem devagar ou depressa?
- Vem sempre depressa.
- Ouves o que ella diz á Lucia?
- Não ouço.
- Fallaste alguma vez com a Senhora? Ella já te dirigiu a palavra?
- Não, nunca lhe perguntei nada; falla só com a Lucia.
- Para quem olha, tambem para ti e para a Jacinta ou só para a Lucia?
- Olha para todos tres; mas olha durante mais tempo para a Lucia.
- Já alguma vez chorou ou se sorriu?
- Nem uma cousa nem outra; está sempre séria.
- Como está vestida?
- Tem um vestido comprido e por cima um manto que lhe cobre a cabeça e desce até á extremidade do vestido.
- Qual é a côr do vestido e do manto?
- É branca, tendo o vestido riscos dourados.
- Qual é a attitude da Senhora?

– É a de quem está a rezar. Tem as mãos postas á altura do peito.

– Traz alguma coisa nas mãos?

– Traz entre a palma e as costas da mão direita umas contas que estão pendentes sobre o vestido.

– E nas orelhas o que tem?

– As orelhas não se vêem, porque estão cobertas com o manto.

– De que côr são as contas?

– São tambem brancas.

– A Senhora é bonita?

– É, sim.

– Mais bonita que aquella menina que tu alli vês?

– Mais.

– Mas ha senhoras muito mais bonitas que aquella menina...

– É mais bonita que qualquer pessoa que eu visse.

Concluido o interrogatorio do Francisco, chamei de parte a Jacinta, que andava a brincar na rua com outras creanças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatorio logrando obter della respostas completas e minuciosas como as do irmão.

– Tens visto Nossa Senhora no dia treze de cada mez desde Maio para cá?

– Tenho visto.

– Donde é que ella vem?

– Vem do Ceu, do lado do sol.

– Como está vestida?

– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça um manto tambem branco.

– De que côr são os cabelos?

– Não se lhe vêem os cabelos, que estão cobertos com o manto.

– Traz brincos nas orelhas?

– Não sei, porque tambem não se lhe vêem as orelhas

– Qual é a posição das mãos?

– As mãos estão postas á altura do peito, com os dedos voltados para cima.

– As contas estão na mão direita ou na esquerda?

A esta pergunta a creança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a uma insistencia propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia á mão que a Apparição segurava o rosario.

– O que foi que Nossa Senhora recommendou á Lucia com mais empenho?

– Mandou que rezassemos o terço todos os dias.

– E tu reza-lo?

– Rezo-o todos os dias com o Francisco e com a Lucia.

Até aqui o depoimento da Jacinta.

Numa proxima carta transcreverei o depoimento da Lucia, protagonista dos acontecimentos de Fatima, depoimento não menos interessante e mais extenso do que os dos outros dois videntes, Francisco e Jacinta, de quem ela é prima co-irmã.

25/IX/919

Teu amigo
Visconde de Montello.

Notas dos editores

4 Vinte e sete de Setembro de 1917.
Aparato crítico e remissões (5)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 138, de 20 de Outubro de 1917, nota 1.
2 Cf. Doc. 409, de 13 de Setembro de 1919.
3 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 7, de 27 de Setembro de 1917.
5 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 7, de 27 de Setembro de 1917, nota 86.
6 No texto: voltos.
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