No intuito de completar as impressões colhidas no dia treze do corrente mez de Setembro e habilitar-me com os elementos indispensaveis para fundamentar tanto quanto possivel um juizo acertado ácerca dos acontecimentos que nos ultimos cinco mezes se teem desenrolado a tres kilometros ao sul da aldeia de Fatima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira ultima, vinte e sete4 áquella pittoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da magestosa serra d'Ayre.
Eram tres horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Villa Nova d'Ourem á humilde povoação cujo nome é hoje pronunciado como uma promessa de bençãos e graças celestes por dezenas de milhares de labios de um extremo ao outro de Portugal. O reverendo Parocho, a quem logo procurei, não estava em casa: tinha sahido para fóra da freguezia e só á noite devia voltar.
Pesaroso por não poder trocar com elle algumas palavras sobre o assumpto que allí me levava, resolvi ir a casa das creanças favorecidas com aparições da Virgem Santissima e ouvir da boca dellas a narrativa pormenorisada dos estranhos successos, cuja noticia tem attrahido dia a dia á Fatima um sem numero de pessoas de todas as classes e condições sociaes.
Á distância de dois kilometros da egreja parochial e do presbyterio, num insignificante logarejo chamado Aljustrel, pertencente á freguezia, ficam situadas as modestas habitações das familias dos videntes.
As duas creanças mais novas estavam ausentes. Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que accedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha, que eu procurava, respondeu-me que ella andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava a dois kilometros distante.
Alguem se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto as duas creanças mais novas que tinham regressado do campo sabendo pelas visinhas que eu lhes desejava falar vieram ter comigo.
São dois irmãos, um menino e uma menina. Chegou primeiro a menina.
Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete annos de edade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olympia de Jesus. Bastante alta para a sua edade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a sáia até a altura dos artelhos, o seu aspecto é de uma creança saudavel, accusando perfeita normalidade no seu todo physico e moral. Surprehendida com a presença de pessoas estranhas que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a principio mostra um grande embaraço, respondendo por monosylabos e num tom de voz quasi imperceptivel ás perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois apparece o irmão, rapaz de nove annos de edade, que entra com um certo desembaraço no quarto onde estavamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que devia descobrir-se. Um sinal que a irmã lhe fez nesse sentido não foi percebido por elle. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente e sem nenhuma reluctancia.
[…]
Concluido o interrogatorio do Francisco, chamei de parte a Jacinta, que andava a brincar na rua com outras creanças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatorio logrando obter della respostas completas e minuciosas como as do irmão.
[…]
A esta pergunta a creança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a uma insistencia propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia á mão que a Apparição segurava o rosario.
Notas dos editores (1)
4 Vinte e sete de Setembro de 1917.