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DCF V-4, Doc. 1229

22 jan. 1930SantarémcartaDr. Manuel Nunes Formigão

Carta do Dr. Manuel Nunes Formigão o para D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, sobre os relatórios do Pároco de Fátima e do Vigário de Porto Mós, sobre as aparições de Fátima. Esclarece também alguns aspectos relacionados com as aparições, que tinham sido alvo de critica, pelo Pe. Domingos José dos Reis Lima, de cuja carta extrai as citações 3 a 11. As citações 1 e 2 fazem parte de uma carta de Gaspar Pizarro.

A – AEL, Documentos de Fátima, L2 – 133A

Descrição do documento: seis folhas duplas (24 páginas), de 16 linhas.

Ex.mo e Rev.mo Senhor

Santarem, 22 de Janeiro de 1930

Peço a V. Ex.cia a caridade de me perdoar a demora em responder ás suas presadissimas cartas. Quando desejo escrever a alguem uma carta um pouco mais extensa do que é costume, hei-de por força differir a tarefa de dia para dia, com grande pesar meu, mas sem emenda possivel, por causa dos trabalhos e preocupações que surgem a cada passo no meu caminho.

Enviei no sabbado para o Paço, endereçando-os ao sr. P.e Maia, os relatórios do Parocho de Fatima e do Vigario de Porto de Mós. Realmente é justo que se atendam os pedidos do Rev.do Dr. Fischer, não só pela sua dedicação á causa de Nossa Senhora de Fatima, como ainda porque, com a sua intensa propaganda, contribue, em longa escala, para o conhecimento dos successos de Fatima em todos os paizes de lingua allemã. Posso prescindir sem grande inconveniente do relatorio do Vigario de Porto de Mós, assim como do relatorio do Parocho de Fatima, de que possuo copia num livro de apontamentos, mas desejava ter á minha disposição, podendo ser, o folheto e os dois recortes de jornaes appensos.

Agradeço muito penhorado o offerecimento que V. Ex.cia se digna fazer-me do livro do Dr. Fischer. Elle fez o favor de me presentear com um exemplar, que emprestei a um amigo para ser lido pela colonia allemã do Porto. Como espero que elle me venha a ser restituido mais tarde, não quero que V. Ex.cia tenha o incommodo de me mandar um novo exemplar, que pode fazer mais falta noutra parte. Da traducção, sobretudo, é que terei necessidade de adquirir alguns exemplares.

Para effeitos da traducção em francês do livro “ As grandes maravilhas de Fatima”, eu farei da melhor vontade – é com toda a sinceridade que o digo – todas as correcções e modificações que V. Ex.cia desejar que se façam, ainda que eu por ventura não concordasse com ellas. Mas isto não obsta a que eu, já estragado com tantos extremos de bondade da parte de V. Ex.cia, tome a liberdade de lhe expor, com uma confiança filial, o que penso dos reparos feitos nas duas cartas que teve a gentileza de me enviar. Para não tornar demasiado longa essa exposição, diligenciarei expressar-me o mais laconicamente possível.

1. “Assim, por exemplo, não comprehendo como o sr. V. de M. diz, a pag. 11 do seu livro que a apparição parecia não ter mais de 18 annos, sendo que a pag. 90 affirma ter dito a Lucia que a visão parecia ter uns quinze annos”.

R. A pag. 11 affirmo que a apparição parece não ter mais de 18 annos, porque uma vez a mãe da Lucia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a edade da visão, que ella parecia ser como uma rapariga do logar de Aljustrel que estava presente e que já tinha completado 17 annos. A pag. 90 declaro ter dito a Lucia que a Visão parecia ter uns 15 annos, porque realmente o disse, embora fosse uma pequena rude e ignorante, apenas com 10 annos de edade, e incapaz de calcular com exactidão a edade de uma pessoa. De resto, a differença entre uns quinze annos e não mais de dezoito annos não é grande e a expressão que emprego a pag. 90 não só não contradiz nem exclue a affirmação da pag. 11 senão que até a completa e permitte uma maior approximação da verdade.

2. “A pag. 12 falla dum rosario com uma cruz de ouro; depois, a pag. 74, a cruz é branca, no dizer da Lucia”.

R. As palavras da pag. 74, são uma transcripção do folheto “Os episodios maravilhosos de Fatima”, publicado em 1921. Foram escriptos ha cerca de dez annos, decerto em face de apontamentos que, a existirem ainda, não me é facil agora encontrar entre os meus papeis. Mas se me reportava a declarações dos videntes que conservasse de memoria, é-me totalmente impossivel precisar, depois de tantos annos, qual das crianças me assegurou que a cruz do rosario era ou parecia de ouro. Teria sido o Francisco? Teria sido a Jacinta? Não sei. Importa acentuar que a Lucia, assim como os primos, ás vezes diziam ser brancas certas partes do corpo ou certas peças do vestuario da visão por causa da luz clara e brilhante que a envolvia e que quasi lhes cegava os olhos. Pag. 77, Lucia: "É que ella ás vezes cega". Pag. 94, Francisco: "Posso olhar para a cara della, mas pouco, por causa da luz". Mas, na hypothese, aliás muito improvavel, de que se tratasse dum lapso de memoria ou da preocupação de arredondar a phrase com prejuizo inadvertido da viagem, digo da verdade historica, o pormenor afigura-se tão insignificante, de tão somenos importancia, que não vejo nenhum inconveniente em supprimir de futuro, pura e simplesmente, o qualificativo "de ouro".

3. "A morte do vidente Francisco Marto, pag. 125 e seg., está muito clara: dia, mês e anno, tanto do nascimento como do fallecimento, muito bem. Mas a da Jacinta, pag. 131 e seg., não pode ser mais incompleta. Ligando as narrações da pag. 40 com a da pag. 134, pode calcular-se que faleceria a 18-II-20. Mas a certeza não se tem. Merecia mais e melhor a Jacinta".

R. O relato da morte da Jacinta foi feito pelo Dr. Alberto Diniz da Fonseca, que, ao ler-lhe os apontamentos relativos a esse episodio, se offereceu para o redigir afim de ser inserido no folheto "Os episodios maravilhosos de Fatima", d'onde o transcrevi para o livro "As grandes maravilhas de Fatima". Creio que é o melhor trecho do livro. Se não ha nelle indicação de datas é porque o auctor do trecho visava sobretudo conseguir effeitos de ordem moral e religiosa e, se o auctor do livro não julgou necessario, ao transcreve-lo para o livro, indicar datas e outros pormenores, é porque já tinha feito esse trabalho a pag. 19 do folheto "Os Acontecimentos de Fatima", publicados em 1923.

4. "A descripção do apparecimento da fonte miraculosa, pag. 164, deixa muito a desejar "que brotou cristallina e abundante...!"

R. No local indicado não ha uma descripção, mas uma simples allusão. Essa descripção foi feita, com indicação de datas e copia de pormenores, pag. 18 do folheto "Os acontecimentos de Fatima". Demais cumpre notar que o local em que se faz referencia á fonte miraculosa pertence a um artigo transcripto da "Voz da Fatima", em que não havia logar para tal descripção, que se suppunha já ter sido feita.

5. “Os diversos inqueritos aos videntes são pouco felizes”.

R. Plenamente de accordo. Sou o primeiro a reconhecer e lamentar essa infelicidade. Se eu pudesse no tempo em que os fiz adivinhar o futuro... As perguntas que formulei não foram preparadas previamente. Eu vivia a cerca de 75 Kilometros de distancia e só uma ou outra vez, de fugida, muito á pressa, nuns escassos minutos sempre ou quasi sempre interrompidos por outras pessoas, é que interroguei os videntes. Fazia-lhes as perguntas que me occorriam na occasião. Não suppunha que os acontecimentos viriam a ter a importancia que de facto teem. Os apontamentos que tomava eram para meu uso particular e para poder reproduzir mais facilmente deante de pessoas das minhas relações o que tinha ouvido ás creanças. Não os destinava á publicidade. São incompletos, são deficientes, são imprecisos? Nem podiam deixar de o ser, nas disposições de espirito e nas circumstancias em que foram tomados. Mas tambem é certo que ainda não appareceram outros mais desenvolvidos e mais minuciosos do que esses.

6. Sobre a rotação do sol, na ultima aparição, nem a pag. 16, nem a 101, nem a 116 não diz se era para poente, se era para oriente”.

R. Se a rotação se deu precisamente ao meio-dia astronomico, estando então o sol no zenith, que quere dizer “rotação para o oriente?” De qualquer maneira se effectuasse a rotação, seria sempre para oriente. Ou confundirá o auctor do reparo o movimento de rotação com algum movimento semelhante ao de translação, que não se deu e em que ninguem falla? E que importancia podia ter para a explicação scientifica ou miraculosa do phenomeno solar o facto de a rotação se realizar num sentido e não noutro? Em nenhuma das descripções do phenomeno vindas a publico – e foram em grande numero – se allude á direcção desse movimento.

7. “Na critica poderia dizer-se que Nossa Senhora appareceu com manto á portugueza; com as mãos postas, á portugueza; que fallou português em Portugal”.

R. Que o auctor do reparo me perdôe, mas esta observação é verdadeiramente infantil e mostra além disso um desconhecimento completo dos diversos caracteres e modalidades das visões sobrenaturaes.

8. “Escolheu o dia 13, de mau agouro em Portugal”.

R. Mas, trata-se aqui duma historia ou dum romance? Que culpa pode o auctor do livro ter de Nossa Senhora haver preferido o dia 13 para apparecer? E, se escolheu esse dia, não foi muito provavelmente para acabar com o mau agouro? Toda a gente está convencida disso e a circunstancia de as apparições se terem realisado no dia 13 de cada mês constitue a mais forte machadada que recebeu em Portugal, e por ventura no mundo inteiro, a superstição tão antiga e tão inveterada do numero 13.

9. “Os milagres operam-se como que a frio, a doente Maria do Carmo, pag. 31, vai melhorando pouco a pouco. Theresa de Jesus Martins... um mês depois estava curada, pag. 305. Outra sente-se curada depois... em Ourem, pag. 320. Outra no fim da novena, pag. 328, etc. etc. Em Lourdes não é assim , ou não foi assim...”

R. Vê-se bem que o auctor do reparo não tem ideias precisas ácerca das condições a que deve satisfazer uma cura para poder ser considerada miraculosa. Para elle a instantaneidade parece constituir uma condição sine qua non. Accresce que nenhuma das curas apontadas é reconhecida como miraculosa, mas como extraordinaria e humanamente inexplicavel, pelo menos quanto ao modo como se operou. É também o que os médicos nos respectivos attestados dão claramente a entender. O caracter miraculoso só lhes poderia ser attribuido pela auctoridade eclesiastica, que até hoje ainda não se pronunciou sobre nenhum dos casos de Fatima. A primeira cura apontada forma o assumpto duma carta para um amigo e é até com a feição propria de carta que vem inserida no livro. Mais acima o auctor pretendia uma Nossa Senhora que rezasse á portugueza, que vestisse á portugueza, que fallasse português. Agora quer uma Nossa Senhora que faça milagres...á franceza! Tal é a força do preconceito! Até nos milagres se ha-de adoptar o figurino de além-Pyrineus! Eu ouvi, pouco depois das apparições, um dos sacerdotes, mais intelligentes e mais illustrados de Portugal affirmar que só acreditaria que Nossa Senhora tinha apparecido em Fatima, se visse, como Monsenhor Peyramale em Lourdes, florir no inverno rosas silvestres. Como se o milagre pedido se tivesse realisado na Gruta ou como se, a ter-se realisado, fosse preciso que se repetisse em Fatima, para se poder crer na realidade e sobrenaturalidade das apparições!

E as outras curas, as instantaneas, acompanhadas de attestados medicos, com a de Rosa Maria Ribeiro, pag. 372, e outras, não terão valor? E não teem havido em Lourdes innumeras curas obtidas no fim de novenas, durante as viagens de regresso, horas e até dias depois do banho na piscina ou da benção do Santissimo?

10. “A descripção das peregrinações para mim foi muito enfadonha, etc.”.

R. Eu acredito e não contesto, porque, segundo o velho proloquio latino, de gustibus non est disputandum. Mas sei que para muitos outros, mesmo muito intelligentes e muito cultos, não foi enfadonha, porque assim m'o communicaram por escripto e não posso duvidar da sua sinceridade. Uma dellas é Monsenhor Manuel Marinho, que num excesso facilmente explicavel de enthusiasmo produzido pela leitura do livro, o compara com "Os factos miraculosos de Lourdes", de Henri Lasserre. Mas essas pessoas ficaram encantadas com as descripções, que foram a maior parte do livro, por não serem exigentes sob o ponto de vista critico? Por causa do valor intrinseco do livro sob o aspecto historico, critico ou mesmo litterario? De modo nenhum. Unicamente porque leram antes o prefacio, o que decerto o auctor do reparo não fez, e collocaram-se no ponto de vista restricto em que se collocou o auctor do livro ao reunir os materiaes para elle. No prefacio, pag. 6, lê-se o seguinte: "Dahi a variedade de estylo, a repetição de conceitos e reflexões, a insistencia em certos pontos que mais vivamente impressionaram o espirito do auctor, cujo papel, nesta obra, é mais o dum simples chronista ou reporter, aliás consciencioso e imparcial, do que o dum historiador ou dum critico, no sentido legitimo e proprio da palavra". Foi decerto esse criterio e não outro que levou o critico litterario do "Comercio do Porto", na resenha do anno litterario inserta no numero do dia primeiro de Janeiro corrente, a apresentar os livros "A Egreja e o Pensamento Contemporaneo", do dr. Gonçalves Cerejeira, e "As Grandes Maravilhas de Fatima", do Visconde do Montello, como as duas obras religiosas mais importantes que viram a luz da publicidade em Portugal no anno 1929.

Em resumo, o livro, como indica o subtitulo, a pag. 1, forma apenas um feixe de subsidios para a historia das apparições e dos milagres de Nossa Senhora de Fátima; não é uma história metodica e completa e muito menos uma historia critica como a que se annuncia no prefacio só para sahir á luz da publicidade depois de conhecido o veredictum da Egreja.

11. "Os videntes, especialmente a Lucia, affirmam que a visão lhes dissera que a guerra acabaria a 13-X-17. Alludindo esta afirmação por varias vezes, o auctor do livro, notando a inexactidão dos factos, esquece o dia do armisticio e da paz. É lacuna imperdoavel. O armistício foi assignado em Rethondes ás 11 horas da manhã do dia 11-XI-18 e a paz foi firmada pelo tratado de Versailles, a 27-VI-19".

R. De proposito deixei ficar para o fim as observações a este reparo. É que, depois do que fica dito, pouco mais ha a accrescentar. Todos sabem que é essa uma das principaes difficuldades a resolver e que são muitas e varias as soluções até hoje apresentadas. Tendo-me abstido systhematicamente, em virtude das razões allegadas, de fazer apreciações criticas, de resolver difficuldades e de desfazer objecções em todo o decurso do livro, não convinha que abrisse uma excepção, para não ter de sahir do plano previamente estabelecido.

Ninguem ignora, repito, – e bastava ler o prefacio para o saber que o livro As grandes maravilhas de Fatima é um livro de chronicas e não um livro de critica. A explicação do silencio do auctor nesse e noutros casos semelhantes encontra-se nos seguintes periodos do referido prefacio: “Esta ultima missão (a de historiador e critico), mais alta e de maior responsabilidade, reserva-a elle para mais tarde, quando a Egreja tiver proferido em cousa tão momentosa a sua sentença definitiva e inappellavel. Só então verá a luz da publicidade a obra em preparação “Historia critica dos acontecimentos de Fatima” em dois volumes: “As apparições da Virgem” e “As curas miraculosas”. O auctor entendeu que era cedo demais para se aventurar a fazer apreciações criticas e que era seu rigoroso dever não se antecipar de modo nenhum ao juizo da auctoridade ecclesiastica sobre a origem e natureza das apparições e das curas maravilhosas de Fatima. Agora só me resta pedir a V. Ex.cia que me perdôe a extensão deste testamento, que talvez possa ter alguma utilidade, e bem assim que, não obstante os reparos que acabo de fazer aos reparos das duas cartas, me diga sem receio de me magoar sequer levemente com isso, quaes as correcções e as modificações que acha necessario ou mesmo conveniente fazer. E, se V. Ex.cia não visse nisso nenhum inconveniente, eu pedia ao meu amigo Zuzarte de Mendonça, critico litterario das “Novidades” preparasse para a edição francesa do livro “As Grandes Maravilhas de Fatima” uma pequena mas substanciosa introducção em que prevenisse estes e outros reparos possiveis com reflexões apropriadas, fornecendo-lhe eu os elementos para isso.

Agradecendo mais uma vez todas as finezas, tantas e tão grandes, que devo a V. Ex.cia e que só a Santissima Virgem, a quem o peço encarecidamente, poderá pagar, sou com a mais elevada consideração e a mais distincta e affectuosa estima de V.Ex.cia Rev.ma
Servo dedo e mto obro

Pe. Manuel Nunes Formigão Jr.

Aparato crítico e remissões (7)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 5-1, Doc. 13, de 29 de Agosto de 1927, nota 2.
2 Cf. DCF, vol. 1, Docs. 29 a 43, de 15 de Outubro de 1917 a 28 de Abril de 1919 e Docs. 21 e 22, de 25 de Outubro de 1917 e 11 de Novembro de 1917.
3 Cf. DCF, vol. 5-3, Doc. 919, de 15 de Setembro de 1929.
4 Cf. Doc. 1277, de a13 de Fevereiro de 1930.
5 Cf. DCF, vol. 5-3, Doc. 1174, de 27 de Dezembro de 1929 e, neste tomo, Doc. 1183, de 2 de Janeiro de 1930.
6 No texto, 11
6 No texto, IX
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