Explorar / Relato

Maria Romana · 13 de outubro de 1917

Visitantesenhora correspondente de A Ordem
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirA multidão

Eu declaro, e juntamente comigo varias pessoas de distincção com quem fallei e cujos nomes illustres posso citar; que propositadamente observámos o sol por varias vezes, e por espaços determinados, para nos certificarmos bem da veracidade dos factos; mas nada vimos de anormal depois do phenomeno milagroso. Que o milagre se deu é certo e bem certo; affirmam-no milhares de pessoas, não só rudes e ingenuos camponezes, mas pessoas illustradissimas, que conhecem bem as leis da natureza e que n'um brado unisono de respeito cahiram de joelhos proclamando a grandiosidade do milagre sem a mais pequena duvida.

Se se tratasse de qualquer phenomeno cosmico, não estaria isso já previsto e annunciado pelos sabios que se entregam á sciencia dos astros? E comtudo não houve d'isto a menor noticia desde o mez da Virgem que foi quando principiaram a dar-se os factos extraordinarios em todos os dias treze de cada mez, até agora, no mez do Rosario, que foi quando terminaram estas milagrosas manifestações, préviamente annunciadas pela pequena Lucia.

Eu (modestia á parte) que não sou de todo estupida nem ignorante, que fui ali cheia de curiosidade, mas sem fé na apparição, com a alma perfeitamente alheiada á grandiosidade do mysterio, surda ás vozes da inspirada creança que nos mandava em nome de Nossa Senhora olhar para o sol, receando estragar ou perder por isso a vista, segundo é crença geral; resistio á suggestão; e só depois de todos em volta de mim, em exclamações extaticas me despertarem a curiosidade de olhar, arrostei contra o receio egoista de perder a vista, e então olhei; e, Bemdito seja Deus! vi! Vi o que milhares de pessoas estavam contemplando!

A chuva que cahira toda a noite e toda a manhã, miudinha, persistente e enfadonha, cobrindo por completo o céu d'um manto cinzento, cessou de repente á hora annunciada pelos pastorinhos; as nuvens começaram a esfarrapar-se e a abrirem-se (permittam-me a comparação) como se fôra o panno d'um theatro, para deixarem ver o sol dardejando e insidindo os seus raios luminosos sobre o sitio onde se achavam em extasi as propheticas creanças.

O sol apresentava então o aspecto d'um globo de prata fôsca, circundando-o um disco arroxeado, muito escuro, como quando os eclipses não são inteiramente totaes.

Viu-se então uma coisa maravilhosa! O sol girando apressadamente como se fôra uma roda de fogo d'artificio: este prodigio repetiu-se por tres vezes consecutivas.

Realisava-se o prodigio annunciado pelos pequenos, para que todos cressem na apparição de Nossa Senhora!

Depois as nuvens foram desapparecendo a pouco e pouco do firmamento, que ficou limpido, sereno e azul como não ha nenhum que se eguale ao d'esta nossa bella terra portugueza.

Olhei em volta; o aspecto e as côres da paisagem eram as mesmas que se observam durante a duração d'um eclypse; a mesma luz azulada, sui generis, d'esse azul electrico especialissimo e particular aos phenomenos d'esta natureza.

Para bem mostrar quanto eu evitei deixar-me suggestionar, direi ainda que as côres amarella, vermelha e rôxa que muitas pessoas diziam ter visto ao baixarem os olhos sobre a paisagem, ou sobre os lenços que a commoção das lagrimas nos obrigava a levar aos olhos, não era mais do que o resultado de estarmos fixando o sol a olho nu, o que sempre acontece em circumstancias identicas.

Sobre a grandiosidade do espectaculo, as bellezas da paisagem, a imponencia da multidão, sobre o enternecimento que causava a devoção de tanta alma crente, entoando em côro o Avé, o Crêmos Deus, o Tantum Ergo, as preces fervorosas á Virgem Nossa Senhora do Rosario.

DCF III-1, Doc. 184 · notícia de imprensa · out. 1917 (2 dias depois)Digitalizações (4)
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