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DCF III-1, Doc. 312

21 nov. 1917Lisboanotícia de imprensaJoão Maria Lúcio Serra (L. S.)

O jornal “A Ordem”, de Lisboa, publica o testemunho de João Maria Lúcio Serra, sobre o dia 13 de Outubro de 1917

Publ.: “A Ordem”, Lisboa, 21 Nov. 19173

NOTAS IMPRESSIVAS

Fátima 13 de Novembro de 1917

Faz hoje precisamente um mez que dezenas de milhares de pessoas, atrahidas pelas promessas reiteradas de tres crianças rudes e boçaes, se reuniram na Charneca de Fátima.

Tambem eu lá fui; não que me estimulasse o enthusiasmo vivo d’uma convicção interna na realisação annunciada de factos portentosos, mas porque a ir me obrigava a gratidão devida a gentileza penhorante e insigne.

O dia 13 de outubro amanhecera chuvoso e desabrido, mas o turbilhão de vento impetuoso, acompanhado de fortes aguaceiros, não bastou para vencer a fé sincera de uns e a curiosidade ardente de outros.

Pelo longo caminho encontrei dezenas, centenas, milhares de pessoas que, açoitadas pelo vendaval tempestuoso, sem um gesto de enfado, sem uma quebra de animo, seguiam pela estrada alagada em demanda do sitio onde factos prodigiosos se diz terem-se já dado, e aonde outros deviam n’este dia produzir-se. A gravidade e a compostura que em todos os rostos transluziam, eram garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingenua e pura a todos impunha.

Chegado ao theatro dos retumbantes acontecimentos, impressionou-me vivamente a enorme multidão, em muitos milhares de pessoas computada, e que se agglomerava n'uma ordem, n'um respeito, n'uma compostura que commoviam.

Não podendo romper caminho até junto da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como de throno á Celeste Visão, quedei-me na estrada em sitio d'onde tudo bem se podia observar.

Até mim vozes se ouviam, distinctos ecos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solemne porque milhares de corações anciavam.

Acabavam de chegar as tres creanças, boçaes e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e extraordinario que ainda me foi dado presenciar. Approximava-se o momento augusto. A chuva impertinente abrandou, e para o norte divisa-se n'uma nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.

Ao meu espirito, já então comovido com o que presenciava, ocorreu que bem podia suceder que aquella manhã brumosa, de ceu carregado de nuvens pardacentas fosse a mis-en-scène d'um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se.

No relogio o ponteiro marcava vagarosamente 2 horas; e entretanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé.

Já em algumas almas candidas surgia o receio de que o facto annunciado não se produzisse, quando de repente toda aquella immensa multidão á voz da vidente se agitou n'um bronhaha significativo de espanto e assombro, levantou a cabeça para o ceu, onde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a difficultarem a visão, coroado de côres várias, n'um movimento de veloz rotação, parecendo por vezes desprender-se da abobada celeste, aproximando-se da terra.

Os espectadores, entre-olhando-se, representavam-se uns aos outros de côr amarella, e no horisonte, vermelho alaranjado, onde quer que os olhos se fitavam, viam-se fachos de luz esbatida, afectando a forma oval, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.

Tal foi o phenomeno surprehendente que todos tiveram occasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do septicismo crestou a flôr da crença, lançou n'uma espectativa benevola.

De qué se trata pois?

É fóra de duvida que estamos em presença de factos que comoveram fundamente as multidões; não hesitando muitos em classifica-los de milagre.

Se-lo-ha?

Seria temerario afirma-lo. Todavia é certo que em boa critica não podemos nem devemos na apreciação dos factos separar estes das circunstancias que os precederam, acompanharam e se lhe seguiram. Dando de barato que no caso de Fátima tudo se explica por causas naturaes, uma circumstancia basta para lhe dar fóros de maravilhoso o ter sido annunciado para dia e hora certa com a antecedencia de seis mezes e ainda no proprio dia.

Coincidencia?

Mas não será admiravel e surprehendente semelhante coincidência d'um facto com tanta antecedencia e firmeza annunciado?

Os factos produzidos na Fátima tiveram por theatro logares publicos, por espectadores pessoas de todas as condições sociaes, multidões innumeraveis attrahidas ali por tres crianças de rudeza quasi selvatica, inimigos numerosos e encarniçados.

E comtudo, se nem todos se confessaram crentes, todos se mostraram rendidos perante o poder que tal prodigio operava.

Ao maior numero, sem estudo, sem sciencia, o sobrenatural impoz-se com uma convicção inabalável, que é a certeza mystica, que só exige a boa fé: e que leva o homem recto e de são juizo a exclamar: Digitus Dei est hic.

Por isso as linguas humanas, orgãos mysteriosos da verdade, deram um nome significativo ao acto pelo qual Deus exerce a sua soberania sobre a natureza e manifesta instantaneamente a sua presença aos homens; chamam-lhe milagre, isto é, o acto admiravel por excellencia, o acto que constitue o poder publico de Deus.

Áquelles a quem por ventura estas considerações fizerem assomar aos labios um frouxo de riso, eu direi que não só pela razão, senão que tambem pelo coração nós conhecemos a verdade. Ao lado da razão, d'onde procede a phylosophia, ha a natureza, que se exprime pela voz do instincto, do sentimento ou do coração. O sentimento é um éco da razão, que algumas vezes, por echoar no mais recondito da alma, se faz ouvir melhor que a propria razão. Quando se fala da luz do coração, designa-se sem se dar por isso a luz da razão espontanea que nos descobre a verdade com uma intuição viva e pura, diametralmente opposta aos processos lentos e laboriosos da razão reflectida e do raciocinio.

E aos que, fazendo ostentação soberba da sua sciencia, zombam da crença popular, simples e ingenua, eu direi: Principes da sciencia, potentados da analyse, laureados das academias: nós temos sêde e temos fome; e vós, que sabeis pela analyse decompôr a agua e conhecer de que se compõe o trigo, dae-nos uma gotta de agua, produzi-nos um grão de trigo.

Porque não attendeis ás nossas supplicas? Abatei o vosso orgulho; confessae a vossa impotencia; conhecendo apenas os effeitos, não conheceis a força que produz o germen...

L. S.

Notas dos editores

3 O título “Notas Impressivas” é só do jornal. Em vez do subtítulo “Fátima”, o original tem a dedicatória “A minha Filha”. “A Ordem” suprimiu também, os dois últimos parágrafos do testemunho original (cf. Doc. 295, de 13 de Novembro de 1917). O autor, João Serra, escrevia segundo as normas ortográficas de 1911, embora, por vezes, lhe escape ainda alguma grafia arcaizante como sciencia e scepticismo. “A Ordem” transpõe a escrita para o sistema ortográfico em vigor no final da Monarquia Portuguesa (antes de 1911).
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917, nota 1.
2 Doc. 295, de 13 de Novembro de 1917.
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