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DCF III-1, Doc. 295

13 nov. 1917Torres NovascartaJoão Maria Lúcio Serra

Testemunho de João Maria Lúcio Serra, sobre o dia 13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria, dedicado a sua filha2.

A – ASF, Documentos de 1917

Descrição do documento: Manuscrito escrito em seis linguados de papel, de 35 linhas cada um e escritos apenas de um lado.

A minha Filha3

13 de Novembro de 1917

Faz hoje precisamente um mês que dezenas de milhares de pessoas, atrahidas pelas promessas reiteradas de tres crianças rudes e boçais, se reuniram na Charneca de Fátima.

Tambem eu lá fui; não que me estimulasse o entusiasmo vivo de uma convicção intima na realização anunciada de factos portentosos, mas porque a ir me obrigava a gratidão devida a gentileza penhorante e insigne.

O dia 13 de outubro amanhêcêra chuvoso e desabrido mas o turbilhão do vento impetuoso, acompanhado de fortes aguaceiros, não bastou para vencer a fé sincera de uns e a curiosidade ardente de outros.

Pelo longo caminho encontrei dezenas, centenas, milhares de pessoas que, açoutadas pelo vendaval tempestuoso, sem um gesto de enfado, sem uma quebra de ânimo, seguiam pela estrada alagada em demanda do sitio onde factos prodigiosos se diz terem-se já dado, e aonde outros deviam nêste dia produzir-se. A gravidade e a compostura que em todos os rostos transluziam, eram garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingenua e pura a todos impunha.

Chegado ao teatro dos retumbantes acontecimentos, impressionou-me vivamente a enorme multidão, em muitos milhares de pessoas computada, e que se aglomerava numa ordem, num respeito, numa compostura que comoviam.

Não podendo romper caminho até junto da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trôno á Celeste Vizão, quedei-me na estrada em sitio donde tudo bem se podia observar.

Até mim vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solêne por que milhares de corações anciavam.

Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e extraordinário que ainda me foi dado presenciar. Aproximava-se o momento augusto. A chuva impertinente abrandou, e para o norte divisa-se numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.

Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava, ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã brumosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. No relógio o ponteiro marcava vagarosamente 2 horas; e entretanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé.

Já em algumas almas cândidas surgia o receio de que o facto anunciado não se produzisse, quando de repente toda aquela imensa multidão á voz da vidente se agitou num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o céu, onde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias, num movimento de veloz rotação, parecendo por vezes desprender-se da abóbada celeste, aproximando-se da terra. Os espectadores, entreolhando-se, representavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte, vermelho-alaranjado, onde quer que os olhos se fitavam, viam-se fachos de luz esbatida, afectando a fórma oval, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.

Tal foi o fenómeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou numa espectativa benévola.

De que se trata, pois?

É fóra de dúvida que estamos em presença de factos que comoveram fundamente as multidões; não hesitando muitos em classificá-los de milagre.

Sêl-o-há?

Seria temerario afirmá-lo. Todavia é certo que em boa critica não podemos nem devemos na apreciação dos factos separar êstes das circunstancias que os precederam, acompanharam e se lhes seguiram. Dando de barato que no caso da Fátima tudo se explica por causas naturais, uma circunstancia basta para lhe [dar] fóros de maravilhoso — o ter sido anunciado para dia e hora certa com a antecedencia de seis mêses e ainda no próprio dia.

Coincidencia?

Mas não será admiravel e surpreendente semelhante coincidencia de um facto com tanta antecedencia e firmeza anunciado?

Os factos produzidos na Fátima tiveram por teatro lugares públicos, por espectadores pessoas de todas as condições sociais, multidões inumeraveis atrahidos ali por tres crianças de rudeza quasi selvática, inimigos numerosos e encarniçados.

E comtudo, se nem todos se confessaram crentes, todos se mostraram rendidos perante o poder que tal maravilha operava.

Ao maior numero, sem estudo, sem sciencia, o sobrenatural impoz-se com uma convicção inabalavel, que é a certeza mistica, que só exige a boa fé e que leva o homem recto e de são juizo a exclamar: Digitus Dei est hic —.

Por isso as linguas humanas, orgãos misteriosos da verdade, deram um nome significativo ao acto pelo qual Deus exerce a sua soberania sôbre a natureza e manifesta instantaneamente a sua presença aos homens: chamaram-lhe milagre, isto é, o acto admiravel por excelencia, o acto que constitue o poder público de Deus.

Áqueles a quem por ventura estas considerações fizerem assomar aos lábios um frouxo de riso, eu direi que não só pela razão senão que tambem pelo coração nós conhecemos a verdade. Ao lado da razão donde procede a filosofia, há a natureza, que se exprime pela voz do instinto, do sentimento ou do coração. O sentimento é um éco da razão, que algumas vezes, por ecoar no mais recôndito da alma, se faz ouvir melhor que a propria razão. Quando se fala da luz do coração, designa-se sem se dar por isso a luz da razão espontanea que nos descobre a verdade com uma intuição viva e pura, diametralmente oposta aos processos lentos e laboriosos da razão reflectida e do raciocinio.

E aos que, fazendo ostentação soberba da sua sciencia, zombam da crença popular, simples e ingenua, eu direi: Principes da sciencia, potentados da análise, laureados das academias: nós temos sêde e temos fome; e vós, que sabeis pela análise decompôr decompôr a agua e conhecer de que se compõe o trigo, dai-nos uma gota de agua, produzi-nos um grão de trigo.

Porque não atendeis ás nossas súplicas? Abatei o vosso orgulho; confessai a vossa impotencia: conhecendo apenas os efeitos, não conheceis a força que produz o germen.

Não me surpreendeu, pois, que o artigo publicado no numero 507 da "Ordem" e firmado pelas iniciais A. de F. que ocultam o nome de um dos mais ilustrados e denodados paladinos da causa católica, provocasse a tão grande e inconveniente arruido os espectadores dos casos ocorridos na Fátima. O seu autor, no intento de sofrear entusiasmos porventura excessivos, arrancou da alma simples das multidões ricas de fé e felicidade serena, deixando-lhes na alma êrma de santos júbilos e inefaveis alegrias o espinho da dúvida lacerante.

Não seria preferível deixar ao futuro a verificação do milagre ou a confirmação da mistificação?

L. S.

(João Maria Lúcio Serra)

Notas dos editores

2 Este testemunho foi publicado no jornal “A Ordem”, de 21 de Novembro de 1917 (Doc. 312). Pela sua apresentação (títulos e o parágrafo final), este testemunho foi escrito com a intenção de ser publicado. Mas como a sua publicação não foi integral, criámos dois documentos diferentes: este documento (295) de 13 de Novembro de 1917 (data da redacção) e o Doc. 312, de 21 de Novembro de 1917, data da publicação no jornal “A Ordem”.
3 Maria Elisa da Cunha Serra, que o acompanhou na sua ida a Fátima (Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 14).
Aparato crítico e remissões (3)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 1.
4 Sic.
5 Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917.
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