Tambem eu lá fui; não que me estimulasse o entusiasmo vivo de uma convicção intima na realização anunciada de factos portentosos, mas porque a ir me obrigava a gratidão devida a gentileza penhorante e insigne.
O dia 13 de outubro amanhêcêra chuvoso e desabrido mas o turbilhão do vento impetuoso, acompanhado de fortes aguaceiros, não bastou para vencer a fé sincera de uns e a curiosidade ardente de outros.
Pelo longo caminho encontrei dezenas, centenas, milhares de pessoas que, açoutadas pelo vendaval tempestuoso, sem um gesto de enfado, sem uma quebra de ânimo, seguiam pela estrada alagada em demanda do sitio onde factos prodigiosos se diz terem-se já dado, e aonde outros deviam nêste dia produzir-se. A gravidade e a compostura que em todos os rostos transluziam, eram garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingenua e pura a todos impunha.
Chegado ao teatro dos retumbantes acontecimentos, impressionou-me vivamente a enorme multidão, em muitos milhares de pessoas computada, e que se aglomerava numa ordem, num respeito, numa compostura que comoviam.
Não podendo romper caminho até junto da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trôno á Celeste Vizão, quedei-me na estrada em sitio donde tudo bem se podia observar.
Até mim vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solêne por que milhares de corações anciavam.
Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e extraordinário que ainda me foi dado presenciar. Aproximava-se o momento augusto. A chuva impertinente abrandou, e para o norte divisa-se numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.
Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava, ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã brumosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. No relógio o ponteiro marcava vagarosamente 2 horas; e entretanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé.
Já em algumas almas cândidas surgia o receio de que o facto anunciado não se produzisse, quando de repente toda aquela imensa multidão á voz da vidente se agitou num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o céu, onde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias, num movimento de veloz rotação, parecendo por vezes desprender-se da abóbada celeste, aproximando-se da terra. Os espectadores, entreolhando-se, representavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte, vermelho-alaranjado, onde quer que os olhos se fitavam, viam-se fachos de luz esbatida, afectando a fórma oval, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.
Tal foi o fenómeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou numa espectativa benévola.
Notas dos editores (2)
2 Este testemunho foi publicado no jornal “A Ordem”, de 21 de Novembro de 1917 (Doc. 312). Pela sua apresentação (títulos e o parágrafo final), este testemunho foi escrito com a intenção de ser publicado. Mas como a sua publicação não foi integral, criámos dois documentos diferentes: este documento (295) de 13 de Novembro de 1917 (data da redacção) e o Doc. 312, de 21 de Novembro de 1917, data da publicação no jornal “A Ordem”.
3 Maria Elisa da Cunha Serra, que o acompanhou na sua ida a Fátima (Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 14).