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DCF III-1, Doc. 86

15 out. 1917LeiriacartaJoaquim Ramos Pinto

Carta de Joaquim Ramos Pinto1 ao irmão José António, contando o que viu na Cova da Iria no dia 13 de Outubro de 19172.

A – Arquivo Distrital de Leiria - Fundo da Família Ramos Pinto, DEP VI, 26-B-4

Descrição do documento: Duas folhas (metade de A4), escritas de um lado e do outro. Estas folhas pertenciam ao memorandum de José Ferreira Patrício, Filhos. A página 1 e 2 têm impresso o seguinte: [em cima] “Memoradum de José Ferreira Patricio, Filhos [do lado esquerdo] Cereaes e Legumes - Farinhas e Semeas - Palhas e lenhas - Productos resinosos - Seguros em todos os ramos - Succursal na BATALHA”. Junto à fotocópia que possuímos desta carta3, encontra-se também a fotocópia de um envelope que tem impresso, em cima, “COMPANHIA DOS CAMINHOS DE FERRO PORTUGUEZES DA BEIRA ALTA FIGUEIRA DA FOZ”. Está escrito, mas com uma caligrafia diferente da do autor da carta: “Notas da primeira aparição de Fatima quero dizer da 2a4 em 13 de Outubro de 1917”.

Publ: Ecos do século XX – Distrito de Leiria, coleccionável do “Jornal de Leiria”, 2000, p. 34.

Leiria, 15 de Out de 1917.

Ao meu caro

Recebi hoje a tua carta e lamento que não tenham vindo.

A explicação do que se passou na Fatima encontra-la no Seculo d’hoje.

Deveriam estar pela estrada fora mais de 300 vehiculos e talvez, entre eles, mais de 100 automoveis. Veio gente de Lisboa, Santarem e até de Guimarães! De todos os pontos do paiz.

A comoção que avalassou o espirito da maioria d’aquela gente podes ainda avalia-la pela descripção do Seculo.

Foi assombroso!

E o caso não era para menos.

Deem eles — os sabios — a explicação que quiserem ao fenomeno, mas o que é facto é que se produziu um fenomeno — não previsto — e produziu-se precisamente no dia e á hora que aquelas creanças indicaram.

Que deveremos concluir d’aqui?

Não sei.

O sol teve uns movimentos de rotação d’uma rapidez vertiginosa.

Via-se andar à roda que parecia “um rodisio” segundo a expressão d’um qualquer camponio.

E o tempo que estava de chuva parecendo que seria para todo o dia levantou precisamente n’aquela altura. Coincidencia? Talvez.

Mas como explicam os descrentes o facto d’aquela creança, segundos antes do fenomeno se produzir, ter dito “Olhem para o sol. É agora”.

E o fenomeno produziu-se. E ninguem tinha conhecimento de que natureza era o fenomeno que ia produzir-se e todos, desde o mais proximo ao mais afastado, e compreendes que estando ali umas 30.000 pessoas segundo os calculos feitos estava gente muito afastada uma da outra, todos, repito n’aqueles breves momentos, viram o mesmo fenomeno. Por isso não houve sugestão.

O fenomeno deu-se.

Os sabios — os descrentes que me expliquem se pódem, que eu limito-me a curvar-me perante um caso tão extraordinario e assombroso.

Adeus - Saudades

Teu Joaq

P.S. Uma inexactidão ha no Seculo. A creança não disse que a guerra tinha terminado mas sim ia terminar e brevemente os soldados regressariam a Portugal.

Joaq.

Notas dos editores

1 Filho de José Ferreira Patrício. Pelo que está impresso nas folhas do seu memorandum, pensamos que se trata de um comerciante de Leiria.
2 As informações que possuímos acerca desta carta foram fornecidas pelo Sr. António José Patrício Sampaio, morador em Leiria, filho ou sobrinho do autor.
3 Esta fotocópia foi oferecida, em 8 de Julho de 1995, por Alfredo João Conde Búzio Sampaio Ramos. Este senhor veio ao Santuário de Fátima trazendo consigo o original da carta que seu pai, António José Patrício Sampaio Ramos, descobriu entre os papéis da família. Permitiu que fossem tiradas fotocópias e disse que iria enviar o original para o Arquivo Distrital de Leiria.
4 Tratava-se da sexta aparição.
Aparato crítico e remissões (1)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

5 “Olhem para o sol. É agora” sublinhado no texto.
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