O caso da aparição da Virgem aos três pastores no sítio do Vale da Iria está causando sérios engulhos aos nossos livres-pensadores. Um terno deles lembrou-se de vir até Vila Nova de Ourém ver se conseguia arranjar adeptos, e, de camaradagem com o administrador do concelho, o mestre funileiro, apareceram no dia um, no fim de muito anunciados, no Centro Republicano, para falar às turbas contra o milagre da Fátima. Tanto essa conferência como um comício, fizeram-nos anunciar em alguns jornais da capital e em panfletos distribuídos nesta vila e por todo o concelho, no dia de mercado e já no domingo anterior. O que se sabe, porém, é que para o milagre, ou como lhe queiram chamar, não foi preciso convites e no local da aparição da Virgem, no dia treze de outubro, reuniram-se para cima de cinquenta mil pessoas, não tendo sido precisa a intervenção da autoridade para manter a ordem, nem força militar, não obstante a grande quantidade de automóveis, carros de diversas qualidades, bicicletas, etc., etc., não havendo o mais pequeno desastre. Haja agora em vista o tão anunciado comício, no local da aparição da Virgem, que não chegou a efetuar-se porque só apareceram os célebres oradores, acompanhados do administrador do concelho e por mais seis indivíduos daqui, e guardados por uma força de guarda republicana desta vila e outras vindas de Tomar e de Torres Novas, que foram obrigados a ir ao local da Fátima, visto a consciência da seriedade e do papel que iam desempenhar os oradores! Então, srs. ministros do Interior e da Guerra, as tropas republicanas desviam-se dos seus serviços para guardar as costas aos srs. republicanos? Foi um verdadeiro fiasco, já a conferência no Centro, e muito maior no lugar de Fátima, onde os oradores tiveram de desistir, visto que o povo do concelho, por desprezo, não concorreu ao local, não obstante tanto convite que lhe foi feito, pois que ali só apareceram oito pessoas para os ouvirem, à exceção de grande número de mulheres que à sua chegada entoaram o Bendito, voltando-lhes logo as costas. Eis pois, o paralelo entre os dias treze de outubro e dois de dezembro. Por isso lhes dizemos: outro ofício, e a quem vos convidou, para a sensaboria que apanharam e o susto, quando no trajeto de regresso a esta vila foram mimoseados com algumas pedradas, pelo que o sargento comandante da força teve que fazer fogo.”
Explorar / Relato
C. · 13 de outubro e outros acontecimentos de 1917
Jornalistacorrespondente em Vila Nova de Ourém (a comissão cita o artigo de O Mensageiro, Leiria)
DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · dez. 1917 (2 meses depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 335Digitalizações (2)