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DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9)

13 abr. 1930Leiriadocumento oficialComissão Canónica Diocesana (Manuel Nunes Formigão, relator)Originalmente DCF II, Doc. 9
Índice (37 secções)
  1. Os videntes e os inquéritos oficiais
  2. Sinceridade dos videntes e verdade das suas declarações
  3. Antes das visões
  4. Durante as visões
  5. Depois das visões
  6. A liturgia da Igreja no dia da primeira aparição
  7. O êxtase
  8. As nascentes de água
  9. Atitude dos pais de Lúcia de Jesus
  10. Atitude dos pais do Francisco e da Jacinta
  11. A morte do Francisco
  12. A morte da Jacinta
  13. O concurso de peregrinos
  14. Os inquéritos oficiais
  15. As contrafações
  16. A oposição do clero
  17. A perseguição particular: os atentados
  18. A perseguição oficial
  19. O Senhor D. José Alves Correia da Silva e a “Obra de Fátima”
  20. O interrogatório oficial de Lúcia de Jesus
  21. A profissão religiosa de Lúcia de Jesus
  22. O culto de Nossa Senhora de Fátima no continente de Portugal, nas ilhas adjacentes e nas possessões ultramarinas
  23. O culto de Nossa Senhora de Fátima nos países estrangeiros
  24. As conversões
  25. O afervoramento da fé e da piedade
  26. Fátima e o Papa
  27. A grande guerra
  28. As obras na Cova da Iria
  29. O fenómeno da nuvem de fumo
  30. O fenómeno solar e predição da Lúcia
  31. Bibliografia de Fátima
  32. As manifestações de fé e piedade
  33. As três inovações de Nossa Senhora
  34. As curas extraordinárias
  35. Considerações finais
  36. Índice das matérias
  37. A grande guerra europeia

Relatório da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima.

Publ.: DCF, II - Doc. 9 (neste documento usou-se uma numeração própria. As folhas 1 a 3 estão em branco. Por isso o documento inicia-se na fl. 3v).

Os videntes e os inquéritos oficiais

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen.

Na manhã do dia 13 de maio de mil novecentos e dezassete, a cerca de dois quilómetros e meio da igreja paroquial de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, distrito de Santarém, na direção do oeste, a margem da estrada distrital, num sítio vulgarmente chamado “Cova da Iria”, três crianças apascentavam um pequeno rebanho. Eram duas meninas e um rapaz. A mais velha das meninas, que tinha dez anos de idade, chamava-se Lúcia de Jesus e a mais nova, apenas com seis anos1, Jacinta Marto. O nome do rapaz, de nove anos, era Francisco Marto. Moravam em Aljustrel, uma das quarenta aldeias da vasta freguesia de Fátima, e uma das mais próximas da igreja e do presbitério. O Francisco e a Jacinta eram irmãos e a Lúcia sua prima coirmã. Os pais desta foram António dos Santos, que faleceu no ano seguinte2, e Maria Rosa dos Santos, e os daqueles Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. As crianças possuíam uma instrução religiosa muito rudimentar, tendo só a Lúcia feito a sua primeira Comunhão. Nenhuma delas sabia ler e escrever. Aproximava-se a hora do meio-dia solar. A devoção mais querida naquela região é a recitação do terço do Rosário. É rara a família, cujo chefe, à noite, depois da lida dos campos, não reze o terço juntamente com os seus, antes da ceia que é a refeição principal. As três crianças, como era seu costume, rezaram o terço em comum, e depois puseram-se a fazer uma casa em miniatura, servindo-se para isso das pedras soltas que havia em grande abundância no local, como há quase por toda a parte na serra de Aire. De repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. As crianças suspenderam o seu entretenimento e olharam admiradas para as alturas. O céu estava diáfano e sem nuvens, não soprava a mais leve brisa e o sol brilhava em pleno zénite. Não obstante, a Lúcia convidou os primos a retirarem-se sem demora para casa, com o receio de que se desencadeasse alguma trovoada. Eles acederam sem relutância e todos três puseram-se a tocar o gado pela encosta abaixo. Ao chegarem ao ponto, onde se encontra atualmente a primeira fonte, veem fuzilar um novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira, no sítio onde mais tarde foi erigida a capela das aparições, um vulto de Senhora bastante nova, de incomparável formosura. Assustadas com a inesperada aparição, as crianças tiveram vontade de fugir e preparavam-se para isso, mas conteve-as um sinal da Senhora, que disse que não tivessem medo, porque não lhes fazia mal. A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era duma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha um não sei quê de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, duma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana. Entre a Aparição e a Lúcia travou-se um diálogo que durou cerca de dez minutos. A Aparição convidou as crianças a voltarem lá todos os meses, no dia treze, até outubro seguinte, assegurando que no último dia lhes diria quem era e o que queria. No dia quinze de outubro, o então pároco de Fátima, rev.do Manuel Marques Ferreira, enviou a Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. João Evangelista de Lima Vidal, arcebispo de Mitilene e governador do Patriarcado de Lisboa, durante o desterro de Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca, D. António Mendes Belo, um ofício em que lhe comunicava o que de extraordinário se estava passando na área da sua freguesia e pedia instruções sobre a atitude a tomar em face dos acontecimentos. Em resposta a esse ofício, recebeu o pároco outro, do Excelentíssimo Governador do Patriarcado, datado de três de novembro seguinte, em que lhe ordenava que procedesse a um inquérito consciencioso sobre os factos ocorridos, ouvindo testemunhas fidedignas e principalmente as crianças que se diziam favorecidas com graças singulares do Céu. Ao mesmo tempo, o Vigário de Porto de Mós, rev.do Joaquim Vieira da Rosa, era convidado pelo Senhor D. João a proceder a um inquérito semelhante. Em vinte e oito de abril de mil novecentos e dezanove, o reverendo pároco enviou ao Senhor Governador do Patriarcado um ofício que acompanhava o relatório de dezoito folhas, e em que dava conta do grande concurso de peregrinos ao local das aparições e da continuação da crença e devoção dos fiéis. No dia onze de novembro de mil novecentos e dezassete, já o venerando Vigário da Vara de Porto de Mós se havia desempenhado do encargo que lhe confiara o venerando Prelado, enviando os depoimentos de várias testemunhas fidedignas, acompanhados dum ofício. Como consta do relatório paroquial, as aparições eram seis, todas no dia treze de cada mês, desde maio a outubro, exceto em agosto, em que se realizou alguns dias depois, segundo parece, no dia dezasseis3, por terem sido presos os videntes no dia treze, pela autoridade administrativa. Reproduz-se aqui, em resumo, o relato das aparições.

A Senhora diz que o seu lugar é o Céu, promete a felicidade eterna às três crianças, comunica-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensina-lhes uma pequena oração4, recomenda a Lúcia que aprendam a ler, manda que todos rezem o terço, para que a guerra acabe, anuncia o aparecimento de Nosso Senhor, de S. José com o Menino Jesus, de Nossa Senhora sob as invocações do Rosário, do Carmo e das Dores, recomenda de novo a recitação do terço, declara que a guerra acabava brevemente e no último dia afirma que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens, suplica que não O ofendam mais, insiste mais uma vez em que rezem o terço, declara que ela é a Senhora do Rosário e ordena que se edifique ali uma capela em sua honra. O depoimento da Jacinta confirma, dum modo geral, o depoimento da Lúcia, assim como o do Francisco, que contudo só via a Senhora, não ouvindo nada do que ela dizia a sua prima.

Sinceridade dos videntes e verdade das suas declarações

Consideram-se reproduzidos aqui o relatório do inquérito paroquial os documentos nº 7, 8, 9 e 10, isto é, a coleção da “Voz da Fátima”, e os livros “Fátima”, por Leopoldo Nunes, “Fátima, das portugiesische Lourdes” von Hochschulprofessor Dr. Ludwig Fischer, e “As grandes maravilhas de Fátima”, pelo Visconde de Montelo. Se se provar que as crianças eram sinceras e que não se enganaram, há o dever moral de admitir o seu testemunho e de crer na realidade sobrenatural das aparições. 1° Não se pode duvidar da sinceridade das crianças. Como podiam desempenhar uma comédia três crianças simples e ignorantes, uma de dez anos de idade, outra de nove e outra de seis? Como podiam manter as suas afirmações, apesar das ameaças que lhes faziam, das perseguições de que foram alvo, e da prisão que sofreram? Nenhuma das crianças sabia ler na ocasião em que se deram os acontecimentos e a sua inteligência não era superior à das outras crianças da sua idade. Evidentemente não eram cabeças onde pudesse germinar o gigantesco desígnio de mistificar toda a gente.

De resto, que fim podiam ter em vista com uma mentira tão inverosímil? Não pretenderam aproveitar-se das suas visões, nem mesmo para satisfazer a sua vaidade. Elas não falavam nesse assunto senão quando eram interrogadas. E até um facto constatado por muitas pessoas que elas fugiam e se escondiam não raras vezes, quando eram procuradas para serem submetidas a interrogatórios.

Se se prestavam a isso, e então faziam-no de boa vontade e com a maior candura e singeleza, era unicamente para obedecerem a seus pais. O desinteresse que manifestavam e que aliás era próprio de crianças da sua idade excluía absolutamente toda a suspeita de intenções gananciosas. Suas famílias, que são abastadas, não permitiriam tão pouco que elas recebessem dádivas valiosas. A treze de setembro, depois da aparição, um cavalheiro espanhol, que estava presente, ofereceu a Lúcia uma pequena medalha de metal branco de pouco valor que ela a princípio não queria aceitar, supondo que era uma moeda de prata. Portanto, nem o amor próprio, nem a ambição, podiam ter induzido as crianças a procurar o papel que desempenharam, ainda quando, o que era impossível, semelhante ideia tivesse germinado nos seus pobres cérebros, inquestionavelmente incultos e acanhados. Inúmeras pessoas, de todas as classes e condições sociais, interrogaram as crianças. Nenhuma, depois de as ouvir, ficou com a mais leve dúvida acerca da sua sinceridade. A indiferença com que falavam, o encanto natural da sua narrativa, a simplicidade com que respondiam e a ingenuidade das suas reflexões não podiam deixar de impressionar e comover o espírito mais cheio de prevenções. Nas suas feições reflete-se um encanto tanto mais suave e penetrante, quanto é certo que nele só se descobre a efusão de almas cândidas. É impossível alimentar a seu respeito a mais ligeira suspeita de impostura. O próprio administrador do concelho de Vila Nova de Ourém, que as interrogou no dia 13 de agosto, e as conduziu presas para sua casa, onde as conservou durante dois dias, procurando pela ameaça e pelo terror obrigá-las a desdizerem-se, mostrou-se depois desse dia visivelmente impressionado e declarou que não mais tornaria a interferir em semelhante assunto. Era a sinceridade das crianças que se impunha a todos, categórica, decisiva, fulminante. As suas afirmações eram feitas de tal maneira que afastava por completo todo o receio de má fé. As crianças juntam os seus rebanhos numa propriedade pertencente à família da Lúcia e situada à beira da grande estrada distrital. Enquanto o gado anda pastando, entretêm-se inocentemente a brincar e, num dado momento, rezam em comum o terço do Rosário, como costumavam fazer todos os dias. Nenhum acontecimento, pois, foi menos preparado, mais espontâneo, mais visivelmente inesperado para as crianças que dele foram os protagonistas. Mas a cena celeste, em que de modo nenhum tinham pensado, antes de serem testemunhas dela, tinham em seguida consciência de a haverem contemplado; nada pode impedi-las de o dizer, e elas disseram-no e resolutamente, com uma segurança que não se entibiava jamais. 2º Mas se a sua boa fé é certa, se ninguém pode duvidar nem duvida de que elas julgaram verdadeiramente ver e ouvir o que afirmaram ter visto e ouvido, não foram vítimas duma ilusão, que teriam em seguida feito inocentemente partilhar? Não foram influenciadas por um temperamento nervoso, que produzisse nelas, alucinações da vista e alucinações do ouvido? Eis a questão que importa resolver: a) Para sofrer o império duma natureza nervosa, a primeira condição é evidentemente... ter uma natureza nervosa. É este o caso das crianças? Não se encontraram nelas sintomas de nenhuma enfermidade. Mais: nunca estiveram doentes. Nenhum indício permite crer que os nervos tivessem parte preponderante no seu temperamento. Não apresentaram nunca um só dos sintomas que se observam nos nevropatas; não os apresentaram antes dos acontecimentos da Cova da Iria, nem os apresentaram depois. Eram, pelo contrário, dum caráter pacífico e equilibrado. Não se mostravam concentradas nem pensativas. Despreocupadas e expansivas, gostavam de brincar com as crianças da sua idade. Naturalmente alegres, a sua alegria era simples, franca, infantil. A exaltação de que se deveria acusá-las, uma vez que de tal se acusam, seria a exaltação religiosa, porque é a alucinações religiosas que ela teria dado ocasião. Ora a sua piedade não era superior à das crianças da sua idade. O Francisco e a Jacinta não tinham feito sequer a sua primeira comunhão. Nenhuma das crianças sabia ler e por isso só com dificuldade e muito incompletamente puderam aprender a doutrina. A Lúcia, interrogada depois das aparições acerca do poder de Nossa Senhora, declarou com a maior ingenuidade que o julgava superior ao de Deus. Eis o estado em que se encontrava, em matéria de religião, o espírito dos videntes de Aljustrel, quando a Santíssima Virgem lhes apareceu. Seria, pois, um contrassenso admitir que a sua cultura religiosa as tivesse preparado de antemão para uma excitação mística tão desordenada que lhes perturbasse os seus cérebros juvenis. Por outro lado, nunca mostraram nenhuma inclinação para o misticismo, sem excetuar o período da sua vida que se seguiu imediatamente às visões. Um ilustrado professor de instrução primária6, que, ainda antes do fim do mês de outubro, assistiu no local das aparições à recitação do terço presidida pela Lúcia, declarou ter ficado mal impressionado ao ver a distração da criança, que ele esperava que se recolhesse e concentrasse num alheamento quase estático de todas as coisas do mundo no sítio em que tivera a ventura incomparável de contemplar a Rainha do Céu. Um cavalheiro de elevada categoria que no mesmo mês foi visitar a Cova da Iria, afirmou ter-lhe causado estranheza ouvir a Lúcia responder às perguntas que lhe faziam relativamente às aparições, dizendo tudo sem um certo sentimento de piedade e sem ter bem consciência da graça recebida. Não se notava nas crianças nada que as distinguisse das melhores crianças suas companheiras, nem uma comoção extraordinária, nem um recolhimento excecional. Tinham as suas distrações e as suas leviandades, como as outras. A sua devoção era sã e simples, sem atrair particularmente a atenção. Tais eram as almas ingénuas do zagalete e das duas pastorinhas. Ninguém de boa fé deixara, pois, de reconhecer que estavam pouco predispostas para as alucinações religiosas. O seu temperamento bem equilibrado preservava-as das alucinações em geral, e, se porventura tivessem propensão para elas, as tendências das suas almas tê-las-iam impedido de misturar a religião com os seus sonhos de doentes. Para ter alucinações religiosas, teria sido mister que contrariassem simultaneamente as suas disposições físicas e as suas disposições morais. E então qual teria sido a origem delas? Donde lhes teriam vindo? Por isso, comete-se um grande erro, que é ao mesmo tempo uma grande injustiça, quando se assemelham a algumas alucinadas dos hospitais. As alucinações destas e as visões daquelas têm carateres tão diferentes que evidentemente não se está em presença do mesmo fenómeno. Para obter as alucinadas dos hospitais é necessário escolher naturezas em que os nervos sejam particularmente excitáveis. Cumpre notar, de passagem, que a infância mal se presta as alucinações. Não é nessa época da vida que elas se produzem facilmente. Escolhem-se as mulheres ou as raparigas mais nervosas dum hospital de doenças nervosas. São precisas verdadeiras doentes, cérebros desarranjados, criaturas desequilibradas. E ainda não é tudo; desenvolvem-se cuidadosamente, por meio de atos repetidos, essas disposições doentias. É só então que essas infelizes chegam a ter alucinações duma maneira muito sensível. O que há na verdade de comum entre essas pobres doentes, escolhidas entre mil e cuja doença recebera de propósito uma espécie de cultura intensiva, e os pequenos videntes da serra de Aire, simples filhos da natureza, de nervos calmos, de imaginação regrada e tranquila como os seus nervos? Para sofrer alucinações, é preciso estar predisposto duma certa maneira. Ora os videntes da Fátima não tinham essa predisposição necessária, nem no físico, nem no moral. Estude-se agora a alucinação nos carateres particulares que ela apresenta e estude-se sob três pontos de vista distintos: antes das visões, no momento em que se verificam, e depois delas.

Antes das visões

A treze de maio, dia da primeira aparição, Lúcia e Jacinta, as duas crianças que dizem ter ouvido as palavras pronunciadas pela Aparição, contaram que o ente celeste que se lhes manifestara lhes tinha pedido que voltassem durante seis meses, de mês a mês. As crianças mostravam assim que se julgavam destinadas a gozar das suas visões ainda cinco vezes. Ora as alucinadas não fazem profecias sobre o que devem ver e ouvir, sobretudo profecias que se realizam: nunca se constatou que tivessem anunciado quantas crises alucinatórias haviam de experimentar. A sua persuasão absoluta, se tivessem alguma sobre este ponto, e que veriam sempre o que veem e que não podem deixar de ver: nenhuma dúvida tem entrada na sua alma, porque é o seu próprio organismo que forma a sua convicção. Além disso, para voltarem cada mês no dia treze ao mesmo local, como realmente sucedeu, foi preciso que as crianças tivessem uma lembrança muito nítida, uma docilidade perfeita, um sentimento exato e claro do que tinham a fazer: coisas estas de que um alucinado não é capaz. Acresce que as crianças fizeram outras profecias, como por exemplo a relativa ao sinal de Deus e que se verificou no dia pré-anunciado. Convém ainda notar que a alucinação, se produz em certas condições, cujo conjunto é indispensável. Para os videntes de Fátima, pelo contrário, sucedem nas circunstâncias mais variadas. Dir-se-á que é precisa aos jovens videntes a influência da multidão? Observemo-los a treze de maio, o primeiro dia: eles estão sós. Observemo-los a treze de junho, dia de Santo António: estão presentes apenas cerca de cinquenta pessoas. Julgar-se-á que tenham necessidade da solidão? Vejamo-las a treze de setembro e a treze de outubro: a multidão aperta de todos os lados as pobres crianças aflitas a ponto de chorarem; há vinte mil espetadores no primeiro dia e uns setenta mil no segundo. Habitualmente a visão começa depois de as crianças terem rezado o terço de joelhos. Mas a dezasseis de agosto, no sítio dos Valinhos, a Senhora aparece-lhes improvisamente, sem que elas o esperassem e sem terem estado em oração. Não há condições requeridas para as suas visões e é o contrário do que sucede nos sonhos dos alucinados. Não é certamente assim que a alucinação procede. Ela tem o que quer que seja de fatal; não se encontra nunca nas suas manifestações essa independência absoluta a respeito das condições que lhe dão a existência.

Durante as visões

Estudemos agora os acontecimentos da Fátima em si mesmos, na maneira como eles se verificaram. Nas histéricas alucinadas, a imaginação conserva qualquer coisa de vago e de vaporoso. As formas que veem ficam um pouco imprecisas, flutuantes e, pelo menos em certas partes indeterminadas. Consideremos agora as visões dos videntes de Aljustrel. Elas apresentam uma precisão absoluta, até nas mais insignificantes particularidades. O vestido, o véu, o rosário, tudo deixa neles uma impressão franca, clara, decisiva. Podem descrever tudo, descrevem tudo: o comprimento do vestido e do véu, a maneira como este está colocado sobre a cabeça, a cor das contas e da cadeia, tudo é observado com uma exatidão minuciosa. É esta a diferença capital entre os dois estados. Outra consideração acerca da alucinação em geral e as visões de Fátima e que estas foram fecundas, ao passo que aquela é estéril. O alucinado não descobre coisa alguma nos seus sonhos doentios; não cria nada, nem nas formas que a sua imaginação lhe apresenta, nem nas ideias que essas formas lhe sugerem; não inventa, recorda-se simplesmente. As visões da Cova da Iria são completamente diferentes. As crianças anunciam com meses de antecedência um sinal misterioso, um milagre, prometido pela celeste aparição e destinado a fazer que todo o povo acreditasse que era a Virgem do Rosário que aparecia, como uma promessa de bênçãos, em terras de Portugal. E no dia marcado, treze de outubro, setenta mil pessoas, de todas as idades, classes e condições sociais, vindas de todos os pontos do país, e até do estrangeiro, acumulam-se nas faldas da serra de Aire para presenciar o sinal profetizado. E o espetáculo maravilhoso, o fenómeno estupendo, o prodígio inaudito que as crianças, que ninguém jamais tinha visto, faz cair de joelhos aquela multidão imensa, em que os incrédulos e os ímpios, de envolta com os crentes, choram, soluçam, rezam, todos rendidos, comovidos e estupefactos, perante a evidência empolgante e irrecusável de tão assombroso milagre.

Depois das visões

Um alucinado mostra-se orgulhoso, irritável, insubordinado e insensível às afeições de família. Os videntes de Fátima não eram assim. Foram sempre crianças humildes, mansas e dóceis. Tendo a mãe da Lúcia proibido a filha que tornasse a ir a Cova da Iria, esta dispôs-se a obedecer e, se voltou lá, foi porque a mãe, a pedido de várias pessoas, revogou a proibição que fizera. Modesta e simples, era para a pobre pequena um verdadeiro suplício ter de descrever os espetáculos celestes que presenciava, prestando-se a isso por obediência ou por delicadeza, fazendo-o então com bondade e sem deixar transparecer nenhum sinal de enfado. Para com a mãe e para com as demais pessoas de sua família foi sempre muito carinhosa, manifestando um vivo e constante interesse por tudo o que lhes dizia respeito e principalmente pelo seu bem espiritual. As numerosas cartas que tem escrito para a mãe, desde que saiu de casa para se educar, são modelos admiráveis de piedade filial e de caridade para com os seus parentes mais próximos. Graças às suas súplicas e às suas diligências, uma das sobrinhas foi admitida gratuitamente numa casa de educação, dirigida por religiosas8. Foi sempre alegre e jovial e ainda hoje, depois da profissão religiosa, a sua simplicidade, a sua boa disposição e a sua alegria interior, que se lhe espelha no rosto, encantam todas as pessoas que dela se aproximam. As visões de que gozou não só não prejudicaram o seu estado moral, senão que contribuíram para a elevar, acima da vida comum, às culminâncias da perfeição completa e especial no estado religioso. Importa ainda frisar que as visões tiveram por epílogo um facto material e sensível que prova a sua realidade sobrenatural: o fenómeno solar. Nada de semelhante acontece nas alucinações. Por isso as visões não eram alucinações. É uma conclusão que se impõe como absolutamente irrecusável. Acresce que as alucinações degradam o caráter e diminuem a inteligência. Mas, depois das aparições, Lúcia de Jesus, assim como os seus primos, mostraram-se superiores ao que eram, tanto em relação ao caráter, como em relação ao espírito. Finalmente, as aparições de Fátima, afirmadas pelos videntes, como factos reais, têm por garantia da sua realidade e da sua realidade sobrenatural sucessos maravilhosos que a alucinação é incapaz de produzir.

A liturgia da Igreja no dia da primeira aparição

A primeira aparição realizou-se no dia treze de maio de mil novecentos e dezassete, à hora do meio dia solar, quando os pastorinhos andavam brincando e não podiam prever o que se ia passar de extraordinário. Fátima estava, na ocasião das aparições, incorporada no Patriarcado de Lisboa. O calendário diocesano marca para esse dia, como festa própria e privativa, a festa da dedicação da igreja de Santa Maria dos Mártires. Na época da reconquista cristã da Península Ibérica, o fundador da nacionalidade portuguesa, D. Afonso Henriques, tendo já conquistado aos mouros quase todo o território situado ao norte da foz do Tejo, pôs cerco à cidade de Lisboa e, com o auxílio que lhe prestou uma armada de cruzados que se dirigia à Terra Santa, apoderou-se dela depois duma luta renhida, em que pereceram também muitos cristãos. O valoroso primeiro rei da dinastia afonsina tinha implorado fervorosamente a proteção da augusta Mãe de Deus para a sua heróica empresa e prometido que, se ela fosse coroada de êxito, mandaria edificar duas basílicas em honra da Santíssima Virgem, uma na parte ocidental e outra na parte oriental da cidade conquistada. Concluída a empresa com felicidade, deu-se pressa em cumprir o voto que fizera e ordenou que na basílica ocidental fosse colocada a imagem da Virgem Santíssima, cuja presença, no campo da batalha, aonde fora levada por um dos chefes quando o êxito era ainda incerto, incutiu nos soldados cristãos uma coragem tão grande que lhes fez alcançar vitória. Como nesse tempo era costume chamar mártires aos soldados cristãos que morriam em combate contra os infiéis e esta basílica tivesse sido construída no local onde os seus cadáveres estavam sepultados, começou a ser vulgarmente designada pelo nome de igreja de Santa Maria dos Mártires, título que se conservou até aos nossos dias com o consentimento dos Prelados diocesanos e com a aprovação do Santo Padre o Papa Urbano sexto, sendo a festa da sua dedicação celebrada em Roma no mesmo dia em que é celebrada em Lisboa. Esta igreja é a primeira da capital portuguesa em que, depois da reconquista, se celebrou o culto cristão. Por esse motivo, a pedido dos Bispos seus titulares e dos reis de Portugal, os Sumos Pontífices conferiram-lhe especiais privilégios. A partir do ano mil oitocentos e cinquenta e um, por concessão de Sua Santidade o Papa Pio IX, de saudosa memória, esta festa, que possui ofício e missa especiais, celebra-se com rito duplex de primeira classe e oitava na própria igreja e com rito duplex de segunda classe sem oitava em todo o Patriarcado. As primeiras palavras do próprio, no ofício divino, são as que formam o versículo e o responsório de vésperas: “Saístes para salvação do vosso povo, alegrai-vos, para salvação com Cristo, alegrai-vos”. A primeira antífona de laudes diz que apareceu no Céu um grande sinal: uma mulher que tinha o sol por manto, a lua por cabelo e na cabeça uma coroa de doze estrelas. O hino de vésperas proclama que a Virgem Santíssima se eleva entre os astros. O versículo e o responsório insistem no motivo da sua vinda. Finalmente a antífona do Benedictus diz: “Bendito seja o Senhor, que por meio da bem-aventurada Virgem Maria visitou o nosso povo e a nossa cidade e nos libertou da mão de todos aqueles que nos odiavam e dirigiu os nossos pés para o caminho da paz”. De resto, por todo o oficio, são contínuas as alusões à ação benéfica da Rainha dos Anjos em prol do seu povo, de quem é a Padroeira, é a alegria, confiança e entusiasmo com que ele a aclama nas suas apoteoses de Fé e piedade. É em extremo consoladora para todos os católicos portugueses a concorrência desta festa com o primeiro dia das aparições. É decerto permitido ver em tão singular coincidência mais um indício da sua sobrenaturalidade.

O êxtase

A azinheira sobre a qual aparecia a misteriosa Senhora tinha pouco mais dum metro de altura, e os três videntes, de pé ou ajoelhados junto dela, não podiam facilmente ser vistos e observados de frente pelas pessoas presentes. Todavia, num dos depoimentos sobre as aparições, encontram-se algumas palavras, que parecem denunciar o estado de êxtase na Lúcia, tanto mais que esse depoimento é duma pessoa rude, embora fidedigna, que decerto nunca tinha ouvido falar nesse fenómeno sobrenatural. Trata-se do depoimento de Maria Rosa Pereira, de sessenta e três anos de idade, casada com José Pereira Lopes, do Casal da Fonte, freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas. O rev.do António Lopes Laranjeiro9, antigo professor do Seminário Patriarcal em Santarém, e então capelão no lugar das Moreiras Grandes, da mesma freguesia, declarou que conhecia perfeitamente a testemunha e que a considerava muito séria e absolutamente digna de crédito. Este depoimento foi feito a treze de novembro de mil e novecentos e dezassete e refere-se à aparição do dia treze de outubro anterior. Diz a testemunha que nesse dia se achava próximo das crianças quando se deu a aparição, vendo-as muito bem do lugar onde estava. O povo comprimia-se cada vez mais, de tal maneira que as crianças corriam perigo de ser esmagadas apesar do esforço que empregavam as pessoas que as rodeavam para conter aquela onda humana. Todos queriam ver e ouvir de perto, o que era impossível. A Jacinta distraída e cheia de medo chorava por causa dos empurrões que recebia. A Lúcia acariciava-a e pedia-lhe que não chorasse, porque ninguém lhe faria mal. O Francisco também estava distraído por causa do povo. De repente, a prima disse-lhe que olhasse para a azinheira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os lábios10. Maria Pereira que se expressou nestes termos com a maior simplicidade e naturalidade, ignorando o que eles podiam significar de muito extraordinário, era pessoa de condição humilde, sem cultura literária, possuindo uma educação religiosa elementar. Não podia, por isso, de modo nenhum, constatar com precisão as características essenciais dum êxtase. Mais ainda. É certo que ela nunca ouviu pronunciar essa palavra ou, se a ouviu alguma vez, não compreendeu nem conhecia a sua significação teológica. O seu depoimento, feito com toda a ingenuidade da sua alma sincera profundamente crente, oferece portanto, um grande valor e permite supôr que, pelo menos na Lúcia, se verificou realmente, no último dia das aparições, e porventura, nos outros dias também, o fenómeno sobrenatural a que os teólogos místicos chamam êxtase. Acresce, como se depreende dos depoimentos dos videntes, que a Lúcia, algumas vezes, durante o tempo da aparição, parecia alheia a tudo quanto a rodeava, não tendo consciência do que se dizia e fazia ao pé dela e achando-se como que fora de si.

As nascentes de água

Desde a época das aparições e sobretudo depois que os videntes afirmaram ter a Senhora manifestado a sua vontade de que se edificasse uma capela na Cova da Iria, a piedade dos fiéis desejou cada vez mais ardentemente levantar no local sagrado um monumento grandioso em honra da augusta Mãe de Deus. O projeto acolhido com mais entusiasmo é o da construção dum templo no cimo do outeiro que domina a Cova da Iria, no sítio onde os videntes dizem que viram o primeiro relâmpago precursor da aparição de treze de maio. Pouco tempo após as aparições, uma comissão de habitantes das imediações da Cova da Iria resolveu, por devoção e para memória dos acontecimentos, mandar levantar a expensas suas, uma pequena capela ao pé do local onde estava a azinheira, em cuja copa pousara os pés a misteriosa Senhora aparecida11. Quando, mais tarde, a autoridade eclesiástica tomou conta da capela e autorizou que nela se celebrasse o culto público, a devoção e o entusiasmo dos fiéis cresceram sem medida e para logo se aventaram planos grandiosos e imponentes de construções maravilhosas como as de Lourdes. O Senhor Bispo de Leiria tomou a seu cargo a direção suprema de todos os traçados de planos e de todos os trabalhos que deviam fazer da charneca árida e deserta uma esplendorosa cidade da Virgem. Para estas obras, assim como para os peregrinos que às centenas de milhar acorriam a Fátima, para os animais que os transportavam até ali, e para atender os pedidos de inúmeros fiéis que mais tarde de toda a parte solicitavam continuamente remessas de água por mera devoção ou para a cura de enfermidades próprias ou alheias, era absolutamente necessário que na Cova da Iria houvesse água e água com abundância. Mas num raio de muitos quilómetros não aparece água na Fátima senão em pequena quantidade proveniente da chuva e recolhida em lagoas, poços e cisternas. Por isso uma comissão de habitantes daquela povoação tomou a iniciativa de mandar proceder a sondagens nos terrenos adjacentes à capela comemorativa das aparições. A primeira sondagem foi feita em nove de novembro de mil novecentos e vinte e um, depois da primeira missa campal, a distância de quarenta metros da capela. Tendo começado os trabalhos de manhã, ao meio-dia já todos os operários saciavam a sede com a água que jorrou abundante da rocha viva. Nos últimos meses de verão a água quase desapareceu, depois que recomeçaram os trabalhos destinados a tornar maior a capacidade do poço, vendo-se apenas lacrimejar uma das paredes. Em princípios de novembro de mil novecentos e vinte e dois, concluídas as obras do primeiro poço, que tem agora muitos metros de profundidade, a água límpida da nascente, rebentando com força, em seguida às primeiras chuvas do outono, encheu totalmente o vasto reservatório, como tiveram ocasião de ver os numerosos fiéis que em treze desse mês visitaram o lugar das aparições. Nos últimos anos, por ordem da autoridade eclesiástica, foram abertos mais dois poços, um de cada lado do poço primitivo, os quais fornecem água abundante que chega para satisfazer a sede dos peregrinos e as exigências da sua devoção, para as obras que incessantemente se estão realizando no local das aparições, para as necessidades da população, já numerosa, da povoação da Cova da Iria e até para ser expedida em latas para muitas terras de Portugal e do estrangeiro. Coisa singular! O segundo poço, mais largo e mais fundo que o primeiro, foi mandado fazer para receber as águas que no inverno transbordavam, como era costume, do poço primitivo. Logo que ficou concluído, a meia altura e no fundo, jorrou água em tanta quantidade que o encheu por completo dentro de poucas horas. Nos primeiros tempos após as aparições, muitas pessoas que não acreditavam na sobrenaturalidade dos acontecimentos maravilhosos, e entre elas alguns sacerdotes, protestavam que só acreditariam se, naquele terreno árido e estéril, aparecesse água, como apareceu em Lourdes, junto do rochedo de Massabielle. A realização daquilo que reputavam impossível abalou profundamente, como era natural, esses cristãos de pouca fé, muitos dos quais se tornaram mais tarde grandes devotos de Nossa Senhora de Fátima e apóstolos ardorosos do seu culto.

Atitude dos pais de Lúcia de Jesus

Maria Rosa dos Santos, mãe de Lúcia de Jesus, era, à data das aparições, casada com António dos Santos ou António dos Santos Abóbora, de quem enviuvou um ano depois. Tinha então quarenta e oito anos de idade. Além da Lúcia, possuía mais quatro filhas e um filho todos mais velhos do que a vidente. Os pais da Lúcia eram de condição humilde, mas não absolutamente pobres. Possuíam algumas terras, que cultivavam e cujos rendimento bastavam para os sustentar a si próprios e a seus filhos. E, se não viviam com mais desafogo, era por causa do pai, que se descuidava muitas vezes do amanho das suas propriedades. O local da Cova da Iria, onde se verificaram as aparições, pertencia a um irmão da Lúcia, que havia regressado do Brasil pouco tempo antes da primeira aparição. Um dia, por ocasião duma das aparições, o pai da Lúcia, contrariado com a ida de tão grande multidão àquele lugar, onde poderia causar prejuízos nas sementeiras e nos frutos, envidou, aliás sem resultado, os maiores esforços para impedir o concurso de povo. Um ano depois falecia vítima duma congestão cerebral, sem nunca ter manifestado o mínimo entusiasmo pelos estranhos sucessos da Cova da Iria e sem crer sequer na missão sobrenatural de sua filha. A mãe da Lúcia é uma mulher de arreigados sentimentos religiosos e piedosa, como o são as mulheres do campo, que vivem entregues aos trabalhos agrícolas, longe da igreja paroquial, de maneira que não podem frequentar assiduamente os atos do culto e os sacramentos da confissão e comunhão. Tipo da mulher cristã e da boa dona de casa, entregue às lides domésticas, procurou sempre inspirar aos filhos o santo temor de Deus e levá-los ao cumprimento de todos os seus deveres morais e religiosos. Dotada dum bom senso fora do vulgar e duma prudência e dum tato extraordinário, preocupavam-na altamente os sucessos que atraíam a todo o momento as atenções de milhares de pessoas para a sua pobre habitação, até havia pouco tempo ignorada do mundo e notava-se desde logo que o seu espírito hesitava, numa ansiedade inquieta, entre a esperança de que sua filha fosse realmente privilegiada com a aparição da Virgem e o receio de que ela fosse vítima duma alucinação que lhe trouxesse desgostos e cobrisse de ridículo toda a sua família. Foi pela família dos outros dois videntes, Francisco e Jacinta, seus sobrinhos, que ela soube que Nossa Senhora tinha aparecido à filha da primeira vez, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada, com receio de que lhes ralhassem. Esta, só depois de interrogada pela mãe, é que disse o que tinha visto. Era com a maior bondade e delicadeza que Maria Rosa recebia todas as pessoas que desejavam ver sua filha e falar com ela, mas ao mesmo tempo com a prudente reserva que as circunstâncias impunham. Reconhecia que era uma graça muito extraordinária o aparecimento da Santíssima Virgem à Lúcia, mas por isso mesmo o seu espírito debatia-se numa grande incerteza, tanto mais que a vidente possuía apenas – e ninguém melhor o sabia do que ela – uma virtude e uma piedade vulgares. A consideração do peso enorme das responsabilidades que a realidade das aparições da Rainha do Céu acarretava sobre toda a sua família perturbava-lhe a alma e enchia-a de temor. Mas o que mais a preocupava era a dúvida em que vivia acerca da origem e natureza dos sucessos maravilhosos da Cova da Iria. A princípio não acreditava na sinceridade das crianças. Perante a concorrência das multidões à Cova da Iria nos dias treze, o seu desejo era obstar a ida de sua filha a esse local em tais dias. Só a muito custo e guiando-se pelos conselhos de pessoas de autoridade, que a aconselhavam a dar liberdade à filha para fazer o que lhe aprouvesse, é que se resolvia a permitir a sua partida. Temendo que a filha andasse a enganar o povo com falsas declarações, embora não a tivesse por mentirosa, exprobava-lhe severamente o seu procedimento, ameaçando-a várias vezes com pancadas, e uma ocasião, num dos primeiros meses das aparições, chegou até a bater-lhe com um chinelo, tratando-a de impostora. Não raro a boa mulher manifestava o receio de que a Lúcia fosse vítima duma ilusão, embora encarasse com íntimo júbilo a hipótese duma felicidade tão grande como a escolha da filha pela Santíssima Virgem para sua confidente. Com o decorrer do tempo e à medida que os acontecimentos se iam desenrolando, convenceu-se da sinceridade dos videntes, mas, enquanto a autoridade eclesiástica não permitiu o culto público no local das aparições, era inclinada a crer que se tratava duma grande ilusão natural ou diabólica. Nunca deu mostra de enfado quando lhe apareciam pessoas a visitá-la por motivo das aparições, apesar do transtorno que não raro essas visitas causavam à lida da casa e ao amanho das suas propriedades, quando se realizavam nos dias úteis. O seu desinteresse foi sempre manifesto, assim como o do marido. Honesta, religiosa, amante do trabalho, ardentemente suspirava pela paz e sossego do seu lar, anteriores às aparições e que não voltariam mais, senão a troco da perda da filha que, resignada à vontade de Deus, mas com o coração dilacerado de dor, previa estar iminente.

Atitude dos pais do Francisco e da Jacinta

Segundo o depoimento de Manuel Goncalves Júnior, do lugar de Montelo, da freguesia de Fátima, testemunha absolutamente fidedigna, “os pais do Francisco e da Jacinta, Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto, são pessoas muito boas, profundamente religiosas e respeitadas e estimadas por todos. O pai tem fama de ser o homem mais sério do lugar (Aljustrel). É incapaz de enganar alguém. Muito laboriosos, ocupam-se no amanho das suas propriedades, de cujos rendimentos vivem. Posto que não sejam ricos, no sentido rigoroso da palavra, possuem abundantes meios de fortuna, ao contrário da família da Lúcia, que pode considerar-se apenas remediada e vivendo numa discreta mediania. Perante os sucessos desenrolados na Cova da Iria, puseram-se incondicionalmente, desde a primeira hora, ao lado dos filhos, cuja inocência simples e ingénua bem conheciam e de cuja sinceridade nem por sombras podiam duvidar. A sua própria piedade, ao mesmo tempo profunda e desacompanhada duma sólida cultura religiosa, induzia-os, na sua rude franqueza de pessoas honradas, que consideravam um dever de consciência julgar os outros por si, a acreditar plenamente nas declarações das crianças. Dir-se-ia, ao ouvir as suas observações e os seus comentários, que consideravam tão obrigatória a crença nas aparições como nos dogmas definidos da fé crista. Bons e humildes como eram, crentes sem fanatismo, defendiam com sereno e calmo entusiasmo os seus pontos de vista na matéria, mas não ofendiam, nem sequer ao de leve, com as suas palavras cheias de calor e de vida e repassadas da mais evidente sinceridade, as pessoas, geralmente vizinhos, com quem conversavam e discutiam ao serão, que negavam a realidade ou a sobrenaturalidade dos sucessos maravilhosos ou punham em dúvida a manifesta boa fé dos videntes. E, se porventura um ou outro dos contraditores se exaltava ao sustentar a sua opinião, irredutível na sua intransigência, para logo aquelas duas boas almas, cheias de caridade e amigas da paz, se remetiam ao silêncio, pondo assim termo à discussão, antes que ela tomasse por um caminho que repugnava ao temperamento e aos seus sentimentos cristãos. E é muito para notar que só o amor da verdade e da justiça os norteava em tudo quanto diziam. Podiam enganar-se, enganavam-se talvez, muitas vezes, nos juízos que formavam, mas era por desvio inconsciente da inteligência e não por erro contumaz da vontade. Nem o interesse, nem a vaidade, nem qualquer outra paixão inconfessável, foi jamais o móbil das suas palavras ou das suas atitudes. As suas virtudes cristãs, atestadas por todos aqueles que os conheciam no seu viver íntimo, assim como a sua reconhecida despreocupação de objetivos de ordem material excluíam por completo a possibilidade de que assim fosse. De resto não havia ninguém que não lhes fizesse essa justiça. A resignação admirável com que suportaram o grande golpe da perda dos dois filhos mais novos, que a Virgem Santíssima, como eles criam sem hesitação alguma, privilegiara com as suas divinas aparições, perda que para eles representava o malogro de todas as esperanças humanas que porventura tivessem alimentado, é mais um testemunho da sua sinceridade e do seu desinteresse e um indício seguro de que o espírito profundamente cristão que os animava fazia-lhes pressentir e como que adivinhar a única solução a dar ao momentoso problema de Fátima.

A morte do Francisco

Francisco Marto, primo de Lúcia de Jesus, a protagonista das aparições de Fátima, adoeceu gravemente no dia vinte e três de dezembro de mil novecentos e dezoito, atacado da terrível epidemia broncopneumónica, que então grassava em todo o mundo. Nessa data, todas as pessoas da sua família estavam de cama, feridas pelo mesmo flagelo, à exceção do pai. Este e algumas vizinhas caridosas tratavam desveladamente dos enfermos, envidando todos os esforços para que nada lhes faltasse. Durante cerca de quinze dias a inocente criança ficou retida no leito “com a força da doença”, segundo a expressão da mãe, levantando-se nos princípios de janeiro num estado de grande fraqueza que, longe de diminuir, foi pelo contrário aumentando de dia para dia. Uma vez, durante as aparições, tendo a Lúcia perguntado à misteriosa Senhora que lhe falava, se ela e a Jacinta iriam para o Céu, e obtendo resposta afirmativa, fez idêntica pergunta acerca do Francisco, respondendo a Visão que também lhe caberia tamanha ventura, mas que primeiro havia de rezar muitas vezes o terço. Desde esse momento até adoecer, o ditoso vidente nunca mais deixou passar um dia sem oferecer essa singela homenagem à Rainha do Céu. Depois que se levantou da cama, não sentindo às vezes forças para rezar o terço inteiro, dizia tristemente à mãe que não podia rezar senão metade. A boa mulher procurava tranquilizá-lo, lembrando que, se lhe custasse pronunciar as palavras da Oração Dominical e da Saudação Angélica, dissesse essas orações só com o pensamento, que Nossa Senhora lhe aceitaria o seu obséquio com o mesmo agrado. Recomendava frequentemente à mãe que não se esquecesse da oração que a Santíssima Virgem tinha ensinado aos três videntes, porque ele nunca se esquecia de a rezar. E, quando a pobre mulher se lamentava de que não raro a omitia por lapso de memória, o pequeno ponderava-lhe que a podia rezar mesmo pelos caminhos. Uma vez por outra queixava-se sentidamente de que não sabia oferecer o terço como muita gente tinha a felicidade de saber, o que lhe causava bastante pena. Apesar de nunca mais ter tido saúde, de quando em quando, dava um pequeno passeio, chegando a ir até à Cova da Iria. Quando alguém lhe asseverava que havia de melhorar, a sua resposta era logo um “não”, proferido com um ar misterioso e num tom que impressionava extraordinariamente. Como um dia sua madrinha Teresa de Jesus prometesse, na presença dele, pesá-lo a trigo, se Nossa Senhora o melhorasse, declarou perentoriamente que era inútil fazer essa promessa, porque jamais alcançaria a graça da sua cura. Possuía uma consciência em extremo delicada, sem embargo da sua pouca idade e de haver recebido uma formação religiosa muito deficiente e rudimentar. Uma vez em que o aconselhavam a levar as ovelhas, confiadas à sua guarda, pela orla das propriedades da madrinha, que decerto se não opunha a isso, não quis fazê-lo sem licença expressa dela por julgar que fosse um roubo. No dia dois de abril, a família, achando-o pior de saúde, mandou-o recolher à cama e chamou o pároco para o confessar. Não tinha ainda feito a sua primeira comunhão e por isso receava que não lhe fosse permitido receber Nosso Senhor. Grande, extraordinária até, foi pois, a sua alegria, quando o pároco lhe prometeu trazer no dia seguinte de manhã o Sagrado Viático. Na véspera pediu à mãe que o deixasse estar em jejum até essa hora, pedido a que ela acedeu sem relutância, assegurando-lhe que não lhe daria nada a tomar depois da meia-noite. Quando chegou o pároco com o Santíssimo Sacramento, quis sentar-se na cama para se confessar e comungar, o que não lhe foi consentido. Ficou radiante de contentamento por ter recebido pela primeira vez no seu peito o Pão dos Anjos e, quando o pároco se retirou, perguntou à mãe se não tornaria a comungar, ao que ela retorquiu que o não sabia. Durante o resto do dia pediu de tempos a tempos água e leite. À noite pareceu agravar-se ainda mais o seu estado, mas, perguntando-lhe a mãe como se sentia, declarou que não estava pior e que não lhe doía nada. No dia seguinte, sexta-feira, cinco de abril13, pelas dez horas da manhã, sem agonia, sem um gemido, sem um ai, com um ligeiro sorriso à flor dos lábios, a alma daquele anjo da terra desprendia-se suavemente dos frágeis liames do corpo e voava para o seio de Deus13. Contava dez anos, nove meses e quatro dias de idade, pois tinha nascido no dia onze de junho de mil novecentos e oito, às dez horas da noite. As suas últimas palavras foram para a madrinha, a quem pediu, alguns instantes antes de soltar o derradeiro suspiro, quando a viu assomar a porta, que o abençoasse e perdoasse os desgostos que porventura lhe tivesse dado. Os seus despojos mortais jazem sepultados em campa rasa no humilde cemitério paroquial de Fátima.

A morte da Jacinta

É crença geral entre o povo que toda a família dos videntes de Fátima, assim como também estes, estão condenados a desaparecer dentro de pouco tempo, e acrescenta-se que isso lhes teria sido anunciado pela Aparição. Qualquer que seja o fundamento desta crença, o certo é que o pequeno Francisco, irmão da Jacinta, já faleceu, a Jacinta também, assim como uma irmã14, o pai da Lúcia da mesma forma, e a mãe esteve há pouco tempo à morte. Das três crianças, resta apenas a Lúcia, que era a que conversava com a Senhora, segundo ela afirma. A Jacinta, que era relativamente robusta, foi acometida pela pneumónica, donde lhe resultou uma pleurisia purulenta, seguida doutras complicações. Tendo vindo a Fátima um distinto especialista da capital, e tendo observado a pequena, empenhou-se em que ela fosse para Lisboa, a fim de ver se, por meio duma operação, ainda era possível salvá-la. Buscou-se-lhe alojamento em casa dalguma pessoa abastada, mas não se conseguiu.

Foi então hospedar-se na pobre morada duma modesta criatura, que a recebeu de bom grado, com grande contentamento da pequena que, tirada do seu meio provinciano, toda ela era acanhamento e confusão. Para fazer a operação escolheu-se o hospital de D. Estefânia. Antes, porém, de recolher ao hospital, a criança disse que a Senhora lhe havia aparecido, assegurando-lhe que “morria”, e por esse motivo achava que a operação era inútil. Apesar disso, e muito embora ela insistisse em afirmar que tudo era inútil, fez-se-lhe a operação, que correu bem, conquanto sem êxito feliz, como se viu. Quatro dias antes de morrer, como a pequena tivesse grandes dores e se queixasse, dizia-lhe a criatura que a havia recolhido e a quem tratava por “madrinha”, que suportasse com paciência as suas dores, que isso seria muito agradável a Deus. Na manhã do dia seguinte disse-lhe a Jacinta: “Olhe, madrinha! Eu já não me queixo! Nossa Senhora tornou-me a aparecer, dizendo que em breve me viria buscar e que me tirava já as dores!”. E de facto, desde esse dia até que morreu, segundo consta, não tornou a queixar-se nem deu mostras de sofrimento. Tendo sucedido a “madrinha” passar ou sentar-se ao pé da cama, não longe do sítio em que “a Jacinta disse ter visto a Senhora”, a vidente exclamou: “Tire-se daí, madrinha, que aí esteve a Senhora!...”. E a mesma preocupação se lhe apresentava, quando alguma enfermeira passava pelo mesmo sítio. Como fossem ao hospital algumas pessoas, imodestamente vestidas, ou visitá-la ou ver outros doentes, e algumas enfermeiras se apresentassem com certos exageros no traje, dizia, indicando essas pessoas e referindo-se a determinados enfeites e decotes: “Para que serve aquilo!? Se soubessem o que é a eternidade!...”. Falando dalguns médicos que ela julgava serem incrédulos, lastimava-os, dizendo: “Coitados, mal sabem o que os espera!”. Afirmava a vidente que Nossa Senhora lhe havia comunicado: “que o pecado que leva mais gente à perdição, era o pecado da carne, que era preciso deixarem-se de luxos, que não deviam obstinar-se no pecado como até aqui, e que era preciso fazer muita penitência”. E parece que a Senhora, ao dizer isto, se mostrava muito consternada, porque a pequena acrescentava: “Ai! Eu tenho muita pena de Nossa Senhora! Tenho muita pena!”. Enquanto esteve em casa, antes de ir para o hospital, vivia em companhia doutra pequenita, a quem recomendava muitas vezes “que fosse muito obediente, que não fosse preguiçosa e que nunca faltasse à verdade”. Pouco antes de morrer, perguntando-se-lhe se queria tornar a ver a mãe, respondeu: “que a família dela durava pouco tempo e que em breve se encontrariam no Céu”. Disse mais que Nossa Senhora “devia ainda aparecer outra vez, mas não a ela, porque com certeza morria, segundo ela lhe disse”. Pediu licença para se confessar, muito embora se tivesse confessado e comungado antes de entrar para o hospital. Foi confessá-la o rev.do prior dos Anjos, dr. Pereira dos Reis, mas não teve tempo de lhe dar a Sagrada Comunhão. Entrou para o hospital no dia dois de Fevereiro e morreu no dia vinte. Depois de falecer, alguém aventou a ideia de a transportarem para a terra da sua naturalidade e assim se fez, promovendo-se uma subscrição para esse fim. Muitas pessoas que a não tinham querido receber em sua casa, depois que a pequena morreu já se mostravam solícitas em lhe prestar homenagem, até talvez com um bocadinho de exagero, o que provocou alguns reparos justos dum ilustre sacerdote. Esteve o cadáver da pequena na casa de despacho da igreja dos Anjos, aguardando a remoção para a estação e as necessárias formalidades, saindo depois com grande acompanhamento. Alguém notou a coincidência de, quando saiu o enterro, se achar na igreja o Dr. Domingos Pinto Coelho15 e algumas pessoas de família, que por incidente ali haviam ido, e relacionou este facto com o célebre artigo escrito por esse ilustre advogado em outubro de mil novecentos e dezassete, o qual, apesar de ortodoxo, motivou reparos dalguma gente que ferve em pouca água. A pequena deixou dois segredos para uma pessoa que se tem interessado por este assunto16. Em suma e em conclusão: Deus permita que a luz da verdade resplandeça sobre este caso, não só pelo que possa ter de miraculoso, como pelas consequências que daí possam resultar para a regeneração espiritual desta nossa querida Pátria. Entretanto, seja como for, vamos nós cumprindo a exortação que a pequena atribuiu a Nossa Senhora e que é, afinal, a doutrina da Igreja: “Façamos penitência! Evitemos o luxo e o pecado da carne! Não nos obstinemos no pecado”, para que não nos suceda como a uns infelizes a quem a pequena se referiu, quando, dizendo-lhe a madrinha que era preciso também orar por sua intenção, ela respondeu: “Pois sim, madrinha, mas esses já não têm remédio!”

O concurso de peregrinos

Um dos aspetos mais impressionantes do caso de Fátima é a concorrência enorme de fiéis ao local das aparições, que assume proporções verdadeiramente assombrosas no dia treze de cada mês, durante os meses da Primavera e do Estio. Há o que quer que seja naquele local bendito que fascina e encanta os crentes, que atrai e prende as almas, que empolga e arrebata os corações. Já na época dos sucessos maravilhosos, as multidões se elevavam a dezenas de milhar de pessoas, excedendo em muito nas últimas aparições o número das multidões de Lourdes no período correspondente da sua história. Em Fátima, calcula-se em cerca de setenta mil o número das pessoas que assistiram ao grandioso fenómeno solar. Principalmente depois que foi permitido o culto público na Cova da Iria17, o concurso de peregrinos intensificou-se de tal maneira, que nos últimos anos, no dia treze de maio e no dia treze de outubro, devia ter passado por Fátima cerca de meio milhão de pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e de todas as classes e condições sociais. A surpresa e a admiração que este facto desperta sobe de ponto, se se considerar que a concorrência tem sido até hoje constituída na sua quase totalidade por portugueses, que Portugal é um país apenas de seis milhões de habitantes, que a estação de caminho de ferro mais próxima fica a cerca de vinte e cinco quilómetros de distância e que o acesso ao local das aparições é difícil por causa do mau estado das estradas e excessivamente dispendioso. Numa revista alemã, a Katholische Kirchenblat-Korrespondenz, no seu número de vinte e três de novembro de mil novecentos e vinte e nove, Bety Arenz conclui assim um artigo reproduzido em outros jornais alemães: “Quem esteve uma vez, em treze de outubro em Fátima, pode contar as horas que aí passou como as mais belas da sua vida. Só em treze de maio último, estiveram lá trezentos mil peregrinos. Cada vez este lugar se está tornando mais belo... Certamente tempo virá em breve em que a “Lourdes Portuguesa” será semelhante em tudo ao “Lugar de Graça” dos franceses: “o número dos peregrinos é hoje em Fátima já superior ao de Lourdes”.”

Os inquéritos oficiais

Dada a importância que, desde o seu início, tiveram os acontecimentos de Fátima, cujo eco se repercutiu duma maneira assombrosa por todos os recantos do país e em breve passou além das próprias fronteiras, a autoridade eclesiástica deu-se pressa em intervir no seu desenrolar, promovendo inquéritos cujos resultados a habilitassem a pronunciar-se com segurança sobre a origem e a natureza desses acontecimentos. Na época das aparições, a Santa Sé já tinha restaurado a diocese de Leiria, suprimida nos fins do século passado durante a vigência do regime monárquico, por acordo entre o Sumo Pontífice e o Real Padroeiro. A nomeação do primeiro Bispo da diocese restaurada devia demorar ainda algum tempo. Entretanto o governo eclesiástico achava-se repartido entre o Patriarcado de Lisboa e o Bispado de Coimbra, dioceses às quais estavam anexados os dois tratos de território de que ela se compunha. A região de Fátima fazia parte da circunscrição eclesiástica do sul, o Patriarcado de Lisboa. Presidia então aos destinos da primeira diocese portuguesa em dignidade o excelentíssimo e reverendíssimo Senhor D. João Evangelista de Lima Vidal, Arcebispo de Mitilene e Vigário Geral, na ausência do Eminentíssimo Cardeal Patriarca, D. António Mendes Belo18. Em ofício datado de três de novembro de mil novecentos e dezassete, e junto ao processo, o venerando prelado ordenava ao pároco de Fátima, reverendo Manuel Marques Ferreira, que procedesse a um inquérito consciencioso sobre os factos ocorridos na paróquia a seu cargo, no dia treze do mês de outubro anterior, ouvindo testemunhas fidedignas e principalmente as crianças que se diziam favorecidas de graças singulares do Céu. No dia vinte e oito de abril de mil novecentos e dezanove, o relatório do inquérito, acompanhado dum ofício, é finalmente remetido ao venerando Prelado. Consta de dezassete folhas e contém os depoimentos dos três videntes e de mais quatro pessoas que foram testemunhas presenciais dos acontecimentos. Por ofício datado do mesmo dia, o Senhor Arcebispo incumbiu o rev.do Vigário de Porto de Mós de proceder a um inquérito semelhante, de que ele dá contas em onze de novembro de mil novecentos e dezassete em documento que consta de cinco folhas e contém os depoimentos de dezasseis testemunhas ajuramentadas aos Santos Evangelhos. No dia três de maio de mil novecentos e vinte e dois, Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, venerando Bispo de Leiria, publicou uma provisão sobre os sucessos da Fátima. Nesse documento, depois de fazer uma breve exposição dos factos e de recordar a doutrina da Igreja, nomeia a comissão canónica encarregada de estudar o caso de Fátima e organizar o respetivo processo, segundo as leis canónicas. Esta comissão, depois de todos os seus membros terem prestado o juramento do estilo, iniciou os seus trabalhos, de cujos resultados apresenta agora o competente relatório, assim como os documentos numerosíssimos onde se encontram os elementos em que baseou os estudos a que procedeu e as considerações que fez. Entre os documentos importa destacar pela sua excecional importância o relatório do inquérito oficial ordenado por Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Leiria e realizado no Porto, em mil novecentos e vinte e quatro, com a devida autorização do venerando Prelado desta diocese, à vidente Lúcia de Jesus, que era nesse tempo aluna do Asilo de Nossa Senhora de Vilar daquela cidade, dirigido pelas religiosas de Santa Doroteia, cujo Instituto ela abraçou dois anos mais tarde19.

As contrafações

A notícia das aparições de Fátima tinha-se espalhado ao longe e ao largo, por toda a vasta extensão da terra portuguesa, com a rapidez fulminante dum relâmpago. No dia treze de cada mês, nos últimos meses, próximo do meio-dia solar, hora marcada pelos videntes para o contacto místico entre a terra e o Céu, muitos milhares de pessoas comprimiam-se em volta da azinheira sagrada, sobre cuja copa a Visão celeste pousava os seus pés virginais. A multidão, crente e piedosa, aguardava com ansiedade, rezando em recolhimento e silêncio, que se renovasse o colóquio misterioso de Lúcia com a Virgem e que mais uma vez se produzissem os fenómenos extraordinários que tinham acompanhado as aparições anteriores. Chegou o momento ardentemente suspirado e os videntes, que tinham acabado de recitar o terço do Rosário, ajoelhados no chão agreste e pedregoso da charneca árida e escalvada, volveram os olhos para o alto, embevecidos na contemplação do Ente sobrenatural que se dignava dirigir-lhes a palavra. Entretanto, as potências do inferno aliadas com as do mundo lançavam mão de todos os meios para desacreditar as aparições de Fátima, cobrindo-as de ridículo, e impedir a todo o custo as imponentes manifestações de Fé e piedade a que elas davam lugar. Um desses meios, aliás já utilizado sem êxito em Lourdes, foi o lançamento pelo país inteiro duma larga rede de fictícias visões e aparições celestiais. E desde então até hoje jamais cessaram as maquinações do espírito das trevas, procurando arrastar nas malhas dessa rede as massas populares, ignorantes e facilmente crédulas, servindo-se para a execução dos seus planos de auxiliares ambiciosos, interesseiros e sem escrúpulos. Barral, Alcanhões, Póvoa de Santarém, Estremoz, Póvoa de Varzim, Estarreja, Bitarães, Abelheira e Constância são outras tantas malhas dessa rede que, mercê da má-fé dalguns e da ignorância e espírito supersticioso de muitos outros, têm forçado a autoridade eclesiástica a adotar medidas severas, mas justas e necessárias, para pôr cobro a explorações ignóbeis que redundavam em desprestígio e menosprezo da Religião. Essas manifestações pseudo-sobrenaturais, que provocaram grandes levantamentos de povo durante muitos dias, caíram todas por si, desaparecendo como que por encanto, depois de tanta excitação e de tanto entusiasmo, por não terem a fecundá-las a seiva divina que alimenta Lourdes e que alimenta Fátima. A moeda falsa desaparece depressa da circulação.

A oposição do clero

Os acontecimentos extraordinários de Fátima, na época das aparições e durante os primeiros anos que se lhes seguiram encontraram o clero português ocupando várias posições em face deles. A grande maioria dos ministros da Igreja conservava-se numa expetativa de absoluta indiferença e de extrema frieza, considerando a raridade das aparições sobrenaturais e a dificuldade de provar a sua origem divina. Um número bastante apreciável de sacerdotes guardava, juntamente com a prudente reserva que a Igreja aconselha perante factos desta natureza uma espetativa benévola, mas desacompanhada de qualquer intervenção no desenrolar dos sucessos. Ninguém poderia afirmar com sombra de verdade que o clero, mais interessado que nenhuma outra classe da sociedade no que se estava passando, concorresse em qualquer medida, por mais insignificante que fosse, com o seu trabalho, com o seu apoio material ou moral ou sequer com o seu incitamento e aplauso, para a solução do caso de Fátima num sentido favorável aos interesses da Igreja. Alguns dos seus membros até, levando longe de mais a necessidade de acautelar o prestígio da Religião, atacaram desde logo o caso de Fátima como uma superstição e um embuste, sem mesmo se terem dado ao incómodo de colher previamente, como exigem as regras mais comezinhas da crítica histórica, elementos de informação suficientes para fundamentar um juízo seguro e imparcial sobre a origem e a natureza dos sucessos maravilhosos. O jornal católico “A Ordem”, de Lisboa, no seu número de quinze de novembro de mil novecentos e dezassete, inseriu uma carta do reverendo José Freire, daquela cidade, em que o autor diz que se deliciara com a leitura dum artigo, dias antes publicado, em que se procurava reduzir às mais insignificantes proporções o fenómeno solar de treze de outubro com todas as suas circunstâncias. E logo a seguir, o mesmo sacerdote acrescenta: ‘Muito bem! Principalmente aquelas palavras de Cristo – ‘Se não virdes maravilhas, não credes’ – saíram-lhe muito felizes. Apoiado, sr. redator. O seu artigo merecia ser escrito em letras de ouro. Oxalá que estes católicos tomem juízo e estejam nos seus deveres até se ouvir no meio destas trevas aquela voz do Senhor: ‘Faça-se a luz’. No mesmo jornal e no mesmo número, o reverendo abade José Castro, em carta dirigida à redação, publica o seguinte: “Envio sinceros parabéns pela sua atitude jornalística, a propósito do caso de Fátima. Defende V. Ex.cia a boa doutrina. Aqueles que querem impôr à força o ‘milagre’ são os seus piores inimigos, e não pode aproveitar-se o seu testemunho... Só factos posteriores podem autorizar o sobrenatural”. O reverendo Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, em carta datada de quinze de agosto de mil novecentos e dezassete, publicada no mesmo jornal, defende-se das acusações que injustamente lhe são feitas de cumplicidade com o administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém no rapto dos videntes realizado no dia treze desse mês. Afirma nela que a sua vida chegou a correr perigo, tão grande era a excitação dos ânimos, provocada pelo rapto e pela calúnia que lhe foi assacada. Finalmente, expõe as razões da sua ausência sistemática do local das aparições no dia treze de cada mês, a qual é devida à convicção em que se acha de que a sua presença não é necessária, se as aparições são realmente sobrenaturais, e ao desejo de não fornecer aos inimigos da Igreja um pretexto para que atribuam a fé da multidão à presença ou aos conselhos do pároco de Fátima. É um facto geralmente reconhecido que os videntes muitas vezes procuravam fugir ou esconder-se, quando sabiam que algum eclesiástico os procurava para lhes falar, porque sabiam que eram por eles apertados com muitas perguntas capciosas e repreendidos e escarnecidos, como se fossem mentirosos e impostores. No inquérito a que foi submetida, quando era educanda do Asilo de Vilar, no Porto, Lúcia de Jesus declarou que, depois da primeira aparição, foi visitada por muitas pessoas, e entre elas alguns sacerdotes, que a apertaram com perguntas e lhe ralharam muito, dizendo-lhe pessoas da sua família que ela mentia e chegando a própria mãe a bater-lhe com o cabo duma vassoura. Declarou também, noutra altura do interrogatório, que, depois do dia treze de agosto, alguns sacerdotes que foram a casa dela para lhe falar a trataram de intrujona. Antes de ser permitido o culto público na Cova da Iria numa espécie de comício que até realizaram pessoas de sentimentos religiosos, crentes na verdade das aparições, mas pouco instruídas, um orador lamentou sentidamente que o clero se alheasse do que ali se passava, censurando os párocos da freguesia de Fátima e freguesias circunvizinhas e considerando-os quase como inimigos dos interesses da Religião e da Igreja.

A perseguição particular: os atentados

Durante a noite de vinte e três para vinte e quatro de outubro de mil novecentos e dezassete, alguns carbonários de Santarém arrebataram furtivamente os objetos que a piedade popular tinha colocado no lugar das aparições e no dia seguinte organizaram um cortejo sacrílego em que exibiram esses objetos e que percorreu as ruas principais daquela cidade com a complacência da autoridade administrativa e perante uma população inteira profundamente indignada e horrorizada. Consta que o governador civil e o administrador do concelho não só permitiram mas até auxiliaram este ignóbil e hediondo arremedo de procissão religiosa. O jornal “Diário de Notícias”, de vinte e quatro de outubro de mil novecentos e dezassete em correspondência de Santarém, publica o seguinte:

“O milagre da Fátima – Durante a noite de ontem, algumas pessoas que se fizeram transportar num automóvel a Fátima, foram ao local onde se deu o tão afamado fenómeno do dia treze do corrente mês, e de que tanto a imprensa se tem ocupado e, munidos dum machado, cortaram a carvalheira, sob a qual as três crianças (pastoras) se apresentaram naquele dia. Trouxeram a árvore assim como uma mesa, sobre a qual alguns crentes haviam armado um modesto altar, onde foi encontrada a fotografia duma imagem religiosa (Nossa Senhora), um arco que a encimava, feito de rama de murteira, duas lanternas de folha, duas cruzes, sendo uma de madeira e outra de cana, envolta em papéis de seda. Todos estes objetos, assim como dois vasos com plantas, deram entrada nesta cidade às nove horas de hoje, encontrando-se em exposição num primeiro andar do largo do Seminário. O automóvel, na ocasião da partida do referido local, teve uma “pane”, não ganhando o “chauffeur” e seus companheiros para o susto, receosos de serem ali encontrados. O caso deve ter produzido grande sensação no espírito dos crentes e bons católicos da Fátima e suas cercanias. Constou que iam ser pagas as entradas para a visita aos ramos da árvore e imagens e que o apuro reverteria em benefício das Cantinas Escolares desta cidade, mas sabemos que a direção desta instituição de caridade recusa qualquer quantia que daí provenha. O jornal “O Século”, do dia vinte e seis de outubro de mil novecentos e dezassete, em reportagem do seu correspondente de Santarém refere-se nos seguintes termos à vil torpeza: “A noite passada muitos populares organizaram um cortejo à laia de procissão, levando à frente uns tambores e a seguir os ramos da célebre árvore da aparição da Virgem em Fátima. Pelo mesmo cortejo eram conduzidos o arco de murta, as lanternas acesas, a cruz e mais objetos que os crentes tinham colocado no improvisado altar. O acompanhamento entoava pitorescas ‘ladainhas’, e, num passo cadenciado, percorreu as principais ruas da cidade, dispersando na praça Sá da Bandeira, de onde tinha saído, indo muitos dos manifestantes depois juntar-se defronte duma janela, na rua Direita, de onde tinha sido lançado um balde de água, que apanhou alguns manifestantes e um dos polícias que no cortejo se tinham incorporado, e ali permaneceram algum tempo, em atitude hostil ao dono da casa, até que um cabo e um guarda da polícia cívica apareceram, pedindo aos manifestantes para dispersarem o que depois fizeram. A “Ordem”, de Lisboa, refere o seguinte no seu número de vinte e sete de outubro de mil novecentos e dezassete, sob a epígrafe “Uma torpeza livre-pensadeira com o consentimento da... autoridade”. O “Diário de Notícias” publicou ontem a seguinte correspondência de Santarém: “Ao Sr. Ministro do interior – Às nove horas da noite de ontem, um grupo de populares exibiu um cortejo pelas três principais ruas da cidade, conduzindo alguns deles, processionalmente, os objetos há dias trazidos da Fátima, onde se deu o afamado fenómeno do dia treze do corrente mês. Um dos populares conduzia a carrasqueira, um outro, acolitado por mais dois, figurando de eclesiásticos, conduziam, sob um chapéu de sol, uma cruz e, por fim, uns outros transportavam a estampa duma imagem religiosa, sendo encimada por um arco de murtinheira, ladeada por duas lanternas. Ao som do badalar duma campainha e do rufar dum tambor, cerca de cem populares entoavam uma ladainha, sendo sobre os mesmos e um polícia civil lançado um balde de água, quando passavam próximo da ourivesaria Lemos.

A senhora que lançou a água foi multada pela polícia, mas o marido resolveu não pagar a multa e fazer escândalo no tribunal. Toda a gente estranha ao cortejo, especialmente os católicos, comentam verberantemente a indiferença ou consentimento de tal desacato por parte da autoridade administrativa, que, durante a sua estada, aqui só tem revelado uma manifesta incompetência no desempenho da sua missão, não sabendo evitar factos vexatórios e impróprios duma cidade, como o que vimos relatando. O Sr. Dr. José António dos Reis Júnior poderá ser um bom advogado, um bom chefe duma secretaria e um bom cidadão, qualidades que não lhe contestamos, mas o certo é que Deus não o fadou para o cargo para que nunca deveria ter sido nomeado. Desde o desacato de há dois anos que teve o seu início à saída da praça dos touros e que teve o final de ato no hotel Central, que esta cidade vem perdendo o conceito de longa data mantido pela disciplina hoje desusada. O facto de ontem que representa um vibrante desacato à lei de separação da Igreja do Estado, e ao livre pensamento dos outros que não pensam como o sr. administrador do concelho, deveria ter-se evitado, porque desde manhã que se tornou do domínio público. Desde que a citada lei proíbe procissões religiosas sem consentimento da autoridade administrativa, esta tinha a estrita obrigação de proibir o facto exibido. O semanário “O Mensageiro”, de Leiria, no seu número de vinte de dezembro de mil novecentos e dezassete, insere o seguinte: “O caso da aparição da Virgem aos três pastores no sítio do Vale da Iria está causando sérios engulhos aos nossos livres-pensadores. Um terno deles lembrou-se de vir até Vila Nova de Ourém ver se conseguia arranjar adeptos, e, de camaradagem com o administrador do concelho, o mestre funileiro, apareceram no dia um, no fim de muito anunciados, no Centro Republicano, para falar às turbas contra o milagre da Fátima. Tanto essa conferência como um comício, fizeram-nos anunciar em alguns jornais da capital e em panfletos distribuídos nesta vila e por todo o concelho, no dia de mercado e já no domingo anterior. O que se sabe, porém, é que para o milagre, ou como lhe queiram chamar, não foi preciso convites e no local da aparição da Virgem, no dia treze de outubro, reuniram-se para cima de cinquenta mil pessoas, não tendo sido precisa a intervenção da autoridade para manter a ordem, nem força militar, não obstante a grande quantidade de automóveis, carros de diversas qualidades, bicicletas, etc., etc., não havendo o mais pequeno desastre. Haja agora em vista o tão anunciado comício, no local da aparição da Virgem, que não chegou a efetuar-se porque só apareceram os célebres oradores, acompanhados do administrador do concelho e por mais seis indivíduos daqui, e guardados por uma força de guarda republicana desta vila e outras vindas de Tomar e de Torres Novas, que foram obrigados a ir ao local da Fátima, visto a consciência da seriedade e do papel que iam desempenhar os oradores! Então, srs. ministros do Interior e da Guerra, as tropas republicanas desviam-se dos seus serviços para guardar as costas aos srs. republicanos? Foi um verdadeiro fiasco, já a conferência no Centro, e muito maior no lugar de Fátima, onde os oradores tiveram de desistir, visto que o povo do concelho, por desprezo, não concorreu ao local, não obstante tanto convite que lhe foi feito, pois que ali só apareceram oito pessoas para os ouvirem, à exceção de grande número de mulheres que à sua chegada entoaram o Bendito, voltando-lhes logo as costas. Eis pois, o paralelo entre os dias treze de outubro e dois de dezembro. Por isso lhes dizemos: outro ofício, e a quem vos convidou, para a sensaboria que apanharam e o susto, quando no trajeto de regresso a esta vila foram mimoseados com algumas pedradas, pelo que o sargento comandante da força teve que fazer fogo.”

O segundo atentado foi cometido no dia seis de março de mil novecentos e vinte e dois, alta madrugada. O receio das explosões da cólera popular levou os criminosos a executar o seu horrível desígnio com o favor das sombras da noite. Recaem fundadas suspeitas sobre alguns indivíduos de Lisboa, Santarém e Vila Nova de Ourém, indigitados como promotores, executores e cúmplices do nefando atentado e cujos nomes se citam. Os desgraçados arrombaram a porta da capela e a golpes de alvião abriram quatro buracos nas paredes, a distâncias iguais, dois palmos acima do pavimento, introduzindo em cada um deles uma bomba de grande potência. Essas quatro bombas rebentaram, comunicando o fogo ao madeiramento do teto fazendo-o abater. Uma quinta bomba foi colocada na cova, em que se encontra a raíz da azinheira sobre a qual, no dizer dos videntes, pousavam os pés da Aparição, mas não explodiu. As paredes da capela, embora bastante danificadas, ficaram de pé. A Associação do Registo Civil e a Federação do livre Pensamento editaram um longo panfleto com a epígrafe: “Aos liberais portugueses” e as subepígrafes: “A reação campeia desenfreada! !! Contra a torpe especulação feita com a comédia ridícula de Fátima protestam energicamente a Associação do Registo Civil e a Federação Portuguesa do Livre Pensamento”20.

A perseguição oficial

O primeiro ato de perseguição oficial foi o rapto dos três videntes efetuado no dia treze de agosto de mil novecentos e dezassete pelo administrador de Vila Nova de Ourém pouco antes da hora marcada para a quarta aparição. Chefe local do partido democrático, que na vigência do novo regime foi o partido que assumiu uma feição mais acentuadamente anticlerical e antirreligiosa, inteligente, audaz, mas sem cultura literária ou científica, o administrador que tinha a profissão de funileiro, procedia no exercício das suas funções como um verdadeiro déspota, seguro da impunidade, cometendo toda a casta de arbitrariedades contra a Igreja e contra o clero, como instrumento da maçonaria que na sede do concelho possuía um triângulo. A notícia do rapto que se espalhou rapidamente e foi levada sem demora à Cova da Iria, onde uma multidão de muitos milhares de pessoas aguardava a chegada das crianças, causou a mais profunda impressão nas pessoas que dele tiveram conhecimento. A mãe da Lúcia, quando lhe disseram que a filha tinha sido presa, respondeu: “Se foi por Deus, Deus os guardará, se mentiram, não continuam!...”. E, enquanto muitas pessoas choravam de pena ou de indignação, ela conservava a serenidade duma alma verdadeiramente cristã. O administrador tinha um ardente desejo e alimentava a esperança de descobrir a interferência e manejos secretos da reação clerical no caso de Fátima, que tanto o preocupava. Por isso submeteu as crianças, durante os dias em que as conservou em sua casa, a interrogatórios repetidos e capciosos, tentando debalde fazê-las cair em contradições e recorrendo, também sem resultado, a promessas e ameaças, já para as obrigar a confessar que estavam desempenhando uma comédia ensaiada, já para lhes arrancar o segredo que, segundo elas diziam, a Aparição lhes comunicara e que a ninguém podiam revelar. Este abuso inqualificável da autoridade administrativa, que tão profunda como justa indignação provocou em toda a gente de bem, constituiu um ato providencial, que veio reforçar a convicção geral, nesse tempo já tomada, de que as crianças não faltavam conscientemente à verdade. No dia treze de maio de mil novecentos e vinte, quinta-feira da Ascensão, devia realizar-se uma das mais esplendorosas manifestações de Fé e piedade em honra da gloriosa Senhora aparecida. A Maçonaria, sabendo o que se preparava, fez correr em Lisboa o boato de que a peregrinação seria uma grande manifestação política. O seu intuito era conseguir que o governo proibisse a peregrinação, o que realmente sucedeu. O administrador de Torres Novas, tendo conhecimento de que devia ser exposta à veneração pública uma imagem de Nossa Senhora de Fátima oferecida por um devoto daquela vila, não permitiu que ela saisse para Fátima, mandando cercar por tropa a casa onde estava guardada. Um piedoso estratagema frustrou os planos da autoridade. Para a Fátima tinham sido enviados, por ordem do governo grossos destacamentos de tropa de linha, infantaria, cavalaria, e uma força da guarda republicana a pé e a cavalo, comandada por um tenente. As forças formaram dois cordões: um na Cova da Iria e o outro a dois quilómetros de distância junto da igreja paroquial de Fátima. No concelho de Vila Nova de Ourém e noutros concelhos não foi permitido alugar carros. Uma trovoada que se desencadeou formidável, acompanhada de chuva abundante, obrigou a tropa a retirar. Os peregrinos, que já antes se dirigiam por atalhos através dos campos para as imediações da Cova da Iria, vendo livres as estradas, acorreram em massa ao local das aparições. Em treze de maio de mil novecentos e vinte e dois tenta-se novamente proibir a grande peregrinação nacional. Em Torres Novas e noutras terras foi largamente distribuído um manifesto intitulado “A comédia de Fátima”. O governador civil de Santarém, democrático e livre-pensador, enviou ao administrador de Vila Nova de Ourém o seguinte telegrama que ele declarou ser reprodução doutro recebido do ministério do interior: “Proíba terminantemente essa grande parada de forças reacionárias em Fátima”. O presidente do ministério engenheiro António Maria da Silva, disse a um redator do jornal “A Época”, que o entrevistou sobre esse assunto, que o governo não tinha proibido a peregrinação. O administrador do concelho respondeu ao governador civil: “que não proibia de modo algum essa peregrinação em que tomavam parte cerca de cinquenta mil pessoas; que proibí-la era desprestigiar o próprio regime; que a sua resolução inabalável tinha o apoio de todos os democráticos e republicanos de várias cores do concelho, os quais consultara”. Houve ainda outra tentativa de proibição, procedimento por vias legais contra dois professores de instrução primária por não terem dado aula num dia treze, casos isolados de difamação e zombarias e ataques à Religião e à Igreja nas colunas da imprensa sectária por motivo das manifestações de Fátima.

O Senhor D. José Alves Correia da Silva e a “Obra de Fátima”

O Senhor D. José Alves Correia da Silva foi nomeado Bispo de Leiria dois anos depois das aparições e dos sucessos maravilhosos.

Ainda não tinha recebido a sagração episcopal quando um seu colega no episcopado o felicitou por estar sujeita à sua jurisdição a futura Lourdes portuguesa. O motivo dessas felicitações era para o venerando Antístite mais uma fonte de preocupações e responsabilidades. Por isso uma sombra de tristeza toldou-lhe o espírito, ao ouvir essas palavras de parabéns, que lhe recordavam um dos espinhos mais agudos do seu múnus episcopal. Quando um membro do clero do Patriarcado, a quem o Excelentíssimo Senhor Arcebispo de Mitilene, na ausência do Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca, tinha encarregado de acompanhar de perto e estudar os acontecimentos de Fátima, se dirigiu a Leiria, um mês depois que Sua Excelência Reverendíssima tomou posse da sua Sé episcopal, para o cumprimentar e receber as suas instruções sobre a orientação dos trabalhos relativos à propaganda de Fátima, pôde facilmente descobrir, entre as demonstrações cativantes de bondade e gentileza, uma frieza e uma indiferença difíceis de disfarçar por tudo o que interessava ao fim principal da visita. Um mês depois, o venerando e saudoso pároco do Olival e vigário da vara de Vila Nova de Ourém, escrevia-lhe, após uma entrevista que tivera com o Excelentíssimo Prelado, dizendo que ele, posto ao corrente de tudo quanto se tinha passado na Cova da Iria, reconhecera claramente o dedo da Providência suscitando tantas maravilhas e, longe de criar obstáculos à propaganda de Fátima, a permitia de bom grado, ressalvando porém, como não podia deixar de ser, os direitos do magistério eclesiástico quanto à apreciação da natureza dos sucessos reputados maravilhosos. Desde esse momento, a ação desenvolvida pelo ilustre e incansável Prelado tem sido verdadeiramente colossal. Que o diga a intensificação da propaganda pró Fátima que tem chegado aos recantos mais afastados de Portugal e até aos confins do mundo. Que o diga a difusão do mensário “Voz da Fátima”, pregoeiro das glórias da Virgem, cuja tiragem se eleva a muitas dezenas de milhar de exemplares e cuja circulação não é igualada por nenhuma outra publicação congénere. Que o diga a majestade e imponência das grandiosas manifestações de Fé e piedade, realizadas no recinto das aparições. Que o diga o zelo admirável que dedica à Obra de Fátima, promovendo a construção dos santuários da Cova da Iria e dos seus anexos, tomando parte nas grandiosas manifestações de Fé, esforçando-se por coibir toda a sorte de abusos, fomentando a fé e a piedade dos peregrinos, organizando a obra dos retiros, instituindo a Confraria de Nossa Senhora do Rosário e as Associações de servos e servas de Nossa Senhora do Rosário, fundando um albergue para os peregrinos e proporcionando com a maior solicitude e carinho toda a sorte de comodidades aos peregrinos pobres e doentes. E, facto culminante na vida do ínclito e apostólico Prelado, cerca de cinco anos depois da primeira aparição, a Santa Igreja levanta pela primeira vez a sua voz para falar dos acontecimentos de Fátima pela boca do venerando Prelado de Leiria. A três de maio de mil novecentos e vinte e dois, o Senhor D. José Alves Correia da Silva publica uma provisão – o primeiro documento oficial sobre tão momentoso assunto –, não para se pronunciar acerca da origem e natureza dos fenómenos extraordinários, mas para preparar os elementos em que se há-de basear a autoridade eclesiástica, a fim de poder proferir com pleno conhecimento de causa o seu veredicto. Nessa provisão nomeia a comissão encarregada de estudar os factos considerados miraculosos e organizar o respetivo processo canónico. É esta comissão que tem a honra de apresentar agora a Sua Excelência Reverendíssima o resultado dos trabalhos a que procedeu em obediência às determinações dessa provisão.

O interrogatório oficial de Lúcia de Jesus

Em virtude da importância excecional que possui um assunto desta natureza, convém examinar detidamente o relatório do processo verbal a que foi submetida a principal protagonista das aparições em tal época e em tais circunstâncias da sua vida que o seu depoimento não pode deixar de oferecer as mais seguras garantias de credibilidade. Foi no dia seis de julho de mil novecentos e vinte e quatro que Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, venerando Bispo de Leiria, em ofício endereçado ao Senhor Bispo do Porto, D. António Barbosa Leão, requereu licença para que os reverendos Doutores Monsenhor Cónego Manuel Pereira Lopes, professor do Seminário do Porto, Manuel Marques dos Santos, professor do Seminário de Leiria e Manuel Nunes Formigão, professor do Seminário de Santarém, interrogassem a única vidente sobrevivente, reduzindo a auto as suas declarações para serem juntas ao processo eclesiástico que estava correndo na diocese de Leiria acerca dos acontecimentos sucedidos em Fátima em mil novecentos e dezassete. Lúcia de Jesus tinha então dezassete anos de idade, e estava internada no Asilo de Vilar, da cidade do Porto, dirigido pelas religiosas do Instituto de Santa Doroteia. O interrogatório realizou-se a oito de julho do mesmo ano, precisamente no dia seguinte ao último do primeiro Congresso

Mariano Nacional21, realizado em Braga. Ajuramentada aos Santos Evangelhos, Lúcia prometeu dizer toda a verdade e só a verdade. A leitura desse processo verbal não pode deixar de impressionar profundamente toda a pessoa que o ler de boa fé. De cada resposta da vidente, de cada afirmação sua, ressalta, com uma evidência dominadora, a sinceridade das suas declarações, a verdade do seu depoimento. Exprime-se com uma serenidade, uma calma, uma simplicidade, um acento de firmeza e de convicção tão íntima, e ao mesmo tempo com uma humildade tão grande, como se se tratasse de coisas que não lhe dissessem respeito, que o seu depoimento não deixa nada a desejar e não é de modo nenhum inferior sob qualquer ponto de vista, ao da Beata Bernadette Soubirous, a angélica vidente de Lourdes, no processo canónico que foi instaurado por ordem de monsenhor Bertrand-Sévère Laurence, Bispo de Tarbes. Nas declarações de Lúcia de Jesus, por ocasião deste inquérito, há três pontos que convém focar. Um dos pontos é a prisão da vidente e dos seus covidentes no dia treze de agosto com os episódios que se desenrolaram durante os dias em que estiveram presos. O administrador do concelho, jacobino exaltado, que em nada se pode comparar com o comissário de policia de Lourdes, Jacomet, estava empenhadíssimo, por ódio à Religião e à Igreja, em pôr termo às manifestações de Fé e piedade de que era teatro a Cova da Iria, havia quatro meses22. Por esse motivo, no dia em que devia realizar-se a quarta aparição, como já se disse mais atrás, apodera-se à falsa fé das pobres crianças e leva-as numa charrette para sua casa em Vila Nova de Ourém, sede do concelho. Ali fecha-as num quarto, interroga-as, servindo-se de toda a espécie de trucs policiais para as fazer cair em contradição, para as obrigar a desdizerem-se e para lhes arrancar o segredo que dizem ter-lhes sido confiado pela Aparição. É preciso não esquecer que nessa data a Lúcia tinha dez anos de idade, o Francisco nove e a Jacinta quase sete, que todos três eram crianças ignorantes e tímidas e que nunca tinham saído da sua terra. Não há promessas nem ameaças de que a autoridade não lance mão para conseguir os seus fins. Logo que chegaram a Ourém, as crianças são fechadas num quarto e dizem-lhes que não sairiam dali, enquanto não declarassem o segredo que a Senhora lhes tinha confiado. No dia seguinte, depois de interrogadas por uma senhora, são conduzidas à administração do concelho e novamente interrogadas, havendo quem lhes ofereça peças de ouro para revelarem o segredo. À tarde foram outra vez interrogadas sobre o segredo. Levaram-nas à cadeia e ameaçaram-nas de lá as fazerem ficar, se o não dissessem. Como elas o não quisessem dizer, ameaçaram que as iam fritar em azeite. Nessa altura, na presença das crianças, o administrador disse a um indivíduo que estava próximo que aprontasse uma caldeira com azeite quente. Chamou depois a Jacinta, dizendo que era a primeira a ser queimada. Ela foi prontamente, e a Lúcia, no seu depoimento, acrescenta ingenuamente que foi sem se despedir. Interrogaram-na e meteram-na num quarto. Chamaram em seguida o Francisco, disseram-lhe que a Jacinta já estava queimada e que ele teria a mesma sorte, se não declarasse o segredo. Interrogaram-no e mandaram-no para o mesmo quarto. Foi depois a vez da Lúcia. Disseram-lhe que os primos já estavam queimados e que ela teria a mesma sorte, se não dissesse o segredo. Embora pensasse que era certo, a vidente não teve medo, como ela própria declara. Mandaram-na para junto dos primos e um homem disse que não tardariam a ser queimados todos três. Levaram-nos para casa do administrador e lá ficaram mais uma noite no mesmo quarto. No dia seguinte, sucedeu quase a mesma coisa: interrogatórios de manhã e de tarde, com muitas promessas e ameaças. No dia dezasseis foram outra vez à administração, pelas dez horas, mas nada conseguiram dos videntes, como das outras vezes, até que por fim o administrador os foi levar à residência paroquial de Fátima. Quem é que não vê o que há de extraordinário, assombroso mesmo, nesta atitude das crianças? Não se apalpa, por assim dizer, em tudo o que se passa com elas em Vila Nova de Ourém, uma proteção sobrenatural a protegê-las, a ampará-las, a confortá-las? Sem uma força do Alto, era fácil fazê-las cair em contradição, arrancar-lhes o segredo, obrigá-las a desdizerem-se. Crianças tão novas, tão rudes, tão ignorantes, como poderiam vencer os laços que lhes armavam a inteligência e a impiedade e resistir a promessas tão sedutoras e sobretudo a processos de intimidação tão horrorosos, se não estivessem na posse segura da verdade e não tivessem Deus por si? Outro ponto é o que diz respeito à predição do fenómeno solar do dia treze de outubro, presenciado por cerca de setenta mil pessoas, que a predição espalhada rapidamente por todo o país atraira naquele dia ao local das aparições.

A dezasseis de agosto, dia da quarta aparição, depois dos tristes episódios de Ourém, a Lúcia pediu à Senhora um milagre para que o povo acreditasse, e Ela disse que no último mês faria um sinal no sol e que todos haviam de acreditar. Depois do que se passara na sede do concelho e em face das dúvidas que tantas pessoas manifestavam acerca da realidade e sobrenaturalidade das aparições, era natural que a Lúcia se lembrasse de pedir à Senhora uma prova evidente de que ela não era mentirosa, como muitos pretendiam. Se não se lembrou, decerto alguém a aconselharia a fazer esse pedido. No dia treze de setembro, a Lúcia insistiu pelo cumprimento da promessa. Eis as palavras textuais que constam do relatório a fls. 526: “Pedi outra vez que fizesse um milagre para o povo acreditar, porque diziam que eu era uma intrujona que devia ser enforcada e queimada. A Senhora deu-me a mesma resposta da outra vez”. O terceiro ponto e em si mesmo de nula ou insignificante importância, mas serve admiravelmente para mostrar a delicadeza de consciência e o escrúpulo que a Lúcia teve em todo o seu longo depoimento, para que não escapasse nenhuma inexatidão, por mais pequena que fosse. No princípio do interrogatório, a fls. 1, depois da pergunta do estilo: “Quando fizeste a primeira Comunhão?”, está exarada esta resposta: “Fiz a minha primeira Comunhão aos sete anos; o senhor Prior não ma queria dar por eu ser muito pequena, mas por fim fez-me a vontade, a pedido do senhor Padre Pena”. Ou porque a vidente não se exprimiu com suficiente clareza, ou porque as palavras lhe atraiçoassem o pensamento ou enfim porque o notário não ouvisse ou não compreendesse bem a resposta, a última parte dela, acima sublinhada, era inexata. Quando, depois de ter acabado de fazer as suas declarações, lhe foi lido pelo notário o seu depoimento, ela achou tudo conforme a verdade, exceto na resposta à pergunta acerca da sua primeira Comunhão, porquanto, como ela mesma diz, “o senhor Prior é que se chamava padre Pena e era ele que lhe recusava a comunhão por a achar muito nova, mas por fim cedeu às suas instâncias por ver que sabia o catecismo”. Feliz engano, que foi ocasião de se obter uma contraprova de peso considerável em favor da sinceridade perfeita e da minuciosa exatidão das declarações da vidente!

A profissão religiosa de Lúcia de Jesus

Realizado no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete o estupendo sinal de Deus, que Lúcia de Jesus, a privilegiada da Virgem, anunciara dois meses antes para confirmação da veracidade dos seus depoimentos e a que assistiram com assombro e extrema comoção mais de sessenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, a feliz vidente tinha concluído a sua missão de embaixatriz da Mãe de Deus, augusta Padroeira de Portugal. À semelhança do precursor S. João Batista, a partir desse momento, ela tinha de se diminuir, de se apagar, de quase desaparecer aos olhos do mundo, para que só a Virgem fosse glorificada e a sua obra assumisse as proporções da mais colossal maravilha do século vinte... Era indispensável que momentaneamente caísse no olvido o instrumento frágil e desproporcional de que a Divina Providência se dignou servir para iniciar essa obra. Como Bernadette Soubirous, a humilde pastorinha dos Pirenéus, a feliz vidente de Fátima foi preparar-se para outra missão que mais de perto lhe interessava, porque a ela estavam ligados os seus destinos imortais, a tarefa grandiosa da sua santificação e salvação eterna. Terminada a sua educação num colégio do Norte, onde viveu muitos anos entregue à prática de todas as virtudes, obedeceu sem hesitar ao chamamento divino, saíndo do seu país e entrando no Noviciado duma das mais ilustres e beneméritas Congregações religiosas, a Congregação de Santa Doroteia. A atmosfera do Noviciado, toda impregnada de oração, de sacrifício e de amor, era sem dúvida o elemento que convinha à sua vida espiritual, após a formação do Colégio. Ali, ocupada nos serviços mais grosseiros da casa, edificava a todos com a sua profunda humildade e a sua exata observância do regulamento e a Rainha do Céu favorecia-a com novos privilégios, como penhor da sua predileção especial. Um ano depois, no dia três de outubro de mil novecentos e vinte e oito, dia de Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, na casa de Noviciado de Tuy (Espanha), nessa estância de paz bendita, onde cada ano, tantas almas, cândidas e inocentes, contraem místicos esponsais com Jesus, o divino rei dos reis, uma falange escolhida de virgens faz os derradeiros preparativos para o enlace misterioso há muito tempo suspirado, o sublime e inefável himeneu com o celestial Esposo. Todos estão já a postos para a tocante solenidade que se vai realizar.

Um sacerdote português, honra e lustre da sua nobilíssima classe, entra na linda e devota capela, onde vítimas voluntárias de reparação e expiação todos os dias elevam para o Céu o incenso das suas preces fervorosas, a mirra das suas virtudes acrisoladas e dos seus sacrifícios e o ouro dum amor precioso e sem liga, heróico e santo. Era sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, primeiro Bispo de Leiria, depois da restauração da diocese, que devia presidir à cerimónia, expressamente convidado para esse fim. Motivo de força maior inibiu-o de comparecer. O recinto sagrado regorgita de fiéis. Em lugares de destaque veem-se alguns convidados de elevada categoria. Aproxima-se o momento solene, ansiosamente esperado, dos místicos esponsais, das venturosas donzelas que vão consagrar-se para sempre, dum modo especial ao serviço daquele adorável Senhor, a quem servir e reinar. Em atitude modesta e recolhida, e na mais perfeita e edificante compostura, mas palpitantes de intenso e comovido júbilo, elas ali estão, em fila, nas longas bancadas da capela, de mãos postas e olhos postos no Céu, orando incessantemente e com fervor. Confundida com as demais, há uma, que nada assinala a atenção dos circunstantes, mas que merece uma referência sobremaneira particular. É Lúcia de Jesus, a feliz vidente de Aljustrel, a principal protagonista das Aparições de Nossa Senhora de Fátima, a Lourdes de Portugal. Tem vinte e um anos de idade. Esta tenra e mimosa flor dos campos, colhida entre as urzes e azinheiras da serra de Aire, e transplantada do pátrio solo para uma nesga de terra estrangeira, onde o respeito dos direitos da Consciência humana não se reduz a uma palavra vã e a liberdade para o bem não é uma ficção, lá se vê, no meio das flores, nascidas noutros climas e sob outros céus, pronta a embalsamar perenemente com o seu delicioso aroma a ara santa e o ambiente do augusto santuário. O ilustre oficiante28 revestido dos paramentos sacros, entoa o “Veni Creator”, invocando sobre as futuras esposas do Redentor, as luzes e graças do Divino Paráclito, o Amor incriado e consubstancial. A comunidade religiosa e a multidão dos fiéis cantam o admirável hino litúrgico, que o órgão acompanha com a sua voz majestosa e plangente, convertendo-o num cântico de glória, num hino vibrante de ressurreição e de triunfo. Em seguida o ministro sagrado, pronunciando as orações do Ritual benze o crucifixo destinado à futura professa, asperge-o com água lustral, servindo-se para isso do hissope, e depois procede da mesma forma à bênção do véu. Concluída a última oração, volta-se para a noviça e diz-lhe: “Minha filha, que é que pedes?”. Lúcia de Jesus, grave e austera na sua graciosa simplicidade, responde com uma voz firme e pausada: “Pelo Amor de Deus e de Maria Santíssima, minha terna e cara Mãe, peço a graça de ser admitida neste santo Instituto, para nele me consagrar de todo ao serviço de Deus e à salvação do próximo, e de me ligar também com os votos de Pobreza, Castidade e Obediência, que desejo fazer segundo o espírito e regras deste mesmo Instituto”. E o interessante e comovente diálogo continua, cada vez mais vivo e animado, entre o venerando sacerdote, que representa a Santa Igreja e fala e procede em nome dela, encarecendo a grandeza e importância do ato da profissão religiosa e os deveres e responsabilidades que lhe estão inerentes, e a humilde e despretensiosa menina, que responde sem hesitar, firme e inabalável na sua generosa resolução e cheia de confiança filial na bondade omnipotente do Altíssimo. “Tens pensado bem nas obrigações que andam anexas a estes votos?”. “Sim, seriamente o tenho pensado, e espero, com o auxílio de Deus e a intercessão de Maria Santíssima e da Santa Padroeira deste Instituto, poder cumpri-los e é por isso que peço a graça de mos receber”. “Renunciaste com toda a liberdade e com todo o coração ao século e a todas as pretensões mundanas?”. “Sim, Reverendíssimo Senhor”. “Então queres tomar a Jesus Cristo por teu Esposo?”. “Sim, com todo o meu coração”. Nesta altura o ministro do Senhor apresenta o crucifixo à noviça e, dando-lho a beijar, diz: “Recebe, minha filha, esta cruz na qual esta pregado Aquele que deve ser o teu modelo e o único objeto de todo o teu amor”. E acrescenta as palavras seguintes que são como que a forma substancial dos místicos desponsórios, que se estão realizando: “Seja o teu Amado como um fascículo de mirra e faça do teu coração a sua morada permanente, em penhor duma união eterna e dum eterno amor. Sit tibi fasciculus myrrhae dilectus tuus, et super cor tuum comoretur, in signum amoris et unionis sempiternae.” Segue-se a imposição do véu, durante a qual o oficiante diz: “Recebe o jugo do Senhor; o seu jugo é suave e o seu peso é leve”. Proferidas estas palavras, dá-lhe a bênção e depois paramenta-se para rezar a santa Missa. Começa o incruento sacrifício dos nossos altares. O silêncio é mais profundo, o recolhimento mais intenso, a oração de todos mais fervorosa. Pairam vagamente naquele ambiente sagrado harmonias celestiais. Dir-se-ia que os Anjos da guarda do Sacrário, onde repousa na Hóstia sacrossanta o Divino Rei de amor, unem dum modo sensível as suas alegrias e o seu gozo aos júbilos das almas congregadas naquela casa de Deus. É chegada a ocasião de ministrar o

Pão vivo descido do Céu. Mas, antes disso, o celebrante volta-se, com o Santíssimo Sacramento nas mãos, para a eleita do Senhor que, com voz clara, mas comovida, pronuncia, em face do Céu e da terra a sua consagração – a fórmula dos votos de Pobreza, Castidade e Obediência. Feitos estes votos, a irmã aspirante entrega à Superiora a fórmula dos mesmos assinada por sua própria mão e depois recebe o Pão dos Anjos. Terminada a Missa, o representante da Igreja faz uma exortação à Irmã aspirante. São palavras paternais dirigidas à ovelhinha querida da grei espiritual do venerando Prelado de Leiria, à Bernadette da Lourdes da sua privilegiada Diocese. Intima-lhe, mais uma vez, o dever rigoroso de cumprir as promessas sagradas e invioláveis que acaba de fazer perante os santos altares. Recomenda-lhe com particular empenho a observância das constituições e regulamentos da gloriosa e benemérita congregação a que tem a honra e a ventura de pertencer. E, concluindo, faz ardentes votos ao Céu para que, fiel às inspirações da graça divina, se eleve nas asas da humildade e da confiança, aos páramos da perfeição espiritual, às culminâncias da santidade. O cântico do “Te Deum”, versículos e orações do estilo, pôs remate a esta solenidade simultaneamente singela e grandiosa, a que os ritos e cerimónias da liturgia cristã imprimem um cunho de beleza e majestade incomparável. Lúcia de Jesus, em religião Irmã Maria Lúcia das Dores, flor dos campos hoje convertida em mimosa flor do claustro, será mais um pára-raios erguido sobre esta infeliz terra de Portugal, outrora pátria de heróis e de santos, a fim de desarmar a cólera divina, irritada com as culpas individuais e com os desvarios coletivos, e atrair para este abismo insondável de iniquidade torrentes caudalosas e incessantemente renovadas de perdão, de graça e misericórdia.

O culto de Nossa Senhora de Fátima no continente de Portugal, nas ilhas adjacentes e nas possessões ultramarinas

Talvez nunca em todo o mundo uma devoção fosse acolhida com tanto alvoroço e entusiasmo pelos fiéis e propagada com tanta rapidez por toda a parte como a devoção a Nossa Senhora de Fátima. Estes carateres, que a singularizam entre tantas outras devoções e formas de culto, mostram bem a sua origem providencial. Já na época das aparições é extraordinário e inexplicável tudo quanto se passa a este respeito. No dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, por ocasião da última aparição, reúnem-se na Cova da Iria cerca de setenta mil pessoas, e contudo não se tinha feito o mais insignificante anúncio, não se tinha publicado nenhum convite, e a dificuldade do acesso ao local era enorme pela distância e pela carestia de transportes. Seria longo e ocioso fazer aqui a exposição circunstanciada das diferentes fases do incremento da devoção e culto de Nossa Senhora de Fátima em todas as províncias e dioceses de Portugal continental, insular e colonial. A “Voz da Fátima”, não dizendo aliás tudo, é um vasto repertório dos elementos para a história do culto de Fátima. É rara a igreja nos domínios da República que não tenha um altar ou ao menos uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. São bem poucas as famílias, onde a Virgem de Fátima não seja piedosamente venerada e o seu patrocínio confiadamente invocado. Até nos meios mais refratários a todas as ideias e sentimentos religiosos este culto admirável consegue penetrar e produzir abundantes frutos de bênção. Nos Açores e na Madeira, em Cabo Verde, em S. Tomé e Príncipe, em Angola e em Moçambique, na India e na China, enfim em todas as colónias portuguesas, a devoção de Fátima espalha-se e radica-se dia a dia cada vez mais. No decurso de cada ano e sobretudo nos meses de maio e outubro os jornais vêm cheios de notícias relativas às festividades e procissões que se realizam em honra de Nossa Senhora de Fátima tanto nas grandes cidades como nas mais humildes povoações. Os doentes recorrem com confiança à proteção da Virgem de Fátima. O terço é rezado em particular e publicamente como nos tempos áureos da devoção do Santíssimo Rosário. A água da fonte miraculosa é levada pelos romeiros ou expedida pelo correio para todos os recantos do país. O concurso de peregrinos ao Santuário das aparições intensifica-se de ano para ano e todos aqueles que vão a Fátima uma vez anseiam por lá voltar mais vezes, sendo aquela viagem a única que não cansa o espírito e que produz sempre sensações novas e inolvidáveis. Fátima, a Lourdes portuguesa, é verdadeiramente um cantinho do Céu, que fascina todas as almas e prende e cativa todos os corações.

O culto de Nossa Senhora de Fátima nos países estrangeiros

Se é verdadeiramente admirável e sobremaneira consoladora a propagação do culto de Nossa Senhora de Fátima em todo o país, não menos admirável e não menos consolador é o ato da rapidez espantosa com que esse culto se difundiu e criou raízes sólidas e profundas nas principais nações do mundo. É ainda sobretudo a “Voz da Fátima” que, em diferentes números, apresenta perante os olhos extasiados dos crentes, as fases e os progressos dessa difusão, humanamente inexplicável. À frente deste assombroso movimento de propaganda estão o Osservatore Romano, na Itália, La Croix, La Revue Sociale, La Revue du Rosaire e Bulletin du Rosaire Perpétuel, cuja tiragem mensal se eleva a cento e setenta e cinco mil exemplares, em França, Die Schildwache, na Alemanha, De Illustratie, na Holanda, El Santísimo Rosario, Sal Terrae e Santuarios Católicos, em Espanha, e o Jornal Pequeno e o Mensageiro do Rosário, no Brasil, entre muitos outros jornais e revistas de todos os países e de todas as línguas. Em português, espanhol, catalão, francês, inglês, italiano, alemão, polaco, checo, húngaro, em todas as línguas cultas, correm mundo folhetos de todos os tomos e formatos, anunciando as glórias incomparáveis da augusta Rainha do Rosário no seu santuário predileto de Fátima. Até na China e no Japão a imprensa se ocupa da Lourdes portuguesa, descrevendo as aparições e as curas maravilhosas, e numerosos apóstolos da devoção à Virgem de Fátima promovem homenagens públicas e solenes em sua honra. Em mil novecentos e vinte e oito o rev.do Fr. Louis Marie Baron, ilustre diretor da Revue du Rosaire, tendo acompanhado a Lourdes a grande peregrinação do Rosário, organizada pelos Padres Dominicanos, que conduziu aos pés de Maria Imaculada nada menos de doze mil devotos, falou por três vezes ao clero e aos fiéis, reunidos no venerando santuário de Massabielle, sobre as grandes maravilhas de Fátima, sendo ouvido, como ele mesmo declara, com interesse, edificação e proveito. Se o culto de Nossa Senhora de Fátima está perfeitamente consubstanciado com a alma portuguesa, não é menos certo que, à medida que esta devoção se vai tornando conhecida nas diversas partes do mundo, inúmeras almas de eleição de todas as nações se associam às homenagens que o nosso bom povo presta à gloriosa Mãe de Deus no Santuário da sua predileção.

As conversões

Há um aspeto importantíssimo do caso assombroso de Fátima que, mercê da sua natureza íntima, que o coloca dentro das balizas sagradas e invioláveis da consciência, não permite nem poderá jamais permitir que se faça incidir sobre ele a luz forte da investigação histórica. É o que se refere às conversões de almas. Se o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes é, por antonomásia, o santuário dos milagres físicos, das curas das doenças de toda a espécie, de que enferma a pobre humanidade, pode dizer-se com verdade que o Santuário de Nossa

Senhora de Fátima é, por excelência, o Santuário das conversões e das graças espirituais. Apesar do segredo que envolve estas ressurreições mais belas e mais admiráveis do que a de Lázaro, quando saiu do sepulcro à voz portentosa do Senhor, que o chamava de novo à vida, não há quem não conheça o movimento consolador de confissões, incessante e intenso, que se realiza em Fátima, principalmente no dia treze de cada mês. A igreja da Penitenciaria, destinada às confissões, está nesses dias, completamente repleta de fiéis, que desejam ardentemente aproximar-se do santo tribunal da penitência. Na primavera e no verão, quando de véspera se realiza a procissão das velas, as confissões duram toda a tarde e toda a noite e prolongam-se quase até ao fim da tarde do dia seguinte. Muitas vezes, além dos sacerdotes peregrinos e chefes de peregrinações, ajudam a ouvir as confissões brigadas de sacerdotes diocesanos enviados por Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Leiria expressamente para esse fim. É um espetáculo que comove profundamente a alma daquela longa teoria de homens e rapazes, às centenas e aos milhares, que, durante horas a seguir, ao frio, ao vento, à chuva, de pé, cansados e em jejum, não raro até ao pôr do sol, aguardam com uma paciência e uma coragem verdadeiramente heróica a sua vez de se reconciliarem com Deus, sem que às vezes o consigam, devido à grande afluência de fiéis. Segundo o testemunho de todos os sacerdotes que ali, naquele lugar bendito, exercem o mistério de confessor, as graças e as bênçãos com que o Senhor coroa o seu trabalho são superiores a tudo quanto se possa imaginar. É por assim dizer, impossível que ali se faça uma confissão sacrílega, uma confissão mal feita, uma confissão sem as devidas disposições da parte do penitente e sem fruto para a sua alma. De todos os pontos de Portugal vem àquela verdadeira piscina probática um sem número de almas infelizes e atribuladas, que ali se purificam e transfiguram, transformando-se de ímpias, incrédulas, indiferentes ou tíbias que eram, em profundamente crentes e fervorosas, quando não em apóstolos e santos. Basta percorrer alguns números da “Voz da Fátima” para se adquirir logo a certeza de que assim é. E que dizer das conversões sem conto que se operam por toda a parte, de norte a sul de Portugal, graças à propaganda do culto de Nossa Senhora de Fátima e aos milagres que a sua bondade misericordiosa opera a cada momento? Fátima é, pois, incontestavelmente, uma fábrica maravilhosa de conversões em laboração incessante, caldeando a alma portuguesa na frágua do amor e da devoção à Virgem e preparando-a para altos e sublimes destinos. Bendita seja a augusta Rainha do Rosário, Mãe de misericórdia e refúgio dos pecadores, que veio do Céu à terra, descendo a estância sagrada de Fátima, para dar Deus a Portugal e Portugal a Deus!

O afervoramento da fé e da piedade

Quando em outubro de mil novecentos e dez caiu o antigo regime e foi implantada a forma de governo republicana em Portugal, a decadência do espírito cristão, da piedade e da própria Fé tinha-se acentuado dum modo espantoso. No intuito de derrubar as instituições então vigentes, aluindo pelos alicerces o seu edifício multissecular, os chefes do movimento antimonárquico dirigiram os seus ataques mais violentos contra a Religião e contra a Igreja Católica. Por outro lado, a Igreja vivia com o Estado em regime de concordata e as relações entre os dois poderes, eclesiástico e civil, eram tão íntimas que a sociedade religiosa e a sociedade civil pareciam constituir um todo único. Mercê do espírito liberal que saturava as instituições e os homens públicos, o Estado interferia no governo e na administração da Igreja, abusando dos privilégios que a Concordata lhe conferia ou arrogando-se direitos que não lhe competiam. A política que influía em larga escala nas nomeações para os cargos eclesiásticos, até para os graus mais elevados da hierarquia, convertia, por força das circunstâncias, os ministros sagrados em serventuários do Estado. Nos benefícios mais rendosos muitas vezes eram providos, não aqueles sacerdotes que se distinguiam pelo seu talento, virtudes e méritos, mas os que mais e melhores serviços tinham prestado aos partidos políticos e aos seus chefes. Assim sufocada a fecunda vitalidade da Igreja, que não tinha as condições necessárias para se expandir e produzir os seus frutos de bênção, um largo campo ficava livre aos inimigos da Fé para exercerem a sua ação nefasta. Estes, aproveitando as circunstâncias políticas, que lhes eram favoráveis, iniciaram por meio da imprensa e dos comícios de propaganda, uma guerra desleal e acintosa contra a Igreja, para mais facilmente poderem derrubar o trono, uma vez derrubado o altar. As regiões do centro e sul do país, pela proximidade a que ficavam da capital, que era o principal foco revolucionário, foram as que mais sofreram os efeitos dessa propaganda tenaz e formidável. Principalmente as grandes cidades e outros aglomerados de população mais importantes descristianizaram-se e paganizaram-se quase completamente. Como a instrução religiosa era deficientíssima em geral e em muitas partes nula, os homens, perdendo a fé ao ouvir os sofismas contra a Religião e as calúnias contra o clero, e com a fé, a nobreza de sentimentos e os bons costumes, abandonaram a frequência dos sacramentos e das práticas religiosas. A impiedade e a indiferença lavravam por toda a parte. A falta de fé viva, de piedade ardente e de espírito de sacrifício da parte dos poucos cristãos que ficavam fiéis fazia que nenhuma resistência séria e eficaz se opusesse à onda do mal, que tudo pretendia avassalar. O campo católico, bastante reduzido, carecia de organização apropriada para a defesa e para o combate. Como a Igreja estava unida ao Estado, fiava-se deste a defesa daquela e entretanto os católicos cruzavam comodamente os braços ou juntavam-se em volta do trono supondo que, amparando-o, amparavam eficazmente a Igreja. Veio finalmente a República. Desencadeou-se oficialmente contra a Igreja a mais terrível campanha que se pode imaginar. O pouco que ainda restava do edifício grandioso e secular das instituições religiosas e que o camartelo do liberalismo tinha poupado, desmantelou-se por completo. Mas, ao mesmo tempo que a fúria iconoclasta dos novos detentores do poder quebrava as algemas da escravidão secular da Igreja, esta, pobre mas livre, começou a levantar-se do meio das suas ruínas. Sete anos depois, no recanto ignorado duma serra, uma Visão de Paraíso anunciava que a guerra ia findar... Dentro de poucas semanas fechou-se o ciclo da perseguição religiosa com a revolução triunfante de Sidónio Pais, que teve o seu termo no dia 8 de Dezembro, festa da gloriosa Padroeira de Portugal e desde então Fátima tornou-se o foco mais intenso de Fé e piedade que jamais houve neste país. Cidades, vilas e aldeias, graças a esta devoção providencial, recristianizam-se e regeneram-se como que por encanto. Em todas as províncias da gloriosa terra de Santa Maria, a Fé aviva-se, a piedade cresce, o amor a Jesus Sacramentado, culto tão querido da alma portuguesa, intensifica-se, e a devoção à bendita Virgem de Fátima propaga-se, subjugando até as almas mais frias e os corações mais duros e mais refratários. Dir-se-ia que a Rainha do Céu quis ligar ao seu culto sob a invocação de Fátima um poder misterioso de sedução que a todos prende e arrasta invencivelmente. Basta ler a “Voz da Fátima” para se fazer uma ideia do bem imenso que, sob o ponto de vista espiritual de avigoramento da Fé e da intensificação da piedade tem produzido a doce e encantadora devoção de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Ditoso país que na hora porventura mais dolorosa e mais trágica da sua existência histórica foi objeto do amor misericordioso do Coração da Mãe de Deus que o salvou do abismo em que estava prestes a cair!

Fátima e o Papa

O glorioso Pontífice, felizmente reinante, Sua Santidade o Papa Pio XI, recebendo no dia 9 do mês de janeiro de mil novecentos e vinte e nove, em audiência particular, os superiores e alunos do Colégio Português em Roma, dignou-se presentear cada um deles com duas lindas estampas de Nossa Senhora de Fátima – uma para eles e outra para suas famílias – com a recomendação de orarem pelo Papa. O grande e excelente diário católico de Lisboa “Novidades”, no seu número de vinte de janeiro do mesmo ano, inseria uma extensa carta de Itália, subordinada à epígrafe “Fátima em Roma” e tendo por subtítulo “Uma oferta do Papa”, em que se descrevia esse gesto do Supremo Hierarca da Igreja que, seja qual fôr o seu significado, tem, em relação aos acontecimentos maravilhosos da Lourdes Portuguesa, o mérito de conter em respeito os adversários leais e de impôr ao menos um silêncio deferente e obsequioso aos poucos e cada vez mais raros contraditores no campo católico. É certo que, com esse ato singelo, embora altamente significativo, o Sumo Pontífice não pretendeu emitir o seu juízo definitivo acerca da natureza desses acontecimentos, mas também não sofre dúvida que ninguém poderá recusar-se a ver nesse ato a manifestação da viva simpatia do Augusto Chefe Visível da Cristandade pela “Pérola de Portugal”, como ainda há pouco chamava a Fátima a revista espanhola “Sal Terrae”, uma das mais acreditadas no país vizinho. E tanto se impõe essa atitude do Vigário de Cristo na terra, atitude de modo nenhum banal e insignificante, que um ilustre Prelado, de grande autoridade pela sua virtude e saber, não hesitou em classificar tal facto, que ficará arquivado em letras de ouro nos anais de Fátima, como uma verdadeira “aprovação implícita”. No mês de dezembro do mesmo ano, a pedido dos superiores e alunos do Colégio Português em Roma, Sua Santidade dignou-se benzer uma linda estátua de madeira de Nossa Senhora de Fátima, feita e oferecida pelo escultor português José Ferreira Tedim para o altar-mor da nova capela do Colégio Português em Roma. Sua Excelência Reverendíssima o Sr. D. Domingos, da Ordem de S. Domingos, venerando Bispo de Portalegre, era talvez o único Prelado português que se mostrava renitente em autorizar o culto público de Nossa Senhora do Rosário de Fátima na sua diocese. Depois da visita que fez ad sacra limina no meado do ano mil novecentos e vinte e nove, cessaram todos os seus escrúpulos e não só deu licença para se prestar culto nas igrejas e capelas públicas do seu bispado a Nossa Senhora do Rosário sob a invocação de Fátima, senão que até com muito regozijo se prestou desde logo a benzer solenemente algumas das suas imagens, inaugurando esse culto nalguns pontos do seu bispado. Segundo consta, o ilustre Bispo de Portalegre declarou que se reconhecera obrigado a adotar essa atitude porque vira prestar culto público a Nossa Senhora de Fátima em plena capital do catolicismo e entendia que não podia nem devia ser mais papista que o Papa. Houve quem julgasse ter sido esta mudança de atitude a consequência duma consulta feita pessoalmente ao Papa pelo Senhor D. Domingos por ocasião da sua visita ad sacra limina.

A grande guerra

Lúcia de Jesus Santos, a principal protagonista das aparições de Fátima afirmou no dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete que pouco depois do dia treze de outubro seguinte seria concedida a paz ao mundo. No dia 13 de outubro declarou que a Aparição assegurara que a guerra acabava nesse mesmo dia. Tendo um sacerdote perguntado à vidente, pouco depois da aparição, se a Senhora dissera que o grande conflito europeu terminaria brevemente, e não naquele dia, ela contestou, insistindo em que a Visão havia afirmado que a guerra acabava nesse mesmo dia treze, porque empregara a palavra hoje. “Ela disse que a guerra acaba hoje, hoje” foram as palavras textuais da vidente. Sendo factos históricos absolutamente incontestáveis que o armistício, que pôs termo ao grande conflito armado, em que se degladiavam as maiores potências do mundo, foi assinado em Rethondes às onze horas da manhã do dia onze de novembro de mil novecentos e dezoito e a paz foi firmada definitivamente pelo tratado de Versailles a vinte de junho de mil novecentos e dezanove, como é que se podem conciliar esses atos com a declaração da vidente, de cuja sinceridade não há motivo plausível para duvidar? Pode admitir-se que a realidade insofismável dos acontecimentos infligiu um desmentido decisivo, categórico e, por assim dizer, brutal, à predição de Lúcia de Jesus? Esta dificuldade, porventura aparentemente a mais grave que há a opôr contra a origem sobrenatural das aparições de Fátima pode, segundo parece, resolver-se de vários modos, qualquer deles razoavelmente satisfatórios para inteligências sensatas e cultas, que conheçam a história eclesiástica e tenham o sentido das proporções. Vejamos, pois, quais são as diversas soluções que se podem apresentar. 1ª - À palavra “hoje”, que a Lúcia, diz ter sido pronunciada pela Visão, pode atribuir-se a significação lata que tem muitas vezes na Sagrada Escritura do Antigo Testamento. Assim como no texto sagrado não raro a palavra “dia” indica um período de tempo mais ou menos longo, às vezes até de milhares de anos, assim também a palavra “hoje” tem com frequência o mesmo valor que o advérbio “brevemente”. Desde o momento em que se aceite esta interpretação, a ninguém é lícito negar que a profecia se tivesse verificado com rigor, porque, durando a guerra havia três anos e cessando, como de facto cessou, em virtude do armistício, cerca dum ano depois do dia treze de outubro, era verdade dizer-se nesse dia que acabava “brevemente”. 2ª - O advérbio “hoje” pode significar o mesmo que a expressão “nesta ocasião” ou “nesta altura”, mas só daí a um ano. É que nesse dia a guerra estava, por assim dizer, no seu auge. As notícias provenientes do campo de batalha, recebidas por meio de telegramas publicados nos jornais, falavam ainda na véspera do dia treze de importantes operações militares que se estavam desenrolando e que não podiam ter o seu desfecho no dia seguinte com a suspensão definitiva das hostilidades. A guerra só poderia acabar no dia seguinte, mediante um prodígio estupendo, uma intervenção brusca, violenta, fulminante, do poder divino, que paralisasse por completo a ação consciente e livre dos agentes humanos. Sobre a terra não havia nenhuma entidade que de tanto fosse capaz. Ora nada, absolutamente nada, tornava indispensável um prodígio desta ordem. Ninguém tinha o direito de o esperar, segundo o princípio teológico-filosófico, absolutamente consagrado, “miracula non sunt multiplicanda sine necessitate”. Tudo, pelo contrário, fazia prever que a guerra havia de continuar com mais ou menos intensidade durante algum tempo, e até as pessoas mais propensas a crer na sobrenaturalidade das aparições entendiam que a profecia da vidente não devia ser interpretada à letra, significando apenas que a guerra teria o seu termo num prazo mais ou menos curto. 3ª - A profecia pode referir-se principalmente à guerra religiosa desencadeada em Portugal e só secundariamente à grande guerra europeia. A circunstância das aparições se realizarem no nosso país e decerto sobretudo para bem dos portugueses, parece autorizar esta interpretação. Havia oito anos que a Santa Igreja era cruelmente oprimida pelos poderes públicos. A guerra religiosa ateada pelo governo provisório com os decretos tirânicos que tinha promulgado, enchera de ruínas morais e sociais a infeliz nação portuguesa. A supressão da embaixada junto da Santa Sé, a interrupção das relações diplomáticas com a mais alta potência moral do mundo, o desterro dos bispos depois de expulsos dos seus paços, a usurpação dos bens eclesiásticos, a proibição dos atos do culto público, enfim a supressão de toda a liberdade religiosa constituem outros tantos aspetos dessa guerra encarniçada feita pelo Estado à Igreja e de que era teatro todo o território da República. Ora foi precisamente quando esta luta formidável e sem tréguas atingia o seu período mais agudo que a Augusta Rainha do Céu, a Imaculada Padroeira da nossa terra, se dignou aparecer num recanto ignorado da serra de Aire, no centro geográfico do país, para aí estabelecer um foco intenso inesgotável de vida espiritual. A decadência moral e religiosa da sociedade portuguesa, sobretudo depois da queda do antigo regime, por motivo da perseguição à Igreja, acentuou-se duma maneira pavorosa, especialmente nos grandes centros, produzindo uma larga sementeira de males de toda a ordem. Foi decerto para obviar a estes males e para opôr um dique à onda assoladora da impiedade e da desmoralização, que alastrava sem peias, mercê da complacência das autoridades, que a Virgem Santíssima suscitou uma nova Lourdes na terra de Santa Maria. Mas, para que se visse dum modo bem patente a eficácia da sua intervenção, era preciso que a guerra religiosa cessasse, ou pelo menos abrandasse os seus furores. E com efeito assim sucedeu. Enquanto os humildes videntes de Aljustrel contemplavam na charneca de Fátima a inefável Visão, durante seis meses consecutivos, desde maio a outubro, os dois meses consagrados dum modo especial pela Igreja e pela piedade dos fiéis ao culto da Rainha dos Anjos, uma plêiade de homens valorosos e amigos da verdadeira liberdade procurava pôr termo à tirania que esmagava os portugueses e preparar o advento de dias melhores para a pátria querida. A oito do mês de dezembro seguinte, dia da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal, passado pouco mais dum mês depois da última aparição, o Major Sidónio Pais vence definitivamente os seus inimigos e proclama o regime da República nova. Imediatamente são reatadas as relações entre a Igreja e o Estado para nunca mais até hoje serem interrompidas. Um decreto de Moura Pinto, ministro da justiça de Sidónio Pais, que foi Chefe do governo e depois Presidente da República, veio pôr termo às lutas religiosas e preparar a liberdade da Igreja com a renúncia, por parte do Estado, a uma intromissão opressora na sua organização interna. E desde esse momento, não obstante os inimigos da Religião terem mais tarde ascendido de novo às culminâncias do poder, nunca mais foram renovadas contra a Igreja as medidas draconianas promulgadas pelos governos anteriores a Sidónio Pais. 4ª - A Aparição queria que se rezasse o terço e se fizesse penitência para que Deus se dignasse pôr termo ao grande flagelo da guerra que assolava tantas nações, produzindo milhões de vítimas e semeando por toda a parte toda a sorte de ruínas morais e materiais. Anunciou que o tremendo flagelo acabaria, ou, melhor, teria acabado, no dia treze de outubro, se os homens se arrependessem e emendassem dos seus pecados e aplacassem a justiça divina, orando e fazendo penitência. A Lúcia enganou-se, considerando como absoluta a afirmação da Visão. A condição, implicitamente posta por esta, não se cumpriu e por isso a guerra não acabou. Já no Antigo Testamento Jonas se tinha enganado fazendo, por ordem de Deus, uma profecia, que ele julgava absoluta e que era apenas condicional. A cidade de Nínive seria destruída no dia marcado pelo profeta, se os seus habitantes não fizessem penitência. “Adhuc quadraginta dies et Ninive subvertetur.” A população da cidade acreditou na ameaça, e todos, desde o rei até ao último dos seus súbditos e até aos próprios animais, se vestiram de cilício e de cinza. Por esse motivo Nínive foi poupada com grande admiração e até com um certo despeito de Jonas, que, não conhecendo os desígnios misericordiosos do Senhor, pretendia a todo o transe que a profecia se cumprisse, para que ninguém duvidasse de que ele falara em nome e por ordem de Deus. Coisa muito semelhante sucedeu a S. Leonardo de Porto Maurício, o grande apóstolo da Europa na Idade Média. Na sua pregação, anunciava o fim do mundo para dois anos depois. Chegou a ressuscitar um morto, que era levado para o cemitério, a fim de confirmar a verdade da sua pregação. O morto assegurou que era certo tudo quanto ele dizia. Mas os dois anos passaram, e o mundo não acabou, porque a Europa converteu-se com as pregações de S. Leonardo de Porto Maurício. De resto, a Virgem Santíssima podia ter permitido o engano da Lúcia de propósito para a manter num espírito de profunda humildade pela confusão que para ela advinha do facto de ter errado, pelo menos aparentemente, num ponto de capital importância. Nem a circunstância de ter caído num equívoco obsta a que os seus depoimentos mereçam todo o crédito. Esse equívoco tinha a sua razão de ser providencial e de modo nenhum embaraçava, como de facto não embaraçou, o curso regular dos acontecimentos, que fizeram de Fátima a Lourdes Portuguesa. 5ª - A Aparição anunciou que a guerra devia acabar no dia 13 de outubro de mil novecentos e dezassete, se os dirigentes de todos os povos beligerantes tivessem sinceros e vivos desejos duma paz justa e honrosa e a voz do Vigário de Cristo na terra fosse ouvida. O jornal francês “Le Matin”, no seu número de catorze de agosto de mil novecentos e vinte, falando dos segredos do governo, publica a carta de M. Briand a M. Ribot, ministro dos negócios estrangeiros, em que ele formulava, a vinte de setembro de mil novecentos e dezassete, as condições em que o antigo presidente do conselho teria aceitado a conversação que lhe pedia a Alemanha. Nessa carta, M. Briand invoca a opinião do rei de Espanha, as cartas do imperador da Áustria, as propostas dum agente direto do imperador da Alemanha e até uma determinada conversa confidencial do Eminentíssimo Cardeal Gasparri, confirmando, segundo informações duma das melhores agências de informações do mundo, o Vaticano, que o governo alemão estava pronto a restituir à França a Alsácia e a Lorena29. São conhecidas as diligências que fizeram durante o ano de mil novecentos e dezassete o Santo Padre Bento XV e o imperador da Áustria para se pôr termo à guerra o mais rapidamente possível. No interrogatório que foi feito a Lúcia, aos dezoito anos da sua idade30, quando estava internada no Asilo de Vilar no Porto, a vidente diz textualmente o seguinte: “parece-me que a Senhora me disse ainda deste modo: “convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito breve. Minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falara assim: “convertam-se, que a guerra acaba dentro dum ano. Como estava a pensar nos pedidos que queria fazer a Senhora, não deitei bem sentido”.

As obras na Cova da Iria

Desde que a radiosa Aparição disse a Lúcia no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete ser sua vontade que se edificasse na Cova da Iria uma capela, a piedade dos fiéis desejou ardentemente levantar no local das aparições um grandioso monumento em honra da augusta Mãe de Deus. O projeto acolhido com mais entusiasmo foi o da construção dum templo no cimo do outeiro que domina a Cova da Iria, no sítio onde os videntes diziam ter visto o primeiro relâmpago que lhes anunciou a aparição do dia 13 de maio. Poucos meses depois das aparições, a população de Fátima construiu uma pequena capela, precisamente no ponto onde tinha estado a azinheira sagrada. Quando a autoridade eclesiástica autorizou o culto público a Nossa Senhora do Rosário no local das aparições, embora reservando o seu juízo acerca da natureza e origem dos factos reputados sobrenaturais que ali se tinham verificado, edificou-se a pequena distância do padrão comemorativo das aparições outra capela, um pouco maior, chamada a capela das missas e em frente desta um grande pavilhão para os doentes, sustentado por altas e grossas colunas de cimento armado. Pouco tempo depois, elevava-se por trás da sacristia da capela das missas, uma igreja, graciosa e vasta, destinada às confissões dos homens e à celebração dos atos do culto nos dias em que o mau tempo impedisse que se realizassem ao ar livre. Entretanto, procedia-se à abertura de três grandes avenidas, a construção de mais dois poços e ao levantamento dos pórticos e das colunatas laterais. Depois de feita a casa do capelão, onde, durante alguns anos, esteve instalado o Posto de verificações médicas, que ultimamente mudou a sua sede para o Albergue, e ainda hoje é o quartel general dos servitas, iniciou-se a construção do Albergue de Nossa Senhora do Rosário31, edifício enorme, gigantesco, de que já está concluído um dos lanços. Finalmente, no dia treze de maio de mil novecentos e vinte e oito, Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. Manuel Mendes da Conceição Santos, venerando arcebispo de Évora, estando presente o ilustre prelado da Diocese de Leiria, o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. José Alves Correia da Silva, perante uma multidão de cerca de meio milhão de fiéis de todos os pontos de Portugal, benzeu solenemente a primeira pedra da monumental Basílica32 do Rosário, de proporções tão vastas que ficará sendo um dos maiores templos do mundo. Fora do recinto sagrado, onde há treze anos não existia uma única habitação humana, num raio dalguns quilómetros, veem-se já centenas de edifícios, alguns deles de extraordinária grandeza, construídos por iniciativa particular. São hotéis, restaurantes, estabelecimentos comerciais de todos os géneros, casas de habitação e outros edifícios que, pouco a pouco, vão ocupando, numa grande extensão, o espaço livre em volta do local das aparições. É tão assombroso o movimento de peregrinos, em todas as épocas do ano, e sobretudo na Primavera e no Verão, que as câmaras municipais estão procedendo à construção de estradas largas, de direção única, das suas regiões para Fátima, e as Companhias Nacionais de Caminhos de Ferro estudam planos de novas vias férreas que vão levar e buscar os romeiros à nova cidade da Virgem. O próprio governo tem-se interessado imenso nos últimos tempos pela urbanização do sítio de Nossa Senhora de Fátima. Por sua iniciativa e sob o seu alto patrocínio constituiu-se uma importante e numerosa comissão, de que fazem parte entidades oficiais categorizadas e distintos engenheiros e arquitetos, que acordou na adoção dum anteprojeto de urbanização, que fará da vasta planície situada em frente da entrada do recinto dos santuários uma das maiores e mais belas cidades de Portugal. Sua Excelência o Senhor Presidente da República, general Óscar Carmona, assim como o senhor presidente do ministério já o tinha feito anteriormente com outras personalidades oficiais interessadas no assunto, visitou no dia doze de maio de mil novecentos e vinte e nove, acompanhado pelo venerando prelado de Leiria, o local das aparições, os santuários e o sítio destinado à futura cidade de Fátima, a Lourdes portuguesa.

O fenómeno da nuvem de fumo

Por ocasião de cada uma das aparições, elevava-se no espaço, junto da azinheira sagrada, na Cova da Iria, uma ténue nuvem de fumo semelhante à que costuma produzir a combustão do incenso nos atos litúrgicos realizados no interior dos templos. Este fenómeno, verdadeiramente extraordinário foi observado por grande número de testemunhas, mesmo no mês de agosto, em que a autoridade administrativa reteve os videntes, para que eles não pudessem ir ao local das aparições. Um ilustre lente jubilado de astronomia na Universidade de Coimbra, recentemente falecido, o doutor Gonçalo Xavier de Almeida Garret, num interessante opúsculo que publicou com o título de “Fátima” e o subtítulo de “A miraculosa nuvem de fumo”, diz que este facto, ao qual talvez se tenha ligado mediana atenção, é todavia importantíssimo, naturalmente inexplicável, e pode e deve servir de elemento de prova da realidade das aparições na Cova da Iria. Na sua autorizada opinião, era um fenómeno físico-químico, independente da ação nervosa do organismo humano. No dia treze de outubro, durante a última aparição, a nuvem de fumo tornou-se visível a grande distância e da estrada distrital distinguia-se com a mais perfeita nitidez. Parecia sair da azinheira, envolver os videntes e elevar-se a uma altura superior a seis metros, ocupando uma área de cerca de seis metros quadrados. Entre a grande multidão de pessoas que nesse dia concorreram a Fátima estiveram pessoas conhecidas e de toda a confiança, que atestam não se ter feito lume algum nesse local que pudesse originar a nuvem de fumo. Não consta que, em tempo algum, antes ou depois das aparições até ao presente, houvesse a manifestação da nuvem de fumo, no sítio da Cova da Iria, a qualquer hora.

Este fenómeno foi concomitante com as aparições em dias e horas determinados. Segundo a opinião de professores de ciências naturais das Universidades de Coimbra e Porto, que foram consultados, só podia ser produzido casualmente por uma evaporação ou combustão incompleta, mas não em dias e horas prefixos. O dr. José Maria de Proença de Almeida Garrett diz o seguinte acerca deste fenómeno: “Devia ser uma e meia (treze e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada, que subiu direita até dois metros talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo da duração, não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda e uma terceira vez. Das três vezes e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os postes esguios na atmosfera cinzenta. Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de fumo, mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que se queimava incenso. Depois pessoas dignas de fé afirmaram-me que era de uso produzir-se o acontecimento no dia treze dos cinco meses anteriores, e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo. No inquérito paroquial, a primeira testemunha, Jacinto de Almeida Lopes diz que, no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, “viu, por cima do povo, que rodeava a carrasqueira, diversas vezes, elevarem-se do solo pequenas nuvens de fumo ou que lhe pareciam de fumo – semelhante ao fumo dum turíbulo em ocasião de incensação ou ao fumo de cigarros. Julgou a princípio, porque se achava afastado da carrasqueira, onde via o fumo, que era alguém que ali estava a fumar ou a fazer uma fogueira para se aquecer, mas depois veio a averiguar que ali não havia lume de espécie alguma. Sobre o mesmo assunto depõe a segunda testemunha, Manuel Gonçalves Júnior, dizendo que “em treze de outubro do referido ano, à hora designada pelas crianças para a aparição, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saíndo da carrasqueira, uma espécie de fumo semelhante ao fumo de incenso em ocasião de incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia o fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de qualquer espécie.

O fenómeno solar e predição da Lúcia

No dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete, e portanto com dezasseis dias de antecedência, a vidente Lúcia de Jesus declarou ao autor do folheto “Os Episódios Maravilhosos de Fátima”, na presença de várias pessoas, entre elas as senhoras D. Adelaide Braamcamp de Melo Breyner e D. Maria de Jesus do Rosário, de Santarém, na própria casa de habitação da vidente, em Aljustrel, que a Senhora que lhe aparecia tinha dito que no dia treze de outubro faria um sinal para que todo o povo acreditasse que ela realmente aparecia. A folhas cinco do inquérito paroquial, no interrogatório sobre a terceira aparição, que se verificou a treze de julho de mil novecentos e dezassete, a Lúcia depõe que, tendo dito a Senhora: “Faça um milagre para que todos acreditem!”, esta respondeu: “Daqui a três meses faço então com que todos acreditem”.

Esta predição da vidente foi feita por ela a tão grande número de pessoas que rapidamente voou dum extremo ao outro de Portugal, atraindo ao local das aparições no dia treze de outubro uma enorme multidão, computada em cerca de setenta mil pessoas, vindas de todos os pontos do país. É uma profecia tão conhecida e tornada tão pública, antes do dia treze daquele mês que ninguém de boa fé pode contestar que ela tivesse sido feita. E, com efeito, no dia prefixo, e precisamente à hora em que a Lúcia anunciava que o sinal se daria, opera-se um prodígio assombroso – o fenómeno solar – que fez render, perante a evidência dos factos, dezenas de milhar de crentes, indiferentes e incrédulos. Seria fácil organizar uma lista interminável de pessoas que foram testemunhas desse prodígio, assim como reproduzir um sem número de relatos acerca dele publicados nos jornais da época. Eis como o autor do folheto “Os Episódios Maravilhosos de Fátima”, que foi uma das testemunhas oculares, descreve nesse folheto, a páginas 9, o que presenciou: “No dia treze de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o diálogo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol. O firmamento estava completamente nublado. Chovia torrencialmente. Como que por encanto, rasgaram-se de repente as nuvens, e o sol no zénite apareceu em todo o seu esplendor e girou vertiginosamente sobre si mesmo, como a mais bela roda de fogo de artifício que se possa imaginar, revestindo sucessivamente todas as cores do arco-íris e projetando na direção da terra, feixes de luz dum efeito surpreendente. Esse espetáculo sublime e incomparável, que se repetiu por três vezes distintas, durou quase dez minutos. A multidão imensa, rendida perante a evidência de tamanho prodígio, prostrou-se de joelhos, o Credo, a Avé-Maria e o ato de contrição irromperam de todas as bocas e as lágrimas, lágrimas de alegria, de gratidão ou de arrependimento, marejaram todos os olhos. O dr. José Maria Proença de Almeida Garret, outra testemunha ocular, descreve assim o fenómeno, pág. vinte e dois e pág. vinte e quatro dos “Episódios Maravilhosos de Fátima”: “O sol momentos antes tinha rompido ovante a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente. Voltei-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e luzente, mas sem magoar. Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, ativa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma pérola. Em nada se assemelhava à lua em noite transparente e pura, porque se via e sentia-se ser um astro vivo. Não era, como a lua, esférica, não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros. Parecia um rodela brunida cortada no nácar duma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim. Também se não confundia com o sol encarado através de nevoeiro (que aliás não havia aquele tempo), porque não era opaco, difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor e desenhava-se nítido e com a borda cortada em aresta, como uma tábula de jogo. A abóbada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acolá, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de céu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do sol dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás, mas por vezes esses flocos que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana. Maravilhoso é que, durante longo tempo se pudesse fixar o astro labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem deslumbramento na retina que cegasse. Este fenómeno com duas breves interrupções, em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos. Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação dum astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica. Durante o acidente solar que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos cambiantes. Não posso precisar bem a ocasião, porque já lá vão dois meses passados e eu não tomei notas. Lembra-me que não foi logo no princípio e antes creio que foi para o fim. Estando a fixar o sol, notei que tudo escurecia à minha volta. Olhei o que estava perto e alonguei a vista para o largo até ao extremo horizonte e vi tudo cor de ametista. Os objetos, o céu e a camada atmosférica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arroxeada, que se erguia na minha frente, lançava sobre a terra uma sombra carregada. Receando ter sofrido uma reação da retina, hipótese pouco provável, porque, dado este caso, não devia ver as coisas em roxo, voltei-me, cerrei as pálpebras e retive-as com as mãos para intercetar toda a luz. Ainda de costas abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor roxa. A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi um eclipse do sol, que em Viseu onde estava, foi total. À medida que a lua marcha a esconder o sol, a luz vai-se acinzentando até que tudo se torna baço e negro. A vista alcança um pequeno círculo, para lá do qual os objetos se vão tornando cada vez mais confusos até que se perdem no negrume. Baixa a temperatura consideravelmente e dir-se-á que a vida da terra se extinguiu. Em Fátima, a atmosfera, embora roxa, permaneceu transparente até aos confins do horizonte que se distingue e vê claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem na energia universal. Continuando a olhar o sol, reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um campónio que cerca de mim estava a dizer com voz de pasmo: “esta senhora está amarela!”. De facto tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarelos. As pessoas pareciam doentias e com icterícia. Sorri-me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram-se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarelo. Dias depois fiz a experiência de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista, vi, após alguns momentos, manchas amarelas, e regulares na forma. Não se vê tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilizado um topázio, mas nódoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam. Todos estes fenómenos que citei e descrevi observei-os eu sossegada e serenamente sem uma emoção ou sobressalto. A outros cumpre explicá-los ou interpretá-los. Para terminar, devo fazer a afirmação de nunca nem antes nem depois do dia treze de Outubro, vi iguais fenómenos solares ou atmosféricos”. O distinto jornalista Avelino de Almeida publicou no número seiscentos e dez, segunda série, de “A Ilustração Portuguesa”, um relato de que se reproduz o seguinte trecho, transcrito nos “Episódios Maravilhosos de Fátima”, pág. vinte e sete: “E, quando já não imaginava que via coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pré-anunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar. Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja”. Várias vezes este fenómeno se tem renovado, não só no local das aparições, mas ainda noutros lugares mesmo distantes de Fátima, e a diversas horas do dia, embora sem se verificarem as mesmas circunstâncias e sem ter a mesma retumbância que teve em treze de outubro de mil novecentos e dezassete. O livro “As grandes maravilhas de Fátima” insere três fotografias do fenómeno solar tiradas num dia treze por um peregrino a alguns quilómetros da Cova da Iria, pouco antes do pôr do sol33. Interrogado por um redator do jornal “O Século”, de Lisboa acerca das perturbações solares observadas em Fátima, o distinto astrónomo Frederico Oom34 respondeu: “A ser um fenómeno cósmico, os observatórios astronómicos e meteorológicos não deixariam de o registar. E eis precisamente o que falta: esse registo inevitável de todas as perturbações no sistema dos mundos, por mínimas que sejam. Estas palavras constatam que o fenómeno presenciado em Fátima por algumas dezenas de milhar de pessoas não deixou vestígios nos aparelhos astronómicos e meteorológicos, como teria deixado se se tratasse de um fenómeno puramente natural. Em face do que fica dito, pode concluir-se que o fenómeno sucedido no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, quer seja de natureza astronómica, quer seja de natureza meteorológica, é de origem sobrenatural. É sobrenatural, porque não registado por nenhum aparelho, é sobrenatural por se ter realizado ao meio-dia solar, quando o sol está em pleno zénite, e é por isso mais difícil operar-se um fenómeno semelhante, é sobrenatural por causa das circunstâncias especiais e extraordinárias em que ele se verificou, na ocasião e como fecho da sexta e última aparição, e sobrenatural enfim, e é isto o que mais impressiona e assombra em virtude da sua coincidência com as declarações da vidente Lúcia, que dias e meses antes o anunciou como prova da aparição da Virgem Santíssima e da verdade do que ela dizia. Podia, porventura, admitir-se que a Rainha do Céu permitisse que fossem vítimas duma ilusão ou dum erro as setenta mil pessoas que acorreram a Fátima para serem testemunhas duma prova irrecusável das suas aparições, assim como Portugal e o mundo inteiro, quando é certo que ninguém, absolutamente ninguém, de boa fé, ousa negar que esse fenómeno apresenta carateres duma realidade sugestiva e empolgante?

Bibliografia de Fátima

Há cerca de treze anos que Fátima vem sendo teatro das cenas portentosas que enchem Portugal inteiro de assombro entusiasmo e alegria. Desde então, nas colunas dos jornais e nas páginas das revistas, Fátima e as suas maravilhas têm fornecido assunto para milhares de artigos, crónicas e locais, acompanhados de gravuras relativas aos acontecimentos, às suas consequências e às pessoas que neles intervieram ou com eles estão relacionados. Seria impossível colecionar ou sequer enumerar todos os escritos desse género, publicados não só nos jornais do continente, como ainda nos das ilhas adjacentes e províncias ultramarinas. E o que é simplesmente notável é que, à medida que os anos passam, Fátima é invocada cada vez com mais interesse e com mais carinho pela maior e melhor parte da imprensa de Portugal. No dia treze de outubro de mil novecentos e vinte e dois, saiu em Leiria, à luz da publicidade, com a aprovação do venerando Prelado diocesano, o primeiro número dum jornal mensal intitulado “Voz da Fátima”, destinado a tornar conhecidas as maravilhas da Lourdes portuguesa. Nesse primeiro número, inicia-se a publicação da Provisão de Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Leiria sobre o caso de Fátima, em que o ilustre Prelado, como já se disse, nomeia a comissão encarregada de proceder a um inquérito rigoroso e de organizar um processo canónico para a averiguação da origem e do caráter dos acontecimentos reputados sobrenaturais e ao mesmo tempo convida todos aqueles que tiveram conhecimento pessoal desses acontecimentos a prestar as suas declarações e a fazer os seus depoimentos perante os membros da referida comissão. A “Voz da Fátima”, que se tem publicado todos os meses sem exceção até hoje, atingiu nos últimos anos uma tiragem mensal que oscila entre cinquenta e os cem mil exemplares, sendo gratuita a sua distribuição. Este jornal cujos exemplares são espalhados com profusão pelas cinco partes do mundo, onde quer que haja portugueses, tem levado por toda a parte, juntamente com o nome bendito de Fátima, a admiração e o assombro pelas maravilhas que a Virgem Santíssima ali opera. Entre os opúsculos, folhetos e livros redigidos em língua portuguesa sobre as coisas de Fátima, merecem especial referência os seguintes: “A minha peregrinação a Fátima”, opúsculo de catorze páginas por D. Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos, publicado em outubro de mil novecentos e dezassete, com a aprovação do Senhor Bispo-Conde de Coimbra; “Os episódios maravilhosos de Fátima”, folheto de setenta e duas páginas, pelo Visconde de Montelo, publicado em agosto de mil novecentos e vinte um, com aprovação do Senhor Bispo da Guarda; “Cartas sobre Fátima”, livro de Gilberto Fernandes dos Santos, publicado em mil novecentos e vinte e sete com a aprovação do Senhor Cónego Manuel Anaquim, governador do Patriarcado; “Os acontecimentos de Fátima”, folheto de quarenta páginas, pelo Visconde de Montelo, publicado em Março de mil novecentos e vinte e três, com a aprovação do Senhor Bispo de Leiria; “Fátima”, livro de oitenta e oito páginas e ilustrado com numerosas gravuras, por Leopoldo Nunes, publicado sem aprovação canónica em abril de mil novecentos e vinte e sete; “O manual do peregrino em Fátima”, livro publicado em mil novecentos e vinte e sete pelo rev.do dr. Manuel Marques dos Santos, professor no Seminário de Leiria, com aprovação do Excelentíssimo Prelado Diocesano. Já saiu a segunda edição deste livro; “As Grandes Maravilhas de Fátima”, livro de quatrocentas e catorze páginas, ilustrado com numerosas gravuras, pelo Visconde de Montelo, publicado em dezembro de mil novecentos e vinte e sete, com aprovação do Senhor Bispo de Leiria; “O poema de Fátima”, livro em verso publicado em mil novecentos e vinte e oito; “Romagens de Fátima”, livro de noventa e seis páginas, ilustrado com gravuras, por D. Maria Feio, publicado em Lisboa em mil novecentos e vinte e nove, sem aprovação canónica. Nos últimos anos a propaganda de Fátima nos países estrangeiros das diferentes partes do mundo e mormente nos países da Europa intensificou-se dum modo prodigioso. Não falando dos jornais diários e periódicos, entre as revistas que se têm ocupado dos acontecimentos de Fátima, algumas em longas séries de artigos, acompanhados de gravuras, merecem especial referência, “Sal Terrae”,

“El Santíssimo Rosário” e “Los santuarios católicos”, em Espanha, “Revue du Rosaire” e “La vie sociale”, em França, “La revue des idées et des faits”, na Bélgica; “De Illustratie”, na Holanda; “Stella matutina”, na Itália; “Die Schildwache”, na Alemanha; “Kalendarium Srca Isusova i Marijina”, na Jugoslávia e o “Mensageiro árabe do Coração de Jesus”. Entre os livros já se podem mencionar “Fátima, das Portugiesische Lourdes” livro de cento e trinta e duas páginas, ilustrado com gravuras, publicado pelo rev.do dr. Luís Fischer, professor na Universidade de Bamberg, em novembro de mil novecentos e vinte e nove, com aprovação da autoridade eclesiástica. Está prestes a sair a segunda edição deste livro, o que mostra o excelente acolhimento que ele teve na Alemanha. Da primeira edição fez-se uma tiragem de dez mil exemplares. “Die Erscheinungen von Fatima”, pelo rev.do dr. Luís Fischer, prestes a sair do prelo. “Les grandes merveilles de Fatima”, tradução francesa prestes a sair do prelo do livro “As grandes maravilhas de Fátima” do Visconde de Montelo, publicada pelo rev.do G. Tournebise, diretor da “Revue sociale”, de Paris, com aprovação de Sua Eminência o Senhor Cardeal Arcebispo de Paris.

As manifestações de fé e piedade

Falar das manifestações de fé e piedade que há treze anos se realizam periodicamente, sobretudo na Primavera e no Verão, na montanha mais santa de Portugal, é evocar as cenas mais belas, mais comoventes e mais grandiosas que tem sido dado presenciar sobre a terra, segundo testemunhos insuspeitos, como o do dr. Luís Fischer, professor da Universidade de Bamberg, na Baviera, que foi expressamente a Fátima, no dia treze de maio de mil novecentos e trinta35, para assistir às cerimónias religiosas desse dia. Não houve jamais nem há no mundo inteiro nenhum espetáculo que possa comparar-se com o que oferece a cidade da Virgem num dos dias de maior concurso de peregrinos. O dr. Artur Bívar36, o eminente publicista e crítico tão inteligente como erudito do norte de Portugal, que percorreu os principais santuários da Europa, já em maio de mil novecentos e vinte e três37, afirmava que nunca tinha assistido a cenas tão empolgantes e que nunca tinha visto, nem mesmo em Lourdes, uma tão viva e uma piedade tão ardente como a das multidões que acorriam a Fátima. Seria um nunca acabar, pretender fazer a descrição exata do que se passa de maravilhoso e tocante num dia treze de maio ou num dia treze de outubro, ou mesmo no dia treze doutro mês. Desde a cena bíblica, soberba e indescritível, da última aparição, quando o milagre anunciado pelos videntes, verificando-se à hora prefixa, fez cair de joelhos a rezar e a chorar de comoção, uma multidão de setenta mil pessoas, até à portentosa manifestação de fé e piedade do dia treze de maio de mil novecentos e vinte e nove, em que cerca de meio milhão de peregrinos passou pela Cova da Iria, nesse longo período de doze anos, quantos prodígios da omnipotência do Senhor, quantos testemunhos da bondade da Virgem, quantas graças derramadas sobre as almas, quantas bênçãos descidas sobre os corpos, quantos preitos de adoração a Jesus-Hóstia, quantas provas de devoção e confiança na augusta Mãe de Deus! Quem quiser fazer uma ideia aproximada do que sejam essas inauditas maravilhas dos nossos tempos leia a coleção da “Voz da Fátima” ou algum dos livros que se ocupam dos acontecimentos da Lourdes Portuguesa. O concurso de dezenas de milhares de peregrinos de ambos os sexos, de todas as idades, classes e condições sociais e de todos os pontos de Portugal e até do estrangeiro, muitos deles percorrendo a pé dezenas de léguas, durante dias consecutivos, para chegarem ao lugar das aparições e para regressarem depois aos seus lares distantes, o cumprimento de promessas, levando tantas pessoas de todas as categorias, a pé e descalças ou de joelhos em terra, dando voltas à capela das aparições ou seguindo desde longe até à capela, a deslumbrante procissão das velas com as suas vagas encapeladas em que se mistura o brando ciciar das preces com o cântico entusiástico do Avé de Fátima, a comoventíssima cerimónia da adoração noturna a Jesus-Hóstia exposto na Sagrada Custódia sobre um trono de luzes e de flores, a comunhão longa e interminável administrada por dezenas de sacerdotes a dezenas de milhar de pessoas, durante horas consecutivas, a missa e a bênção dos doentes com o Santíssimo Sacramento, as confissões aos milhares, as conversões retumbantes, as curas miraculosas, e as procissões da Virgem são outras tantas estrofes desse poema de misericórdia e de amor que é o divino poema de Fátima. Quando, durante a procissão das velas, um peregrino retardatário chega ao alto da colina sobranceira à Cova da Iria e contempla o mar de fogo que abrasa aquele vasto anfiteatro, julga-se transportado a um país de sonhos e de encanto e os seus olhos deslumbrados marejam-se de lágrimas de comoção e dos seus lábios saem exclamações irreprimíveis de assombro e de júbilo. Não menos viva e profunda mas mais suave e mais tocante ainda, é a impressão que ele experimenta ao volver os olhos de repente para o trono de amor em que repousa o Rei Divino, oculto sob as espécies eucarísticas, e para a multidão imensa prostrada a seus pés, adorando, orando e desagravando, e ao ouvir as orações e os cânticos levados ao longe e ao largo pela voz potente dos megafones. Nesses dias inolvidáveis veem-se, em grande número, eclesiásticos, titulares, magistrados, parlamentares, oficiais do exército, professores dos mais importantes estabelecimentos de ensino, escritores e poetas, médicos, advogados, jornalistas, grandes proprietários do Norte, da Extremadura, das duas Beiras e do Alentejo, e senhoras da primeira nobreza de Portugal, numa promiscuidade altamente comovedora, irmanados pela mesma Fé e pelos mesmos sentimentos, lado a lado de homens e mulheres da mais humilde condição social, de pobres e rudes, mas dignos e honrados habitantes das aldeias e dos campos. Ninguém jamais vai a Fátima, sem trazer consigo a recordação imperecível dessas cenas duma beleza e majestade supremas e a saudade inefável daqueles lugares benditos em que a alma se sente liberta dos liames do corpo, mais longe da terra, mais perto de Deus.

As três inovações de Nossa Senhora

Portugal é por ventura o único país do mundo civilizado onde, há cerca dum século, desde a implantação do regime constitucional, eivado de regalismo e liberalismo até à medula, a liberdade de associação religiosa tem sido tão precária e tão cheia de peias que torna praticamente quase impossível a existência de conventos e casas de congregações religiosas. Esta restrição e quase total esmagamento do direito que assiste às almas chamadas por Deus a servi-lo na prática da perfeição especial e completa pela profissão religiosa e pela emissão dos votos de castidade, pobreza e obediência segundo a regra e as constituições dalgum Instituto de votos solenes ou simples, aprovado pela Santa Sé, constitui uma violação tão flagrante e tão revoltante do direito natural e da independência da Igreja e da sua legislação canónica, quanto é certo que, a par de semelhante tirania, se proporcionam as maiores facilidades para o estabelecimento de toda a casta de instituições que têm por objetivo a defesa e a propaganda de doutrinas prejudiciais à Religião e aos bons costumes e se toleram complacentemente as licenças mais desbragadas, os vícios mais abomináveis, a corrupção e a imoralidade mais infames. O mal, que já era grande à data da implantação da República, agravou-se espantosamente durante os primeiros anos do novo regime, em pleno período revolucionário de perseguição à Igreja e de dissolução de costumes, pela promulgação das chamadas leis de família e, dum modo especial, pela autorização do divórcio e pelo incremento verdadeiramente inaudito da prostituição legal e ilegal, sobretudo nos grandes centros de população. A vida dos institutos religiosos, já difícil em face das disposições da legislação civil, mais difícil se tornava ainda por causa da manifesta hostilidade duma parte do povo português, desorientado pelas campanhas caluniosas dos órgãos da imprensa liberal e jacobina contra as Ordens e Congregações religiosas, particularmente durante o período que precedeu e se seguiu imediatamente à queda do antigo regime. Fechadas as casas religiosas, pela revolução de cinco de outubro de mil novecentos e dez, e dispersos os religiosos e as religiosas que se viram obrigados, na sua quase totalidade, a tomar o caminho do exílio e a fixar a sua residência em países estrangeiros, a vida religiosa da população portuguesa sofreu um abalo tremendo, tanto mais que o clero secular, em quase todas as dioceses, senão em todas, era reduzido em número e não estava preparado para satisfazer as exigências cada vez mais crescentes de evangelização cristã e de formação piedosa. Por outro lado, as ruínas morais e religiosas acumuladas pela revolução, o flagelo tremendo da epidemia broncopneumónica, que ceifou muitos milhares de existências na flor da idade, e a grande guerra europeia, que nos arrebatou o escol da mocidade masculina, provocaram, com as bênçãos de Deus, uma vasta floração de almas eleitas que se ofereciam em holocausto para reparação de tantos males, detendo assim os golpes da justiça divina ofendida. Impunha-se mais do que nunca, a necessidade de restaurar, de reparar e regenerar tudo em Nosso Senhor Jesus Cristo, sob a proteção da Augusta Padroeira da Nação. Segundo as declarações da vidente Lúcia de Jesus, profetizara com meses de antecedência uma tríplice aparição da Santíssima Virgem, no dia treze de outubro de mil novecentos e dezassete, a Rainha do Céu manifestou-se nesse dia memorável sucessivamente sob três invocações diferentes, a do Rosário, a das Dores e a do Carmo. Qual a razão desta tríplice aparição? Circunstâncias verdadeiramente providenciais, que seria longo enumerar aqui, levaram uma nobre e piedosa dama de Santarém, a Senhora D. Luísa Maria do

Vadre Santa Marta de Mesquita e Melo (Andaluz)38 a fundar, sob o alto patrocínio de Suas Excelências Reverendíssimas os Senhores Arcebispo de Évora e Bispo de Leiria uma obra de caráter apostólico e reparador, intitulada Obra Apostólica e Reparadora de Nossa Senhora do Rosário, com três ramos distintos, tendo por celestial padroeira a Virgem Santíssima, respetivamente sob as inovações do Carmo, do Rosário e das Dores. O primeiro ramo, cuja sede é em Santarém, tem por fim o apostolado sob várias formas, principalmente pelo ensino e pela imprensa, e possui já dez casas em regular funcionamento, dispersas por quatro dioceses do país. O segundo ramo, com a sua sede em Lisboa, consagra-se à vida contemplativa, mitigada em harmonia com as prescrições mais recentes da Santa Igreja, e propõe-se reparar dia e noite as ofensas que se fazem a Nosso Senhor, adorando e desagravando exposto em perpétuo lausperene, no seu sacramento de amor. A existência deste ramo parece ter íntima relação com umas predições que a vidente Jacinta Marto comunicou, na véspera da sua morte, dizendo terem sido feitas por Nossa Senhora, que nessa ocasião lhe aparecera por duas vezes. O terceiro ramo, que tem a sua sede em Portalegre, dedica-se à preservação das pessoas do sexo feminino que se encontram em perigo moral e à regeneração das que já se extraviaram. O pessoal dos três ramos da Obra, sem incluir o numeroso elemento auxiliar, orça por cem pessoas, umas de coro e as outras de serviço. As casas estão espalhadas por cinco dioceses. O bem que esta benemérita instituição tem feito é incalculável. Nossa Senhora de Fátima parece tê-la sob a sua proteção especial, cumulando-a de graças e bênçãos de toda a ordem. Tem já organizada a casa de formação do seu pessoal, que principiará a funcionar ainda no corrente ano de mil novecentos e trinta, sob o alto patrocínio de Sua Eminência Reverendíssima o Senhor D. Manuel Gonçalves Cerejeira, ilustre e venerando Cardeal Patriarca de Lisboa

As curas extraordinárias

Se o augusto Santuário da Lourdes portuguesa tem sido, há treze anos a esta parte, um manancial fecundo de graças e bênçãos espirituais, também não tem deixado de ser um manancial de saúde para os corpos, uma fonte inesgotável de curas verdadeiramente maravilhosas. Ainda na época das aparições, muitas pessoas doentes recorriam, cheias de confiança, ao poder e à bondade daquela que é a Saúde dos enfermos, e essa confiança não era frustrada. Mas sobretudo depois das aparições e especialmente desde o aparecimento da primeira nascente de água no próprio local das aparições, por ocasião da celebração da primeira missa campal à medida que se propagava o culto de Nossa Senhora de Fátima, as curas extraordinárias atribuídas à sua intercessão multiplicavam-se assombrosamente, tornando Fátima também sob esse ponto de vista, uma segunda Lourdes não menos maravilhosa que a primeira. Essas curas operavam-se, umas vezes durante ou no fim de novenas feitas em honra de Nossa Senhora, outras vezes por efeito da aplicação da terra do local das aparições amassada com água, outras vezes depois do uso interno ou externo de água das fontes da Cova da Iria. Muitos doentes de ambos os sexos e de todas as idades e condições, abandonados e declarados incuráveis, cujos males tinham resistido aos tratamentos mais enérgicos e mais prolongados, recuperaram assim a saúde, ora em poucos dias ou em poucas horas, ora subitamente. Estas curas tiveram uma repercussão enorme em todo o país e o seu eco chegou aos países estrangeiros. Dos diversos pontos de Portugal e doutras nações chovem incessantemente os pedidos de água das fontes de Fátima, reputada miraculosa. Um sem número de doentes, muitos deles em perigo de vida, alguns até em estado comatoso, são transportados no meio do maior desconforto, devido à distância e à dificuldade do acesso, até ao planalto sagrado de Fátima e, depois de passarem pelo posto das verificações médicas, vão ocupar, em longas filas, as bancadas do respetivo pavilhão, onde assistem aos atos religiosos, rezam, choram e cantam e por fim recebem a bênção do Santíssimo Sacramento e com ela, por vezes, a cura instantânea e completa ou o alívio das suas enfermidades e sempre graças abundantes de conforto e resignação cristã para suportarem o peso da sua cruz com glória para Deus e com proveito para as suas almas. Estas curas maravilhosas, operadas mercê da intercessão de Nossa Senhora de Fátima, são permanentes. Qual é o poder que as produz? Um poder meramente natural? A ciência consultada a este respeito respondeu negativamente. As curas de Fátima excedem as forças criadas; portanto são obra de Deus. E como têm a mais íntima relação com a Aparição, porque foi ela que inspirou a confiança dos doentes, e são verdadeiramente sobrenaturais e divinas, também a Aparição é sobrenatural, também a Aparição é divina. Desta sorte, os milagres de Fátima constituem por si só, uma prova evidente, empolgante e irrecusável da sobrenaturalidade das aparições. Em seguida vão enumeradas algumas das curas mais importantes atribuídas à intercessão de Nossa Senhora de Fátima, que constam de documentos que fazem parte do processo canónico e que são reconhecidas como humanamente inexplicáveis por médicos conscienciosos e competentes.
1º caso: Cecília Augusta Gouveia Prestes, de Torres Novas. Tuberculose pulmonar e peritoneal com ascite. Atestado dos drs. Eugénio Ribeiro de Almeida e Augusto de Azevedo Mendes. “Voz da Fátima”, nº 20, de 13 de maio de 1924. 2º caso: José de Oliveira Carvalho, do Porto. Mal de Pot lombar. Atestado do dr. António do Couto Soares Júnior. “Voz da Fátima”, nº 32, de 13 de maio de 1925. 3º caso: José Rodrigues Vala, de Ribeira de Baixo (Porto de Mós). Pleurisia purulenta tuberculosa. Atestado do dr. Adelino Pereira da Silva. “Voz da Fátima”, nº 33 de 13 de junho de 1925, e nº 43, de 13 de abril de 1926. 4º caso: Etelvina da Conceição Barroso, de Santarém. Úlcera gástrica. Atestado do dr. António Baptista Leite de Faria. “Voz da Fátima”, nº 44, de 13 de maio de 1926. 5º caso: Rosa Maria Ribeiro, de Ponte da Barca. Úlcera gástrica. Atestado dos drs. Bernardo Maria Coelho Vieira Ribeiro e Albino Domingues dos Santos. “Voz da Fátima”, nº 49, 13 de outubro de 1926, e nº 59, de 13 de agosto de 1927. 6º caso: Dr. Acácio da Silva Ribeiro, (médico), de Lisboa. Fraturas ósseas. Atestado-relatório do próprio médico curado. “Voz da Fátima”, nº 61, de 13 de outubro de 1927. 7º caso: Maria Emília Fernandes, de Vilar (Cadaval). Ciática esquerda com escoliose homóloga. Atestado do dr. Mário Pereira da Costa. “Voz da Fátima”, nº 73, de 13 de outubro de 1928. 8º caso: Aurora da Silva Tavares, do Porto. Otite média supurada crónica direita. Atestados dos drs. António Teixeira Lopes Júnior e António Caetano Ferreira de Castro. “Voz da Fátima”, nº 75, de 13 de dezembro de 1928. 9º caso: D. Maria Margarida Teixeira Lopes, de Lousada. Abcessos exteriores. Atestado do dr. Joaquim Hermano Teixeira de Carvalho. “Voz da Fátima”, nº 75, de 13 de dezembro de 1928, e nº 76, de 13 de janeiro de 1929. 10º caso: Maria Augusta Dias, de Alter do Chão (Alentejo). Atrofia dos nervos óticos com um dos olhos completamente cego e com o outro mal percebendo a luz, considerada incurável pelos mais célebres especialistas de Lisboa. “Voz da Fátima”, nº 78, de 13 de março de 1929. 11º caso: Amélia da Silva, de S. Martinho da Arada, Ovar. Úlcera gástrica e laringite crónica Atestado do dr. Benjamim Tiago Valente de Brito (Feira). “Voz da Fátima”, nº 79, de 13 de abril de 1929. 12º caso: Maria Pereira Soares, de Guilhufe (Penafiel). Gastrite ulcerosa. Atestado do dr. Guilherme Augusto Pereira Cunha. “Voz da Fátima”, n° 79, de 13 de abril de 1929. 13° caso: D. Maria José dos Santos Nunes, de Lisboa. Lesão grave do sistema nervoso central de natureza bacilar. Atestado do dr. Fernando Wanzeler Pessoa. “Voz da Fátima”, n° 80, de 13 de maio de 1929. 14° caso: Emília Martins Batista, de Aldreu (Barcelos). Atestado do dr. José Gomes de Matos Graça. “Voz da Fátima” n° 80, de 13 de maio de 1929. 15° caso: Arnaldo Duarte da Silva, de Igreja Nova (Mafra). Meningite tuberculosa. Atestado do dr. João Torrado da Silva. “Voz da Fátima”, n° 82, de 13 de julho de 1929. 16° caso: D. Emília de Jesus Marques, de Lousada. Paralisia completa do braço e perna esquerdos. Atestado do dr. Joaquim Hermano Mendes de Carvalho. “Voz da Fátima”, n° 83, de 13 de agosto de 1929. 17° caso: Albina de Matos, de Avanca. Ptose visceral generalizada. Atestação do dr. António de Abreu Freire. “Voz da Fátima”, n° 87 de 13 de dezembro de 1929.

Considerações finais

Em presença de tudo quanto fica exposto até esta altura, resta formular, recapitulando e resumindo, as considerações finais deste relatório, que não podem deixar de ser inteiramente favoráveis à realidade das aparições e à origem sobrenatural e divina das mesmas aparições, assim como dos outros sucessos extraordinários que as acompanharam e que se lhes seguiram. Os videntes, como consta da análise psicofisiológica das suas pessoas e do exame atento e rigoroso dos seus depoimentos, não se enganaram nem pretenderam enganar nas afirmações que fizeram, nas declarações que prestaram. Algumas contradições, mais aparentes que reais, admitem explicações plenamente satisfatórias. O próprio caso da predição, relativa ao fim próximo da grande guerra europeia, pode ter mais que uma solução plausível e que deixe inteiramente tranquilo o espírito mais exigente. O princípio jurídico nemo malus nisi probetur tem aqui cabal aplicação. Nada prova que alguma das crianças faltasse conscientemente à verdade. Nada prova tão pouco que alguma delas fosse vítima de qualquer ilusão ou alucinação. Ninguém pode duvidar da sua sinceridade. Ela impõe-se a todos os espíritos e a todas as consciências bem formadas, graças à sua inocência, a sua candura e a sua simplicidade encantadora. As cenas de que foram testemunhas, descrevem-nas sem afetação e com uma tocante ingenuidade, como se fossem coisas que não lhes dissessem respeito. A crença nas suas afirmações é conquistada pela força de convicção que as caracteriza. O seu desinteresse é manifesto. As ofertas mais generosas deixam-nas absolutamente indiferentes. As ameaças terríveis que lhes são dirigidas, até pela própria autoridade administrativa e as rudes provações a que são sujeitas, embora logrem intimidar o Francisco e a Jacinta, a ponto de os fazer chorar, não os impedem de manter constantemente as suas afirmativas e nem sequer são capazes de arrancar o segredo que a Aparição lhes comunicou e que elas guardam, religiosa e inviolavelmente, com uma fidelidade e uma firmeza a toda a prova, impossíveis de explicar na sua tenra idade sem uma assistência especial do Alto. E como admitir que os videntes se enganaram? Como supôr que não viram nem ouviram aquilo que julgaram ver e ouvir? Como considerá-los vítimas duma alucinação? A sensatez das suas respostas, aliada a uma ingenuidade infantil, revela um espírito normal, uma imaginação serena e calma, um bom senso fora do vulgar. Não havia nas crianças nenhuma afeção mórbida que as dispusesse para produzir criações imaginárias. A sua idade, o seu temperamento, a sua educação e a sua piedade, que em nada se distinguia da piedade das outras crianças suas companheiras, excluem por completo qualquer exaltação do sentimento religioso proveniente dalguma desordem da inteligência e dos sentidos ou dalguma deformação orgânica. Por outro lado, importa não esquecer que as visões dos pastorinhos foram fecundas, ao contrário das visões dos nevropatas, que são de todo ponto estéreis, como efeitos dum espírito exaltado e duma imaginação desordenada. Além disso, a notícia das aparições de Fátima, como a das aparições de Lourdes, propagou-se com a rapidez de relâmpago e já por ocasião da sexta e última aparição, sem ter havido nenhum convite, nenhum anúncio, nenhuma organização prévia, se reuniu na Cova da Iria uma multidão de peregrinos verdadeiramente assombrosa, pela sua quantidade e qualidade, se se atender às circunstâncias do tempo, da distância e do acesso. Dir-se-ia que um poderoso íman espiritual fazia convergir para a cumeada da serra de Aire as almas e os corações dos portugueses. E, encerrado definitivamente o ciclo das aparições, o concurso de peregrinos intensificou-se sobremaneira e há treze anos que essa torrente incessante e caudalosa das multidões que acorrem à Lourdes portuguesa, constitui um dos espetáculos mais belos e mais comoventes que é dado presenciar sobre a terra. As almas tíbias afervoram-se, as indiferentes regressam às práticas religiosas e as pecadoras reconciliam-se com Deus. Todos os corações aflitos e atribulados encontram naquele foco bendito de graças celestes o conforto e a consolação, de que carecem para abraçar com resignação a sua cruz. A atitude, tanto dos pais da Lúcia, como dos pais do Francisco e da Jacinta, correta e absolutamente desinteressada, mais abona ainda a veracidade das crianças. Essa veracidade é proclamada por muitas pessoas que as conheciam e as consideram incapazes de mentir, como pode ver-se em vários documentos que fazem parte do processo canónico. A circunstância das aparições terem tido o seu início em maio e terem acabado em outubro, meses especialmente consagrados pela Santa Igreja em todo o mundo católico ao culto da Santíssima Virgem, e este último mês precisamente sob invocação do Santíssimo Rosário e num sábado, dia em que a Igreja também dedica a Nossa Senhora, e a coincidência da primeira aparição, com a festa portuguesa, prescrita pelo calendário eclesiástico do Patriarcado, em honra de Nossa Senhora dos Mártires, cujo ofício e missa parecem uma glorificação antecipada das maravilhas de Fátima, são bem de molde a causar profunda impressão em quem vê nos acontecimentos, como se deve ver, o plano admirável da Divina Providência a desenrolar-se com suavidade e firmeza, como uma promessa consoladora de graças e bênçãos. O êxtase que se verificou na Lúcia, pelo menos no dia 13 de setembro, durante a penúltima aparição, constitui, como efeito de ordem sobrenatural, um argumento valioso da realidade da aparição. O fenómeno da nuvem de fumo e o fenómeno solar são factos que não se podem explicar naturalmente. Muito menos se pode explicar naturalmente a predição da Lúcia relativa ao fenómeno solar e verificada no dia e à hora que a vidente designou. As declarações prestadas pelos videntes nos inquéritos a que a autoridade eclesiástica procedeu e, dum modo particular, o depoimento da Lúcia, que é, sem contestação, a principal vidente, no inquérito do Porto, aos dezoito anos de idade, quando estava prestes a abraçar como a beata Bernadette Soubirous, a vida religiosa na Congregação de Santa Doroteia, onde já professou, não permitem alimentar dúvidas acerca da sinceridade das crianças. Morte edificante de Francisco Marto e a morte não menos edificante de sua irmã Jacinta Marto, verdadeiramente extraordinária pelas circunstâncias que a revestiram, com a confirmação implícita, feita tanto por um como pela outra, de todas as declarações, que até então tinham produzido, relativas às aparições, são elementos de prova que não se devem desprezar. As falsas aparições, a oposição do clero, as perseguições particulares e oficiais, em que se recorreu a toda a sorte de expedientes para sufocar o grande movimento nascente de renovação moral e religiosa que alastrava por todo o país, dum modo inesperado e assombroso, são, por assim dizer, a contraprova da verdade das aparições e da origem sobrenatural dos acontecimentos. O aparecimento duma fonte de água abundante no próprio local das aparições, numa região onde não há nascentes mas só poços com água das chuvas, é um facto verdadeiramente providencial, se se atender sobretudo à necessidade imperiosa e urgente que havia de água para os peregrinos, para os habitantes das imediações do local, para os animais utilizados na condução dos peregrinos e para as obras grandiosas a realizar na Cova da Iria e no sítio da futura cidade de Fátima. Forçado pela evidência empolgante da verdade, Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, venerando Bispo de Leiria, em mil novecentos e vinte e dois, depois de ter autorizado na Cova da Iria o culto público a Nossa Senhora do Rosário, independentemente da realidade ou não realidade das aparições, nomeou uma comissão canónica para proceder a um longo e minucioso inquérito sobre os acontecimentos de Fátima. O concurso de peregrinos, cujo número é incomparavelmente superior ao dos peregrinos de Lourdes, no decurso de cada ano, apesar das distâncias, das dificuldades do acesso e da falta de consideráveis contingentes de elementos estrangeiros, as conversões numerosas e incessantes operadas não só em Fátima mas em todo o país, principalmente no dia treze de cada mês, graças a esta devoção providencial, o afervoramento da Fé e da piedade do povo português alimentado com a correlativa frequência dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, a difusão estupenda e sumamente inexplicável do culto de Nossa Senhora de Fátima na nossa pátria e nos demais países do mundo, a afluência de esmolas, tantas e tão avultadas, muitas delas, que permitem a construção imediata dum dos maiores templos da cristandade, a fundação duma grande Obra de apostolado, reparação e regeneração que tem espalhado e continua espalhando por toda a parte uma soma incalculável de benefícios de ordem temporal e de ordem espiritual e, finalmente, as grandes manifestações de Fé e piedade, de que é teatro a Cova da Iria ou, para melhor dizer, Portugal inteiro, nos dias treze de maio e treze de outubro de cada ano e que não têm nada que se lhes compare no universo, são outros tantos argumentos de grande valor em prol do ato sobrenatural de Fátima. E como confirmação última, definitiva e irrefragável, de que a Virgem Santíssima apareceu em Fátima para salvação de tantas almas, aí está a atestá-lo a longa série de curas miraculosas, muitas das quais constatadas como tais pelo veredito da Ciência.

Índice das matérias

1. Os videntes e os inquéritos oficiais
2. A liturgia no dia da primeira aparição
3. O êxtase de Lúcia de Jesus
4. As nascentes de água
5. A atitude dos pais de Lúcia de Jesus
6. A atitude dos pais de Francisco e Jacinta Marto
7. A morte de Francisco Marto
8. A morte de Jacinta Marto
9. O concurso de peregrinos
10. Os inquéritos oficiais
11. As contrafações
12. A oposição do clero
13. As perseguições particulares: os atentados
14. As perseguições oficiais
15. O Senhor Bispo de Leiria e a Obra de Fátima
16. Interrogatório Oficial de Lúcia de Jesus
17. A profissão religiosa de Lúcia de Jesus
18. O culto de Nossa Senhora de Fátima em Portugal e colónias
19. O culto de Nossa Senhora de Fátima no estrangeiro
20. As conversões
21. O afervoramento da Fé e da piedade
22. Fátima e Sua Santidade o Papa Pio XI
[Fátima e o Papa]
23. A grande guerra europeia de 1914
24. As obras na Cova da Iria
25. O fenómeno da nuvem de fumo
26. O fenómeno solar
[O fenómeno solar e a predição de Lúcia]
27. Bibliografia de Fátima
28. As manifestações de Fé e piedade
29. As três inovações de Nossa Senhora
30. As curas maravilhosas
[As curas extraordinárias]
31. Considerações finais

A grande guerra europeia

A Aparição queria que se rezasse o terço e se fizesse penitência para que Deus se dignasse pôr termo ao grande flagelo da guerra que assolava tantas nações, produzindo milhões de vítimas e semeando por toda a parte toda a sorte de ruínas morais e materiais. Anunciou que o tremendo flagelo acabaria, ou melhor, teria acabado no dia 13 de outubro, se os homens se arrependessem e emendassem dos seus pecados e aplacassem a justiça divina, orando e fazendo penitência. A Lúcia enganou-se, considerando como absoluta a afirmação da Visão. A condição, implicitamente posta por esta, não se cumpriu e por isso a guerra não acabou. Já no Antigo Testamento, Jonas se tinha enganado, fazendo por ordem de Deus, uma profecia, que ele julgava absoluta e que era apenas condicional. A cidade de Nínive seria destruída no dia marcado pelo profeta, se os seus habitantes não fizessem penitência. “Adhuc quadraginta dies et Ninive subvertetur!” A população da cidade acreditou na ameaça e todos, desde o rei até ao último dos seus súbditos e até aos próprios animais, se vestiram de cilício e de cinza. Por esse motivo Nínive foi poupada com grande admiração e até com um certo despeito de Jonas, que, não conhecendo os desígnios misericordiosos do Senhor, pretendia a todo o transe que a profecia se cumprisse, para que ninguém duvidasse de que ele falara em nome e por ordem de Deus. Coisa muito semelhante sucedeu a S. Leonardo de Porto Maurício, o grande apóstolo da Europa na Idade Media. Na sua pregação, anunciava o fim do mundo para dois anos depois. Chegou a ressuscitar um morto, que era levado para o cemitério, a fim de confirmar a verdade da sua pregação. O morto assegurou que era certo tudo quanto ele dizia. Mas os dois anos passaram, e o mundo não acabou, porque a Europa converteu-se com as pregações de S. Leonardo de Porto Maurício. De resto, a Virgem Santíssima podia ter permitido o engano da Lúcia, de propósito, para a manter num espírito de profunda humildade pela confusão que para ela advinha do facto de ter errado, pelo menos aparentemente, num ponto de capital importância. Nem a circunstância de ter caído num equívoco obsta a que os seus depoimentos mereçam todo o crédito. Esse equívoco tinha a sua razão de ser providencial e de modo nenhum embaraçava, como de facto não embaraçou, o curso regular dos acontecimentos, que fizeram de Fátima a Lourdes Portuguesa. No interrogatório oficial que foi feito a Lúcia, aos dezoito anos da sua idade, quando estava internada no Asilo de Vilar, no Porto, a vidente diz textualmente o seguinte: “parece-me que a Senhora disse ainda deste modo: convertam-se, a guerra acaba hoje, esperem pelos seus militares muito breve. A minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falara assim: convertam-se, que a guerra acaba dentro dum ano. Como estava a pensar nos pedidos que queria fazer a Senhora, não deitei bem sentido”.

Notas dos editores

1 Jacinta tinha já sete anos (nasceu a 11 de março de 1910, data oficial; cf. Doc. 1, nota 5).
2 António dos Santos faleceu, dois anos depois, a 31 de julho de 1919.
3 Segundo declaração do pároco de Fátima, no interrogatório de 21 de agosto de 1917 e no Processo Paroquial, concluído a 28 de abril de 1919, a aparição de foi no dia 19 de agosto, domingo, nos Valinhos.
4 Jaculatória: Ó Meu Jesus perdoai-nos...
6 Tratar-se-á do Professor António Lalanda dos Santos. Há uma carta deste para Maria Piedade Ordaz, datada de fins de outubro de 1917, descrevendo o que viu no dia 13 de outubro.
8 Maria Júlia Pereira, nascida a 26 de fevereiro de 1918. Filha de Teresa de Jesus, irmã de Lúcia, e de José Pereira. Foi para o Asilo de Vilar em março de 1929, mas faleceu a 7 de novembro de 1931.
9 Nasceu na freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas, em 1880. Frequentou o Seminário de Santarém e faleceu a 26 de junho de 1922, em Moreiras Grandes.
10 A depoente utilizou a palavra “beiços”.
11 A Capelinha das aparições foi construída entre 28 de abril e 15 de junho de 1919.
13 Segundo o assento de óbito, Francisco faleceu no dia 4 de abril, às 22 horas. Tinha 10 anos.
14 Em 1930 tinham já falecido três irmãs de Jacinta: Teresa (nascida a 27 de fevereiro de 1901 e falecida a 11 de outubro de 1902); Florinda (nascida a 3 de agosto de 1902 e falecida a 7 de maio de 1920) e uma segunda Teresa (nascida a 5 de outubro de 1904 e falecida a 3 de julho de 1921).
15 Advogado. Nasceu em Lisboa a 8 de outubro de 1855. Foi diretor da Associação Central da Agricultura e do jornal “A Época”. Colaborador em vários jornais: “O Portugal”, “A Nação”, “A Ordem”, “Novidades”, “A Voz”. Foi autor de vários livros em matéria jurídica. Fez parte da direção legitimista e da Lugar-Tenência de D. Miguel II. Foi eleito senador e vice-presidente do senado durante o governo de Sidónio Pais. Faleceu a 14 de julho de 1944. Assinava os seus artigos com o pseudónimo: A. de F.
16 O próprio Dr. Formigão.
17 A 13 de outubro de 1921, é permitida, pela primeira vez, a celebração de missa, junto da Capelinha das Aparições.
18 D. António Mendes Belo nasceu em Gouveia a 18 de junho de 1842. Em 27 de novembro de 1883, foi nomeado Vigário Geral do Patriarcado de Lisboa e foi sagrado Arcebispo de Mitilene no dia 27 de abril de 1884. No dia 20 de novembro de 1907, foi nomeado Patriarca de Lisboa. A 28 de dezembro de 1911, o governo republicano expulsou-o do distrito de Lisboa, tendo ido viver para Santarém, sendo expulso, segunda vez, em agosto de 1917. Em dezembro, o governo de Sidónio Pais revogou o decreto de expulsão. Governou o patriarcado até à sua morte, a 5 de agosto de 1929.
19 Lúcia, depois de ter estado no Asilo do Vilar, no Porto, desde 1921, entrou para o Instituto de Santa Doroteia, a 24 de outubro de 1925.
20 O relator equivoca-se ao datar o panfleto depois do atentado de 6 de março de 1922. O panfleto refere-se ao dia 13 de outubro de 1917 (cf. Doc. 27).
21 O relator quereria referir-se ao 1º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Braga, de 2 a 6 de julho de 1924.
22 Três meses (maio, junho e julho).
26 Trata-se do interrogatório a Lúcia, no dia 8 de julho de 1924 (cf. Doc. 82).
28 Pe. Cândido Mendes.
29 A Alsácia-Lorena foi cedida pela França à Alemanha pelo Tratado de Frankfurt de 1871. Foi reencorporada na França pelo Tratado de Versailles de 1919, situação que a Alemanha veio a reconhecer, mais tarde, pelo Tratado de Locarno de 1925.
30 Lúcia tinha apenas 17 anos. Nasceu a 22 (28) de março de 1907.
31 Mais tarde, Albergue de Nossa Senhora das Dores.
32 O título de Basílica Menor, foi concedido a 12 de novembro de 1954, pelo Papa Pio XII.
33 As fotografias não são do fenómeno solar de 13 de outubro de 1917. Foram tiradas a 13 de maio de 1921, por Alfredo J. de Mendonça.
34 Nasceu a 9 de abril de 1864. Astrónomo Oficial de Engenharia. Em 1891 foi nomeado para astrónomo do Observatório da Tapada da Ajuda. Em 1919 foi nomeado diretor do Observatório. Faleceu a 30 de abril de 1930.
35 A data está errada. O dr. Luís Fischer esteve em Fátima no dia 13 de maio de 1929.
36 Polígrafo português. Nasceu em Vila Viçosa, a 10 de julho de 1881. Entrou para o Colégio Português em Roma, em 1900, formando-se, depois, em Filosofia na Universidade Gregoriana de Roma. Participou em várias revistas (“Ilustração Católica”, “Lumen” e “Renascença”) e jornais (“Portugal”, “Liberdade”, “Diário do Minho”, “Novidades”). A sua obra mais notável é o Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa. Faleceu, em Lisboa, a 15 de julho de 1946.
37 Trata-se de 1922 e não 1923 (19 de maio de 1922 - DCF, IV-1, Doc. 44).
38 Luísa Maria Langstroth Figueira de Sousa Vadre Santa Marta de Mesquita e Melo.
Aparato crítico e remissões (10)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

5 Cf. nota 1.
7 Cf. nota 3.
12 Cf. nota 2.
23 Cf. nota 1.
24 Cf. nota 3.
25 Cf. nota 3.
27 Cf. nota 26.
39 DCF, II - p.277-372.
40 Cf. nota 30
41 Cf. nota 31.
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